Wheels and deals: fermenta a guerra na Casa de Saud

Por: Pepe Escobar (4.10.2017)

Fonte primária: Asia Times – Counterpunch; fonte em português: Blog do Alok.

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu.

De repente, a matriz ideológica de todas as variantes de jihadismo salafista passa a ser elogiada no Ocidente como modelo de progresso – porque mulheres sauditas afinal receberam permissão para dirigir carros. Mas só ano que vem. Mas só algumas mulheres. Mas só com muitas restrições.

O que é certo é que o momento para anunciar a novidade – que vem depois de anos de pressão de liberais norte-americanos – foi calculado com precisão, e aconteceu apenas poucos dias antes que o capo da Casa de Saud rei Salman apareceu para dois dedos de prosa na Casa Branca de Trump. O movimento de soft power foi coordenado pelo príncipe coroado, 32 anos, Muhammad bin Salman, codinome MBS, o Destróier do Iêmen; o rei só fez assinar.

A tática diversionista mascara graves problemas na corte. Uma fonte especialista em negócios do Golfo, com conhecimento íntimo da Casa de Saud e encontros pessoais frequentes com eles, disse a Asia Times que “as famílias Fahd, Nayef e Abdullah, descendentes do Rei Abdulaziz al Saud e sua esposa Hassa bin Ahmed al-Sudairi, estão formando uma aliança contra a ascensão ao trono do príncipe coroado.”

Não chega a surpreender, se se sabe que o deposto príncipe coroado Mohammed bin Nayef – muito considerado no Departamento de Estado dos EUA, especialmente em Langley [cidade onde está o quartel-general da CIA] – está em prisão domiciliar. Sua massiva rede de agentes no Ministério do Interior foi quase toda “dispensada de qualquer autoridade”. O novo ministro do Interior é Abdulaziz bin Saud bin Nayef, 34, filho mais velho do governador da Província Oriental marcadamente xiita, onde está todo o petróleo do reino. Curiosamente, o pai agora é subordinado do filho. MBS está cercado de príncipes sem qualquer experiência, todos com cerca de 30 anos, e afastando de si praticamente todos os demais.

O ex-rei Abdulaziz definiu a própria sucessão baseado na idade dos filhos; em teoria, se todos chegarem à mesma idade todos terão algum tempo de reinado, o que evitaria o banho de sangue historicamente habitual nos clãs árabes, em disputas pela sucessão.

Agora, diz a fonte, “já todos preveem que um banho de sangue é iminente”. Especialmente porque “a CIA está indignada por o compromisso negociado em abril de 2014 estar sendo descumprido, como se vê no fato de o maior fator antiterrorismo no Oriente Médio, Mohammed bin Nayef, estar preso.” Tudo isso pode levar a “ação vigorosa contra MBS, possivelmente no início de outubro.” E pode até coincidir com o encontro Salman-Trump.

O ISIS joga pelo livro (saudita)

A fonte de Asia Times especialista em negócios no Golfo destaca que “a economia saudita está sob estresse extremo, por efeito de sua guerra pelo preço do petróleo contra a Rússia, e estão tendo muita dificuldade para pagar os fornecedores. Essa situação pode levar à falência algumas das maiores empresas na Arábia Saudita. A Arábia Saudita de MBS vê o iate de US$600 milhões comprado pelo príncipe coroado, e o pai dele gastando US$100 milhões nas férias de verão, sempre nas primeiras páginas do New York Times, enquanto o reino sufoca sob aquela liderança.”

O projeto que é a menina-dos-olhos de MBS, o super propagandeado Vision 2030, visa, em teoria, a diversificar e afastar o reino da dependência dos lucros do petróleo e dos EUA, na direção de uma economia mais moderna (e política externa mais independente).

Na avaliação da mesma fonte, é tudo completamente sem sentido, porque “o problema na Arábia Saudita é que suas empresas não conseguem funcionar com a mão de obra local e dependem de expatriados, que constituem 70% ou mais dos empregados. A gigante do petróleo Aramco simplesmente não opera sem expatriados. Daí que vender 5% da Aramco para diversificar não resolve o problema. Se ele quer sociedade mais produtiva e menos empregos no próprio governo onde só se copia, terá primeiro de treinar e garantir emprego ao próprio povo.”

A também elogiadíssima venda pública de parte da Aramco, apresentada como a maior venda de ações de toda a história, originalmente agendada para o próximo ano, foi mais uma vez adiada – “possivelmente” para o segundo semestre de 2019, segundo funcionários em Riad. E ainda ninguém sabe onde serão vendidas as ações; a Bolsa de Nova York está longe de ser assunto decidido.

Paralelamente, a guerra de MBS contra o Iêmen e o ímpeto saudita a favor de mudança de regime na Síria e de reformatar o Oriente Médio Expandido, revelaram-se desastres espetaculares. Egito e Paquistão recusaram-se a enviar tropas ao Iêmen, onde o pervertido infindável bombardeio aéreo pelos sauditas – com armas dos EUA e Grã-Bretanha – acelerou a desnutrição, a fome e o cólera e configurou crise humanitária massiva.

O projeto do Estado Islâmico foi concebido como ferramenta ideal para levar o Iraque a implodir. Hoje já é de domínio público que o dinheiro para organizar a coisa partiu quase todo da Arábia Saudita. Até o ex-Imã de Meca admitiu publicamente que a liderança do ISIS “extraiu suas ideias do que está escrito em nossos livros, nossos próprios princípios.”

O que nos leva a maior e mais profunda contradição saudita. O jihadismo salafista está mais que vivo dentro do Reino, por mais que MBS tente fazer-se passar por líder liberal (fake) da linha “gatinha, deixo você dirigir o meu carro”. O problema é que Riad nunca, em tempo algum, cumprirá qualquer promessa que se aproxime de liberalização: a única legitimidade da Casa de Saud depende daqueles “livros” e “princípios” religiosos.

Na Síria, além da evidência de que a maioria absoluta da população do país não quer viver num Takfiristão, a Arábia Saudita apoiou o ISIS enquanto o Qatar apoiava al-Qaeda (Jabhat al-Nusra). E isso acabou num banho de sangue de fogo cruzado, com todos aqueles tais inexistentes “rebeldes moderados” apoiados pelos EUA reduzidos pilotos de carros antiquados.

E há também o bloqueio econômico contra o Qatar – mais um brilhante enredo cerebrado por MBS. Só serviu para melhorar as relações de Doha com ambos, Ankara e Teerã. O emir do Qatar Tamim bin Hamad Al Thani não foi derrubado, tenha Trump realmente persuadido Riad e Abu Dhabi a evitar qualquer “ação militar”, ou não. Nada de estrangulamento econômico: a Total francesa, por exemplo, está às vésperas de investir US$2 bilhões para expandir a produção de gás natural no Qatar. E o Qatar, via seu fundo soberano, contragolpeou com o mais espetaculoso dos movimentos de soft power – comprou a marca e craque de futebol Neymar, para o PSG, e o “bloqueio” soçobrou sem deixar traço.

“Roubam até a roupa do corpo do próprio povo”

Em In Enemy of the State, o mais recente thriller de Mitch Rapp escrito por Kyle Mills, o presidente Alexander, sentado na Casa Branca, esbraveja que “o Oriente Médio está implodindo porque aqueles filhos da puta sauditas só fazem inflar o fundamentalismo religioso, para encobrir o fato de que roubam até a roupa do corpo do próprio povo.” É uma avaliação equilibrada.

Não se admite absolutamente nenhuma discordância na Arábia Saudita. Até o analista econômico Isam Az-Zamil, muito próximo do poder, foi preso durante a atual campanha de repressão. A oposição a MBS portanto não vem só da família real ou de alguns clérigos – embora digam os boatos que só quem apoie o “terrorismo” da Fraternidade Muçulmana, da Turquia, do Irã e do Qatar estaria sendo perseguido e atacado.

Em termos de o que Washington deseja, a CIA não aprecia MBS, para dizer o mínimo. Querem o homem “deles”, Nayef, de volta ao poder. Quanto ao governo Trump, o que se ouve é que está “desesperado em busca de dinheiro saudita, especialmente para investimentos em infraestrutura no Cinturão da Ferrugem”.

Será muitíssimo iluminador comparar o que Trump obtém de Salman e o que Putin obtém do mesmo Salman: o rei doente visitará Moscou no final de outubro. Rosneft está interessada em comprar ações da Aramco quando afinal acontecer a venda pública. Riad e Moscou estão considerando uma extensão de negócios da OPEP, bem como uma plataforma de cooperação OPEP-não-OPEP que incorpore o Fórum de Países Exportadores de Gás [ing. Gas Exporting Countries Forum, GECF].

Riad leu as palavras escritas no novo muro: o capital político e estratégico de Moscou não para de crescer por todos os lados, de Irã Síria e Qatar até Turquia e Iêmen. Não é coisa que se dê bem com o estado profundo dos EUA. Mesmo se Trump conseguir alguns negócios para o Cinturão da Ferrugem, a questão candente é se CIA & Amigos conseguem viver com MBS no trono da Casa de Saud.

Nota dos tradutores: Orig. Wheels and Deals. É uma rede de venda de carros usados, que tem lojas em várias cidades por todo o país. A ironia parece ter a ver com a licença para mulheres dirigirem na Arábia Saudita. Não conseguirmos traduzir.

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Uma ameaça elucidativa

Por: César A. Ferreira

No campo das relações humanas as ameaças podem incutir muitos significados, desde o aviso literal de uma intenção, em geral agressiva, até a dissimulação de uma vontade, desejo oculto, ou fraqueza. Muito frequentemente oculta o temor, ou a impotência sentida. Ademais se mostra reveladora, também, do estado emocional do emitente.

A ameaça é uma revelação de uma intenção agressiva, doutra forma não seria uma ameaça, não por outro motivo costuma ser algo bastante raro no trato diplomático por motivos óbvios, visto que usar mão de ameaças significa rudeza. Ademais, chefes de governo emprestam um peso grande caso verbalizem uma ameaça… Pois, independente disto, a Ministra da Justiça do Estado de Israel, do nada, emitiu uma ameaça explícita endereçada à pessoa do Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin. Este absurdo diplomático cometido pela Senhora Ayelet Shaked continha as seguintes palavras:

“Se Putin quer sobreviver, ele deve manter suas forças armadas fora da Síria”

É difícil entender o motivo de um Ministro de Estado cometer tamanho desatino. Ayelet Shaked é uma mulher jovem, com formação acadêmica em Engenharia de Sistemas (TI), e alçada ao Ministério da Justiça por ser uma estrela em ascensão no cenário politico israelense, neste contexto é possível especular que a senhora Shaked esteja verbalizando o sentimento existente no seio do poder israelense em relação à Federação Russa e suas ações na Síria, focado no seu líder.

De fato a intervenção russa na Síria mudou o rumo da guerra contra os jihadistas, colocando o governo sírio no trilho da vitória. A derrota dos extremistas significa por extensão a derrota das monarquias do golfo pérsico, das agências de inteligência ocidentais, notadamente da CIA, bem como de Israel, que muito investiu nestes guerreiros do terror islâmico.

Uma prova clara disto é o atendimento médico de extremistas no Ziv Medical Center, hospital israelense que é referência para tratamento de traumas por armas de fogo. O empenho israelense em apoiar os terroristas foi flagrado pelo jornalista Sharri Markson, do veículo News Corp, cuja descoberta foi robustecida posteriormente por outros relatos. Outra evidência do apoio israelense aos terroristas sírios é a captura de instrutores israelenses em Aleppo, bem como da morte de uma quinzena de “instrutores militares” devido a um ataque com mísseis de cruzeiro (Kalibr). Isto, sem falar nos constantes ataques aéreos a Damasco, realizados sempre a partir da fronteira de Israel, além das incursões aéreas dentro do território sírio.

Apesar de frustrar as intenções israelenses no tocante à Síria, a Federação Russa não é um estado hostil a Israel, pelo contrário, as relações politicas e diplomáticas até aqui se apresentam como muito boas, embaladas pela presença de aproximadamente 15% de russos na composição populacional de Israel. O governo israelense conta com apoio russo para o estabelecimento de um acordo de livre comércio entre Israel e a União Econômica Euroasiática, Uma forma óbvia de ampliação de mercados. A pergunta que se impõe é o motivo pelo qual Israel insiste em agredir um parceiro importante em termos políticos e econômicos. A resposta pode ser mais simples do que o pensamento usual: Israel acostumou-se a ser assim. arrogante. Por estar cercado por vizinhos que despreza, Israel atrofiou a sua diplomacia, visto que na região age com apoio explícito dos EUA e seja qual for a demanda, nada mais faz além do uso da força.

Ora, ora… Quando não se pode usar a força plenamente, o que resta além da ameaça?

A Rússia desafia os EUA na Síria

Autor: Yusuf Fernandez

Tradução: César A. Ferreira

Fonte: Al Manar

O envio do sistema S-300VM (SA-23 Gladiator terminologia da OTAN) para a  Síria, provocou a ira dos Estados Unidos  que expressou alarme a uma medida deste tipo apesar do fato de que a mídia dos EUA haver afirmado pouco antes, que  Washington estava considerando “as opções militares “contra a Rússia no tocante à crise síria. A última ameaça levou a Rússia a tomar as suas próprias medidas, incluindo a implantação do sistema acima, capaz de abater aeronaves e mísseis de cruzeiro, e reforçar a sua frota no Mediterrâneo.

A Rússia indicou, entretanto, que a S-300VM é um sistema defensivo e disse não entender por que os EUA estão a  expressar tais alarmes.

Os EUA têm-se queixado sobre os ataques russos na Síria contra a Frente  Al-Nusra e outros grupos terroristas e clamando pela imobilização das aeronaves da Rússia e Síria, de uma maneira que evidencia ainda  mais o seu apoio ao terrorismo. A implantação do S-300 VM é irrelevante contra a Frente Al-Nusra, que não tem poder aéreo, mas é uma parede contra possíveis ataques dos Estados Unidos ou os seus aliados contra a Síria.

Na verdade a ameaça contra a Rússia e a Síria é real. Os EUA afirmaram que não irão mais  realizar esforços diplomáticos na Síria, enquanto culpam a Rússia pelo seu próprio fracasso em respeitar os compromissos assumidos no conflito sírio. Ao que tudo indica, nunca tiveram real intenção em respeitar…

A próxima reunião do Conselho de Administração, que inclui os secretários de Estado e de Defesa, o chefe do Estado-Maior Conjunto, bem como o diretor da CIA, deverá examinar várias políticas de ação midiática e militar na Síria. Uma das proposta sobre a mesa é atacar as pistas dos aeroportos militares sírios com mísseis de cruzeiro e outras armas disparados de aeronaves de longo alcance e de navios, além de outras ações militares.

Seria, portanto, uma agressão militar aberta contra outro país sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU. Portanto, um oficial militar dos EUA, citado pelo Washington Post, disse que os ataques seriam realizados “dissimuladamente ou sem reconhecimento público.”

Na verdade, apenas os EUA, frente aos seus aliados ocidentais deitam a falar de “opções militares”, já que parece difícil pensar que os aliados europeus aceitem o risco de uma guerra com a Rússia para proteger a Frente Al-Nusra, uma organização ligada à Al Qaeda.

O reforço da frota mediterrânica e o envio do sistema  S-300 VM sugerem, fortemente,  que a Rússia está ciente de tais planos agressivos dos EUA e que decidiu portar-se altivamente na Síria. Em contraste, a reação histérica de Washington sugere que eles estão a perder uma posição militar estratégica, daí  correr o risco de um ataque deste tipo num momento em que a Rússia aumentou as suas defesas na Síria.

A política dos EUA na Síria representa uma ameaça para a própria Rússia e faz parte das tentativas de Washington para circundar este país. Uma bem sucedida operação de mudança de regime na Síria seria em seguida constituída de uma  intervenção dos EUA na Rússia, na forma do envio de terroristas financiados pela CIA para as repúblicas russas do Cáucaso para alimentar um movimentos separatistas latentes por lá. Um regime fantoche em Damasco ajudaria a canalizar tais forças, treinadas no campo de batalha da Síria, para dentro do solo da Rússia,  realizando uma campanha para desestabilizar e, finalmente, desmembrar a Federação Russa.

Nota do Editor: O sistema S-300VM (Antey 2500) possui como alvos primários misseis de cruzeiro, bem como os mísseis balísticos táticos de curto e médio alcance. De forma subsidiária pode ser utilizado para neutralizar aeronaves e outras ameaças aéreas. O seu alcance é de 200 km e caso a informação de que seria postado em Tartus, ou seja, junto a costa, isto significa que as formações de combatentes em Deir Ez Zoir e Aleppo não contariam com a proteção deste referido sistema, algo que já acontecia com sistema S-400 postado em Latakia.

A capacidade do sistema é a de vetorar até 24 alvos, sendo 4 por unidade de vetoramento por vez. Isto significa que a bateria, isolada, pode vir a ser saturada, não é por outro motivo que o conceito russo de Defesa Antiaérea prevê uma distribuição em camadas, ou seja, com proteção convergente de cada sistema por sobre o outro. Espera-se, portanto, que o sistema S-300VM tenha o seu complemento como segurança crítica na forma de uma bateira do sistemas Pantsyr S-1.

 

Ucrânia depois da Euromaidan

Por: César A. Ferreira

Não é uma opinião, tampouco uma perspectiva marcada por posição ideológica que seja, mas uma mera constatação: todas as nações detentoras de grandes reservas energéticas e de minerais estratégicos, ou que exibam posição geográfica essencial para o tráfego destas riquezas extraídas, sofreram em graus variados intervenções estrangeiras, que foram da desestabilização política à guerra civil, isto quando os eventos não envolveram pura e simplesmente a invasão direta por forças armadas das potências agressoras, estas, invariavelmente, oriundas da Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN.

Em 21 de novembro de 2013, embalados pela sensação sufocante de que todos os problemas existentes na Ucrânia proviam da corrupção que grassava no país, iniciou-se o processo que se conhece como revolução da Praça Maidan, ou Euromaidan. O estopim fora a recusa do então presidente, Yanukovich, de pactuar com a União Europeia, preferindo a oferta superior, muito mais substancial, de realizar uma união aduaneira com a Rússia, cuja proposta, além das vantagens de aduana, perfazia a compra de títulos da dívida ucraniana no valor de quinze bilhões de dólares americanos, além do fornecimento em taxas preferências de gás russo ao mercado ucraniano. Dado o fato de que a proposta da União Europeia era muito mais tímida, pois se tratava de um empréstimo de apenas setecentos milhões de euros, aliado a um status de parceiro comercial preferencial, mas sem adesão formal à união aduaneira, é de se espantar a existência da rejeição popular à proposta russa, absurdamente superior a sua contraparte europeia, venha a ser apontada como o estopim para a revolta generalizada.

Fato é que a Ucrânia exibia uma posição geoestratégica clara, pois é através do seu território que se encontram a maioria absoluta dos gasodutos, pelos quais trafega o gás provindo da Rússia destinado à Europa. Ademais a Crimeia, então parte integrante da república ucraniana era o território sede da importantíssima base naval de Sebastopol, sede da Frota do Mar Negro da Federação Russa. Não surpreende, portanto, a descoberta do financiamento clandestino efetuado pela legação diplomática dos Estados Unidos da América aos grupos opositores que cavalgaram politicamente a insatisfação pública dos manifestantes ucranianos, caso dos partidos de extrema direita e neonazistas, ambos desprovidos de densidade política, visto que invariavelmente permaneciam no patamar de 6% do eleitorado, inferiores ao Partido Comunista, que alcançava o dobro, cerca de 12%…

Todavia a mídia ucraniana, toda ela em posse de oligarcas locais, postou-se como crítica, uníssona, ao governo, favorável a pantomima dos estudantes, estes inflados pela ONG Students Of Liberty –  ONG cuja ligação com a CIA é para lá de notória, aponto de ser, antes, folclórica. De fato, no campo ucraniano ver-se-ia o aporte por parte dos EUA, por meio da CIA e do Departamento de Estado, do valor reportado de cinco bilhões de dólares para os eventos que culminaram com a Euromaidan.

O resultado é bem conhecido, após a ocorrência de disparos feitos por atiradores escalados pelas agências de inteligência do ocidente, que vitimaram tanto os policiais da Força Berkut (baixas encobertas pela mídia, não noticiadas), como os manifestantes (mortos e feridos amplamente cobertos pela mídia), mas cuja autoria de chofre foi jogada às costas do governo ucraniano; Yanukovich empreendeu uma fuga quixotesca em direção à Federação Russa objetivando a busca de refúgio, sendo sucedido por uma junta, cuja legalidade sempre foi questionada, até mesmo quando da eleição do atual dignitário, Poroshenko. A Ucrânia perdeu a rica península da Criméia, que optou por se juntar à Federação Russa e viu-se enredada em um conflito custoso no Donbass, que lhe impôs reveses militares múltiplos, de caráter verdadeiramente desmoralizante, caso dos cercos de Illovaysk e Gorlovka, ou da batalha pela posse do aeroporto de Donetsk. Mas, isto não representa tudo, ou todos os males.

Homens de verde
A Federação Russa agiu rápido e impôs a ordem na estratégica e rica península da Crimeia, com o uso do efetivo militar da Base de Sebastopol. Imagem: internet.

A Ucrânia, ao empreender o afastamento da Rússia, com a qual mantinha laços de cunho acadêmico, industrial e comercial de monta, em virtude de uma retórica vitimizante, de cunho nacionalista e hostil ao vizinho, de evidente carga ideológica, acabou por colher perdas econômicas desastrosas, como o encolhimento de 80% da produção da sua base industrial de Defesa, cujo símbolo é a empresa aeronáutica Antonov, imersa em dificuldades, incapaz de encontrar clientes para o belo mais dispendioso projeto An-70, cujo cliente de lançamento seria justamente a Força Aeroespacial da Federação Russa. A área de Petróleo e Gás também apresentou retração, agravado pelo aumento do dispêndio relacionado à compra desta commodity energética, agora adquirida da EU com preços majorados em 30%, quando comparados àqueles praticados pela Federação Russa, estes custos, por sua vez se agravam quando se percebe que a moeda ucraniana desvalorizou-se demasiado, cerca de 350% em comparação ao dólar norte-americano. Ademais, o rompimento com os laços financeiros havidos com a Federação Russa privou a Ucrânia de recursos da ordem de nove bilhões de dólares, anuais, na forma de remessas dos ucranianos viventes na Rússia, então o maior investimento direto obtido pela república.

A ladeira abaixo experimentada pela Ucrânia não se restringe ao setor industrial, afeta de maneira equivalente o setor agropastoril, cuja atividade também sofreu retração. Das empresas deste setor, acredita-se que quatro a cada cinco estejam falidas, ou em estágio falimentar. Apenas 72 empresas agropastoris estão credenciadas a exportar para a Europa Unida, sendo que destas 36 já excederam a sua cota anual. O FMI estima que o país, para honrar os termos acertados com o Fundo, ver-se-á obrigado a comprometer 50% da sua arrecadação até o longínquo ano de 2041, contanto que consiga exibir uma taxa de crescimento anual de… 4% ao ano!  Mágica, diga-se, um tanto inacreditável, principalmente quando se considera o fato de que a população ucraniana sofreu um rebaixamento, nesta aventura de orgia ideológica, de 50% no seu padrão de vida, queda imposta pela retração do produto interno bruto, que caiu 6,8% em 2014 e 7,5% em 2015.

Entende-se o motivo de Poroshenko ter hoje uma popularidade muito abaixo daquela que Yanukovich detinha, exibindo notáveis 77 % de rejeição, todavia, observa-se, não há contra Poroshenko nenhuma Maidan… “Revolução” que quando estava no seu auge, exibiu o apoio declarado de apenas 45% da população, notadamente daqueles do oeste, enquanto o Donbass, Criméia e a região de Odessa, opunham-se ao movimento desestabilizador.

Portanto, que se tenha em mente: qualquer semelhança, com eventos análogos que estejam a ocorrer, ou que venham a ocorrer, em qualquer parte do mundo onde hajam reservas a serem exploradas de Petróleo e Gás, não será, jamais, uma mera coincidência…

Sobrinho de JFK sobre a Síria: O ISIS é um produto da intervenção dos EUA por petróleo

Por: Claire Bernish

Fonte: The Free Thought Project

Tradução: J. Junker

Robert F. Kennedy Jr. escreveu um astuto artigo a respeito da verdade por trás da presença dos EUA no Oriente Médio – a sua subserviência ao bem mais precioso da indústria de combustíveis fósseis: o petróleo.

“À medida que nos concentramos no crescimento do ISIS e da busca pela origem da selvageria que levou tantas vidas em Paris e San Bernardino, podemos querer olhar para além das explicações convenientes de religião e ideologia e focar nas lógicas mais complexas da história e petróleo, que em sua maioria apontam o dedo da culpa do terrorismo de volta para os campeões do militarismo, o imperialismo e o petróleo aqui em nossas próprias costas”, Kennedy escreveu em um editorial para o EcoWatch.

O olhar crítico de Kennedy sobre a história dos Estados Unidos de intromissão, intervencionismo, e da hegemonia – quase exclusivamente para manter o fluxo de petróleo – torna evidente o seu papel na desestabilização de todo o Oriente Médio, especialmente na Síria. Na verdade, mais de cinquenta anos de intercessão violenta – em última análise, no interesse da indústria de combustíveis fósseis – tem alimentado enormes ressentimentos. Essencialmente, o corporativismo geoestratégico americano – sob o disfarce da manutenção da paz armada – criou o violento jihadismo islâmico contra quem os EUA agora lutam suas batalhas.

A partir da administração Eisenhower, a soberania árabe e a neutralidade das nações do Oriente Médio na Guerra Fria foram percebidas como ameaças para o acesso americano ao petróleo.

Em primeiro lugar na ordem do dia para a Presidência de Eisenhower estava o primeiro líder eleito do Irã em 4000 anos de história, o presidente Mohammed Mosaddegh. O desejo de Mosaddegh de renegociar contratos de petróleo desfavoráveis ​​ao Irã com a British Petroleum levou a um golpe fracassado da inteligência britânica – a quem ele prontamente expulsou do país. Apesar de parecer favorável aos EUA, a quem Mosaddegh via como um modelo de democracia que ele procurou empregar no Irã – Eisenhower, com a ajuda do notório diretor de inteligência Allan Dulles, derrubou o líder. A “Operação Ajax” depôs Mosaddegh e o substituiu pelo Shah Reza Pahlavi – um líder cujo reinado sangrento culminou na revolução islâmica de 1979, “que tem atormentado a nossa política externa por 35 anos”, escreveu Kennedy.

Talvez uma das maiores ameaças maiores sobre a Síria fosse a relutância dela para aprovar a Trans Arabian Pipeline – destinada a atravessar a Síria a fim de conectar o petróleo saudita com os portos do Líbano. Quando o democraticamente eleito e secular presidente sírio negou o plano, a CIA armou um golpe em uma tentativa de substituí-lo.

“O plano da CIA foi de desestabilizar o governo sírio, e criar um pretexto para uma invasão pelo Iraque e pela Jordânia, cujos governos já estavam sob controle da CIA”, explicou Kennedy. Não funcionou. Uma falha surpreendente, motins e violência anti-americana irromperam por toda a região. A Síria barrou vários adidos americanos, e, em seguida, expôs e executou todos os funcionários que abrigavam algum sentimento pró-americano. Na verdade, os EUA quase provocaram uma guerra com a Síria pelo incidente.

As repercussões da tentativa de golpe – bem como parcelas de maior êxito dos regimes fantoches em outros lugares – continuam a desempenhar um papel na política externa e relações geopolíticas no presente. A mais “bem sucedida” remoção de um líder e sua subsequente substituição envolveu um nome que todos nos EUA estão familiarizados: Saddam Hussein.

Depois de várias tentativas para depor o líder do Iraque falharam, a CIA, em última instância instalou Hussein e o Partido Baath no poder. Como Kennedy observou, o ministro do Interior Said Aburish disse sobre a trama: “Nós chegamos ao poder em um trem chamado CIA”. James Critchfield, o chefe do posto da CIA responsável tanto pelo golpe bem sucedido quanto pelo fracassado, mais tarde disse que a CIA tinha “essencialmente criado Saddam Hussein” – também lhe fornecendo armas, inteligência, além de armas químicas e biológicas.

“Ao mesmo tempo, a CIA estava a fornecer ilegalmente ao inimigo de Saddam – o Irã – milhares de mísseis anti-tanque e anti-aéreos para combater o Iraque, um crime que ficou famoso durante o escândalo Irã-Contras … A maioria dos americanos não estão cientes das muitas maneiras que essa reação de erros anteriores da CIA ajudou a criar a crise atual”.

Enquanto os americanos amplamente acreditam na grande imprensa e na narrativa governamental que o papel atual dos EUA na Síria eleva-se a objetivos humanitários, começando com a Primavera Árabe em 2011, “Em vez disso, começou em 2000, quando o Qatar propôs construir um gasoduto de 1,5 mil quilômetros e US$10bi através de Arábia Saudita, Jordânia, Síria e Turquia”, Kennedy explicou.

“O gasoduto proposto teria ligado o Qatar diretamente para mercados europeus de energia através de terminais de distribuição na Turquia que embolsariam grandes taxas de trânsito. O gasoduto Qatar-Turquia teria dado os reinos sunitas uma dominação decisiva do Golfo Pérsico em mercados de gás natural pelo mundo e fortalecido o Qatar, aliado mais próximo dos Estados Unidos no mundo árabe”.

A UE recebe atualmente 30 por cento de seu gás da Rússia, Kennedy observou, e “A Turquia, segundo maior cliente de gás da Rússia, estava particularmente ansiosa para acabar com sua dependência de sua antiga rival, além de posicionarem-se como um centro de transporte lucrativo dos combustíveis asiáticos para os mercados da UE. O gasoduto do Qatar teria beneficiado a monarquia conservadora sunita da Arábia Saudita, dando-lhes uma posição de dominação sobre os xiitas”.

Os cabos diplomáticos revelados pelo Wikileaks mostram que desde 2006 o Departamento de Estado dos EUA, a pedido do governo israelense, vinha propondo uma parceria entre Turquia, Qatar e Egito para fomentar uma guerra civil sunita na Síria, para enfraquecer o Irã. O propósito declarado, de acordo com o telegrama secreto, foi para incitar (o presidente sírio, Bashar al- Assad) uma brutal repressão da população sunita da Síria.

“Como previsto, a reação exagerada de Assad à crise fabricada no estrangeiro – lançando bombas de barril em redutos sunitas e matando civis – polarizou uma divisão xiita-sunita da Síria e permitiu aos responsáveis ​​políticos vender aos americanos a ideia de que  a luta pelo gasoduto era uma guerra humanitária”.

O contexto histórico e longo de Kennedy para o imbróglio atual merece uma leitura minuciosa. Sua mensagem inequívoca deve servir como um lembrete importante que o governo dos Estados Unidos e seu porta-voz da grande imprensa  –  tão convincente quanto eles podem parecer  –  nunca estão contando toda a história.

A Operação Mani Pulite e a Lava Jato

Por: Edu Pessoa

A Operação Mãos Limpas (em italiano, Mani Pulite) tem diferenças e semelhanças com a Lava Jato brasileira, embora ambas tenham sido criadas com o intuito de desestabilizar a política dos dois países – Itália e Brasil – criando um novo arranjo político-institucional.

Di Pietro e Moro

Di Pietro e Moro são os concurseiros com a cara do golpismo moderno. Di Pietro estudou Direito na Universidade dos Estudos de Milão e em 1981 se tornou juiz da comarca de Bergamo (região norte da Itália), após aprovação em concurso público. Quatorze anos depois, Moro, hoje o titular da Lava Jato, também se forma em Direito pela Universidade Estadual de Maringá, fundada por seu pai, Dalton Moro, e se torna juiz federal da 4ª região (Paraná) em 1996, após aprovação em concurso público de 4 fases.

Origem da (operação) Mãos Limpas

A Mãos Limpas, Mani Pulite, começou na cidade de Milão, nos anos 90, com 4 juízes e 2 procuradores atuando na operação. O juiz titular da Operação era Antonio Di Pietro. Coincidência (ou não) o juiz titular da Operação Lava Jato também tem um sobrenome de origem italiana: Sergio Moro. Mãos Limpas seria um prosseguimento da investigação contra o Banco Ambrosiano, instituição financeira privada criada por padres italianos, acusada de realizar operações ilegais da Loja Maçônica P2, do Banco do Vaticano e da máfia. As operações ilegais do banco podem estar por trás da estranha morte do Papa João Paulo I (que queria aprofundar as investigações nas finanças do Banco do Vaticano).

O banco também foi usado pelos norte-americanos contra o Contras da Nicarágua e o Sindicato Solidariedade da Polônia, como forma de patrocinar conflitos e golpes nesses países (em virtude da ascensão dos governos de esquerda e a “guerra” contra o comunismo).

A semelhança do (Banco) Ambrosiano com o Banestado

Muito parecido com o Ambrosio é o caso do Banestado, banco público paranaense (depois privatizado no governo FHC), usado para lavar dinheiro e levar recursos para paraísos fiscais. Moro também foi o juiz responsável pela operação judicial que investigava a ida ilegal de dinheiro para o exterior, através das contas CC5. Os recursos ilegais foram fruto das privatizações e acordos espúrios, ocorridas durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique.

A caça aos nomes nacionalistas

Enquanto hoje, Moro caça Odebrecht, Pessoa e outros nomes da engenharia nacional, Di Pietro, no seu tempo, prendeu o engenheiro e membro do Partido Socialista Italiano (PSI), Mario Chiesa. Chiesa, preso e torturado por Di Pietro, revelou um suposto esquema de uso de contas na Suíça para desvio de recursos públicos.

É ou não é a cara da história do Triplex do Lula e do suposto uso de “offshores” pelo ex-presidente? Falando em Triplex, a operação italiana também representou uma verdadeira caçada a líderes de esquerda em todo o país, incluindo Bettino Craxi, líder do PSI. O PSI ganhou eleições importantes, como as de Roma e vinha crescendo na preferência do eleitorado.

É possível traçar (guardadas as proporções entre os sistemas político-eleitorais italiano e brasileiro) um paralelo com a ascensão do PT após 2003, cujas vitórias sucessivas culminaram em um conjunto de ações midiáticas e judiciais para tirá-lo do poder.

A caçada da Mani Pulite contra Craxi (que morreu durante as investigações) é a mesma que fazem hoje contra Lula, perseguido politicamente por Moro et caterva de forma implacável.

 Di Pietro, Moro e a Opinião Publica

O apoio da imprensa foi fundamental para que a população italiana apoiasse as ações guiadas de Di Pietro. Prova disso foram as pesquisas de sondagem, feitas durante a operação, que mostravam o juiz com mais de 80% de aprovação, o que pavimentou seu caminho para a política. Recebeu tratamento da mídia italiana e da opinião pública de “herói”, com direito a cartazes, faixas penduradas nas sacadas dos prédios e até “brindes”.

Mais uma vez podemos traçar um paralelo com Moro, alçado pela opinião pública nacional e internacional, com apoio da velha mídia brasileira (e da mídia norte-americana), à condição de herói. Uma publicação norte-americana retrata Moro com a roupa dos “caça fantasmas”, sugerindo seu “combate à corrupção”. PHA mostrou que a revista tem FHC no conselho editorial, mas a mídia tupiniquim escondeu esse (importante) detalhe.

No Brasil, Moro é admirado pela velha mídia e pelos coxinhas. Da Globo, recebeu o prêmio “Faz a Diferença”, prêmio também recebido por Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF, pelos serviços prestados à Casa Grande. Dos coxinhas, recebe flores, tira fotos e posa de “popstar” nos poucos lugares em que apareceu publicamente. E não só: usa palestras, mobilizando a classe média para legitimar o golpe institucional via Judiciário.

 As Estatais do Petróleo

Muito se fala do rearranjo político, promovido pela Mãos Limpas (Di Pietro largou a magistratura para se dedicar a política e fundar um partido), mas pouco se fala das consequências dessa operação para a estatal de petróleo daquele país: a AGIP. Criada em 1953 (mesmo ano da Petrobrás), a AGIP (sigla para Azienda Generale Italiana Petroli ou Empresa Pública Italiana de Petróleo) era uma estatal do ramo do petróleo, com capital 100% público e controlada pelo governo italiano. O envolvimento da estatal na operação, supostamente usada para desviar recursos para financiamento ilícito de partidos políticos, acabou gerando como consequência política sua privatização, em 1995, adquirida pelo grupo ENI, da qual manteve apenas o antigo logotipo (o cão com 6 patas que cospe fogo sob o fundo amarelo e letras na cor preta).

A Petrobrás, do mesmo ano da AGIP, também foi alvo de ações semelhantes na Lava Jato, ao ter sido colocado no olho do furacão, acusada de ser usada para financiar campanhas eleitorais de Dilma Rousseff, através da irrigação em contas dos empreiteiros nacionais.

As acusações envolvendo a estatal brasileira vão além de um mero combate à corrupção, mas servem de base para ações contra o PT no TSE, promovidas pelo PSDB, e álibi para justificar sua privatização. É comum ouvir da boca de parlamentaristas oposicionistas de que a Petrobrás está sob “má gestão”, “corrupção”, “rapina”, etc. Qualquer semelhança com a AGIP não é mera coincidência…

Os EUA e os Partidos de Esquerda

A guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética (atual Rússia) nos anos 50-80, foi o pano de fundo para uma caça a partidos e líderes identificados com as ideias de esquerda.

A Mãos Limpas isentou o Partido Comunista Italiano (PCI). O partido capitalizou politicamente com a Mãos Limpas e vários de seus líderes aproveitaram a investigação para blindar do sentimento anticomunista, garantido assim apoio popular com a veiculação de discursos e trechos de seus líderes, a favor da investigação (um pouco como o que o PSDB faz hoje com a Lava Jato). Prova disso é que o PCI, anos 70, foi considerado o maior partido de esquerda da Europa. Dentro da Itália, fez contraponto à Democracia Cristã, principal força política do país até então.

Com uma visão próxima da social-democracia (hoje praticada pelo PT), Enrico Berlinguer, então presidente do partido (PCI), propôs um “compromisso histórico” dos comunistas com os cristãos, a fim de unir o país. Mas o acordo acabou não se concretizando, por causa da morte do líder cristão e ex-primeiro ministro Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas.

E onde os EUA entram nisso? Ora, a morte de Moro pelos Brigadas Vermelhas foi patrocinada pelos EUA, através de grupos clandestinos situados na OTAN, chamados “Stay Behind”. Na Itália o nome do grupo era Gladio, supervisionado pela CIA. A morte de Moro foi exatamente impedir a ascensão e a vitória dos comunistas no poder.

No Brasil, a coisa anda de um jeito diferente: a Lava Jato não é capitalizada pelo partido de esquerda no governo, o PT, mas sim pela oposição, capitaneada pelo PSDB e que sofre com a falta de propostas, militância política e votos e identificação dos eleitores (principalmente os mais humildes) com suas plataformas privatizantes. Contudo, o objetivo da Lava Jato é o mesmo da morte de Aldo: enfraquecer o PT no poder e minar qualquer possibilidade de união entre as forças antagônicas nacionais, fortalecimento da soberania nacional e crescimento do nosso processo econômico.

As pegadas norte-americanas apareceram através de investigação de blogueiros, mostrando a relação entre empresas donas do Triplex em Parati com a Monsak Fonsesa, offshore que financia golpes e atentados terroristas no mundo todo, sob coordenação do governo norte-americano.

O resultado político da Mani Pulite e as lições da Lava Jato.

Não sabemos ainda as consequências da Lava Jato para o futuro do país, mas alguns indícios mostram que ela produziu efeitos catastróficos na economia: queda do PIB, redução dos contratos de grandes obras, desemprego nas áreas de engenharia pesada, entre outros. Na Operação Mãos Limpas, uma das principais consequências foi a pavimentação da carreira política de Di Pietro.

Em 1997, abandonou de vez a magistratura e assume a carreira política. Primeiro pelo centro, mas recebeu convites da direita (como do empresário e político Silvio Berlusconi). Três anos depois, DI Pietro funda o “Itália de Valores”, classificado como um partido autônomo, com orientação “nem de esquerda, nem de direita”.

Estranho, mas a Rede lembra-me muito esse (partido) Itália de Valores?

Não sabemos ainda se Moro irá galgar carreira política após a Lava Jato. O fato concreto é que além da privatização da estatal de petróleo, a Mani Pulite acabou rachando politicamente o país. Hoje, os italianos amargam PIBs negativos, como resultado da vinculação à política neoliberal norte-americana, em muito fruto desse racha e do enfraquecimento de suas estatais, por força da operação judicial.

A lição para a Lava Jato é a seguinte: sair do ciclo vicioso requer diálogo e consenso para superar a crise política e econômica. Com a prisão de Lula hoje, será que o Moro ajudou a “rachar” o país, como a morte do outro Moro, o ex-premier italiano?

A conferir…

Nota do Editor: pode parecer estranho para o leitor uma postagem sobre um assunto que versa sobre política nacional em um espaço dedicado a assuntos de geopolítica e defesa. Todavia, a política interna de qualquer país faz parte da abordagem geopolítica, como bem ilustra esta matéria sobre a Operação Mani Pulite. Tida como um exemplo, tal operação demonstra como é possível manipular o sistema judiciário de uma nação para enfraquecê-la. Isto é uma característica dos sistemas abertos, impossível de se ver nos totalitários, pois o regime representativo apresenta idiossincrasias plausíveis de serem percebidas por atores externos que delas se aproveitam para fazerem com que os atores internos de uma determinada nação ajam em função dos seus interesses, crentes que realizam “o melhor” para a nação, dentro das suas convicções. É por este motivo que os EUA promovem a “democracia” como crença ideológica, pois a característica deste tipo de regime permite injunções e manipulações, como as afamadas “revoluções coloridas”, com maior facilidade.

Nota do Editor 2: a matéria que se segue era antes um comentário postado no blog do jornalista Luis Nassif, ao vê-lo, de pronto indaguei se o autor autorizaria a publicação neste blog. Antes da resposta, pude observar que o jornalista Luís Nassif havia elevado o comentário para a posição destacada de post, prática alvissareira que deveria ser imitada pelo maior número de espaços.

Nota do Editor 3: Gládio é o nome da organização clandestina montada pelo próprio Estado Italiano, com anuência e apoio do Vaticano, sob patrocínio da OTAN, para atender o conceito de resistência nacional no caso de uma vitoriosa invasão soviética – conceito Stay Behind. Em termos práticos resultou em um grupo clandestino, de cunho ideológico fascista, que praticava atos espúrios de violência em favor dos estratos conservadores da sociedade italiana, bem como aos serviços de inteligência da península e dos EUA. Hoje, atribui-se o assassinato de Aldo Moro ao grupo Gládio, quando antes se atribuía aos sequestradores das Brigadas Vermelhas, pois sabe-se, agora, que o terrorista das Brigadas Vermelhas, Mario Moretti era agente do grupo Gládio infiltrado. Mario Moretti foi o elemento principal para convencer os seus pares a realizarem o sequestro de Aldo Moro, quando desejavam sequestrar Giulio Andreotti, bem como o assassino deste proeminente líder político da Democracia Cristã.

Genebra: o estágio farsesco da guerra Síria

Por: Pepe Escobar, RT (29/01/2016).
Fonte em português: Oriente Mídia

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

O chamado processo de paz sírio entra agora no estágio de farsa em Genebra. Pode durar meses; preparem-se para doses abundantes de arrogância e vociferação capazes de fazer corar um Donald Trump. A noção de que Genebra possa fazer o papel de Damasco, naquela pantomima de terno e gravata, é, para começar, cômica. Até o enviado da ONU, o soberbamente snob-engomado Staffan de Mistura, admite que a missão à frente é de Sísifo – e assim continuaria, ainda que todos os atores relevantes estivessem à mesa.Depois, temos uma “figura da oposição” síria, George Sabra, a anunciar que nenhuma delegação de Riad, do Alto Comitê de Negociações, estará à mesa de negociações em Genebra. Como se os sírios carecessem de “oposição” instrumentalizada pela Arábia Saudita.Assim sendo, para lhes oferecer algum contexto, eis uma rápida recapitulação dos eventos recentes, cruciais, em solo sírio, que Genebra, autodeclarada “a nova capital”, talvez ignore e para prejuízo dela mesma.

Comecemos pelo verão passado, quando o comandante superstar general Qasem Soleimani das Forças Al-Quds do Irã falou em pessoa, em Moscou, para deixar absolutamente claro, sem dúvida possível, que a situação no teatro de guerra sírio era muitíssimo grave.

Na essência, Soleimani disse ao Kremlin e à inteligência russa que Aleppo podia estar prestes a cair; que Jabhat al-Nusra estava às portas de Damasco, no sul; que Idlib havia caído; e Latakia – onde está localizada a base naval russa em Tartus – estava prestes a cair.

Pode-se imaginar o efeito desse jato de realpolitik sobre a mente do presidente Putin. E ele acabou de decidir que, sim, a Rússia impediria que a Síria caísse e impediria que se tornasse uma Líbia remix.

A campanha da Força Aérea Russa marcou a mais completa virada naquela situação. Está ainda trabalhando no processo de cobrir e dar segurança a toda a rede Damasco-Homs-Latakia-Hama-Aleppo – o oeste urbano e desenvolvido da Síria, onde vive 70% da população do país. ISIS/ISIL/Daech e/ou Jabhat al-Nusra, também conhecida como Al-Qaeda na Síria, tem zero chances de tomar esse território. E o restante da Síria é quase totalmente o deserto.

Jaysh al-Islam – grupo terrorista armado pela Arábia Saudita – ainda defende algumas poucas posições no norte de Damasco. É controlável. Os “caipiras”, na província de Daraa, sul de Damasco só conseguiriam tentar algum assalto à capital num contexto, ali impossível, de Tempestade no Deserto à 1991.

“Rebeldes moderados” – essa invenção pervertida do Departamento de Estado dos EUA – bem que tentaram tomar Homs e Al-Qusayr, cortando a linha de ressuprimento de Damasco. Foram repelidos. Quanto à malta de “rebeldes moderados” que tomaram toda a província de Idlib, estão sendo bombardeados sem dó há quatro meses pela Força Aérea Russa. E o front sul de Aleppo também está sendo coberto e protegido.

Stahhan de Mistura
Mediador das Nações Unidas para a Síria, Staffan de Mistura. Imagem: Denis Balibouse/Reuters.

Não bombardeiem “nossos” rebeldes

Fácil logo ver quem está lívido ante a ação dos russos: Arábia Saudita, Turquia e – por último, mas não menos importante – o “Império do Caos”, todos esses sentados à mesa em Genebra.

Jabhat al-Nusra – comandado por controle remoto por Ayman al-Zawahiri – é grupo intimamente conectado à gangue dos jihadistas salafistas no “Exército da Conquista” patrocinado pelos sauditas, além de taticamente aliado a miríades de grupelhos nominalmente reunidos no já quase extinto “Exército Sírio Livre” (ESL) [orig. Free Syrian Army (FSA)].

CIA, usando os sauditas como anteparo para garantir a ela negabilidade plausível – armou até os dentes vários pseudoaliados do ESL – cuidadosamente “selecionados” –, aos quais a CIA enviou, dentre outras armas, mísseis TOW antitanques. Adivinhem quem “interceptou” praticamente todas as armas: Jabhat al-Nusra.

Dali em diante o desdobramento foi, para dizer o mínimo, hilário: Washington, Ancara e Riad puseram ensandecidamente a denunciar Moscou, que estaria bombardeando “rebeldes moderados” delas, não o ISIS/ISIL/Daesh.

Lentamente, mas sem retrocessos, o Exército Árabe Sírio (EAS) [orig. Syrian Arab Army (SAA)], operando conectado à ofensiva russa, retomou a iniciativa.

O grupo “4+1″ – Rússia, Síria, Irã (Forças Especiais, muitas das quais do Afeganistão) mais o Hezbollah – passaram a coordenar esforços. A província de Latakia – que abriga não só a base naval de Tartus, mas também a base aérea russa Khmeimim – está agora sob completo controle pelo governo de Damasco.

O que nos leva aos pesadelos de Ancara. A Força Aérea Russa esmagou todos os turcomenos aliados de Ancara – e pesadamente infiltrados por fascistas turcos – no noroeste da Síria. Essa foi a razão chave que levou o sultão Erdogan ao movimento desesperado de derrubar o Su-24 russo.

Já é claro hoje que os vencedores em campo, no pé em que estão as coisas, são os “4+1″, e que Arábia Saudita e Turquia perderam a guerra. Assim sendo, não é surpresa que os sauditas desejem contar com alguns dos próprios asseclas na mesa de negociações em Genebra; e que a Turquia tente mudar de assunto impedindo que curdos sírios participem: Ancara pinta os curdos sírios como terroristas muito mais ameaçadores que oISIS/ISIL/Daech.

Sai Genebra, entra Jarabulus

Como se já não houvesse confusão suficiente, a “Think-tank-elândia” dos EUA está agora espalhando que haveria um “entendimento” entre Washington e Ankara quanto ao que seria, para todos os propósitos práticos, uma invasão turca ao norte da Síria, sob o pretexto de que Ancara lá estaria para ‘esmagar’ o ISIS/ISIL/Daech no norte de Aleppo.

Absoluto nonsense. O jogo de Ancara tem três braços: reforçar os seus muito enfraquecidos asseclas turcomenos; manter o mais vivo possível o corredor até Aleppo – corredor que inclui a Rodovia Jihadista entre Turquia e Síria; e, principalmente, impedir, por todos os meios necessários, que os curdos do YPG façam a ponte de Afrin até Kobani e unam os três cantões de curdos sírios próximos da fronteira turca.

Nada disso tem qualquer coisa a ver com combater ISIS/ISIL/Daech. E a parte mais ensandecida é que Washington está, realmente, garantindo apoio aéreo de ajuda aos curdos sírios. Ou o Pentágono apoia os curdos sírios, ou apoia Erdogan na invasão do norte da Síria: aqui não cabem esquizofrenias.

Erdogan cego de desespero pode enlouquecer o bastante para confrontar a Força Aérea Russa, numa anunciada “invasão” turca. Putin já disse publicamente que resposta a qualquer provocação será imediata e letal. E, sobretudo, russos e norte-americanos estão realmente coordenando ações no espaço aéreo no norte da Síria.

Essa é a cena realmente importante e o próximo “evento” relevante, que eclipsará completamente a pantomima de Genebra. O YPG curdo e aliados estão planejando grande ofensiva para assumir o controle sobre a faixa de 100 km da fronteira sírio-turca que ainda está sob controle do ISIS/ISIL/Daech –, reunificando assim os seus três cantões.

Erdogan não mediu palavras: se o YPG avançar a oeste do Eufrates, é guerra. Ora. Então parece guerra, mesmo. O YPG apronta-se para atacar as cidades cruciais de Jarabulus e Manbij. Com certeza quase absoluta, a Rússia auxiliará o YPG a reconquistar Jarabulus. E assim, mais uma vez, a Turquia ter-se-á posto cara a cara, em solo, com a Rússia.

Genebra? Ali é coisa para turistas; a capital do horror agora é Jarabulus.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

O segredo por trás do próximo crash global

Por: Pepe Escobar – 21.01.2016

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Fonte original: Sputnik News

Reproduzido: Blog do Alok

O Fórum Econômico Mundial em Davos está naufragado sob um tsunami de denials – negar o que vê/fingir que não vê/não ver sinceramente – e também de non-denial denials – não negar o que nem vê que nega – e tudo isso só para ‘garantir’ que não acontecerá um desdobramento do Crash de 2008.

O caso é que sim, acontecerá. E o cenário já está pronto.

Seletos corretores de petróleo no Golfo Persa, o que inclui ocidentais que trabalham no Golfo confirmam que a Arábia Saudita está descarregando pelo menos $1 trilhão em securities e derrubando os mercados globais por ordem dos Masters of the Universe – os que mandam acima da presidência manca de Barack Obama.

Longe vão os dias quando bastaria a Casa de Saud flertar com essa ideia, para ter todos os seus bens congelados. Pois, hoje, já obedecem a ordens. E mais virá; na avaliação de corretores craques em Golfo Persa, os investimentos sauditas em securities ocidentais podem chegar a $8 trilhões; os de Abu Dhabi, a $4 trilhões.

Em Abu Dhabi tudo foi separado em compartimentos, e ninguém pode avaliar coisa alguma, exceto corretores e negociantes que conheçam cada supervisor de cada compartimento de investimentos. E para a Casa de Saud, como se poderia prever, a regra de ouro é negar sempre.

Essa massiva descarga de securities chegou algumas vezes à mídia-empresa, mas os números têm sido grosseiramente subestimados. A informação inteira não chegará até lá, porque os Masters of the Universe ordenaram que não chegasse.

Houve aumento gigante na descarga saudita-Abu Dhabi de securities desde o início de 2016. Fonte no Golfo Persa diz que a estratégia saudita “demolirá os mercados”. Outra fonte fala de “vermes comendo carcaça no escuro”; basta olhar a calamidade em Wall Street, por toda a Europa e em Hong Kong e Tóquio na 4ª-feira.

Quer dizer: já está acontecendo. E uma subtrama crucial pode ser, em prazo de curto a médio, nada menos que o colapso da eurozona.

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Desânimo no mercado. Foto: Euronews.

O crash de 2016?

Por tudo isso, pode ser um caso de a Casa de Saud em pânico, instrumentalizada para derrubar grossa fatia da economia global. Quem ganha com isso? Cui bono?

Moscou e Teerã tem muito a ver com isso. A lógica por trás de demolir mercados, criando recessão e depressão – do ponto de vista dos Masters of the Universe que reinam acima do presidente pato manco dos EUA – é arquitetar retardo gigante, impossibilitar os padrões de compra, reduzir o consumo de petróleo e gás natural, e pôr a Rússia em rota direta rumo à ruína. Além do quê, preços ultrabaixos do petróleo também se traduzem como uma espécie de sanção-substituta contra o Irã.

Mesmo assim, o petróleo iraniano que se aproxima de chegar ao mercado estará em torno de 500 mil barris/dia em meados do ano, mais um excedente armazenado em petroleiros no Golfo Persa. Esse petróleo pode ser e será absorvido, porque a demanda está aumentando (nos EUA, por exemplo, aumentou 1,9 milhão de barris por dia em 2015), e a oferta está caindo.

Em julho, aproximadamente, demanda crescente e produção em declínio reverterão o crash do petróleo. Além do mais, as importações de petróleo da China tiveram aumento recente de 9,3%, em 7,85 milhões de barris/dia, o que desacredita completamente a narrativa dominante de que a economia chinesa estaria ‘em colapso’ – ou de que a China seria culpada pelos padecimentos atuais do mercado.

Assim sendo, como já expus aqui em linhas gerais, em breve o petróleo dará a volta por cima. Goldman Sachs concorda. Implica que os Masters of the Universe tem uma estreita janela de oportunidade para fazer os sauditas despejarem quantidades massivas de securities nos mercados.

A Casa de Saud pode precisar desesperadamente de dinheiro, se se considera o alerta vermelho no orçamento. Mas esse despejo das próprias securities também é visivelmente autodestrutivo. Eles simplesmente não podem vender $8 trilhões. A Casa de Saud está, na verdade, destruindo o equilíbrio da própria riqueza. Por mais que a hagiografia ocidental tente pintar Riad como player responsável, fato é que legiões de príncipes sauditas estão horrorizados ante a destruição da riqueza do reino nesse haraquiri em câmera lenta.

Principe
Mohammed bin Sultan. Foto: Albawaba News.

Haveria algum Plano B? Haveria. O príncipe guerreiro Mohammed bin Sultan – atual manda-chuva em Riad – teria de meter-se no primeiro avião para Moscou, para arquitetar uma estratégia comum. Mas não acontecerá.

E quanto à China – maior importador de petróleo da Arábia Saudita –Xi Jinping acaba de visitar Riad; Aramco e Sinopec assinaram uma parceria estratégica; mas a parceria estratégica que realmente conta, considerando o futuro de “Um Cinturão, Uma Rota”, é, essa sim, a parceria Pequim-Teerã.

O despejo massivo das securities sauditas tem a ver com a guerra saudita do preço do petróleo. No momento atual de volatilidade extrema, o petróleo está em baixa, as ações estão em baixa e os estoques de petróleo estão baixos. Pois nem assim a Casa de Saud dá sinais de compreender que os Masters of the Universe os estão empurrando para que se autodestruam, os próprios sauditas, várias e várias vezes, incluindo inundar o mercado de petróleo depois de limitar a capacidade dos sauditas [orig. including flooding the oil market with their shut-in capacity]. E tudo isso, para ferir mortalmente Rússia, Irã e… a própria Arábia Saudita!

Apenas um peão no jogo de outros.

Entrementes, Riad ferve de boatos de que haverá um golpe contra o rei Salman – virtualmente incapacitado, demente e confinado a um quarto de seu palácio em Riad. Estão em jogo dois possíveis cenários:

1) Rei Salman, 80, abdica em favor do filho, conhecido ignorantão, arrogante criador de confusão e príncipe guerreiro Mohammed bin Salman, 30, atualmente vice-príncipe coroado e ministro da Defesa e o segundo na linha de sucessão, mas quem de fato comanda o show em Riad. Pode acontecer a qualquer momento. Como bônus, o atual ministro do Petróleo Ali al-Naimi, que não é da família real, poderia ser substituído por Abdulaziz bin Salman, outro filho do rei.

2) Um golpe palaciano. Salman – e seu filho criador de casos – cai fora do quadro, substituído por Ahmed bin Abdulaziz (que foi já ministro do Interior), ou pelo príncipe Mohammed bin Nayef (atual ministro do Interior e príncipe coroado).

Seja qual for o cenário que se concretize, o MI6 britânico está muito intimamente a par da pantomima. E talvez também o BND (Bundesnachrichtendienst, Serviço Nacional de Inteligência) alemão. Todos recordam o memorando do BND no final de 2015, que descrevia o então vice-príncipe coroado Mohammed bin Salman como “jogador político” que está desestabilizando o mundo árabe com as guerras por procuração no Iêmen e na Síria.

Fontes sauditas – que pedem, por óbvias razões, que não se publiquem seus nomes –, garantem que nada menos de 80% da Casa de Saud é favorável ao golpe.

Seja como for, permanece a questão de saber se alguma Casa de Saud reformatada interromperá o haraquiri em câmera lenta que lá acontece. O imperativo categórico não muda: os Masters of the Universe estão prontos para derrubar o mundo inteiro, empurrando-o para terrível recessão, para, basicamente, estrangular a Rússia. A Casa de Saud é apenas um peão nesse jogo de pervertidos.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

E se a China tiver a chave do quebra-cabeça afegão?

Por: Pepe Escobar

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Fonte original: RT

Fonte em Português: Oriente Mídia

Como Lázaro, há razões para crer que o processo de paz afegão pode ter tido uma chance de ressuscitar na 2ª-feira passada em Islamabad, quando quatro grandes players – Afeganistão, Paquistão, EUA e China – sentaram-se ao mesmo tempo à mesma mesa.Mas o comunicado final ficou longe de ser retumbante: “Os participantes enfatizaram a necessidade imediata de conversações diretas entre representantes do governo do Afeganistão e representantes de grupos Talibã num processo de paz que visa a preservar a unidade, a soberania e a integridade territorial do Afeganistão.”Uma semana antes da reunião em Islamabad, ainda no Golfo Persa, tive conversa extremamente esclarecedora com um grupo de pashtuns afegãos. Depois de quebrado o gelo, quando todos se convenceram de que não sou algum tipo de agente à moda Sean Penn, com agenda oculta, meus interlocutores pashtuns entregaram o que tinham de melhor. Senti-me de volta a Peshawar em 2001, uns poucos dias antes do 11 de setembro.A primeira grande novidade foi que dois oficiais Talibã baseados no Qatar, estão próximos de reunir-se cara a cara com altos enviados chineses e paquistaneses, sem interferência dos EUA. Encaixa-se perfeitamente na estratégia demarcada pela Organização de Cooperação de Xangai (OCX), liderada por China e Rússia, segundo a qual o enigma afegão tem de ser resolvido como assunto asiático. E Pequim com certeza quer solução, e rápida; pensem no capítulo afegão das Novas Rotas da Seda.

A Guerra Afegã pós 11/9 arrasta-se por intermináveis 14 anos; adotando o jargão pentagonês, pode-se pensar em Liberdade Duradoura para sempre. Ninguém está vencendo – e os Talibã estão mais divididos que nunca, depois que processo de paz passado colapsou quando os Talibã anunciaram que Mullah Omar morrera dois anos antes.

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Guerreiro Taliban e o seu RPG-7. Foto: Foto: internet.

Aquela boa velha “profundidade estratégica”

Mesmo assim, tudo depende do complexo jogo entre Cabul  e Islamabad.

Considere os movimentos de vai-e-vem do Chefe Executivo Organizacional (CEO, é o título dele) afegão, Dr. Abdullah Abdullah. Vive entre Teerã – onde enfatiza que o terrorismo é ameaça contra ambos, Irã e Afeganistão – e Islamabad, onde discute os arcanos do processo de paz com oficiais paquistaneses.

O primeiro-ministro paquistanês Nawaz Sharif, por sua vez, não perde uma chance de renovar seu compromisso com a paz e o desenvolvimento econômico no Afeganistão.

Quando uma tentativa de processo de paz realmente começou – informalmente – em Doha, em 2012, incluindo oito funcionários Talibã, os Talibã ficaram furiosos por Cabul  ter realmente privilegiado as conversações com Islamabad. A posição oficial dos Talibã é que são politicamente – e militarmente – independentes de Islamabad.

Como meus interlocutores pashtuns destacaram, muita gente no Afeganistão não sabe o que fazer de toda aquela conversa Cabul -Islamabad, incluindo o que consideram concessões perigosas, como enviar jovens soldados afegãos para receberem treinamento no Paquistão.

Islamabad joga jogo muito alavancado. O grupo Haqqani – que Washington rotula de terroristas – encontra base segura dentro das áreas tribais do Paquistão. Pois o Talibã está sentado à mesa de negociações de qualquer processo de paz a ser negociado pelo Paquistão – que ainda conta com muita alavancagem sobre aqueles Talibã posicionados à volta do novo líder, Mullah Akhtar Mansoor.

Meus interlocutores pashtuns não têm dúvida alguma: os Talibã e os serviços secretos do Paquistão, ISI (Inter-Services Intelligence), são uma e a mesma coisa, como sempre foram. A aliança estratégica que sempre os uniu continua ativa. Todos os Talibã em Doha são monitorados pelo ISI.

Por outro lado, parece haver mudança sutil envolvendo militares paquistaneses e o ISI(que sabe tudo o que haja para saber, e é cúmplice de muito do que acontece concernente aos Talibã). Mês passado, o comandante do exército do Paquistão general Raheel Sharif foi sozinho ao Afeganistão; pode significar que os militares privilegiarão uma paz real em campo, em vez de manipular o Afeganistão como alguma “profundidade estratégica” do peão paquistanês.

Atenção: tubulação à frente

Assim sendo, em princípio, prosseguirá a conversa afegã. O grupo Hezb-i-Islami Afghanistan (HIA), liderado por Gulbuddin Hekmatyar – outro ator chave na Lista dos Terroristas Top Ten de Washington – está também interessado no processo de paz. Mas oHIA diz que tem de processo que pertença aos afegãos, liderado pelos afegãos – o que significa: sem interferência do Paquistão. Hekmatyar está claramente se posicionando para futuro papel de protagonista.

O enredo engrossa se se passa, dos Talibã para os avanços de ISIS/ISIL/Daesh no Afeganistão. Para círculos próximos do ex-presidente Hamid Karzai, codinome “ex-prefeito de Cabul” (porque só controlava a cidade, nada mais), Daesh é invenção da política externa de Islamabad, para garantir ao Paquistão acesso total à Ásia Central, à China e à Rússia ricas em energia.

Parece um pouco forçado, se se compara ao que realmente se passa hoje no Oleogasodutostão.

Cabul entregou a uma força de segurança gigante, de 7 mil membros, a tarefa de proteger o gasoduto de $10 bi, 1.800 km de comprimento Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia (TAPI), dentro do Afeganistão, assumindo que estará realmente construído até dezembro de 2018. Com otimismo, o trabalho de abrir caminho para o TAPI – o que inclui retirada de minas – começará em abril.

O presidente do Turcomenistão Gurbanguly Berdymukhamedov já ordenou que empresas estatais, a Turkmengaz e a Turkmengazneftstroi, comecem a construir a parte turcomena, de 214 km, do gasoduto TAPI. O gasoduto também atravessará 773 km pelo Afeganistão e 827 km pelo Paquistão, antes de chegar à Índia. Se esse frenesi todo realmente se materializará até 2018 é tema para infindáveis discussões.

E onde está minha heroína?

Enquanto tudo isso acontece, o que anda fazendo a CIA?

O ex-diretor interino da CIA Michael Morell está espalhando “a reemergência do Afeganistão como questão”, de modo que “a discussão de quantos soldados nós [os EUA] mantemos no Afeganistão vai ser reaberta”.

O Pentágono por sua vez anda espalhando que seriam necessários 10 mil coturnos em solo. O comandante da OTAN no Afeganistão, general John Campbell, fala de 10 mil, para acabar com a conversa: “Meu objetivo seria manter o maior número possível de soldados, pelo tempo mais longo possível”. Liberdade Duradoura para sempre, sem dúvida –, agora que o Pentágono foi forçado a admitir, on the record, que as forças de segurança afegãs são incapazes de “operar integralmente por conta própria”, apesar do investimento monstro que Washington fez, de mais de $60 bilhões desde 2002, até agora.

O mais recente relatório do Pentágono fala da segurança no Afeganistão cada vez maisdown, down, down. O que nos leva até Helmand.

Apenas poucos dias antes da reunião de Islamabad, forças especiais dos EUA encobertas por soldados afegãos enfrentaram em tremenda troca de tiros com o Talibã em Helmand. O secretário de imprensa do Pentágono Peter Cook, naquele duplifalar que é sua marca registrada, não falou de “combate” – falou de missão para “treinamento, aconselhamento e assistência”.

O Talibã controla mais território no Afeganistão – nada menos de quatro distritos em Helmand –, mais do que jamais antes, desde 2001. Civis são colhidos no fogo cruzado. E forças especiais e ataques aéreos por forças especiais do Pentágono em Helmand são descritos como ‘supervisão’.

No final, tudo volta sempre a Helmand. Por que Helmand? Meus interlocutores pashtuns relaxam e dizem, de boca cheia: sempre tem a ver com o envolvimento da CIA no tráfico de heroína no Afeganistão: “os norte-americanos simplesmente não podem perder aquilo tudo”.

Assim sendo, parece que estamos entrando num novo capítulo do épico ‘gás e papoulas’ no coração da Eurásia. Os Talibã, divididos ou não, já impuseram a linha vermelha deles: nada de conversas com Cabul, antes de terem conversa direta com Washington. Do ponto de vista Talibã, faz perfeito sentido. Oleogasodutostão? OK, mas queremos nossa fatia (é outra vez a mesma história, desde o primeiro governo Clinton). A CIA não abre mão da heroína? OK, levem quanto quiserem, mas queremos nossa parte.

Meus interlocutores pashtuns, que tem de tomar um avião para Peshawar, abrem um mapa do caminho. Os Talibã querem que o escritório deles no Qatar – palácio realmente muito bonito – seja oficialmente reconhecido como representação do Emirado Islâmico do Afeganistão (nome oficial do país de 1996 a 2001). Querem que a ONU – para nem falar dos EUA! – retirem os Talibã da lista de “mais procurados”. Querem que todos os Talibã sejam libertados das prisões afegãs.

Acontecerá? Claro que não. Significa que chegou a hora de Pequim entrar na conversa com um daqueles cenários de ganha-ganha.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

O Império do Caos prepara mais incêndios em 2016

O texto que segue é de autoria do respeitado colunista brasileiro Pepe Escobar, redigido em inglês na data de 24 de dezembro último (2015) para o prestigiado site RT – Russian Today. Pepe Escobar é ignorado pela mídia brasileira, todavia, os seus textos são reproduzidos pelo mundo afora, em inglês…

O Império do Caos prepara mais incêndios em 2016

Por: Pepe Escobar

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

Em seu seminal “A Queda de Roma: E o fim da civilização”, Bryan Ward-Perkins escreve, “(…) romanos antes da queda estavam tão certos quanto estamos hoje que o seu mundo iria continuar para sempre…  Eles estavam errados. Ser-nos-iam  sábios em não repetirmos a sua complacência”.

O Império do Caos, hoje, não versa sobre a complacência. Trata-se de arrogância – e medo. Desde o início da Guerra Fria, a questão crucial foi quem controlaria as grandes redes de comércio da Eurásia – ou “o coração”, de acordo com Sir Halford John Mackinder (1861-1947), o pai da geopolítica.

Poderíamos dizer que, para o Empire of Chaos, o jogo realmente começou com o golpe apoiado pela CIA no Irã, em 1953, quando os EUA finalmente encontraram, face a face, a famosa Eurásia, atravessada durante séculos pelas estradas da seda, e partiu para conquistar todos elas.

Apenas seis décadas após, é claro que não haverá uma Silk Road americana no século 21, mas sim, tal como o seu antiga antecessora, chinesa. A pressão de Pequim para o que foi batizado de “One Belt, One Road”, embute-se no conflito do século 21, entre o império em declínio e a integração Eurasiana. Subtramas chaves incluem a expansão da OTAN, obsessão perene do império na criação de uma zona de guerra fora do Mar do Sul da China.

Rota da seda
Trem inaugurando nova linha férrea na China. Foto: internet.

Com a análise da formada parceria estratégica Pequim-Moscou, as elites oligárquicas que realmente executam o Império do Caos estão debruçadas sobre o cerco da Eurásia – por considerar  que elas podem ser amplamente excluídas do processo de integração baseado em comércio, comércio e links avançados de comunicações.

Pequim e Moscou identificaram claramente provocação após provocação, juntamente com a demonização implacável. Mas, não ficarão retidos, pois ambos estão a jogar uma partida muito longa.

O presidente russo, Vladimir Putin insiste em tratar diplomaticamente com os líderes do Ocidente, tratando-os como “parceiros”. Mas ele sabe, e aqueles que os conhecem na China também sabem, que não são realmente “parceiros”. Não depois do bombardeio de 78 dias da OTAN em Belgrado, no ano de 1999. Não após o bombardeio intencional da Embaixada da China. Não depois do expansionismo non-stop da OTAN. Não após um segundo Kosovo sob a forma de um golpe ilegal em Kiev. Não depois da queda do preço do petróleo pelas monarquias clientes do Golfo, dos petrodólares americanos. Não depois da engenharia da queda do rublo por Wall Street. Não depois das sanções dos Estados Unidos da UE. Não após o esmagamento do mercado de ações na China por operadores em Wall Street. Não depois de non-stop sabre rattling no Mar do Sul da China. Não após a derrubada do Su-24.

É apenas um fio de distância

Um retorno rápido para os momentos que antecederam a preparação para o abate do Su-24 é esclarecedora. Obama reuniu-se Putin. Imediatamente a seguir Putin se reuniu com Khamenei. Sultan Erdogan teve uma síncope; uma aliança russo-iraniana formal foi publicamente anunciada em Teerã. Isso se deu no dia imediatamente anterior ao da derrubada do Su-24.

Hollande, na França, encontrou-se com Obama. Mas, em seguida, Hollande entrevistou-se com Putin. Erdogan estava sob a ilusão de que fabricara o pretexto perfeito para uma guerra da OTAN, a qual seria lançada em observância ao artigo 5º da Carta da OTAN. Não por acaso o estado fracassado da Ucrânia foi o único país a aprovar – com pressa – o abate do Su-24. No entanto, a própria OTAN recuou – um pouco de horror; o império não estava pronto para a guerra nuclear.

Pelo menos ainda não. Napoleão sabia que a história gira em torno de um fio delgado. Tanto quanto Guerra Fria 2.0 permanece em vigor estávamos, e continuará a ser, apenas um fio para longe da guerra nuclear.

Aconteça o que acontecer no chamado processo de paz sírio a guerra por procuração entre Washington e Moscou continuará. A orgulhosa US think-tank land não podem vê-la de outra maneira.

Para os neocons excepcionalistas e neoliberalcons, igualmente, o único fim de jogo digerível é uma partição da Síria. O sistema Erdogan iria devorar a parte de acima, ao norte. Israel ficaria com a parte restante e rica em petróleo do Golan Heights. E os proxies da Casa de Saud iriam devorar o deserto oriental.

Extremistas
Extremistas islâmicos em passeata de ódio. Foto: internet.

Rússia literalmente bombardeou todos estes elaborados planos jogando-os às cinzas, pois o passo seguinte após a partição seria característico.  Ancara, Riad – e o “líder de bastidor” Washington – empurrando uma estrada Jihad  por todo o caminho rumo ao norte do Cáucaso, assim como a Ásia Central adentro e Xinjiang (já há ao menos 300 uigures que lutam pelo EI/ ISIS/ISIL/Daesh.) Quando tudo mais falhar, nada como uma rodovia jihadista mergulhando como um punhal no corpo da integração Eurasiana.

No front chinês, quaisquer que sejam as “criativas” provocações do Império do Caos  e até onde possam ir, não irão obstruir os objetivos de Pequim no Mar do Sul da China – que é uma grande bacia abarrotada de petróleo inexplorado e rica em gás, além de ser uma importante rota naval para a China . Beijing, inevitavelmente, configurar-se-á em 2020 como um haiyang qiangguo um formidável poder naval.

Washington pode fornecer US$ 250 milhões em “ajuda” militar ao Vietnã, Filipinas, Indonésia e Malásia para os próximos dois anos, mas isso é em grande parte irrelevante. Quaisquer que sejam as ideias imperiais “criativas”, estas teriam que ter em conta, por exemplo, o DF-21D, míssil balístico “assassino de porta – aviões”, com um alcance de 2.500 km e capaz de transportar uma ogiva nuclear.

Na frente econômica, Washington-Pequim permanecerá como território privilegiado da guerra por procuração. Washington empurra o TPP – ou OTAN em giro comercial por toda a Ásia? Ainda é um trabalho de Sísifo, porque os 12 países membros precisam ratificá-lo, pelo menos não os EUA, com um Congresso extremamente hostil.

Contra este americana pônei de um truque, Xi Jinping, por sua vez, está implantando uma  complexa estratégia em três frentes; contra-ataque da China ao TPP, a Área de Livre Comércio da Ásia-Pacífico (FTAAP); o imensamente ambicioso “Um Cinturão, Uma Estrada” e os meios para financiar um tsunami de projetos, através do Banco Asiático de infraestrutura e Investimento (AIIB) – aríete chinês contra o Banco Mundial e o Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB), este controlado por Japão e EUA.

Para o Sudeste da Ásia, por exemplo, os números contam a história. No ano passado, a China foi o principal parceiro da ASEAN, da ordem de US$ 367.000.000.000. Isso irá crescer exponencialmente com uma correia, One Road – que irá absorver $ 200 bilhões em investimento chinês até 2018.

Heart of Darkness – revisitado

As perspectivas para a Europa são nada mais que sombrias. O pesquisador franco-iraniano Farhad Khosrokhavar tem sido um dos poucos a ser capaz de identificar o ponto crucial do problema. Um exército de reserva jihad em toda a Europa continuará a se alimentar de batalhões de jovens excluídos, nas pobres cidades do interior. Não há nenhuma evidência que os neoliberalcons da UE realizarão políticas socioeconômicas de com intuito de extrair essas massas alienadas dos guetos, empregando novas formas de socialização.

Assim, a rota de fuga vai continuar a ser uma versão semelhante ao vírus do Salafi-jihadismo, vendido por aproveitadores “PR-savvy” astutos como um símbolo de resistência; a única contra-ideologia disponível no mercado. Khosrokhavar definiu-a como o neo-umma – uma “comunidade efervescente que nunca existiu historicamente”, mas que agora está a convidar abertamente qualquer jovem europeu, muçulmano ou não, afligido por uma crise de identidade.

Em paralelo, neste nosso caminho de 15 anos completos de uma guerra neocom, sem fim, contra os Estados Independentes do Oriente Médio, o Pentágono sofrerá uma expansão turbo-charging, ilimitada, de algumas das suas bases existentes – a partir de Djibouti, no Corno de África até Erbil, no Curdistão iraquiano – em “hubs”.

Da África sub-saariana para o sudoeste da Ásia, espera-se um hub boom, todos eles alegremente hospedando as Forças Especiais; a operação foi descrita no Pentágono pelo supremo Ash “Império da lamentação” Carter como “essencial”; “Por nós não podermos prever o futuro, tais linfonodos regionais – a partir de Moron, Espanha, para Jalalabad, Afeganistão – irão fornecer a presença logística à vante, capazes de responderem a uma série de crises, de terror e de outros tipos. Permitirão resposta unilateral às crises, operações de contra-terrorismo, ou intervenções em alvos de alto valor”.

Está tudo aqui: o Excepcionalismo unilateral em ação, contra quem se atrever a desafiar os ditames imperiais.

Da Ucrânia à Síria, e em toda a MENA (Médio Oriente e Norte da África), a guerra por procuração entre Washington e Moscou, com apostas cada vez mais altas, não cessará. O desespero imperial sobre a irreversível ascensão chinesa também não diminuirá. Com o Novo Grande Jogo a ganhar velocidade, a Rússia fornece poderes aos eurasianos:  Irã, China e Índia, com sistemas de defesa de mísseis além de tudo que o Ocidente imagina, até se acostumar com a nova normalidade: Guerra Fria 2.0 entre Washington e Pequim/Moscou.

Deixo-vos com Joseph Conrad, escrevendo em Coração das Trevas: “Há uma marca da morte, um gosto ou mortalidade nas mentiras… Era seu desejo rasgar o tesouro para fora das entranhas da terra, sem nenhum propósito de elevado moral nas suas costas quanto há em assaltantes quebrando um cofre… Não poderíamos compreender, pois estávamos longe demais e não se conseguia, porque estávamos viajando na noite das primeiras eras, daquelas eras que já se foram, dificilmente deixando algum sinal – e sem lembranças … “(.)