Negócios de família

Por: César A. Ferreira

A guerra e tudo que a envolve possui um caráter triste, desonroso, cruel e canalha. Não é raro, mas antes comum, a existência de oportunistas que procuram ganhos pessoais com eventos que custam a morte e sofrimento para os seus semelhantes. A guerra civil Síria, ora em curso não exceção e neste exato momento fortunas são construídas na Turquia a expensas dos sofrimentos sírios, na forma de um intenso contrabando de petróleo, mas que também envolve algodão, armas, fosfato e mesmo escravas. Este último item, que mais parece algo perdido no tempo, comércio decadente marcado pela história, foi revivido dado, ao costume do Estado Islâmico em presentear os combatentes que se destacam, com esposas. Não existe pudor quando o objetivo é o lucro.

Dentre as famílias que se destacam com este comércio, uma delas ganha importância inaudita, devido o peso político, trata-se do sobrenome Erdogan, e o membro destacado é Bilal Erdogan, terceiro filho do Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Tendo recebido uma educação esmerada, da qual se inclui a obtenção de grau de mestrado na prestigiosa Harvard University John F. Kennedy School of Government, no ano de 2004, Bilal Erdogan tornou-se um empresário de meteórico sucesso, onde a sua participação societária na empresa de fretamento marítimo, “BMZ Grupo Denizcilik ve Sanayi Insaat Anonim Şirketi”, se destaca. As acusações de obtenção de empréstimos fraudulentos em bancos públicos se avolumam, mas caem rapidamente no esquecimento, visto que a Turqia é  uma nação anestesiada com o seu sucesso recente e nem mesmo a participação de familiares negócios parece perturbar a paz social.

Uma das acusações que versa sobre Bilal Erdogan é a de viabilizar o comércio do petróleo contrabandeado pelo Estado Islâmico através da fronteira turca, embarcando-o nos tankers adquiridos pela BMZ, encomendados junto ao İstanbul’s Türkter Shipyard, navios com cerca de 140 metros de extensão e calado de 5 metros, com pouco mais de 6.000 toneladas brutas, atendendo ao limites “Volga-Don, Max”, ou seja, preparados para tráfego no canal Volga/báltico.  O porto de embarque para estes navios é o de Çeihan, ou Ceyhan, porto estatal, o que inclui o terminal para embarque de óleo.  Quando confrontado com as atividades do filho, a resposta emitida pelo presidente turco é a que as atividades empreendidas pelo filho são legais, não havendo comprovação alguma de fonte ilícita das mesmas. De fato, existe um componente que mascara o atribuído comércio de 40.000 barris brutos diários do Estado Islâmico, que o envio de petróleo curdo advindo do Iraque. Acontece que o governo iraquiano considera a venda do petróleo extraído das terras curdas do Iraque como um extravio, um contrabando, de uma riqueza nacional. Todavia, a região autônoma do curdistão iraquiano age como se nação independente fora, ainda mais quando se defende praticamente só contra o Estado Islâmico, por isso, bem como por outras razões, Erbil, em termos práticos, não reconhece a autoridade de Bagdá, sendo esta existente apenas nominalmente. Assim, para todos os efeitos, o petróleo comercializado é curdo, facção que conta com a benção da União Européia e dos EUA. Forma melhor para mascarar o petróleo roubado da Síria não há.

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O “Armada Pride” um dos navios “Volga-Don Max Class” da frota do grupo BMZ. Imagem: internet.

O interessante, neste embate atual, sobre quem compra o óleo roubado da Síria é que os navios do grupo BMZ podem ser rastreados, localizados nos portos de destino, algo que nestes tempos de tecnologia da informação se dá em tempo real, por isso temos, como exemplo o Tanker “Armada Breeze”, do grupo BMZ, na data de 01 de dezembro de 2015, próximo ao seu destino, o porto de Bilbao, Espanha, trafegando pela Baía de Biscaia. O mesmo pode-se obter de outros tankers da frota BMZ: “Poet Qabil”, próximo a Rotterdeam, Holanda, no dia 29 de novembro; “Begim Aslanova”, junto a Savona, Itália, no dia 03 de dezembro, “Mecid Aslanov”, próximo a Ravenna, Itália, no dia 04 de dezembro e “Sovket Alekperova”, trafegando no Mar do Norte em direção a Thames, Grã-Bretanha. Percebe-se, portanto, o quanto as rotas realizadas pela frota BMZ são elucidativas, afinal, os portos de destino destes tankers são pertencentes à nações sócias da OTAN, isto, sem falar nas paradas para Odessa (Ucrânia), que são frequentes.

Outros negócios

Nem só do petróleo vivem os saqueadores turcos das riquezas sírias, aproveitam-se para roubar o que for possível. Um exemplo disso é a retirada de todos os equipamentos industriais da cidade de Aleppo, por membros do Estado Islâmico, comercializados na Turquia. Outro comércio ilegal, ainda mais danoso, versa sobre as antiguidades históricas da Síria, cujos objetos são comercializados sem o mínimo pudor em Ancara e Istambul. Além do saque há outra forma de ganhar dinheiro com o sofrimento do povo sírio: a chantagem dos refugiados. Concentrados em imensos campos de tendas, os refugiados são uma arma de barganha política de Ancara por recursos internacionais, notadamente da Europa Unida, destino preferido dos infelizes. Dá-se que tudo que se faz necessário para tais pessoas é adquirido de fornecedores turcos, de água potável aos remédios. Outra mina de outro, altamente condenável é a prestação de serviços médicos aos insurgentes, que para isso cruzam a fronteira da Síria com a Turquia com notável facilidade. Vários hospitais prestam serviços médicos e são ressarcidos pelos serviços prestados. A assistência médica aos insurgentes é tão profícua que até mesmo um hospital atende especificamente os feridos do Estado Islâmico, hospital este localizado em Sanliurfa, mais conhecida como Urfa, cerca de 150 km a leste de Gaziantep e 1,300 km a sudeste de Istambul, onde trabalha, para espanto de alguns, a enfermeira Sümeyye Erdogan, primogênita do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Educada em Londres, a herdeira abraçou de tal intensidade os preceitos da jihad, que se propôs mudar-se para Mosul, conhecido centro de extração, benefício de petróleo e de comunicação do Estado Islâmico. Mosul é a cidade para a qual foi enviada, à revelia do governo iraquiano, uma brigada do Exército Turco, aparentemente para proteger os interesses do Estado Islâmico, pois outra resposta é difícil de encontrar para este movimento.

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Sümeyye Erdogan. Foto: internet.

Como se percebe, a Turquia funciona como cobertura para o Estado Islâmico e isto se dá não apenas ao nível governamental, de Estado, mas como sociedade, ávida por buscar lucro no sofrimento vizinho. Nada mais humano, ou mais comum. Ganhar dinheiro, dizem, é uma arte, e esta arte é melhor conduzida em situações de pouco controle e de fácil tráfego de influências. Ora, ora, que situação melhor do que a proporcionada por uma guerra. Existe situação melhor para lucrar? Bem… Bilal Erdogan conhece a resposta.

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2 comentários sobre “Negócios de família

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