Exxon em Angola: a moral relativa da geopolítica do petróleo

Por:  André Araújo

Fonte: Jornal GGN

A Exxon celebrou um grande acordo com a Sonangol, a estatal angolana do petróleo, para exploração das reservas em águas profundas do litoral angolano. Enquanto a Petrobras está sendo processada pelo Departamento de Justiça dos EUA por casos de corrupção no Brasil, o mesmo Departamento não vê nada demais na empresa americana, símbolo da era do petróleo, se associar com uma estatal que em termos de corrupção conhecida tem poucos competidores no mundo.

Onde está o “compliance” da Exxon? Com a Sonangol não tem problema em assinar contratos? O Departamento de Justiça não vê nada demais? Acho que não, a Sonangol nunca foi investigada ou processada nos EUA. A lógica das leis americanas é bem flexível, o interesse dos EUA em primeiro lugar. Que coisa!

A Presidente do Conselho da Sonangol, Isabel dos Santos, filha do Presidente de Angola José Eduardo dos Santos, há 37 anos no poder, está numa revista americana, a Forbes, como a mulher mais rica da África. De onde vem sua fortuna?

A imprensa econômica da Europa relata um desaparecimento de 32 a 50 bilhões de dólares dos cofres da Sonangol.

(http://www.portugaldigital.com.br/economia/ver/20103540-presidente-da-so…).

 O caso não tem paralelo no planeta em termos de valor. Enquanto Angola se torna uma das potencias médias do petróleo mundial, toda sua produção é girada por petrolíferas americanas, a Petrobras tentou entrar em Angola e foi rechaçada.

Enquanto isso as condições de vida da população são péssimas, falta saneamento básico em Luanda, no interior nem se fala, falta tudo, enquanto Ministros do MPLA são bilionários, um deles, bem conhecido, tem apartamento na Av. Vieira Souto, no Rio.

Uma companhia com esse currículo é bem vinda ao se associar a Exxon, enquanto em Washington uma pesada artilharia legal criminaliza a Petrobras. É verdade que com apoio que vem do Brasil, numa acusação ilógica, a Petrobras é vitima e não autora e os atos ocorreram fora da jurisdição da lei americana. Se aos americanos a corrupção faz arrepiar e eles se propõem a ter jurisdição mundial para combatê-la, como se explica que fechem os olhos para o que acontece em Angola?

Atrevo-me a uma explicação: todo petróleo de Angola exportado, quase 2 milhões de barris/dia, mais que a Venezuela, vai para os EUA, um fornecedor importante e confiável. Então vamos deixar o moralismo para os brasileiros, antigo e tradicional aliado dos EUA, vamos processar e impor pesadas multas a nossos amigos, puni-los com apoio de brasileiros puros, prejudicando esse Pais que lutou a nosso lado na Segunda Guerra e que fornece mais que qualquer outro tropas para nossas missões de paz pelo mundo.

Pode-se alegar que a Exxon Mobil é uma empresa privada que faz os contratos que quiser. Negativo. Todas as atividades de empresas petrolíferas dos EUA pelo mundo são monitoradas pelo Departamento de Energia e nenhuma empresa assina contratos no exterior sem o visto do DE e do Departamento de Estado.

http://corporate.exxonmobil.com/en/company/worldwide-operations/locations/angola

Enquanto isso os EUA viram parceiros de cama, mesa e banho de um regime outrora marxista-terrorista e guerrilheiro contra o qual lutaram através da UNITA financiada pela CIA. Outrora visceralmente anti-americano, apoiado pela URSS e aparelhado por 25.000 soldados cubanos, o Movimento Popular de Libertação de Angola,  continua sendo o partido oficial que governa Angola. Hoje é íntimo parceiro e sócio dos EUA, que ironia da História. Dos tempos da aliança com a URSS ficou para Jose Eduardo dos Santos uma bonita lembrança, Isabel dos Santos, sua filha e de sua primeira esposa russa, atual Presidente do Conselho da SONANGOL.

A Guerra Fria produziu bons frutos hoje cotados em dólar.

 

A Rússia sente-se confortável

Por: César A. Ferreira

Neste exato momento caças-bombardeiros Su-34, recentemente desdobrados para o território sírio, reiniciam a campanha de bombardeio em Aleppo contra as posições da Frente Al-Nusra, vaporizando desta forma as unidades deste grupo terrorista, que se viu reforçado pela trégua proposta por Washington.

A Rússia retorna com força plena à Síria a despeito do que se diga no Pentágono, ou no Departamento de Estado. Independe das vontades alheias, e isto devido a um fato muito simples: fracassaram as tentativas de isolamento diplomático e econômico da gigantesca nação. Sobraram, apenas, a constantes e conhecidas provocações da OTAN, que quando respondidas, sejam por sobrevoos, ou escoltas, revelam o ridículo das argumentas desabridas dos prepostos da Aliança Atlântica… Mas, isto, convenhamos, pouco importa (para eles).

A Rússia possui seis fusos horários, é a nação com as mais extensas fronteiras políticas do globo, possui um território riquíssimo em termos de minérios ainda por ser explorado, reservas petrolíferas e de gás que estão por ser avaliadas, enfim… Não necessita e não ambiciona o controle de reservas de terceiros, diferentemente dos EUA e dos seus associados da OTAN, que dormem, sonham, com outra coisa que não seja o domínio completo das nações produtoras, bem como das rotas da commoditie energética de uso global.

O xadrez africano, onde se destaca como jogador de peso a chancelaria chinesa, e do qual o nosso novo, augusto e magnânimo chanceler fez questão de nos retirar, não possui a Rússia como potência interessada, visto que dos recursos futuros do continente africano pouco ou nada necessita, deixando assim este continente, com vastíssimas áreas ainda por serem exploradas, entregues a sanha dos EUA e das antigas potências coloniais, que rivalizam com o dragão chinês a primazia pela conquista dos corações e mentes africanas.

Por isso, tendo uma nação focada, uníssona na perspectiva de que é um povo capaz de escolher, manter o equilíbrio e desafiar quem lhe tente pressionar, a Rússia sente-se confortável para intervir no seu entorno próximo, congelar, ou acelerar conflitos na qual por ventura esteja envolvida, pois a sua proteção, ou seja, a proteção das suas fronteiras, estão bem resolvidas pelas armas entregues pelo complexo industrial militar, que herdado da URSS foi modernizado em todos os quadrantes possíveis, bem como pela elevação do padrão de prontidão das forças nacionais, objetivo perseguido e alcançado enquanto a OTAN se desgastava no Afeganistão…  Em outras palavras, a Rússia fez o que se deve: aproveitou-se de todas as oportunidades para crescer e fortalecer as suas forças armadas, tidas como esteio da soberania nacional, além de braço de crescimento tecnológico e industrial…

A Rússia, agora, sente-se confortável, apesar da inquietude vez por outra imposta pelas provocações infantis da OTAN… Uma lição que não será aproveitada por um sonolento gigante do sul, agora também grande produtor de petróleo, pois se encontra enredado pela miragem da grama mais verde do vizinho do norte.

Pena. A Rússia é uma lição breve de como construir uma verdadeira soberania.

Ucrânia depois da Euromaidan

Por: César A. Ferreira

Não é uma opinião, tampouco uma perspectiva marcada por posição ideológica que seja, mas uma mera constatação: todas as nações detentoras de grandes reservas energéticas e de minerais estratégicos, ou que exibam posição geográfica essencial para o tráfego destas riquezas extraídas, sofreram em graus variados intervenções estrangeiras, que foram da desestabilização política à guerra civil, isto quando os eventos não envolveram pura e simplesmente a invasão direta por forças armadas das potências agressoras, estas, invariavelmente, oriundas da Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN.

Em 21 de novembro de 2013, embalados pela sensação sufocante de que todos os problemas existentes na Ucrânia proviam da corrupção que grassava no país, iniciou-se o processo que se conhece como revolução da Praça Maidan, ou Euromaidan. O estopim fora a recusa do então presidente, Yanukovich, de pactuar com a União Europeia, preferindo a oferta superior, muito mais substancial, de realizar uma união aduaneira com a Rússia, cuja proposta, além das vantagens de aduana, perfazia a compra de títulos da dívida ucraniana no valor de quinze bilhões de dólares americanos, além do fornecimento em taxas preferências de gás russo ao mercado ucraniano. Dado o fato de que a proposta da União Europeia era muito mais tímida, pois se tratava de um empréstimo de apenas setecentos milhões de euros, aliado a um status de parceiro comercial preferencial, mas sem adesão formal à união aduaneira, é de se espantar a existência da rejeição popular à proposta russa, absurdamente superior a sua contraparte europeia, venha a ser apontada como o estopim para a revolta generalizada.

Fato é que a Ucrânia exibia uma posição geoestratégica clara, pois é através do seu território que se encontram a maioria absoluta dos gasodutos, pelos quais trafega o gás provindo da Rússia destinado à Europa. Ademais a Crimeia, então parte integrante da república ucraniana era o território sede da importantíssima base naval de Sebastopol, sede da Frota do Mar Negro da Federação Russa. Não surpreende, portanto, a descoberta do financiamento clandestino efetuado pela legação diplomática dos Estados Unidos da América aos grupos opositores que cavalgaram politicamente a insatisfação pública dos manifestantes ucranianos, caso dos partidos de extrema direita e neonazistas, ambos desprovidos de densidade política, visto que invariavelmente permaneciam no patamar de 6% do eleitorado, inferiores ao Partido Comunista, que alcançava o dobro, cerca de 12%…

Todavia a mídia ucraniana, toda ela em posse de oligarcas locais, postou-se como crítica, uníssona, ao governo, favorável a pantomima dos estudantes, estes inflados pela ONG Students Of Liberty –  ONG cuja ligação com a CIA é para lá de notória, aponto de ser, antes, folclórica. De fato, no campo ucraniano ver-se-ia o aporte por parte dos EUA, por meio da CIA e do Departamento de Estado, do valor reportado de cinco bilhões de dólares para os eventos que culminaram com a Euromaidan.

O resultado é bem conhecido, após a ocorrência de disparos feitos por atiradores escalados pelas agências de inteligência do ocidente, que vitimaram tanto os policiais da Força Berkut (baixas encobertas pela mídia, não noticiadas), como os manifestantes (mortos e feridos amplamente cobertos pela mídia), mas cuja autoria de chofre foi jogada às costas do governo ucraniano; Yanukovich empreendeu uma fuga quixotesca em direção à Federação Russa objetivando a busca de refúgio, sendo sucedido por uma junta, cuja legalidade sempre foi questionada, até mesmo quando da eleição do atual dignitário, Poroshenko. A Ucrânia perdeu a rica península da Criméia, que optou por se juntar à Federação Russa e viu-se enredada em um conflito custoso no Donbass, que lhe impôs reveses militares múltiplos, de caráter verdadeiramente desmoralizante, caso dos cercos de Illovaysk e Gorlovka, ou da batalha pela posse do aeroporto de Donetsk. Mas, isto não representa tudo, ou todos os males.

Homens de verde
A Federação Russa agiu rápido e impôs a ordem na estratégica e rica península da Crimeia, com o uso do efetivo militar da Base de Sebastopol. Imagem: internet.

A Ucrânia, ao empreender o afastamento da Rússia, com a qual mantinha laços de cunho acadêmico, industrial e comercial de monta, em virtude de uma retórica vitimizante, de cunho nacionalista e hostil ao vizinho, de evidente carga ideológica, acabou por colher perdas econômicas desastrosas, como o encolhimento de 80% da produção da sua base industrial de Defesa, cujo símbolo é a empresa aeronáutica Antonov, imersa em dificuldades, incapaz de encontrar clientes para o belo mais dispendioso projeto An-70, cujo cliente de lançamento seria justamente a Força Aeroespacial da Federação Russa. A área de Petróleo e Gás também apresentou retração, agravado pelo aumento do dispêndio relacionado à compra desta commodity energética, agora adquirida da EU com preços majorados em 30%, quando comparados àqueles praticados pela Federação Russa, estes custos, por sua vez se agravam quando se percebe que a moeda ucraniana desvalorizou-se demasiado, cerca de 350% em comparação ao dólar norte-americano. Ademais, o rompimento com os laços financeiros havidos com a Federação Russa privou a Ucrânia de recursos da ordem de nove bilhões de dólares, anuais, na forma de remessas dos ucranianos viventes na Rússia, então o maior investimento direto obtido pela república.

A ladeira abaixo experimentada pela Ucrânia não se restringe ao setor industrial, afeta de maneira equivalente o setor agropastoril, cuja atividade também sofreu retração. Das empresas deste setor, acredita-se que quatro a cada cinco estejam falidas, ou em estágio falimentar. Apenas 72 empresas agropastoris estão credenciadas a exportar para a Europa Unida, sendo que destas 36 já excederam a sua cota anual. O FMI estima que o país, para honrar os termos acertados com o Fundo, ver-se-á obrigado a comprometer 50% da sua arrecadação até o longínquo ano de 2041, contanto que consiga exibir uma taxa de crescimento anual de… 4% ao ano!  Mágica, diga-se, um tanto inacreditável, principalmente quando se considera o fato de que a população ucraniana sofreu um rebaixamento, nesta aventura de orgia ideológica, de 50% no seu padrão de vida, queda imposta pela retração do produto interno bruto, que caiu 6,8% em 2014 e 7,5% em 2015.

Entende-se o motivo de Poroshenko ter hoje uma popularidade muito abaixo daquela que Yanukovich detinha, exibindo notáveis 77 % de rejeição, todavia, observa-se, não há contra Poroshenko nenhuma Maidan… “Revolução” que quando estava no seu auge, exibiu o apoio declarado de apenas 45% da população, notadamente daqueles do oeste, enquanto o Donbass, Criméia e a região de Odessa, opunham-se ao movimento desestabilizador.

Portanto, que se tenha em mente: qualquer semelhança, com eventos análogos que estejam a ocorrer, ou que venham a ocorrer, em qualquer parte do mundo onde hajam reservas a serem exploradas de Petróleo e Gás, não será, jamais, uma mera coincidência…

Sobrinho de JFK sobre a Síria: O ISIS é um produto da intervenção dos EUA por petróleo

Por: Claire Bernish

Fonte: The Free Thought Project

Tradução: J. Junker

Robert F. Kennedy Jr. escreveu um astuto artigo a respeito da verdade por trás da presença dos EUA no Oriente Médio – a sua subserviência ao bem mais precioso da indústria de combustíveis fósseis: o petróleo.

“À medida que nos concentramos no crescimento do ISIS e da busca pela origem da selvageria que levou tantas vidas em Paris e San Bernardino, podemos querer olhar para além das explicações convenientes de religião e ideologia e focar nas lógicas mais complexas da história e petróleo, que em sua maioria apontam o dedo da culpa do terrorismo de volta para os campeões do militarismo, o imperialismo e o petróleo aqui em nossas próprias costas”, Kennedy escreveu em um editorial para o EcoWatch.

O olhar crítico de Kennedy sobre a história dos Estados Unidos de intromissão, intervencionismo, e da hegemonia – quase exclusivamente para manter o fluxo de petróleo – torna evidente o seu papel na desestabilização de todo o Oriente Médio, especialmente na Síria. Na verdade, mais de cinquenta anos de intercessão violenta – em última análise, no interesse da indústria de combustíveis fósseis – tem alimentado enormes ressentimentos. Essencialmente, o corporativismo geoestratégico americano – sob o disfarce da manutenção da paz armada – criou o violento jihadismo islâmico contra quem os EUA agora lutam suas batalhas.

A partir da administração Eisenhower, a soberania árabe e a neutralidade das nações do Oriente Médio na Guerra Fria foram percebidas como ameaças para o acesso americano ao petróleo.

Em primeiro lugar na ordem do dia para a Presidência de Eisenhower estava o primeiro líder eleito do Irã em 4000 anos de história, o presidente Mohammed Mosaddegh. O desejo de Mosaddegh de renegociar contratos de petróleo desfavoráveis ​​ao Irã com a British Petroleum levou a um golpe fracassado da inteligência britânica – a quem ele prontamente expulsou do país. Apesar de parecer favorável aos EUA, a quem Mosaddegh via como um modelo de democracia que ele procurou empregar no Irã – Eisenhower, com a ajuda do notório diretor de inteligência Allan Dulles, derrubou o líder. A “Operação Ajax” depôs Mosaddegh e o substituiu pelo Shah Reza Pahlavi – um líder cujo reinado sangrento culminou na revolução islâmica de 1979, “que tem atormentado a nossa política externa por 35 anos”, escreveu Kennedy.

Talvez uma das maiores ameaças maiores sobre a Síria fosse a relutância dela para aprovar a Trans Arabian Pipeline – destinada a atravessar a Síria a fim de conectar o petróleo saudita com os portos do Líbano. Quando o democraticamente eleito e secular presidente sírio negou o plano, a CIA armou um golpe em uma tentativa de substituí-lo.

“O plano da CIA foi de desestabilizar o governo sírio, e criar um pretexto para uma invasão pelo Iraque e pela Jordânia, cujos governos já estavam sob controle da CIA”, explicou Kennedy. Não funcionou. Uma falha surpreendente, motins e violência anti-americana irromperam por toda a região. A Síria barrou vários adidos americanos, e, em seguida, expôs e executou todos os funcionários que abrigavam algum sentimento pró-americano. Na verdade, os EUA quase provocaram uma guerra com a Síria pelo incidente.

As repercussões da tentativa de golpe – bem como parcelas de maior êxito dos regimes fantoches em outros lugares – continuam a desempenhar um papel na política externa e relações geopolíticas no presente. A mais “bem sucedida” remoção de um líder e sua subsequente substituição envolveu um nome que todos nos EUA estão familiarizados: Saddam Hussein.

Depois de várias tentativas para depor o líder do Iraque falharam, a CIA, em última instância instalou Hussein e o Partido Baath no poder. Como Kennedy observou, o ministro do Interior Said Aburish disse sobre a trama: “Nós chegamos ao poder em um trem chamado CIA”. James Critchfield, o chefe do posto da CIA responsável tanto pelo golpe bem sucedido quanto pelo fracassado, mais tarde disse que a CIA tinha “essencialmente criado Saddam Hussein” – também lhe fornecendo armas, inteligência, além de armas químicas e biológicas.

“Ao mesmo tempo, a CIA estava a fornecer ilegalmente ao inimigo de Saddam – o Irã – milhares de mísseis anti-tanque e anti-aéreos para combater o Iraque, um crime que ficou famoso durante o escândalo Irã-Contras … A maioria dos americanos não estão cientes das muitas maneiras que essa reação de erros anteriores da CIA ajudou a criar a crise atual”.

Enquanto os americanos amplamente acreditam na grande imprensa e na narrativa governamental que o papel atual dos EUA na Síria eleva-se a objetivos humanitários, começando com a Primavera Árabe em 2011, “Em vez disso, começou em 2000, quando o Qatar propôs construir um gasoduto de 1,5 mil quilômetros e US$10bi através de Arábia Saudita, Jordânia, Síria e Turquia”, Kennedy explicou.

“O gasoduto proposto teria ligado o Qatar diretamente para mercados europeus de energia através de terminais de distribuição na Turquia que embolsariam grandes taxas de trânsito. O gasoduto Qatar-Turquia teria dado os reinos sunitas uma dominação decisiva do Golfo Pérsico em mercados de gás natural pelo mundo e fortalecido o Qatar, aliado mais próximo dos Estados Unidos no mundo árabe”.

A UE recebe atualmente 30 por cento de seu gás da Rússia, Kennedy observou, e “A Turquia, segundo maior cliente de gás da Rússia, estava particularmente ansiosa para acabar com sua dependência de sua antiga rival, além de posicionarem-se como um centro de transporte lucrativo dos combustíveis asiáticos para os mercados da UE. O gasoduto do Qatar teria beneficiado a monarquia conservadora sunita da Arábia Saudita, dando-lhes uma posição de dominação sobre os xiitas”.

Os cabos diplomáticos revelados pelo Wikileaks mostram que desde 2006 o Departamento de Estado dos EUA, a pedido do governo israelense, vinha propondo uma parceria entre Turquia, Qatar e Egito para fomentar uma guerra civil sunita na Síria, para enfraquecer o Irã. O propósito declarado, de acordo com o telegrama secreto, foi para incitar (o presidente sírio, Bashar al- Assad) uma brutal repressão da população sunita da Síria.

“Como previsto, a reação exagerada de Assad à crise fabricada no estrangeiro – lançando bombas de barril em redutos sunitas e matando civis – polarizou uma divisão xiita-sunita da Síria e permitiu aos responsáveis ​​políticos vender aos americanos a ideia de que  a luta pelo gasoduto era uma guerra humanitária”.

O contexto histórico e longo de Kennedy para o imbróglio atual merece uma leitura minuciosa. Sua mensagem inequívoca deve servir como um lembrete importante que o governo dos Estados Unidos e seu porta-voz da grande imprensa  –  tão convincente quanto eles podem parecer  –  nunca estão contando toda a história.

Fim da era do Petróleo? Queda dos preços do óleo cru agita a ordem mundial

Fonte: Sputinik News

Tradução: Blog DG.

A queda dos preços do petróleo pode desafiar o status quo geopolítico estabelecido e até mesmo resultar em guerras e turbulência, alertam os especialistas. Será que o mundo centrado no petróleo, desde a metade do século passado, possa vir a ser restaurado, novamente, em breve?

A atual queda nos preços do petróleo afetou empresas petrolíferas gigantes e as empresas auxiliares; ele também ameaça minar economias dos principais países produtores de energia, resultando em um profundo “shake up” na ordem política, de acordo com Michael T. Klare, professor de estudos de paz e segurança mundial no Hampshire College (Massachusetts, Estados Unidos).

O acadêmico norte-americano sente que a depressão contínua dos preços do petróleo pode se estender para a década de 2020 e além.

“De modo geral, os preços do petróleo sobem quando a economia mundial é robusta, a procura mundial está a aumentar, os fornecedores estão bombeando em seus níveis máximos, pouco armazenados, ou com os excessos de capacidade à mão. Eles tendem a cair quando, como agora, a economia global está estagnada, ou em queda, a demanda de energia é morna, os principais fornecedores não conseguem conter a produção em consonância com a queda da demanda, o óleo excedente se acumula e os fornecimentos futuros apareçam assegurados”, o acadêmico americano explica em seu artigo para TomDispatch.com.

Klare refere-se à desaceleração econômica temporária na China, ao aumento da produção de petróleo na América do Norte (até 9,2 milhões de barris por dia), e mais notavelmente a “firme resistência” da Arábia Saudita para diminuir a sua própria produção ou a da Organização dod Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

O que se encontra debaixo do pano da recusa saudita em reduzir a sua produção de petróleo? Riyadh estaria, possivelmente, determinada em punir a Rússia e o Irã,  devido ao apoio destes ao governo da Síria, isto segundo as notas acadêmicas norte-americanas. Por outro lado, a Arábia Saudita estaria, aparentemente, fazendo tentativas de conduzir os produtores americanos de xisto fora do mercado de petróleo.

Para adicionar mais combustível ao fogo, Iraque e Irã continuam, também, a aumentar a sua produção. Como Daesh (Estado Islâmico/EI/ISIS/ISIL) está a perder terreno na Síria e no Iraque, espera-se que a produção de petróleo de Bagdá continue a crescer, observa Klare.

o-cavalo-de-ferro-
Cavalo de Ferro, Cavalo de Extração ou Cavalo de Petróleo. Foto: internet.

Quanto ao Irã, o seu acordo nuclear com Washington abriu as portas para Teerã entrar novamente no mercado de petróleo. De acordo com a US Energy Information Administration em previsão lançada no mês de agosto de 2015: “O Irã tem a capacidade técnica para aumentar a produção de petróleo bruto em cerca de 600.000 b / d (barris-dia) até o final de 2016”.

“Apenas três desenvolvimentos poderiam concebivelmente alterar o atual ambiente de preços baixos do petróleo: guerra do Oriente Médio que retire um, ou mais, dentre os principais produtores de energia; uma decisão saudita para restringir a sua produção, a fim de impulsionar os preços, ou um inesperado surto mundial por demanda”, acredita Klaire.

O colunista norte-americano James Stafford da Oilprice.com ecoa a suposição de Klare: de acordo com Stafford, um confronto militar direto entre a Arábia Saudita e o seu rival regional de longa data, o Irã, poderia colocar o valor do óleo cru novamente no patamar de “de três dígitos” e chegar até US $ 250 por barril.

“A guerra entre os dois países poderia ocasionar rupturas de abastecimento, com impactos previsíveis sobre os preços”, observa ele, citando Dr. Hossein Askari, professor da George Washington University.

No entanto, Klare e Stafford concordam que, embora não seja impossível neste momento, a guerra entre Arábia Saudita e Irã é uma questão meramente “especulativa”. Klare acrescenta, que tanto uma decisão da Arábia Saudita em não reduzir a sua produção, como um aumento repentino na demanda, parece improvável.

Na verdade, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), as taxas de crescimento das economias emergentes e em desenvolvimento, que representam quase 60 por cento do PIB mundial e 85 por cento da população mundial, são neste momento, negativas.

“Não só os preços do petróleo e dos metais caíram cerca de dois terços do seu pico mais recente, mas fatores de oferta e do lado da procura sugerem que eles estão propensos a permanecer baixo por um longo período”, disse a diretora do FMI, Christine Lagarde no simpósio em Paris em 12 de janeiro de 2016.

O resultado mais provável da desta queda, todavia, é uma onda de inquietação em nações produtoras de petróleo, sugere Klare. O professor americano assume que Nigéria, Venezuela, Argélia e Angola venham a enfrentar perspectivas de turbulência política.

Embora a Arábia Saudita, um dos maiores produtores do mundo, tenha sobrevivido ao choque inicial, devido às suas enormes reservas cambiais, é significativo o fato de Riyadh ter anunciado cortes nos seus gastos públicos, incitando com isso o descontentamento crescente da população deste reino do Golfo.

Em contraste, o establishment russo enfrenta melhor a situação, com o Kremlin a desfrutar amplo apoio popular. Apesar da queda dos preços do petróleo, a liderança da Rússia “de fato move-se ambiciosamente no plano internacional”, observa Klare.

“Aconteça o que acontecer ao petróleo e aos países produtores, a ordem política global que uma vez repousou no preço crescente do petróleo está condenada”, sugere o acadêmico norte-americano.

Nota do Editor do Blog DG: realmente as perspectivas do preço do barril de petróleo não são nada boas, dado que a China, grande consumidora, possui um plano estratégico de investimento em energias renováveis que pretende incluir cerca de 560 gigavatts (GW) em um futuro próximo. Daí, que um crescimento de 6,5% ao ano da economia chinesa, não deverá resultar em um aumento correspondente de demanda por óleo cru. Neste contexto é interessante notar a atitude inexplicável, suicida, da Arábia Saudita, que mantém uma política de superprodução, ao mesmo tempo em que se envolve em um atoleiro no Iêmen, perde-se no seu sonho de grandeza na Síria e no Iraque na medida em que o EI e os seus satélites wahhabitas são escorraçados, enquanto o temido rival regional,  Irã, tem por agora aberta as portas dos mercados ocidentais, com o fim das sanções antes impostas por estes.

Negócios de família

Por: César A. Ferreira

A guerra e tudo que a envolve possui um caráter triste, desonroso, cruel e canalha. Não é raro, mas antes comum, a existência de oportunistas que procuram ganhos pessoais com eventos que custam a morte e sofrimento para os seus semelhantes. A guerra civil Síria, ora em curso não exceção e neste exato momento fortunas são construídas na Turquia a expensas dos sofrimentos sírios, na forma de um intenso contrabando de petróleo, mas que também envolve algodão, armas, fosfato e mesmo escravas. Este último item, que mais parece algo perdido no tempo, comércio decadente marcado pela história, foi revivido dado, ao costume do Estado Islâmico em presentear os combatentes que se destacam, com esposas. Não existe pudor quando o objetivo é o lucro.

Dentre as famílias que se destacam com este comércio, uma delas ganha importância inaudita, devido o peso político, trata-se do sobrenome Erdogan, e o membro destacado é Bilal Erdogan, terceiro filho do Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Tendo recebido uma educação esmerada, da qual se inclui a obtenção de grau de mestrado na prestigiosa Harvard University John F. Kennedy School of Government, no ano de 2004, Bilal Erdogan tornou-se um empresário de meteórico sucesso, onde a sua participação societária na empresa de fretamento marítimo, “BMZ Grupo Denizcilik ve Sanayi Insaat Anonim Şirketi”, se destaca. As acusações de obtenção de empréstimos fraudulentos em bancos públicos se avolumam, mas caem rapidamente no esquecimento, visto que a Turqia é  uma nação anestesiada com o seu sucesso recente e nem mesmo a participação de familiares negócios parece perturbar a paz social.

Uma das acusações que versa sobre Bilal Erdogan é a de viabilizar o comércio do petróleo contrabandeado pelo Estado Islâmico através da fronteira turca, embarcando-o nos tankers adquiridos pela BMZ, encomendados junto ao İstanbul’s Türkter Shipyard, navios com cerca de 140 metros de extensão e calado de 5 metros, com pouco mais de 6.000 toneladas brutas, atendendo ao limites “Volga-Don, Max”, ou seja, preparados para tráfego no canal Volga/báltico.  O porto de embarque para estes navios é o de Çeihan, ou Ceyhan, porto estatal, o que inclui o terminal para embarque de óleo.  Quando confrontado com as atividades do filho, a resposta emitida pelo presidente turco é a que as atividades empreendidas pelo filho são legais, não havendo comprovação alguma de fonte ilícita das mesmas. De fato, existe um componente que mascara o atribuído comércio de 40.000 barris brutos diários do Estado Islâmico, que o envio de petróleo curdo advindo do Iraque. Acontece que o governo iraquiano considera a venda do petróleo extraído das terras curdas do Iraque como um extravio, um contrabando, de uma riqueza nacional. Todavia, a região autônoma do curdistão iraquiano age como se nação independente fora, ainda mais quando se defende praticamente só contra o Estado Islâmico, por isso, bem como por outras razões, Erbil, em termos práticos, não reconhece a autoridade de Bagdá, sendo esta existente apenas nominalmente. Assim, para todos os efeitos, o petróleo comercializado é curdo, facção que conta com a benção da União Européia e dos EUA. Forma melhor para mascarar o petróleo roubado da Síria não há.

hk_wFPHH993J9
O “Armada Pride” um dos navios “Volga-Don Max Class” da frota do grupo BMZ. Imagem: internet.

O interessante, neste embate atual, sobre quem compra o óleo roubado da Síria é que os navios do grupo BMZ podem ser rastreados, localizados nos portos de destino, algo que nestes tempos de tecnologia da informação se dá em tempo real, por isso temos, como exemplo o Tanker “Armada Breeze”, do grupo BMZ, na data de 01 de dezembro de 2015, próximo ao seu destino, o porto de Bilbao, Espanha, trafegando pela Baía de Biscaia. O mesmo pode-se obter de outros tankers da frota BMZ: “Poet Qabil”, próximo a Rotterdeam, Holanda, no dia 29 de novembro; “Begim Aslanova”, junto a Savona, Itália, no dia 03 de dezembro, “Mecid Aslanov”, próximo a Ravenna, Itália, no dia 04 de dezembro e “Sovket Alekperova”, trafegando no Mar do Norte em direção a Thames, Grã-Bretanha. Percebe-se, portanto, o quanto as rotas realizadas pela frota BMZ são elucidativas, afinal, os portos de destino destes tankers são pertencentes à nações sócias da OTAN, isto, sem falar nas paradas para Odessa (Ucrânia), que são frequentes.

Outros negócios

Nem só do petróleo vivem os saqueadores turcos das riquezas sírias, aproveitam-se para roubar o que for possível. Um exemplo disso é a retirada de todos os equipamentos industriais da cidade de Aleppo, por membros do Estado Islâmico, comercializados na Turquia. Outro comércio ilegal, ainda mais danoso, versa sobre as antiguidades históricas da Síria, cujos objetos são comercializados sem o mínimo pudor em Ancara e Istambul. Além do saque há outra forma de ganhar dinheiro com o sofrimento do povo sírio: a chantagem dos refugiados. Concentrados em imensos campos de tendas, os refugiados são uma arma de barganha política de Ancara por recursos internacionais, notadamente da Europa Unida, destino preferido dos infelizes. Dá-se que tudo que se faz necessário para tais pessoas é adquirido de fornecedores turcos, de água potável aos remédios. Outra mina de outro, altamente condenável é a prestação de serviços médicos aos insurgentes, que para isso cruzam a fronteira da Síria com a Turquia com notável facilidade. Vários hospitais prestam serviços médicos e são ressarcidos pelos serviços prestados. A assistência médica aos insurgentes é tão profícua que até mesmo um hospital atende especificamente os feridos do Estado Islâmico, hospital este localizado em Sanliurfa, mais conhecida como Urfa, cerca de 150 km a leste de Gaziantep e 1,300 km a sudeste de Istambul, onde trabalha, para espanto de alguns, a enfermeira Sümeyye Erdogan, primogênita do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Educada em Londres, a herdeira abraçou de tal intensidade os preceitos da jihad, que se propôs mudar-se para Mosul, conhecido centro de extração, benefício de petróleo e de comunicação do Estado Islâmico. Mosul é a cidade para a qual foi enviada, à revelia do governo iraquiano, uma brigada do Exército Turco, aparentemente para proteger os interesses do Estado Islâmico, pois outra resposta é difícil de encontrar para este movimento.

Su_Erdo-00
Sümeyye Erdogan. Foto: internet.

Como se percebe, a Turquia funciona como cobertura para o Estado Islâmico e isto se dá não apenas ao nível governamental, de Estado, mas como sociedade, ávida por buscar lucro no sofrimento vizinho. Nada mais humano, ou mais comum. Ganhar dinheiro, dizem, é uma arte, e esta arte é melhor conduzida em situações de pouco controle e de fácil tráfego de influências. Ora, ora, que situação melhor do que a proporcionada por uma guerra. Existe situação melhor para lucrar? Bem… Bilal Erdogan conhece a resposta.