Almirantado argentino sabia das avarias com um dia de antecedência


Informativo argentino Infobae revela em reportagem que o Almirantado da Armada da República da Argentina detinha a informação de graves avarias um dia antes da data do último contato.

Por: César A. Ferreira

O informativo argentino Infobae, através de matéria assinada por Román Lejtman, revela que o comando da Armada Argentina detinha 24 horas antes do último contato a informação que o S-42 teria avarias sérias em um dos seus bancos de baterias, motivado pela ingestão de água do mar pelo snorkel. Apesar do último contato do submarino ter sido na quarta-feira, 14/11/2017, as 07:30, horário de Buenos Aires, informando que um dos bancos de baterias localizado na proa da embarcação se encontrava-avariado, o fato é que segundo o que foi revelado pela matéria, houve um comunicado do capitão, ocorrido na terça-feira, em que relatava a perda de um dos bancos de baterias devido ao contato destas com inundação marinha proveniente da ingestão desta pelo snorkel, que apresentou falha no seu sistema de vedação. Portanto, quando o capitão informa ao Almirantado os seus problemas na quarta-feira ele está relatando novos problemas, que possivelmente poderiam ser extensões daqueles vivenciados 24 horas antes. O periodista relata da seguinte maneira a cadeia de eventos:

“La primera vez que las autoridades en tierra de la Armada Argentina tomaron conocimiento de que el submarino sufría una seria avería fue el martes 14 cerca de la medianoche. En esa comunicación, el capitán del ARA San Juan, Pedro Fernández, le informó a la base de Mar del Plata -desde donde había partido quince días antes- que tenía un “cortocircuito en la batería 3” de la sala de baterías de proa porque le entraba agua por el snorkel.

En los primeros minutos del miércoles 15, el capitán avisó a la base que el inconveniente había sido solucionado. Sin embargo, horas más tarde, volvió a llamar para decir que tenía un problema con las baterías en la proa. Nuevamente, en la madrugada volvió a informar que el inconveniente había sido resuelto.

Cerca de las 6 de la mañana, mediante el teléfono satelital Iridium, el ARA San Juan pidió un cambio de rumbo. A las 7.30 fue la última comunicación de la nave con tierra”.

Em sua reportagem o periodista, em vista dos dados coletados, acaba por assumir uma conclusão, que se adotada daria um destino diferente ao ARA San Juan:

“En el momento en el que el ARA San Juan denunció dificultades se encontraba a una distancia en línea recta con el Golfo San Jorge de menos de 300 kilómetros. Si se le hubiese ordenado que se dirigiera hacia allí, a la velocidad que navegaba a ese momento -entre 15 y 20 kilómetros por hora-, se cree que la nave podría haber alcanzado tierra. Sin embargo, recibió la orden de dirigirse a Mar del Plata”.

Tendo os fatos narrados em mente, vamos ao raciocínio: as avarias sucederam-se, não imediatamente, mas em uma sequencia com intervalo de tempo, o que pode ter levado o capitão a acreditar que as estava superando, tendo-as sobre controle. O fato revelado e de suma importância é a admissão de água pelo snorkel, pois esta é sabidamente uma falha que implica em ocorrências graves em submarinos diesel-elétricos. Em geral, a presença de água junto ao banco de baterias leva a formação de gás de cloro, contaminante reconhecidamente fatal, responsável pela morte de 70 tripulantes do submarino Nº 361 da Marinha do Exército Popular de Libertação da China (é a versão mais aceita, outra admite o sequestro por parte dos motores diesel de todo o ar presente, o que levou a tripulação a sufocar-se)..

Analisando as informações temos o fato que por duas vezes o capitão informou dano nos seus bancos de baterias e igualmente, por outras duas vezes, informou a solução destas avarias, todavia, não obtendo desempenho total, visto que navegava com 50%, ou menos da capacidade advinda das suas baterias. Por certo havia isolado os painéis de baterias que tinha apresentado problemas. O dado interessante é a última comunicação, que não se deu por rádio frequência, mas através de telefone via satélite, cujo serviço é provido pela empresa Iridium. Neste contato, segundo informa o periodista, o comandante pedia uma alteração da derrota prevista, que era para Mar del Plata.

A última comunicação é importantíssima, pois caso seja uma informação verídica, torna -se um elemento elucidativo para que se entenda o quadro contextual da tragédia do S-42 ARA San Juan, pois se percebe o motivo pelo qual se pode entender o porquê de não se ter traçado uma derrota para Comodoro Rivadávia, ou qualquer outro porto mais próximo: simplesmente recebera o comandante uma ordem para ter Mar del Plata como destino. É óbvio que o comandante detinha confiança em sua embarcação, e mesmo com 480 baterias fora de linha, acreditava que poderia navegar até a base de Mar del Plata, lugar onde as facilidades para a manutenção dos submarinos da Flota de Mar se fazem presentes.

ARASanJuan1222
S-42 ARA San Juan. Imagem: internet.

Com o conforto de um observador que analisa os eventos passados, ou seja, que não se vê obrigado a tomar decisões em meio à cadeia de eventos se pode criticar a decisão de o comandante não ter traçado derrota para o Golfo de São Jorge e solicitado a presença de vasos da Armada para formarem piquetes de socorro para o submarino, todavia, é preciso entender as condições de mar, que certamente haviam sido preponderantes na falha do snorkel ao admitir a entrada de água, eram restritivas. Uma condição de mar (Estado de Mar – 6) que, então, apresentava ondas acima dos seis metros, certamente inviabilizaria qualquer faina, ou seja, procedimento marinheiro, em atar cabos para tração (reboque), já que as vagas imensas varreriam a coberta do submarino levando consigo os submarinistas. Daí, que atendendo a sua consciência o Capitán de Fragata Pedro Martín Fernández resolveu prosseguir submerso.

Dá-se que o motor da história humana são as decisões. Algumas delas são infelizes. Não há motivos, no entender deste redator, em se empreender uma cruzada pela busca de culpados, mesmo que se confirme uma ordem clara e objetiva do Almirantado pela manutenção da derrota para Mar del Plata, pelo motivo simples que o capitão detinha autonomia suficiente para decidir-se por outro destino. Ao se decidir por prosseguir em direção à sua base, demonstrou inequivocamente que detinha confiança bastante na sua embarcação, tripulação e em si mesmo para tanto. Todo comandante é escravo das suas ponderações e avaliações e com o comandante Pedro Martin Fernández não foi diferente.

Chicoutimi

A admissão de água pelo snorkel  traça um paralelo possível com um acidente havido com o submarino Chicoutimi, da Royal Canadian Navy. Este evento não terminou em naufrágio, como o caso dos submarinos franceses da classe Daphne, mas, justamente por isso, por ter sobrevivido, existe a riqueza de detalhes, que por sua vez esclarece pontos obscuros para este tipo de acidente.

O Chicoutimi era (ainda é) um submarino diesel-elétrico produzido pela Vickers, com o intuito de ser o cabeça de uma classe destinada a substituir a afamada classe Oberon de submarinos diesel-elétricos da Marinha de Sua Majestade. Esta classe batizada de Upholder, ou Type 2400, devido ao seu deslocamento, não obteve o sucesso esperado colhendo em sua história muitos acidentes, entre eles o do Chicoutimi.

Chocoutim222
Chicoutimi: parte de uma classe de submarinos de muito má fama. Imagem: internet.

Tendo zarpado de Faislane no dia 4 de outubro em direção ao Canadá, que havia adquirido da Inglaterra os quatro exemplares da malfadada classe, viu-se obrigado a navegar à superfície marinha, devido as restrições impostas pelo Almirantado Britânico, pelo fato de partir de uma base britânica de submarinos nucleares da OTAN. No dia 5, segundo dia de viagem, enfrentou severas condições de mar com vagas superiores a 8 metros, havendo admissão de grande volume de água na torre. A escotilha impedia a entrada de água, todavia o dreno apresentou falha, não escoando a água presente. Este problema foi percebido quando da abertura da escotilha inferior e logicamente formou-se uma equipe de reparos. Esta equipe, necessitando de uma ferramenta em especial estava a recebê-la através da escotilha quando uma imensa vaga atingiu e cobriu a vela do submarino fazendo-o admitir mais de 500 galões de água do mar. De imediato irromperam curtos-circuitos, arcos elétricos e incêndios. Nove submarinistas ficaram feridos, três seriamente e um veio a falecer em decorrência destes ferimentos. Desprovido de energia, em função da necessidade de combate ao incêndio, o Chicoutimi ficou a deriva até ser encontrado e socorrido pelo patrulheiro irlandês Le Rousin e pela fragata HMS Montrose.

É tentador, portanto, traçar a mesma cadeia de acontecimentos para o S-42 ARA San Juan, onde a admissão de água pelo snorkel, devido as condições de mar, seguido pela formação de arcos voltaicos e incêndios formam o quadro do possível sinistro. Sendo que neste caso o temos de forma sequencial, ou seja, repetitivo, ocorrendo sucessivamente nos dias 14 e 15, onde cada evento debilitou decisivamente o submarino e cuja última ocorrência foi-lhe fatal. Tentador é, mas sei bem que não passa de mais uma especulação. E as especulações não ajudam. Apenas causam maiores dores e sofrimento nos familiares que ficam a formar quadros em suas mentes sobre os últimos momentos dos seus entes queridos. O correto é esperar pelas imagens do submarino, quando este for encontrado, observar as suas condições para então se ter o mínimo embasamento. As tragédias havidas com o Minerve, Eurydice e com o N° 361 servem apenas de parâmetros, não produzem certezas, para estas, só o tempo.

Nota do Editor: acabo de ser informado por uma fonte, que a Armada da República Argentina admitiu a pouco (27/11/2017) que houve a ocorrência de três eventos de suma importância, são estes: a entrada de água, o curto-circuito e o princípio de incêndio a bordo. Ao que parece o paralelo com os eventos enfrentados pelo submarino canadense Chicoutimi se reforça. Entende-se o motivo da Armada Argentina acreditar firmemente que poderia encontrar o S-42 ARA San Juan à superfície, inerte, a deriva, tal como se sucedeu com o Chicoutimi. 

Anúncios

Tudo que você precisa saber para entender a força-tarefa naval russa ao largo do litoral sírio

Autor: The Saker,

Fonte original: Unz Review e The Vineyard of the Saker.

Fonte em português: Oriente Mídia

Data da publicação original: 25.10.2016

Tradução: Coletivo de tradutores da Vila Vudu.

 

A máquina de propaganda do Império Anglo-sionista, codinome “mídia-empresa”, enfrentou graves dificuldades para decidir o que devia publicar sobre a força-tarefa naval russa enviada para a Síria.

Afinal, os norte-americanos decidiram manifestar o desprezo de sempre por qualquer coisa que sugira Rússia e descreveram essa força como se construída em torno do porta-aviões “geriátrico” Almirante Kuznetsov; os britânicos optaram por descrevê-la como uma formidável “armada” a ponto de dar cabo, para sempre, dos terroristas moderados que há na Síria.

Meu amigo Alexander Mercouris recentemente escreveu análise soberba, explicando que, na realidade, essa força-tarefa não é nem geriátrica nem formidável. Em vez de repetir tudo aqui, prefiro escrever o que entendo que possa ser uma ‘atualização’ daquele excelente artigo, com uns poucos detalhes acrescentados. Primeiro passo: desmontar algumas concepções básicas erradas.

Comecemos pelo porta-aviões russo.

O “Cruzador Pesado Porta-aviões Almirante da Frota Soviética Kuznetsov”

Fiquem sabendo que os russos sequer chamam o Almirante Kuznetsov de porta-aviões. A designação oficial do Kuznetsov é “Cruzador Pesado Porta-aviões”. É importante entender por quê.

O que, na opinião de vocês, é um porta-aviões? Ou, dito de outro modo: por que os EUA mantêm uma força de 10-12 porta-aviões pesados? A acreditar-se no que dizia Ronald Reagan, seria para “posicionar adiante” [ing. “forward deploy”] e levar a guerra aos sovietes (essa era, então, a justificativa para haver 600 navios de guerra e porta-aviões dos EUA no Atlântico Norte). Nada poderia ser mais distante da verdade. De fato, porta-aviões de EUA, britânicos e franceses são ferramenta para impor o mando colonial. Você estaciona um ou dois grupos de combate naval em torno de um porta-aviões a umas poucas milhas de colônia desobediente, e bombardeia até cansar, ou até que a colônia se renda. Essa é, de fato, a única justificativa para tais descomunais estruturas. A beleza da coisa é que você pode ameaçar todo o planeta e que você não depende de aliados que concordem com sua missão. Assim sendo, pode-se dizer que porta-aviões dos EUA e de outros países ocidentais são uma projeção de capacidade de poder de longo alcance usados contra países pobres e fracamente defendidos.

Por que pobres e por que fracamente defendidos?

Aqui se chega ao feio segredo que todos sabem: porta-aviões não podem ser defendidos de ataque de inimigo sofisticado. Se a Guerra Fria tivesse esquentado, os soviéticos teriam atacado simultaneamente qualquer porta-aviões que vissem pela frente em todo o Atlântico norte, com um combo de:

Mísseis cruzadores lançados do ar;

Mísseis cruzadores lançados de submarinos;

Mísseis cruzadores lançados de navios de superfície;

Torpedos lançados de submarinos.

Kuznetsov lança um SU-33

O cruzador de combate movido a energia nuclear Pedro O Grande

Granit P-700 (3M45) de 7 toneladas

Esse é força da pesada e atualmente é a nave de guerra mais pesadamente armada de todo o planeta. Nem vou entrar em detalhes aqui. Os interessados encontram aqui uma lista de armas ali transportadas. Basta dizer que esse cruzador de combate pode fazer de tudo: antiaéreo, antinavios, antissubmarino. Está armado com sensores top de linha e comunicações avançadas. Sendo a nave madrinha da Frota do norte, é, na verdade, a nave madrinha de toda a Marinha Russa. Por último, mas não menos importante, o Pedro O Grande transporta carga formidável de 20 mísseis anti-superfície Granit (antinavios). Vejam, por favor, que o poder de fogo combinado dos mísseis antinavios Granit do Kuznetsov e do Pedro O Grande é 12+20, num total de 32. Adiante explicarei por que isso é importante.O restante da força-tarefa é composta de duas Grandes Naves Antissubmarino (“destroieres”, na terminologia ocidental), mais o Vice-almirante Kulakov e o Severomorsk, mais vários navios de apoio. O Kulakov e o Severomorsk são baseados no design Udaloy e são naves de combate modernas e de alta capacidade. Todas essas naves logo serão reunidas numa força, incluindo dois pequenos navios mísseis (corvetas, na terminologia ocidental) armados com os famosos mísseis cruzadores Kalibr especializados em ataques a navios de superfície. Por fim, embora nada disso venha a ser anunciado, creio que essa força-tarefa incluirá dois submarinos nucleares de ataque da classe Akula; um submarino míssil cruzador Oscar-II (armado com outros 12 mísseis cruzadores Granit) e vários submarinos elétricos-a-diesel da classe Kilo.Em resumo, o que ficou dito até aqui.A força-tarefa naval russa é tentativa, pelos russos, de reunir vários navios que jamais foram projetados para operar como uma única força-tarefa naval muito longe de território russo. Se quiserem, foi “sacada” muito esperta dos russos. Eu diria também que é sacada muito bem-sucedida, dado que essa força-tarefa é toda ela muito impressionante. Não, não pode ‘dar conta’ de toda a OTAN, sequer da Marinha dos EUA, mas pode fazer muitas coisas com muita efetividade.

Agora, a grande pergunta: O que a força-tarefa naval russa na Síria pode realmente fazer?

Antes de considerarmos o grande quadro, há um detalhe que acho que merece ser mencionado aqui. Praticamente tudo que leio sobre o míssil cruzador Granit diz que é míssil cruzador antinavios. Também escrevi isso, para manter as coisas em nível bem simples. Mas agora tenho de dizer que o Granit provavelmente sempre teve um modo “B” (B de beregovoy ou, se preferirem, modo “costeiro” ou “de terra”). Não sei se esse modo existiu sempre, desde o primeiro dia, ou se foi acrescentado depois, mas hoje já é absolutamente certo que o Granit tem esse modo. Foi provavelmente uma capacidade bem minimalista, sem auto-orientação e outros truques (que o Granit tem em seu modo principal antinavios), mas os russos revelaram recentemente que os Granits atualizados têm agora capacidade *real* (“complexa”) de ataque em terra. E isso exige que se reexamine o que essa novidade significa para essa força-tarefa. Eis o que sabemos do Granit novo e aprimorado (ao qual os russos referem-se como 3M45):

Resumindo tudo isso: o Kuznetsov é ótimo transportador de aviões que ainda assim reflete uma filosofia de projeto datada, que jamais considerou projetar o poder russo para longas distâncias, como acontece com os porta-aviões ocidentais, especialmente dos EUA.Agora, consideremos o restante da força-tarefa naval russa.O restante da força-tarefa naval russa em torno do Kuznetsov. Um grande nome imediatamente se destaca: o Cruzador Pesado Movido a Energia Nuclear Pedro O Grande.

Não posso provar o que digo a seguir, mas posso dar o testemunho de incontáveis amigos nas forças armadas dos EUA, inclusive vários que serviram em porta-aviões dos EUA, e todos eles compreendiam claramente que os porta-aviões dos EUA jamais sobreviveriam a ataque soviético de saturação, e que em caso de guerra de verdade teriam de ficar bem longe de litorais soviéticos. Acrescento apenas que os chineses, ao que parece, desenvolveram mísseis balísticos especializados, projetados para destruir grupos de combate de porta-aviões. Isso há tempos, no início dos anos 1990s. Hoje, até países como o Irã já começam a desenvolver capacidades para enfrentar e destruir com sucesso porta-aviões dos EUA.Os soviéticos jamais construíram qualquer verdadeiro porta-aviões. Tinham “cruzadores” com capacidade muito limitada para transportar aeronaves de decolagem vertical e, claro, helicópteros. Esses cruzadores tinham dois principais objetivos: ampliar o alcance das defesas aéreas soviéticas e apoiar o desembarque de força vinda do mar. Um traço muito especial desses cruzadores para transporte de aviões é que transportam mísseis cruzadores muito grandes (4,5-7 toneladas) projetados para atacar naves inimigas de alto valor, inclusive porta-aviões dos EUA. Podem ler aqui sobre o cruzador “da classe Kiev” para transporte de aeronaves. Outra característica chave desses cruzadores soviéticos transportadores de aeronaves é que transportavam uma aeronave cheia de problemas, a Yak-38 que seria alvo fácil para os F-14, F-15, F-16 ou F-18 dos EUA. Por essa razão, as defesas aéreas de classe-Kiev centraram-se em seus mísseis terra-ar, não no complemento de outras aeronaves. Quando o Kuznetsov foi construído, os soviéticos haviam desenvolvido aeronaves que eram no mínimo iguais, se não superiores, às contrapartes ocidentais: o MiG-29 e, especialmente, o SU-27. E isso deu a alguns soviéticos a ideia de construírem um porta-aviões “de verdade”.A decisão de construir o Kuznetsov foi extremamente controversa e enfrentou muita oposição. Os ‘pontos de venda’ do Kuznetsov eram a plataforma de defesa aérea muito superior; o fato de que podia transportar aeronaves muito superiores e por fim, mas não sem importância, que podia competir, em termos de prestígio, com os pesados porta-aviões norte-americanos, especialmente o planejado mas jamais construído porta-aviões movido a energia nuclear de uma geração futura. Considero esse argumento completamente não convincente; hoje já confio que a maioria dos planejadores da força naval russa concordariam comigo: a Rússia não precisa de porta-aviões de estilo norte-americanos, e se precisar de porta-aviões, mesmo de outro tipo, eles terão de ser projetados segundo padrões russos, para missões concebidas pelos russos, não como cópia dos norte-americanos.[Barra lateral: Eu adoraria pegar minha canastrinha de ideias e contar a vocês tudo que penso, de ruim, sobre porta-aviões em geral, e por que penso que a Marinha Russa devia ser centrada em submarinos e fragatas, mas isso tomaria todo meu espaço. Direi só que sempre preferirei ter muitas fragatas ou corveta, a ter uns poucos cruzadores pesados].

Assim o Kuznetsov acabou por ser uma mega concessão e, em matéria de concessão, uma bastante interessante. Pensem: transporta 12 mísseis massivos antinavios da classe Granit, e tem também, potencialmente, um complemento em aeronaves maior que o francês Charles de Gaulle (50 contra 40). Inicialmente, o Kuznetsov transportava 12 ar-ar puros SU-33, mas agora foram gradualmente substituídos por 20 MiG-29K muito mais modernos e seus 24 helicópteros Ka-27 serão substituídos pelos helicópteros de reconhecimento e ataque mais avançados do planeta hoje, o Ka-52K. O Kuznetsov mesmo assim tem dois grandes pontos fracos: uma propulsão sem dúvida datada (vejam o artigo de Mercouris) e a falta a bordo de um sistema AWACs. Esse último ponto fraco é consequência da filosofia de projeto do Kuznetsov, que nunca foi pensado para operar a distâncias acima de 500-1.000km das fronteiras russas (mais uma vez, a filosofia de planejamento da força russa, sempre para menos de 1.000km).

Massa: 7 toneladas;

Velocidade: Mach 1,5-2;

Alcance: 500-600 km; e

Ogiva: 750 kg (pode ser convencional e nuclear).

O Granit também é capaz de coisas muito avançadas, inclusive um míssil (destacado) que voa a 500m ou mais, para detectar o alvo e o restante da salva que parte rasante sobre a superfície ao mesmo tempo em que recebe dados daquele que voa acima. Esses mísseis também são capazes de atacar automaticamente de diferentes direções, para desnortear as defesas. Podem voar baixo, a 25m; e alto, a mais de 17 mil metros. Tudo isso significa que estes mísseis Granits são vetores de alta capacidade tático-operacional. E considerando que há, no mínimo, 32 desses na força-tarefa russa (46, se houver ali um submarino classe Oscar-II), significa que a força-tarefa tem poder tático para tiros de míssil similar ao de uma brigada completa de foguetes! Se as coisas ficarem realmente feias, essa força-tarefa pode não só ameaçar seriamente qualquer nave de superfície da Marinha dos EUA/OTAN a 500 km de distância da Síria, mas, também, qualquer cidade ou base militar nessa distância. Muito me surpreende que os doidos-por-guerras ocidentais tenham deixado passar esse detalhe, porque, sim, é coisa para assustar a OTAN muito, muito mesmo :-)Para ser honesto, alguns especialistas têm manifestado muitas dúvidas sobre as capacidades do Granit para ataque em terra. Todos sabem que são mísseis relativamente velhos e muito caros, mas ninguém sabe a quantidade de trabalho investido para modernizá-los. Mas ainda que tenham capacidades muito mais reduzidas do que foi anunciado, o fato de haver entre 32 e 46 desses mísseis ali perto, ao largo da costa da Síria, é formidável fator de contenção, porque ninguém jamais saberá o que esses mísseis podem fazer, até que tenham já feito.

Assim sendo,

As capacidades combinadas da força-tarefa naval russa e dos mísseis S-300/S-400 dispostos na Síria dão aos russos capacidade de defesa aérea de categoria mundial. Se preciso, os russos podem até lançar em combate os A-50 AWACs a partir da Rússia protegidos por MiG-31BMs. O que a maioria dos observadores não percebem é que aquele SA-N-6 “Grumble” que constitui o núcleo duro do Pedro O Grande é um S-300FM, a variante naval modernizada do S-300. Também é capaz de velocidade considerável (Mach 6), tem alcance de 150 km, capacidade acrescentada de um terminal infravermelho, um sistema de míssil-guia que lhe permite atacar mísseis balísticos e altitude ‘envelope’ de 27km. Além disso, adivinhem – o Pedro O Grande tem 48 desses mísseis (em 20 plataformas de lançamento) o equivalente a 12 baterias S-300 (considerando quatro lançadores por bateria).

Uma das maiores fragilidades da força que os russos alocaram na Síria é o número relativamente baixo de mísseis que podem ser disparados ao mesmo tempo. As forças de EUA/OTAN podem simplesmente saturar as defesas russas com grande número de mísseis. É verdade que, sim, continuam a poder fazer isso. Mas agora a coisa está muito, muito mais difícil.

Os russos podem fazer parar um ataque dos EUA contra a Síria?

Provavelmente, não.

Mas podem torná-lo muito mais difícil e dramaticamente menos efetivo.

Primeiro, logo que os EUA disparem os russos verão o disparo e alertarão as forças sírias e russas. Dado que os russos têm meios para rastrear todos e quaisquer mísseis dos EUA, podem passar os dados para todas as suas tripulações de defesa, que estarão a postos quando os mísseis chegarem. Além disso, quando os mísseis estiverem próximos, os russos com certeza derrubarão vários deles, obrigando os norte-americanos a calcular (do espaço) os danos e re-atacar os mesmos alvos muitas e muitas repetidas vezes.

Segundo, com tecnologia stealth [invisíveis aos radares] ou sem, não acredito que a Marinha dos EUA ou a Força Aérea dos EUA se arriscarão a voar para dentro de espaço aéreo controlado pelos russos ou, se se arriscarem, será experimento de vida curta. Acredito que a presença dos russos na Síria tornará qualquer ataque contra a Síria um ataque “de um só míssil”. A menos que os norte-americanos derrubem as defesas aéreas russas – o que só conseguirão fazer se quiserem iniciar a 3ª Guerra Mundial, a aviação norte-americana terá de se manter fora dos céus sírios. E isso significa que (i) os russos terão implantado, basicamente, sua própria zona aérea de exclusão sobre a Síria, e que (ii) toda e qualquer ‘no fly zone’ dos EUA tornou-se empreitada impossível de concretizar.

Na sequência, o Kuznetsov terá, saindo do forno, um número de aeronaves (asas fixas e rotatórias) incluindo helicópteros 15-20 Ka-27 e Ka-52K, e 15-20 SU-33K e MiG-29K (acho que não se divulgaram números oficiais). O que os russos disseram foi que as aeronaves de asas fixas serão upgraded para poderem atacar alvos em solo. Fará alguma diferença? Talvez sim, marginalmente. Sem dúvida ajudará a lidar com o fluxo esperado de terroristas moderados vindos de Mosul (cortesia da operação dos EUA para encaminhá-los para a Síria), mas os russos podem simplesmente ter movido mais SU-25 ou até SU-34 para Khmeimin ou Irã, a custo muito mais baixo. Assim, em termos de asas, concordo integralmente com Mercouris – será mais ocasião para treino em condições de luta real, não alguma oportunidade para virar o jogo.

Conclusão

Esse deslocamento de forças é altamente não típico do que os russos sempre treinaram para fazer. Basicamente encontraram um meio para reforçar o contingente russo na Síria, especialmente contra o pesadelo da tal “no fly zone” de Hillary. Mas também é caso de extrair proveito da necessidade: a operação na Síria sempre foi distante demais da fronteira russa, e a força russa na Síria sempre foi pequena para sua tarefa. Além do mais, esse deslocamento não é sustentável no longo prazo, e os russos sabem disso. Conseguiram impor com sucesso sobre a Síria uma “zona aérea de exclusão de ianques” por tempo suficiente para que os sírios retomassem Aleppo, e para que os norte-americanos elegessem o próximo presidente.

Depois disso, ou a coisa melhorará dramaticamente (com Trump), ou piorará dramaticamente (com Hillary). De um modo ou de outro, a situação seguinte requererá dos russos estratégia completamente diferente.

The Saker

PS: Sei do anúncio semioficial dos russos, sobre planos para construir um moderno porta-aviões, provavelmente nuclear, com catapultas e tal. Valha o que valer o meu parecer, sou fortemente contra essa ideia, que me parece perdulária e sem qualquer conexão profunda com a doutrina russa de defesa. Mas a nova geração de submarinos russos (SSNs e SLBMs), essa, aplaudo de pé.*****

Nota do Editor do Blog DG: Saker é o pseudônimo de um analista de sistemas de Defesa e politica do leste europeu, cujos serviços foram, e ainda o são, aproveitados pelos órgãos de inteligência dos EUA. Aqui, faço repercutir a versão do seu texto publicado primeiramente pelo veículo Oriente Mídia, traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu, que foi por este editor mantido em sua integridade, tanto nos hiperlinks, quanto no uso dos negritos, havendo apenas pequeninas adaptações aos jargões militares, dado que o coletivo de tradutores, certamente, não tem o convívio necessário com tais termos. Por fim, fiz a opção da foto pelo Pyotr Velikiy,  pelo fato único de ser ele o elemento da frota de real peso.

A geopolítica da Rússia e as relações com o Egito

Fonte: Southfront

Autores:  J.Hawk, Daniel Deiss, Edwin Watson

Tradução adaptação: César A. Ferreira

As relações em rápido desenvolvimento entre a Rússia e o Egito foram ofuscadas por aquelas mais chamativas entre a Rússia e a Síria, bem como aquelas entre a Rússia e o Irã. No entanto, a relação Rússia-Egito merece um exame minucioso, posto que, ao contrário de relações do país (Rússia) com os outros dois poderes do Oriente Médio (Síria e Irã), trata-se de um país (Egito) que até então parecia estar definitivamente na órbita ocidental. A mudança abrupta de seu vetor geopolítico em direção a Eurásia representa, portanto, uma enorme mudança para a região, maior que o apoio bem sucedido da Rússia ao governo sírio legítimo,  ou a estreita relação com a República Islâmica do Irã, ambos os quais reiterados figurantes da  “lista de inimigos do Ocidente ” por décadas. As razões para esta mudança são duas, e tem a ver com a forma como as potências ocidentais interagem com as potências do Oriente Médio, em um contexto de crise econômica sistêmica, além da maneira como a Rússia demonstra a sua atratividade como um aliado.

A crise sistêmica do Ocidente claramente transformou o modo como as potências ocidentais visualizam aquelas não-ocidentais. Dado o fato de que o “fim da história”, como retórica globalizante sugeria uma utopia pós-soberania em que os poderes fracos e fortes interagiriam em condições de igualdade em um mundo sem fronteiras, observou-se na prática, que esta retórica era um ardil para convencer potências não ocidentais baixar a guarda e permitirem-se penetrar por empresas ocidentais e instituições financeiras,  indo a perder qualquer possibilidade de traçar o seu próprio curso independente. Infelizmente, do ponto de vista ocidental, a assimilação dos  “mercados emergentes” ainda é a pedra angular da política econômica, o único programa de crescimento econômico. Considerando que, durante a década de 1990 essa assimilação tomou forma de maneira relativamente benigna; 9/11 entretanto,  teve o efeito de permitir que inicialmente os EUA viessem a adotar uma postura muito mais agressiva, a ponto de realizar  invasões militares ostensivas. Enquanto isso a EU (União Europeia), inicialmente, não seguia o exemplo, mas, a gravidade dos próprios problemas internos da UE levaram-na a saltar no movimento de “mudança de regime”, como se verifica no caso da Líbia, da Síria e da Ucrânia.

O Egito, aliado ocidental de longa data, desde o final da década de 1970, inesperadamente encontrou-se no fim da fila das predatórias políticas ocidentais que assumiram a forma da “revolução colorida” da Praça Tahrir , movimento este que levou à vitória eleitoral a Irmandade Muçulmana, que por sua por sua vez, caiu frente a um golpe militar,  na medida em que o perigo de haver a queda do país em uma guerra civil tornou-se por demais aparente. O fato de que Irmandade Muçulmana foi financiada pelos EUA e os estados aliados do Golfo Pérsico, fez o Egito ciente de que também foi alvo de jihadismo patrocinada pelo Estado, e que os EUA eram incapazes,  ou não queriam forçar os seus aliados na região para que se abstivessem de atacar o Egito. Enquanto a Síria é apenas uma preocupação periférica para o Egito, a guerra civil na Líbia, onde as formações islamitas, incluindo ISIS desfrutam de apoio árabe do Golfo, representam uma ameaça imediata para o Egito por várias razões:  o país pode ser usado como uma plataforma para lançar ataques ao Egito, tornar-se um santuário contra retaliação e, a longo prazo, ter o seu governo tornando-se uma marionete controlada pelas potências do Golfo, insidiosamente hostis, cujo objetivo a longo prazo é o controle do Egito e do canal de Suez , isto significa que o Cairo se faz muito interessado em influenciar o resultado desta guerra.

Rússia desta forma mostrou-se, assim, como um parceiro atraente por causa de sua história de não-envolvimento na política interna das nações vizinhas (com uma falha, dado que a restrição unilateral levou à revolução da Praça Maidan, na Ucrânia), porque ela (Rússia) pode preencher o vazio de segurança deixada pela fraqueza ocidental, e, por último mas não menos importante, porque pode defender fisicamente integridade política e territorial do Egito contra todas as ameaças possíveis, uma habilidade que está atualmente sendo demonstrada na Síria. Egito parece estar aproveitando estas capacidades. A cooperação inclui agora a possibilidade de se estabelecer uma base aérea russa no Egito, visitas de paraquedistas russos ao Egito, e tropas de operações especiais que ministram formação aos seus homólogos egípcios. O Egito também está mudando os seus planos de aquisições militares em relação à Rússia. Os dois navios da classe Mistral que foram adquiridos pelo Egito receberão a suíte eletrônica russa originalmente planejada e irão levar os helicópteros russos (Ka-52); há discussões de vendas caça MiG para o Egito, e o país recebeu um barco lança mísseis da classe Molniya.

Do ponto de vista da Rússia o Egito representa ainda uma outra barreira de segurança contra a invasão ocidental, uma resposta simétrica para a expansão da OTAN, “Parceria Oriental”, e revoluções coloridas. Combinado com a presença militar na Síria, orientação pró-russa geral de Chipre, e a neutralização da Turquia, que também foi facilitada por uma abortada tentativa de golpe pró – ocidente, a adoção de bases egípcias acabaria por transformar o Mediterrâneo Oriental em um “lago russo.” Por último, mas não menos importante, estas bases e alianças poderiam servir como uma plataforma de lançamento para a projeção de poder em outras áreas instáveis do Oriente Médio e, se o controle do Canal de Suez por conta do Egito se faz garantido por armas russas, esta garantia dota ambos os países com um meio muito eficaz de pressionar Ocidental e as monarquias árabes do golfo.

 

A Rússia desafia os EUA na Síria

Autor: Yusuf Fernandez

Tradução: César A. Ferreira

Fonte: Al Manar

O envio do sistema S-300VM (SA-23 Gladiator terminologia da OTAN) para a  Síria, provocou a ira dos Estados Unidos  que expressou alarme a uma medida deste tipo apesar do fato de que a mídia dos EUA haver afirmado pouco antes, que  Washington estava considerando “as opções militares “contra a Rússia no tocante à crise síria. A última ameaça levou a Rússia a tomar as suas próprias medidas, incluindo a implantação do sistema acima, capaz de abater aeronaves e mísseis de cruzeiro, e reforçar a sua frota no Mediterrâneo.

A Rússia indicou, entretanto, que a S-300VM é um sistema defensivo e disse não entender por que os EUA estão a  expressar tais alarmes.

Os EUA têm-se queixado sobre os ataques russos na Síria contra a Frente  Al-Nusra e outros grupos terroristas e clamando pela imobilização das aeronaves da Rússia e Síria, de uma maneira que evidencia ainda  mais o seu apoio ao terrorismo. A implantação do S-300 VM é irrelevante contra a Frente Al-Nusra, que não tem poder aéreo, mas é uma parede contra possíveis ataques dos Estados Unidos ou os seus aliados contra a Síria.

Na verdade a ameaça contra a Rússia e a Síria é real. Os EUA afirmaram que não irão mais  realizar esforços diplomáticos na Síria, enquanto culpam a Rússia pelo seu próprio fracasso em respeitar os compromissos assumidos no conflito sírio. Ao que tudo indica, nunca tiveram real intenção em respeitar…

A próxima reunião do Conselho de Administração, que inclui os secretários de Estado e de Defesa, o chefe do Estado-Maior Conjunto, bem como o diretor da CIA, deverá examinar várias políticas de ação midiática e militar na Síria. Uma das proposta sobre a mesa é atacar as pistas dos aeroportos militares sírios com mísseis de cruzeiro e outras armas disparados de aeronaves de longo alcance e de navios, além de outras ações militares.

Seria, portanto, uma agressão militar aberta contra outro país sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU. Portanto, um oficial militar dos EUA, citado pelo Washington Post, disse que os ataques seriam realizados “dissimuladamente ou sem reconhecimento público.”

Na verdade, apenas os EUA, frente aos seus aliados ocidentais deitam a falar de “opções militares”, já que parece difícil pensar que os aliados europeus aceitem o risco de uma guerra com a Rússia para proteger a Frente Al-Nusra, uma organização ligada à Al Qaeda.

O reforço da frota mediterrânica e o envio do sistema  S-300 VM sugerem, fortemente,  que a Rússia está ciente de tais planos agressivos dos EUA e que decidiu portar-se altivamente na Síria. Em contraste, a reação histérica de Washington sugere que eles estão a perder uma posição militar estratégica, daí  correr o risco de um ataque deste tipo num momento em que a Rússia aumentou as suas defesas na Síria.

A política dos EUA na Síria representa uma ameaça para a própria Rússia e faz parte das tentativas de Washington para circundar este país. Uma bem sucedida operação de mudança de regime na Síria seria em seguida constituída de uma  intervenção dos EUA na Rússia, na forma do envio de terroristas financiados pela CIA para as repúblicas russas do Cáucaso para alimentar um movimentos separatistas latentes por lá. Um regime fantoche em Damasco ajudaria a canalizar tais forças, treinadas no campo de batalha da Síria, para dentro do solo da Rússia,  realizando uma campanha para desestabilizar e, finalmente, desmembrar a Federação Russa.

Nota do Editor: O sistema S-300VM (Antey 2500) possui como alvos primários misseis de cruzeiro, bem como os mísseis balísticos táticos de curto e médio alcance. De forma subsidiária pode ser utilizado para neutralizar aeronaves e outras ameaças aéreas. O seu alcance é de 200 km e caso a informação de que seria postado em Tartus, ou seja, junto a costa, isto significa que as formações de combatentes em Deir Ez Zoir e Aleppo não contariam com a proteção deste referido sistema, algo que já acontecia com sistema S-400 postado em Latakia.

A capacidade do sistema é a de vetorar até 24 alvos, sendo 4 por unidade de vetoramento por vez. Isto significa que a bateria, isolada, pode vir a ser saturada, não é por outro motivo que o conceito russo de Defesa Antiaérea prevê uma distribuição em camadas, ou seja, com proteção convergente de cada sistema por sobre o outro. Espera-se, portanto, que o sistema S-300VM tenha o seu complemento como segurança crítica na forma de uma bateira do sistemas Pantsyr S-1.

 

A Rússia e o seu entorno

Por: César A. Ferreira

É difícil explicar para os leitores desacostumados com matérias afeitas aos assuntos sobre geopolítica e de defesa, sobre os interesses da Rússia , suas ações e o modo de agir do seu dignitário, dado o fato que estes mesmos leitores são bombardeados, cotidianamente, por matérias ditas “jornalísticas”, publicadas rotineiramente na chamada mídia-empresa, ou grande impressa como é mais comumente denominada no Brasil, que retratam a Rússia como nação agressiva, como se fosse uma espécie de nova “Alemanha Nazista”, liderada por um novo ser diabólico: Vladimir Putin.

Uma forma fácil de entender é esquecer o potencial russo no campo da dissuasão nuclear, incomparável, cujo espelho, único no globo, repousa no arsenal equivalente dos EUA. Focando-se na capacidade econômica e nas armas convencionais, percebe-se, que a Rússia apresenta-se como uma potencia regional, sendo a sua capacidade de intervenção e resposta é mais forte quanto mais próximo estiver o alvo das ações das suas fronteiras. Entende-se, pois, o motivo das pressões intensas dos EUA sobre a França, no tocante aos navios multipropósito da classe Mistral, cuja construção havia sido contratada pelo Ministério da Defesa da República da Rússia junto ao estaleiro STX, DCNS, em contrato então aquiescido e endossado pelo governo francês. Tais navios ampliariam consideravelmente a capacidade de projeção da Marinha da Rússia, e certamente estariam sendo por agora utilizados no chamado “Expresso de Damasco”.

O espaço pós-soviético é o campo óbvio das atenções russas, e ao contrário do que se possa pensar, não é na Europa, mas na Ásia Central, onde a Rússia devota as suas energias. Percebe-se, pois, que os russos perceberam já a algum tempo que o futuro tem morada no Oriente. Este espaço teve a influência ocidental revertida, com muita paciência e trabalho intenso no campo diplomático, de inteligência, bem como no econômico. A exceção notável permanece sendo o Azerbaijão, seduzido que é até a presente data, pelo prometido mercado europeu ao seu gás, que seria viabilizado pelo gasoduto Nabuco… No tocante ao Cáucaso, segue a dor de cabeça no Daguestão, vizinho da Chechênia, agora estabilizada. O Cáucaso e a Ásia Central explicam em grande parte o esforço russo na Síria, dado que lá se dá combate aos mesmos terroristas da jihad que praticam o terror nas republicas da Federação Russa, portanto, a luta na Síria evita que os terroristas “subam a estrada”…

No tocante ao espaço do Oriente Próximo, o apoio ao Governo Sírio, reforça a influência russa na mesma medida que faz declinar a influência turca e saudita. Não se faz necessária, sequer, a vitória completa sobre os terroristas, bastando apenas que a sobrevivência do Governo Sírio seja assegurada, como de fato é o que se observa. No Mar Negro, a espetacular incorporação da península da Criméia fala por si. Espetacular não apenas pelo deslocamento rápido dos efetivos, que subiram em questão de dias para o limite de 32.000, mas, pelas consequências: a Rússia toma posse das reservas de gás do Mar Negro, adjacentes à orla da Criméia, reservas estas que estão ainda por serem exploradas. A ocupação da península presenteou a Rússia com a posse definitiva da Base Naval de Sebastopol, e por extensão, do domínio efetivo do Mar Negro, algo que reflete sobre as demais nações que são banhadas pelo referido mar. Com a posse da península a Rússia garante a segurança das suas linhas de gasodutos que provém do Cáucaso em direção à fronteira ucraniana.

A Ucrânia é um caso aparte. Ela se revela como um desafio proposto pela OTAN desde o golpe da Praça Maidan. Como nação, por si, a Ucrânia não se revela como ameaça, dado que se desmantela, perde capacidade industrial e econômica a olhos vistos desde o rompimento, forçado, dos laços com o complexo industrial russo, seu maior cliente. É por entender o conflito na região do Donbass como uma isca, que a Rússia congelou o mesmo com o Minsk-2, retirando assim o fantasma de ter-se de desdobrar em duas frentes, uma na Síria e outra na sua fronteira ocidental. Não é que seja o conflito ucraniano visto como se fosse de menor importância, mas a sua evolução não se mostra atrativa ao governo da Federação Russa, por representar ganhos relativamente pequenos. Desta maneira, congelado, a Rússia pode armar e treinar os elementos nativos do Donbass com vagar, com um custo menor, podendo sempre que necessário plantar efetivos do outro lado da fronteira para dissuadir o governo ucraniano de tentar algo mais efetivo do que as trocas de fogos de bateria.

Os olhos da Rússia repousam no Oriente, como bem demonstra o acordo amplo feito com a China, no campo energético e de Defesa. Espera-se que os volumes contratados por Pequim venham a gerar algo em torno de 400 bilhões de dólares em 10 anos, o que é uma quantia salutar. A China também é contratante de volumes de gás das ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central e acaba por dividir influência com Moscou nestas repúblicas, mas no tocante ao aspecto de segurança é a Federação Russa a garantidora da paz nestes espaços geográficos, seja pela manutenção de bases com efetivos militares, ou por acordos de cúpula.

Por isto é falsa a ideia plantada de que seja a Federação Russa uma potencia expansiva, dado que se observa apenas uma reocupação de um espaço geoestratégico. Expansão se verifica por parte da OTAN, que avança sobre a fronteira russa e não o contrário. A Rússia exercita o seu papel de potência regional sem se iludir com o domínio global, bastando para si neste momento em alcançar o objetivo clássico acalentado por todo e qualquer coração russo: a segurança das suas fronteiras.

A Rússia sente-se confortável

Por: César A. Ferreira

Neste exato momento caças-bombardeiros Su-34, recentemente desdobrados para o território sírio, reiniciam a campanha de bombardeio em Aleppo contra as posições da Frente Al-Nusra, vaporizando desta forma as unidades deste grupo terrorista, que se viu reforçado pela trégua proposta por Washington.

A Rússia retorna com força plena à Síria a despeito do que se diga no Pentágono, ou no Departamento de Estado. Independe das vontades alheias, e isto devido a um fato muito simples: fracassaram as tentativas de isolamento diplomático e econômico da gigantesca nação. Sobraram, apenas, a constantes e conhecidas provocações da OTAN, que quando respondidas, sejam por sobrevoos, ou escoltas, revelam o ridículo das argumentas desabridas dos prepostos da Aliança Atlântica… Mas, isto, convenhamos, pouco importa (para eles).

A Rússia possui seis fusos horários, é a nação com as mais extensas fronteiras políticas do globo, possui um território riquíssimo em termos de minérios ainda por ser explorado, reservas petrolíferas e de gás que estão por ser avaliadas, enfim… Não necessita e não ambiciona o controle de reservas de terceiros, diferentemente dos EUA e dos seus associados da OTAN, que dormem, sonham, com outra coisa que não seja o domínio completo das nações produtoras, bem como das rotas da commoditie energética de uso global.

O xadrez africano, onde se destaca como jogador de peso a chancelaria chinesa, e do qual o nosso novo, augusto e magnânimo chanceler fez questão de nos retirar, não possui a Rússia como potência interessada, visto que dos recursos futuros do continente africano pouco ou nada necessita, deixando assim este continente, com vastíssimas áreas ainda por serem exploradas, entregues a sanha dos EUA e das antigas potências coloniais, que rivalizam com o dragão chinês a primazia pela conquista dos corações e mentes africanas.

Por isso, tendo uma nação focada, uníssona na perspectiva de que é um povo capaz de escolher, manter o equilíbrio e desafiar quem lhe tente pressionar, a Rússia sente-se confortável para intervir no seu entorno próximo, congelar, ou acelerar conflitos na qual por ventura esteja envolvida, pois a sua proteção, ou seja, a proteção das suas fronteiras, estão bem resolvidas pelas armas entregues pelo complexo industrial militar, que herdado da URSS foi modernizado em todos os quadrantes possíveis, bem como pela elevação do padrão de prontidão das forças nacionais, objetivo perseguido e alcançado enquanto a OTAN se desgastava no Afeganistão…  Em outras palavras, a Rússia fez o que se deve: aproveitou-se de todas as oportunidades para crescer e fortalecer as suas forças armadas, tidas como esteio da soberania nacional, além de braço de crescimento tecnológico e industrial…

A Rússia, agora, sente-se confortável, apesar da inquietude vez por outra imposta pelas provocações infantis da OTAN… Uma lição que não será aproveitada por um sonolento gigante do sul, agora também grande produtor de petróleo, pois se encontra enredado pela miragem da grama mais verde do vizinho do norte.

Pena. A Rússia é uma lição breve de como construir uma verdadeira soberania.

Iskander, o pesadelo do Escudo anti-mísseis balísticos dos EUA

Autor: Valentin Vasilescu

Tradução: Alva

Fonte em português: Oriente Mídia

Rede Voltaire, Bucareste, Romênia, 26 de maio de 2016.

As capacidades dos mísseis Iskander são tais que eles podem passar através do escudo norte-americano. Portanto, pode-se perguntar para que serve este investimento colossal na Europa Oriental. Em primeiro lugar, parece que Washington busca justificar a sua proteção aos Europeus, em seguida, aposta no longo prazo: —na sua capacidade de mais rápido modernizar o escudo que os russos em melhorar os seus mísseis.

A OTAN posiciona, cada vez mais, novas armas ofensivas nas fronteiras da Rússia, obrigando Moscou a responder implantando armas defensivas. O sistema de mísseis terra-terra Iskander (Código Otan SS-26 Stone), é produzido pela fábrica de mísseis de Votkinsk (1.000 km a leste de Moscou). Ele foi especialmente concebido para perfurar o Escudo anti-mísseis balísticos norte-americano. O míssil Iskander, com um alcance de 500 km, possui um único andar Soyuz NPO, e funciona com combustível sólido. A 152ª Brigada de mísseis tácticos de Chernyakhovsk, no enclave de Kaliningrado, está equipada com mísseis Iskander, colocados a 200 km a partir da base de Redzikowo, que terá o papel de neutralizar o Escudo anti-mísseis americano na Polônia.

Em resposta aos elementos do Escudo anti-mísseis colocado na Romênia, uma bateria Iskander será provavelmente instalada na Crimeia, com um regimento de bombardeiros de longo alcance Tu-22M3. O tempo de preparação de lançamento para uma bateria de mísseis Iskander é de 4 minutos, a táctica utilizada determina o número de lançamentos simultâneos de dois pares de mísseis, com um intervalo provável de 2 a 6 minutos. Os mísseis Iskander podem ter ogivas convencionais (termobáricas, bombas nas caixas ou anti-bunkers), ou ogivas nucleares. Da Criméia à costa romena do Mar Negro vão 378 km e o alcance do míssil Iskander é de 500 km.

A trajetória de um míssil Iskander não é balística, pois com um peso de 3,8 a 4,2 toneladas teria um alcance de 1.500 km. O voo de cruzeiro do míssil Iskander é realizado a uma velocidade de 7.600 a 9.300 km/h, abaixo da altitude de 60.000 metros, sendo uma grande parte do trajeto efetuado por cima das camadas densas da atmosfera, quer dizer, a mais de 40. 000 m. Este perfil é baseado no facto dos mísseis AA de longo alcance como os MIM-104 Patriot PAC-3, que têm igualmente capacidades anti-balísticas, disporem de um alcance com limite máximo de 30. 000 a 35. 000 m. Este limite foi estabelecido assim porque a maioria dos aviões de combate jamais ultrapassam os 20.000 metros. Ora, a Romênia não tem mísseis Patriot e os mísseis anti-balísticos SM-3 block 1B, que equipam o Escudo de Deveselu, nada conseguem interceptar abaixo de uma altitude de 80.000 metros, altitude a partir da qual começam a funcionar os sensores a bordo.

Na fase final do voo, quando ele entra no quadro de possibilidades de intercepção do sistema Patriot, o míssil Iskander efetua manobras de evasão e lança 10 falsos alvos, sob a forma de refletores metálicos poliédricos. A defesa AA dispõe de um tempo muito curto, e não consegue distinguir uma ogiva Iskander dos falsos alvos. Para tentar abater um míssil Iskander seria preciso lançar 11 mísseis Patriot, mas para conseguir abater um Iskander isso exigiria 22 Patriot. O seu perfil de vôo, e o seu equipamento de interferência (empastelamento-ndT), conferem ao Iskander uma grande capacidade de sobrevivência, e, por isso, é pois quase impossível de interceptar.

Valentin Vasilescu – Perito militar. Antigo comandante-adjunto da base aérea militar de Otopeni.

Ucrânia depois da Euromaidan

Por: César A. Ferreira

Não é uma opinião, tampouco uma perspectiva marcada por posição ideológica que seja, mas uma mera constatação: todas as nações detentoras de grandes reservas energéticas e de minerais estratégicos, ou que exibam posição geográfica essencial para o tráfego destas riquezas extraídas, sofreram em graus variados intervenções estrangeiras, que foram da desestabilização política à guerra civil, isto quando os eventos não envolveram pura e simplesmente a invasão direta por forças armadas das potências agressoras, estas, invariavelmente, oriundas da Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN.

Em 21 de novembro de 2013, embalados pela sensação sufocante de que todos os problemas existentes na Ucrânia proviam da corrupção que grassava no país, iniciou-se o processo que se conhece como revolução da Praça Maidan, ou Euromaidan. O estopim fora a recusa do então presidente, Yanukovich, de pactuar com a União Europeia, preferindo a oferta superior, muito mais substancial, de realizar uma união aduaneira com a Rússia, cuja proposta, além das vantagens de aduana, perfazia a compra de títulos da dívida ucraniana no valor de quinze bilhões de dólares americanos, além do fornecimento em taxas preferências de gás russo ao mercado ucraniano. Dado o fato de que a proposta da União Europeia era muito mais tímida, pois se tratava de um empréstimo de apenas setecentos milhões de euros, aliado a um status de parceiro comercial preferencial, mas sem adesão formal à união aduaneira, é de se espantar a existência da rejeição popular à proposta russa, absurdamente superior a sua contraparte europeia, venha a ser apontada como o estopim para a revolta generalizada.

Fato é que a Ucrânia exibia uma posição geoestratégica clara, pois é através do seu território que se encontram a maioria absoluta dos gasodutos, pelos quais trafega o gás provindo da Rússia destinado à Europa. Ademais a Crimeia, então parte integrante da república ucraniana era o território sede da importantíssima base naval de Sebastopol, sede da Frota do Mar Negro da Federação Russa. Não surpreende, portanto, a descoberta do financiamento clandestino efetuado pela legação diplomática dos Estados Unidos da América aos grupos opositores que cavalgaram politicamente a insatisfação pública dos manifestantes ucranianos, caso dos partidos de extrema direita e neonazistas, ambos desprovidos de densidade política, visto que invariavelmente permaneciam no patamar de 6% do eleitorado, inferiores ao Partido Comunista, que alcançava o dobro, cerca de 12%…

Todavia a mídia ucraniana, toda ela em posse de oligarcas locais, postou-se como crítica, uníssona, ao governo, favorável a pantomima dos estudantes, estes inflados pela ONG Students Of Liberty –  ONG cuja ligação com a CIA é para lá de notória, aponto de ser, antes, folclórica. De fato, no campo ucraniano ver-se-ia o aporte por parte dos EUA, por meio da CIA e do Departamento de Estado, do valor reportado de cinco bilhões de dólares para os eventos que culminaram com a Euromaidan.

O resultado é bem conhecido, após a ocorrência de disparos feitos por atiradores escalados pelas agências de inteligência do ocidente, que vitimaram tanto os policiais da Força Berkut (baixas encobertas pela mídia, não noticiadas), como os manifestantes (mortos e feridos amplamente cobertos pela mídia), mas cuja autoria de chofre foi jogada às costas do governo ucraniano; Yanukovich empreendeu uma fuga quixotesca em direção à Federação Russa objetivando a busca de refúgio, sendo sucedido por uma junta, cuja legalidade sempre foi questionada, até mesmo quando da eleição do atual dignitário, Poroshenko. A Ucrânia perdeu a rica península da Criméia, que optou por se juntar à Federação Russa e viu-se enredada em um conflito custoso no Donbass, que lhe impôs reveses militares múltiplos, de caráter verdadeiramente desmoralizante, caso dos cercos de Illovaysk e Gorlovka, ou da batalha pela posse do aeroporto de Donetsk. Mas, isto não representa tudo, ou todos os males.

Homens de verde
A Federação Russa agiu rápido e impôs a ordem na estratégica e rica península da Crimeia, com o uso do efetivo militar da Base de Sebastopol. Imagem: internet.

A Ucrânia, ao empreender o afastamento da Rússia, com a qual mantinha laços de cunho acadêmico, industrial e comercial de monta, em virtude de uma retórica vitimizante, de cunho nacionalista e hostil ao vizinho, de evidente carga ideológica, acabou por colher perdas econômicas desastrosas, como o encolhimento de 80% da produção da sua base industrial de Defesa, cujo símbolo é a empresa aeronáutica Antonov, imersa em dificuldades, incapaz de encontrar clientes para o belo mais dispendioso projeto An-70, cujo cliente de lançamento seria justamente a Força Aeroespacial da Federação Russa. A área de Petróleo e Gás também apresentou retração, agravado pelo aumento do dispêndio relacionado à compra desta commodity energética, agora adquirida da EU com preços majorados em 30%, quando comparados àqueles praticados pela Federação Russa, estes custos, por sua vez se agravam quando se percebe que a moeda ucraniana desvalorizou-se demasiado, cerca de 350% em comparação ao dólar norte-americano. Ademais, o rompimento com os laços financeiros havidos com a Federação Russa privou a Ucrânia de recursos da ordem de nove bilhões de dólares, anuais, na forma de remessas dos ucranianos viventes na Rússia, então o maior investimento direto obtido pela república.

A ladeira abaixo experimentada pela Ucrânia não se restringe ao setor industrial, afeta de maneira equivalente o setor agropastoril, cuja atividade também sofreu retração. Das empresas deste setor, acredita-se que quatro a cada cinco estejam falidas, ou em estágio falimentar. Apenas 72 empresas agropastoris estão credenciadas a exportar para a Europa Unida, sendo que destas 36 já excederam a sua cota anual. O FMI estima que o país, para honrar os termos acertados com o Fundo, ver-se-á obrigado a comprometer 50% da sua arrecadação até o longínquo ano de 2041, contanto que consiga exibir uma taxa de crescimento anual de… 4% ao ano!  Mágica, diga-se, um tanto inacreditável, principalmente quando se considera o fato de que a população ucraniana sofreu um rebaixamento, nesta aventura de orgia ideológica, de 50% no seu padrão de vida, queda imposta pela retração do produto interno bruto, que caiu 6,8% em 2014 e 7,5% em 2015.

Entende-se o motivo de Poroshenko ter hoje uma popularidade muito abaixo daquela que Yanukovich detinha, exibindo notáveis 77 % de rejeição, todavia, observa-se, não há contra Poroshenko nenhuma Maidan… “Revolução” que quando estava no seu auge, exibiu o apoio declarado de apenas 45% da população, notadamente daqueles do oeste, enquanto o Donbass, Criméia e a região de Odessa, opunham-se ao movimento desestabilizador.

Portanto, que se tenha em mente: qualquer semelhança, com eventos análogos que estejam a ocorrer, ou que venham a ocorrer, em qualquer parte do mundo onde hajam reservas a serem exploradas de Petróleo e Gás, não será, jamais, uma mera coincidência…

Barack Obama diz que David Cameron permitiu que a Líbia se tornasse um “show de merda”

Em ataque sem precedentes, Presidente dos EUA afirma que Reino Unido foi “distraído”.

Por: Tim Walker, Nigel Morris.

Fonte: The Independent

Tradução: J.Junker

Barack Obama criticou duramente David Cameron e o papel do Reino Unido fazendo com que a Líbia se tornasse um “show de merda”, após a queda do ditador Muammar Gaddafi, em um ataque sem precedentes a um líder britânico por um presidente em exercício dos Estados Unidos.

Obama disse que, após uma intervenção militar bem sucedida para ajudar os rebeldes durante a revolta da Primavera Árabe de 2011, a Líbia foi deixada em uma espiral fora de controle – em grande parte devido à falta de ação dos aliados europeus da América.

Em uma franca entrevista à uma revista dos EUA, Obama disse: “Quando eu penso lá atrás, eu me pergunto o que deu errado… Há espaço para crítica, porque eu tinha mais fé nos europeus, dada a proximidade da Líbia, que estariam envolvidos na sequência”.

Recordando o primeiro-ministro britânico, ele sugeriu que Mr. Cameron tinha deixado de se preocupar com a Líbia depois de ter-se “distraído por uma série de outras coisas”.

Cameron e Nicolas Sarkozy,  presidente francês, fizeram força pelos bombardeios contra as forças do coronel Gaddafi, que levaram à sua queda, mas desde 2011 a Líbia afundou ainda mais na violência e na guerra civil, e posteriormente tornou-se um ponto base do ISIS no Norte da África.

Obama continuou: “Nós realmente executamos este plano melhor do que eu poderia ter esperado: Nós tínhamos um mandato da ONU, nós construímos uma coligação, custou US$1 bilhão – que, quando se trata de operações militares, é muito barato. Nós evitamos mortes de civis em larga escala, o que impediu que quase certamente virasse um prolongado e sangrento conflito civil. E apesar de tudo isso, a Líbia está uma bagunça”.

Referindo-se a essa confusão em privado, Obama supostamente usou um termo mais colorido, “shit show”.

000libya-fire22
Bombeiro líbio defronte à tancagem de uma planta de refino líbia em Ras Lanouf, norte da Líbia, fevereiro, após incêndios ocasionados por ataques lançados por extremistas do Estado Islâmico. Imagem: AP.

Um bombeiro da Líbia está na frente de um tanque de armazenamento de petróleo em uma instalação de petróleo na região Ras Lanouf norte da Líbia, em fevereiro, depois que foi incendiado seguindo ataques lançados por jihadistas do ISIS (AP)

Os comentários são um grave constrangimento ao Mr. Cameron, que tem sido muitas vezes forçado a defender o envolvimento britânico na Líbia com o fundamento de que a intervenção ocidental ajudou a evitar um banho de sangue. Eles também colocam pressão sobre a aliança transatlântica como as posições das forças de coalizão em alvos do ISIS na Síria e no Iraque.

A porta-voz de Cameron disse que frequentemente deixou claro que ele ainda acreditava que a ação militar na Líbia era “absolutamente a coisa certa a fazer” e sublinhou que o Governo tinha posto o suporte ao país na ordem do dia quando o Reino Unido organizou uma reunião de líderes do G8 em 2013.

Ela disse: “Eu acho que compartilhamos a avaliação do Presidente dos Estados Unidos de que existem desafios reais na Líbia, e é por isso que nós estamos continuando a trabalhar forte com nossos parceiros internacionais para apoiar um processo na Líbia que coloque no lugar um governo que possa trazer estabilidade a esse país e porque estamos a falar de como podemos apoiar tal governo no futuro”.

Falando amplamente para a The Atlantic, Obama revelou que o primeiro-ministro arriscava danificar a “relação especial” dos países, atrasando um aumento nos gastos de defesa para atender o alvo da OTAN de dois por cento do PIB. Aludindo à lentidão do Mr. Cameron, Obama disse: “aproveitadores me enfurecem” (“Free riders aggravate me”).

Quando os dois ficaram cara a cara na cimeira do G7 em Junho de 2015, Obama disse a Cameron: “Você tem que pagar o a sua parte”. No mês seguinte, o chanceler George Osborne incluiu no Orçamento um aumento de gastos com defesa.

Obama também disse que as falhas do Mr. Cameron tinham afetado sua decisão de não impor uma “linha vermelha” sobre o uso de armas químicas do presidente Bashar al-Assad, durante a guerra civil síria. O Presidente tinha planejado um ataque contra as forças de Assad em agosto de 2013, na sequência de um ataque com gás sarin pelo regime contra civis em um subúrbio de Damasco. O ataque foi cancelado no último instante. Um “fator importante” na decisão, o presidente disse, “foi o fracasso de Cameron em obter o consentimento de seu Parlamento” para a ação militar.

Durante seu mandato na Casa Branca, Obama explicou, ele tentou encorajar outras nações a agir em questões internacionais sem esperar que os EUA para assumissem sempre a liderança.

“Foi precisamente para evitar que os europeus e os Estados árabes ‘segurem em nossos casacos’ enquanto nós lutamos por eles, que por princípio, insistimos” que liderar a intervenção na Líbia, disse ele, descrevendo a estratégia como “parte da campanha anti-aproveitadores”.

Obama também disse Sarkozy, que deixou o cargo no ano seguinte à intervenção na Líbia, tinha se esforçado para “fazer alarde” do envolvimento da França. A Casa Branca permitiu-lhe levar crédito desproporcional nos ataques aéreos, assim, “[comprando o] envolvimento da França de uma forma que tornasse menos caro e menos arriscado para nós”, disse Obama.

Documento reservado da OTAN destaca que a Rússia é superior às forças da Aliança na Síria

Por: Josef Hufelschulte

Fonte: Focus

Tradução: J.Junker

Sábado: 05.03.2016

Desde setembro, a Força Aérea Russa está voando e atacando na Síria. Na imprensa, há denuncias de que os repetidos bombardeiros de Putin mataram centenas de civis. Ironicamente, no entanto, a OTAN elogia a Rússia em seu relatório: Ela está bombardeando “com precisão e eficiência”, ele diz – e teria um efeito muito maior do que o uso do armamento da OTAN.

O relatório da Aliança Militar do Atlântico Norte (OTAN) certifica que a Força Aérea Russa, implementada na Síria, alcançou um alto nível de profissionalismo. Isto foi relatado pela Focus, citando uma análise confidencial da OTAN, feita em Bruxelas.

Embora os aviões de combate das forças armadas russas são claramente inferiores aos jatos da aliança ocidental numericamente, os pilotos do Kremlin obtiveram, em operações contra a rede terrorista EI e outros grupos rebeldes, um impacto total maior. Isto foi devido à maior frequência de ataques aéreos russos, a Focus relata, citando o documento secreto.

Assim, cerca de 40 máquinas russas estacionados na Latakia voam até 75 missões por dia. Os ataques aéreos são executados “com precisão e eficiência”. A frota da OTAN conta com um total de 180 máquinas, que diariamente atacam apenas 20 alvos no solo. O Presidente Vladimir Putin, Comandante Supremo das forças russas, pretende aumentar, em futuro próximo, para até 140 aviões na Síria. Recentemente, a OTAN se sentiu constrangida pelo desdobramento de quatro caças multipropósito Sukhoi Su-35 na Latakia. O Su-35 é superior à maioria dos aviões de produção ocidental, de acordo com especialistas.

EI demonstra força no chão

De acordo com a OTAN, até agora apenas 20 por cento dos ataques russos foram contra terroristas, sendo a maioria contra milícias anti-Assad, algumas delas apoiadas pelo Ocidente. A forte presença dos terroristas e seus ganhos de terreno podem ser explicados pela dispersão dos rebeldes, por medo de ataques aéreos em suas posições.

Ao atacar, os pilotos do Kremlin usam informações de reconhecimento aéreo sírio. Além disso, as forças e espiões russos marcam instalações estrategicamente importantes. Sobre civis mortos nos ataques de aliados e da Força Aérea Russa não há nenhuma informação no documento secreto. De acordo com informações do Observatório Sírio para os Direitos Humanos mais de 1700 civis morreram desde Setembro de 2015 nos ataques aéreos russos, incluindo 423 crianças.

Nota do Editor: o que é conhecido como “Observatório Sírio para os Direitos Humanos” não passa de um simples ativista, comprometido ideologicamente, que mora acima de uma tecelagem em Londres. Vê-se, portanto, ao baixo nível no qual a grande imprensa é capaz de chegar no seu afã de desinformar. A credibilidade da grande imprensa não passa de miragem, fantasia, ou algo parecido.

A Operação Mani Pulite e a Lava Jato

Por: Edu Pessoa

A Operação Mãos Limpas (em italiano, Mani Pulite) tem diferenças e semelhanças com a Lava Jato brasileira, embora ambas tenham sido criadas com o intuito de desestabilizar a política dos dois países – Itália e Brasil – criando um novo arranjo político-institucional.

Di Pietro e Moro

Di Pietro e Moro são os concurseiros com a cara do golpismo moderno. Di Pietro estudou Direito na Universidade dos Estudos de Milão e em 1981 se tornou juiz da comarca de Bergamo (região norte da Itália), após aprovação em concurso público. Quatorze anos depois, Moro, hoje o titular da Lava Jato, também se forma em Direito pela Universidade Estadual de Maringá, fundada por seu pai, Dalton Moro, e se torna juiz federal da 4ª região (Paraná) em 1996, após aprovação em concurso público de 4 fases.

Origem da (operação) Mãos Limpas

A Mãos Limpas, Mani Pulite, começou na cidade de Milão, nos anos 90, com 4 juízes e 2 procuradores atuando na operação. O juiz titular da Operação era Antonio Di Pietro. Coincidência (ou não) o juiz titular da Operação Lava Jato também tem um sobrenome de origem italiana: Sergio Moro. Mãos Limpas seria um prosseguimento da investigação contra o Banco Ambrosiano, instituição financeira privada criada por padres italianos, acusada de realizar operações ilegais da Loja Maçônica P2, do Banco do Vaticano e da máfia. As operações ilegais do banco podem estar por trás da estranha morte do Papa João Paulo I (que queria aprofundar as investigações nas finanças do Banco do Vaticano).

O banco também foi usado pelos norte-americanos contra o Contras da Nicarágua e o Sindicato Solidariedade da Polônia, como forma de patrocinar conflitos e golpes nesses países (em virtude da ascensão dos governos de esquerda e a “guerra” contra o comunismo).

A semelhança do (Banco) Ambrosiano com o Banestado

Muito parecido com o Ambrosio é o caso do Banestado, banco público paranaense (depois privatizado no governo FHC), usado para lavar dinheiro e levar recursos para paraísos fiscais. Moro também foi o juiz responsável pela operação judicial que investigava a ida ilegal de dinheiro para o exterior, através das contas CC5. Os recursos ilegais foram fruto das privatizações e acordos espúrios, ocorridas durante o governo do ex-presidente Fernando Henrique.

A caça aos nomes nacionalistas

Enquanto hoje, Moro caça Odebrecht, Pessoa e outros nomes da engenharia nacional, Di Pietro, no seu tempo, prendeu o engenheiro e membro do Partido Socialista Italiano (PSI), Mario Chiesa. Chiesa, preso e torturado por Di Pietro, revelou um suposto esquema de uso de contas na Suíça para desvio de recursos públicos.

É ou não é a cara da história do Triplex do Lula e do suposto uso de “offshores” pelo ex-presidente? Falando em Triplex, a operação italiana também representou uma verdadeira caçada a líderes de esquerda em todo o país, incluindo Bettino Craxi, líder do PSI. O PSI ganhou eleições importantes, como as de Roma e vinha crescendo na preferência do eleitorado.

É possível traçar (guardadas as proporções entre os sistemas político-eleitorais italiano e brasileiro) um paralelo com a ascensão do PT após 2003, cujas vitórias sucessivas culminaram em um conjunto de ações midiáticas e judiciais para tirá-lo do poder.

A caçada da Mani Pulite contra Craxi (que morreu durante as investigações) é a mesma que fazem hoje contra Lula, perseguido politicamente por Moro et caterva de forma implacável.

 Di Pietro, Moro e a Opinião Publica

O apoio da imprensa foi fundamental para que a população italiana apoiasse as ações guiadas de Di Pietro. Prova disso foram as pesquisas de sondagem, feitas durante a operação, que mostravam o juiz com mais de 80% de aprovação, o que pavimentou seu caminho para a política. Recebeu tratamento da mídia italiana e da opinião pública de “herói”, com direito a cartazes, faixas penduradas nas sacadas dos prédios e até “brindes”.

Mais uma vez podemos traçar um paralelo com Moro, alçado pela opinião pública nacional e internacional, com apoio da velha mídia brasileira (e da mídia norte-americana), à condição de herói. Uma publicação norte-americana retrata Moro com a roupa dos “caça fantasmas”, sugerindo seu “combate à corrupção”. PHA mostrou que a revista tem FHC no conselho editorial, mas a mídia tupiniquim escondeu esse (importante) detalhe.

No Brasil, Moro é admirado pela velha mídia e pelos coxinhas. Da Globo, recebeu o prêmio “Faz a Diferença”, prêmio também recebido por Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF, pelos serviços prestados à Casa Grande. Dos coxinhas, recebe flores, tira fotos e posa de “popstar” nos poucos lugares em que apareceu publicamente. E não só: usa palestras, mobilizando a classe média para legitimar o golpe institucional via Judiciário.

 As Estatais do Petróleo

Muito se fala do rearranjo político, promovido pela Mãos Limpas (Di Pietro largou a magistratura para se dedicar a política e fundar um partido), mas pouco se fala das consequências dessa operação para a estatal de petróleo daquele país: a AGIP. Criada em 1953 (mesmo ano da Petrobrás), a AGIP (sigla para Azienda Generale Italiana Petroli ou Empresa Pública Italiana de Petróleo) era uma estatal do ramo do petróleo, com capital 100% público e controlada pelo governo italiano. O envolvimento da estatal na operação, supostamente usada para desviar recursos para financiamento ilícito de partidos políticos, acabou gerando como consequência política sua privatização, em 1995, adquirida pelo grupo ENI, da qual manteve apenas o antigo logotipo (o cão com 6 patas que cospe fogo sob o fundo amarelo e letras na cor preta).

A Petrobrás, do mesmo ano da AGIP, também foi alvo de ações semelhantes na Lava Jato, ao ter sido colocado no olho do furacão, acusada de ser usada para financiar campanhas eleitorais de Dilma Rousseff, através da irrigação em contas dos empreiteiros nacionais.

As acusações envolvendo a estatal brasileira vão além de um mero combate à corrupção, mas servem de base para ações contra o PT no TSE, promovidas pelo PSDB, e álibi para justificar sua privatização. É comum ouvir da boca de parlamentaristas oposicionistas de que a Petrobrás está sob “má gestão”, “corrupção”, “rapina”, etc. Qualquer semelhança com a AGIP não é mera coincidência…

Os EUA e os Partidos de Esquerda

A guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética (atual Rússia) nos anos 50-80, foi o pano de fundo para uma caça a partidos e líderes identificados com as ideias de esquerda.

A Mãos Limpas isentou o Partido Comunista Italiano (PCI). O partido capitalizou politicamente com a Mãos Limpas e vários de seus líderes aproveitaram a investigação para blindar do sentimento anticomunista, garantido assim apoio popular com a veiculação de discursos e trechos de seus líderes, a favor da investigação (um pouco como o que o PSDB faz hoje com a Lava Jato). Prova disso é que o PCI, anos 70, foi considerado o maior partido de esquerda da Europa. Dentro da Itália, fez contraponto à Democracia Cristã, principal força política do país até então.

Com uma visão próxima da social-democracia (hoje praticada pelo PT), Enrico Berlinguer, então presidente do partido (PCI), propôs um “compromisso histórico” dos comunistas com os cristãos, a fim de unir o país. Mas o acordo acabou não se concretizando, por causa da morte do líder cristão e ex-primeiro ministro Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas.

E onde os EUA entram nisso? Ora, a morte de Moro pelos Brigadas Vermelhas foi patrocinada pelos EUA, através de grupos clandestinos situados na OTAN, chamados “Stay Behind”. Na Itália o nome do grupo era Gladio, supervisionado pela CIA. A morte de Moro foi exatamente impedir a ascensão e a vitória dos comunistas no poder.

No Brasil, a coisa anda de um jeito diferente: a Lava Jato não é capitalizada pelo partido de esquerda no governo, o PT, mas sim pela oposição, capitaneada pelo PSDB e que sofre com a falta de propostas, militância política e votos e identificação dos eleitores (principalmente os mais humildes) com suas plataformas privatizantes. Contudo, o objetivo da Lava Jato é o mesmo da morte de Aldo: enfraquecer o PT no poder e minar qualquer possibilidade de união entre as forças antagônicas nacionais, fortalecimento da soberania nacional e crescimento do nosso processo econômico.

As pegadas norte-americanas apareceram através de investigação de blogueiros, mostrando a relação entre empresas donas do Triplex em Parati com a Monsak Fonsesa, offshore que financia golpes e atentados terroristas no mundo todo, sob coordenação do governo norte-americano.

O resultado político da Mani Pulite e as lições da Lava Jato.

Não sabemos ainda as consequências da Lava Jato para o futuro do país, mas alguns indícios mostram que ela produziu efeitos catastróficos na economia: queda do PIB, redução dos contratos de grandes obras, desemprego nas áreas de engenharia pesada, entre outros. Na Operação Mãos Limpas, uma das principais consequências foi a pavimentação da carreira política de Di Pietro.

Em 1997, abandonou de vez a magistratura e assume a carreira política. Primeiro pelo centro, mas recebeu convites da direita (como do empresário e político Silvio Berlusconi). Três anos depois, DI Pietro funda o “Itália de Valores”, classificado como um partido autônomo, com orientação “nem de esquerda, nem de direita”.

Estranho, mas a Rede lembra-me muito esse (partido) Itália de Valores?

Não sabemos ainda se Moro irá galgar carreira política após a Lava Jato. O fato concreto é que além da privatização da estatal de petróleo, a Mani Pulite acabou rachando politicamente o país. Hoje, os italianos amargam PIBs negativos, como resultado da vinculação à política neoliberal norte-americana, em muito fruto desse racha e do enfraquecimento de suas estatais, por força da operação judicial.

A lição para a Lava Jato é a seguinte: sair do ciclo vicioso requer diálogo e consenso para superar a crise política e econômica. Com a prisão de Lula hoje, será que o Moro ajudou a “rachar” o país, como a morte do outro Moro, o ex-premier italiano?

A conferir…

Nota do Editor: pode parecer estranho para o leitor uma postagem sobre um assunto que versa sobre política nacional em um espaço dedicado a assuntos de geopolítica e defesa. Todavia, a política interna de qualquer país faz parte da abordagem geopolítica, como bem ilustra esta matéria sobre a Operação Mani Pulite. Tida como um exemplo, tal operação demonstra como é possível manipular o sistema judiciário de uma nação para enfraquecê-la. Isto é uma característica dos sistemas abertos, impossível de se ver nos totalitários, pois o regime representativo apresenta idiossincrasias plausíveis de serem percebidas por atores externos que delas se aproveitam para fazerem com que os atores internos de uma determinada nação ajam em função dos seus interesses, crentes que realizam “o melhor” para a nação, dentro das suas convicções. É por este motivo que os EUA promovem a “democracia” como crença ideológica, pois a característica deste tipo de regime permite injunções e manipulações, como as afamadas “revoluções coloridas”, com maior facilidade.

Nota do Editor 2: a matéria que se segue era antes um comentário postado no blog do jornalista Luis Nassif, ao vê-lo, de pronto indaguei se o autor autorizaria a publicação neste blog. Antes da resposta, pude observar que o jornalista Luís Nassif havia elevado o comentário para a posição destacada de post, prática alvissareira que deveria ser imitada pelo maior número de espaços.

Nota do Editor 3: Gládio é o nome da organização clandestina montada pelo próprio Estado Italiano, com anuência e apoio do Vaticano, sob patrocínio da OTAN, para atender o conceito de resistência nacional no caso de uma vitoriosa invasão soviética – conceito Stay Behind. Em termos práticos resultou em um grupo clandestino, de cunho ideológico fascista, que praticava atos espúrios de violência em favor dos estratos conservadores da sociedade italiana, bem como aos serviços de inteligência da península e dos EUA. Hoje, atribui-se o assassinato de Aldo Moro ao grupo Gládio, quando antes se atribuía aos sequestradores das Brigadas Vermelhas, pois sabe-se, agora, que o terrorista das Brigadas Vermelhas, Mario Moretti era agente do grupo Gládio infiltrado. Mario Moretti foi o elemento principal para convencer os seus pares a realizarem o sequestro de Aldo Moro, quando desejavam sequestrar Giulio Andreotti, bem como o assassino deste proeminente líder político da Democracia Cristã.

Severodvinsk: o cabeça da classe Yasen

Por: César A. Ferreira

O submarino nuclear Severodvinsk é o cabeça da nova classe de submarinos de ataque da Marinha da Federação Russa, que o comissionou na data de 30 de dezembro de 2013, do calendário gregoriano, sendo, por óbvio, o primeiro da classe Yasen, ou Projeto 885, que recebe da OTAN a denominação Graney.

Submarino cuja construção iniciou-se em 1993 nos estaleiros Sevmash, foi lançado ao mar no dia 15 de junho de 2010, e iniciou os seus testes de aceitação em 12 de setembro de 2011. Os seus ensaios duraram mais do que 100 dias de mar, no qual se verificou a ocorrência de mais do que 2000 defeitos a serem solucionados. Estes foram variados, envolvendo do desempenho acústico do submarino, aos sistemas de armas. Durante os esforços para solução, executou o submarino um período de ensaios de lançamento subaquático de mísseis de cruzeiro. O Severodvinsk realizou três campanhas de lançamento de mísseis, uma delas resultou em falha, as demais, em sucesso, sendo o alvo móvel naval destruído.

Em conjunto com torpedos pesados e minas, o K-329 Severodvinsk é capaz de portar até 24 mísses P-800 Oniks, também conhecidos como Yakhont (OTAN: SS-N-26), ou Kalibr, também conhecidos como 3M54 Klub (OTAN: SS-N-27). Ambos possuem um alcance da ordem de 300 km, sendo o Oniks consideravelmente mais pesado (3000 kg, contra 2300 kg do Klub), além de mais veloz, com uma velocidade de 2,7 Mach. O Kalibr possui uma velocidade de cruzeiro subsônica, sendo a fase terminal realizada em velocidade supersônica na sua versão 3M54-1. Além destas armas, fazem parte do seu arsenal possível, o afamado torpedo auto-cavitante VA-111 Shkval. Esta arma de 8,2 metros de comprimento e 533 mm de diâmetro, detém a velocidade recorde de 200kts para uma arma subaquática, e atinge alvos distantes até 13.000 metros, sendo a sua cabeça de guerra de 210 kg.

A belonave carrega uma tripulação de 90 especialistas, 58 marinheiros e 32 oficiais. O seu deslocamento, submerso, é da ordem de 13.800 toneladas, e capaz de submergir até a profundidade de 600 metros, as suas dimensões são as de 119 metros de comprimento, boca de 9,4 metros, vela de 4,1 metros (13,5 metros do diâmetro com a vela). Dispõe de eixo único e sua unidade propulsora é um reator de água pressurizada KPM, de 200 MW de potência. No tocante a sensores, além de radares para uso na superfície, exibe um sonar esférico de baixa frequência (MGK-500), grandes sonares de flanco de ultra baixa frequência, além de um sonar rebocado.

O segundo e terceiros submarinos desta classe, Yasen, denominados como Kazan e Novosibirsk, estão em construção, e o total planejado é de oito submarinos, todavia as unidades contratadas somam quatro. Concebido para ser um caçador/destruidor, tanto de submarinos como de belonaves de alto valor militar, apresentando taxas de discrição baixíssimas, possuem sensores extremamente sensíveis. A classe acaba por exibir, todavia, um custo tido como proibitivo, devido à alta exigência e sofisticação, por isso pretendem os executores russos a adoção de uma classe intermediária, mais simples, ainda que menos capaz.

Aleppo: ponto de inflexão da guerra Síria?

Por: César A. Ferreira

A atitude do ocidente, encimados pelos lamentos da Chanceler germânica Angela Merkel, é elucidativa, lamentos pela iminente derrota das forças insurgentes em Aleppo, disfarçada de preocupação para com os refugiados, preocupação, diga-se, inexistente nos anos anteriores. Em outras palavras, prova maior do alinhamento ocidental com os insurgentes não poderia haver… Independente disto segue a guerra, pessimamente coberta pela mídia do ocidente, brasileira inclusa, omissa quanto aos esforços sírios e russos, em prol da existência da Síria, como nação.

Ao que parece, mesmo em meio ao desespero que a perda de Aleppo possa significar, ou seja, a perda de uma cidade que é um nó logístico vital para o norte e centro da Síria,  baixou nas mentes ocidentais um discernimento mínimo. A proposta ventilada de invasão turca da Síria, parece ter sido substituída por uma invasão terrestre de tropas dos Emirados Árabes Unidos e do Reino da Arábia Saudita. Com isto, evita-se o problema quase incontornável de se ter um membro da OTAN adentrando a um campo de batalha onde vetores russos estão presentes e atuantes. Ademais, pode-se dizer com toda certeza, que os insurgentes são, antes de tudo, uma obra do CCG – Conselho de Cooperação do Golfo…

Não deixa de ser interessante, entretanto, que tanto a Arábia Saudita, quanto os Emirados, atolados no confronto contra o paupérrimo Iêmen, onde suas forças regulares demonstram péssima prontidão e desempenho, se prestem a enviar efetivos superiores a 150.000 combatentes para a Síria, para enfrentar um exército calejado, e suportado pelo atuante grupo aéreo russo. É algo para se pensar, afinal, o contingente árabe, caso enviado, certamente iria engrossar, sem que isso viesse a surpreender qualquer um dos atores da guerra síria, as forças insurgentes. Isto seria o álibi perfeito para que o Irã pudesse enfrentar os sauditas abertamente, ou seja, o envio de forças regulares do reino saudita se refletiria na concretização de uma resposta persa, na forma do envio dos Pasdarán (Guarda Revolucionária Iraniana). Em suma, um agravamento do conflito, que arrastaria os dois contendores regionais: Arábia Saudita e o Irã; é uma impressão minha, ou isto não seria o sonho dourado dos fabricantes de armas, do mercado de petróleo e afins?

00000
Combatentes curdos do YPG/YPJ dentro de Dayr Jamal. Imagem: internet.

Independente disto, o Exército Árabe da Síria não perde tempo, em conjunto com os seus aliados, a milícia libanesa Hezzbolah e as forças curdas do YPG/YPJ, dão combate sistemático aos insurgentes, sem trégua, nos limites das suas forças.  Ao norte de Aleppo o avanço curdo culminou na conquista da importante localidade de Dayr Jamal, importante entroncamento viário, cuja tomada forçou os insurgentes a se dirigirem do entorno de Kiffin, para Kafr Nayah. Kiffin já é um alvo das tropas do Exército Árabe da Síria, que persegue este destino provindo do sul. Dar combate em Kiffin não é para os insurgentes uma posição confortável, posto que estão desequilibrados pela sombra dos combatentes curdos em Dayr Jamal. Assentar-se em Kafr Nayah, como linha de resistência, tampouco, posto que o eixo subsequente do avanço das formações do YPG/YPJ aponta, justamente, em direção de Taall Rifat, localidade de grande importância e mais distante. Postar-se em Kafr Nayah seria uma posição de custosa defesa, visto que poderia sofrer um acosso por eixos diferentes: Khirbat al Hayat e Dayr Jamal.

Outra localidade capturada e de grande importância tática é Maraanaz, que juntamente com as também recentemente capturadas Al Alqamiyeh e Ajar, permitiriam uma mudança do eixo ofensivo, infletindo as forças provindas de Al Alqamiyeh/Ajar, aquelas de Maraana em um ponto convergente: a base aérea de Minaq (Menagh). É importante lembrar que o encontro das forças do EAS – Exército Árabe da Síria, com aquelas da milícia Hezzbolah, havido na captura das localidades de Niblo (também traduzida como Nubbol, Nubbal, ou Nübel) e Zahran (também nominada como Al-Zahraa, Zaharan, ou az-Zakhra), que se deu dias atrás, foi o ponto nevrálgico desta ofensiva, pois cortou a via de acesso logístico que ligava a Turquia à Aleppo. Neste presente momento, o EAS e o Hezzbolah, alargam o corredor compreendido entre Niblo e a cidade industrial de Sheik Najjar, enquanto avançam no eixo de Kafr Nayah.

O eixo do avanço em direção a Kiffin, desequilibra a posição insurgente em Kafr Nayah, abrindo caminho para Taall Rifat, que seria, então, um objetivo perseguido por duas frentes, a do exército, provindo do sul e do YPG/YPJ, que se lançaria a partir de Dayr Jamal. O objetivo final seria Azaz, nodo logístico importante para o abastecimento de todas as frentes insurgentes ao norte de Aleppo.

Na região próxima a Aleppo, propriamente, espera-se a formação de dois pequenos cercos, um deles formado a partir da conquista da base de Kuweires, com uma ponta Barlehiyah e a outra pinça provinda de Shamir, ambas convergindo em Suran. Esta ofensiva deverá ocorrer nas próximas horas…

Outra, cuja execução seria de extremar dificuldade, necessitaria da conquista de Ard Al Mallah, tendo o ponto de convergência em Kafr Hamra, com a outra pinça partindo da cidadela de Aleppo… Percebe-se, pois, a dificuldade da execução, pois a pinça que partisse de Ard Al-Mallah teria o seu flanco muito exposto, e a aqueles da cidadela de Aleppo teriam uma frente urbana marcada por edifícios destruídos, ou semi-destruídos, como obstáculo defensivo a ser vencido ante a arrancada. Em suma, o mapa lhe diz uma coisa, o terreno outra.

Entende-se o desespero ocidental…

Atenção: entre a redação desta matéria e a publicação deu-se a queda de Kiffin. A localidade foi capturada por ação empreendida pela 154ª Brigada do Exército Árabe da Síria, em conjunto com a 4ª Divisão Mecanizada, ambas as formações apoiadas por infantes da milícia Hezzbolah. A 4ª Divisão Mecanizada é uma formação histórica do EAS, com um histórico de combates que vai do Líbano ao Golan. Além disto, a ação que visa o cerco a partir de Barlehiyah, já se iniciou.

Avanços sírios impõem aos turcos opções desesperadas

Por: César A. Ferreira

O desenrolar das ações do Exército Árabe da Síria ao norte do país, com vigorosa assistência do grupo aéreo russo, retira, uma a uma as opções turcas no tocante à guerra por procuração que move na Síria, com os seu agentes turcomanos e coligados da al-Qaeda, leia-se al-Nusra, Exército Livre Sírio e Estado Islâmico. A queda das cidades de Nublo e Zahran, trazem grandes consequências para as forças insurgentes, afora o contexto simbólico desta vitória, posto que eram cidades perdidas há mais de três anos. As forças insurgentes, mais uma vez, sofreram revezes de monta, onde fez-se decisiva a presença dos ataques aéreos demandados pelo agrupamento russo e pela Força Aérea Árabe da Síria.

Estas cidades, agora firmemente em mãos governamentais, vedam mais um corredor para abastecimento logístico para Aleppo, onde a cada dia que passa se enfraquecem as posições insurgentes frente àquelas do governo reconhecido da Síria. O foco, agora, dá-se no entorno de Azaz, justamente por ser um entroncamento importante para o abastecimento de Aleppo. Comboios turcos são sistematicamente bombardeados nas estradas próximas e caso haja a queda da localidade, restará apenas os corredores de Reyhanli e Idlib. É desnecessário dizer que quanto menores forem as rotas logísticas, mais fácil será a tarefa do poder aéreo russo na região, que é a de estrangular o esforço logístico dos grupos insurgentes na fronteira norte da Síria.

A Turquia vê com o avanço das forças do Exército Árabe da Síria, e dos grupamentos curdos do YPG/YPJ, junto aos entroncamentos viários da fronteira sírio-turca como o golpe mortal na sua propalada “zona de segurança para refugiados”. Além do mais, vê-se obrigada a assistir que contendores com os quais jogava, caso dos EUA e da Rússia, venham agora a abastecer os combatentes curdos, nas franjas fronteiriças, sem que tenha voz ativa contra tal movimento.

No tocante aos EUA, estes cumprem com o seu plano, não divulgado, mas à vista de todos, de fragmentar a Síria, onde um estado curdo teria o seu lugar natural, enquanto os russos passaram a apoiar um aliado interessado em dar combate aos insurgentes que lhe são hostis, cuja sobreposição de interesses ganhou um impulso grande, quando da atitude turca de abater o bombardeiro Su-24M2. Grandes consequências de um gesto impensado, visto que desde tal abate não houve outra coisa que não fosse o acelerar do avanço governamental. O fato de armar, largamente, os combatentes do YPG/YPJ, vir a constituir na concretude de um estado nacional curdo, parece ser nos cálculos russos e sírios como algo aceitável, em vista do combate mortal com os insurgentes, onde a necessidade extrema de infantes torna-se imperiosa.

Para a Turquia, pouco resta…

Dado que agora, existe uma bateria do Sistema S-400, na base aérea de Hmeymim , além de dois elementos de caças Su-35S, equipados com mísseis R-73E, R-27ET, além do novíssimo RVV-SD, restam aos turcos a atitude do confronto aberto com a invasão do território sírio, posto que a guerra por procuração entra em colapso, bem como a sonhada “no fly zone”, algo que de concreto pode-se dizer que existe, mas com as cores russas…

O desespero turco acentua-se, justamente, com a corrida das forças curdas para o oeste. Caso haja o sucesso do YPG/YPJ em liberar Marea, restará à Turquia a ligação logística através de Bab al-Hawa e de Idlib, mas estas, como dito antes, submetidas à interdição aérea russa.  Que não haja enganos, o discurso está pronto: salvar a minoria étnica turca, os “turcomanos” da Síria, contra o “massacre” perpetrado pelos curdos, “facínoras”, coadjuvados pelos odientos russos. Compra quem quiser.

O cenário está montado, portanto, para um confronto de forças convencionais. Entende-se, pois, a retórica saudita, de “estarem prontos” para participar de uma eventual invasão terrestre da Síria, quando se encontram atolados no Iêmen, para dar cabo do “Estado islâmico”. Ora, ora, existem tolos tão tontos assim? A invasão, sabem até os mais parvos, servirá para pavimentar a fragmentação da Síria e garantir, dentre os novos estados a nascer desta quebra, os chamados “Sunistões”, a existência. A questão é: a Síria vale à pena? Vale a ponto de levar o mundo a assistir a um confronto direto entre a OTAN e a Rússia, o que equivale dizer a um confronto nuclear? As respostas estão com o tempo… Um professor rigoroso.

Iêmen: notícias breves de uma guerra esquecida

Por: César A. Ferreira

Enquanto as atenções do mundo se dirigem à Síria, não sem razão, segue uma guerra, igualmente importante, porém esquecida: a agressão da Arábia Saudita no Iêmen. Melhor seria dizer, escondida, não lembrada pela mídia. O motivo para tanto seria a humilhação, agora difícil de esconder daquela que é a grande aliada dos EUA na região, a Arábia Saudita, pois, a Casa de Saud, riquíssima, capaz de comprar o que de melhor pode ser produzido nos arsenais da OTAN, vê-se incapaz de vencer um povo pobre, cujos soldados, não raro, calçam sandálias…

O termo “humilhação” é correto, devido não só ao impasse imposto pelos iemenitas, mas pela constatação que estes se mostram capazes de ações defensivas, como também de realizações ofensivas, com incursões território adentro da Arábia Saudita. É o que se deu nesta quarta-feira, quando tropas do exército iemenita, acompanhada de milicianos houthis, tomaram em um golpe de mão uma base militar saudita, localizada na região de Asir, sudoeste do reino.  A ação resultou em mortes não especificadas do exército do reino, destruição de veículos militares, igualmente não especificados, bem como da destruição de dois arsenais na cidade Al Jurma. O interessante do relato iemenita desta ação é a referência ao uso de artilharia, isto surpreende quando se sabe que o domínio do espaço aéreo é total por parte dos sauditas.

O relato das ações iemenitas prossegue com a destruição da “torre de vigia de mísseis” Al-Dukhan, localizada na região de Jizan, e da consequente destruição da base Malhama, então submetida a fogo de artilharia. Capturado nos combates realizados na região de Jizan, o soldado saudita identificado como bin Metib Awad al-Maliki, informou que o comandante da empresa de mercenários Academi, ex Blackwater, foi morto em combate.

O uso do sistema balístico Tochka, de efeitos devastadores, deu-se contra a base aérea da coalizão saudita de Al-Anad, ação ocorrida em 31.01.2016, na provícia de Lahy, segundo o Coronel das forças iemenitas, Sharaf Luqman. Segundo este oficial, foi comprovada a destruição de helicópteros de ataque “Apache”, caças Typhoon, depósito de combustível e munição. A coalizão saudita, percebe-se, sofre reveses sem fim nesta guerra de atrito. Por exemplo, na região de Rabu’a, província de Asir, sudoeste da Arábia Saudita, quatro veículos militares foram emboscados e destruídos, dentre eles um Carro de Combate M-1 Abrams. Desta maneira, os iemenitas fazem com que os avanços coalizão sejam abortados e conseguem fôlego, além da moral necessária, para as incursões ofensivas.

Tochka-lançado
Lançamento de um míssil Tochka. Imagem: internet.

O uso do sistema Tochka é singular nesta guerra. Míssil balístico transportável, de grande mobilidade, apresenta-se como ideal para a Guarda Republicana assentar os seus golpes nas forças do reino saudita, que parecem muito apegadas a bases estáticas, favorecendo as ações iemenitas. O Tochka foi empregado por ao menos cinco ocasiões: 20.08.2015, contra concentração de tropas sauditas na fronteira; 04.09.2015, disparado contra concentração saudita em Marib; 14.12.2015, ataque contra a base saudita em Bab Al Mandab; 16.01.2016, disparo contra a base saudita em Al Bairaq; 31.01.2016, ataque contra a base aérea em Al-Anad, Lahy. O Tochka, cuja variante mais utilizada é a variante “U”, possui uma ogiva de HE de 482 kg, alcance na variante “U” de 120 km. O míssil ganhou o designativo de 9K79, e o sistema de lançamento, OTR-21.  O erro circular provável (cuja sigla em inglês é CEP), na variante “U” é inferior a 90m.