Uma ameaça elucidativa

Por: César A. Ferreira

No campo das relações humanas as ameaças podem incutir muitos significados, desde o aviso literal de uma intenção, em geral agressiva, até a dissimulação de uma vontade, desejo oculto, ou fraqueza. Muito frequentemente oculta o temor, ou a impotência sentida. Ademais se mostra reveladora, também, do estado emocional do emitente.

A ameaça é uma revelação de uma intenção agressiva, doutra forma não seria uma ameaça, não por outro motivo costuma ser algo bastante raro no trato diplomático por motivos óbvios, visto que usar mão de ameaças significa rudeza. Ademais, chefes de governo emprestam um peso grande caso verbalizem uma ameaça… Pois, independente disto, a Ministra da Justiça do Estado de Israel, do nada, emitiu uma ameaça explícita endereçada à pessoa do Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin. Este absurdo diplomático cometido pela Senhora Ayelet Shaked continha as seguintes palavras:

“Se Putin quer sobreviver, ele deve manter suas forças armadas fora da Síria”

É difícil entender o motivo de um Ministro de Estado cometer tamanho desatino. Ayelet Shaked é uma mulher jovem, com formação acadêmica em Engenharia de Sistemas (TI), e alçada ao Ministério da Justiça por ser uma estrela em ascensão no cenário politico israelense, neste contexto é possível especular que a senhora Shaked esteja verbalizando o sentimento existente no seio do poder israelense em relação à Federação Russa e suas ações na Síria, focado no seu líder.

De fato a intervenção russa na Síria mudou o rumo da guerra contra os jihadistas, colocando o governo sírio no trilho da vitória. A derrota dos extremistas significa por extensão a derrota das monarquias do golfo pérsico, das agências de inteligência ocidentais, notadamente da CIA, bem como de Israel, que muito investiu nestes guerreiros do terror islâmico.

Uma prova clara disto é o atendimento médico de extremistas no Ziv Medical Center, hospital israelense que é referência para tratamento de traumas por armas de fogo. O empenho israelense em apoiar os terroristas foi flagrado pelo jornalista Sharri Markson, do veículo News Corp, cuja descoberta foi robustecida posteriormente por outros relatos. Outra evidência do apoio israelense aos terroristas sírios é a captura de instrutores israelenses em Aleppo, bem como da morte de uma quinzena de “instrutores militares” devido a um ataque com mísseis de cruzeiro (Kalibr). Isto, sem falar nos constantes ataques aéreos a Damasco, realizados sempre a partir da fronteira de Israel, além das incursões aéreas dentro do território sírio.

Apesar de frustrar as intenções israelenses no tocante à Síria, a Federação Russa não é um estado hostil a Israel, pelo contrário, as relações politicas e diplomáticas até aqui se apresentam como muito boas, embaladas pela presença de aproximadamente 15% de russos na composição populacional de Israel. O governo israelense conta com apoio russo para o estabelecimento de um acordo de livre comércio entre Israel e a União Econômica Euroasiática, Uma forma óbvia de ampliação de mercados. A pergunta que se impõe é o motivo pelo qual Israel insiste em agredir um parceiro importante em termos políticos e econômicos. A resposta pode ser mais simples do que o pensamento usual: Israel acostumou-se a ser assim. arrogante. Por estar cercado por vizinhos que despreza, Israel atrofiou a sua diplomacia, visto que na região age com apoio explícito dos EUA e seja qual for a demanda, nada mais faz além do uso da força.

Ora, ora… Quando não se pode usar a força plenamente, o que resta além da ameaça?

A Rússia sente-se confortável

Por: César A. Ferreira

Neste exato momento caças-bombardeiros Su-34, recentemente desdobrados para o território sírio, reiniciam a campanha de bombardeio em Aleppo contra as posições da Frente Al-Nusra, vaporizando desta forma as unidades deste grupo terrorista, que se viu reforçado pela trégua proposta por Washington.

A Rússia retorna com força plena à Síria a despeito do que se diga no Pentágono, ou no Departamento de Estado. Independe das vontades alheias, e isto devido a um fato muito simples: fracassaram as tentativas de isolamento diplomático e econômico da gigantesca nação. Sobraram, apenas, a constantes e conhecidas provocações da OTAN, que quando respondidas, sejam por sobrevoos, ou escoltas, revelam o ridículo das argumentas desabridas dos prepostos da Aliança Atlântica… Mas, isto, convenhamos, pouco importa (para eles).

A Rússia possui seis fusos horários, é a nação com as mais extensas fronteiras políticas do globo, possui um território riquíssimo em termos de minérios ainda por ser explorado, reservas petrolíferas e de gás que estão por ser avaliadas, enfim… Não necessita e não ambiciona o controle de reservas de terceiros, diferentemente dos EUA e dos seus associados da OTAN, que dormem, sonham, com outra coisa que não seja o domínio completo das nações produtoras, bem como das rotas da commoditie energética de uso global.

O xadrez africano, onde se destaca como jogador de peso a chancelaria chinesa, e do qual o nosso novo, augusto e magnânimo chanceler fez questão de nos retirar, não possui a Rússia como potência interessada, visto que dos recursos futuros do continente africano pouco ou nada necessita, deixando assim este continente, com vastíssimas áreas ainda por serem exploradas, entregues a sanha dos EUA e das antigas potências coloniais, que rivalizam com o dragão chinês a primazia pela conquista dos corações e mentes africanas.

Por isso, tendo uma nação focada, uníssona na perspectiva de que é um povo capaz de escolher, manter o equilíbrio e desafiar quem lhe tente pressionar, a Rússia sente-se confortável para intervir no seu entorno próximo, congelar, ou acelerar conflitos na qual por ventura esteja envolvida, pois a sua proteção, ou seja, a proteção das suas fronteiras, estão bem resolvidas pelas armas entregues pelo complexo industrial militar, que herdado da URSS foi modernizado em todos os quadrantes possíveis, bem como pela elevação do padrão de prontidão das forças nacionais, objetivo perseguido e alcançado enquanto a OTAN se desgastava no Afeganistão…  Em outras palavras, a Rússia fez o que se deve: aproveitou-se de todas as oportunidades para crescer e fortalecer as suas forças armadas, tidas como esteio da soberania nacional, além de braço de crescimento tecnológico e industrial…

A Rússia, agora, sente-se confortável, apesar da inquietude vez por outra imposta pelas provocações infantis da OTAN… Uma lição que não será aproveitada por um sonolento gigante do sul, agora também grande produtor de petróleo, pois se encontra enredado pela miragem da grama mais verde do vizinho do norte.

Pena. A Rússia é uma lição breve de como construir uma verdadeira soberania.

Panorama do conflito sírio: 29.02.2016

Fonte: Al Masdar

Autor: Leith Fadel

Adaptação: César A. Ferreira

Corpo de importante comandante do Hezzbollah é recuperado

Durante a semana passada começaram a correr os rumores que se estenderam por todo o Líbano, de que um dos principais comandantes de campo do Hezzbollah havia sido morto durante a batalha por Khanasser, sudeste de Aleppo. Estes rumores foram de confirmado”a “se confirmar” em questão de horas, já que o destino de Ali Fayyadh, também conhecido como Alaa Al-Bosnia, foi debatido por partidários e oponentes.

Entre os rumores que se havia no Líbano e na Síria, estava a suposta captura de Ali Fayyadh pelo Estado Islâmico; estes rumores foram de prontos negados pelos jornalistas favoráveis ao Hezzbollah, mas que foram pelos equivalentes oponentes veiculados à exaustão.

 Pela manhã, elementos da “Força Tigre”, junto com combatentes do Hezzbollah, colocaram a termo estes rumores, quando recuperaram o corpo do comandante Ali Fayyadh, bem como os corpos de outros combatentes sírios, mortos durante a batalha de Al-Hammam, ao sul de Khanasser.

Os jornalistas ligados ao Hezzbollah confirmaram que o corpo do comandante Ali Fayyadh já se encontrava em sua posse (Hezzbollah), e que o mesmo retornava para a sua cidade natal para um enterro apropriado.

Província de Idlib

Comandos sírios aproximam-se da cidade estratégica de Idlib, dela distam 15 km.

Em maio passado (2015), a 87ª Brigada, pertencente à 11ª Divisão Blindada, evadiu-se vergonhosamente da cidade de Jisr Al-Shughour, citando em sua defesa a falta de cobertura aérea como razão principal da sua retirada prematura das cercanias da povoação de Ghaniyah. A realidade era o fato de as Forças Armadas da Síria não estarem preparadas para a ofensiva em grande escala lançada pela Jaysh-al-Fateh (Exército da Conquista) durante a primavera passada; isto foi evidente em sua retirada massiva da província de Idlib após um mês e meio de luta, somente.

Um avanço rápido cinco meses mais tarde: a Força Aeroespacial Russa começou a sua campanha aérea em todo o país para ajudar as Forças Armadas da Síria a recuperar a iniciativa (ofensiva). Sem saber naquele momento, estes ataques seriam mais tardes exitosos, tornando-se o elemento vital do qual necessitava as forças governamentais para retomarem as grandes porções de territórios das províncias de Aleppo e Latakia. Agora, as Forças Armadas da Síria recuperaram quase toda a totalidade das referidas províncias, incluindo vários vilarejos que eram, então, quase intocáveis antes da ofensiva em grande escala. A 103ª Brigada da Guarda Republicana e seus aliados impõem um controle total sobre o vilarejo de Ayn Al-Bayda, que dista uns 15 km do sudoeste de Jisr Al-Shughour.

À medida que derrete a neve no campo, ao noroeste da província de Latakia, Jabal Al-Akrad, montanhas curdas, vê se inundada com soldados do Exército Árabe da Síria. Estes soldados se preparam para aquilo que pode se converter no retorno épico do EAS a Jisr-Al-Shughourt, depois da perda desta cidade a apenas nove meses.

 Província de Aleppo

As forças governamentais reforçam a rota para Aleppo depois da retirada do Estado Islâmico.

Nas últimas 24 horas, a Força Tigre do Exército Árabe da Síria, em estreita coordenação com o Hezzbollah, Liwa Al-Quds (Brigada Jerusalém), Forças de Defesa Nacional (FDN) e a Guarda Republicana, avançaram em silêncio pela estrada Aleppo-Hama, em busca da captura de várias colinas e outros pontos fortes do Estado Islâmico na proximidade do vilarejo de Al-Hammam. No sábado, o EI tentou capturar o vilarejo de Al-Hammam, na forma de um contra-ataque, contra as Forças Armadas da Síria e aliados; todavia, este assalto, intenso, foi repelido após várias horas de enfrentamentos que culminaram em número alto de mortos de ambos os lados (dentre os mortos estava o comandante de campo do Hezzbollah, Ali Fayyadh).

 No dia seguinte (domingo), a Força Tigre e seus aliados aproveitaram a oportunidade para levar a cabo sua própria ofensiva no campo de Al-Hammam; esta contra ofensiva cobriu-se de êxito, pois as forças do governo foram capazes de assegurar Al-Hammam, bem como de aumentar a zona de proteção ao redor da autoestrada Ithriyah-Khanasser. Segundo uma fonte militar da Força Tigre, as Forças Armadas da Síria capturaram as montanhas que delimitam a localidade de Al-Hammam no seu flanco noroeste.

Com estas elevações capturadas, as Forças Armadas da Síria e os seus aliados obtiveram um alívio ao longo da estrada Ithriyah-Khanasser após o perigo de tela cortada e bloqueada, mais uma vez pelo Estado Islâmico. Ao norte de Al-Hammam, ativistas de mídias sociais da “oposição síria” informavam que o Estado Islâmico havia capturado a estratégica localidade de Khanasser. Hoje, entretanto, um correspondente local, em pleno campo de batalha refutou tais afirmações, que se constituíam de pura invencionice.

Exército Árabe Síro abre oficialmente a rota de abastecimento de Aleppo

Apenas 24 horas após declarar que a rota estratégica de abastecimento de Aleppo estava sob o se controle, o Exército Árabe da Síria (EAS), havia aberto tanto a rodovia Ithriyah-Khanasser, como logo após a estrada Sheikh Hilal-Ithriyah, assim que foram retiradas as minas (IED) plantadas pelo Estado Islâmico nas citadas rodovias. Com uma só rota até a província de Aleppo, o governo sírio necessitava reabrir esta estrada devido ao apoio logístico necessário para o Exército Árabe da Síria e permitir a continuação do comércio interior, o comércio civil.

O Estado Islâmico abandonou os arredores de Al-Safira, antes de ser cercado, isto permitiu ao grupo terrorista transferir 800 dos seus combatentes desta zona para fora da planície de Khanesser, donde poderiam lançar uma contra ofensiva contra tropas governamentais na semana passada.

A ofensiva surpresa resultou em algo exitoso para o Estado Islâmico (apesar de efêmero), dado que foram capazes de cortar e bloquear a única rota de abastecimento do governo sírio para Aleppo e província em dois pontos diferentes. Tanto que obrigou o Exército Árabe da Síria a deter o seu avanço a leste e oeste de Aleppo e de Al-Raqqa. Por desgraça as forças governamentais não podem descuidar-se desta área, bloqueada pelo Estado Islâmico mais de uma ocasião, e que fora cortada, oficialmente por duas vezes nestes últimos cinco meses. A Força Tigre e os seus aliados, por agora, se desdobram para ampliar a faixa de proteção ao redor da rodovia, para eliminar a ameaça do Estado Islâmico na região.

Província de Homs

Oito vilarejos foram libertados pelas forças governamentais das mãos do Estado Islâmico.

Na manhã de segunda-feira, no campo oriental da província de Homs, o 18º Batalhão de Carros Blindados, da 67ª Brigada Mecanizada, respaldado por infantes das Forças de Defesa Nacional (FDN) e Kataebat Al-Baas (Batalhões Al-Baas), impôs um controle total sobre mais de oito elevações dos montes Jazal, após violentos combates contra o Estado Islâmico. Segundo um correspondente presente no campo de batalha, nas cercanias das montanhas Al-Shaar, as Forças Armadas da Síria lançaram um assalto inesperado surpreendendo os militantes do EI, que se encontravam nos topos das colinas orientais das montanhas Jazal; este ataque obteve êxito extraordinário em vista que estas oito elevações se encontravam abaixo do tacão do grupo terrorista havia 13 meses.

As montanhas Jazal estão situadas estrategicamente próximas da fronteira entre as províncias de Homs com a de Hama. Sua proximidade com a desértica cidade imperial de Palmira (Tadmur), faz que se torne um objetivo importante para estar sobre controle das Forças Armadas da Síria. Além da libertação destes oito cumes em Jabal Jazal, as Forças Armadas da Síria voltaram a adentrar o pequeno vilarejo de Al-Dawa, nas cercanias de Palmira, após outra intensa batalha com o Estado Islâmico.  Recentemente esta frente desértica e o campo oriental da província de Homs vêm se tornando cenário frequente de enfrentamentos encarniçados entre o EI e as forças governamentais. Isto, após a primeira marcha de assalto ao oeste de Raqqa, três semanas atrás.

00-Ghouta Oriental
Área urbana flagrada durante bombardeio. Imagem: internet,

Província de Damasco

Exército Árabe Sírio captura Al-Fadiyaya, arredores da grande Damasco.

Nesta segunda-feira, na região oriental de Ghouta, Grande Damasco, o 416º Regimento da Guarda Republicana, respaldado por elementos da Força de Defesa Nacional (FDN) e do Exército de Libertação da Palestina (ELP), acabaram por impor o controle total sobre o vilarejo de Al-Fadiyaya, nas proximidades da Base Aérea de Marj al Sultan, após violentos combates com membros da Jaysh al-Islam (Exército do Islã) e Jabhat al-Nusra (Al-Qaeda na Síria). A povoação de Al-Fadiyaya situa-se ao norte da referida base militar e a sua captura acaba por preservar a segurança do flanco norte desta base aérea e do campo de pouso para helicópteros, daquilo que havia se tornado uma fonte de projéteis, disparos de morteiros e de foguetes inimigos.

Como parte deste avanço feito de surpresa, as Forças Armadas da Síria lançaram uma ofensiva de grande escala na região sul do Ghouta Oriental, justamente a área em que há a maior concentração de combatentes da Jabaht al-Nusra, fora de Hajar a-Aswad e das montanhas Qalamoun, na Grande Damasco.

Nota do Editor: Leith Fadel é um correspondente do Al-Masdar News e tem suas reportagens repercutidas como fonte de informação credível do conflito sírio. Nem sempre o faz no formato de matéria jornalística, por comunicar eventos em tempo real no Twiter. O Al Masdar fornece três opções de linguagem para o leitor, inglês, espanhol e russo.

 

Campo de batalha na Síria, relatório, 26.02.2016

Fonte: Warfiles

Adaptação: César A. Ferreira

 O cessar-fogo na Síria está para começar nesta meia-noite.  A força aérea síria está distribuindo panfletos sobre áreas ocupadas pelo inimigo, onde consta instruções especiais para os comandantes rebeldes sobre aquilo que devem preencher, para então se transferirem ao centro de cessar-fogo de Hmeimim.

Moscou anunciou que os ataques aéreos contra as posições rebeldes continuará até às 10 horas do horário moscovita, o que corresponde à meia-noite, no tempo de Damasco. Eastern Guta, Homs norte, e Aleppo ocidental experimentaram os mais pesados ​​ataques aéreos do dia.

Província de Aleppo

O EAS – Exército Árabe Sírio, liberou totalmente a localidade de Hanasser. Antes da libertação, as forças sírias destruíram um grupo de rebeldes na aldeia de Rasm an-Nafal.

O EI – Estado Islâmico não dormiu muito na noite passada, uma vez que foi continuamente bombardeado por aviões russos que voaram em mais de 30 missões no apoio às tropas sírias.

Após libertar Hanasser, as Forças Tigre,  uma força de comandos, começou a libertar outras cidades ao longo da vitalmente  e importante rota de abastecimento para Aleppo. A brigada de elite apoiada por equipas das Forças Gueopardo 03 e 06, bem como as unidades da Guarda Republicana, do Hezbollah, e das Forças de Defesa Nacional, conseguiram libertar cinco aldeias ao longo destes dois últimos dias.

Nesta manhã, tropas sírias de operações especiais expulsaram o inimigo das aldeias Shilallah al-Saghira, Minaya e Jokhah em operações (de ataque) relâmpago. O eixo de progressão partiu de aldeias recentemente libertadas.

Em seguida, as unidades de elite lançaram um ataque contra Hawaz cuja captura levará à ocupação das elevações existentes no entorno de Raheep. O contra-ataque rebelde contra El-Hammam falhou. Também foi relatado que os últimos vilarejos ao longo da rota Hanasser-Aleppo foram libertados, abrindo assim a estrada que permite o fluxo de abastecimento para Aleppo. O inimigo foi forçado a recuar a partir de Raheeb, Rawahayb, Rasm al-Tineh e Muntar. As formações sírias começaram a varredura para limpar a estrada secundária Sheiha Hilal-Ithriyah, até então bloqueada pelos militantes.

Dá-se que as forças dp EI remanescentes na área poderiam vir a cair em uma armadilha. Eles possuem apenas uma única rota de fuga,  estreita, que os leva para Raqqa, via esta que pode ser cortada a qualquer momento. Se eles estão propensos a sobreviver, terão de recuar, caso contrário, serão mortos pela combinação das armas: de unidades de elite sírias e aeronaves de ataque russas.

A troca de tiros é contínua na própria cidade de Aleppo. Os confrontos mais graves ocorreram nos distritos de Beni-Zeid e Han al-Asal.

00074
Carro de Combate T-72, do EAS, promove apoio à infantaria. Fonte: Warfiles.

Província de Hama

Não foram realizadas grandes operações terrestres. Aeronaves de ataque sírias lançaram ataques contra a Al-Qaeda (Jabhat al-Nusra) concentrações de militantes perto de Wadi al-Azib, destruindo uma série de posições fortificadas e peças várias de equipamento.

Província de Deir ez-Zor

Os terroristas continuam a sondar as defesas da base aérea. Houve confrontos perto da aldeia de Beit-Dhem e o posto de controle ao sul.

Houve confrontos breves na capital provincial perto de al-Afri e ad-Jbeil. Os terroristas sofreram perdas graves após uma coluna de abastecimento ter sido emboscado.

Província de Homs

Os ataques aéreos sírios atingiram três sedes de militantes, destruindo um número considerável de veículos em Palmira. Jaysh al-Fath (entidade terrorista) foi bombardeada perto de Telbis onde vieram a perder um posto de comando.

Na capital da província ocorreram  escaramuças breves, registradas nos distritos de Al- Arfi e Hell Jbeil . Aqui, os terroristas sofreram perdas severas, especialmente quando foi feito fogo sobre os comboios de abastecimento, então emboscados.

Províncias de Latakia e Idlib

A 103ª Brigada da Guarda Republicana do Exército Árabe Sírio, calaram as últimas resistências nas áreas da fronteira com a província de Idlib. Ain al-Baida, localizada nas montanhas curdas foi libertada na parte da manhã. Os Comandos, desta maneira, acabaram por penetrar no território da província de Idlib, com isto,  as forças sírias avançaram 3 km em direção à fronteira com a Turquia. Os islamitas estão controlando apenas uma pequena área, uma franja de poucos quilômetros quadrados próximo a Kobane e al-Sirmaniyah.

As aeronave da Força Aérea da Síria bombardearam várias bases da Jabhat al-Nusra, destruindo muito da infra-estrutura dos terroristas, além de vários equipamentos (material rodante).

 

 

Os segredos por trás dos avanços sírios

Por: César A. Ferreira

Não se pode atribuir apenas ao poder aeroespacial russo as recentes vitórias das armas sírias, pois a vitória depende, sempre, da infantaria, necessária para ocupar o terreno.

Pode-se perguntar e seria justo fazê-lo, do motivo que levou uma força em retraimento, que cedia terreno frente à pressão inimiga, passar de uma hora, para outra, em uma força em progressão, vitoriosa, cujo moral se eleva a cada metro conquistado. Pois, isto se deu com o Exército Árabe Sírio, cuja desagregação era prevista por alguns “especialistas” para as calendas de outubro de 2015, mas que, no entanto, exibe-se hoje robustecido e aguerrido. Os motivos para isso são muitos, complexos, mas compreensíveis e uma análise rápida permitirá ao leitor formar um panorama capaz de desvendar os segredos por trás desta nova dinâmica combativa do EAS.

Antes do suporte russo

O Exército Árabe Sírio começou a guerra como toda força preparada para combates contra equivalentes regulares em campo aberto. Isto é interessante observar, pois o Exército Árabe Sírio contou em sua história com a utilização do ambiente urbano como um elemento vital para o sucesso do  combate travado contra as forças invasores da IDF no Vale do Bekaa em 1982. Todavia, nesta presente “guerra civil”, que então se iniciava, o EAS viu-se surpreendido, e respondeu com erros clássicos, tal como o uso isolado de Carros de Combate em vielas estreitas, com edificações altas, portanto, propícias à emboscadas, que ocorriam com certa frequência dado que a experiência dos combatentes insurgentes neste tipo de combate era muita, pois não pouco deles serem oriundos da Chechênia, ou seja, veteranos dos confrontos contra o Exército da Federação Russa.

A presença de instrutores iranianos da Guarda Revolucionária Islâmica ajudou aos sírios a recompor suas formações, reciclar e rever a formação de comandantes de campo, focando no aprimoramento dos oficiais de patente mediana, tenentes e capitães, além da adoção de conceitos que premiavam as decisões advindas do aprendizado provindo do combate, algo que diferia, em muito, da verticalidade típica do comando de estilo soviético, ainda muito presente e apreciado nas armas sírias.

Apesar dos esforços dos instrutores da Força Quds, o problema do treinamento entre os infantes sírios persistia. Pouco além dos elementos da Guarda Republicana, Forças Especiais ou das Divisões Blindadas mais tradicionais eram capazes de exibir coordenação tática com a Força Aérea e a artilharia de campo. As ocorrências de deserções se avolumavam, bem como as reclamações constantes sobre soldo e material, reveladoras de uma moral declinante. Ainda assim, o regime conseguiu manter a linha costeira, Holms e Damasco, mesmo que subsistisse um foco ao sul da capital, bem como a perda da fronteira no sul, junto ao Golan, cedido para Frente Nusra devido ao providencial auxílio da artilharia da IDF.

O quadro desolador, todavia, detinha alguns fatores que permitiam observar o desenrolar dos eventos futuros com alguma esperança: a entrada no conflito de combatentes experientes do Hezzbollah, primeiramente na franja da fronteira libanesa, o comportamento da Força Aérea Síria, de extrema fidelidade, e da decisão curda (YPG/YPJ) de vir a dar combate a toda e qualquer facção extremista islâmica na Síria.

Buratino-resultado
A imagem reflete uma pira funerária, não é possível haver sobreviventes nesta barragem efetuada pelas baterias de foguetes TOS-1 Buratino. Imagem: internet.

O suporte russo

Como é bem sabido foi a partir de um comunicado do General Soleimani aos seus equivalentes russos, informando que as estradas para a costa estavam agora abertas, a partir da queda de Salma, bem como pela perda das elevações ao norte da província de Latakia para os rebeldes turcomanos, que se deu a decisão russa de enviar uma força expedicionária (grupo aéreo). Os turcomanos, é importante dizer, são uma minoria que até então se mantivera fiel, ou neutra no conflito, mas que fora armada pelos serviços secretos turcos e tomara posição contra o regime. Informado, Putin ordenou a intervenção russa, composta pelo efetivo aéreo, bastante limitado, e um grupo de fuzileiros navais, estes responsáveis pela defesa da base.

A presença russa na base de Hmeimeem é a parte visível deste apoio, mas não menos vital, porém não noticiado é o suporte logístico fornecido não só ao grupo militar presente, mas à Republica Árabe da Síria, como nação, representado na recuperação de estruturas de manutenção e reparo de blindados, então inoperantes, do envio de peças para manutenção e aumento da disponibilidade em rampa dos vetores da Força Aérea Síria, de armas como obuses e suas respectivas munições, em grande quantidade, o mesmo para bombas aéreas, cuja carência forçava a adoção de improvisações extremas, como a confecção de “bombas barril”. Soma-se ao suporte logístico o envio de derivados de petróleo, combustíveis e lubrificantes, vitais para um exercito em campanha, e acima de tudo, de equipamento para infantes, de coletes e capacetes balísticos a armas leves e munições. Forças Spetnaz, como elementos de ligação e designação em solo de alvos, também foram vistos, além da instalação de um centro de coordenação na Base Aérea de Hmeimeem. Os russos fizeram-se acompanhar por instrutores, visto que a desagregação do EAS, relatada por Soleimani não era de todo desconhecida pela vasta representação diplomática russa mantida na Síria, mas, a opinião deste diferia um tanto, pois pautados pela própria experiência na Chechênia, concluíram os russos que o problema do EAS era, sobretudo, moral, e que isto poderia ser resolvido se adotadas as medidas urgentes para fortalecer a arma necessária em uma campanha onde o combate urbano se faz presente: a infantaria.

A infantaria síria foi premiada com novos equipamentos individuais, como citado, formação mais acurada e severa, preparação psicológica, inclusive, para aceitação de baixas em combate, inevitáveis no confronto urbano, restabelecimento e aumento na capacidade de atendimento aos feridos, com ampliação das alas médicas/hospitalares e da regularização dos insumos médicos (remédios, bandagens e outros equipamentos), preparação específica dos médicos militares e civis, para focar além dos traumas, observando, também os atendimentos de ordem psicológica, respiratória e do trato gastrointestinal, males recorrentes em combates em ambientes urbanos.

Em relação à tropa em si, o reforço na qualificação do comando de pequenas frações, fraqueza já observada pelos iranianos, foi abordada como prioridade, bem como a elevação geral da capacidade do combatente sírio com reforço na disciplina e incentivo ao julgamento individual (iniciativa). Os melhores recrutas sempre são destinados às formações de elite do EAS, as quais frequentemente estão na linha de frente, ademais, atenção especial é focalizada na formação de elementos de ligação e designação de alvos, comunicação e sinalização, visto que suporte aéreo aproximado é tido como necessário, quando não fundamental. Outra constatação é a mimetização da flexibilidade das formações insurgentes pelo EAS, de tal maneira que a utilização de motocicletas, hoje, é tida como mais eficiente entre os combatentes governamentais do que entre os insurgentes. O uso de caminhonetes com canhões ZU/2 (23mm) montados na carroceria é comum, isto, sem abandonar a ação cirúrgica dos canhões de 30mm dos veículos blindados, apoiados pelas peças de 125mm dos Carros de Combate (T-72, T-90), que fazem uso de munição HE de maneira recorrente. Outra arma muito vista, é o uso das veneráveis “Shilkas” (ZSU-23/4), desprovidas de sensores e utilizadas como apoio a infantaria. Costumam ser mortais contra snipers, devido a precisão da plataforma e a mira secundária, óptica, mantida nos veículos.

TOS-1Buratino
TOS-1 Buratino em lançamento. Imagem: Sputnik News.

Refletindo a experiência russa na Chechênia, passaram os sírios, quando de fronte a um ponto forte no perímetro urbano, que por ventura não pode ser contornado, a varrer com canhões de tiro rápido os andares intermediários das construções, isto, quando tal edificação não é de maneira prévia um alvo visitado pelos bombardeiros russos, ou sírios. O uso do míssil Kornet contra fortificações é comum, devido ao fato desta arma conter uma versão com cabeça de guerra termobárica específica para este uso/alvo.  A coordenação com o efetivo aéreo é enfatizada, o que reflete, mês a mês, na melhoria do suporte aéreo aproximado (Close Air Suport –CAS, ing), em geral proporcionado por helicópteros de ataque Mi-24P/Mi-35M, ou por aeronaves Su-25. O reforço da Rainha das Batalhas, ou seja, a artilharia, nas formações sírias também se impôs como uma das chaves do sucesso. Veículos Lança – Foguetes BR-21 Grad e TOS-1 Buratino (terríveis contra forças dispersas e sem abrigo no campo, visto que realizam fogo de saturação de área) são visto com constância nos combates, o mesmo para obuses, devido a presença dos MSTA-B (2A65, 152mm, rebocado), o que elevou sobremaneira a capacidade dos grupos de artilharia de campanha do Exército Árabe Sírio.

Há muito que fazer. No tocante a infantaria faz-se necessário a elevação da qualidade combatente de uma maneira geral, dentro das formações, para se evitar a dependência constante do socorro fornecido pelas unidades de elite, estas de comprovada qualidade e experiência de combate, caso, por exemplo, da 103ª Brigada de Infantaria da Guarda Republicana, 4ª Divisão Mecanizada ou da Força Tigre. Um número maior de Carros de Combate T-90 seria desejável, bem como do reforço dos esquadrões de helicópteros de ataque. Entretanto, compreende-se, que o tesouro russo não é infinito, e que a guerra síria deverá ser ganha pelo seu povo, na forma do Exército Árabe Sírio, com o devido valor pago em sangue. Isto, aliás, explica o real motivo do exército turco em não entrar profundamente no território sírio: o terreno entrecortado, com a presença de vales e elevações favorece a um defensor determinado, caso do Exército Árabe Sírio, que agora se encontra bem dotado de armas ATGW…  Ou seja, a possibilidade de imobilização e destruição de colunas blindadas é real, e isto seria uma humilhação desnecessária para aquele que é em números o maior exército da OTAN.

Síria: as próximas horas podem ser cruciais

Por: César A. Ferreira

Com o avanço das forças curdas, após a tomada da base aérea de Menagh, em direção à Az’az, o desespero abateu-se sobre as lideranças turcas: sem cerimônia alguma fizeram fogo de bateria contra as posições curdas e do Exército Árabe da Síria, que respondeu fazendo fogo de contra-bateria.  As ações curdas, após a conquista da Base Aérea de Menagh foram rápidas, dado que de imediato assaltaram Kafr Khashir e dirigem-se, agora, para Kafr Kalbeen, enquanto que ao norte de Az’az, assaltaram Qastal Jindu com o eixo em direção à Salameh. Caso haja inflexão dos eixos de progressão haverá um cerco a cidade fronteiriça de Az’az, importante entroncamento das vias de comunicação entre a Turquia e a Síria, portanto, importante base logística das espoliadas forças do Exército Livre Sírio e da Frente Nusra. A queda de Az’az significaria a eliminação virtual destes dois grupos insurgentes na frente de Aleppo, restando para combater apenas o EI, o qual, diga-se de passagem, foi obrigado a abandonar a Central Termoelétrica de Aleppo Oriental frente ao avanço da Força Tigre, tropa de elite do EAS.

Não deixa de ser sintomático, que hospitais tenham sido atacados, com a culpa, era de se esperar, sendo debitada aos russos. Não fosse o fato de que o pequeno grupamento aéreo da Rússia não ter seu histórico ataques contra a infraestrutura civil da Síria, com a exceção notável dos campos de exploração de petróleo em mãos do EI, poder-se-ia acreditar, no entanto, em meio ao visível estado de aflição histriônica demonstrada pela Turquia, bem como pela associada Arábia Saudita, com a eminente derrota dos grupos jihadistas ao norte de Aleppo, isto aliado ao anunciado aporte de bombardeiros da Força Aérea do Reino em Incirlik, faz com que este escriba tome para si a suspeição, forte, de que a responsabilidade dos ataques aos hospitais deveram recair com maior propriedade sobre as asas da Força Aérea da Turquia, ou dos aliados próximos, USAF e KSAF (Força Aérea do Reino da Arábia Saudita – ing); ademais, é bom lembrar, que a cidade de Aleppo, e adjacências, tivera a sua infraestrutura atacada anteriormente pela coalizão ocidental, caso da estação de captação e tratamento de água, cuja destruição obrigou os moradores a buscarem o recurso diretamente no Eufrates, com o risco de contraírem o bacilo da Cólera, caso venham a ingerir sem dar-se à fervura das águas retiradas do rio.

A exasperação turca dá-se por conta da concretização da agenda curda, pois o avanço curdo possui a intenção explícita de viabilizar um corredor territorial entre Kobane e Sarrin, ou seja, do oeste ao leste. Ainda que o nascimento de um estado curdo na região não faça parte dos planos de Assad para a Síria, dado que este nasceria à custa do Estado Sírio, prevê-se a concessão de uma autonomia ampla, algo que por certo se dará. Isto é entendido por Ancara como um embrião de um processo inexorável, que nas mentes turcas resultará na criação do Curdistão como estado nacional, que levará todo o leste da Turquia. Convenhamos, quando líderes nacionais deixam-se levar em suas mentes por fantasias tenebrosas, em meio ao desabar do seu castelo de cartas na forma das suas ambições territoriais, boas coisas, com certeza, não podem sair. Compreende-se, pois, o aviso emitido hoje, 16 de fevereiro de 2016, de que nas próximas 24 horas a Turquia realizará a invasão territorial da Síria. Basta esperar para ver se não se trata de um blefe.

Blefe, ou não, tomam os russos as suas medidas. Tendo constatado que quase todo o 2º Exército Turco se encontra estacionado junto à fronteira, formando não menos que 18.000 homens, valor de uma Divisão, como tropas operacionais, isto é, sem contar com o efetivo de apoio logístico, apontado para o eixo de Az’az, realizaram os eslavos uma verdadeira ponte aérea através da rota do Mar Cáspio, onde dois dos imensos cargueiros AN-124 foram avistados, descarregando material bélico na Base Aérea de Hmeimeem. Outro meio cuja presença não pode deixar de ser notado é composto pela aeronave SIGINT Tu-214R. Este avião para coleta de dados eletrônicos, de comunicações e de emissões, reflete que o comando russo espera uma mudança brusca do patamar do confronto havido na Síria, de um conflito contra forças insurgentes, portanto irregulares, contra uma força treinada e dependente de coordenação centralizada, portanto, emissora de sinais, comandos, caso de uma força regular, em suma de um Exército Nacional. A aeronave, de maneira elucidativa, não só seguiu a rota do Mar Cáspio, como fez também um desvio, sobrevoando boa parte do território iraquiano, afastando-se ao máximo da fronteira turca, adotando desta forma uma rota previdente contra a possibilidade de uma emboscada área por parte da THK (Força Aérea da Turquia – tur). Ademais, os porta-vozes das forças armadas sírias deixaram bem claro que, caso haja penetração na fronteira, darão combate às forças turcas as quais irão considerar, com razão, como forças invasoras. Vê-se claramente que as próximas horas serão decisivas para o desenrolar do drama de Aleppo. Para os expectadores resta aguardar.

Aleppo, a ira de um Bispo

Por: Marco Tosatti (La Stampa).

Tradução: Gercione Lima (Fratre In Unum).

Durante a “Noite dos testemunhos”, organizada anualmente pela “Ajuda à Igreja que Sofre”, o Arcebispo grego-melquita de Aleppo, Dom Jean-Clément Jeanbart, depois de descrever a situação dramática dos aleppinos, falou aos jornalistas que vieram para ouvir. A tradução do original de Boulevard Voltaire.

“Os meios de comunicação europeus continuam a distorcer o cotidiano dos que sofrem na Síria e também estão usando isso para justificar o que está acontecendo em nosso país sem jamais checar essas informações”. Assim o bispo deu início ao seu discurso, descendo o chicote nas fontes usadas pela imprensa durante a guerra e que continuam a ser usadas por muitas agências de notícias. Entre elas, “instrumentos da oposição armada, como é o caso do Observatório Sírio de Direitos Humanos, a fonte indiscutível usada pelos meios de comunicação ocidentais”.

“É preciso compreender que entre o Estado islâmico e o governo Sírio, a nossa escolha é feita rapidamente. Nós podemos condenar o regime por algumas coisas, mas vocês nunca tentaram ser objetivos”, acusou ainda. Quando lhe foi perguntado se ele poderia explicar sua posição para as autoridades francesas, Dom Jeanbart disse que tinha tentado, antes de lhe terem dito que ele deveria ser “menos crítico”.

Para ele, no entanto, o Ocidente continuou a se calar sobre as atrocidades cometidas pela oposição armada, enquanto denigrem o governo Sírio e seu presidente. “Bashar Assad tem muitas falhas, mas saibam que tem também qualidades”, explicou ele, “as escolas eram gratuitas, os hospitais, mesquitas e igrejas não pagavam nenhum imposto, mas que outros governos na região fazem essas coisas? Sejam honestos! Lembrem-se também que, se nós preferimos apoiar o governo hoje, é porque nós tememos o estabelecimento de uma teocracia sunita que nos privaria do direito de viver em nossa terra”.

Ele continuou: “Sim, eu tentei dizer todas essas coisas às autoridades francesas, mas o que você espera de um Fabius Laurent que pensa que é o Todo-Poderoso para decidir quem merece ou não a viver nesta Terra?” Ele respondeu, aparentemente cansado (Laurent Fabius disse que Assad não merece estar sobre essa terra). “É possível que a França – que eu amo e que me educou através de comunidades religiosas que  tinham se estabelecido na Síria – tenha mudado tanto? É possível que os seus interesses e seu amor ao dinheiro tomaram precedência sobre valores que outrora defendia”? Continuou o arcebispo amargamente.

Sobre os bispos franceses, Dom Jeanbart disse: “Se a Conferência dos Bispos da França tivesse confiado em nós, teria sido melhor informada. Por que os seus bispos se calam diante de uma ameaça que agora é vossa também? Porque os vossos bispos são como todos vocês, acostumado ao politicamente correto! Mas Jesus nunca foi politicamente correto, era politicamente justo!”, bradou.

“A responsabilidade de um bispo é ensinar e usar a sua influência para transmitir a verdade. Os vossos bispos, por que eles têm medo de falar? Naturalmente que serão criticados, mas igualmente lhes será dada uma chance de se defender e de defender esta verdade. Devemos lembrar que a o silêncio às vezes é um sinal de assentimento”.

E até mesmo a política de migração dos países ocidentais foi criticada pelo arcebispo: “O egoísmo e os interesses servis defendidos por seus governantes, no fim, acabarão por assassinar até mesmo vocês. Abram os olhos, pois não viram o que aconteceu recentemente em Paris?”, acrescentou o Arcebispo, antes de concluir com uma súplica: “Precisamos que vocês nos ajudem a viver e permanecer em nossa casa […], eu não posso aceitar ver nossa Igreja de dois mil anos desaparecer. Eu prefiro morrer do que ter que ver isso”.

Aleppo: ponto de inflexão da guerra Síria?

Por: César A. Ferreira

A atitude do ocidente, encimados pelos lamentos da Chanceler germânica Angela Merkel, é elucidativa, lamentos pela iminente derrota das forças insurgentes em Aleppo, disfarçada de preocupação para com os refugiados, preocupação, diga-se, inexistente nos anos anteriores. Em outras palavras, prova maior do alinhamento ocidental com os insurgentes não poderia haver… Independente disto segue a guerra, pessimamente coberta pela mídia do ocidente, brasileira inclusa, omissa quanto aos esforços sírios e russos, em prol da existência da Síria, como nação.

Ao que parece, mesmo em meio ao desespero que a perda de Aleppo possa significar, ou seja, a perda de uma cidade que é um nó logístico vital para o norte e centro da Síria,  baixou nas mentes ocidentais um discernimento mínimo. A proposta ventilada de invasão turca da Síria, parece ter sido substituída por uma invasão terrestre de tropas dos Emirados Árabes Unidos e do Reino da Arábia Saudita. Com isto, evita-se o problema quase incontornável de se ter um membro da OTAN adentrando a um campo de batalha onde vetores russos estão presentes e atuantes. Ademais, pode-se dizer com toda certeza, que os insurgentes são, antes de tudo, uma obra do CCG – Conselho de Cooperação do Golfo…

Não deixa de ser interessante, entretanto, que tanto a Arábia Saudita, quanto os Emirados, atolados no confronto contra o paupérrimo Iêmen, onde suas forças regulares demonstram péssima prontidão e desempenho, se prestem a enviar efetivos superiores a 150.000 combatentes para a Síria, para enfrentar um exército calejado, e suportado pelo atuante grupo aéreo russo. É algo para se pensar, afinal, o contingente árabe, caso enviado, certamente iria engrossar, sem que isso viesse a surpreender qualquer um dos atores da guerra síria, as forças insurgentes. Isto seria o álibi perfeito para que o Irã pudesse enfrentar os sauditas abertamente, ou seja, o envio de forças regulares do reino saudita se refletiria na concretização de uma resposta persa, na forma do envio dos Pasdarán (Guarda Revolucionária Iraniana). Em suma, um agravamento do conflito, que arrastaria os dois contendores regionais: Arábia Saudita e o Irã; é uma impressão minha, ou isto não seria o sonho dourado dos fabricantes de armas, do mercado de petróleo e afins?

00000
Combatentes curdos do YPG/YPJ dentro de Dayr Jamal. Imagem: internet.

Independente disto, o Exército Árabe da Síria não perde tempo, em conjunto com os seus aliados, a milícia libanesa Hezzbolah e as forças curdas do YPG/YPJ, dão combate sistemático aos insurgentes, sem trégua, nos limites das suas forças.  Ao norte de Aleppo o avanço curdo culminou na conquista da importante localidade de Dayr Jamal, importante entroncamento viário, cuja tomada forçou os insurgentes a se dirigirem do entorno de Kiffin, para Kafr Nayah. Kiffin já é um alvo das tropas do Exército Árabe da Síria, que persegue este destino provindo do sul. Dar combate em Kiffin não é para os insurgentes uma posição confortável, posto que estão desequilibrados pela sombra dos combatentes curdos em Dayr Jamal. Assentar-se em Kafr Nayah, como linha de resistência, tampouco, posto que o eixo subsequente do avanço das formações do YPG/YPJ aponta, justamente, em direção de Taall Rifat, localidade de grande importância e mais distante. Postar-se em Kafr Nayah seria uma posição de custosa defesa, visto que poderia sofrer um acosso por eixos diferentes: Khirbat al Hayat e Dayr Jamal.

Outra localidade capturada e de grande importância tática é Maraanaz, que juntamente com as também recentemente capturadas Al Alqamiyeh e Ajar, permitiriam uma mudança do eixo ofensivo, infletindo as forças provindas de Al Alqamiyeh/Ajar, aquelas de Maraana em um ponto convergente: a base aérea de Minaq (Menagh). É importante lembrar que o encontro das forças do EAS – Exército Árabe da Síria, com aquelas da milícia Hezzbolah, havido na captura das localidades de Niblo (também traduzida como Nubbol, Nubbal, ou Nübel) e Zahran (também nominada como Al-Zahraa, Zaharan, ou az-Zakhra), que se deu dias atrás, foi o ponto nevrálgico desta ofensiva, pois cortou a via de acesso logístico que ligava a Turquia à Aleppo. Neste presente momento, o EAS e o Hezzbolah, alargam o corredor compreendido entre Niblo e a cidade industrial de Sheik Najjar, enquanto avançam no eixo de Kafr Nayah.

O eixo do avanço em direção a Kiffin, desequilibra a posição insurgente em Kafr Nayah, abrindo caminho para Taall Rifat, que seria, então, um objetivo perseguido por duas frentes, a do exército, provindo do sul e do YPG/YPJ, que se lançaria a partir de Dayr Jamal. O objetivo final seria Azaz, nodo logístico importante para o abastecimento de todas as frentes insurgentes ao norte de Aleppo.

Na região próxima a Aleppo, propriamente, espera-se a formação de dois pequenos cercos, um deles formado a partir da conquista da base de Kuweires, com uma ponta Barlehiyah e a outra pinça provinda de Shamir, ambas convergindo em Suran. Esta ofensiva deverá ocorrer nas próximas horas…

Outra, cuja execução seria de extremar dificuldade, necessitaria da conquista de Ard Al Mallah, tendo o ponto de convergência em Kafr Hamra, com a outra pinça partindo da cidadela de Aleppo… Percebe-se, pois, a dificuldade da execução, pois a pinça que partisse de Ard Al-Mallah teria o seu flanco muito exposto, e a aqueles da cidadela de Aleppo teriam uma frente urbana marcada por edifícios destruídos, ou semi-destruídos, como obstáculo defensivo a ser vencido ante a arrancada. Em suma, o mapa lhe diz uma coisa, o terreno outra.

Entende-se o desespero ocidental…

Atenção: entre a redação desta matéria e a publicação deu-se a queda de Kiffin. A localidade foi capturada por ação empreendida pela 154ª Brigada do Exército Árabe da Síria, em conjunto com a 4ª Divisão Mecanizada, ambas as formações apoiadas por infantes da milícia Hezzbolah. A 4ª Divisão Mecanizada é uma formação histórica do EAS, com um histórico de combates que vai do Líbano ao Golan. Além disto, a ação que visa o cerco a partir de Barlehiyah, já se iniciou.

Avanços sírios impõem aos turcos opções desesperadas

Por: César A. Ferreira

O desenrolar das ações do Exército Árabe da Síria ao norte do país, com vigorosa assistência do grupo aéreo russo, retira, uma a uma as opções turcas no tocante à guerra por procuração que move na Síria, com os seu agentes turcomanos e coligados da al-Qaeda, leia-se al-Nusra, Exército Livre Sírio e Estado Islâmico. A queda das cidades de Nublo e Zahran, trazem grandes consequências para as forças insurgentes, afora o contexto simbólico desta vitória, posto que eram cidades perdidas há mais de três anos. As forças insurgentes, mais uma vez, sofreram revezes de monta, onde fez-se decisiva a presença dos ataques aéreos demandados pelo agrupamento russo e pela Força Aérea Árabe da Síria.

Estas cidades, agora firmemente em mãos governamentais, vedam mais um corredor para abastecimento logístico para Aleppo, onde a cada dia que passa se enfraquecem as posições insurgentes frente àquelas do governo reconhecido da Síria. O foco, agora, dá-se no entorno de Azaz, justamente por ser um entroncamento importante para o abastecimento de Aleppo. Comboios turcos são sistematicamente bombardeados nas estradas próximas e caso haja a queda da localidade, restará apenas os corredores de Reyhanli e Idlib. É desnecessário dizer que quanto menores forem as rotas logísticas, mais fácil será a tarefa do poder aéreo russo na região, que é a de estrangular o esforço logístico dos grupos insurgentes na fronteira norte da Síria.

A Turquia vê com o avanço das forças do Exército Árabe da Síria, e dos grupamentos curdos do YPG/YPJ, junto aos entroncamentos viários da fronteira sírio-turca como o golpe mortal na sua propalada “zona de segurança para refugiados”. Além do mais, vê-se obrigada a assistir que contendores com os quais jogava, caso dos EUA e da Rússia, venham agora a abastecer os combatentes curdos, nas franjas fronteiriças, sem que tenha voz ativa contra tal movimento.

No tocante aos EUA, estes cumprem com o seu plano, não divulgado, mas à vista de todos, de fragmentar a Síria, onde um estado curdo teria o seu lugar natural, enquanto os russos passaram a apoiar um aliado interessado em dar combate aos insurgentes que lhe são hostis, cuja sobreposição de interesses ganhou um impulso grande, quando da atitude turca de abater o bombardeiro Su-24M2. Grandes consequências de um gesto impensado, visto que desde tal abate não houve outra coisa que não fosse o acelerar do avanço governamental. O fato de armar, largamente, os combatentes do YPG/YPJ, vir a constituir na concretude de um estado nacional curdo, parece ser nos cálculos russos e sírios como algo aceitável, em vista do combate mortal com os insurgentes, onde a necessidade extrema de infantes torna-se imperiosa.

Para a Turquia, pouco resta…

Dado que agora, existe uma bateria do Sistema S-400, na base aérea de Hmeymim , além de dois elementos de caças Su-35S, equipados com mísseis R-73E, R-27ET, além do novíssimo RVV-SD, restam aos turcos a atitude do confronto aberto com a invasão do território sírio, posto que a guerra por procuração entra em colapso, bem como a sonhada “no fly zone”, algo que de concreto pode-se dizer que existe, mas com as cores russas…

O desespero turco acentua-se, justamente, com a corrida das forças curdas para o oeste. Caso haja o sucesso do YPG/YPJ em liberar Marea, restará à Turquia a ligação logística através de Bab al-Hawa e de Idlib, mas estas, como dito antes, submetidas à interdição aérea russa.  Que não haja enganos, o discurso está pronto: salvar a minoria étnica turca, os “turcomanos” da Síria, contra o “massacre” perpetrado pelos curdos, “facínoras”, coadjuvados pelos odientos russos. Compra quem quiser.

O cenário está montado, portanto, para um confronto de forças convencionais. Entende-se, pois, a retórica saudita, de “estarem prontos” para participar de uma eventual invasão terrestre da Síria, quando se encontram atolados no Iêmen, para dar cabo do “Estado islâmico”. Ora, ora, existem tolos tão tontos assim? A invasão, sabem até os mais parvos, servirá para pavimentar a fragmentação da Síria e garantir, dentre os novos estados a nascer desta quebra, os chamados “Sunistões”, a existência. A questão é: a Síria vale à pena? Vale a ponto de levar o mundo a assistir a um confronto direto entre a OTAN e a Rússia, o que equivale dizer a um confronto nuclear? As respostas estão com o tempo… Um professor rigoroso.

Genebra: o estágio farsesco da guerra Síria

Por: Pepe Escobar, RT (29/01/2016).
Fonte em português: Oriente Mídia

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

O chamado processo de paz sírio entra agora no estágio de farsa em Genebra. Pode durar meses; preparem-se para doses abundantes de arrogância e vociferação capazes de fazer corar um Donald Trump. A noção de que Genebra possa fazer o papel de Damasco, naquela pantomima de terno e gravata, é, para começar, cômica. Até o enviado da ONU, o soberbamente snob-engomado Staffan de Mistura, admite que a missão à frente é de Sísifo – e assim continuaria, ainda que todos os atores relevantes estivessem à mesa.Depois, temos uma “figura da oposição” síria, George Sabra, a anunciar que nenhuma delegação de Riad, do Alto Comitê de Negociações, estará à mesa de negociações em Genebra. Como se os sírios carecessem de “oposição” instrumentalizada pela Arábia Saudita.Assim sendo, para lhes oferecer algum contexto, eis uma rápida recapitulação dos eventos recentes, cruciais, em solo sírio, que Genebra, autodeclarada “a nova capital”, talvez ignore e para prejuízo dela mesma.

Comecemos pelo verão passado, quando o comandante superstar general Qasem Soleimani das Forças Al-Quds do Irã falou em pessoa, em Moscou, para deixar absolutamente claro, sem dúvida possível, que a situação no teatro de guerra sírio era muitíssimo grave.

Na essência, Soleimani disse ao Kremlin e à inteligência russa que Aleppo podia estar prestes a cair; que Jabhat al-Nusra estava às portas de Damasco, no sul; que Idlib havia caído; e Latakia – onde está localizada a base naval russa em Tartus – estava prestes a cair.

Pode-se imaginar o efeito desse jato de realpolitik sobre a mente do presidente Putin. E ele acabou de decidir que, sim, a Rússia impediria que a Síria caísse e impediria que se tornasse uma Líbia remix.

A campanha da Força Aérea Russa marcou a mais completa virada naquela situação. Está ainda trabalhando no processo de cobrir e dar segurança a toda a rede Damasco-Homs-Latakia-Hama-Aleppo – o oeste urbano e desenvolvido da Síria, onde vive 70% da população do país. ISIS/ISIL/Daech e/ou Jabhat al-Nusra, também conhecida como Al-Qaeda na Síria, tem zero chances de tomar esse território. E o restante da Síria é quase totalmente o deserto.

Jaysh al-Islam – grupo terrorista armado pela Arábia Saudita – ainda defende algumas poucas posições no norte de Damasco. É controlável. Os “caipiras”, na província de Daraa, sul de Damasco só conseguiriam tentar algum assalto à capital num contexto, ali impossível, de Tempestade no Deserto à 1991.

“Rebeldes moderados” – essa invenção pervertida do Departamento de Estado dos EUA – bem que tentaram tomar Homs e Al-Qusayr, cortando a linha de ressuprimento de Damasco. Foram repelidos. Quanto à malta de “rebeldes moderados” que tomaram toda a província de Idlib, estão sendo bombardeados sem dó há quatro meses pela Força Aérea Russa. E o front sul de Aleppo também está sendo coberto e protegido.

Stahhan de Mistura
Mediador das Nações Unidas para a Síria, Staffan de Mistura. Imagem: Denis Balibouse/Reuters.

Não bombardeiem “nossos” rebeldes

Fácil logo ver quem está lívido ante a ação dos russos: Arábia Saudita, Turquia e – por último, mas não menos importante – o “Império do Caos”, todos esses sentados à mesa em Genebra.

Jabhat al-Nusra – comandado por controle remoto por Ayman al-Zawahiri – é grupo intimamente conectado à gangue dos jihadistas salafistas no “Exército da Conquista” patrocinado pelos sauditas, além de taticamente aliado a miríades de grupelhos nominalmente reunidos no já quase extinto “Exército Sírio Livre” (ESL) [orig. Free Syrian Army (FSA)].

CIA, usando os sauditas como anteparo para garantir a ela negabilidade plausível – armou até os dentes vários pseudoaliados do ESL – cuidadosamente “selecionados” –, aos quais a CIA enviou, dentre outras armas, mísseis TOW antitanques. Adivinhem quem “interceptou” praticamente todas as armas: Jabhat al-Nusra.

Dali em diante o desdobramento foi, para dizer o mínimo, hilário: Washington, Ancara e Riad puseram ensandecidamente a denunciar Moscou, que estaria bombardeando “rebeldes moderados” delas, não o ISIS/ISIL/Daesh.

Lentamente, mas sem retrocessos, o Exército Árabe Sírio (EAS) [orig. Syrian Arab Army (SAA)], operando conectado à ofensiva russa, retomou a iniciativa.

O grupo “4+1″ – Rússia, Síria, Irã (Forças Especiais, muitas das quais do Afeganistão) mais o Hezbollah – passaram a coordenar esforços. A província de Latakia – que abriga não só a base naval de Tartus, mas também a base aérea russa Khmeimim – está agora sob completo controle pelo governo de Damasco.

O que nos leva aos pesadelos de Ancara. A Força Aérea Russa esmagou todos os turcomenos aliados de Ancara – e pesadamente infiltrados por fascistas turcos – no noroeste da Síria. Essa foi a razão chave que levou o sultão Erdogan ao movimento desesperado de derrubar o Su-24 russo.

Já é claro hoje que os vencedores em campo, no pé em que estão as coisas, são os “4+1″, e que Arábia Saudita e Turquia perderam a guerra. Assim sendo, não é surpresa que os sauditas desejem contar com alguns dos próprios asseclas na mesa de negociações em Genebra; e que a Turquia tente mudar de assunto impedindo que curdos sírios participem: Ancara pinta os curdos sírios como terroristas muito mais ameaçadores que oISIS/ISIL/Daech.

Sai Genebra, entra Jarabulus

Como se já não houvesse confusão suficiente, a “Think-tank-elândia” dos EUA está agora espalhando que haveria um “entendimento” entre Washington e Ankara quanto ao que seria, para todos os propósitos práticos, uma invasão turca ao norte da Síria, sob o pretexto de que Ancara lá estaria para ‘esmagar’ o ISIS/ISIL/Daech no norte de Aleppo.

Absoluto nonsense. O jogo de Ancara tem três braços: reforçar os seus muito enfraquecidos asseclas turcomenos; manter o mais vivo possível o corredor até Aleppo – corredor que inclui a Rodovia Jihadista entre Turquia e Síria; e, principalmente, impedir, por todos os meios necessários, que os curdos do YPG façam a ponte de Afrin até Kobani e unam os três cantões de curdos sírios próximos da fronteira turca.

Nada disso tem qualquer coisa a ver com combater ISIS/ISIL/Daech. E a parte mais ensandecida é que Washington está, realmente, garantindo apoio aéreo de ajuda aos curdos sírios. Ou o Pentágono apoia os curdos sírios, ou apoia Erdogan na invasão do norte da Síria: aqui não cabem esquizofrenias.

Erdogan cego de desespero pode enlouquecer o bastante para confrontar a Força Aérea Russa, numa anunciada “invasão” turca. Putin já disse publicamente que resposta a qualquer provocação será imediata e letal. E, sobretudo, russos e norte-americanos estão realmente coordenando ações no espaço aéreo no norte da Síria.

Essa é a cena realmente importante e o próximo “evento” relevante, que eclipsará completamente a pantomima de Genebra. O YPG curdo e aliados estão planejando grande ofensiva para assumir o controle sobre a faixa de 100 km da fronteira sírio-turca que ainda está sob controle do ISIS/ISIL/Daech –, reunificando assim os seus três cantões.

Erdogan não mediu palavras: se o YPG avançar a oeste do Eufrates, é guerra. Ora. Então parece guerra, mesmo. O YPG apronta-se para atacar as cidades cruciais de Jarabulus e Manbij. Com certeza quase absoluta, a Rússia auxiliará o YPG a reconquistar Jarabulus. E assim, mais uma vez, a Turquia ter-se-á posto cara a cara, em solo, com a Rússia.

Genebra? Ali é coisa para turistas; a capital do horror agora é Jarabulus.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

A libertação de Salma é a derrota de Erdogan na Síria

Fonte: Al-Manar

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

A vitória do IV Corpo do Exército Árabe da Síria ema Salma é a vitória mais importante da aliança russo-síria, bem como do envolvimento russo na guerra. Ela é um triunfo contra grupos terroristas, mas acima de tudo é uma vitória contra a Turquia, que havia apoiado esses grupos em sua ofensiva no ano passado, tanto em Latakia, quanto em Idlib.

Após a vitória em Salma, a pretensão turca de impor uma zona tampão se esvaiu.  Os aliados de Erdogan, tal como a Frente al-Nusra, terroristas chechenos e os uigures do “Partido Islâmico do Turquestão” sofreram uma pesada derrota, o mesmo com os Turkmen (turcomanos), grupos armados sírios de origem turca, que tem sido agentes de apoio para Ancara nesta área.

Auxílio turco não poderia acontecer desta vez por causa da barragem da aviação da Rússia, que fez mais de 200 ataques aéreos em dois dias consecutivos contra rotas de abastecimento, o que impediu os terroristas presentes em Salma não só de se mover, mas também de obter reforços. A Tomada de Salma findou uma campanha de três meses que levou à conquista de todas as colinas e platôs da região.

Irritação do governo Erdogan à ofensiva síria e russa em Latakia foi o que levou a Turquia a abater o avião russo Su-24M2 sobre o espaço aéreo sírio em 23 de Novembro. Este foi sem dúvida um importante indicador da importância que a província síria tinha para os turcos. Isso, no entanto, longe de dissuadir os russos, encorajou estes últimos e os sírios a prosseguirem em sua ofensiva, de maneira ainda mais rápida, o que levou à liberação de Salma. Esta parece ter sido, em última análise, a resposta escolhida por Moscou para a derrubada do seu dispositivo (bombardeiro Su-24M2).

A organização terrorista chechena, Ansar al Sham, apoiado pela Turquia, foi praticamente eliminada e a sua liderança afirmou que os militantes estão agora sem armas, ou dinheiro. Este colapso dos militantes augura um avanço rápido para os postos de fronteira entre a província de Latakia e a Turquia. O único reduto dos terroristas mantido em Latakia é a cidade de Rabia, que se espera, venha a cair nas mãos do Exército Árabe da Síria em breve, o que irá fechar a fronteira turca, totalmente, naquilo que é relativo à província.

Na província de Aleppo está a ser dada uma situação semelhante e o exército sírio e os seus aliados estão progredindo em direção à fronteira turca por vários eixos. O Exército Árabe Sírio assumiu recentemente a cidade de Ain Beida, situada 7-8 kms da linha de fronteira, quase que de maneira sincronizada com a ofensiva das forças militares sírias em Latakia.

A implantação do sistema antiaéreo S-400 em Latakia tem impedido as aeronaves turcas de adentrarem livremente no espaço aéreo da Síria, tal como reconhecido recentemente pelo primeiro-ministro, Ahmet Davutoglu. A Turquia suspendeu o voo das suas aeronaves, quando a Rússia introduziu o sistema acima descrito na Síria em 26 de novembro (2015).

Tudo isto evidencia a fraqueza da Turquia contra a presença russa. Ankara hesita em enviar tropas e agentes de inteligência à Síria por medo de serem capturados, ou mortos por lá. A este respeito, as advertências da Rússia para com o status da Síria têm se mostrado eficazes e a derrota dos grupos armados no norte de Latakia e Aleppo revelou a sua dependência destes com a Turquia, para dar continuidade à luta.

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Federação Russa, Maria Zajarova, acusou, por sua vez, a Turquia de “manter uma guerra oculta na região e trabalhar em prol dos seus próprios interesses na Síria, apoiando grupos terroristas e extremistas” e de violação da “Resolução do Conselho de Segurança da ONU (sobre o financiamento do terrorismo) por (permitir) transportar o tráfego de petróleo da Síria em seu território, especificamente o petróleo roubado pelo EI”.

Continua Zajarova: “Nós não vamos fechar os olhos às demonstrações contínuas por sênior responsável sênior turco, destinadas a desacreditar a Rússia aos olhos da comunidade internacional, tal como as acusações contra a força aérea russa de matar civis na Síria. O que é surpreendente é o fato do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Turquia degenerar-se ao ponto de usar métodos sujos,  como acusar sem provas o nosso país de assassinato em massa de civis”.

Considerações sobre a execução de Ruqia Hassan

Por: César A. Ferreira

Um dos problemas da juventude é a falta de sabedoria. O jovem, por força da natureza acredita ser capaz de tudo fazer, e quando instruído, embebe-se da soberba, da arrogância do absoluto saber, como se incapaz de cometer um erro fosse. Entender-se a si, ao demais e ao mundo a partir de uma observação simples da realidade parece ser algo impossível, vale antes a interpretação modelada pelas crenças próprias. Estes são, entre outros, os pecados da juventude.

Não é de assustar perceber que a maioria esmagadora dos insurgentes islamitas que afligem a Síria e o Oriente Médio, sejam em imensa maioria, jovens. O islã na vertente sunita wahabitta tornou-se a ideologia da contestação deste século XXI, por mais anacrônico que possa parecer. O que assusta, diga-se, é a ingenuidade daqueles que possuem a formação necessária para entender a si, aos outros e ao mundo, ter idade suficiente para aprender com sua vivência, e ainda sim, de maneira típica das pessoas advindas das classes desapegadas ao labor, revoltar-se contra quem lhe permite viver… Este é o caso da bela Ruqia Hassan, assassinada por membros do Estado Islâmico na cidade de Raqqa.

Ruqia Hassan, 30 anos de idade, formada em Filosofia na cidade de Aleppo, dedicava-se a escrever sobre o cotidiano da cidade de Raqqa, submetida pelas hostes do Estado Islâmico. Costumava postar mensagem curtas no Twitter, com o pseudônimo de Nisan Ibrahim, algumas delas com senso de humor fino, quase britânico. Uma delas, por exemplo, dizia: “As pessoas no mercado esbarram umas nas outras… não porque sejam muitas… mas porque têm os olhos colados ao céu(.)” (em virtude dos ataques aéreos). Sua oposição ao Estado Islâmico era declarada, se não explicitamente, ao menos de forma objetiva, tal como na declaração: “Está começando outro ataque aéreo, que Deus proteja os civis e leve os restantes”. Dado a importância que o Estado Islâmico dá aos meios de comunicação e a propaganda, não surpreende que tivessem Ruqia como alvo. Ruqia foi detida e executada sob a acusação de ser uma espiã do Exército Livre Sírio.

De fato, a ilustrada Ruqia Hassan havia aderido ao Exército Livre Sírio, ou seja, ela havia se tornado um membro da oposição em armas à República Árabe da Síria, avessa ao líder Bachar Al-Assad, a quem chamava de ditador… A mesma república, cujo regime permitiu que se educasse e tivesse a liberdade de ir e vir, contrair matrimônio e divorciar-se, adquirir bens, enfim… De viver. Ruqia, apesar de ter estudado filosofia, pouco uso fez do conhecimento adquirido, pois, com a mentalidade pseudo-cosmopolita engrossou a oposição à Assad, na sigla do ELS, cuja função ninguém sabe ao certo, pois diz combater ao Estado Islâmico e ao regime republicano, o que leva a pergunta: combate pelo quê?

Por favor, não me venham com os chavões de sempre, como Democracia, Estado Democrático de Direito e coisas do tipo. No atual estado de coisas da Síria isto é uma piada, e de muito mal gosto. Em termos práticos o Exército Livre da Síria não conseguiu outra coisa do que viabilizar a guerra santa promovida pelos extremistas wahabittas na Síria. Seus guerreiros mudam de lado como quem muda de camisa, e as armas e suprimentos que lhes são entregues pela OTAN, acabam alegremente nas mãos do Estado Islâmico. Não existe meio termo possível, o conceito de “Rebelde Moderado” é um absurdo que só pode ser levado adiante por quem é hipócrita, ou idiota. Neste conflito só existe duas opções: apoio a República Árabe da Síria, e ao seu regime, o que significa uma estrutura estatal e de responsabilidade, ou apoio aos grupos insurgentes, cujo significado é dar suporte ao medievalismo escravagista, perdido no tempo, e expandido via proselitismo do terror.

Ruquia ao aderir ao ESL fez a sua escolha, da qual, talvez, estivesse dolorosamente consciente, ao retratar com viés resignado, ligeiramente pessimista, o cotidiano de Raqqa. Ela que por lá ficou, quando da queda da cidade em mãos dos extremistas do Estado Islâmico, talvez alimentasse no íntimo um sentimento de frustração e amargor, a consciência do erro cometido… Não teve como escolher, preferiu, então, morrer. Sabia do seu erro, que fora de não entender o seu mundo. Por isso retratava o cotidiano de Raqqa, e manteve sua atitude frente às ameaças de morte… Até que ela se consumou.

Não vamos apontar, dizer, afirmar, que foi um ato de coragem. Antes, de resignação. Coragem tem o batalhão feminino do Exército Árabe Sírio, que em armas combatem os extremistas insurgentes, estas sim, independente da formação, do grau de instrução, entendem o seu país, os seus semelhantes e o que se passa no mundo, escolheram, portanto, defender a nação e os cidadãos, mesmo tendo a ciência do destino terrível que lhes aguarda caso sejam cercadas e capturadas. Às combatentes dedico o termo coragem. Merecem.