O Iêmen e o “Game Of Thrones” da Arábia

Fonte: Katehon – 23.08.2016 –  Arábia Saudita

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

A Arábia Saudita sofre, no momento,  uma derrota esmagadora no Iêmen. O conflito parece ser apenas pouco promissor para eles. Os Houthis e as tropas leais ao ex-presidente Saleh seguram firmemente o Iêmen do Norte e estão a conduzir operações militares na província de Najran em pleno território saudita. O Iêmen do Sul está ocupado e controlado por um entrelaçar de tropas da coligação Arábia Saudita/EAU, Península Árabe al-Qaeda, ISIS, e separatistas do sul do Iêmen. Recentemente, representantes do movimento Houthi anunciaram a criação de um governo que irá incluir membros do seu próprio partido “Ansar Allah”, o partido “Congresso Geral do Povo” do ex-presidente Ali Abdullah Saleh, bem como membros de outros partidos e organizações. Ao mesmo tempo, tentativas similares por parte dos sauditas para criar algum tipo de governo interino em Aden foram completamente fracassadas. O presidente Hadi, apoiado pelos sauditas e seus aliados, e seu governo são baseadas em Riyadh (Riad). Em Najran, na região de fronteira com o Iêmen, tribos locais árabes lançaram uma rebelião contra as autoridades oficiais da Arábia Saudita.

Recordemos que 2015 foi marcado pela invasão em larga escala da coalizão Árabe liderada pelo sauditas no Iêmen. Além dos sauditas, os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Egito, Marrocos, Jordânia, Kuwait e Paquistão têm participado nesta guerra contra o Iêmen. Este último se juntou apenas formalmente a coalizão, mas não tem envolvimento real no conflito. O principal impacto da guerra é suportado pela Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrein.

Ao mesmo tempo, a Arábia Saudita também foi derrotada na Síria. Ela não conseguiu derrubar Bashar Al – Assad e desde a reorientação da Turquia em relação à Rússia e o Irã, a posição da Arábia Saudita tornou-se mais precária. O chamado grupo de oposição sírio em Riyadh foi em grande parte controlado pelos turcos. A alavancagem dos sauditas sobre o processo da Síria em Riyadh está ficando menor. A realização de duas campanhas militares de uma só vez – a guerra aberta no Iêmen e a guerra por procuração na Síria –  está cada vez mais difícil. Este é o entendimento por aliados próximos dos sauditas, caso dos Estados Unidos. Assim, os EUA reconhecem a futilidade da campanha militar no Iêmen, como foi noticiado que os Estados Unidos devem retirar o seu grupo de planejamento do país que forneceu a  inteligência necessária para os sauditas. O grupo agora tem sido baseado no Bahrein.

A intervenção no Iêmen e a guerra na Síria são largamente projetos de uma disputa (pelo menos algumas fontes estão tentando apresentá-las desta forma). Deve ser entendido que a Arábia Unido enfrenta agora uma luta feroz entre suas elites. O rei reinante Salman está gravemente doente. Após a sua morte, deverá ser passado o poder para os membros da segunda geração da dinastia saudita. É mais provável que o príncipe Mohammed ibn Salman (Ministro da Defesa) e príncipe Mohammed Ibn Nayef Al Saud deverão confrontar-se em uma luta pelo poder no futuro próximo.

Mohammed Ibn Nayef é conhecido como sendo aquele mais influente dentre os membros mais intimamente ligados aos EUA na elite saudita. A aventura síria é considerada um projeto pelo seu grupo que coordena estreitamente as suas atividades com os Estados Unidos. Em sua juventude, Ibn Naif estudou nos EUA e até mesmo treinos em cursos especiais da FBR.. De acordo com as memórias de ex-funcionários da CIA, o príncipe sempre foi leal para com  os EUA e ativamente cooperou com as agências de inteligência dos EUA . Os EUA percebem-no como o candidato mais desejável para o trono saudita, embora estejam preocupados com a sua saúde.

Por sua vez, Mohammed ibn Salman, que tem apenas 31 anos de idade, é bastante ambicioso e procura a todo o custo a assumir o trono de seu pai. Alguns analistas ainda preveem um golpe suave após a morte do rei Salman dado que o seu filho é o segundo na linha de sucessão ao trono após seu tio Muhammad ibn Naif. Para os EUA, ele é um jogador muito novo. A guerra no Iêmen foi uma iniciativa deste Salman. Com a ajuda de uma guerra vitoriosa, ele procura aumentar seu próprio prestígio e status, mas calculou mal.

Assim, existem dois grupos opostos na Arábia Saudita: uma é completamente pró-americana; o outro é bastante agressivo e expansionista, mas sem apoio suficiente por parte dos Estados Unidos, cujo projeto e iniciativa política externa deverá falhar primeiramente na determinada vontade quem ganhar este presente árabe “Game of Thrones”.

Mohammed ibn Salman visitou periodicamente Rússia, aparentemente em busca de apoio do lado russo. Recentemente, o representante especial do presidente russo para o Oriente Médio e África, o  Vice – Ministro russo das Relações Exteriores Mikhail Bogdanov, reuniu-se com ele. Estes contatos acabam por explicar a crescente importância da Rússia no Oriente Médio tendo como pano de fundo a operação bem sucedida e consistente na Síria. A Rússia também é aguardada no Iêmen. O ex-presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh afirmou ontem que a Rússia está pronta para guarnecer portos e bases oferecidos para o estacionamento de soldados russos. Controlar o Iêmen significa ter controle sobre a mais importante artéria de transporte: o caminho do Oceano Índico e do Golfo Pérsico para o Mar Vermelho e Mediterrâneo.

A Rússia não está, naturalmente, interessada em uma vitória da Arábia Saudita no Iêmen. E isso é impossível. No entanto, existe a possibilidade de que a Rússia venha a poder ajudar a coalizão  da Arábia Saudita a alcançar uma “derrota honrosa”, iniciar o processo de paz, e, assim, permitir que Muhammad ibn Salman venha a sair da sua aventura no Iêmen com uma perda mínima de face (prestígio pessoal). Por outro lado, as ações da Rússia na Síria podem minar a posição daqueles que se opõem a ele. Enquanto isso, o Iêmen ver-se-á livre da influência e da ocupação das forças sauditas.

 

Sobrinho de JFK sobre a Síria: O ISIS é um produto da intervenção dos EUA por petróleo

Por: Claire Bernish

Fonte: The Free Thought Project

Tradução: J. Junker

Robert F. Kennedy Jr. escreveu um astuto artigo a respeito da verdade por trás da presença dos EUA no Oriente Médio – a sua subserviência ao bem mais precioso da indústria de combustíveis fósseis: o petróleo.

“À medida que nos concentramos no crescimento do ISIS e da busca pela origem da selvageria que levou tantas vidas em Paris e San Bernardino, podemos querer olhar para além das explicações convenientes de religião e ideologia e focar nas lógicas mais complexas da história e petróleo, que em sua maioria apontam o dedo da culpa do terrorismo de volta para os campeões do militarismo, o imperialismo e o petróleo aqui em nossas próprias costas”, Kennedy escreveu em um editorial para o EcoWatch.

O olhar crítico de Kennedy sobre a história dos Estados Unidos de intromissão, intervencionismo, e da hegemonia – quase exclusivamente para manter o fluxo de petróleo – torna evidente o seu papel na desestabilização de todo o Oriente Médio, especialmente na Síria. Na verdade, mais de cinquenta anos de intercessão violenta – em última análise, no interesse da indústria de combustíveis fósseis – tem alimentado enormes ressentimentos. Essencialmente, o corporativismo geoestratégico americano – sob o disfarce da manutenção da paz armada – criou o violento jihadismo islâmico contra quem os EUA agora lutam suas batalhas.

A partir da administração Eisenhower, a soberania árabe e a neutralidade das nações do Oriente Médio na Guerra Fria foram percebidas como ameaças para o acesso americano ao petróleo.

Em primeiro lugar na ordem do dia para a Presidência de Eisenhower estava o primeiro líder eleito do Irã em 4000 anos de história, o presidente Mohammed Mosaddegh. O desejo de Mosaddegh de renegociar contratos de petróleo desfavoráveis ​​ao Irã com a British Petroleum levou a um golpe fracassado da inteligência britânica – a quem ele prontamente expulsou do país. Apesar de parecer favorável aos EUA, a quem Mosaddegh via como um modelo de democracia que ele procurou empregar no Irã – Eisenhower, com a ajuda do notório diretor de inteligência Allan Dulles, derrubou o líder. A “Operação Ajax” depôs Mosaddegh e o substituiu pelo Shah Reza Pahlavi – um líder cujo reinado sangrento culminou na revolução islâmica de 1979, “que tem atormentado a nossa política externa por 35 anos”, escreveu Kennedy.

Talvez uma das maiores ameaças maiores sobre a Síria fosse a relutância dela para aprovar a Trans Arabian Pipeline – destinada a atravessar a Síria a fim de conectar o petróleo saudita com os portos do Líbano. Quando o democraticamente eleito e secular presidente sírio negou o plano, a CIA armou um golpe em uma tentativa de substituí-lo.

“O plano da CIA foi de desestabilizar o governo sírio, e criar um pretexto para uma invasão pelo Iraque e pela Jordânia, cujos governos já estavam sob controle da CIA”, explicou Kennedy. Não funcionou. Uma falha surpreendente, motins e violência anti-americana irromperam por toda a região. A Síria barrou vários adidos americanos, e, em seguida, expôs e executou todos os funcionários que abrigavam algum sentimento pró-americano. Na verdade, os EUA quase provocaram uma guerra com a Síria pelo incidente.

As repercussões da tentativa de golpe – bem como parcelas de maior êxito dos regimes fantoches em outros lugares – continuam a desempenhar um papel na política externa e relações geopolíticas no presente. A mais “bem sucedida” remoção de um líder e sua subsequente substituição envolveu um nome que todos nos EUA estão familiarizados: Saddam Hussein.

Depois de várias tentativas para depor o líder do Iraque falharam, a CIA, em última instância instalou Hussein e o Partido Baath no poder. Como Kennedy observou, o ministro do Interior Said Aburish disse sobre a trama: “Nós chegamos ao poder em um trem chamado CIA”. James Critchfield, o chefe do posto da CIA responsável tanto pelo golpe bem sucedido quanto pelo fracassado, mais tarde disse que a CIA tinha “essencialmente criado Saddam Hussein” – também lhe fornecendo armas, inteligência, além de armas químicas e biológicas.

“Ao mesmo tempo, a CIA estava a fornecer ilegalmente ao inimigo de Saddam – o Irã – milhares de mísseis anti-tanque e anti-aéreos para combater o Iraque, um crime que ficou famoso durante o escândalo Irã-Contras … A maioria dos americanos não estão cientes das muitas maneiras que essa reação de erros anteriores da CIA ajudou a criar a crise atual”.

Enquanto os americanos amplamente acreditam na grande imprensa e na narrativa governamental que o papel atual dos EUA na Síria eleva-se a objetivos humanitários, começando com a Primavera Árabe em 2011, “Em vez disso, começou em 2000, quando o Qatar propôs construir um gasoduto de 1,5 mil quilômetros e US$10bi através de Arábia Saudita, Jordânia, Síria e Turquia”, Kennedy explicou.

“O gasoduto proposto teria ligado o Qatar diretamente para mercados europeus de energia através de terminais de distribuição na Turquia que embolsariam grandes taxas de trânsito. O gasoduto Qatar-Turquia teria dado os reinos sunitas uma dominação decisiva do Golfo Pérsico em mercados de gás natural pelo mundo e fortalecido o Qatar, aliado mais próximo dos Estados Unidos no mundo árabe”.

A UE recebe atualmente 30 por cento de seu gás da Rússia, Kennedy observou, e “A Turquia, segundo maior cliente de gás da Rússia, estava particularmente ansiosa para acabar com sua dependência de sua antiga rival, além de posicionarem-se como um centro de transporte lucrativo dos combustíveis asiáticos para os mercados da UE. O gasoduto do Qatar teria beneficiado a monarquia conservadora sunita da Arábia Saudita, dando-lhes uma posição de dominação sobre os xiitas”.

Os cabos diplomáticos revelados pelo Wikileaks mostram que desde 2006 o Departamento de Estado dos EUA, a pedido do governo israelense, vinha propondo uma parceria entre Turquia, Qatar e Egito para fomentar uma guerra civil sunita na Síria, para enfraquecer o Irã. O propósito declarado, de acordo com o telegrama secreto, foi para incitar (o presidente sírio, Bashar al- Assad) uma brutal repressão da população sunita da Síria.

“Como previsto, a reação exagerada de Assad à crise fabricada no estrangeiro – lançando bombas de barril em redutos sunitas e matando civis – polarizou uma divisão xiita-sunita da Síria e permitiu aos responsáveis ​​políticos vender aos americanos a ideia de que  a luta pelo gasoduto era uma guerra humanitária”.

O contexto histórico e longo de Kennedy para o imbróglio atual merece uma leitura minuciosa. Sua mensagem inequívoca deve servir como um lembrete importante que o governo dos Estados Unidos e seu porta-voz da grande imprensa  –  tão convincente quanto eles podem parecer  –  nunca estão contando toda a história.

Barack Obama diz que David Cameron permitiu que a Líbia se tornasse um “show de merda”

Em ataque sem precedentes, Presidente dos EUA afirma que Reino Unido foi “distraído”.

Por: Tim Walker, Nigel Morris.

Fonte: The Independent

Tradução: J.Junker

Barack Obama criticou duramente David Cameron e o papel do Reino Unido fazendo com que a Líbia se tornasse um “show de merda”, após a queda do ditador Muammar Gaddafi, em um ataque sem precedentes a um líder britânico por um presidente em exercício dos Estados Unidos.

Obama disse que, após uma intervenção militar bem sucedida para ajudar os rebeldes durante a revolta da Primavera Árabe de 2011, a Líbia foi deixada em uma espiral fora de controle – em grande parte devido à falta de ação dos aliados europeus da América.

Em uma franca entrevista à uma revista dos EUA, Obama disse: “Quando eu penso lá atrás, eu me pergunto o que deu errado… Há espaço para crítica, porque eu tinha mais fé nos europeus, dada a proximidade da Líbia, que estariam envolvidos na sequência”.

Recordando o primeiro-ministro britânico, ele sugeriu que Mr. Cameron tinha deixado de se preocupar com a Líbia depois de ter-se “distraído por uma série de outras coisas”.

Cameron e Nicolas Sarkozy,  presidente francês, fizeram força pelos bombardeios contra as forças do coronel Gaddafi, que levaram à sua queda, mas desde 2011 a Líbia afundou ainda mais na violência e na guerra civil, e posteriormente tornou-se um ponto base do ISIS no Norte da África.

Obama continuou: “Nós realmente executamos este plano melhor do que eu poderia ter esperado: Nós tínhamos um mandato da ONU, nós construímos uma coligação, custou US$1 bilhão – que, quando se trata de operações militares, é muito barato. Nós evitamos mortes de civis em larga escala, o que impediu que quase certamente virasse um prolongado e sangrento conflito civil. E apesar de tudo isso, a Líbia está uma bagunça”.

Referindo-se a essa confusão em privado, Obama supostamente usou um termo mais colorido, “shit show”.

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Bombeiro líbio defronte à tancagem de uma planta de refino líbia em Ras Lanouf, norte da Líbia, fevereiro, após incêndios ocasionados por ataques lançados por extremistas do Estado Islâmico. Imagem: AP.

Um bombeiro da Líbia está na frente de um tanque de armazenamento de petróleo em uma instalação de petróleo na região Ras Lanouf norte da Líbia, em fevereiro, depois que foi incendiado seguindo ataques lançados por jihadistas do ISIS (AP)

Os comentários são um grave constrangimento ao Mr. Cameron, que tem sido muitas vezes forçado a defender o envolvimento britânico na Líbia com o fundamento de que a intervenção ocidental ajudou a evitar um banho de sangue. Eles também colocam pressão sobre a aliança transatlântica como as posições das forças de coalizão em alvos do ISIS na Síria e no Iraque.

A porta-voz de Cameron disse que frequentemente deixou claro que ele ainda acreditava que a ação militar na Líbia era “absolutamente a coisa certa a fazer” e sublinhou que o Governo tinha posto o suporte ao país na ordem do dia quando o Reino Unido organizou uma reunião de líderes do G8 em 2013.

Ela disse: “Eu acho que compartilhamos a avaliação do Presidente dos Estados Unidos de que existem desafios reais na Líbia, e é por isso que nós estamos continuando a trabalhar forte com nossos parceiros internacionais para apoiar um processo na Líbia que coloque no lugar um governo que possa trazer estabilidade a esse país e porque estamos a falar de como podemos apoiar tal governo no futuro”.

Falando amplamente para a The Atlantic, Obama revelou que o primeiro-ministro arriscava danificar a “relação especial” dos países, atrasando um aumento nos gastos de defesa para atender o alvo da OTAN de dois por cento do PIB. Aludindo à lentidão do Mr. Cameron, Obama disse: “aproveitadores me enfurecem” (“Free riders aggravate me”).

Quando os dois ficaram cara a cara na cimeira do G7 em Junho de 2015, Obama disse a Cameron: “Você tem que pagar o a sua parte”. No mês seguinte, o chanceler George Osborne incluiu no Orçamento um aumento de gastos com defesa.

Obama também disse que as falhas do Mr. Cameron tinham afetado sua decisão de não impor uma “linha vermelha” sobre o uso de armas químicas do presidente Bashar al-Assad, durante a guerra civil síria. O Presidente tinha planejado um ataque contra as forças de Assad em agosto de 2013, na sequência de um ataque com gás sarin pelo regime contra civis em um subúrbio de Damasco. O ataque foi cancelado no último instante. Um “fator importante” na decisão, o presidente disse, “foi o fracasso de Cameron em obter o consentimento de seu Parlamento” para a ação militar.

Durante seu mandato na Casa Branca, Obama explicou, ele tentou encorajar outras nações a agir em questões internacionais sem esperar que os EUA para assumissem sempre a liderança.

“Foi precisamente para evitar que os europeus e os Estados árabes ‘segurem em nossos casacos’ enquanto nós lutamos por eles, que por princípio, insistimos” que liderar a intervenção na Líbia, disse ele, descrevendo a estratégia como “parte da campanha anti-aproveitadores”.

Obama também disse Sarkozy, que deixou o cargo no ano seguinte à intervenção na Líbia, tinha se esforçado para “fazer alarde” do envolvimento da França. A Casa Branca permitiu-lhe levar crédito desproporcional nos ataques aéreos, assim, “[comprando o] envolvimento da França de uma forma que tornasse menos caro e menos arriscado para nós”, disse Obama.

Aleppo, a ira de um Bispo

Por: Marco Tosatti (La Stampa).

Tradução: Gercione Lima (Fratre In Unum).

Durante a “Noite dos testemunhos”, organizada anualmente pela “Ajuda à Igreja que Sofre”, o Arcebispo grego-melquita de Aleppo, Dom Jean-Clément Jeanbart, depois de descrever a situação dramática dos aleppinos, falou aos jornalistas que vieram para ouvir. A tradução do original de Boulevard Voltaire.

“Os meios de comunicação europeus continuam a distorcer o cotidiano dos que sofrem na Síria e também estão usando isso para justificar o que está acontecendo em nosso país sem jamais checar essas informações”. Assim o bispo deu início ao seu discurso, descendo o chicote nas fontes usadas pela imprensa durante a guerra e que continuam a ser usadas por muitas agências de notícias. Entre elas, “instrumentos da oposição armada, como é o caso do Observatório Sírio de Direitos Humanos, a fonte indiscutível usada pelos meios de comunicação ocidentais”.

“É preciso compreender que entre o Estado islâmico e o governo Sírio, a nossa escolha é feita rapidamente. Nós podemos condenar o regime por algumas coisas, mas vocês nunca tentaram ser objetivos”, acusou ainda. Quando lhe foi perguntado se ele poderia explicar sua posição para as autoridades francesas, Dom Jeanbart disse que tinha tentado, antes de lhe terem dito que ele deveria ser “menos crítico”.

Para ele, no entanto, o Ocidente continuou a se calar sobre as atrocidades cometidas pela oposição armada, enquanto denigrem o governo Sírio e seu presidente. “Bashar Assad tem muitas falhas, mas saibam que tem também qualidades”, explicou ele, “as escolas eram gratuitas, os hospitais, mesquitas e igrejas não pagavam nenhum imposto, mas que outros governos na região fazem essas coisas? Sejam honestos! Lembrem-se também que, se nós preferimos apoiar o governo hoje, é porque nós tememos o estabelecimento de uma teocracia sunita que nos privaria do direito de viver em nossa terra”.

Ele continuou: “Sim, eu tentei dizer todas essas coisas às autoridades francesas, mas o que você espera de um Fabius Laurent que pensa que é o Todo-Poderoso para decidir quem merece ou não a viver nesta Terra?” Ele respondeu, aparentemente cansado (Laurent Fabius disse que Assad não merece estar sobre essa terra). “É possível que a França – que eu amo e que me educou através de comunidades religiosas que  tinham se estabelecido na Síria – tenha mudado tanto? É possível que os seus interesses e seu amor ao dinheiro tomaram precedência sobre valores que outrora defendia”? Continuou o arcebispo amargamente.

Sobre os bispos franceses, Dom Jeanbart disse: “Se a Conferência dos Bispos da França tivesse confiado em nós, teria sido melhor informada. Por que os seus bispos se calam diante de uma ameaça que agora é vossa também? Porque os vossos bispos são como todos vocês, acostumado ao politicamente correto! Mas Jesus nunca foi politicamente correto, era politicamente justo!”, bradou.

“A responsabilidade de um bispo é ensinar e usar a sua influência para transmitir a verdade. Os vossos bispos, por que eles têm medo de falar? Naturalmente que serão criticados, mas igualmente lhes será dada uma chance de se defender e de defender esta verdade. Devemos lembrar que a o silêncio às vezes é um sinal de assentimento”.

E até mesmo a política de migração dos países ocidentais foi criticada pelo arcebispo: “O egoísmo e os interesses servis defendidos por seus governantes, no fim, acabarão por assassinar até mesmo vocês. Abram os olhos, pois não viram o que aconteceu recentemente em Paris?”, acrescentou o Arcebispo, antes de concluir com uma súplica: “Precisamos que vocês nos ajudem a viver e permanecer em nossa casa […], eu não posso aceitar ver nossa Igreja de dois mil anos desaparecer. Eu prefiro morrer do que ter que ver isso”.

Os ganhos da guerra: traficantes búlgaros inflamam os conflitos do Oriente Médio

Mariya Petkova é um jornalista búlgara cuja cobertura abrange as área da Europa de Leste, nos Bálcãs e do Médio Oriente. Este artigo foi produzido como parte do Fellowship Balkan para excelência jornalística, apoiada pela Fundação ERSTE e Open Society Foundations, em cooperação com a Rede Reportagem Investigativa Balkan – BIRN.

O texto a seguir, apesar de longo, se faz necessário por ser elucidativo sobre o tráfico de armas efetuados por nações que apoiam o bainho de sangue na terra síria. Trata-se de uma reportagem feita pela jornalista Mariya Petkova, que percorreu cidades como Sofia, Anevo, Istambul, Gaziantep e Antióquia. 

Os ganhos da guerra: traficantes búlgaros inflamam os conflitos do Oriente Médio

Por: Mariya Petkova

Tradução: J. Junker

Adaptação: C. A. Ferreira

Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e os EUA compram milhões de dólares em armamentos búlgaros, com a Guerra Civil Síria como destina provável, revela uma investigação BIRN.

Em outubro do ano passado, spotters de aeronaves notaram,  com alguma emoção, que aviões Boeing 747  jumbo com as marcas da Saudi Arabian Cargo tinham taxiado junto ao gate de carga e descarga do aeroporto da capital búlgara, Sofia.

“Um avião de carga Saudita nunca tinha vindo aqui… Nos últimos 20 anos!”, explicou Stephan Gagov, um veterano spotter de aeronaves búlgaro. Os vôos tornaram-se tão frequentes que Gagov começou uma discussão em um Fórum on-line de spotters de aeronaves sobre elas, usando a frase “a rota regular” no título. Spotters relataram terem  visto aviões aterrarem duas vezes no final de outubro, uma vez em novembro, quatro vezes em dezembro e uma vez cada, em março e maio deste ano.

A aeronave gigante chegou do aeroporto de Jidá, embarcou a sua carga e em seguida voou para a cidade saudita de Tabuk, cerca de 100 km da fronteira com Jordânia, relatou os observadores, que utilizam ferramentas voo com acompanhamento online. Gagov estimou que a carga embarcada nas aeronaves corresponda a cerca de 60 a 80 toneladas por vez, na forma de caixas. Ele não podia ver o que estava dentro das grades, mas pode estimar o quanto estavam pesados.

Após os voos da Saudi Arabian Cargo terem parado, os aviões de carga de Abu Dhabi começaram a chegar. Airbus A330F e Boeing 777F com as cores da Etihad Cargo chegaram em Sofia cinco vezes entre o final de Junho e meados de agosto deste ano. Recentemente, em 19 de Outubro, uma aeronave de carga Airbus 330F da Etihad voou de Abu Dhabi para a cidade búlgara de Burgas e, em seguida, a Al Dhafra Air Base, uma instalação militar ao sul da capital dos Emirados.

A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e as autoridades búlgaras não revelaram  o conteúdo dessas remessas. Mas, a reportagem Investigativa da Rede Balkan, BIRN, pode revelar que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos têm comprado grandes quantidades de armas e munições a partir de Bulgária nos últimos dois anos, certamente para utilização pelas forças locais que apoiam na Guerra Civil Síria, e possivelmente para o conflito no Iêmen.

O relatório anual da Bulgária sobre as suas exportações, provenientes da sua base industrial de defesa, foi publicado em agosto deste ano, não recebeu, todavia, nenhuma cobertura da mídia. Afirma  o documento que o governo aprovou o valor superior a cifra de € 85.000.000, em munições e equipamentos militares para a Arábia Saudita no amo de 2014, com negócios no valor de quase 29.000.000 € concluída até o final deste ano (2015). O governo búlgaro também confirmou à BIRN, que emitira guias de exportação para a venda de armas, em favor dos Emirados Árabes Unidos.

Bulgária produz e estoca, principalmente, armas de design soviético. Analistas afirmam que é altamente improvável que tanto a Arábia Saudita, ou os Emirados Árabes Unidos venham a comprar estes meios para as suas próprias forças, que usam armas ocidentais padrão OTAN, e por isso é muito mais plausível que eles comprem a munição para as facções locais, deles aliados, envolvidas em conflitos na Síria e no Iêmen, onde armas de desenho soviético são preferidas e amplamente utilizadas.

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Legenda: Aeronave de carga Boeing 777F, com as cores da Etihad, descola do aeroporto de Sófia, em 30 de junho de 2015. Foto: Stephan Gagov.

Um ex-oficial búlgaro, com acesso aos bastidores governamentais,  relatou à  BIRN que as compras sauditas foram transportadas nas aeronave visto pelos spotters de aviões e destinados aos combatentes da oposição síria, com os embarques posteriores, possivelmente, destinados a serem utilizados no Iêmen. No ano passado, os Estados Unidos também teriam comprado armas da Bulgária como parte de um programa de US $ 500 milhões para treinar e equipar as forças de oposição sírias, programa este que por agora foi abandonado.

Combatentes da oposição e analistas independentes também têm dito à  BIRN que as armas búlgaras estão a ser utilizadas na Síria, onde mais de 250.000 pessoas foram mortas e mais de 11 milhões forçadas a deixar suas casas desde que a guerra eclodiu em 2011. Fato é que sob o domínio do regime comunista a Bulgária, país de apenas sete milhões, construiu uma gigantesca indústria de armas, empregando 110.000 pessoas e capaz de captar até US $ 1,5 bilhão (€ 1.300.000.000) em divisas por ano. O regime, então solidário ao esforço soviético, adquiriu deste a tecnologia para fabricar armas de fogo e munição. Acumulou vastos estoques para apoiar o seu contingente militar de 1000.000 homens em armas, bem como a possibilidade de uma mobilização geral. Durante a regra dos 45 anos  do partido comunista da Bulgária no poder, deu-se o desenvolvimento de  fortes laços comerciais com o Oriente Médio e a África, laços estes que foram mantidos por muitos comerciantes, incluindo aqueles do inefável negócio de armas.

Um negócio rentável

Ao perscrutar através de seus grandes óculos, Nikolay Nikolov, acaba de forma casual a mencionar que se sentou na mesma mesa de Carlos, o Chacal, o militante marxista notório,  que era ativo no Oriente Médio e na Europa nas décadas de 70 e 80 do século passado. Nikolov, um pseudônimo para proteger sua identidade, esteve presente e atuante no comércio de armas por mais de 25 anos. “Todo mundo fica com uma parte”, disse ele, incluindo funcionários do governo e corretores. “As comissões são valiosas e correspondem por vezes ao valor do negócio das armas. Se algo custa 10 milhões, o preço final será de 35 milhões”.

Ao sentar-se em um pequeno café no centro de Sofia, onde ele gosta de conhecer e fazer negócios, Nikolov enrola cigarros de fumos artesanais e relembra histórias. Questionado sobre a venda de armas para o Oriente Médio, conta uma história sobre ter arrastando malas cheias de dinheiro no meio de um escaldante deserto árabe por volta do meio dia…

Após o colapso do comunismo em 1989, a produção de armas na Bulgária caiu substancialmente. O valor oficial das exportações de defesa caiu para € 111 milhões em 2006. Mas, em seguida, as vendas começaram a pegar e até 2014 tinham atingido € 403.000.000, segundo dados do governo.

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Legenda: exportações da indústria de defesa búlgara de 2006-2014, em milhões de euros. Fonte: Ministério da Economia da Bulgária, Relatórios.

Nikolov afirma que a Bulgária está a vender uma grande quantidade de armas, mas dos estoques antigos. “O pico das nossas exportações de armas foi durante as guerras na Iugoslávia. Um monte de armas foi exportado para a Sérvia e para a Albânia”, diz ele. “Naquela época, tínhamos estoques no valor de bilhões, agora temos apenas algumas centenas de milhões”. Apesar de a produção e as vendas serem apenas uma fração dos níveis pré-1989, o comércio de armas na Bulgária continua a ser um negócio altamente lucrativo. “Ainda é mais rentável do que o tráfico de drogas”, disse Nikolov.

O interesse do Golfo

A Arábia Saudita, até então, não tinha se tornado um cliente importante para as empresas de armas búlgaras nestes anos recentes. Mas isso mudou em 2014. O relatório do governo búlgaro diz que foram emitidas licenças para venda de munições e equipamentos militares no valor de 85.500.000 € para a Arábia Saudita no ano passado. Munições no valor de  € 65.400.000, armas de grande calibre com valor da ordem de € 12.500.000 e armas de pequeno calibre no valor de € 5 milhões. Até o final de 2014, as empresas búlgaras do setor tinham concluído ofertas de exportação para as Monarquias do Golfo com valores da ordem de € 28.900.000. O Ministério da Economia Da Bulgária, que supervisiona o comércio de armas, informou à BIRN em um comunicado, que as ofertas incluíam armas de uso pessoal, bem como armamento leve e pesado.

Um relatório da ONU listadas 827 metralhadoras leves e 120 SPG-9, armas anti-carro, sem recuo,  como parte das exportações de armas da Bulgária para a Arábia Saudita em 2014. Ben Moores, analista sênior da consultoria IHS Janes defesa, afirmou que provavelmente tais armas eram remessas para a Síria, ou o Iêmen. O militar saudita estará armado com metralhadoras leves belgas e não faria uso de um SPG-9, afirmou. “É muito improvável que este tipo de arma venha a ser usada pelos militares da Arábia Saudita, mas é muito popular e utilizada no Iêmen, Iraque e Síria”, relatou.

De acordo com o ex-oficial búlgaro, em condição de anonimato, os voos entre Sófia e a Arábia Saudita se deram com o intuito de transportar armas búlgaras para os grupos da oposição síria. Depois que os aviões aterrissaram em Tabuk, a carga foi embarcada em caminhões e transportada para um centro de distribuição na Jordânia,  para as forças militantes de extremistas sírios, afirmou.

A Arábia Saudita é um dos maiores financiadores de combatentes contrários ao presidente sírio, Bashar al-Assad. Riyad financiou uma compra fenomenal de armas de infantaria da Croácia para as forças da oposição síria, compra esta informada pelo The New York Times, em 2013, então citando funcionários americanos e ocidentais “familiarizados com as compras”. Em uma entrevista à BBC no fim de outubro de 2015, o ministro do Exterior saudita Adel al-Jubeir reconheceu abertamente que Riyad forneceu armas aos combatentes da oposição extremista síria. “Nós temos que contribuir para mudar o equilíbrio do poder no terreno”, disse ele. O informante, ex-oficial militar búlgaro, também  disse que algumas das armas enviados para a Arábia Saudita “podem ​​também têm sido utilizadas contra o Iêmen, pois os vôos posteriores coincidiram com o início da operação da Arábia por lá”. Arábia Saudita começou a ação militar no Iêmen no final de março, em apoio das forças leais ao presidente exilado Abd-Rabbu Mansour Hadi.

Ao contrário da Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos já tinham uma história recente de compra das armas búlgaras. O  telegrama diplomático  a partir da embaixada dos EUA em Sofia, publicado pelo site WikiLeaks, informou que os Emirados Árabes Unidos financiou um acordo de 2010 para compra de dezenas de milhares de fuzis de assalto rifles, 100.000 cargas de alto explosivo, granadas lançadas por foguete e munições para o então governo do Iêmen. O cabograma também relatava que a Bulgária realiza consultas  junto à embaixada dos EUA, no tocante aos negócios de armas potencialmente controversos. Contatados pela BIRN, a embaixada se recusou a dizer se ele estavam cientes de outros países a compra de armas búlgaras para uso na Síria.

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Legenda: exportações da indústria de defesa búlgara para os Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, em milhões de euros. Fonte: Ministério da Economia da Bulgária, relatórios.

Este ano, o governo búlgaro emitiu licenças para a exportação de munições, armas de fogo e equipamentos de defesa para os Emirados Árabes Unidos, o Ministério da Economia, todavia, recusou-se a demonstrar os valores envolvidos nestes negócios.  Pieter Wezeman, pesquisador do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo, disse que “não faz sentido algum”  os Emirados Árabes Unidos vir a comprar armas e munições da Bulgária para as suas próprias forças. Ele disse suspeitar que estas munições seriam desviadas para a Síria, ou o Iêmen. Moores expressou uma conclusão similar.”É muito mais provável o que [as armas] os Emirados Árabes Unidos compraram seja reencaminhado para um terceiro”, pautou.

Tanto a Arábia Saudita, quanto os Emirados Árabes Unidos são parte de uma coalizão contra o Iêmen, que tem realizado ataques aéreos, imposto forças terrestres desdobradas e fornecido armas para extremistas locais, com o objetivo de combater as forças xiitas, conhecidos como houthis. Riad também foi envolvido no fornecimento de armas ao Iêmen antes de suas próprias forças intervissem por lá, disse Wezeman.

As embaixadas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, responsáveis ​​pelos respectivos negócios armamentistas realizados na Bulgária não responderam às perguntas da BIRN. Da parte búlgara, o Ministério da Economia disse que não iria emitir licenças para negócios de armas quando forem levantadas preocupações sobre o possível desvio ou re-exportação de armas.

Acidente americano

Em 06 de junho deste ano (2015), uma explosão fatal ocorrida em um campo de testes de armas da Bulgária, forçou os Estados Unidos a admitir que o evento  tinham sido proveniente de armas de compradas na Bulgária, como parte de um esforço para apoiar combatentes da oposição extremista síria. Um empreiteiro norte-americano, veterano de 41 anos de idade, veterano da USNAVY, Francis Norwillo, morreu quando uma granada-foguete explodiu, enquanto estava sendo carregada em um lançador RPG-7. Outras quatro pessoas,  dois cidadãos norte-americanos e dois búlgaros, também foram feridos. Os americanos estavam trabalhando para uma empresa dos EUA nomeada Purple Shovel, contratado pelos militares dos EUA para ajudar a treinar e equipar combatentes da oposição extremista síria. A embaixada dos EUA disse em uma declaração concisa:

“Os três empreiteiros estavam conduzindo formação de familiarização para outros funcionários da empresa no momento do incidente”, disse a embaixada, recusando-se a fazer qualquer comentário adicional.

O banco de dados de compras governamentais dos EUA demonstra que Comando de Operações Especiais (SOCOM), que está no comando do esforço militar dos EUA para ajudar os extremistas sírios, concedeu a Purple Shovel, um contrato no valor superior a US$ 26,700,000 (24.600.000 €) em dezembro de 2014, para o fornecimento de armas estrangeiras e munição. O país de origem está listado como Bulgária. O contrato foi alterado duas vezes para chegar ao valor total de US$ 28,300,000, de acordo com o banco de dados.

Questionado sobre o negócio, porta-voz SOCOM Kenneth McGraw disse via e-mail:

“As armas que foram compradas com este contrato incluíram o AT-5 Anti-Tank Missile Launcher, SPG-9 Anti-Tank Recoilless Gun e RPG-7 Rocket Grenade Launcher”. Informou, no entanto, que a arma envolvida na explosão em Anevo não fazia parte do contrato. Apesar do incidente fatal, McGraw relatou que o contrato não tinha sido cancelado.

A granada foi fabricada em 1984, de acordo com autoridades búlgaras que estão investigando o incidente. Um relatório Buzzfeed News citou um especialista em armas não identificado afirmando que a granada passara toda a sua existência e esgotado sua validade em “uma prateleira”.  Mas, dois ex-oficiais militares búlgaros explicaram à BIRN, que a munição tem uma vida útil de décadas se armazenado adequadamente e uma granada feita em 1984 não seria velha demais para ser usada com segurança.

Alexander Dimitrov, o proprietário do Alguns, uma empresa privada que tinha contratado o campo de testes no dia da explosão, se recusou a comentar. A Purple Shovel,, empresa sediada em Sterling, Virginia, também se recusou a comentar o incidente, ou o contrato com SOCOM. O banco de dados de aquisição dos EUA mostra o SOCOM também premiado com um contrato no valor de mais de $ 32.000 (€ 28.200), para outra empresa norte-americana, UDC EUA, para fornecer munição a partir da Bulgária. O contrato foi assinado na mesma data que o negócio Purple Shovel, e exibe o mesmo “ID solicitação”, o código usado em uma chamada virtual, registrar os lances necessários para o cumprimento do contrato. Contatado ao telefone, perguntou-se sobre o contrato, se o mesmo era para a força-tarefa do USARMY armar extremistas sírios,  o presidente da empresa, Matthew Herring, disse à BIRN: “Não, não, nós não somos parte disso e certamente não temos a liberdade para falar sobre isso”.

O esforço militar dos EUA para treinar e equipar forças para lutar contra o grupo militante ISIS (Estado Islâmico) na Síria foi fortemente criticado por membros do Congresso dos Estados Unidos, por ser ineficaz. Em 09 de outubro deste ano (2015), a administração Obama anunciou que estava abandonando o programa. Mas, as atividades da Agência Central de Inteligência, CIA, de  secretamente armar os sírios que combatem as forças de Assad, continua em vigor.

Conexão Turca

Em uma manhã quente no final de julho, uma dúzia de comandantes da oposição extremista síria conversou no café de um hotel boutique perto da Praça Taksim, no centro de Istambul depois de participar de reuniões de coordenação. Eles estavam se preparando para ir para o sul da Turquia e, em seguida, de volta para a linha de frente no norte da Síria.

Três homens, comandantes de unidades em Idlib e Aleppo, concordaram em falar com a BIRN. Um deles explicou que a logística é fornecida para as forças de oposição através de dois corredores de operações militares –  uma na Turquia e outro na Jordânia. Todos os três disseram que receberam armas do corredor de suprimentos/logística turco – incluindo fuzis AK-47, RPG-7 foguetes lançadores de granadas e armas anti-tanque SPG-9.

Perguntado se eles receberam as armas búlgaras, um deles disse: “Todas as armas na Síria são modelos russos Tanto o regime e a revolução [oposição] fazem uso.  Eles podem ser provenientes de países como Bulgária, Ucrânia, República Checa, mas nós não… Não sabemos exatamente onde eles são produzidos”.

Relatou que as armas búlgaras, por vezes, apresentam o número 10 dentro de dois círculos. Um dos comandantes enviou uma mensagem WhatsApp do seu telefone celular para um combatente em sua unidade na Síria, que retornou com três fotos de armas. Dois deles tinha o símbolo de identificação descrito.

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Legenda: a imagem da esquerda pertence a uma metralhadora búlgara da família PK (PKM), a outra imagem é de um lançador (RPG-7) fabricado na Bulgária. Armas utilizadas no oeste da província de Aleppo. Imagens: extremistas sírios via WhatsApp/BIRN.

Um especialista em munições, que não quis se identificar, apontou serem as duas armas como sendo um lançador de granadas-foguete e uma metralhadora PK. O comandante disse que eles foram usados ​​no Aleppo campo ocidental. A BIRN não pode verificar onde as fotos foram registradas, mas NR Jenzen-Jones, diretor da consultoria britânica de Armamento Research Services, afirmou que havia “quantidades substanciais de armas e munições produzidos na Bulgária que foram documentadas na Síria”. A maioria das armas é datada dentro do período compreendido entre 1970 e 1980 e incluiu armas pequenas, leves, bem como armas anti-tanque, munições e engenhos tais como projéteis para armas sem recuo e projéteis de morteiro, disse ele via e-mail.

A Bulgária foi fornecedora dos exércitos nacionais do Iraque e da Síria ao longo de muitos anos, Permitindo, então, a possibilidade de algumas dessas armas terem vindo de estoques existentes dentro destes países. Mas, Jenzen-Jones afirmou que a sua organização havia recebido “inúmeras alegações de que o material excedente búlgaro foi cedido as facções rebeldes sírias”.

“Nós não temos sido capazes de verificar de forma independente essas alegações”, acrescentou.

Como a Arábia Saudita e os Estados Unidos, a Turquia tem sido fortemente envolvida na prestação de apoio aos grupos de oposição armada na Síria. Nihat Ozcan, oficial militar aposentado e analista da Fundação de Pesquisa de Política Econômica Turca, disse que as nações que apoiam a oposição síria também usam a Turquia como um ponto de trânsito para obter armas para a Síria. “Eles recolhem todo o  tipo de armas antigas e equipamentos soviéticos de [ex-bloco do Leste] países como Bulgária e Romênia, ou mesmo da Ásia Central. Eles os trazem para a Turquia e, em seguida, passam-nos à Síria, sob o controle da aliança Estados Unidos, Turquia. “, disse Ozcan.

Um trabalhador humanitário sírio, com ligações pessoais com membros de grupos extremistas anti-Assad “moderados” nas províncias de Idlib e Aleppo, relatou que as armas compradas por nações estrangeiras foram transferidas para as forças de oposição através do corredor logístico de suprimentos militares. As armas foram entregues através da fronteira turco-síria, onde os extremistas sírios as pegaram, informou em uma entrevista concedida na cidade turca de Gaziantep, perto da fronteira.

As operações militares nas bordas fronteiriças da Turquia e Jordânia são apoiadas por um grupo seleto de países ocidentais e árabes, incluindo os Estados Unidos, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, bem como as nações anfitriãs, de acordo com várias fontes da oposição síria.  Para além destas transferências de armas sancionadas pelos governos nacionais, há alguma evidência, de que as munições também estão sendo contrabandeadas para a Síria em negócios privados. Outro homem com o grupo no hotel de Istambul, que se identificou como membro de um conselho militar da oposição extremista  na província de Homs, disse à BIRN, que ele viu um carregamento de armas búlgaras chegar de caminhão em Homs em agosto de 2012. O homem, que pediu para ser identificado apenas como Abu Fatima, disse que um empresário sírio supostamente pagou US$ 1,600,000 (€ 1,4 milhão) por armas, que incluíam fuzis AK-47, lançadores de granadas e munições. Ele disse que o acordo foi organizado por traficantes de armas búlgaros e sírios.

Em uma entrevista separada, um ex – combatente da oposição extremista síria, disse estar  envolvido em nada menos que 12 transferências de armas búlgaras no início de 2013, a maior das quais era de US $ 7 milhões (€ 6.400.000). O ex – terrorista, que pediu para não ser identificado, afirmou que os embarques se deram na fronteira turco-síria, em dois caminhões e foram organizadas por cidadãos sírios e turcos que possuem conexões com traficantes de armas búlgaras.

Enquadramento jurídico

Não há proibição da ONU de fornecer armas para a Síria e a maioria dos elementos de embargo da União Europeia foram levantados em 2013. Na guerra do Iêmen, a ONU impôs uma proibição apenas no fornecimento de armas para as forças Houthis. No entanto, como signatária do Tratado de Comércio Global de Armas (ATT), que entrou em vigor em dezembro de 2014, a Bulgária tem a responsabilidade de impedir que armas sejam desviadas para outras nações, ou grupos, que difiram dos destinatários especificados. A legalidade de todos os negócios que levaram a armas búlgaras até a Síria, pode depender dos termos precisos de tais acordos.

Em negócios de armas, o Estado importador tem de fornecer um Certificado de Usuário Final, que pode incluir uma cláusula especificando que as armas não serão transferidas a terceiros. Mas mesmo que tal cláusula exista, um estado de importador pode enfrentar pouca, ou nenhuma punição por ter ignorado tal clausula. “Se uma exportação é autorizada, e ocorre um desvio, as ações passíveis de serem efetuadas por parte do Estado exportador são limitadas (além de não exportar armas para esse país / entidade novamente),” Sarah Parker, pesquisadora sênior do Small Arms Survey, centro de pesquisas baseado em Genebra, Suíça, através de E-mail.

“Ela [a nação exportadora] tem uma obrigação decorrente do ATT para enfrentar e prevenir o desvio. Então, se ela vê um destinatário como um risco de desvio, deve também compartilhar essas informações com outros exportadores”, acrescentou.

 

 

Washington, Bagdá, em diferentes páginas na luta contra o Estado Islâmico

A matéria que segue assinada por Slobodan Lekic, é de uma importância impar, não só pelo conteúdo revelador do texto, mas pelo fato de ter sido publicada na revista Stars & Stripes, conhecido órgão informativo militar dos EUA. Portanto, ter uma matéria que elenca entre aspas o conceito de rebelde “moderado”, como neste texto publicado na Star & Stripes, é perceber que a retórica do Departamento de Estado não está sendo considerada como séria, nem mesmo dentro das fronteiras dos EUA. A matéria foi publicada originalmente na Stars & Stripes no dia 13 de dezembro de 2015.

Washington, Bagdá, em diferentes páginas na luta contra o Estado Islâmico

Por: Slobodan Lekic

Deu-se durante a semana passada uma longa série de desavenças políticas em Bagdá, em torno da presença de forças estrangeiras em solo iraquiano, o que acabou por ter exposto a progressiva fraqueza do primeiro – ministro do Iraque, bem como a uma desconexão entre Washington e Bagdá, no tocante à luta empreendida contra o grupo Estado Islâmico.

Disse John Kerry: “(…) com a transição da Síria, as forças terrestres, Estado Islâmico, pode vir a ser derrotado em questão de meses”.

O Estado Islâmico pode ser derrotado em “meses”, caso haja um cessar –fogo entre o governo e os rebeldes “moderados” da Síria, afirmou o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, nesta quinta-feira, exortando o mundo a se unir em torno de uma estratégia de paz, lançada recentemente pelos Estados Unidos, Rússia e outras nações.

Irbid, Jordânia: o principal grupo rebelde árabe apoiado pelo Ocidente na Síria parece à beira do colapso, por causa da moral baixo, advindo das deserções, desconfiança de seus líderes pelo despreparo e confisco de soldos, ameaçando os esforços dos EUA para montar uma força terrestre que seja capaz de derrotar o Estado Islâmico e com isto negociar um fim à guerra civil síria.

“Depois de cinco anos desta guerra as pessoas estão apenas cansadas…  Por isso são nossos combatentes”, disse Jaseen Salabeh, um voluntário no Exército Sírio Livre, que foi formado em setembro de 2011 por desertores do exército do presidente sírio, Bashar Al Assad.

O Exército Sírio Livre, ESL em português, ou FSA, em inglês, que possui dentre aas suas fileiras membros treinados pela Agência Central de Inteligência, CIA, é o maior e o mais secular dos grupos rebeldes que combatem o governo Assad. Apesar de o foco de atenção do Ocidente ser a derrota do Estado Islâmico, acreditam os EUA não poder haver uma paz duradoura na Síria, e a não eliminação do Estado Islâmico, enquanto Assad continuar no poder.

A fim de lidar tanto com o Estado Islâmico, quanto com o futuro de Assad, o Secretário de Estado, John Kerry, e o Ministro do Exterior da Federação Russa, Sergey Lavrov,   buscam intermediar um plano para trazer o governo sírio, que a Rússia apoia, e todos os grupos rebeldes “moderados”, para uma mesa de negociação,  em Viena, Áustria,  no próximo mês. O objetivo é construir uma coalizão para empreender uma campanha  de contra-terrorismo tendo como alvo os militantes Estado islâmico e se preparar para eleições democráticas nos próximos 18 meses.

Com uma estimativa de efetivos da ordem de 35.000 combatentes, a ESL continua a ser o maior grupo rebelde e é um elemento-chave na estratégia norte-americana. Aos combatentes do Estado islâmico são creditados o número de  30.000 homens em armas, mas espalhados por uma ampla área da Síria e do Iraque. Caso o ESL não possa ser invocado como um parceiro forte, de confiança, os EUA e seus parceiros ocidentais ver-se-iam obrigados a recorrer a uma imensa gama de milícias islâmicas radicais, com efetivos menores – apoiadas pela Arábia Saudita e pelo Qatar –  algo que o Ocidente teme, por serem demasiadamente militantes para conciliar com um o governo secular. Rebeldes curdos, conhecidos como o YPG, têm lutado muito bem em áreas curdas, mas tais forças não são consideradas como uma opção válida para as partes árabes do país.

Ao contrário do Estado Islâmico e outros grupos mais extremistas mais, o ESL não conseguiu atingir obter vitórias significativas,  ou criar uma zona “libertada” a partir do seu próprio esforço. Em muitas ocasiões, dizem os seus ex-combatentes, as unidades ESL têm cooperado estreitamente com a Frente Al-Nusra, filiada a Al-Qaeda, que é forte ao norte e que compartilha o mesmo campo de batalha como o ESL no sul da Síria.

“A falta de sucessos nos campos de batalha os enfraqueceram”, Ed. Blanche, um membro baseado em Beirute do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres, e especialista em guerras do Oriente Médio. Disse sobre o ESL: “Eles não estão recebendo apoio significativo (externo), por não terem mostrado resultados”. Dentre outros problemas, Salabeh e outros informam, está o fato de estarem os combatentes do ESL a perder a fé em sues próprios líderes. “Eles roubam regularmente nossos soldos”, disse Salabeh, que veio a esta cidade no norte da Jordânia depois de ser ferido em batalha e agora pretende ficar aqui. “Nós deveríamos receber US$ 400 por mês, mas realmente recebemos só US$ 100”. Queixou-se também da falta de apoio para aqueles mortos, ou feridos em batalha. Combatentes  que perderam as pernas em combate foram reduzidos à mendicância dentro dos enormes campos de refugiados no norte da Jordânia. “Se alguém está ferido, eles simplesmente jogam-no na Jordânia e o abandonam”, disse ele. “As viúvas de combatentes, mártires, também nada recebem após as suas mortes”.

Como resultado desta situação, muitos dos homens do ESL no sul da Síria estão abandonando o grupo, geralmente desertando e se dirigindo para a Jordânia, ou se reunindo ao estimado corpo de 15.000 combatentes da Frente Al-Nusra, de acordo com Saleh e outros sírios entrevistados no norte da Jordânia. Por outro lado, a Frente Al-Nusra alegadamente paga aos seus insurgentes US$ 1.000 por mês e cuida dos seus membros feridos, lhes pagando as contas médicas e fornecendo-lhes pensões, estas destinadas para as famílias daqueles que pereceram em combate.

A situação tornou-se tão ruim, disse Salabeh, que alguns combatentes do ESL questionam-se, perguntando qual a razão para continuar o conflito.  Relatou  que um número crescente acredita, convictamente,  que chegou o momento para um cessar-fogo, mesmo que isso signifique cooperar com o regime de Assad.

“Afinal de contas, Bashar não é tão ruim assim”, disse Salabeh.

Karim Jamal Sobeihi, um refugiado do sul da Síria e que se descreve como simpatizante  ESL, disse que o principal problema da oposição foi o fato de que vários grupos deviam sua lealdade à governos estrangeiros,  fornecedores de dinheiro, portanto, os rebeldes não podem concordar com posições unificadas. Isto incluiu o ESL, que se consiste de muitas facções diferentes, afirmou. Isso fez com que os radicais – com sua ideologia islamita e raia independente – mais atraentes para aqueles dispostos a lutar contra o regime, finalizou. “Existe desunião total. A Síria tornou-se um campo de batalha para a América, Rússia, Turquia, Arábia Saudita e outros países. Terroristas de todos os tipos “, exclamou Sobeihi.

Analistas na Jordânia e no Líbano, lugares que abrigam um grande número de refugiados sírios, culparam o ESL, por permitir que a revolução que eclodiu no início de 2011, tenha sido tomada por grupos jihadistas radicais. Hisham Jaber, analista geral e militar libanês aposentado, afirmou que o foco internacional na luta contra o Estado islâmico, invés de derrubar Assad,  indica que o Ocidente e os  seus aliados árabes reconhecem que Assad não pode ser derrubado militarmente, especialmente após a intervenção russa em nome do presidente sírio  Isto, por sua vez, desmoraliza as tropas do ESL, relatou Jaber ao Stars & Stripes durante uma entrevista em Beirute. Ele disse unidades dp ESL, tanto no norte, como no sul, estavam a cooperar de forma estreita com a Frente Al-Nusra, muito melhor organizada e dotada de financiamento mais robusto, independentemente das suas conexões com a Al-Qaeda. “Em contraste, a Frente Al-Nusra ganha os corações e as mentes das pessoas, posicionando-se como moderados, isto, apesar de suas ligações com a Al-Qaeda”, disse Elias Hanna, um ex-professor libanês geral e de geopolítica da Universidade Americana de Beirute.