Wheels and deals: fermenta a guerra na Casa de Saud

Por: Pepe Escobar (4.10.2017)

Fonte primária: Asia Times – Counterpunch; fonte em português: Blog do Alok.

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu.

De repente, a matriz ideológica de todas as variantes de jihadismo salafista passa a ser elogiada no Ocidente como modelo de progresso – porque mulheres sauditas afinal receberam permissão para dirigir carros. Mas só ano que vem. Mas só algumas mulheres. Mas só com muitas restrições.

O que é certo é que o momento para anunciar a novidade – que vem depois de anos de pressão de liberais norte-americanos – foi calculado com precisão, e aconteceu apenas poucos dias antes que o capo da Casa de Saud rei Salman apareceu para dois dedos de prosa na Casa Branca de Trump. O movimento de soft power foi coordenado pelo príncipe coroado, 32 anos, Muhammad bin Salman, codinome MBS, o Destróier do Iêmen; o rei só fez assinar.

A tática diversionista mascara graves problemas na corte. Uma fonte especialista em negócios do Golfo, com conhecimento íntimo da Casa de Saud e encontros pessoais frequentes com eles, disse a Asia Times que “as famílias Fahd, Nayef e Abdullah, descendentes do Rei Abdulaziz al Saud e sua esposa Hassa bin Ahmed al-Sudairi, estão formando uma aliança contra a ascensão ao trono do príncipe coroado.”

Não chega a surpreender, se se sabe que o deposto príncipe coroado Mohammed bin Nayef – muito considerado no Departamento de Estado dos EUA, especialmente em Langley [cidade onde está o quartel-general da CIA] – está em prisão domiciliar. Sua massiva rede de agentes no Ministério do Interior foi quase toda “dispensada de qualquer autoridade”. O novo ministro do Interior é Abdulaziz bin Saud bin Nayef, 34, filho mais velho do governador da Província Oriental marcadamente xiita, onde está todo o petróleo do reino. Curiosamente, o pai agora é subordinado do filho. MBS está cercado de príncipes sem qualquer experiência, todos com cerca de 30 anos, e afastando de si praticamente todos os demais.

O ex-rei Abdulaziz definiu a própria sucessão baseado na idade dos filhos; em teoria, se todos chegarem à mesma idade todos terão algum tempo de reinado, o que evitaria o banho de sangue historicamente habitual nos clãs árabes, em disputas pela sucessão.

Agora, diz a fonte, “já todos preveem que um banho de sangue é iminente”. Especialmente porque “a CIA está indignada por o compromisso negociado em abril de 2014 estar sendo descumprido, como se vê no fato de o maior fator antiterrorismo no Oriente Médio, Mohammed bin Nayef, estar preso.” Tudo isso pode levar a “ação vigorosa contra MBS, possivelmente no início de outubro.” E pode até coincidir com o encontro Salman-Trump.

O ISIS joga pelo livro (saudita)

A fonte de Asia Times especialista em negócios no Golfo destaca que “a economia saudita está sob estresse extremo, por efeito de sua guerra pelo preço do petróleo contra a Rússia, e estão tendo muita dificuldade para pagar os fornecedores. Essa situação pode levar à falência algumas das maiores empresas na Arábia Saudita. A Arábia Saudita de MBS vê o iate de US$600 milhões comprado pelo príncipe coroado, e o pai dele gastando US$100 milhões nas férias de verão, sempre nas primeiras páginas do New York Times, enquanto o reino sufoca sob aquela liderança.”

O projeto que é a menina-dos-olhos de MBS, o super propagandeado Vision 2030, visa, em teoria, a diversificar e afastar o reino da dependência dos lucros do petróleo e dos EUA, na direção de uma economia mais moderna (e política externa mais independente).

Na avaliação da mesma fonte, é tudo completamente sem sentido, porque “o problema na Arábia Saudita é que suas empresas não conseguem funcionar com a mão de obra local e dependem de expatriados, que constituem 70% ou mais dos empregados. A gigante do petróleo Aramco simplesmente não opera sem expatriados. Daí que vender 5% da Aramco para diversificar não resolve o problema. Se ele quer sociedade mais produtiva e menos empregos no próprio governo onde só se copia, terá primeiro de treinar e garantir emprego ao próprio povo.”

A também elogiadíssima venda pública de parte da Aramco, apresentada como a maior venda de ações de toda a história, originalmente agendada para o próximo ano, foi mais uma vez adiada – “possivelmente” para o segundo semestre de 2019, segundo funcionários em Riad. E ainda ninguém sabe onde serão vendidas as ações; a Bolsa de Nova York está longe de ser assunto decidido.

Paralelamente, a guerra de MBS contra o Iêmen e o ímpeto saudita a favor de mudança de regime na Síria e de reformatar o Oriente Médio Expandido, revelaram-se desastres espetaculares. Egito e Paquistão recusaram-se a enviar tropas ao Iêmen, onde o pervertido infindável bombardeio aéreo pelos sauditas – com armas dos EUA e Grã-Bretanha – acelerou a desnutrição, a fome e o cólera e configurou crise humanitária massiva.

O projeto do Estado Islâmico foi concebido como ferramenta ideal para levar o Iraque a implodir. Hoje já é de domínio público que o dinheiro para organizar a coisa partiu quase todo da Arábia Saudita. Até o ex-Imã de Meca admitiu publicamente que a liderança do ISIS “extraiu suas ideias do que está escrito em nossos livros, nossos próprios princípios.”

O que nos leva a maior e mais profunda contradição saudita. O jihadismo salafista está mais que vivo dentro do Reino, por mais que MBS tente fazer-se passar por líder liberal (fake) da linha “gatinha, deixo você dirigir o meu carro”. O problema é que Riad nunca, em tempo algum, cumprirá qualquer promessa que se aproxime de liberalização: a única legitimidade da Casa de Saud depende daqueles “livros” e “princípios” religiosos.

Na Síria, além da evidência de que a maioria absoluta da população do país não quer viver num Takfiristão, a Arábia Saudita apoiou o ISIS enquanto o Qatar apoiava al-Qaeda (Jabhat al-Nusra). E isso acabou num banho de sangue de fogo cruzado, com todos aqueles tais inexistentes “rebeldes moderados” apoiados pelos EUA reduzidos pilotos de carros antiquados.

E há também o bloqueio econômico contra o Qatar – mais um brilhante enredo cerebrado por MBS. Só serviu para melhorar as relações de Doha com ambos, Ankara e Teerã. O emir do Qatar Tamim bin Hamad Al Thani não foi derrubado, tenha Trump realmente persuadido Riad e Abu Dhabi a evitar qualquer “ação militar”, ou não. Nada de estrangulamento econômico: a Total francesa, por exemplo, está às vésperas de investir US$2 bilhões para expandir a produção de gás natural no Qatar. E o Qatar, via seu fundo soberano, contragolpeou com o mais espetaculoso dos movimentos de soft power – comprou a marca e craque de futebol Neymar, para o PSG, e o “bloqueio” soçobrou sem deixar traço.

“Roubam até a roupa do corpo do próprio povo”

Em In Enemy of the State, o mais recente thriller de Mitch Rapp escrito por Kyle Mills, o presidente Alexander, sentado na Casa Branca, esbraveja que “o Oriente Médio está implodindo porque aqueles filhos da puta sauditas só fazem inflar o fundamentalismo religioso, para encobrir o fato de que roubam até a roupa do corpo do próprio povo.” É uma avaliação equilibrada.

Não se admite absolutamente nenhuma discordância na Arábia Saudita. Até o analista econômico Isam Az-Zamil, muito próximo do poder, foi preso durante a atual campanha de repressão. A oposição a MBS portanto não vem só da família real ou de alguns clérigos – embora digam os boatos que só quem apoie o “terrorismo” da Fraternidade Muçulmana, da Turquia, do Irã e do Qatar estaria sendo perseguido e atacado.

Em termos de o que Washington deseja, a CIA não aprecia MBS, para dizer o mínimo. Querem o homem “deles”, Nayef, de volta ao poder. Quanto ao governo Trump, o que se ouve é que está “desesperado em busca de dinheiro saudita, especialmente para investimentos em infraestrutura no Cinturão da Ferrugem”.

Será muitíssimo iluminador comparar o que Trump obtém de Salman e o que Putin obtém do mesmo Salman: o rei doente visitará Moscou no final de outubro. Rosneft está interessada em comprar ações da Aramco quando afinal acontecer a venda pública. Riad e Moscou estão considerando uma extensão de negócios da OPEP, bem como uma plataforma de cooperação OPEP-não-OPEP que incorpore o Fórum de Países Exportadores de Gás [ing. Gas Exporting Countries Forum, GECF].

Riad leu as palavras escritas no novo muro: o capital político e estratégico de Moscou não para de crescer por todos os lados, de Irã Síria e Qatar até Turquia e Iêmen. Não é coisa que se dê bem com o estado profundo dos EUA. Mesmo se Trump conseguir alguns negócios para o Cinturão da Ferrugem, a questão candente é se CIA & Amigos conseguem viver com MBS no trono da Casa de Saud.

Nota dos tradutores: Orig. Wheels and Deals. É uma rede de venda de carros usados, que tem lojas em várias cidades por todo o país. A ironia parece ter a ver com a licença para mulheres dirigirem na Arábia Saudita. Não conseguirmos traduzir.

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Uma ameaça elucidativa

Por: César A. Ferreira

No campo das relações humanas as ameaças podem incutir muitos significados, desde o aviso literal de uma intenção, em geral agressiva, até a dissimulação de uma vontade, desejo oculto, ou fraqueza. Muito frequentemente oculta o temor, ou a impotência sentida. Ademais se mostra reveladora, também, do estado emocional do emitente.

A ameaça é uma revelação de uma intenção agressiva, doutra forma não seria uma ameaça, não por outro motivo costuma ser algo bastante raro no trato diplomático por motivos óbvios, visto que usar mão de ameaças significa rudeza. Ademais, chefes de governo emprestam um peso grande caso verbalizem uma ameaça… Pois, independente disto, a Ministra da Justiça do Estado de Israel, do nada, emitiu uma ameaça explícita endereçada à pessoa do Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin. Este absurdo diplomático cometido pela Senhora Ayelet Shaked continha as seguintes palavras:

“Se Putin quer sobreviver, ele deve manter suas forças armadas fora da Síria”

É difícil entender o motivo de um Ministro de Estado cometer tamanho desatino. Ayelet Shaked é uma mulher jovem, com formação acadêmica em Engenharia de Sistemas (TI), e alçada ao Ministério da Justiça por ser uma estrela em ascensão no cenário politico israelense, neste contexto é possível especular que a senhora Shaked esteja verbalizando o sentimento existente no seio do poder israelense em relação à Federação Russa e suas ações na Síria, focado no seu líder.

De fato a intervenção russa na Síria mudou o rumo da guerra contra os jihadistas, colocando o governo sírio no trilho da vitória. A derrota dos extremistas significa por extensão a derrota das monarquias do golfo pérsico, das agências de inteligência ocidentais, notadamente da CIA, bem como de Israel, que muito investiu nestes guerreiros do terror islâmico.

Uma prova clara disto é o atendimento médico de extremistas no Ziv Medical Center, hospital israelense que é referência para tratamento de traumas por armas de fogo. O empenho israelense em apoiar os terroristas foi flagrado pelo jornalista Sharri Markson, do veículo News Corp, cuja descoberta foi robustecida posteriormente por outros relatos. Outra evidência do apoio israelense aos terroristas sírios é a captura de instrutores israelenses em Aleppo, bem como da morte de uma quinzena de “instrutores militares” devido a um ataque com mísseis de cruzeiro (Kalibr). Isto, sem falar nos constantes ataques aéreos a Damasco, realizados sempre a partir da fronteira de Israel, além das incursões aéreas dentro do território sírio.

Apesar de frustrar as intenções israelenses no tocante à Síria, a Federação Russa não é um estado hostil a Israel, pelo contrário, as relações politicas e diplomáticas até aqui se apresentam como muito boas, embaladas pela presença de aproximadamente 15% de russos na composição populacional de Israel. O governo israelense conta com apoio russo para o estabelecimento de um acordo de livre comércio entre Israel e a União Econômica Euroasiática, Uma forma óbvia de ampliação de mercados. A pergunta que se impõe é o motivo pelo qual Israel insiste em agredir um parceiro importante em termos políticos e econômicos. A resposta pode ser mais simples do que o pensamento usual: Israel acostumou-se a ser assim. arrogante. Por estar cercado por vizinhos que despreza, Israel atrofiou a sua diplomacia, visto que na região age com apoio explícito dos EUA e seja qual for a demanda, nada mais faz além do uso da força.

Ora, ora… Quando não se pode usar a força plenamente, o que resta além da ameaça?

Assad venceu! O Ocidente talvez não acredite, mas parece que a guerra na Síria está acabando

Por: Robert Fisk
Fonte: The Independent
Tradução: Oriente Mídia

Com todos aguardando que Trump inicie a Guerra Mundial n. 3, nem percebemos que o mapa do Oriente Médio substancialmente, sangrentamente, já está mudado. Passarão anos, antes que Síria e Iraque (e Iêmen) se reconstruam – e os israelenses talvez precisem pedir a Putin que limpe a sujeira em que Israel está metida.

Recebi uma mensagem vinda da Síria, semana passada, no meu celular: “O general Khadour cumpriu o que prometeu”. Entendi perfeitamente.

Há cinco anos, encontrei Mohamed Khadour, que comandava uns poucos soldados sírios num pequeno subúrbio de Aleppo, sob fogo de combatentes islamistas no leste da cidade. Naquela ocasião, mostrou-me seu mapa. Recapturaria aquelas ruas em 11 dias, disse-me ele.

Depois, em julho desse ano, novamente encontrei Khadour, no fundo do leste do deserto da Síria. Estava, disse-me ele, pronto para entrar na cidade sitiada de Deir ez-Zor antes do fim de agosto. Lembrei-o, rematada crueldade, de que na última vez em que ele me dissera que recapturaria parte de Aleppo em 11 dias, o exército sírio precisou de mais de quatro anos! Isso foi antes, disse-me ele. Naquele tempo, o exército ainda não sabia combater em guerra de guerrilha. O exército era treinado para retomar Golan e defender Damasco. Hoje, é diferente. Já aprenderam.

Realmente aprenderam. Em pleno deserto, Khadour disse que bombardearia a cidade de Sukhna – a maior parte do bombardeio ficaria por conta dos russos –, e suas tropas sírias romperiam o cerco por ali até Deir ez-Zor, que estava cercada pelo ISIS já há três anos, com 80 mil civis e 10.000 soldados sitiados. Khadour disse que estaria em Deir ez-Zor mais ou menos dia 23 de agosto. Acertou quase exatamente. E agora avança rumo ao que resta da cidade de Deir ez-Zor e dali rumo à fronteira sírio-iraquiana.

Assim sendo – depois de completada a captura da cidade, e quando Khadour estiver na fronteira, e agora que Aleppo está totalmente em mãos do governo sírio, e só a província Idlib ainda resta como lata de lixo do que resta sobretudo de rebeldes islamistas (incluindo a al-Qaeda), muitos dos quais foram autorizados a viajar em troca de se renderem e entregarem quarteirões e bairros de cidades sírias –, o que sempre foi impensável no ocidente já está afinal acontecendo: os soldados de Bashar al-Assad, ao que tudo indica, venceram a guerra.

E não é só “ao que tudo indica”. Hassan “Tiger” Saleh, oficial estrela do exército sírio – condecorado duas vezes pelo ministro de Defesa da Rússia – abriu caminho até o prédio da 137ª brigada do Exército da Síria em Deir ez-Zor e libertou os soldados que lá estavam, enquanto Khadour, seu oficial comandante (os dois são amigos pessoais) está a caminho de libertar a base aérea na cidade.

Quantos recordam o dia em que os norte-americanos bombardearam soldados sírios próximos daquela base aérea e mataram mais de 60 soldados, permitindo assim que o ISIS avançasse para o resto da cidade? Os sírios jamais acreditaram no que os norte-americanos disseram, que o ataque resultara de “um erro”. Até que os russos ‘informaram’ à força aérea dos EUA que estavam bombardeando forças sírias.

Os britânicos parecem ter entendido a mensagem. Discretamente retiraram semana passada seus instrutores militares – os homens cuja tarefa seria preparar os místicos “70 mil rebeldes” de David Cameron, que supostamente logo derrubariam o governo de Assad. Até o relatório da ONU segundo o qual o regime teria assassinado 80 civis num ataque com gás, no verão, passou quase sem referência entre políticos europeus tão habituados a aumentar os crimes de guerra na Síria e a apoiar o estúpido ataque com míssil cruzador ordenado por Trump contra uma base aérea síria.

E que tal Israel? Aí está uma nação que realmente tinha certeza do fim de Assad, a tal ponto que bombardeou soldados sírios, além de bombardear o Hezbollah e o Irã, aliados da Síria, e dar atendimento médico a terroristas islamistas que fugiam da Síria para cidades israelenses. Não surpreende que Benjamin Netanyahu estivesse tão “agitado” e “emocional” – palavras dos russos – quando Vladimir Putin o recebeu em Sochi. O Irã é “aliado estratégico” da Rússia na região, disse Putin. Israel é “parceiro importante” da Rússia. Duas coisas completamente diferentes, e absolutamente nada do que Netanyahu desejava ouvir.

As repetidas vitórias dos sírios significam que o Exército Árabe Sírio é hoje um dos mais “enrijecidos no calor dos combates” de toda a região; formado de soldados habituados a defender a própria vida, e hoje treinados em coordenação de tropas e de inteligência, a partir de um só centro de comando. Como disse a ex-professora de St Antony’s College Sharmine Narwani essa semana, essa aliança conta hoje com a cobertura política de dois membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, Rússia e China.

Assim sendo, o que fará Israel? Netanyahu viveu sempre tão obcecado com o programa nuclear iraniano que visivelmente jamais imaginou – e nem ele, nem Obama, Hillary Clinton, Trump, Cameron, May, Hollande e outros luminares das elites políticas ocidentais – que Assad pudesse vencer, e que, das ruínas de Mosul poderia nascer um exército iraquiano muito mais poderoso.

Netanyahu ainda apoia os curdos, mas nem Síria nem Turquia nem Irã, nem Iraque têm qualquer interesse em apoiar aspirações nacionalistas dos curdos – apesar de os EUA usarem milícias curdas nas chamadas Forças Sírias Democráticas (muito mais curdas que “sírias” e “democráticas” e sequer algum tipo de “força”, se não contarem com cobertura da Força Aérea dos EUA).

Elementos da direita política israelense que diziam que Assad seria perigo muito maior que o ISIS talvez sejam obrigados a reconsiderar – no mínimo, porque Assad provavelmente será o homem com quem Israel terá de conversar, se quiser manter segura a sua fronteira norte

O Estado Islâmico sofre mais uma derrota em Deir Ez Zor

Por: César A. Ferreira

Os combatentes do Estado Islâmico colhem mais um insucesso, segundo informe do site South Front.

Forças combatentes do Estado Islâmico lançaram uma ofensiva no eixo de Deir Ez Zor, mas foram rechaçadas por regimentos da Guarda Republicana Síria e das Forças de Defesa Nacional (FDN). A unidade que suportou com sucesso a investida dos jihadistas foi o 137º Regimento da Guarda Republicana Síria.

A ação dos combatentes do EI – Estado Islâmico, deu-se por meio de uma infiltração entre as linhas, procurando flanquear os elementos do 137º regimento, este, posicionado a oeste do monte Sonouf. O resultado da batalha foi mais do que adverso para os atacantes, visto que em sequencia imediata ao sucesso defensivo as formações do 137º regimento empreenderam um contra-ataque relâmpago chegando às portas das posições terroristas no distrito de Al-Rasafa, cidade de Deir Ez Zor.

Além do contra-ataque efetuado com elementos da infantaria, houve o bombardeio das posições extremistas por meio dos dispositivos de artilharia desdobrados pelas forças governamentais, presentes no local. Foram alvo de fogo as localidades de Al-Makaber, Al-Omal, bem como da colina Al Sonouf. Dois comandantes do EI foram mortos durante os combates, sendo estes Abu-Ammar al-Iraqi e Abu Sayaf Hassrat.

As forças governamentais colhem louros no caldeirão de Der Ez Zor, como no caso da conquista da companhia de eletricidade, aproximando-se assim das posições isoladas do aeroporto, igualmente mantidas pelas forças do governo sírio. Os eventos na medida em que se sucedem em favor das tropas legalistas, que estão cercadas, resultam em grave desabono moral para as forças terroristas, visto que estas não conseguem suprimir elementos combatentes cuja fonte de abastecimento é aérea.

Deir Ezzoir como novo eixo do avanço legalista

Por: César A. Ferreira

Após a vitória estrondosa na cidade de Palmira, e na localidade de Quraytayn, os olhos do mundo passam a acompanhar a campanha do Exército Árabe da Síria em direção ao sítio de Deir Ezzoir, isto, devido ao fato de ser Deir Ezzoir um alvo óbvio a partir de Palmira, ainda que esteja a uma distância considerável, e o Exército Árabe da Síria a exibir alguns sinais de exaustão após a pesada batalha para a libertação de Palmira.

No tocante à exaustão, uma pausa pode restabelecer o status combativo das unidades, entretanto, o tempo pode vir a ser um fator primordial para os combatentes e civis sitiados em Deir Ezzoir, portanto, uma pausa para reagrupamento deve ser medida com extremo cuidado e tempo justo. O fato é que a luta no vasto deserto sírio mostrou-se desgastante, e a resistência das unidades combatentes do Estado Islâmico, percebeu-se, foi pesada, evidenciando a presença de combatentes experimentados o que acabou por valorizar a vitória legalista. O ambiente, severo, impôs severos desgaste nos equipamentos e rebaixou o status combativo das unidades, a infantaria também sofreu com o escaldante deserto, vindo a sofrer baixas operacionais de monta, boa parte delas não sendo alusivas as operações de combate, mas ao clima extremo, ocasionando uma pressão extra ao sistema logístico e sanitário das unidades legalistas.

Como visto no avanço à Palmira, o avanço em direção de Deir Ezzoir deverá se dar em função da estrada que liga as cidades. E tal como antes, o avanço para conquistar os trechos da autopista e garantir o fluxo logístico exige muito do Exército Árabe da Síria, que vê-se obrigado, como lição de guerra, a estender o corredor de proteção deserto adentro e a ocupar qualquer elevação que por ventura exista no campo de visão. As onipresentes viaturas pick up, com metralhadoras pesadas ou canhões de tiro rápido geminados de 23mm não são uma escolha casual, constituem-se na parte integrante da estratégia de interdição de vias de suprimentos por parte do Estado Islâmico, visto que permitem reides, ações rápidas de destruição e evasão acelerada. Foi por se mostrar antes incapaz de defender as estradas, artérias logísticas indispensáveis, que as forças legalistas acabaram por recuar e abandonar Palmira e Raqqa, e ver-se cercadas em Aleppo e Deir Ezzoir. O abandono das posições no deserto profundo deu-se em razão da opção lógica de defender Damasco e as províncias costeiras, onde se encontram 80% da população síria.

O exemplo maior das dificuldades de manter segura uma autoestrada foi o combate realizado em torno da estrada de Khanasser, onde o avanço foi obstado por contra-ataques do Estado Islâmico que além de cobrarem pesado tributo em baixas, evitou as operações que visavam o cerco das suas unidades combatentes ao permitir a fuga e posterior reagrupamento. A luta em um eixo logístico não oferece ao atacante muitas opções táticas, visto que a estrada por si já é o indicativo óbvio do eixo de ataque.

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Helicópteros de ataque Ka-52 em ação no deserto sírio. Imagem: internet

Estas dificuldades, no entanto, são superadas com o vasto apoio aéreo, não só efetuado pela Força Aérea Árabe da Síria, como pelos helicópteros de ataque, notadamente russos, caso dos novos Mi-28N e Ka-52, que estrearam a pouco no conflito sírio varrendo posições dos extremistas no eixo de Palmira.

O combate em um eixo óbvio de ataque pode parecer inglório, mas o ambiente é inóspito para ambos contendores e se avanço há, isto se dá pela existência de alvos identificados. O Estado Islâmico não pode se furtar a defender os povoados e localidades por ele ocupados pois deles defende o fundamento do seu poder, que é o domínio territorial, razão última para a autodenominação de “Estado”. Ademais, depende em demasia da comercialização do petróleo produzido na província de Raqqa, razão pela qual mantém nas localidades de Tabaqa e Sukhanah grandes formações de combatentes. Tabaqa e Sukhanah são obstáculos consideráveis no eixo de Deir Ezzoir e por isto se tornaram alvos óbvios. O uso de artilharia, de ogivas termobáricas dos foguetes de saturação de área além do apoio aéreo aproximado se farão presentes quando chegar a hora.

Palmyra já vê combates em sua zona urbana

Por: César A. Ferreira

Neste exato momento forças do Exército Árabe da Síria adentraram nos subúrbios da cidade de Palmyra, isto após terem capturado as ruínas da cidade antiga em meio a feroz combate, onde, para infelicidade da humanidade, estragos extensos foram causados naquele fantástico patrimônio histórico da humanidade. O ataque a cidade realizado através de um movimento de mão, ao norte, o que desequilibrou as unidades do Estado Islâmico posicionadas para defesa, visto que estas esperavam o assalto provindo do oeste. Em seguida, outro movimento de gancho, desta vez direcionado ao sul, acabou por submeter às forças legalistas a base aérea local.

O combate na referida cidade está sendo renhido, motivo pelo qual avolumam baixas de ambos os lados. Neste contexto histórias de coragem se sobressaem, caso dos advisors russos, responsáveis por marcarem no solo os alvos para as aeronaves russas, que foram descobertos por combatentes do Estado Islâmico e cercados, motivo pelo qual direcionaram os ataques da VKS diretamente sobre eles (consequentemente dos inimigos que os cercavam). O número de soldados das Forças Especiais russas mortos e reivindicados como tais pelo Estado Islâmico, até a este presente momento, somam cinco (5) combatentes.

A situação para os combatentes do Estado Islâmico tende para insustentabilidade, visto que a operação visa cercar a cidade, conta com vasto apoio aéreo, que inclui a presença de helicópteros de ataque Mi28N, visto nos combates, e artilharia de campanha, onde os temidos TOS-1 “Buratino” se fazem presentes.

Nas últimas 24 horas as Forças Aeroespaciais da Federação Russa efetuaram apenas na área de Palmyra 40 saídas para missões de ataque, com 158 objetivos terroristas engajados, com ao menos quatro (4) Carros de Combate destruídos, cinco (5) caminhões de suprimentos igualmente destruídos, quatro (4) depósitos de munição incinerados e três (3) peças de artilharia eliminadas. Cerca de 100 combatentes foram mortos nestes ataques, que não contabilizam as missões de ataque realizadas pela Força Aérea Árabe da República da Síria.

Fontes do Ministério da Defesa da Rússia anunciou que o destino de Palmyra, que já conta com combates em sua zona urbana neste presente momento, deva se desfechar nas próximas 72 horas, isto no seu mais tardar. Para o Exército árabe da Síria esta batalha tem um sentido especial, simbólico, pois em 2014, o soldado capturado da desbastada 93ª Brigada de Infantaria, Adnan Yahia al Shoghri, instado a poupar sua vida pelos captores bastando para isso bradar vida eterna ao Estado Islâmico, berrou ao invés “nós vamos acabar com vocês”! Adnan e outros prisioneiros foram executados logo após o seu brado.

Notícias da guerra síria

Por: César A. Ferreira

De acordo com o divulgado por vários correspondentes que se dedicam à cobrir a guerra síria, podemos nesta data, 15.03.2016, traçar o seguinte panorama:

Contra ataque da Jabah al-Nusra contido em Hama.

O Exército Árabe da Síria conquistou uma vitória retumbante ao deter em campo um ataque do grupo filiado a Al-Qaeda, Jabah Al-Nusra, que tinha como eixo de progressão as aldeias libertadas de Al – Rumliyah e Al – Madajin. O grupo extremista realizou várias ondas de ataque, que foram detidas a toda volta. As forças responsáveis por mais este revés imposto aos extremistas foram a 47º Brigada Mecanizada, parte da 11ª Divisão Blindada (Carros de Combate), do Exército Árabe da Síria, em conjunto com elementos da Força de Defesa Nacional. Informações provindas do setor de comunicação das Forças Armadas Sírias não informam com precisão a contagem de corpos, mas se sabe que os números de extremistas mortos sobem às dezenas. O apoio aéreo fornecido, que foi vital para vitória, esteve a cargo da Força Aérea Árabe da Síria.

Combates intensos no caminho para Palmyra.

As forças governamentais sírias avançam céleres em direção à Palmyra, cidade de inegável importância estratégica nesta guerra. O avanço configura-se como uma pinça, com dois braços, estando o braço norte sob-responsabilidade da 67ª Brigada Mecanizada, componente da 18ª Divisão blindada do Exército Árabe da Síria. Esta força avança em direção da 550ª Brigada de infantaria, enfrentando diuturnamente encarniçados combates contra os extremistas do Estado Islâmico, o que impôs diversas baixas entre o pessoal combatente.

Na vertente sudoeste, a afamada Força Tigre, coadjuvada por elementos da Força de Defesa Nacional, unidade Falcões do Deserto e pela unidade para-militar iraquiana Brigada Iman Al-Ali, irrompem em direção à cidade em combates contínuos contra as forças do Estado Islãmico, impondo a estes a necessidade de retroagirem. Os elementos combativos do EI recuaram em direção à localidade de Al-Dawah, todavia, neste vilarejo os extremistas lograram obter uma posição defensiva com grande sucesso, frustrando os ataques das forças sírias combinadas. Todavia este insucesso não foi suficiente para abater as forças atacantes, que assumiram a colina 853, na área de Jabal Hayyal, cujo controle se encontra quase todo em poder das forças governamentais, estas, por sinal, aproximam-se da Villa Real, onde se encontra um amplo campo de treinamento do EI, distando desta localidade, no momento, três quilômetros.

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General Sírio MajorIssam Zahreddine, herói da resistência em Deir Ez Zoir. Imagem: internet.

Avanço no eixo Deir Ezzor

O front de Deir Ezzor exibiu movimentações intensas, confrontos continuados e selvagens. As forças sírias que combatem neste front são: 104ª Brigada Aerotransportada, 137ª Brigada de Infantaria, parte integrante da 17ª Divisão de Reserva da Força de Defesa Nacional, além de combatentes da tribo Shaytat (confissão sunita).

Violentos combates resultaram na captura das elevações de Thardeh, que se situa a meio caminho entre a localidade de Mayadin e Deir Ezzor, ademais, a elevação domina o trajeto logístico em direção à Deir Ezzor, via arterial necessária ao Estado Islâmico para o abastecimento de munição, armas e víveres. O eixo de ataque das forças sírias, agora, visa o campo petrolífero de Thayyem, cuja perda imporá uma queda drástica de receita ao EI.

Os avanços relatados, principalmente a captura das elevações de Thardeh, cuja posição inviabiliza o corredor logístico do Estado Islâmico, deverão reduzir a pressão sobre os resistentes na Base Aérea de Deir Ezzor, onde forças sírias cercadas na referida base aérea e bairros adjacentes da cidade, resistem a anos ao assédio do Estado Islâmico. A base é essencial, visto que por ela chegam víveres e munições lançados de paraquedas. Esta resistência, heroica, diga-se, em muito se deve a liderança do General Sírio MajorIssam Zahreddine, que manteve o moral de civis e combatentes em um padrão absurdamente elevado nestes longo tempo de cerco (dois anos).

Estado Islâmico ameaçado: tropas governamentais se acercam de Palmyra

Por: Renato Velez

Fonte: Al Masdar News

Adaptação: César A. Ferreira

Há pouco o Exército Árabe da Síria (EAS) capturou três pontos chaves, a colina 800, a colina al – Amdan e a colina al – Thar na antiga pedreira , periferia ocidental de Palmira. Desde a semana passada, as tropas do governo moveram-se centenas de metros por dia para a antiga cidade de Palmyra, que está ainda sob a ocupação do Estado Islâmico. Agora, menos de uma milha separa os soldados sírios dos primeiros blocos de edifícios dos distritos a oeste da cidade. No entanto, o Estado Islâmico está disposto a tudo, menos a ceder Palmyra, uma vez que a cidade está situada no coração da Síria. Enquanto alguns consideram que a cidade de Palmira, como um simples troféu, você pode dizer que representa a ligação mais importante entre ricos poços de petróleo do leste e a densamente povoada Costa oeste da Síria.

É por isso que continua a ser vital para o Estado Islâmico manter o controle desta cidade. Em caso de perda, poderia causar um efeito dominó e a eventual derrota do califado em si. Todavia, o governo sírio está mais determinado do que nunca para capturar Palmyra. Como resultado, Damasco mobilizou as Forças Tigre, a 18ª Divisão Blindada, a Brigada “Falcões do Deserto”, juntamente com a milícia iraquiano EDI Imam Al – Ali. Por outro lado, combatentes do Hezzbollah estão em processo de implantação em toda a área adjacente a Palmyra, enquanto a Força Aérea da Rússia realiza dezenas de ataques aéreos contra a cidade todos os dias. Hoje, as forças do governo também capturaram vários pontos estratégicos ao redor da cidade, aproximando-se da área arqueológica ao oeste de Palmyra.

Neste momento, uma grande batalha acontece no “Castelo de Palmyra”, que está localizado sobre a montanha de Jabal Qassoun que domina a cidade do oeste. A histórica cidade de Palmyra, que foi capturada pelo EI em maio de 2015, durante uma ofensiva relâmpago, tem testemunhado a 4000 anos de civilização e sobreviveu a inúmeras batalhas ao longo dos séculos. Mas, infelizmente, o Estado Islâmico demoliu vários dos importantes sítios do Patrimônio Mundial da UNESCO dentro da cidade.

Ao longo prazo, captura de Palmira permitirá o empurrão do Exército Árabe da Síria para Deir Ezzor e romper o cerco imposto pelo Estado Islâmico nos distritos restantes detidos pelo governo dentro da cidade. No entanto, há muitos quilômetros do território ainda por ser arrebatando aos  combatentes do EI para que se possa atingir este objetivo.

Sobrinho de JFK sobre a Síria: O ISIS é um produto da intervenção dos EUA por petróleo

Por: Claire Bernish

Fonte: The Free Thought Project

Tradução: J. Junker

Robert F. Kennedy Jr. escreveu um astuto artigo a respeito da verdade por trás da presença dos EUA no Oriente Médio – a sua subserviência ao bem mais precioso da indústria de combustíveis fósseis: o petróleo.

“À medida que nos concentramos no crescimento do ISIS e da busca pela origem da selvageria que levou tantas vidas em Paris e San Bernardino, podemos querer olhar para além das explicações convenientes de religião e ideologia e focar nas lógicas mais complexas da história e petróleo, que em sua maioria apontam o dedo da culpa do terrorismo de volta para os campeões do militarismo, o imperialismo e o petróleo aqui em nossas próprias costas”, Kennedy escreveu em um editorial para o EcoWatch.

O olhar crítico de Kennedy sobre a história dos Estados Unidos de intromissão, intervencionismo, e da hegemonia – quase exclusivamente para manter o fluxo de petróleo – torna evidente o seu papel na desestabilização de todo o Oriente Médio, especialmente na Síria. Na verdade, mais de cinquenta anos de intercessão violenta – em última análise, no interesse da indústria de combustíveis fósseis – tem alimentado enormes ressentimentos. Essencialmente, o corporativismo geoestratégico americano – sob o disfarce da manutenção da paz armada – criou o violento jihadismo islâmico contra quem os EUA agora lutam suas batalhas.

A partir da administração Eisenhower, a soberania árabe e a neutralidade das nações do Oriente Médio na Guerra Fria foram percebidas como ameaças para o acesso americano ao petróleo.

Em primeiro lugar na ordem do dia para a Presidência de Eisenhower estava o primeiro líder eleito do Irã em 4000 anos de história, o presidente Mohammed Mosaddegh. O desejo de Mosaddegh de renegociar contratos de petróleo desfavoráveis ​​ao Irã com a British Petroleum levou a um golpe fracassado da inteligência britânica – a quem ele prontamente expulsou do país. Apesar de parecer favorável aos EUA, a quem Mosaddegh via como um modelo de democracia que ele procurou empregar no Irã – Eisenhower, com a ajuda do notório diretor de inteligência Allan Dulles, derrubou o líder. A “Operação Ajax” depôs Mosaddegh e o substituiu pelo Shah Reza Pahlavi – um líder cujo reinado sangrento culminou na revolução islâmica de 1979, “que tem atormentado a nossa política externa por 35 anos”, escreveu Kennedy.

Talvez uma das maiores ameaças maiores sobre a Síria fosse a relutância dela para aprovar a Trans Arabian Pipeline – destinada a atravessar a Síria a fim de conectar o petróleo saudita com os portos do Líbano. Quando o democraticamente eleito e secular presidente sírio negou o plano, a CIA armou um golpe em uma tentativa de substituí-lo.

“O plano da CIA foi de desestabilizar o governo sírio, e criar um pretexto para uma invasão pelo Iraque e pela Jordânia, cujos governos já estavam sob controle da CIA”, explicou Kennedy. Não funcionou. Uma falha surpreendente, motins e violência anti-americana irromperam por toda a região. A Síria barrou vários adidos americanos, e, em seguida, expôs e executou todos os funcionários que abrigavam algum sentimento pró-americano. Na verdade, os EUA quase provocaram uma guerra com a Síria pelo incidente.

As repercussões da tentativa de golpe – bem como parcelas de maior êxito dos regimes fantoches em outros lugares – continuam a desempenhar um papel na política externa e relações geopolíticas no presente. A mais “bem sucedida” remoção de um líder e sua subsequente substituição envolveu um nome que todos nos EUA estão familiarizados: Saddam Hussein.

Depois de várias tentativas para depor o líder do Iraque falharam, a CIA, em última instância instalou Hussein e o Partido Baath no poder. Como Kennedy observou, o ministro do Interior Said Aburish disse sobre a trama: “Nós chegamos ao poder em um trem chamado CIA”. James Critchfield, o chefe do posto da CIA responsável tanto pelo golpe bem sucedido quanto pelo fracassado, mais tarde disse que a CIA tinha “essencialmente criado Saddam Hussein” – também lhe fornecendo armas, inteligência, além de armas químicas e biológicas.

“Ao mesmo tempo, a CIA estava a fornecer ilegalmente ao inimigo de Saddam – o Irã – milhares de mísseis anti-tanque e anti-aéreos para combater o Iraque, um crime que ficou famoso durante o escândalo Irã-Contras … A maioria dos americanos não estão cientes das muitas maneiras que essa reação de erros anteriores da CIA ajudou a criar a crise atual”.

Enquanto os americanos amplamente acreditam na grande imprensa e na narrativa governamental que o papel atual dos EUA na Síria eleva-se a objetivos humanitários, começando com a Primavera Árabe em 2011, “Em vez disso, começou em 2000, quando o Qatar propôs construir um gasoduto de 1,5 mil quilômetros e US$10bi através de Arábia Saudita, Jordânia, Síria e Turquia”, Kennedy explicou.

“O gasoduto proposto teria ligado o Qatar diretamente para mercados europeus de energia através de terminais de distribuição na Turquia que embolsariam grandes taxas de trânsito. O gasoduto Qatar-Turquia teria dado os reinos sunitas uma dominação decisiva do Golfo Pérsico em mercados de gás natural pelo mundo e fortalecido o Qatar, aliado mais próximo dos Estados Unidos no mundo árabe”.

A UE recebe atualmente 30 por cento de seu gás da Rússia, Kennedy observou, e “A Turquia, segundo maior cliente de gás da Rússia, estava particularmente ansiosa para acabar com sua dependência de sua antiga rival, além de posicionarem-se como um centro de transporte lucrativo dos combustíveis asiáticos para os mercados da UE. O gasoduto do Qatar teria beneficiado a monarquia conservadora sunita da Arábia Saudita, dando-lhes uma posição de dominação sobre os xiitas”.

Os cabos diplomáticos revelados pelo Wikileaks mostram que desde 2006 o Departamento de Estado dos EUA, a pedido do governo israelense, vinha propondo uma parceria entre Turquia, Qatar e Egito para fomentar uma guerra civil sunita na Síria, para enfraquecer o Irã. O propósito declarado, de acordo com o telegrama secreto, foi para incitar (o presidente sírio, Bashar al- Assad) uma brutal repressão da população sunita da Síria.

“Como previsto, a reação exagerada de Assad à crise fabricada no estrangeiro – lançando bombas de barril em redutos sunitas e matando civis – polarizou uma divisão xiita-sunita da Síria e permitiu aos responsáveis ​​políticos vender aos americanos a ideia de que  a luta pelo gasoduto era uma guerra humanitária”.

O contexto histórico e longo de Kennedy para o imbróglio atual merece uma leitura minuciosa. Sua mensagem inequívoca deve servir como um lembrete importante que o governo dos Estados Unidos e seu porta-voz da grande imprensa  –  tão convincente quanto eles podem parecer  –  nunca estão contando toda a história.

O retorno do Exército Árabe Síria

Por: Valentin Vasilescu

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

Rede Voltaire | Bucareste (Roménia) | 05 de março de 2016

Tendo que enfrentar durante os primeiros quatro anos da guerra, mal treinados, mas muito bem armados mercenários estrangeiros, em um fluxo substancial, o Exército Árabe Sírio, que desde 2005 não conseguia manter o estado técnico das suas armas, se faz retornar. Graças à formação por parte do Irã, da presença de membros da milícia popular e depois de receber material bélico moderno da Rússia, o Exército Árabe da Síria é agora capaz de recuperar o terreno perdido. A partir de dois meses de combate, com constante avanço das tropas.

Após cinco meses de ataques aéreos garantidos pelo grupo aéreo russo, com cerca de 70 aeronaves implantadas na Síria, muitos analistas militares, por ter o Exército Árabe da Síria se mostrado capaz apenas de recuperar uma pequena parte dos territórios ocupados pelos maravilhosos jihadistas, criticaram-no. Tais especialistas estabelecem uma comparação, totalmente inadequada, com o Exército dos EUA, que conseguiu ocupar o Iraque em quarenta e dois dias… Mas, com 1.800 aeronaves e 380.000 soldados.

O que motivou a baixa capacidade de combate do Exército Árabe Síria?

Durante os cinco anos desta guerra na Síria, entre 100.000 e 250.000 mercenários islâmicos recrutados e armados pela Arábia Saudita, Qatar, Estados Unidos e Turquia vem a penetrar o território sírio através das fronteiras desse país com a Turquia, Jordânia e Israel. Estes mercenários abriram várias frentes, forçando as unidades do Exército Árabe da Síria a se dispersar em pequenos grupos por todo o país.

Nesta primeira fase, as ações dos radicais islâmicos envolveram a realização de ataques surpresa contra instalações do Exército Árabe da Síria e da polícia. A reação do Exército Árabe da Síria foi lenta e inadequada, usando apenas as tropas da 104ª Brigada  da Guarda Republicana e da 4ª divisão mecanizada. O sucesso desta primeira fase de ataques dos chamados “rebeldes”, resultou em uma  propagação em cascata, principalmente devido a um perfeito conhecimento das fraquezas do Exército Árabe da Síria.  O Planejamento desses ataques tiveram como responsáveis os instrutores militares turcos das forças especiais (conhecidos como Bordo Bereliler, referência a boina vermelha escura usadas) e dos seus equivalentes da Arábia Saudita.

Durante os três primeiros anos da guerra, o Exército Árabe da Síria, cuja preparação focava uma guerra convencional a ser travada contra os seus vizinhos e não para a guerra assimétrica, mostrou apenas o básico em termos de disposições táticas, adotando-as de maneira inadequada, sem espaços entre dispositivos, cobertura de tiros entre os elementos destes mesmos dispositivos, sem técnicas de identificação para distinguir amigos de inimigos, etc. Os jihadistas, em contraste, detinham disponível, em grande quantidade, material de construção, importado anteriormente, tal como o equipamento que lhes permitia escavar túneis muito rapidamente, enquanto o Exército Árabe Sírio não possuía nenhuma forma de detectar a existência de tais túneis. Isto permitiu que as operações dos extremistas islâmicos agregar ao seu favor o fator surpresa contra as tropas sírias, incapazes de reagir à infiltração maciça de terroristas, e conseguir ocupar numerosas bases militares e depósitos de armas e munições. Portanto, o Exército Árabe Sírio não poderia mesmo garantir as medidas básicas de combate (e prevenção), ou prever o melhor momento para se preparar e planejar a guerra.

Os aviões de reconhecimento remotamente pilotados (UAV) Shahed-129, fornecido pelo Irã, ajudou a melhorar os procedimentos táticos dos grupos de assalto do Exército Árabe da Síria e seu uso bem sucedido, resultando na realização de manobras muito rápidas. A Rússia apoiou o governo sírio desde o início, tanto política e diplomaticamente, com embarques esporádicos de armas e cursos de formação. Mas no outono de 2015, a ajuda russa tornou-se uma ajuda à la carte, aumentando exponencialmente. O Exército Árabe da Síria viu-se rapidamente equipado com novas armas. Neste momento, chegou ao fim o período durante o qual o Exército Árabe da Síria resignou-se a sacrificar territórios e a se confinar, exclusivamente, para proteger sua população civil contra os extremistas da jihad.

Armas individuais e equipamentos de proteção

Em um primeiro momento, o Exército Árabe da Síria estava equipado apenas com os capacetes chineses QGF-02. Alguns soldados da Guarda Republicana e forças especiais tinham coletes blindados TAT-BA-7. As armas individuais consistiam de AK-47, como fuzis de assalto (ou a sua variante chinesa Type 56). A ausência de dispositivos de visão noturna, infravermelho e/ou binóculos com sistemas com intensificação de luz residual constitui uma séria limitação.

Embora a Síria tenha optado em 2005 por um projeto de equipamentos individual moderno, projeto russo conhecido como “Soldado do Futuro” (Ratnick) , no momento do início da guerra civil, tais equipamentos não tinham sido adquiridos, devido ao embargo imposto como resultado da suspeita de que seria a Síria aquela responsável pela organização do assassinato de Rafic Hariri (ex-primeiro-ministro do Líbano). Este equipamento individual inclui visores noturnos Baighis, nível 6 e o ​​fuzil de assalto AK-74M. Com a chegada dos instrutores russos, a maioria das unidades do Exército Árabe Sírio foram equipadas com os coletes balísticos 6B45, capacetes Kevlar 6b7 e fuzis de assalto AK-74M, ou AK-104, com o dispositivo lançador de granadas, GP-30. O Exército Árabe Sírio equipados com equipamentos russos de visão noturna moderna, lançadores de granadas termobáricas AGS-17, lançadores de granadas 6G30 (40 mm).

Shilkas
O combate urbano travado na Síria permitiu ver o retorno das veneráveis Shilkas, agora, na função de apoio de fogo aproximado. Os sensores sofisticados foram retirados, mas a mira óptica, então mero back up, foi mantida. Imagem: internet.

O retorno do exército sírio

Os reservistas

Durante estes cinco anos de guerra, o Exército Árabe da Síria sofreu pesadas baixas, superiores aquelas sofridas durante as guerras contra Israel, perda superior em termos de material bélico,  destruído, ou capturado pelos jihadistas, estando muitas cidades permanecendo sob o controle destes elementos, cuja ocupação se caracteriza pela posse 75% do território sírio geográfico, bem como pela execução cruel de soldados capturados e os civis favoráveis ​​à República Árabe Síria. Isso, por óbvio, dificultou a substituição do grande número de tropas que o Exército Árabe da Síria havia perdido, num processo que se tornou muito mais difícil do que o previsto nos planos de mobilização originalmente planejados em tempos de paz. Temendo por suas vidas, 130.000 reservistas não compareceram quando convocados, de modo que há apenas 270.000 combatentes. Dada a esta circunstância, o Exército Árabe da Síria recorreu à criação de subunidades formadas com voluntários mais idosos do que o esperado, calcadas na maior parte do tempo no princípio da territorialidade. Principalmente naquelas áreas atacadas pelos rebeldes, estes grupos de defesa locais sem coordenação alguma com as unidades do exército profissional, mal armados, destituídos  de treinamento físico adequado, desprovidos de treinamento de tiro, sem comandantes capacitados em escolas militares que por ventura fossem dotados de um mínimo de conhecimento aplicável em uma situação de combate, acabaram por sofrer baixas significativas, pois baseavam-se, unicamente, no seu entusiasmo patriótico

Com a melhoria da situação e a transição para o exército ofensivo, o Exército Árabe da Síria empreendeu com estes grupos de defesa locais treinamentos táticos intensivos, centradas em temas de guerrilha urbana com prática de tiro real, marchas e noções de engenharia e pirotecnia. Uma ponte aérea entre Damasco e Teerã foi implementada, proporcionando que voluntários sírios fossem treinados pela Bassidji iraniana, que recebe e continua recebendo combatentes do Hezbollah. Pela primeira vez, os iranianos treinam não só os xiitas, mas também os sunitas e os cristãos.

As operações especiais

As forças especiais sírias foram formadas e treinadas pelo exército egípcio, durante a década de sessenta (1960-1969), de acordo com um programa de comandos britânicos, focado em unidades de infantaria ligeira, bem como nos militares capacitados como paraquedistas. No início desta guerra, o Exército Árabe da Síria tinha seis batalhões independentes de forças especiais e outro batalhão de paraquedistas, que é a 104ª Brigada da Guarda Republicana.

Um grupo de Comandos, denominado “Leões Protetores”, subordinado 4ª Divisão Mecanizada, que opera no norte da Síria, foi estabelecido como tal em maio de 2014. No início desta guerra, equipamento das forças especiais sírias era tão pobre quanto aquele de outras forças do Exército Árabe da Síria e os Comandos não detinham mais a experiência em combate urbano, ou de combate anti-inssurrecional, adquirida em Beirute, em 1982. Naquela época,  unidades de Comandos sírios foram equipados com lançadores RPG-7, sistemas de mísseis anticarro 9K111 e Milan-1, que tinha causado enorme devastação entre os blindados israelenses.

A situação obteve significativa melhora quando da chegada na Síria da Força al-Quds, provinda do Irã, bem equipados e bem treinados, e dos combatentes do Hezzbollah libanês com grande experiência em guerra urbana. É interessante a lembrança que as forças especiais iranianas foram criadas e moldadas como espelho das suas equivalentes americanas e britânicas (Special Boat Service-SBS), nos tempos do Xá Mohammad Reza Pahlavi. Os comandos do Hezzbollah libanês, por sua vez, apresentaram-se armados com modernos mísseis anti-carro (9M113 KONKURS, 9M131 Metis-M e 9M133 Kornet-E) e lançadores de granadas RPG 7V e RPG-29, adquiridos em 2006, provados em uma experiência de combate sólida, com táticas assimétricas e de guerra urbana contra os Carros de Combate Merkava do exército israelense. E eles têm aperfeiçoado novas técnicas de combate anti-tanque extremamente eficazes.

Com a chegada de elementos Spetsnaz [1], além de instrutores russos, tudo que havia acabou por ser analisado e revisto de acordo com princípios de ação e regras claras. Apesar de o Irã ter investido fortemente no equipamento das forças especiais, tal equipamento não era de última geração, como dos russos. Fotos recentes de membros das forças especiais sírias apresentam-nos equipados exatamente como os russos, tecido de proteção térmica, camuflagem tipo MultiCam, com capacetes Fast Ops-Core que possuem um sistema optrônico integrado à prova de bala, dispositivos de visão noturna, colete com capuz e botas de qualidade, fuzis equipados com mira telescópica, padrão de precisão britânico AWM, com silenciadores, ou armados com fuzis de assalto AK-74M, equipado com um telêmetro a laser Alpha 7115, lançador de granadas automático AGS-30, ou de metralhadora.

O progresso havido no treinamento e equipamento dos Comandos sírios com armamento moderno pode ser visto na operação recente, que visou a recuperação da estrada Khanasser-Ithriyah,  única maneira de fornecer comunicação efetiva (logística) para as forças pró-governo na província de Aleppo.

Os Snipers

Lutas em áreas urbanas não podem ser concebidas sem o uso de muitos atiradores de elite, treinados e equipados com armamento moderno. No início da guerra, devido a ausência de pontos de observação, principalmente nas partes superiores dos edifícios e da presença de  franco-atiradores, os “homens-bomba” poderam facilmente escolher seus alvos e se explodir, ou penetrar veículos em postos de controle do Exército Árabe da Síria. Este último possuía alguns snipers e tinha apenas antigos modelos de rifles com miras telescópicas, como o Dragunov SVD e DRM (fuzil da NORINCO, empresa chinesa que produz uma copia do velho M-14 norte-americano). Posteriormente, o Exército Árabe da Síria dotou-se de cópias iranianas do fuzil austríaco Steyr HS.50 com mira telescópica, dos russos vieram os modernos Orsis T-5000 (7,62 milímetros), também com uma mira telescópica, e metralhadora KSVK com mira telescópica (12,7 mm).

Por iniciativa iraniana e russa criou-se uma escola na Síria para atiradores do exército, com instrutores libaneses (Hezzbollah), iranianos e russos. Os atiradores russos são considerados os melhores do mundo, graças aos seus centros de preparação, armas, camuflagem e formação. O foco para os atiradores sírios está exemplificado na máxima: “tornar-se invisível e ver sem ser visto”.

Kontact-5
CC T-72 equipado com blindagem reativa Kontact-5. As blindagens ERA mostraram-se muito efetivas no conflito sírio. Imagem: internet.

Viaturas blindadas e os corpos mecanizados

Quando foi empregado durante a Segunda Guerra Mundial, a finalidade do tank era de atacar, quebrar as barreiras e as linhas de defesa do inimigo graças à proteção de sua armadura, do poder de fogo e da alta mobilidade. No nosso tempo, unidades equipadas com sistemas de mísseis antitanques são muito menos caros do que as unidades de tanques, cuja ação é difícil em um ambiente hostil saturado com armas antitanque. Os blindados enviados para restaurar a ordem, sem um exame aprofundado do âmbito de ação, desprovidos do apoio da infantaria e forçados a operar no meio das aldeias, acabaram por cair em emboscadas sob o fogo de lança-granadas portáteis e mísseis antitanque. Dezenas de milhares de sistemas de mísseis antitanque BGM-71 TOW, norte-americanos, Milan-2, franco-alemão, bem como do croata lança – foguetes M-79 Osa, foram introduzidos secretamente na Síria pelos serviços de inteligência da Turquia, Arábia Saudita, França e dos Estados Unidos.

Os blindados sírios não exibiam proteção ativa, como as  placas ERA, montado na parte frontal e na parte superior da torre, ou sistemas coletores que permitem cegar e confundir a orientação dos mísseis antitanque, ou sistemas de proteção ativa, com sensores que ativam a intercepção dos mísseis antitanque e possa destruí-los antes que eles atinjam o escudo (ERA). Devido a estas deficiências, perderam-se Carros de Combate por  miudezas,  perfurados que foram com um golpe direto. E vendo-os destruídos, ou danificados às centenas, o Exército Árabe da Síria teve que se adaptar, empreendendo soldas de  chapas de aço e montagem de placas para incorporar ERA com o intuito de neutralizar os impactos cumulativos.

Após a sua chegada à Síria, os instrutores militares russos também descobriram que um dos maiores erros que o Exército Árabe da Síria havia cometido era o abandono do blindado danificado. Os russos perceberam que a maioria dos que foram abandonados foram reparados por militares turcos especialistas em blindados, que os levaram até aos jihadistas, ou que foram usados ​​como baterias de artilharia fixa para fortificar posições capturadas. Portanto, o Exército Árabe Síria aumentou o número de subunidades de reboque e prontificou a  evacuação dos blindados danificados, bem como levantou e equipou oficinas de reparos.

No início de 2016, os russos forneceram aos sírios, para uso do seu  exército cerca de 20 tanques T-72B3 e T-90S, que têm uma proteção reativa eficaz contra  os mísseis antitanque norte-americanos BGM-71 TOW. O tanque T-90S tem sido utilizada na composição de destacamentos avançados para quebrar as defesas das jihadistas, como foi visto em fevereiro de 2016, durante a ofensiva para liberar a cidade de Kuweires, junto de Aleppo. Embora tenham sido integrados no Exército Árabe Sírio, os tanques T-90S foram pagos pelo Irã e estão sendo usados ​​por tripulações iranianas.

A Artilharia

Além dos blindados capturados ao Exército Árabe da Síria, os extremistas islâmicos receberam lotes de caminhões equipados com artilharia, metralhadoras pesadas, lançadores de foguetes, metralhadoras leves e armas de pequeno calibre, o que lhes permite exibir uma grande mobilidade e, assim, a possibilidade de explorar o efeito de surpresa de maneira contumaz. Para neutralizar essas metas, então dispostas em uma área limitada seriam necessárias munições inteligentes, algo que o Exército Árabe da Síria não dispunha. Os russos forneceram o “PRP-4A Argus” para a artilharia expedicionária, que determina as coordenadas dos sistemas de artilharia para o fogo de contra-bateria (artilharia inimiga), blindados de reconhecimento inimigos, bem como a posição dos grupos isolados de franco atiradores, com a marcação fornecida de forma automática por telêmetros lasers conjugados. Além desses equipamentos, o Exército Árabe Sírio recebeu lançadores de mísseis dotados de ogivas termobáricas (220 mm) TOS-1 “Buratino”, que apresenta uma taxa de fogo de 24 rodadas em 7, ou 15 segundos. Uma salva de TOS-1 abrange uma área de dispersão de fogo de aproximadamente 200 metros por 400 metros.

Com a chegada dos instrutores da Rússia para a Síria o padrão foi elevado para o conceito de feixe laser dentro do Exército Árabe da Síria, com o uso dos mísseis  guiados KM-2 Krasnopol. Este sistema precisa de um operador para o dispositivo LTD (laser designador de alvo) que ilumina o alvo com o laser de um veículo blindado. Abrangendo a área de 2 quilômetros de comprimento por 1,6 km de largura, ao redor do alvo, o sistema de orientação de mísseis Krasnopol é direcionado para o alvo iluminado pelo laser.

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Su-34 sendo abastecido para mais uma surtida. A Força Expedicionária Russa mostrou-se vital para a virada da maré do conflito. Imagem: internet

Aviação de combate

Até a chegada do contingente russo, a força aérea síria não dispunha de sistemas para orientação de armas destinadas ao ataque com alta precisão, capazes, por isso,  de garantir um apoio para as tropas terrestres. Por essa razão, a aviação síria utilizava principalmente foguetes não guiados de  57mm e bombas convencionais dos modelos FAB-50 e FAB-100, por sua vez lançadas em mergulhos na altitude compreendida entre 1 500 e 3 000 metros. Portanto, as aeronaves sírias operavam dentro da faixa que as tornavam vulneráveis ​​ao fogo das peças de artilharia de 23 e 30 mm, em poder dos islamistas e bem dentro do alcance dos mísseis portáteis terra-ar (MANPAD), o que explica as numerosas perdas de aeronaves por parte da aviação síria.

Enquanto isso, 21 bombardeiros Su-24MK sírios foram modernizados na Fábrica No. 514 ARZ em Rzhev, Rússia, subindo de nível para o padrão Su-24M2, equipados com sistemas de navegação e de guiamento para armas de precisão (PNS-M), tal como os modelos russos desdobrados para a Base Aérea Hmeymim. Em 2015, a Rússia entregou motores aeronáuticos e aviônicos, dentre outras peças para modernizar 64 MiG-23 MLD, trazendo-os ao nível MiG-23-98. O MiG-23 tem os sistemas OLS-M, da classe LANTIRN para navegação noturna, detecção de infravermelho dos alvos terrestres e orientação voltada para vários tipos de armas inteligentes, tais como aqueles usados ​​por bombardeiros táticos russos instalados na Síria.

Os Su-24 e MiG-23 da Força Aérea da Síria, podem agora executar os bombardeio de precisão necessários, dia e noite, a partir de altitudes em que estão fora do alcance dos mísseis terra-ar portáteis. Então, conseguem, por exemplo, destruir postos de comando subterrâneos que jihadistas haviam construído em todos os lugares com o uso de bombas dotadas de ogivas de penetração. Para atingir as tropas terrestres inimigas, ao contrário do ano anterior, já não se faz mais necessário o uso de barris explosivos (bombas barril) largados de helicópteros, que de qualquer forma seriam (os helicópteros) alvos passíveis de serem destruídos por sistemas antiaéreos do tipo MANPAD.

Valentin Vasilescu

[1] Spetsnaz: é um apelo genérico, nascido na antiga URSS, que continua hoje a designação de grupos de intervenção ou forças especiais de vários órgãos ou serviços armadas russas do Ministério do Interior e Justiça, ao FSB e as diferentes ramos das forças armadas. Nota pela Rede Voltaire.

TOW-2A VS. T-90: análise detalhada do evento

Por: Viktor Murakhovsky.

Fonte Original : Gazeta.ru  

Adaptação: César A. Ferreira

A Síria tem visto muitos tipos de mísseis anti-tanque, armas guiadas (ATGMs) e armas anti-tanque leves, que estão sendo utilizados no seu território. Há aqueles da era soviética como da série de mísseis FAGOT/ FAKTORIYA e KONKURS, bem como o KORNET , mais moderno, dentro da dotação do EAS – Exército Árabe da Síria. Do outro lado temos o  TOW-2A, fabricado nos EUA, que foi e provavelmente está sendo neste momento entregue para a chamada “oposição moderada”, pelos EUA, e também pela Turquia e Qatar, em favor dos grupos islamitas. Há também os ATGMs chineses e iranianos, que são utilizados por militantes, as forças do governo e combatentes curdos. O RPG-7, leve, é mais amplamente usado pela infantaria em armas, incluindo as suas cópias chinesas e iranianas, além do descartável RPG-22.

Os mísseis TOW-2A, de origem norte americana são sem dúvida alguma, uma das armas mais perigosas usadas contra tanques sírios. Aqueles que são utilizados na Síria proveem de vários lotes de fabricação. Alguns dos anos 90, outros muito mais recentes, exibindo marcações de 2012-2013. Destes, quase todos são da moderna variante TOW-2A dos quais várias dezenas de milhares foram fabricados nos EUA e exportados para vários países. Todos são guiados por fio, exceto a versão Aero-RF orientada por rádio-comando, que não foi vista na Síria. Os insurgentes tendem a filmar o emprego em combate do míssil  TOW como prova, para receber as recompensas oferecidas pela destruição de equipamentos sírios.

O míssil é guiado utilizando um dispositivo de visão optrônica comum. A mira é colocada em alças, o míssil é lançado, e o operador continua a manter a mira no alvo. O dispositivo de vista contém um chamado coordenador, que acompanha o traçado (trajetória) do míssil por uma lâmpada de xenon e um emissor infravermelho, localizado na cauda do míssil. Dependendo do nível de desvio em relação à linha de visada, o coordenador gera correções que são transmitidos através do fio. O carretel de fio situa-se no próprio míssil. Muitos mísseis usam de princípios semelhantes, incluindo aqueles da era soviética. Não há necessidade alguma de iluminar o alvo, ou de marca-lhe a distância. TOW-2A faixa máxima é 3.750 m, que abrange a uma velocidade subsônica de 250-260 metros/s.

O TOW porta um conjunto de carga, na forma de uma ogiva. O nariz exibe uma protuberância, na forma de uma antena que possui a função detonar a blindagem reativa, presente no alvo como elemento de proteção. A carga principal é 152 milímetros de diâmetro e pesa cerca de 6 kg, o que permite uma penetração da ordem de 850-900 mm de uma blindagem homogênea  aço atrás da proteção reativa.

O TOW-2A foi usado para destruir um helicóptero Mi-8 danificado, isto durante a operação de resgate ao piloto do Su-24M2 abatido pela THK. O míssil pode ser usado contra vários tipos de alvos, incluindo helicópteros voando baixo. Os ATGMs contemporâneos, incluindo os russos, possuem rastreadores automáticos de alvos o que permitem ao operador não precisar se preocupar sobre o acompanhamento manual do alvo. Carros de Combate T-72B3 russos, que pode lançar mísseis guiados, têm desses rastreadores. A destruição do alvo na forma de um Carro de Combate é praticamente garantida se ele for atingido por um míssil deste na lateral, ou na parte traseira. Na parte frontal o Carro de Combate, em geral, possui suficiente proteção para suportar tais acertos.

O que vemos no vídeo? Vemos um modelo de 1992 do T-90 com uma torre cast. Isto é muito evidente a partir da presença de Shtora e a forma da escotilha do artilheiro. Os Carros de Combate T-90 do modelo 2004 tem uma torre soldada com um nível mais elevado de proteção. O Carro de Combate é protegido pela Kontakt-5, uma blindagem reativa. A sua aparência e espaço é demandada pela proteção da blindagem disposta em camadas. Pode-se ver que o míssil atingiu “o rosto” da torre, na dianteira esquerda, provocando a detonação da Kontakt-5, mas, aparentemente, não conseguiu penetrar a armadura principal.

A tripulação do tanque havia negligenciado os seus deveres no campo de batalha: as escotilhas estavam abertas, o Shtora não estava ligado. Isto sugere que a tripulação não tenha sido muito bem treinada. Têm-se informações sugerindo que as tripulações sírias não são treinadas na Rússia, mas no local. Há especialistas russos na Síria, mas eles trabalham como instrutores na base Ithriyah. A explosão de uma ogiva 6 kg naturalmente causou explosão considerável pressão que penetrou na escotilha aberta, o que levou o artilheiro atordoado para saltar para fora do tanque. Caso a escotilha estivesse fechada, ele não teria sofrido com o excesso de pressão. A proteção frontal do Carro de Combate é várias vezes maior do que a proteção lateral. Os tanques soviéticos e russos são projetados para suportar acessos por maioria de munições a partir do aspecto frontal, em outras palavras, dentro do arco de 60 graus à frente.

A tripulação do Carro de Combate exibiu falta de treino, e a forma como o tanque estava sendo utilizado deixa muito a desejar. Carros de Combate devem ser parte de equipes de armas combinadas e a operar próximo do apoio proporcionado pela infantaria. Como se pode perceber, a tripulação não detectou o lançamento do míssil. Se, ao menos três tanques, ou um pelotão, estivessem operando em conjunto, mutuamente interligados em seus campos de visão e fogo, e se a infantaria realizasse reconhecimento armado à frente dos tanques, a tripulação míssil teria sido destruída imediatamente após o lançamento. O tanque também não faz nenhuma tentativa para manobrar. Um único Carro de Combate, isolado, como quem está sentado, é um alvo ideal.

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Ilustração de como aparece o míssil no visor, quando do ataque com um míssil  de orientação beam rider. Imagem: Gazeta.ru

O vídeo foi filmado em Sheikh-Akil noroeste de Aleppo, onde os “Falcons” da montanha Zaviya estão operando como parte do 5º Corpo do Exército Livre da Síria. Deu-se um reconhecimento vigoroso por combatentes Khazaras e Afegãos. Houve a tentativa de capturar Sheikh-Akil, mas foram repelidos a toda volta. Os  vídeos posteriores da mesma cidade não mostram o T-90 destruído, embora haja vídeos que mostram a retirada das tropas e dos equipamentos. Isso significa que o tanque permaneceu no campo de batalha, ou dele foi evacuado, retirado. Em termos pessoais creio que o tanque permaneceu móvel e a tripulação tenha sobrevivido, embora seja possível que alguns de seus dispositivos de observação tenham sido danificados.

O Shtora-1 é equipamento padrão em um Carro de Combate T-90. Os dois projetores montados na torre emitem radiação modulada nas partes ópticas e no campo infra-vermelho do espectro. O sistema suprime os coordenadores optrônicos dos ATGM a uma distância de 2-2,5km. Os sistemas de rastreamento dos ATGM recebem sinais falsos dos emissores do Shtora de tal maneira que os mísseis passam a receber correções de curso inadequadas, o que os levam a voar para o lado, ou simplesmente deixar de funcionar. O Shtora tem uma probabilidade de sucesso de cerca de 80-90% contra um ATGM. É muito eficaz contra mais velhos, caso MILAN, HOT, TOW, FAGOT, KONKURS, e outros. Mas o TOW-2A exibe não só uma lâmpada de xénon, mas também um emissor de infra-vermelho, que emite um sinal codificado, fazendo com que o Shtora se torne menos eficaz contra este modelo do míssil. É por isso que Shtora não foi incluído nos modelos mais recentes da Rússia, por exemplo, o modernizado T-90SM ou o T-72B3.

Existem sistema de detecção de lançamento de mísseis modernos que operam no espectro UV, que podem ser instalado em UAVs e em veículos terrestres, mas até agora eles são experimentais. Tais sistemas detectam a pluma de um motor foguete. Podem emitir avisos de lançamento, permitindo que a tripulação aponte as armas do tanque em relação à fonte do lançamento e ejete uma tela de aerossol capaz de esconder o tanque de sistemas de detecção ópticos e de infravermelhos.

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CC T-72 destruído por uma arma guiada anti-carro. Imagem: Gazeta.ru

Os veículos mais modernos, como o Armata, estão equipados com defesas ativas que podem abater o míssil em aproximação, a partir de distâncias da ordem de 3-5 m. Enquanto na luta contra a Síria têm-se visto modelo  T-90 de 1992, há no inventário russo  o modelo de 2004, o T-90A. Os T-72s são mais vulneráveis ​​contra ATGMs com ogivas em tandem. Eles podem ser modernizados utilizando kits applique  desenvolvidos pela Uralvagon, o que lhes aumenta a capacidade de sobrevivência.

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CC T-55 do Exército Árabe da Síria equipado com jameador optrônico de fabricação local. Imagem> Gazeta.ru

Deve-se acrescentar que os Carros de Combate do Exército Árabe Sírio e outros veículos blindados às vezes são equipados com “dazzlers”, ou sistemas desenvolvidos internamente com função semelhante ao Shtora, com a exceção de que fornecem um campo de proteção polivalente. Dado o fato de terem agora os sírios em sua posse vários TOW-2A capturados, podem desenvolver jammers capazes de funcionar contra esses mísseis, pelo fato de se saber as frequências e a variação do espectro na qual estão calibrados os rastreadores do referido ATGM.

A presença de T-90s, ou Su-35s não irá por si trazer um grande avanço na luta, no entanto, se os tanques forem usados ​​com habilidade, em estreita cooperação com outras armas e de forma concentrada, em massa, a eficácia de suas operações irá aumentar.

Panorama do conflito sírio: 29.02.2016

Fonte: Al Masdar

Autor: Leith Fadel

Adaptação: César A. Ferreira

Corpo de importante comandante do Hezzbollah é recuperado

Durante a semana passada começaram a correr os rumores que se estenderam por todo o Líbano, de que um dos principais comandantes de campo do Hezzbollah havia sido morto durante a batalha por Khanasser, sudeste de Aleppo. Estes rumores foram de confirmado”a “se confirmar” em questão de horas, já que o destino de Ali Fayyadh, também conhecido como Alaa Al-Bosnia, foi debatido por partidários e oponentes.

Entre os rumores que se havia no Líbano e na Síria, estava a suposta captura de Ali Fayyadh pelo Estado Islâmico; estes rumores foram de prontos negados pelos jornalistas favoráveis ao Hezzbollah, mas que foram pelos equivalentes oponentes veiculados à exaustão.

 Pela manhã, elementos da “Força Tigre”, junto com combatentes do Hezzbollah, colocaram a termo estes rumores, quando recuperaram o corpo do comandante Ali Fayyadh, bem como os corpos de outros combatentes sírios, mortos durante a batalha de Al-Hammam, ao sul de Khanasser.

Os jornalistas ligados ao Hezzbollah confirmaram que o corpo do comandante Ali Fayyadh já se encontrava em sua posse (Hezzbollah), e que o mesmo retornava para a sua cidade natal para um enterro apropriado.

Província de Idlib

Comandos sírios aproximam-se da cidade estratégica de Idlib, dela distam 15 km.

Em maio passado (2015), a 87ª Brigada, pertencente à 11ª Divisão Blindada, evadiu-se vergonhosamente da cidade de Jisr Al-Shughour, citando em sua defesa a falta de cobertura aérea como razão principal da sua retirada prematura das cercanias da povoação de Ghaniyah. A realidade era o fato de as Forças Armadas da Síria não estarem preparadas para a ofensiva em grande escala lançada pela Jaysh-al-Fateh (Exército da Conquista) durante a primavera passada; isto foi evidente em sua retirada massiva da província de Idlib após um mês e meio de luta, somente.

Um avanço rápido cinco meses mais tarde: a Força Aeroespacial Russa começou a sua campanha aérea em todo o país para ajudar as Forças Armadas da Síria a recuperar a iniciativa (ofensiva). Sem saber naquele momento, estes ataques seriam mais tardes exitosos, tornando-se o elemento vital do qual necessitava as forças governamentais para retomarem as grandes porções de territórios das províncias de Aleppo e Latakia. Agora, as Forças Armadas da Síria recuperaram quase toda a totalidade das referidas províncias, incluindo vários vilarejos que eram, então, quase intocáveis antes da ofensiva em grande escala. A 103ª Brigada da Guarda Republicana e seus aliados impõem um controle total sobre o vilarejo de Ayn Al-Bayda, que dista uns 15 km do sudoeste de Jisr Al-Shughour.

À medida que derrete a neve no campo, ao noroeste da província de Latakia, Jabal Al-Akrad, montanhas curdas, vê se inundada com soldados do Exército Árabe da Síria. Estes soldados se preparam para aquilo que pode se converter no retorno épico do EAS a Jisr-Al-Shughourt, depois da perda desta cidade a apenas nove meses.

 Província de Aleppo

As forças governamentais reforçam a rota para Aleppo depois da retirada do Estado Islâmico.

Nas últimas 24 horas, a Força Tigre do Exército Árabe da Síria, em estreita coordenação com o Hezzbollah, Liwa Al-Quds (Brigada Jerusalém), Forças de Defesa Nacional (FDN) e a Guarda Republicana, avançaram em silêncio pela estrada Aleppo-Hama, em busca da captura de várias colinas e outros pontos fortes do Estado Islâmico na proximidade do vilarejo de Al-Hammam. No sábado, o EI tentou capturar o vilarejo de Al-Hammam, na forma de um contra-ataque, contra as Forças Armadas da Síria e aliados; todavia, este assalto, intenso, foi repelido após várias horas de enfrentamentos que culminaram em número alto de mortos de ambos os lados (dentre os mortos estava o comandante de campo do Hezzbollah, Ali Fayyadh).

 No dia seguinte (domingo), a Força Tigre e seus aliados aproveitaram a oportunidade para levar a cabo sua própria ofensiva no campo de Al-Hammam; esta contra ofensiva cobriu-se de êxito, pois as forças do governo foram capazes de assegurar Al-Hammam, bem como de aumentar a zona de proteção ao redor da autoestrada Ithriyah-Khanasser. Segundo uma fonte militar da Força Tigre, as Forças Armadas da Síria capturaram as montanhas que delimitam a localidade de Al-Hammam no seu flanco noroeste.

Com estas elevações capturadas, as Forças Armadas da Síria e os seus aliados obtiveram um alívio ao longo da estrada Ithriyah-Khanasser após o perigo de tela cortada e bloqueada, mais uma vez pelo Estado Islâmico. Ao norte de Al-Hammam, ativistas de mídias sociais da “oposição síria” informavam que o Estado Islâmico havia capturado a estratégica localidade de Khanasser. Hoje, entretanto, um correspondente local, em pleno campo de batalha refutou tais afirmações, que se constituíam de pura invencionice.

Exército Árabe Síro abre oficialmente a rota de abastecimento de Aleppo

Apenas 24 horas após declarar que a rota estratégica de abastecimento de Aleppo estava sob o se controle, o Exército Árabe da Síria (EAS), havia aberto tanto a rodovia Ithriyah-Khanasser, como logo após a estrada Sheikh Hilal-Ithriyah, assim que foram retiradas as minas (IED) plantadas pelo Estado Islâmico nas citadas rodovias. Com uma só rota até a província de Aleppo, o governo sírio necessitava reabrir esta estrada devido ao apoio logístico necessário para o Exército Árabe da Síria e permitir a continuação do comércio interior, o comércio civil.

O Estado Islâmico abandonou os arredores de Al-Safira, antes de ser cercado, isto permitiu ao grupo terrorista transferir 800 dos seus combatentes desta zona para fora da planície de Khanesser, donde poderiam lançar uma contra ofensiva contra tropas governamentais na semana passada.

A ofensiva surpresa resultou em algo exitoso para o Estado Islâmico (apesar de efêmero), dado que foram capazes de cortar e bloquear a única rota de abastecimento do governo sírio para Aleppo e província em dois pontos diferentes. Tanto que obrigou o Exército Árabe da Síria a deter o seu avanço a leste e oeste de Aleppo e de Al-Raqqa. Por desgraça as forças governamentais não podem descuidar-se desta área, bloqueada pelo Estado Islâmico mais de uma ocasião, e que fora cortada, oficialmente por duas vezes nestes últimos cinco meses. A Força Tigre e os seus aliados, por agora, se desdobram para ampliar a faixa de proteção ao redor da rodovia, para eliminar a ameaça do Estado Islâmico na região.

Província de Homs

Oito vilarejos foram libertados pelas forças governamentais das mãos do Estado Islâmico.

Na manhã de segunda-feira, no campo oriental da província de Homs, o 18º Batalhão de Carros Blindados, da 67ª Brigada Mecanizada, respaldado por infantes das Forças de Defesa Nacional (FDN) e Kataebat Al-Baas (Batalhões Al-Baas), impôs um controle total sobre mais de oito elevações dos montes Jazal, após violentos combates contra o Estado Islâmico. Segundo um correspondente presente no campo de batalha, nas cercanias das montanhas Al-Shaar, as Forças Armadas da Síria lançaram um assalto inesperado surpreendendo os militantes do EI, que se encontravam nos topos das colinas orientais das montanhas Jazal; este ataque obteve êxito extraordinário em vista que estas oito elevações se encontravam abaixo do tacão do grupo terrorista havia 13 meses.

As montanhas Jazal estão situadas estrategicamente próximas da fronteira entre as províncias de Homs com a de Hama. Sua proximidade com a desértica cidade imperial de Palmira (Tadmur), faz que se torne um objetivo importante para estar sobre controle das Forças Armadas da Síria. Além da libertação destes oito cumes em Jabal Jazal, as Forças Armadas da Síria voltaram a adentrar o pequeno vilarejo de Al-Dawa, nas cercanias de Palmira, após outra intensa batalha com o Estado Islâmico.  Recentemente esta frente desértica e o campo oriental da província de Homs vêm se tornando cenário frequente de enfrentamentos encarniçados entre o EI e as forças governamentais. Isto, após a primeira marcha de assalto ao oeste de Raqqa, três semanas atrás.

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Área urbana flagrada durante bombardeio. Imagem: internet,

Província de Damasco

Exército Árabe Sírio captura Al-Fadiyaya, arredores da grande Damasco.

Nesta segunda-feira, na região oriental de Ghouta, Grande Damasco, o 416º Regimento da Guarda Republicana, respaldado por elementos da Força de Defesa Nacional (FDN) e do Exército de Libertação da Palestina (ELP), acabaram por impor o controle total sobre o vilarejo de Al-Fadiyaya, nas proximidades da Base Aérea de Marj al Sultan, após violentos combates com membros da Jaysh al-Islam (Exército do Islã) e Jabhat al-Nusra (Al-Qaeda na Síria). A povoação de Al-Fadiyaya situa-se ao norte da referida base militar e a sua captura acaba por preservar a segurança do flanco norte desta base aérea e do campo de pouso para helicópteros, daquilo que havia se tornado uma fonte de projéteis, disparos de morteiros e de foguetes inimigos.

Como parte deste avanço feito de surpresa, as Forças Armadas da Síria lançaram uma ofensiva de grande escala na região sul do Ghouta Oriental, justamente a área em que há a maior concentração de combatentes da Jabaht al-Nusra, fora de Hajar a-Aswad e das montanhas Qalamoun, na Grande Damasco.

Nota do Editor: Leith Fadel é um correspondente do Al-Masdar News e tem suas reportagens repercutidas como fonte de informação credível do conflito sírio. Nem sempre o faz no formato de matéria jornalística, por comunicar eventos em tempo real no Twiter. O Al Masdar fornece três opções de linguagem para o leitor, inglês, espanhol e russo.

 

Turquia força violação do cessar fogo na Síria

Por: César A. Ferreira

A Turquia, movido pelo desespero frente ao desabar dos seus interesses em território sírio, perdeu todo o pudor possível passou a apoiar, de modo franco, a invasão da Síria a partir do seu território por extremistas da international jihad filiados ao Estado Islâmico. A ação se deu na data de 28 de fevereiro ultimo. Aproximadamente 100 dos combatentes do terror invadiram o território  fronteiriço curdo, especificamente a cidade de Kobane, palco de intensos combates entre 2014/2015, formando uma pinça que visava a cidade pelo norte e sul, com apoio de fogo de artilharia de campanha (155 mm) provindo da Turquia, fornecido, por óbvio, pelo exército turco.

O referido ataque foi sustado pelos defensores, resultando em aproximadamente 70 extremistas mortos, segundo informantes curdos. Apesar de a incursão ter sido dominada, ela ganha importância por ser um ataque de militantes do EI efetuado com explícito apoio turco contra um bastião do YPG/YPJ, grupo armado curdo que conta com apoio dos EUA. A artilharia turca faz com constância fogo contra localidades fronteiriças sírias, caso de Kobane, Tel Abyad e proximidades de Az’ az, portanto, percebe-se, que para ser alvejada uma determinada localidade, o critério único adotado pelos turcos é estar esta mesma localidade em mãos dos combatentes curdos. Todos os demais fatores são secundários.

O apoio da artilharia de campanha turca foi denunciado pelo Chefe do Centro Russo Para Reconciliação de Beligerantes, Tenente-General Sergei Kuralenko, segundo este oficial, a informação do apoio de fogo da artilharia turca os insurgentes provindos da Turquia foi verificada e confirmada através de vários canais, inclusive por “representantes das forças democráticas da Síria”. Segundo outro informante, Redura Khelil, representante curdo para contatos com a imprensa, os defensores curdos “foram capazes de repelir o ataque, sendo os agressores cercados e destruídos”. Não houve citação alguma sobre baixas curdas.

Campo de batalha na Síria, relatório, 26.02.2016

Fonte: Warfiles

Adaptação: César A. Ferreira

 O cessar-fogo na Síria está para começar nesta meia-noite.  A força aérea síria está distribuindo panfletos sobre áreas ocupadas pelo inimigo, onde consta instruções especiais para os comandantes rebeldes sobre aquilo que devem preencher, para então se transferirem ao centro de cessar-fogo de Hmeimim.

Moscou anunciou que os ataques aéreos contra as posições rebeldes continuará até às 10 horas do horário moscovita, o que corresponde à meia-noite, no tempo de Damasco. Eastern Guta, Homs norte, e Aleppo ocidental experimentaram os mais pesados ​​ataques aéreos do dia.

Província de Aleppo

O EAS – Exército Árabe Sírio, liberou totalmente a localidade de Hanasser. Antes da libertação, as forças sírias destruíram um grupo de rebeldes na aldeia de Rasm an-Nafal.

O EI – Estado Islâmico não dormiu muito na noite passada, uma vez que foi continuamente bombardeado por aviões russos que voaram em mais de 30 missões no apoio às tropas sírias.

Após libertar Hanasser, as Forças Tigre,  uma força de comandos, começou a libertar outras cidades ao longo da vitalmente  e importante rota de abastecimento para Aleppo. A brigada de elite apoiada por equipas das Forças Gueopardo 03 e 06, bem como as unidades da Guarda Republicana, do Hezbollah, e das Forças de Defesa Nacional, conseguiram libertar cinco aldeias ao longo destes dois últimos dias.

Nesta manhã, tropas sírias de operações especiais expulsaram o inimigo das aldeias Shilallah al-Saghira, Minaya e Jokhah em operações (de ataque) relâmpago. O eixo de progressão partiu de aldeias recentemente libertadas.

Em seguida, as unidades de elite lançaram um ataque contra Hawaz cuja captura levará à ocupação das elevações existentes no entorno de Raheep. O contra-ataque rebelde contra El-Hammam falhou. Também foi relatado que os últimos vilarejos ao longo da rota Hanasser-Aleppo foram libertados, abrindo assim a estrada que permite o fluxo de abastecimento para Aleppo. O inimigo foi forçado a recuar a partir de Raheeb, Rawahayb, Rasm al-Tineh e Muntar. As formações sírias começaram a varredura para limpar a estrada secundária Sheiha Hilal-Ithriyah, até então bloqueada pelos militantes.

Dá-se que as forças dp EI remanescentes na área poderiam vir a cair em uma armadilha. Eles possuem apenas uma única rota de fuga,  estreita, que os leva para Raqqa, via esta que pode ser cortada a qualquer momento. Se eles estão propensos a sobreviver, terão de recuar, caso contrário, serão mortos pela combinação das armas: de unidades de elite sírias e aeronaves de ataque russas.

A troca de tiros é contínua na própria cidade de Aleppo. Os confrontos mais graves ocorreram nos distritos de Beni-Zeid e Han al-Asal.

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Carro de Combate T-72, do EAS, promove apoio à infantaria. Fonte: Warfiles.

Província de Hama

Não foram realizadas grandes operações terrestres. Aeronaves de ataque sírias lançaram ataques contra a Al-Qaeda (Jabhat al-Nusra) concentrações de militantes perto de Wadi al-Azib, destruindo uma série de posições fortificadas e peças várias de equipamento.

Província de Deir ez-Zor

Os terroristas continuam a sondar as defesas da base aérea. Houve confrontos perto da aldeia de Beit-Dhem e o posto de controle ao sul.

Houve confrontos breves na capital provincial perto de al-Afri e ad-Jbeil. Os terroristas sofreram perdas graves após uma coluna de abastecimento ter sido emboscado.

Província de Homs

Os ataques aéreos sírios atingiram três sedes de militantes, destruindo um número considerável de veículos em Palmira. Jaysh al-Fath (entidade terrorista) foi bombardeada perto de Telbis onde vieram a perder um posto de comando.

Na capital da província ocorreram  escaramuças breves, registradas nos distritos de Al- Arfi e Hell Jbeil . Aqui, os terroristas sofreram perdas severas, especialmente quando foi feito fogo sobre os comboios de abastecimento, então emboscados.

Províncias de Latakia e Idlib

A 103ª Brigada da Guarda Republicana do Exército Árabe Sírio, calaram as últimas resistências nas áreas da fronteira com a província de Idlib. Ain al-Baida, localizada nas montanhas curdas foi libertada na parte da manhã. Os Comandos, desta maneira, acabaram por penetrar no território da província de Idlib, com isto,  as forças sírias avançaram 3 km em direção à fronteira com a Turquia. Os islamitas estão controlando apenas uma pequena área, uma franja de poucos quilômetros quadrados próximo a Kobane e al-Sirmaniyah.

As aeronave da Força Aérea da Síria bombardearam várias bases da Jabhat al-Nusra, destruindo muito da infra-estrutura dos terroristas, além de vários equipamentos (material rodante).

 

 

Os segredos por trás dos avanços sírios

Por: César A. Ferreira

Não se pode atribuir apenas ao poder aeroespacial russo as recentes vitórias das armas sírias, pois a vitória depende, sempre, da infantaria, necessária para ocupar o terreno.

Pode-se perguntar e seria justo fazê-lo, do motivo que levou uma força em retraimento, que cedia terreno frente à pressão inimiga, passar de uma hora, para outra, em uma força em progressão, vitoriosa, cujo moral se eleva a cada metro conquistado. Pois, isto se deu com o Exército Árabe Sírio, cuja desagregação era prevista por alguns “especialistas” para as calendas de outubro de 2015, mas que, no entanto, exibe-se hoje robustecido e aguerrido. Os motivos para isso são muitos, complexos, mas compreensíveis e uma análise rápida permitirá ao leitor formar um panorama capaz de desvendar os segredos por trás desta nova dinâmica combativa do EAS.

Antes do suporte russo

O Exército Árabe Sírio começou a guerra como toda força preparada para combates contra equivalentes regulares em campo aberto. Isto é interessante observar, pois o Exército Árabe Sírio contou em sua história com a utilização do ambiente urbano como um elemento vital para o sucesso do  combate travado contra as forças invasores da IDF no Vale do Bekaa em 1982. Todavia, nesta presente “guerra civil”, que então se iniciava, o EAS viu-se surpreendido, e respondeu com erros clássicos, tal como o uso isolado de Carros de Combate em vielas estreitas, com edificações altas, portanto, propícias à emboscadas, que ocorriam com certa frequência dado que a experiência dos combatentes insurgentes neste tipo de combate era muita, pois não pouco deles serem oriundos da Chechênia, ou seja, veteranos dos confrontos contra o Exército da Federação Russa.

A presença de instrutores iranianos da Guarda Revolucionária Islâmica ajudou aos sírios a recompor suas formações, reciclar e rever a formação de comandantes de campo, focando no aprimoramento dos oficiais de patente mediana, tenentes e capitães, além da adoção de conceitos que premiavam as decisões advindas do aprendizado provindo do combate, algo que diferia, em muito, da verticalidade típica do comando de estilo soviético, ainda muito presente e apreciado nas armas sírias.

Apesar dos esforços dos instrutores da Força Quds, o problema do treinamento entre os infantes sírios persistia. Pouco além dos elementos da Guarda Republicana, Forças Especiais ou das Divisões Blindadas mais tradicionais eram capazes de exibir coordenação tática com a Força Aérea e a artilharia de campo. As ocorrências de deserções se avolumavam, bem como as reclamações constantes sobre soldo e material, reveladoras de uma moral declinante. Ainda assim, o regime conseguiu manter a linha costeira, Holms e Damasco, mesmo que subsistisse um foco ao sul da capital, bem como a perda da fronteira no sul, junto ao Golan, cedido para Frente Nusra devido ao providencial auxílio da artilharia da IDF.

O quadro desolador, todavia, detinha alguns fatores que permitiam observar o desenrolar dos eventos futuros com alguma esperança: a entrada no conflito de combatentes experientes do Hezzbollah, primeiramente na franja da fronteira libanesa, o comportamento da Força Aérea Síria, de extrema fidelidade, e da decisão curda (YPG/YPJ) de vir a dar combate a toda e qualquer facção extremista islâmica na Síria.

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A imagem reflete uma pira funerária, não é possível haver sobreviventes nesta barragem efetuada pelas baterias de foguetes TOS-1 Buratino. Imagem: internet.

O suporte russo

Como é bem sabido foi a partir de um comunicado do General Soleimani aos seus equivalentes russos, informando que as estradas para a costa estavam agora abertas, a partir da queda de Salma, bem como pela perda das elevações ao norte da província de Latakia para os rebeldes turcomanos, que se deu a decisão russa de enviar uma força expedicionária (grupo aéreo). Os turcomanos, é importante dizer, são uma minoria que até então se mantivera fiel, ou neutra no conflito, mas que fora armada pelos serviços secretos turcos e tomara posição contra o regime. Informado, Putin ordenou a intervenção russa, composta pelo efetivo aéreo, bastante limitado, e um grupo de fuzileiros navais, estes responsáveis pela defesa da base.

A presença russa na base de Hmeimeem é a parte visível deste apoio, mas não menos vital, porém não noticiado é o suporte logístico fornecido não só ao grupo militar presente, mas à Republica Árabe da Síria, como nação, representado na recuperação de estruturas de manutenção e reparo de blindados, então inoperantes, do envio de peças para manutenção e aumento da disponibilidade em rampa dos vetores da Força Aérea Síria, de armas como obuses e suas respectivas munições, em grande quantidade, o mesmo para bombas aéreas, cuja carência forçava a adoção de improvisações extremas, como a confecção de “bombas barril”. Soma-se ao suporte logístico o envio de derivados de petróleo, combustíveis e lubrificantes, vitais para um exercito em campanha, e acima de tudo, de equipamento para infantes, de coletes e capacetes balísticos a armas leves e munições. Forças Spetnaz, como elementos de ligação e designação em solo de alvos, também foram vistos, além da instalação de um centro de coordenação na Base Aérea de Hmeimeem. Os russos fizeram-se acompanhar por instrutores, visto que a desagregação do EAS, relatada por Soleimani não era de todo desconhecida pela vasta representação diplomática russa mantida na Síria, mas, a opinião deste diferia um tanto, pois pautados pela própria experiência na Chechênia, concluíram os russos que o problema do EAS era, sobretudo, moral, e que isto poderia ser resolvido se adotadas as medidas urgentes para fortalecer a arma necessária em uma campanha onde o combate urbano se faz presente: a infantaria.

A infantaria síria foi premiada com novos equipamentos individuais, como citado, formação mais acurada e severa, preparação psicológica, inclusive, para aceitação de baixas em combate, inevitáveis no confronto urbano, restabelecimento e aumento na capacidade de atendimento aos feridos, com ampliação das alas médicas/hospitalares e da regularização dos insumos médicos (remédios, bandagens e outros equipamentos), preparação específica dos médicos militares e civis, para focar além dos traumas, observando, também os atendimentos de ordem psicológica, respiratória e do trato gastrointestinal, males recorrentes em combates em ambientes urbanos.

Em relação à tropa em si, o reforço na qualificação do comando de pequenas frações, fraqueza já observada pelos iranianos, foi abordada como prioridade, bem como a elevação geral da capacidade do combatente sírio com reforço na disciplina e incentivo ao julgamento individual (iniciativa). Os melhores recrutas sempre são destinados às formações de elite do EAS, as quais frequentemente estão na linha de frente, ademais, atenção especial é focalizada na formação de elementos de ligação e designação de alvos, comunicação e sinalização, visto que suporte aéreo aproximado é tido como necessário, quando não fundamental. Outra constatação é a mimetização da flexibilidade das formações insurgentes pelo EAS, de tal maneira que a utilização de motocicletas, hoje, é tida como mais eficiente entre os combatentes governamentais do que entre os insurgentes. O uso de caminhonetes com canhões ZU/2 (23mm) montados na carroceria é comum, isto, sem abandonar a ação cirúrgica dos canhões de 30mm dos veículos blindados, apoiados pelas peças de 125mm dos Carros de Combate (T-72, T-90), que fazem uso de munição HE de maneira recorrente. Outra arma muito vista, é o uso das veneráveis “Shilkas” (ZSU-23/4), desprovidas de sensores e utilizadas como apoio a infantaria. Costumam ser mortais contra snipers, devido a precisão da plataforma e a mira secundária, óptica, mantida nos veículos.

TOS-1Buratino
TOS-1 Buratino em lançamento. Imagem: Sputnik News.

Refletindo a experiência russa na Chechênia, passaram os sírios, quando de fronte a um ponto forte no perímetro urbano, que por ventura não pode ser contornado, a varrer com canhões de tiro rápido os andares intermediários das construções, isto, quando tal edificação não é de maneira prévia um alvo visitado pelos bombardeiros russos, ou sírios. O uso do míssil Kornet contra fortificações é comum, devido ao fato desta arma conter uma versão com cabeça de guerra termobárica específica para este uso/alvo.  A coordenação com o efetivo aéreo é enfatizada, o que reflete, mês a mês, na melhoria do suporte aéreo aproximado (Close Air Suport –CAS, ing), em geral proporcionado por helicópteros de ataque Mi-24P/Mi-35M, ou por aeronaves Su-25. O reforço da Rainha das Batalhas, ou seja, a artilharia, nas formações sírias também se impôs como uma das chaves do sucesso. Veículos Lança – Foguetes BR-21 Grad e TOS-1 Buratino (terríveis contra forças dispersas e sem abrigo no campo, visto que realizam fogo de saturação de área) são visto com constância nos combates, o mesmo para obuses, devido a presença dos MSTA-B (2A65, 152mm, rebocado), o que elevou sobremaneira a capacidade dos grupos de artilharia de campanha do Exército Árabe Sírio.

Há muito que fazer. No tocante a infantaria faz-se necessário a elevação da qualidade combatente de uma maneira geral, dentro das formações, para se evitar a dependência constante do socorro fornecido pelas unidades de elite, estas de comprovada qualidade e experiência de combate, caso, por exemplo, da 103ª Brigada de Infantaria da Guarda Republicana, 4ª Divisão Mecanizada ou da Força Tigre. Um número maior de Carros de Combate T-90 seria desejável, bem como do reforço dos esquadrões de helicópteros de ataque. Entretanto, compreende-se, que o tesouro russo não é infinito, e que a guerra síria deverá ser ganha pelo seu povo, na forma do Exército Árabe Sírio, com o devido valor pago em sangue. Isto, aliás, explica o real motivo do exército turco em não entrar profundamente no território sírio: o terreno entrecortado, com a presença de vales e elevações favorece a um defensor determinado, caso do Exército Árabe Sírio, que agora se encontra bem dotado de armas ATGW…  Ou seja, a possibilidade de imobilização e destruição de colunas blindadas é real, e isto seria uma humilhação desnecessária para aquele que é em números o maior exército da OTAN.