Entre um tapa e o Cunha

Por: Guilherme Silva

Fim de mais um dia de ralação e ele foi cumprir o ritual diário de percorrer a estrada próxima de sua casa e liberar os neurônios, com um fumo adquirido, é claro, de forma criminosa. Fazia isso todos os dias, tomando sempre a direção oposta à do rush, para passar despercebido. Acendia o beck, ligava o rádio e deixava as músicas e as notícias da rádio Câmara arrancarem, aqui e ali, o dia. Percorria cerca de uns 12 quilômetros, entre ida e volta.

Entre uma tragada e outra, canta a música tocada no momento, ou comenta notícias de realidade fantástica, ou saídas do século 16. A dita Casa do Povo é presidida por um deputado acusado de ser o proprietário da bagatela de R$ 9 milhões depositados na Suíça e não declarados ao Governo. Pior, mentiu em depoimento na CPI da Petrobras, pois negou ser o dono da fortuna. A postura do deputado Eduardo Cunha compromete todo o Congresso Nacional, pois ele e todos os que o apoiam dizem que a falta de decoro parlamentar compensa.

Em uma Câmara dos Deputados minimamente séria, ele já estaria preso e processado. Apoiado pelas bancadas fundamentalistas rural, religiosa e a da bala, seu caráter cínico, perverso e cretino, coisa de que se orgulha, está expresso em leis que punem agentes públicos que ajudem a uma mulher exercer o livre, terrível e doloroso direito de abortar.

Em caso de estupro, agentes de saúde podem ser presos, processados e exonerados, caso realizem o ato sem antes a mulher passar pelo calvário da ocorrência policial e exame de corpo de delito. A palavra da mulher, da cidadã, não basta. Não é confiável.

Mais uma tragada e o pensamento lamenta pelos dias sombrios pelos quais o País passa. A Câmara dos Deputados é o mais fiel reflexo do quanto a sociedade brasileira está doente ou falta amadurecer para ser, de fato, minimamente civilizada. Basta um superficial retrospecto de 2015 para enxergar a Câmara mais medieval, oligárquica e tirana da história da República.

A PEC 215 e a lei do armamento são dois exemplos de legislação do inferno. Por falta de uma reforma agrária e devido à nossa oligarquia brejeira e truculenta e as exigências do mercado de commodities, reduz-se terras indígenas e, ainda, nos mesmos moldes do século 16. Mas, desta vez, sem espadas, apenas com pólvora.

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Pistola automática no momento do disparo. Foto: George Frey/Bloomberg.

Graças ao projeto de lei 3722/2012, todo cidadão de bem, a partir dos 21 anos, poderá adquirir até nove armas para utilizar as cinquenta munições a que tem direito de comprar por mês. Vasculhou, em vão, a memória em busca de algum amigo, conhecido ou parente de bem que tenha o hábito de dar 50 tiros em 30 dias.

Mas lembrou dos 22 deputados da bancada da bala, dos quais 11 financiados pela indústria bélica e de segurança, que derrubaram o Estatuto do Desarmamento. Segundo pesquisas do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ, desde que foi instituído, em 2003, ele evitou a perda de mais de 120 mil vidas.

A proposta de redução da maioridade penal, capitaneada pelas bancadas da bala e religiosa, mas apoiada pelas rural e industrial, é coisa de gente cruel. Os ditos deputados não ignoram as condições do sistema carcerário brasileiro. Sabem quem serão os mais de 40 mil jovens deste País a serem jogados anualmente nesse calabouço desumano, cujo índice de reincidência é de 75%. Os sobreviventes terão carteira assinada no crime, cada vez mais organizado, e currículo com todo tipo de especialização criminosa.

Esses projetos em nada têm a ver com a simpatia, a cordialidade, a alegria e mais algum sentimento mítico sobre a dita brasilidade, elucubrou. Em bairros onde os bens materiais encontram-se em franca vantagem de acesso, dentro de uma sociedade na qual se é o que se tem de material, todos concordam com a redução da maioridade. É o ódio da Casa Grande pela Senzala.

Trafegava na pista da esquerda para acessar o retorno que o poria na estrada de volta para casa. Notou aproximação acelerada de um carro grande. Ele estava devagar, não queria aumentar a velocidade e, por isso, passou para a pista da direita. Apoiou a mão esquerda na perna e assim aguardaria até o carro passar.

Quando os veículos foram emparelhados, a velocidade do da esquerda diminuiu abruptamente e assim se manteve por alguns metros, atiçando sua curiosidade. Não resistiu e, com o canto do olho e um leve girar de pescoço identificou, aterrorizado, o sinistro carro do BOPE, com quatro ou cinco agentes.

Gelou da cabeça aos pés, mas manteve um olhar tranquilo e fixo no carro da frente, enquanto o coração era contido pelos dentes. Nunca aquele retorno foi tão longe. Uma pesquisa Datafolha, deste ano, revelou que mais de 60% dos brasileiros têm medo da Polícia Militar. Pensou na sua condição social. Não é rico, mas também não é pobre. E é branco. Caso fosse flagrado, não passaria de uma reprimenda e multa.

Depois pensou na condição dos jovens pretos e pobres deste País que morrem sob o manto legitimador de um dispositivo legal chamado auto de resistência seguido de morte. De acordo com a ONG Human Rights, os números de mortes nessas condições, entre 2013 e 2014, nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, saltaram de 369 para 728 e de 416 para 585, respectivamente. Dessas mortes, 77% são de jovens pretos e pobres, entre 15 e 29 anos. E a Câmara, o nosso reflexo, apoia tudo isso.

Guilherme Silva é jornalista e professor.

Porque a Terceira Guerra Mundial está próxima

Por: Paul Craig Roberts

Tradução: Mberublue

O colapso da União Soviética em 1991 deu origem à perigosa ideologia (norte)americana chamada neoconservadorismo. A União Soviética servia como uma espécie de muro de contenção para as ações unilaterais dos Estados Unidos. Com a remoção dessa contenção contra Washington os neoconservadores declararam sua agenda para a hegemonia (norte)americana. A América do Norte seria agora a “única superpotência”, a “unipotência” que poderia agir sem restrições em qualquer lugar do mundo.

O jornalista neoconservador Charles Krauthammer, do The Washington Post resumia desta maneira a “nova realidade”:

 “Temos um poder global esmagador. Fomos designados historicamente como guardiões do sistema internacional. Quando a União Soviética caiu, algo novo nasceu, algo absolutamente novo – um mundo unipolar dominado por uma potência unitária não limitada por nenhum rival e com um alcance decisivo em qualquer parte do planeta. Trata-se de um desenvolvimento histórico impressionante, não visto desde a queda de Roma. Mesmo Roma não é modelo para o que são hoje os Estados Unidos”.

O impressionante poder unipolar que a história deu a Washington deveria ser protegido q qualquer custo. Em 1992 o funcionário do Pentágono, subsecretário Paul Wolfowitz, escreveu a Doutrina Wolfowitz, que viria a se tornar a base da política externa de Washington.

A Doutrina Wolfowitz estabelece que o “primeiro objetivo” da política externa dos Estados Unidos é “precaver-se contra o ressurgimento (ou surgimento) de um novo rival, seja no território da antiga União Soviética ou em qualquer outra região do globo, que possa representar uma ameaça [para as ações unilaterais dos EUA] na forma antes representada pela União Soviética. Esta consideração deve ser dominante na nova estratégia de defesa regional e requer esforço no sentido de evitar a emergência de qualquer potência hostil que venha a dominar uma região com recursos aptos para, sob controle consolidado, revelarem-se suficientes para a geração de um poder global” (“Potência Hostil” é qualquer país forte o suficiente para ter uma política externa independente dos ditames de Washington).

A afirmativa do poder unilateral (norte)americano começou a ser levada a sério durante o regime Clinton com as intervenções da Iugoslávia, Sérvia, no Kosovo e na imposição e uma zona de exclusão aérea contra o Iraque. Em 1997 os neoconservadores escreveram seu “Projeto para um Novo Século (norte)Americano”. Em 1998, três anos antes dos acontecimentos de 9/11, os neoconservadores enviaram uma carta ao Presidente Clinton exigindo uma mudança de regime no Iraque e “a remoção de Saddam Hussein do poder”. Lançaram ainda seu programa para remover sete governantes em cinco anos.http://www.globalresearch.ca/we-re-going-to-take-out-7-countries-in-5-years-iraq-syria-lebanon-libya-somalia-sudan-iran/5166

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Fotogramas sequenciais do ataque as torres do WTC. NY, 11 de setembro de 2001. Imagem: internet.

Acordou-se que os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 seriam apresentados para o público como se fossem “um novo Pearl Harbour”, o que os neoconservadores achavam necessário para que pudessem lançar suas guerras de conquista no Oriente Médio. O primeiro Secretário de Tesouro do Presidente George W. Bush, Paul O’Neil, declarou publicamente que o primeiro assunto na agenda do primeiro encontro em seu gabinete foi a invasão do Iraque. Esta invasão foi planejada antes de 9/11. Desde 9/11 Washington já destruiu no todo ou em parte oito países e agora está em confronto com a Rússia tanto na Síria quanto na Ucrânia.

A Rússia não pode permitir que um califado jihadista seja estabelecido na área que compreende a Síria e o Iraque, porque isso se tornaria uma base para a exportação de desestabilização para as porções muçulmanas da Federação Russa. O próprio Henry Kissinger declarou este fato, o qual é claro o suficiente para quem quer que tenha um cérebro. No entanto os fanáticos neoconservadores insanos no poder que controlaram Clinton e Bush e controlam agora o regime de Obama, estão tão imbuídos em sua própria soberba e arrogância que se prepararam para provocar a Rússia a ponto de ter o seu fantoche turco derrubado um avião russo e manobraram para expulsar do poder o presidente democraticamente eleito na Ucrânia, que tinha boas relações com a Rússia, substituindo-o por um títere do governo (norte)americano.

Com este pano de fundo podemos entender quão perigosa é a situação pela qual passa o mundo por causa da arrogante política neoconservadora para a hegemonia mundial dos Estados Unidos. As falhas de julgamento e os perigos nos conflitos da Síria e da Ucrânia são em si mesmos consequências da ideologia neoconservadora.

Para perpetuar a hegemonia (norte)americana os neoconservadores ignoraram as garantias dadas por Washington a Gorbachev de que a OTAN não se moveria sequer uma polegada para o Leste. Os neoconservadores tiraram os Estados Unidos do Tratado ABM, que especificava que nem os Estados Unidos nem a Rússia deveriam desenvolver ou instalar mísseis antibalísticos. Os neoconservadores reescreveram a doutrina de guerra dos Estados Unidos e elevaram o papel das armas nucleares de uma força retaliatória para uma força de primeiro ataque preventivo. Os neoconservadores começaram a instalar bases ABM nas fronteiras russas, afirmando que estas bases tinham o objetivo de proteger a Europa de uma inexistente ameaça nuclear de ICBMs iranianos.

A Rússia e seu presidente Vladimir Putin estão sendo demonizados pelos neoconservadores e seus fantoches no governo (norte)americano e na mídia. Por exemplo: Hillary Clinton, candidata a candidata à presidência pelo Partido Democrata chamou Putin de “o novo Hitler”. Um antigo agente da CIA clama pelo assassinato de Putin. Os candidatos presidenciais de ambos os partidos estão competindo para verificar quem consegue ser mais agressivo contra a Rússia e quem consegue insultar o presidente da Rússia mais fortemente.

O efeito foi a destruição da verdade entre as potências nucleares. O governo russo aprendeu que Washington não respeita nem as próprias leis, muito menos as leis internacionais e que não se pode confiar em Washington quanto ao cumprimento de qualquer acordo. Esse descompromisso com a verdade, juntamente com a agressão contínua vomitada por Washington e sua mídia prostituta, estupidamente repetida pelos idiotas nas capitais europeias, prepararam o terreno para uma guerra nuclear. Como não há possibilidade de a OTAN (na realidade os EUA) derrotar a Rússia em uma guerra convencional, e muito menos uma aliança entre China e Rússia resta apenas a opção de uma guerra nuclear. A guerra será nuclear.

Para evitar a Guerra, Putin é não provocativo e moderado em suas respostas às provocações ocidentais. O comportamento responsável de Putin, no entanto, é erroneamente interpretado pelos neoconservadores como um sinal de fraqueza ou medo. Assim, eles pressionam o presidente Obama para que ele coloque cada vez mais pressão sobre a Rússia, que a Rússia cederá. No entanto, Putin tornou muito claro que a Rússia não fará isso. Esta mensagem foi enviada por Putin em várias ocasiões. Por exemplo, em 28 de setembro de 2015, por ocasião do 70º aniversário da fundação das Nações Unidas, Putin disse que a Rússia não poderia mais tolerar o estado de coisas no mundo. Dois dias depois, ordenou a guerra contra o Estado Islâmico na Síria.

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“Tzar Bomb”. O maior artefato nuclear já detonado. 57 megatons. Foto: internet.

Os governantes europeus, especialmente da Alemanha e do Reino Unido, são cúmplices nesta movimentação em direção à guerra nuclear. Aqueles dois estados vassalos facilitam a imprudente agressividade de Washington contra a Rússia ao repetir a propaganda enganosa de Washington e apoiando as sanções impostas pelos Estados Unidos contra outros países. Enquanto a Europa continuar sendo nada mais que lima extensão de Washington, a perspectiva do Armagedom continuará a crescer.

Por estas Alturas, uma Guerra nuclear somente poderá ser evitada de duas maneiras. Uma delas é que a Rússia e a China rendam-se incondicionalmente e aceitem a hegemonia de Washington. A outra é que de repente um líder independente da Alemanha, do Reino Unido ou da França esteja à altura de seu gabinete e se retire da OTAN. Isto poderia dar início a uma debandada de países a deixar a OTAN, que é a principal ferramenta de Washington para causar conflitos contra a Rússia e, consequentemente a força mais perigosa no mundo para qualquer país europeu e para o mundo inteiro. Se a OTAN continuar a existir, esta organização, juntamente com a ideologia neoconservadora da hegemonia (norte)americana tornarão a guerra nuclear inevitável.

Paul Craig Roberts – (nascido em 03 de abril de 1939) é um economista norte-americano, colunista do Creators Syndicate. Serviu como secretário-assistente do Tesouro na administração Reagan e foi destacado como um co-fundador da Reaganomics. Ex-editor e colunista do Wall Street Journal, Business Week e Scripps Howard News Service. Testemunhou perante comissões do Congresso em 30 ocasiões em questões de política econômica. Durante o século XXI, Roberts tem frequentemente publicado em Counterpunch e no Information Clearing House, escrevendo extensamente sobre os efeitos das administrações Bush (e mais tarde Obama) relacionadas com a guerra contra o terror, que ele diz ter destruído a proteção das liberdades civis dos americanos da Constituição dos EUA, tais como habeas corpus e o devido processo legal. Tem tomado posições diferentes de ex-aliados republicanos, opondo-se à guerra contra as drogas e a guerra contra o terror, e criticando as políticas e ações de Israel contra os palestinos. Roberts é um graduado do Instituto de Tecnologia da Geórgia e tem Ph.D. da Universidade de Virginia, com pós-graduação na Universidade da Califórnia, Berkeley e na Faculdade de Merton, Oxford University.

Fonte em Português: Mberublue – Pensar sem enlouquecer.

O desenho do apocalipse

Este artigo foi redigido por mim especialmente para o site Plano Brasil, no ano de 2013. É interessante compará-lo com o artigo recente do Dr. Paul Craig Roberts, que trata do mesmo assunto e com perspectiva equivalente.

O desenho do apocalipse

Por César A. Ferreira

Uma boa parte dos cidadãos norte-americanos acredita no apocalipse, assim creem, piamente, pois está escrito na bíblia cristã, e como sabemos, para estes os dinossauros andaram sobre a terra… Ao lado dos Neandertais. Uns poucos, no entanto, acreditam no fim da humanidade, na forma que conhecemos pelo menos, devido ao colapso do petróleo, que levaria ao caos uma sociedade edificada em torno desse recurso mineral. Acontece, que antes do fim do ciclo do petróleo, devido a forma da nossa arquitetura financeira, haveria, segundo a crença de poucos cidadãos norte-americanos, forçosamente um conflito global, visto que a sinergia petróleo-dólar seria abalada, muito antes.

Para entender o motivo deste temor é preciso recuar no tempo, no caso para 1944, quando ao final da Segunda Grande Guerra, os EUA, única potência intocada pela destruição, promove do alto da sua superioridade econômica e industrial, sem par na história humana, aquilo que seria o primeiro acordo negociado da humanidade, mas que de regra não deixava de ser uma imposição ditada pelos fatos, de que seria a moeda nacional dos EUA o meio corrente para transações internacionais, sendo a garantia do valor o lastro em ouro mantido pelos EUA. A relação seria de 35 dólares por onça, sendo tácita a percepção de que os EUA deveriam se abster de uma farra financeira.

Pois o que não deveria foi justamente o que se deu. A guerra do Vietnam exigiu empenhos de tal monta, que ficou óbvio até ao mais parvo dos seres, que os americanos haviam girado a máquina de impressão sem cerimônia alguma. Ao solicitar o repatrio das suas reservas em ouro, mantidas em solo dos EUA, receberam as nações que assim o fizeram um sonoro não. E como todo bom escroque, Richard Nixon anuncia que os EUA desvinculavam a sua moeda do padrão-ouro. Ou seja, da noite para o dia, uma banana para o mundo e um calote geral… No entanto, não ficou só nisso… Os norte-americanos convenceram aos príncipes sauditas a investirem em papéis do tesouro norte-americano. Com isso nasceu a veiculação do papel nacional norte-americano com o óleo de consumo geral da humanidade.

Os EUA obtiveram, assim, uma genial engenharia financeira. Poderiam os americanos colocar para rodar a máquina como quisessem, nunca faltaria recurso, posto que o petróleo, ainda que finito, é vastíssimo. O único perigo para a arquitetura seria o abandono do dólar como moeda de transações correntes, mas, quem o faria? Afinal, os EUA eram o paraíso na terra, Yeap!

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Teste nuclear Licorne. Esta imagem corre o mundo incorretamente como sendo da Tzar Bomb, Imagem: internet.

O mundo rodava e tudo parecia caminhar como um sonho para os norte-americanos, o fim da URSS parecia confirmar o autodesígnio da alma yankee, de que são eles o povo escolhido, os eleitos da nova era, os excepcionais, a perfeição da história e o fim da mesma… Contudo a história, sempre ela, costuma ser cruel para quem se deixa iludir e vaticinar de que ela tenha mesmo um fim. Na medida em que a sociedade americana se enriquecia com sua máquina mágica, a impressora offset, o interesse produtivo parecia ser atrativo, apenas, fora das suas fronteiras e os asiáticos, primeiro os japoneses, depois os sinos, demonstraram que haviam feito a leitura correta daquilo que o mundo sussurrava. Com a abertura de novos polos produtivos, a demanda por commodities aumenta o que acaba por dar alento para as economias dependentes, envoltas por razões estruturais em crises cíclicas, e os reflexos dessa demanda acabam por beneficiar nações de grandes extensões territoriais, que além de detentoras de recursos naturais, possuíam em adjunto, estruturas industriais.

Desenhava-se desta maneira a ressurreição da Rússia, herdeira da URSS, bem como a ascensão da Índia, e do novo status econômico de relativa estabilidade do Brasil. A estratégia chinesa de ser o polo produtivo do consumo norte-americano, como dreno constante de moeda nacional americana para suas fronteiras, por extensão, acabou por beneficiar as demais nações produtoras de matérias primas, que passam a acumular reservas quanto antes às perdiam, em profusão. Consequentemente, algumas delas, como já dito, por possuírem base industrial e de pesquisa, carrearam as suas reservas acumuladas para o desenvolvimento de tecnologia e inovação.

O crescimento de nações em termos de riqueza, por conseguinte, em poder, acaba por refletir na mente norte-americana como um desafio proposto, e neste contexto, é a Rússia o exemplo que não foge às retinas. Detentora de uma base científica de grande valor, ao ressurgir das cinzas ao qual Yeltsin e os saqueadores haviam-na submetido, justamente através de uma ferramenta constitucional que permitia ao chefe do executivo um poder inaudito, como se um Tzar fosse (obra do “democrático” Yeltsin), papel este exercido por Putin, a Rússia ergue-se após a desilusão com o ocidente não de costas para este, e sim de frente. Detentora dos recursos energéticos para manter viva uma esbanjadora Europa Unida, a Rússia de maneira silenciosa, porem determinada, colhe os recursos e moderniza-se, passo a passo, sem ter sobre os ombros o peso de estar presente de forma desafiadora por todo o globo. Não precisa, ela corresponde por quase sexta parte das terras continentais, da Europa à Ásia, portanto, no que tange à corrida de recursos, esta não lhe diz respeito… A postura altiva, no entanto, enfurece a alma yakee, pois não corresponde aquela que se espera de um derrotado, mas sim, de um vencedor.

Por outro lado, a China, criatura que desenvolveu uma notória simbiose econômica com os EUA, não possui assegurada o petróleo que necessita. Não tem os xeiques do petróleo na mão, tampouco a moeda nacional que segue como padrão para transações correntes, ainda que acumule aos montes, a mesma. Por isso perseguem os sinos, de todas as maneiras, assegurar-se da continuidade do fornecimento de óleo, a ponto de oferecer as nações embargadas todos os subterfúgios possíveis, incluindo créditos em sua moeda nacional, e desta maneira agem de forma consciente por enfraquecer o âmago do sistema de manutenção do poder americano: a veiculação petróleo-dólar.

O Iraque havia feito isto antes. Saddam Hussein instituiu que aceitaria apenas a moeda europeia, o Euro, como moeda para saldo de transações. Péssima ideia, pelo menos para quem não tinha sequer Sarin em seus estoques, quanto mais uma arma termonuclear. A China, por sua vez não padece deste mal, pois detém um arsenal nuclear, e mais importante, uma relação sinérgica com a economia dos EUA, da qual se configura como a maior detentora de títulos do tesouro… Os chineses, sempre que encontram uma nação que possa prescindir do dólar propõem que se saldem as trocas comerciais por compensações entre os respectivos bancos centrais, sem o envolvimento de uma moeda de referência, ou com o uso de moeda chinesa, o Renminbi. Por óbvio que os EUA não aceitam essas movimentações como algo inócuo, por ser de fato um ataque celerado ao âmago do seu poder, bem mais perigoso do que os naufrágios de porta-aviões, típicos dos romances de Tom Clancy, poderiam representar. É por isto que vemos, todos os dias, as pressões sobre o Irã. O Irã é pressionado e sofre embargos não por executar um projeto soberano de domínio pleno do ciclo produtivo da energia nuclear, mas por ser um fornecedor independente de petróleo, que aceita transações em uma cesta de moedas, dentre as quais, os reais brasileiros.

Percebe-se, portanto, como se forma o apocalipse. Pode uma nação acostumada ao bem estar de imprimir os seus desejos, e materializá-los apenas em armas, pois não sabe mais fazer outra coisa, deixar o poder mundial escorrer por entre os dedos? Ficará inerte? A lógica avisa que não e o passo natural, dado a conveniência do sistema petróleo-dólar, será o de aumentar a pressão e cortar de vez, eliminar por assim dizer, os fornecedores independentes de petróleo no mundo. É óbvio que a China, caso isso venha se concretizar, terá que se mover… Ainda que se diga, que o Irã não é o único fornecedor independente de petróleo, de que a Venezuela possui reservas ainda não exploradas no Orenoco (petróleo extra-pesado) que superam aquelas dos sauditas, por mais que se tente banhar-se no bom senso, fato é que não se pode contar com a razão quando a loucura, a alucinação, brada na mente de uns poucos que não enxergam outra coisa que o próprio poder, como se ele por si fosse tudo, e a soma de todos os valores; acontece que estes senhores são apenas 1% da população norte-americana, mas, são os alienados e os donos da chave do manicômio. Não há saída…

Ou ela existe, e não a vemos… Profecias, ao contrário da crença popular não precisam se materializar, podem não se cumprir…  Nostradamus, que o diga.

Iêmen: a nação que se recusa morrer

Por: César A. Ferreira

Mais do que um espinho, daqueles que encravam na garganta, ou um osso duro de roer, o Iêmen, para a Arábia Saudita e os seus aliados, tonou-se uma faca, cuja ponta os príncipes sauditas não se cansam de esmurrar. Para o mundo, ao que parece, o que acontece no Iêmen não importa, dado que o conflito, oficialmente apresentado como uma guerra civil entre partidários do ex-presidente Ali Abdullah Saleh, contra os partidários do deposto Abdo Rabu Mansur Hadi, ser antes de tudo, uma ilusão. Não existe uma guerra civil, o que existe, sabe-se, é uma agressão armada, providenciada pela vizinha Arábia Saudita, na forma de uma guerra por procuração, com os conhecidíssimos extremistas da Al-Qaeda, e agora, com os bombardeios diários da Força Aérea Saudita, bloqueio naval da “Coalizão Árabe”, além das  tropas sudanesas e sauditas. O Iêmen foi invadido e está em guerra contra os seus vizinhos.

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Moradias destruídas. Foto: CICV – Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

É triste ver, no entanto, o quanto o Iêmem, nação empobrecida, vem a sofrer com a agressão do seu riquíssimo vizinho: a Arábia Saudita. Hospitais são destruídos, bem como mercados e a parca infraestrutura do país, tal como as estações de tratamento de água.  A situação humanitária tornou-se caótica, como bem se vê na declaração cedida à Reuters, pela porta-voz da Cruz Vermelha, Maria Claire Feghali: “Já era bastante difícil antes, mas agora me faltam palavras para dizer o quão ruim ficou. É uma catástrofe, uma catástrofe humanitária”. Todavia, vê-se mais do mesmo. Hospitais arrasados, moradias bombardeadas. Não se pode dizer que foram eventos isolados, acidentes, pois quem conhece o caráter da região sabe que as ações foram intencionais.

Entretanto, o noroeste do Iêmen, reduto da etnia Houthi, encorpada pelo que sobrou do exército nacional iemenita, resiste bravamente, impondo aos sauditas reveses de importância, através da guerra de guerrilha. De maneira assombrosa pululam no Youtube vídeos de veículos blindados sauditas capturados, ou destruídos, sendo particularmente chocante a imagem de uma coluna saudita composta por carros de combate M-60 A3, totalmente destroçada. Não foram os únicos…

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Míssil balístico tático Tochka, no momento do seu lançamento por forças iemenitas. Foto: Asia Defense News.

Nestes últimos meses as perdas sauditas avolumaram-se. No dia 20 de dezembro (2015), elementos do Exército Nacional Iemenita, junto com reforços das Forças Populares, dispararam mísseis Qaher-1, contra tropas sauditas dispostas em Ma’arib, ocasionando a morte de mais de uma dezena de militares do reino. Em termos materiais, perderam-se alguns helicópteros de ataque AH-64 (perda admitida, mas não quantificada) e aeronaves, drones, de reconhecimento. No dia anterior, 19 de dezembro, as forças sauditas já haviam levado um golpe devastador, quando um míssil balístico Tochka-U foi disparado contra um acampamento militar, vitimando 180 militares sauditas e dos Emirados Árabes Unidos, havendo entre eles oficiais.

O interessante deste conflito, além da inadvertida resiliência iemenita, é a capacidade de produzir fatos inusitados, como a morte de um príncipe real da Casa de Saud, Mohammad bin Amir bin Jalawi Mosaed, morto, segundo a Reuters, quando chefiava um ataque contra formações “rebeldes”. Isto aconteceu 24 horas após as forças houthis terem imposto a morte de vários mercenários sauditas na região, o que demonstra inabilidade, ou falta de importância com oficiais que tenham sangue real.  Aliás, mercenários é que não faltam na região, providos pela inefável fornecedora de soldados da fortuna, Academi (ex – Blackwater). Oriundos de todas as partes do globo, boa parte deles da América Latina, notadamente da Colômbia. Como sempre, o costume saudita de lutar por procuração se faz presente, visto que o sangue mercenário derramado não causa problema algum em termos domésticos. Assim, as mortes de mercenários se acumulam, dado que sempre se pode vir a contratar outros. Desta forma temos a morte de 42 mercenários quando do ataque iemenita contra a base militar saudita de Bab-el-Mandeb, na província de Taiz, oeste do Iêmen,  aos quais se somaram 23 militares sauditas, nove dos EAU e sete marroquinos, conforme declarado por fontes e noticiado pelo site al-Masirah. A arma utilizada fora, novamente, o míssil balístico tático Tochka-U.

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MRAP destroçado por IED no Iêmen. Veículo pertencente as forças dos EAU. Três soldados morreram nesta emboscada. Foto: Asia Defense News.

A humilhação maior está para acontecer; o cerco de uma importante formação militar saudita por infantes iemenitas. Segundo informe da Agência Fars News, centenas de militares sauditas e dos EAU estariam cercados por tropas iemenitas na província de al-Jawl, mais precisamente na cidade de al-Jabal al-Aswad, sendo que dentre estes, em confrontos anteriores, haviam sido capturados 130 infantes sauditas, 39 infantes dos EAU e nove oficiais, todos eles na mesma área geográfica: província de Jawl. Isto se deu mesmo com os esforços da Força Aérea Saudita, que opera com relativa impunidade e tenta pressionar as tropas iemenitas com várias missões diárias na área, todavia, mesmo com perdas crescentes devido aos ataques aéreos, os iemenitas mantém o cerco.

E a guerra prossegue, inabalável, em seu curso. Apesar de ser impossível prever por agora o seu desfecho, percebe-se alguns paralelos com o conflito congelado do leste ucraniano, onde tropas governamentais, com todo o seu poderio, primeiro foram detidas, após um recuo tático, e depois destroçadas e forçadas a recuar. É bem verdade que o Iêmen se encontra em uma situação geográfica menos favorecida, dado que o leste ucraniano possui uma fronteira extensa com a Rússia, apoiadora dos separatistas, enquanto o Iêmen se encontra isolado por mar do seu aliado, o Irã. O conflito produziu até aqui 7.000 mortos, 14.000 feridos, outros tantos desabrigados. Este é o custo da vaidade saudita que não admite ao seu vizinho a escolha de um governante de sua preferência. Entretanto, o sonho de potência regional da Casa de Saud naufraga defronte à incompetência militar do exército saudita, bem como dos seus aliados. Enquanto isso, o Iêmen se agiganta perante as demais nações regionais, levado pelo braço forte dos seus habitantes, que combatem com Ak’s e RPG’s, calçados com sandálias… É uma história repetida e bem conhecida.

Jeish al-Islam perde o seu comandante

por: César A. Ferreira

Os ataques aéreos empreendidos pela Federação Russa em apoio a República Árabe da Síria obteve, de maneira espetacular, a eliminação de lideranças importantes dentre os grupos extremistas sírios, notadamente, do grupo Jeish al-Islam, noticia a agência Fars News.

Os ataques se deram no bairro distante de Ghouta Leste, ou Ghouta Oriental, gueto cercado e isolado pelas forças governamentais na área da Grande Damasco. O ataque foi realizado nesta sexta-feira, 25 de dezembro de 2015, após o centro de comando do  Jeish al-Islam (Exército do Islã) ter sido identificado pela inteligência russa e síria. Este centro foi cuidadosamente plotado e o ataque desferido, justamente, quando da ocorrência de uma conferência neste centro de comando extremista. Em função do ataque morreram dez militantes extremistas, dentre eles o comandante adjunto do referido grupo terrorista, além de outros membros da coalizão do terror. Os membros mortos faziam parte de um “alto comando militar”. O ataque vitimou líderes notórios, caso de  Zahran Allouch, vice-comandante e porta-voz do Jeish al-Islam e de Hamza Bayrakdar, e também porta-voz do Jeish al-Islam.

Membros restantes da Shura de Ahrar Sham, uma espécie de “Conselho Consultivo”, emitiram condolências pela morte de Zahran Allouch, cuja morte deve influenciar negativamente as ações da Jeish aL-Islam, dado que Zahran mostrava-se como um dos mais ferozes inimigos do regime no sul da Síria. A falta da sua liderança qualificada deve-se refletir em termos militares. Fato é que o grupo Jeish al-Islam é o maior dentre aqueles presentes em Ghouta Leste, ademais, é um grupo agregador, absorvendo células de grupos minúsculos, além de ser parte de uma coalizão financiada pela chamada Frente Islâmica. Acredita-se, que o Jeish aL-Islan deva perder muito com a falta de carisma dos sucessores dos líderes eliminados nesta data de 25 de dezembro.

Os ataques foram rápidos e precisos, e as armas utilizadas foram foguetes não guiados, 10 ao todo, contra o Centro de Comando do grupo terrorista Al-Marj em Ghouta Leste. Até o fechamento desta nota não se tinha divulgado o tipo de vetor, se Su-25, Su-24 ou Su-34.

Os ganhos da guerra: traficantes búlgaros inflamam os conflitos do Oriente Médio

Mariya Petkova é um jornalista búlgara cuja cobertura abrange as área da Europa de Leste, nos Bálcãs e do Médio Oriente. Este artigo foi produzido como parte do Fellowship Balkan para excelência jornalística, apoiada pela Fundação ERSTE e Open Society Foundations, em cooperação com a Rede Reportagem Investigativa Balkan – BIRN.

O texto a seguir, apesar de longo, se faz necessário por ser elucidativo sobre o tráfico de armas efetuados por nações que apoiam o bainho de sangue na terra síria. Trata-se de uma reportagem feita pela jornalista Mariya Petkova, que percorreu cidades como Sofia, Anevo, Istambul, Gaziantep e Antióquia. 

Os ganhos da guerra: traficantes búlgaros inflamam os conflitos do Oriente Médio

Por: Mariya Petkova

Tradução: J. Junker

Adaptação: C. A. Ferreira

Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e os EUA compram milhões de dólares em armamentos búlgaros, com a Guerra Civil Síria como destina provável, revela uma investigação BIRN.

Em outubro do ano passado, spotters de aeronaves notaram,  com alguma emoção, que aviões Boeing 747  jumbo com as marcas da Saudi Arabian Cargo tinham taxiado junto ao gate de carga e descarga do aeroporto da capital búlgara, Sofia.

“Um avião de carga Saudita nunca tinha vindo aqui… Nos últimos 20 anos!”, explicou Stephan Gagov, um veterano spotter de aeronaves búlgaro. Os vôos tornaram-se tão frequentes que Gagov começou uma discussão em um Fórum on-line de spotters de aeronaves sobre elas, usando a frase “a rota regular” no título. Spotters relataram terem  visto aviões aterrarem duas vezes no final de outubro, uma vez em novembro, quatro vezes em dezembro e uma vez cada, em março e maio deste ano.

A aeronave gigante chegou do aeroporto de Jidá, embarcou a sua carga e em seguida voou para a cidade saudita de Tabuk, cerca de 100 km da fronteira com Jordânia, relatou os observadores, que utilizam ferramentas voo com acompanhamento online. Gagov estimou que a carga embarcada nas aeronaves corresponda a cerca de 60 a 80 toneladas por vez, na forma de caixas. Ele não podia ver o que estava dentro das grades, mas pode estimar o quanto estavam pesados.

Após os voos da Saudi Arabian Cargo terem parado, os aviões de carga de Abu Dhabi começaram a chegar. Airbus A330F e Boeing 777F com as cores da Etihad Cargo chegaram em Sofia cinco vezes entre o final de Junho e meados de agosto deste ano. Recentemente, em 19 de Outubro, uma aeronave de carga Airbus 330F da Etihad voou de Abu Dhabi para a cidade búlgara de Burgas e, em seguida, a Al Dhafra Air Base, uma instalação militar ao sul da capital dos Emirados.

A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e as autoridades búlgaras não revelaram  o conteúdo dessas remessas. Mas, a reportagem Investigativa da Rede Balkan, BIRN, pode revelar que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos têm comprado grandes quantidades de armas e munições a partir de Bulgária nos últimos dois anos, certamente para utilização pelas forças locais que apoiam na Guerra Civil Síria, e possivelmente para o conflito no Iêmen.

O relatório anual da Bulgária sobre as suas exportações, provenientes da sua base industrial de defesa, foi publicado em agosto deste ano, não recebeu, todavia, nenhuma cobertura da mídia. Afirma  o documento que o governo aprovou o valor superior a cifra de € 85.000.000, em munições e equipamentos militares para a Arábia Saudita no amo de 2014, com negócios no valor de quase 29.000.000 € concluída até o final deste ano (2015). O governo búlgaro também confirmou à BIRN, que emitira guias de exportação para a venda de armas, em favor dos Emirados Árabes Unidos.

Bulgária produz e estoca, principalmente, armas de design soviético. Analistas afirmam que é altamente improvável que tanto a Arábia Saudita, ou os Emirados Árabes Unidos venham a comprar estes meios para as suas próprias forças, que usam armas ocidentais padrão OTAN, e por isso é muito mais plausível que eles comprem a munição para as facções locais, deles aliados, envolvidas em conflitos na Síria e no Iêmen, onde armas de desenho soviético são preferidas e amplamente utilizadas.

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Legenda: Aeronave de carga Boeing 777F, com as cores da Etihad, descola do aeroporto de Sófia, em 30 de junho de 2015. Foto: Stephan Gagov.

Um ex-oficial búlgaro, com acesso aos bastidores governamentais,  relatou à  BIRN que as compras sauditas foram transportadas nas aeronave visto pelos spotters de aviões e destinados aos combatentes da oposição síria, com os embarques posteriores, possivelmente, destinados a serem utilizados no Iêmen. No ano passado, os Estados Unidos também teriam comprado armas da Bulgária como parte de um programa de US $ 500 milhões para treinar e equipar as forças de oposição sírias, programa este que por agora foi abandonado.

Combatentes da oposição e analistas independentes também têm dito à  BIRN que as armas búlgaras estão a ser utilizadas na Síria, onde mais de 250.000 pessoas foram mortas e mais de 11 milhões forçadas a deixar suas casas desde que a guerra eclodiu em 2011. Fato é que sob o domínio do regime comunista a Bulgária, país de apenas sete milhões, construiu uma gigantesca indústria de armas, empregando 110.000 pessoas e capaz de captar até US $ 1,5 bilhão (€ 1.300.000.000) em divisas por ano. O regime, então solidário ao esforço soviético, adquiriu deste a tecnologia para fabricar armas de fogo e munição. Acumulou vastos estoques para apoiar o seu contingente militar de 1000.000 homens em armas, bem como a possibilidade de uma mobilização geral. Durante a regra dos 45 anos  do partido comunista da Bulgária no poder, deu-se o desenvolvimento de  fortes laços comerciais com o Oriente Médio e a África, laços estes que foram mantidos por muitos comerciantes, incluindo aqueles do inefável negócio de armas.

Um negócio rentável

Ao perscrutar através de seus grandes óculos, Nikolay Nikolov, acaba de forma casual a mencionar que se sentou na mesma mesa de Carlos, o Chacal, o militante marxista notório,  que era ativo no Oriente Médio e na Europa nas décadas de 70 e 80 do século passado. Nikolov, um pseudônimo para proteger sua identidade, esteve presente e atuante no comércio de armas por mais de 25 anos. “Todo mundo fica com uma parte”, disse ele, incluindo funcionários do governo e corretores. “As comissões são valiosas e correspondem por vezes ao valor do negócio das armas. Se algo custa 10 milhões, o preço final será de 35 milhões”.

Ao sentar-se em um pequeno café no centro de Sofia, onde ele gosta de conhecer e fazer negócios, Nikolov enrola cigarros de fumos artesanais e relembra histórias. Questionado sobre a venda de armas para o Oriente Médio, conta uma história sobre ter arrastando malas cheias de dinheiro no meio de um escaldante deserto árabe por volta do meio dia…

Após o colapso do comunismo em 1989, a produção de armas na Bulgária caiu substancialmente. O valor oficial das exportações de defesa caiu para € 111 milhões em 2006. Mas, em seguida, as vendas começaram a pegar e até 2014 tinham atingido € 403.000.000, segundo dados do governo.

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Legenda: exportações da indústria de defesa búlgara de 2006-2014, em milhões de euros. Fonte: Ministério da Economia da Bulgária, Relatórios.

Nikolov afirma que a Bulgária está a vender uma grande quantidade de armas, mas dos estoques antigos. “O pico das nossas exportações de armas foi durante as guerras na Iugoslávia. Um monte de armas foi exportado para a Sérvia e para a Albânia”, diz ele. “Naquela época, tínhamos estoques no valor de bilhões, agora temos apenas algumas centenas de milhões”. Apesar de a produção e as vendas serem apenas uma fração dos níveis pré-1989, o comércio de armas na Bulgária continua a ser um negócio altamente lucrativo. “Ainda é mais rentável do que o tráfico de drogas”, disse Nikolov.

O interesse do Golfo

A Arábia Saudita, até então, não tinha se tornado um cliente importante para as empresas de armas búlgaras nestes anos recentes. Mas isso mudou em 2014. O relatório do governo búlgaro diz que foram emitidas licenças para venda de munições e equipamentos militares no valor de 85.500.000 € para a Arábia Saudita no ano passado. Munições no valor de  € 65.400.000, armas de grande calibre com valor da ordem de € 12.500.000 e armas de pequeno calibre no valor de € 5 milhões. Até o final de 2014, as empresas búlgaras do setor tinham concluído ofertas de exportação para as Monarquias do Golfo com valores da ordem de € 28.900.000. O Ministério da Economia Da Bulgária, que supervisiona o comércio de armas, informou à BIRN em um comunicado, que as ofertas incluíam armas de uso pessoal, bem como armamento leve e pesado.

Um relatório da ONU listadas 827 metralhadoras leves e 120 SPG-9, armas anti-carro, sem recuo,  como parte das exportações de armas da Bulgária para a Arábia Saudita em 2014. Ben Moores, analista sênior da consultoria IHS Janes defesa, afirmou que provavelmente tais armas eram remessas para a Síria, ou o Iêmen. O militar saudita estará armado com metralhadoras leves belgas e não faria uso de um SPG-9, afirmou. “É muito improvável que este tipo de arma venha a ser usada pelos militares da Arábia Saudita, mas é muito popular e utilizada no Iêmen, Iraque e Síria”, relatou.

De acordo com o ex-oficial búlgaro, em condição de anonimato, os voos entre Sófia e a Arábia Saudita se deram com o intuito de transportar armas búlgaras para os grupos da oposição síria. Depois que os aviões aterrissaram em Tabuk, a carga foi embarcada em caminhões e transportada para um centro de distribuição na Jordânia,  para as forças militantes de extremistas sírios, afirmou.

A Arábia Saudita é um dos maiores financiadores de combatentes contrários ao presidente sírio, Bashar al-Assad. Riyad financiou uma compra fenomenal de armas de infantaria da Croácia para as forças da oposição síria, compra esta informada pelo The New York Times, em 2013, então citando funcionários americanos e ocidentais “familiarizados com as compras”. Em uma entrevista à BBC no fim de outubro de 2015, o ministro do Exterior saudita Adel al-Jubeir reconheceu abertamente que Riyad forneceu armas aos combatentes da oposição extremista síria. “Nós temos que contribuir para mudar o equilíbrio do poder no terreno”, disse ele. O informante, ex-oficial militar búlgaro, também  disse que algumas das armas enviados para a Arábia Saudita “podem ​​também têm sido utilizadas contra o Iêmen, pois os vôos posteriores coincidiram com o início da operação da Arábia por lá”. Arábia Saudita começou a ação militar no Iêmen no final de março, em apoio das forças leais ao presidente exilado Abd-Rabbu Mansour Hadi.

Ao contrário da Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos já tinham uma história recente de compra das armas búlgaras. O  telegrama diplomático  a partir da embaixada dos EUA em Sofia, publicado pelo site WikiLeaks, informou que os Emirados Árabes Unidos financiou um acordo de 2010 para compra de dezenas de milhares de fuzis de assalto rifles, 100.000 cargas de alto explosivo, granadas lançadas por foguete e munições para o então governo do Iêmen. O cabograma também relatava que a Bulgária realiza consultas  junto à embaixada dos EUA, no tocante aos negócios de armas potencialmente controversos. Contatados pela BIRN, a embaixada se recusou a dizer se ele estavam cientes de outros países a compra de armas búlgaras para uso na Síria.

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Legenda: exportações da indústria de defesa búlgara para os Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, em milhões de euros. Fonte: Ministério da Economia da Bulgária, relatórios.

Este ano, o governo búlgaro emitiu licenças para a exportação de munições, armas de fogo e equipamentos de defesa para os Emirados Árabes Unidos, o Ministério da Economia, todavia, recusou-se a demonstrar os valores envolvidos nestes negócios.  Pieter Wezeman, pesquisador do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo, disse que “não faz sentido algum”  os Emirados Árabes Unidos vir a comprar armas e munições da Bulgária para as suas próprias forças. Ele disse suspeitar que estas munições seriam desviadas para a Síria, ou o Iêmen. Moores expressou uma conclusão similar.”É muito mais provável o que [as armas] os Emirados Árabes Unidos compraram seja reencaminhado para um terceiro”, pautou.

Tanto a Arábia Saudita, quanto os Emirados Árabes Unidos são parte de uma coalizão contra o Iêmen, que tem realizado ataques aéreos, imposto forças terrestres desdobradas e fornecido armas para extremistas locais, com o objetivo de combater as forças xiitas, conhecidos como houthis. Riad também foi envolvido no fornecimento de armas ao Iêmen antes de suas próprias forças intervissem por lá, disse Wezeman.

As embaixadas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, responsáveis ​​pelos respectivos negócios armamentistas realizados na Bulgária não responderam às perguntas da BIRN. Da parte búlgara, o Ministério da Economia disse que não iria emitir licenças para negócios de armas quando forem levantadas preocupações sobre o possível desvio ou re-exportação de armas.

Acidente americano

Em 06 de junho deste ano (2015), uma explosão fatal ocorrida em um campo de testes de armas da Bulgária, forçou os Estados Unidos a admitir que o evento  tinham sido proveniente de armas de compradas na Bulgária, como parte de um esforço para apoiar combatentes da oposição extremista síria. Um empreiteiro norte-americano, veterano de 41 anos de idade, veterano da USNAVY, Francis Norwillo, morreu quando uma granada-foguete explodiu, enquanto estava sendo carregada em um lançador RPG-7. Outras quatro pessoas,  dois cidadãos norte-americanos e dois búlgaros, também foram feridos. Os americanos estavam trabalhando para uma empresa dos EUA nomeada Purple Shovel, contratado pelos militares dos EUA para ajudar a treinar e equipar combatentes da oposição extremista síria. A embaixada dos EUA disse em uma declaração concisa:

“Os três empreiteiros estavam conduzindo formação de familiarização para outros funcionários da empresa no momento do incidente”, disse a embaixada, recusando-se a fazer qualquer comentário adicional.

O banco de dados de compras governamentais dos EUA demonstra que Comando de Operações Especiais (SOCOM), que está no comando do esforço militar dos EUA para ajudar os extremistas sírios, concedeu a Purple Shovel, um contrato no valor superior a US$ 26,700,000 (24.600.000 €) em dezembro de 2014, para o fornecimento de armas estrangeiras e munição. O país de origem está listado como Bulgária. O contrato foi alterado duas vezes para chegar ao valor total de US$ 28,300,000, de acordo com o banco de dados.

Questionado sobre o negócio, porta-voz SOCOM Kenneth McGraw disse via e-mail:

“As armas que foram compradas com este contrato incluíram o AT-5 Anti-Tank Missile Launcher, SPG-9 Anti-Tank Recoilless Gun e RPG-7 Rocket Grenade Launcher”. Informou, no entanto, que a arma envolvida na explosão em Anevo não fazia parte do contrato. Apesar do incidente fatal, McGraw relatou que o contrato não tinha sido cancelado.

A granada foi fabricada em 1984, de acordo com autoridades búlgaras que estão investigando o incidente. Um relatório Buzzfeed News citou um especialista em armas não identificado afirmando que a granada passara toda a sua existência e esgotado sua validade em “uma prateleira”.  Mas, dois ex-oficiais militares búlgaros explicaram à BIRN, que a munição tem uma vida útil de décadas se armazenado adequadamente e uma granada feita em 1984 não seria velha demais para ser usada com segurança.

Alexander Dimitrov, o proprietário do Alguns, uma empresa privada que tinha contratado o campo de testes no dia da explosão, se recusou a comentar. A Purple Shovel,, empresa sediada em Sterling, Virginia, também se recusou a comentar o incidente, ou o contrato com SOCOM. O banco de dados de aquisição dos EUA mostra o SOCOM também premiado com um contrato no valor de mais de $ 32.000 (€ 28.200), para outra empresa norte-americana, UDC EUA, para fornecer munição a partir da Bulgária. O contrato foi assinado na mesma data que o negócio Purple Shovel, e exibe o mesmo “ID solicitação”, o código usado em uma chamada virtual, registrar os lances necessários para o cumprimento do contrato. Contatado ao telefone, perguntou-se sobre o contrato, se o mesmo era para a força-tarefa do USARMY armar extremistas sírios,  o presidente da empresa, Matthew Herring, disse à BIRN: “Não, não, nós não somos parte disso e certamente não temos a liberdade para falar sobre isso”.

O esforço militar dos EUA para treinar e equipar forças para lutar contra o grupo militante ISIS (Estado Islâmico) na Síria foi fortemente criticado por membros do Congresso dos Estados Unidos, por ser ineficaz. Em 09 de outubro deste ano (2015), a administração Obama anunciou que estava abandonando o programa. Mas, as atividades da Agência Central de Inteligência, CIA, de  secretamente armar os sírios que combatem as forças de Assad, continua em vigor.

Conexão Turca

Em uma manhã quente no final de julho, uma dúzia de comandantes da oposição extremista síria conversou no café de um hotel boutique perto da Praça Taksim, no centro de Istambul depois de participar de reuniões de coordenação. Eles estavam se preparando para ir para o sul da Turquia e, em seguida, de volta para a linha de frente no norte da Síria.

Três homens, comandantes de unidades em Idlib e Aleppo, concordaram em falar com a BIRN. Um deles explicou que a logística é fornecida para as forças de oposição através de dois corredores de operações militares –  uma na Turquia e outro na Jordânia. Todos os três disseram que receberam armas do corredor de suprimentos/logística turco – incluindo fuzis AK-47, RPG-7 foguetes lançadores de granadas e armas anti-tanque SPG-9.

Perguntado se eles receberam as armas búlgaras, um deles disse: “Todas as armas na Síria são modelos russos Tanto o regime e a revolução [oposição] fazem uso.  Eles podem ser provenientes de países como Bulgária, Ucrânia, República Checa, mas nós não… Não sabemos exatamente onde eles são produzidos”.

Relatou que as armas búlgaras, por vezes, apresentam o número 10 dentro de dois círculos. Um dos comandantes enviou uma mensagem WhatsApp do seu telefone celular para um combatente em sua unidade na Síria, que retornou com três fotos de armas. Dois deles tinha o símbolo de identificação descrito.

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Legenda: a imagem da esquerda pertence a uma metralhadora búlgara da família PK (PKM), a outra imagem é de um lançador (RPG-7) fabricado na Bulgária. Armas utilizadas no oeste da província de Aleppo. Imagens: extremistas sírios via WhatsApp/BIRN.

Um especialista em munições, que não quis se identificar, apontou serem as duas armas como sendo um lançador de granadas-foguete e uma metralhadora PK. O comandante disse que eles foram usados ​​no Aleppo campo ocidental. A BIRN não pode verificar onde as fotos foram registradas, mas NR Jenzen-Jones, diretor da consultoria britânica de Armamento Research Services, afirmou que havia “quantidades substanciais de armas e munições produzidos na Bulgária que foram documentadas na Síria”. A maioria das armas é datada dentro do período compreendido entre 1970 e 1980 e incluiu armas pequenas, leves, bem como armas anti-tanque, munições e engenhos tais como projéteis para armas sem recuo e projéteis de morteiro, disse ele via e-mail.

A Bulgária foi fornecedora dos exércitos nacionais do Iraque e da Síria ao longo de muitos anos, Permitindo, então, a possibilidade de algumas dessas armas terem vindo de estoques existentes dentro destes países. Mas, Jenzen-Jones afirmou que a sua organização havia recebido “inúmeras alegações de que o material excedente búlgaro foi cedido as facções rebeldes sírias”.

“Nós não temos sido capazes de verificar de forma independente essas alegações”, acrescentou.

Como a Arábia Saudita e os Estados Unidos, a Turquia tem sido fortemente envolvida na prestação de apoio aos grupos de oposição armada na Síria. Nihat Ozcan, oficial militar aposentado e analista da Fundação de Pesquisa de Política Econômica Turca, disse que as nações que apoiam a oposição síria também usam a Turquia como um ponto de trânsito para obter armas para a Síria. “Eles recolhem todo o  tipo de armas antigas e equipamentos soviéticos de [ex-bloco do Leste] países como Bulgária e Romênia, ou mesmo da Ásia Central. Eles os trazem para a Turquia e, em seguida, passam-nos à Síria, sob o controle da aliança Estados Unidos, Turquia. “, disse Ozcan.

Um trabalhador humanitário sírio, com ligações pessoais com membros de grupos extremistas anti-Assad “moderados” nas províncias de Idlib e Aleppo, relatou que as armas compradas por nações estrangeiras foram transferidas para as forças de oposição através do corredor logístico de suprimentos militares. As armas foram entregues através da fronteira turco-síria, onde os extremistas sírios as pegaram, informou em uma entrevista concedida na cidade turca de Gaziantep, perto da fronteira.

As operações militares nas bordas fronteiriças da Turquia e Jordânia são apoiadas por um grupo seleto de países ocidentais e árabes, incluindo os Estados Unidos, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, bem como as nações anfitriãs, de acordo com várias fontes da oposição síria.  Para além destas transferências de armas sancionadas pelos governos nacionais, há alguma evidência, de que as munições também estão sendo contrabandeadas para a Síria em negócios privados. Outro homem com o grupo no hotel de Istambul, que se identificou como membro de um conselho militar da oposição extremista  na província de Homs, disse à BIRN, que ele viu um carregamento de armas búlgaras chegar de caminhão em Homs em agosto de 2012. O homem, que pediu para ser identificado apenas como Abu Fatima, disse que um empresário sírio supostamente pagou US$ 1,600,000 (€ 1,4 milhão) por armas, que incluíam fuzis AK-47, lançadores de granadas e munições. Ele disse que o acordo foi organizado por traficantes de armas búlgaros e sírios.

Em uma entrevista separada, um ex – combatente da oposição extremista síria, disse estar  envolvido em nada menos que 12 transferências de armas búlgaras no início de 2013, a maior das quais era de US $ 7 milhões (€ 6.400.000). O ex – terrorista, que pediu para não ser identificado, afirmou que os embarques se deram na fronteira turco-síria, em dois caminhões e foram organizadas por cidadãos sírios e turcos que possuem conexões com traficantes de armas búlgaras.

Enquadramento jurídico

Não há proibição da ONU de fornecer armas para a Síria e a maioria dos elementos de embargo da União Europeia foram levantados em 2013. Na guerra do Iêmen, a ONU impôs uma proibição apenas no fornecimento de armas para as forças Houthis. No entanto, como signatária do Tratado de Comércio Global de Armas (ATT), que entrou em vigor em dezembro de 2014, a Bulgária tem a responsabilidade de impedir que armas sejam desviadas para outras nações, ou grupos, que difiram dos destinatários especificados. A legalidade de todos os negócios que levaram a armas búlgaras até a Síria, pode depender dos termos precisos de tais acordos.

Em negócios de armas, o Estado importador tem de fornecer um Certificado de Usuário Final, que pode incluir uma cláusula especificando que as armas não serão transferidas a terceiros. Mas mesmo que tal cláusula exista, um estado de importador pode enfrentar pouca, ou nenhuma punição por ter ignorado tal clausula. “Se uma exportação é autorizada, e ocorre um desvio, as ações passíveis de serem efetuadas por parte do Estado exportador são limitadas (além de não exportar armas para esse país / entidade novamente),” Sarah Parker, pesquisadora sênior do Small Arms Survey, centro de pesquisas baseado em Genebra, Suíça, através de E-mail.

“Ela [a nação exportadora] tem uma obrigação decorrente do ATT para enfrentar e prevenir o desvio. Então, se ela vê um destinatário como um risco de desvio, deve também compartilhar essas informações com outros exportadores”, acrescentou.

 

 

Mi-28N/NE: o caçador noturno de víboras

O presente artigo foi redigido por mim, originalmente, para o site Portal Defesa, onde foi publicado na data de 15.02.2015. O artigo ainda permanece on-line no referido site, onde pode ser encontrado na categoria “Destaque”, onde conta com maior número de ilustrações.

Mi-28N/NE: o caçador noturno de víboras

Por César A. Ferreira

Histórico

A história do MI-28 tem sua gênese ainda na antiga URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, quando os estudos sobre o campo de batalha futuro apontavam para uma função preponderante dos helicópteros especializados no ataque a forças terrestres, notadamente as blindadas. Sendo a Mil[1] o bureau responsável pelo helicóptero que se tornaria uma lenda, o Mi-24, nada mais natural que fosse este escritório de projetos aquele que se debruçaria sobre o seu sucessor, haja vista também ser este o bureau que ostenta o nome do projetista Mikhail Mil, autor de uma longa cadeia de projetos de sucesso no mundo das asas rotativas.

Os designers propuseram desenhos ousados e conservadores, viu-se, portanto, de helicópteros com propulsores de cauda e dois rotores principais, ao mero retrofit do Mi-24, todavia, o desenvolvimento concorrente do bureau Kamov faria a Mil acordar. Tendo em mãos um vencedor na forma do Mi-24 e conhecendo deste os defeitos e virtudes, os projetistas da Mil abandonaram qualquer devaneio na forma de uma proposta inusual para se deterem em algo tangível e capaz de vencer qualquer concorrência que viesse a enfrentar na URSS, ou seja, um vetor que aliasse robustez, modernidade, proteção e simplicidade. O Mi-24 apresentava como qualidade a robustez, proteção e simplicidade, mas apresentava certa “antiguidade de projeto”, tal como a posição dos motores, por exemplo. A resolução destes problemas de antiguidade por um novo projeto, então, assumiu aos olhos dos projetistas da Mil como o caminho certeiro para o sucesso.

Em 1977 o projeto estava congelado e apresentava um reposicionamento dos motores, que saíram da posição acima da célula, para se situarem ao lado da mesma, e com o clássico compartimento para oito infantes suprimido, tendo apenas um espaço residual para três soldados, ou transporte de pequenas cargas. O primeiro protótipo apareceu em 1981, “Yellow 012”, sendo seguido do segundo nos meses subsequentes, “Yellow 022”. A campanha de ensaios estendeu até o ano de 1986, período no qual enfrentou a concorrência do produto do bureau Kamov, o igualmente impressionante Ka-50.

Dado o fato que o protótipo do Ka-50, monoplance, extremamente ágil e um tanto quanto ousado, parecia aos olhos burocratas algo arriscado, ganhou o Mi-28, agora denominado Mi-28A, a devida autorização para produção, o que se deu no ano corrente de 1987. O primeiro exemplar de pré-série já estava operacional no ano seguinte e esperavam-se as encomendas necessárias para “dar ritmo” à cadeia de produção, quando o Mi-28 foi atropelado pela história. A dissolução da URSS e a profunda depressão econômica que se abateu sobre todas as ex – repúblicas soviéticas, período apelidado com muita correção como “Catastroika”, simplesmente transformou qualquer alocação de recursos para encomenda do modelo em um sonho. Entretanto, se sob a realidade aparente o Mi-28A parecia enterrado, como sonho permanecia vivo, e os agora diretores da Mil resolveram esperar para ver.

Conhecedores das exigências do campo de batalha os engenheiros do gabinete de projetos Mil resolveram manter os exemplares existentes como bancos para provas de novas propostas, modificando-os e agregando sempre que possível uma leva de novos sensores. Com isto o Mi-28A que detinha apenas a capacidade para combate diurno ganhou sensores que o transformaram em um lutador noturno, capaz de entrar em combate em qualquer situação climática, equipado com sensores térmicos postados no nariz e de um radar, este disposto acima do rotor, proporcionando um campo de varredura vasto, necessário para um vetor aéreo que deve promover emboscadas contra colunas blindadas e que utiliza o contorno do terreno para dissimular-se.

Em 1997 vou o novo protótipo do Mi-28, que ganhou continuamente novos aperfeiçoamentos, tais como extensões nas pontas das pás, equivalentes ao conceito BERP[2], controle eletrônico de injeção de combustível, além de novos itens de autoproteção. Em 2003 a Mil foi premiada com seleção do Mi-28, agora portador do designativo N, de noturno, junto com o seu concorrente, o Ka-52… Três unidades foram encomendadas em 2005, seguidas de outras 16 no ano seguinte, configurando um lote para avaliação operacional e formação de doutrina, que foram seguidos de uma encomenda de 67 unidades. A Força Aérea da Rússia declarou o status operacional pleno da aeronave em 2013.

As versões do Mi-28 são as que seguem: Mi-28A (protótipos iniciais, sem capacidade para combate noturno); Mi-28N (versão operacional na Força Aérea da Rússia, dotada de capacidade de combate noturno e em qualquer tempo); Mi-28D (versão desprovida de radar embarcado); Mi-28UB (versão com duplo comando, para formação de pilotos); M-28NE (versão de exportação do Mi-28N).

Características

O Night Hunter, ou seja, o Mi-28N/Mi-28NE, é um helicóptero dotado da configuração clássica desta classe de vetores, ou seja, disposto com dois postos, em tandem, artilheiro na nacele dianteira e o piloto na nacele posterior, estas dispostas em degrau, estando o posto do piloto elevado, com os sensores da aeronave situados à frente da célula, com exceção do radar, colocado no topo do rotor principal. O conjunto motriz se faz presente na sua forma tradicional, ou seja, rotor principal acima dos motores e acompanhado de um rotor de cauda.

O rotor possui cubo semi-rígido, opção dos projetistas da Mil por conhecerem bem as características deste tipo de rotor. No ocidente deu-se uma discussão sobre a melhor concepção de engenharia para cubo de rotor em helicópteros militares, e esta acabou inconclusa, dado que cada tipo de missão favorece um tipo de rotor. Os engenheiros da Mil discutiram as vantagens dos tipos articulado, rígido e semi-rígido e compreenderam que o último agregava características que procuravam.

O Mi-28N/NE apresenta as inequívocas asas para suporte de armas, sendo estas dotadas de dois pontos de fixação cada, compondo quatro pontos fortes, capazes de receber extensa gama de armamentos. Estes pontos aceitam a carga de 500 kg cada, perfazendo um total de 2000 kg em seu conjunto. A aeronave aceita até 2.400 kg de carga. Além disso, como herança, ou tradição da Mil em termos de helicópteros de ataque, o Mi-28N/NE apresenta um compartimento, diminuto, capaz de receber até três pessoas, que pode ser usado para extração de pilotos abatidos em terreno inimigo. O acesso para este compartimento se dá pelo lado direito.

A aeronave apresenta uma fuselagem comprida, com trem de pouso fixo e roda de bequilha na cauda, tal disposição, convencional em helicópteros de ataque, permitiu uma distância razoável dos sensores localizados no nariz e abaixo deste, do solo. As colunas do trem de pouso principal situam-se bem à frente das asas, na linha abaixo do cockpit do piloto, ou seja, distante o suficiente dos pontos de fixação das armas para facilitar o trabalho de municiamento da aeronave.

A aeronave é pentapá. As pás são compostas por uma estrutura em forma de favos de mel, estas, preenchidas por 17 bolsas de ar, que permitem à aeronave manter-se no ar mesmo que uma das pás venha a sofrer avarias, no caso, no limite de até três. As lâminas são produzidas em aço, apoiadas em tubos de titânio, revestidas por fibra de vidro e dotadas com uma proteção no bordo de ataque de uma tala de titânio, tala esta, que conta com proteção contra a formação de gelo. As pontas das pás, por sua vez, são chanfradas, estando em acordo com o principio BERP, adotado para aliviar a compressibilidade sobre as mesmas, demandadas pela dinâmica exibida pelas 10.000 rotações por minuto, advindas da força motriz instalada.

É interessante verificar que o rotor de cauda apresenta como característica um conjunto com lâminas separadas em 120° pela configuração quadripá, disposta em “X”, com defasagem de 36°. Tal configuração, percebe-se, foi herdada pelo Mi-35 e permite uma menor assinatura acústica, bem como maior vida útil da célula devido a menor vibração por ela proporcionada.

Propulsores

O propulsor escolhido para equipar o MI-28N/NE é o Klimov VK-2500, que também equipam os Mi-35/AH-2 Sabre da FAB. Estes motores exibem cada um 2.200 shp, em regime normal, podendo atingir em emergência 2.700 shp. Alimentados por injeção eletrônica, apresentam também uma APU orgânica (por motor). Portanto, os propulsores exibem total independência, aumentando a possibilidade de sobrevivência da aeronave aos danos de combate, isto é ampliado pela disposição destes nos lados da célula, ou seja, à margem da fuselagem, que os separa, suprimindo ao mínimo a possibilidade de dano em ambos os propulsores por ação singular do inimigo. Ademais, a operação em ambientes remotos com pouca, ou nenhuma espécie de suporte se torna possível, dado que as unidades externas de força para acionamento dos motores e manutenção dos sistemas embarcados são suplantadas em sua necessidade pela presença da unidade auxiliar de força.

Sensores

O sensor principal do Mi-28N é o radar, este situado no topo do rotor, montagem que visa ampliar o campo de busca do sensor enquanto o vetor mascara a sua presença, entre árvores e contornos do terreno. O radar selecionado foi o N-025 Almaz – 280, multibanda, operando nas faixas Ka, I e J. Este radar apresenta alcance efetivo para detecção de alvos aéreos de 20 km, sendo empregadas para esta função, modo ar-ar, as emissões nas frequências das bandas I e J. Já o limite de detecção do N-025 para alvos terrestres é de 10 km, realizando Lock-On, ou seja, localizando e acompanhando alvos neste limite, sendo a banda Ka a utilizada para tanto. No tocante a detecção e classificação de fenômenos climáticos o limite é de 100 km.

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Visão frontal do Mi-28N/NE. Observa-se acima o nariz do sistema de guiamento por rádio dos mísseis ar-terra, seguido pela torreta flir e da torreta do sistema de varredura por imagens. Abaixo o canhão de tiro rápido de 30mm. Foto: internet, via Portal Defesa.

O radar N-025 Almaz 280 opera em conformidade com outros sensores embarcados, estes de natureza eletro-óptica. São estes a torreta Flir GOES – 521 e a torreta Zenith “TOR”, ambos compondo o sistema eletro-óptico TOR Vision. A torreta GOES/521 se encontra logo à frente, abaixo do nariz proeminente onde se encontra o elemento rádio – direcionador dos mísseis anticarro, estando logo abaixo, em uma torreta em formato cilíndrico, o sistema de câmeras de vídeo Zenith. A torreta flir GOES-521, giroestabilizada, proporciona à tripulação da aeronave imagens na região infravermelha do espectro, bem como de vídeo em qualquer situação, seja ela noturna ou com baixa visibilidade, em qualquer circunstância meteorológica (LLLTV – Low Light Level TV). Exibe a capacidade de movimento de + 13º/-40º vertical e horizontal de +110º/-110º. As câmeras Zenith, abrigadas na torreta cilíndrica, também giroestabilizada, são utilizadas para ambiente diurno e possibilitam a varredura de campo, dado o fato de uma delas ser dotada de lente grande angular com zoom 3x. A segunda câmera com zoom 13x (óptico) permite a aproximação e identificação específica de detalhes do campo. Esta torreta apresenta a mesma deriva (movimentos) daquela do canhão Shipunov 2A12, NPPU-28, com 220º de azimuth e +13/-40 em elevação. O designador laser da aeronave se encontra embarcado/acoplado neste sistema.

O último sensor embarcado a ser abordado é o radar altímetro SBKV-2V-2, este de especial importância, para em uso conjugado com demais sensores permitir a navegação com uso do contorno do terreno, NOE – Nape Of The Earth. 

Aviônicos de missão

 O helicóptero de ataque Mi-28N é dotado de rádios categoria VHF/UHF/HF, com salto de frequência, uso de criptografia e datalink, orientação por sinais de GPS e GLONASS, que são apresentados em mostradores de cristal liquido, onde os demais dados de voo também o são, incluindo a condições dos motores, conta correte de combustível e seleção de armas. Os cockpits, tanto do piloto quanto do oficial de sistema de armas estão preparados para uso de NVG, como de HMD. Os capacetes com miras acopladas permitem o uso dos sistemas de armas escravizados (aos capacetes) e reduzem em muito a carga de trabalho da tripulação.

Sobrevivência e Proteção

No tocante a proteção o Mi-28N não foge a regra da tradição russa em aeronaves de ataque: apresenta extensa blindagem, exibindo uma banheira em titânio e material cerâmico, que proporciona proteção da tripulação contra projéteis de 12,7 mm e estilhaços das granadas de 20 mm. A blindagem transparente suporta impactos de projeteis de infantaria de 7,62 mm. A proteção blindada é estendida para os motores, eixo de transmissão, sistemas hidráulicos, tanque de combustível e o cone do rotor de cauda. Os tanques de combustível recebem o conceito antigo, mas eficiente, da aplicação de uma espuma autosselante, neste caso, de poliuretano, além do agora clássico revestimento de borracha.

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Teste balístico com a cabine do Mi-28N, realizado com munições de variados calibres, de 12,7 até 57 mm. Foto: internet, via Portal Defesa.

Os motores Klimov VK – 2500 possuem suas saídas de gases quentes voltadas para baixo e para longe da aeronave, sendo estes misturados com ar frio, admitido através de um supressor que lhe é acoplado. Desta maneira obtém-se uma redução de assinatura térmica da ordem de duas vezes e meia daquela emitida pelo antecessor, Mi-24. A disposição dos motores também difere daquela vista no MI-24, por serem estes colocados bem separados, um em cada lado da célula, configurando uma disposição que por si minimiza a possibilidade de danos por ação do inimigo. Dado o fato de que os motores Klimov VK-2500 possuem reserva excedente de potência, o Mi-28N pode operar com apenas um exemplar do par em funcionamento, devido ao fato de o acionamento se dar de forma independente, bem como da alimentação de combustível.

O Mi-28N possui assentos e uma estrutura concebida para absorver impactos com o solo, contanto que estes se deem em uma desaceleração de até 12 m/s. Outra estrutura concebida para absorver danos em missão são as pás dos rotores, estas compostas por uma estrutura análoga aos favos de mel, preenchidos por 17 bolsas de ar, permitindo que cada pá suporte até três avarias e mantenha a aeronave voando sem apresentar uma vibração excessiva.

O Mi-28N exibe também uma suíte de contramedidas eletrônicas, pautada pelo Vitbesk DASS, cujos componentes são RWR (alerta contra iluminação por ondas eletromagnéticas – RADAR), alerta de iluminação de lasers MAK 1R, dispensadores de Chaff e Flare UV-26 e um jammer (interferidor eletrônico) PLATAN.

Armamento 

A aeronave possui como arma orgânica um canhão de 30mm montado em um plataforma móvel, nomeada como NPPU-28, estabilizada (dois eixos: vertical/horizontal), abaixo do nariz. A plataforma apresenta configuração de azimute de 220º e elevação de +13º/-40º. A arma é um canhão Shipunov 2A42, que exibe cadências selecionáveis de 200~300 TPM contra alvos em terra, e de até 550~800 TPM contra alvos aéreos. O canhão em questão utiliza cartuchos 30 x 165 mm, e possui munições com cabeças APFSDS-T, APDS, APBC-T, HE, HEI, HE-T. Com munições APFSDS-T é assegurada a penetração de uma chapa de 45 milímetros a 2.000 metros de distância, sendo que a 1.000 metros de distância é assegurada a penetração de uma chapa de 55 milímetros.

A relação munição/penetração é a que segue (entre parênteses esta a designação):
APFSDS-T(M929): 45mm a 2.000 metros; 55mm a 1.000 metros. APDS (3UBR8): 25mm a 1500 metros com até 60º de inclinação. HEI (3UOF8): para uso contra infantaria, carga explosiva incendiária com atraso de 0,15 milissegundos do impacto. HE-T (3UOR6): carga explosiva com fragmentação. Atraso de 0,15 milissegundos em relação ao impacto.
APBC-T (3UBR6): carga sólida com ponta deformável. Penetra 20 mm de chapa com até 60º de inclinação a 700 metros, 14mm de chapa sólida de aço a 1500 metros.

O canhão Shipunov 2A42 instalado no Mi-28 detém um cofre de munição com 250 projéteis, que podem ser de tipos variáveis. A arma está escravizada aos sistemas de armas da aeronave o que proporciona extrema acuidade de fogo. O acionamento é elétrico e a arma possui como característica física o comprimento de 3.027 milímetros e um peso de 115 kg. O seu projeto e concepção advém do conceituado bureau KBP Tula.

A aeronave exibe outros quatro pontos duros (fixação de armas) montados nas asas de suporte ao lado da fuselagem, com diedro ligeiramente negativo. Os pilones possuem limite de carga de 500 kg (2000 kg divididos pelos quatro pontos duros) e capazes de receber tanques de combustível, pods eletrônicos, pods de foguetes, pods com armas de canos (canhões/metralhadoras), bombas de queda livre (com, ou sem kits de guiamento), mísseis anti-carro e anti-aéreos. Nas suas pontas encontram-se dois pods, cilíndricos, que compõem o sistema de auto-proteção da aeronave e que comporta o RWR e o chaff/flare do helicóptero.

Os pontos de fixação podem receber casulos com canhões e metralhadoras. As opções de casulos armados com armas de cano são compostas pelos casulos UPK 23/250, dotado do conhecido canhão geminado Gsh-23 (23mm), com 250 cartuchos, bem como do casulo SPPU-22 com 260 cartuchos e que permite ao conjunto geminado Gsh-23 uma mobilidade de aproximadamente 45º para baixo. Além destes, agrega-se o casulo de armas SPPU-6, equipado com uma arma gatling (seis canos) de 23mm (Gsh-23/6) com 500 cartuchos para pronto uso.

Dentre as armas anticarro estão integrados os mísseis KBM 9M120 e 9M120-E ATAKA. O míssil 9M120 que equipa os Mi-35 da FAB (AH-2 Sabre), exibe 6 km de alcance, enquanto o seu congênere 9M120-E detém a marca de 8 km. Outra arma anticarro capaz de ser utilizada é o clássico KBM 9M114 Shturm (5 km de alcance). É possível integrar mísseis guiados por feixe radar/radio ou laser ao Mi-28. No tocante à família ATAKA o sistema de guiagem empregado é o SACLOS (comando por orientação de rádio). As características da família 9M120 (inclui 9M120-E):
Peso: 49,5 kg (109lb);Comprimento: 1.830 mm; Diâmetro: 130 milímetros;
Ogiva: HEAT (Alto – Explosivo), montagem em tandem da ogiva, detonação por impacto; Peso: Warhead (cabeça de guerra) 7,4 kg (16 lb); Alcance: 0,4~6 km (9M120), 0,4~8 km (9M120-E); Teto de voo: 0-4,000 m (2,5 km); Velocidade: 550 m/s (1.800 ft/s ) máximo, 400 m/s (1.300 pés/s) média; Orientação: Sistema de Ligação Por Rádio Comando – SACLOS; probabilidade de acerto é de 90% contra um MBT a partir de uma distância de 4 km.

Em termos de foguetes não guiados, o Mi-28 equipa-se com casulos B-8M1 e/ou B8V20-A (20 foguetes) para foguetes classe S-8 de 80mm, foguetes estes também empregados pela FAB em seus Mi-35/AH-2 Sabre, S-13 de 122mm (casulo B-13L – 5 foguetes) ou os foguetes S-24B de 233mm (ogiva de 125 kg; 3 km de alcance). Os foguetes da classe S-8, como citado, também são utilizados pela Força Aérea Brasileira, que os considera bastante precisos e os tem em boa conta. Estas armas possuem cabeças de guerra de vários tipos com atribuições específicas. Abaixo as características das principais ogivas da família de foguetes S-8:
S-8KO/S-8KOM: ogiva tipo HEAT, efetiva contra 400 milímetros de RHA[3] a 4 km de distância;
S-8B/S-8BM: ogiva penetrante, efetiva contra 800 milímetros de concreto armado a 2,2 km de distância.
S-T8: ogiva HEAT montada em tandem, efetiva contra 400 milímetros de RHA a 4 km de distância.
S-8S: ogiva composta por 2.000 flechettes, distribuídos em 5 pacotes. Ogiva efetiva no alcance de até 3,5 km.

Percebe-se, portanto, que a capacidade anti-carro não se restringe aos mísseis guiados, visto que esta capacidade também é encontrada nas ogivas dos foguetes ar-superfície. Todavia, dentre as armas portadas pelo Mi-28 se destacam por não serem usuais os mísseis com funções anti-aéreas, caso do 9K38 Igla-S e do Vympel R-73, ambos já integrados à aeronave citada.

Apesar do Vympel R-73 ser uma arma espetacular na arena ar-ar, devido a sua reconhecida capacidade off-boresight, a opção mais popular para armar com mísseis ar-ar o Mi-28 se dá com o 9K38 Igla-S, pelo motivo simples deste último ser mais leve, permitindo maior carga bélica ar-superfície. É possível equipar o Mi-28 com até 16 mísseis 9K38 agrupados em pods de quatro unidades, um pod por pilone.

Os mísseis da família R-73, no caso, R-73E, possuem 105 kg de peso e um alcance de 20 km (30 km para o R-73M1). Já o 9K38 Igla-S por ser um míssil desenvolvido como MANPAD possui um desempenho muito mais modesto, 3,2~5,2 km de alcance com um peso de 10,8 kg. O método de orientação de ambos se dá por cabeça de busca de emissões IR (infravermelho).

O Mi-28 aceita o uso de bombas de queda livre, ou dotadas de dispositivos de propulsão e/ou guiagem, contanto que estas obedeçam ao limite de carga dos pilones (500 kg), o mesmo se dando para os tanques de combustível, em geral transportados nos pilones internos. Os tanques em geral empregados possuem 132 galões, ou 500 litros. Entre as bombas transportadas se encontram aquelas de Napalm, no caso a arma ZB-500, dispersadores de munição também são empregados, tal como o dispersador KMGU-2.

Mi-28 NE para o Brasil

Não é uma novidade que o Exército Brasileiro projeta para um futuro a formação de uma ala de helicópteros de ataque em sua aviação orgânica, tanto é assim, que órgãos de mídia noticiaram a intenção do Exército Brasileiro em avaliar de maneira preliminar quatro aeronaves listadas, Kamov Ka—52, AW-129 Mangusta (Agusta – Westland), EC 665 – Tiger (Airbus Helicopters) e o Mi-28N. É verdade que o processo de formação de uma ala aérea de ataque começa agora a ser gestada e deverá levar um tempo longo para ser concretizada, entretanto, pode-se pensar no Mi-28N como um candidato viável, isto devido à qualidade do seu projeto, da sua concepção militar, onde a robustez e atenção aos danos recebidos em combate são prioridade, bem como ao preço, haja vista que hoje é oferecido ao mercado com preços unitários da ordem de US$ 25,000,000.00 (vinte e cinco milhões de dólares norte – americanos).

O Mi-28N ganhou a distinção de ser eleito o helicóptero de ataque por excelência da Força Aérea da Rússia e a sua versão de exportação ganhou contratos para equipar a Força Aérea do Iraque (36 unidades encomendadas) e do Quênia (16 unidades encomendadas). Outras nações manifestaram interesse, caso da Argélia, que está em processo de recebimento dos ultra pesados Mi-26 T2, Venezuela e Coréia do Norte. Percebe-se que os contratantes externos do Mi-28NE são países de clima quente e seco (Iraque) e clima quente com extremos variáveis de umidade, caso do Quênia, o que para o fabricante Rostvertol (Russian Helicopters) não é considerado um problema dado o fato que a aeronave está habilitada para operação em climas extremos, tanto negativos, como positivos, ou seja, acima de 40º célsius.

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Imagem da cabine do operador de sistemas de armas do Mi-28N. Notar a importância da proteção ao tripulante refletida na blindagem do aparelho. Observar que esta preocupação também se dá quanto a blindagem transparente. Foto: Makapob.

Cabe notar que ao contrário de alguns postulantes, o MI-28NE não é uma aeronave leve, dado ao reconhecimento armado, mas sim um vetor pesado para a sua categoria, dotado de blindagem extensa, com o maior nível de proteção oferecido à tripulação e grande capacidade de portar cargas bélicas / combustível. Sensores que oferecem vasta consciência situacional, orientação espacial e varredura do campo de batalha aos tripulantes, configurando um projeto onde cerca de 1/3 do seu peso é dedicado ao potencial ofensivo, e os dois terços restantes cumprindo o dever da mobilidade, blindagem e robustez. É desnecessário salientar que o grupo moto-propulsor é reconhecido pela sua confiabilidade e rusticidade, algo confortador para forças aéreas de orçamento apertado, ou desprovidas de base industrial de apoio.

No caso específico do Brasil temos Forças Armadas que contam com uma base industrial, em especial na área aeroespacial, bastante adequada, vasta, todavia inseridas em uma situação orçamentária que por vezes se mostra restrita, ademais, uma aeronave de grande poder bélico e de operação autônoma, caso do Mi28NE, mostra-se interessante para uma nação continental, com diversos perfis climáticos e ambientais, com amplos vazios demográficos a serem vigiados e defendidos. Dá-se, portanto, que vetores desta classe, helicópteros de ataque, se fazem necessários e dentre os candidatos o MI-28NE é sem sombra de dúvida uma grande opção.

Notas

[1]: Bureau de Projetos (de helicópteros) Mil de Moscou, ou como é mais conhecido em inglês, Mil Moscow Helicopter Plant. No contexto soviético as fábricas pertenciam, todas, ao estado e executavam projetos enviados por escritórios dedicados. Tais escritórios de projetos ganhavam o nome de um projetista que por acaso ganhasse destaque devido ao seu mérito e esse é o caso de Mikhail Leontyevich Mil, nascido em 2 de fevereiro de 1909 e falecido em 31 de janeiro de 1970.

[2]: BERP – British Experimental Rotor Programme (Programa britânico para rotor experimental).

[3]: RHA – Rolled homogeneous armour (armadura, ou blindagem, homogênea laminada).

Ficha técnica:

Velocidade máxima: 324 km/h;

Velocidade de cruzeiro: 270 km/h;

Raio de ação 240 km;

Alcance máximo: 460 Km;

Alcance estendido: 1.100 km, 2 tanques externos;

Razão ascensional: 816m/minuto;

Teto ascensional: 5.750 m;

Fator de carga: 3G;

Peso vazio: 7.890 kg;

Peso máximo/ decolagem: 12.100 kg.

Dimensões:

Comprimento: 17,1 m;

Altura: 3,02 m;

Diâmetro do rotor: 17,2 m.

Motores:

Klimov VK-2500: 2;

Potência: 2.200 shp;

Potência em regime de urgência: 2.700 shp.

Armamento:

Mísseis ar-ar: 9K38 – Igla-S R-73 R-73E;

Mísseis ar-superfície: 9M120, 9M120E, 9K114;

Foguetes não guiados/séries: S-8, S-13, S-24B;

Bombas: ZB-500;

Dispensador de sub-munições: KMGU-2.

Canhões:

Shipunov 2A42 (interno): 30 x 165 mm 250 cartuchos;

Casulo externo: UPK 23/250;

Gsh–23(geminado): 23x115mm250cartuchos, montado em casulo externo SPPU-22.

Gsh–23 (geminado): 23 x 115mm 260 cartuchos; montado em casulo externo SPPU-6.

Gsh–23/6 (rotativo): 23 x 115mm 500 cartuchos, montado em casulo externo SPPU-6.

 

Capturado, combatente do Estado Islâmico revela os laços dos terroristas com a Turquia.

A matéria que segue, concisa, mas reveladora, traz a entrevista com um combatente do EI mantido como cativo pelas forças curdas, YPG.  Cidadão turco recrutado pelo EI ele cedeu ao Sputnik News Turquia uma entrevista elucidativa, posto que confirma aquilo que já se sabe sobre o EI. A matéria não é assinada.

Capturado, combatente do Estado Islâmico revela os laços dos terroristas com a Turquia.

Matéria: corpo editorial do Sputnik News/Turquia

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

Mahmut Ghazi Tatar, membro combatente capturado da organização terrorista Daesh, Estado Islâmico, cedeu declarações ao Sputnik Turquia, revelando detalhes sobre como é estar nas fileiras do Daesh, Estado Islâmico,  e dos da Turquia com o grupo terrorista.

Correspondente Sputnik Türkiye conseguiu gravar uma entrevista com um dos membro da Daesh (Estado Islâmico) que foi capturado por tropas curdas na Síria. O depoente é  Mahmut Ghazi Tatar, de 24 anos de idade, que se juntou Daesh da cidade turca de Adıyaman.

Mahmut Ghazi juntou Daesh depois de ter sido influenciado por um amigo seu que havia se juntado ao grupo. Ele, junto com outros 27 turcos, foi auxiliado no processo de travessia da fronteira síria, onde se juntou às fileiras dos militantes.

“Depois de atravessar fronteira fomos transferidos para um campo de treinamento a uns 5 km da fronteira. Recebemos treinamento militar e frequentamos aulas de religião. Antes do início do treinamento, a cada um de nós foi perguntado se aceitaríamos ser mártires. Eu recusei. Esta pergunta é feita de todos os novos recrutas. Aqueles que concordam, no prazo de 6 meses recebem formação religiosa especial. Desde que eu recusei, minha educação e treinamento durou 70 dias. Aprendemos pelos livros turcos. Durante o treinamento, algumas pessoas da Turquia vieram até nós para verificar-nos. Eles não tinham barbas, não eram membros da Daesh (Estado Islâmico) “, Mahmut Tatar, em entrevista para o Sputnik Turkiye.

Depois de receber a sua formação militar/religiosa, os 27 turcos membros do EI foram enviados para a cidade de Tel Abaid, onde passaram a viver em casas, tendo a formação continuada. Seus nomes foram mantidos em segredo e não lhes fora permitido entrar em contato com as suas famílias, por um período mínimo de seis meses.

Falando sobre como ele foi aprisionado por soldados curdos, Ghazi disse que, ao receber o aviso da presença de soldados curdos por parte de outros membros Daesh/EI, ele como 12 outros membros do grupo, empreenderam fuga de Tal Abaid. Estavam escondidos em uma vila próxima. Mas na manhã seguinte, quando Ghazi tentou fazer uma corrida, foi surpreendido e rendido.

“Os curdos tratam bem os prisioneiros, oferecem água, alimentação e cigarros. Aqui sou mantido, nesta sala, juntamente com várias outras pessoas. Eu não achava que eles me tratariam tão bem, tinha medo de tortura. Pensei que seria morto, mas descobri que as tropas curdas não matam os seus cativos. Ouvi dizer que os membros do Daesh/EI ao serem capturados por curdos são mortos de imediato, ou são mantidos vivos, para que façam  trocas de prisioneiros com os curdos”.

Falando sobre o que ele ouviu de seu comandante, o membro capturado revelou que durante sua permanência no campo de treinamento, em Maio de 2015, um dos comandantes do Daesh/Ei, Abu Talha, disse-lhes que o grupo vende petróleo para a Turquia. De acordo com Abu Talha, o dinheiro que foi levantado a partir da venda do petróleo no mercado Turco ajudou o Daesh/EI a resolver todas as suas dificuldades financeiras.

“Comboios petroleiros são enviados todos os dias para a Turquia com petróleo bruto, óleo combustível e gasolina. A principal fonte de renda para Daesh/EI é o comércio de petróleo e os estoques de petróleo vai durar-lhes um longo tempo “.

Abu Talha disse-lhe, também, que “o grupo ganha rios de dinheiro ao travar comércio com a Turquia”. Ele também disse que o óleo é vendido por meio de mediação, que faz uso de grande número de empresários e comerciantes, mas não deu nomes. Daesh/EI recebe “muitos produtos provenientes da Turquia e de outros países árabes “, Mahmut Ghazi revelado.

Ele mencionou que seus comandantes não atribuiu particular importância aos bombardeios norte-americanos. Eles acreditavam que ele foi feito como um pretexto. Um dos militantes perguntou por que o comandante Daesh/EI não estava lutando contra Israel. Abu Talha disse: “Primeiro temos de quebrar um pequeno muro e, em seguida, destruir o grande”.

De acordo com o membro capturado, novos recrutas se juntaram ao grupo, provindos da Arábia Saudita, Tunísia, Iêmen, Qatar, Líbano e Egito. Cruzaram a fronteira com a Turquia, algo que é muito simples de fazer. Os militantes provindos da Europa e América seguem a mesma rota.

“Os comandantes disseram-nos que eles estavam indo para cometer um ato terrorista que irá exceder em escala aquele dos ataques do 11 de setembro contra os EUA”, Mahmut Ghazi concluiu.

 

A “guerra invisível” da diplomacia russa

O presente texto foi redigido por Rotislav Ischenko, analista da RT  – Russian Today. Foi escrito originalmente em russo, onde pode ser encontrado no site Oko-planet, bem como da sua tradução para o inglês no site Global Research. Em português, encontra-se publicado no site Resistir.info e no blog Notícia Final.

A “guerra invisível” da diplomacia russa

Por: Rostilav Ischenko

Tradução: Margarida Ferreira   

Como é que a Rússia, em apenas 20 anos, sem guerras nem outras perturbações, pôde passar duma semi colônia para um reconhecido líder mundial, igual entre os mais importantes?

Os “estrategistas” de meia tigela, que acreditam seriamente que um grande ataque nuclear é a solução universal para qualquer problema internacional (mesmo o mais escaldante, perto da confrontação militar), sentem-se desanimados pela posição moderada da liderança russa na crise com a Turquia. No entanto, consideram insuficiente a participação direta das tropas russas no conflito sírio. Também se sentem insatisfeitos com as atividades de Moscou na frente ucraniana.

No entanto, não se percebe porque é que ninguém faz uma pergunta simples. Como é que aconteceu que, de repente, a Rússia começou a fazer frente ao poder hegemônico mundial e, além disso, ganhou com êxito em todas as frentes?

Porquê agora?

No final dos anos 90, a Rússia era um estado que, econômica e financeiramente, estava ao nível do terceiro mundo. Fervilhava uma rebelião anti-oligarquias no país. Estava a travar uma guerra infindável e sem esperança com os chechenos, que se alargava ao Daguestão. A segurança nacional repousava apenas nas armas nucleares mas, quanto a realizar quaisquer operações a sério, mesmo dentro das suas fronteiras, o exército não tinha nem pessoal bem treinado nem equipamento moderno, a frota não navegava e a aviação não voava.

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Tu-95 decolando para uma missão. Foto: Defense Blog.

Claro que todos podem dizer como a indústria, incluindo a militar, foi sendo gradualmente revitalizada, como o crescente nível de vida estabilizou a situação interna, como o exército foi modernizado.

Mas a questão fundamental não é quem mais fez para reconstruir as forças armadas russas: Shoygu, Serdukov, ou o Estado-Maior. A questão fundamental não é quem é melhor economista, Glaziev ou Kudrin, e se teria sido possível atribuir ainda mais recursos às despesas sociais.

O fator chave desconhecido nesta questão é o tempo. Como é que a Rússia teve tempo, porque é que os EUA deram tempo à Rússia para preparar a resistência, para criar músculo econômico e militar, para aniquilar o lobby pró-americano financiado pelo Departamento de Estado, na política e nos meios de comunicação?

Porque é que a confrontação aberta, que agora aparece em Washington, não começou mais cedo, há 10 ou 15 anos, quando a Rússia não tinha possibilidade de resistir às sanções? Na realidade, os EUA, nas décadas de 1990 ou 2000, começaram a instalar regimes fantoches no espaço pós-soviético, incluindo Moscou, que foi considerado como uma das várias capitais da Rússia desmembrada.

O conservadorismo saudável dos diplomatas

As condições para os êxitos militares e diplomáticos atuais foram sendo construídas durante décadas na frente invisível (diplomática).

Deve dizer-se que, entre os principais ministérios, o Ministério dos Estrangeiros foi o primeiro a recuperar da confusão administrativa provocada pelo desmembramento do início dos anos 90. Logo em 1996, Evgeny Primakov foi designado ministro dos Estrangeiros e, para além de alterar o plano do governo sobre o Atlântico, depois de ter conhecimento da agressão dos EUA contra a Yugoslávia, inverteu a política externa russa que, depois disso, nunca mais seguiu o curso dos EUA.

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Charge sobre o breve conflito da Ossétia do Sul (2008). Imagem: internet.

Dois anos e meio depois, recomendou Igor Ivanov para seu sucessor, que lentamente (quase imperceptivelmente), mas com segurança, continuou a reforçar a diplomacia russa. Foi sucedido em 2004 pelo atual ministro dos Estrangeiros, Sergey Lavrov, sob cuja liderança a diplomacia acumulou recursos suficientes para mudar duma posição de defesa para uma posição de ataque decisivo.

Destes três ministros, só Ivanov recebeu a medalha de Herói da Federação Russa, mas estou convencido de que tanto o seu antecessor como o seu sucessor também mereciam essa distinção.

Deve dizer-se que a cumplicidade de casta e o conservadorismo saudável do corpo diplomático contribuíram para uma rápida recuperação do trabalho do ministro dos Estrangeiros. A lentidão e o tradicionalismo de que os diplomatas são acusados ajudaram muito. O “Kozyrevshchina” [a palavra deriva do nome de Andrei Kozyrev, o ministro dos Estrangeiros em 1990-1996; a palavra significa “agir como Kozyrev”, isto é, de modo subserviente contra os seus próprios interesses – NT para inglês) nunca contaminou o Ministério dos Estrangeiros porque não se adequava.

Período de consolidação interna 

Voltemos a 1996. A Rússia está no fundo do poço, economicamente, mas o incumprimento de 1998 ainda está para chegar. Os EUA desprezam totalmente o direito internacional, substituindo-o por ações arbitrárias. A NATO e a União Europeia preparam-se para alterar as fronteiras russas.

A Rússia não tem como reagir. A Rússia (tal como a URSS anteriormente) pode aniquilar qualquer agressão em 20 minutos, mas ninguém pretende pôr isso em prática. Qualquer desvio da linha aprovada por Washington, qualquer tentativa de exercer uma política externa independente levaria ao estrangulamento econômico e à subsequente desestabilização interna – naquela época o país vivia com créditos do Ocidente.

A situação complica-se ainda mais pelo facto de que, até 1999, o poder está nas mãos da elite compradora dependente dos EUA (tal como a da atual Ucrânia) e, até 2004-2005, os compradores continuam a lutar pelo poder com a administração patriótica de Putin. A última batalha de retaguarda travada pelos compradores perdedores foi uma tentativa de revolução em 2011, na praça Bolotnaya. O que teria acontecido se eles tivessem feito essa jogada em 2000, quando tinham uma vantagem esmagadora?

Os líderes russos precisavam de tempo para a consolidação interna, para a restauração dos sistemas econômicos e financeiros, garantido a sua autonomia e independência do Ocidente e reconstruindo um exército moderno. E, por fim, a Rússia precisava de aliados.

Os diplomatas tinham uma missão quase impossível. Era necessário, sem se desviarem de questões fundamentais, consolidar a influência da Rússia nos estados pós-soviéticos, aliar-se com outros governos que resistiam aos EUA, fortalecê-los, se possível, tudo isso criando a ilusão em Washington de que a Rússia é fraca e está disposta a concessões estratégicas.

A ilusão da fraqueza da Rússia

Uma prova de que esta tarefa foi realizada com êxito são os mitos que continuam a viver entre alguns analistas ocidentais e na “oposição” russa pró-americana. Por exemplo, se a Rússia se opõe a qualquer situação de aventureirismo ocidental, está “a fazer ‘bluff’ para salvar a cara”, as elites russas estão totalmente dependentes do Ocidente porque “o dinheiro delas está lá”, “a Rússia está a vender os seus aliados”.

No entanto, os mitos de “foguetões enferrujados que não voam”, “soldados esfomeados que constroem casas de campo para generais”, e uma “economia em farrapos” já desapareceram. Só os marginais acreditam neles, não porque sejam incapazes, mas porque têm demasiado medo para reconhecer a realidade.

Estas ilusões de fraqueza e disposição para recuar, que levaram o Ocidente a acreditar que a questão russa estava resolvida e evitaram ataques políticos e econômicos a Moscou, deram à liderança russa um tempo precioso para as reformas.

Naturalmente, o tempo nunca é demais, e a Rússia teria preferido adiar a confrontação direta com os EUA, que começou em 2012-2013, por mais três ou cinco anos, ou mesmo evitá-la de todo, mas a diplomacia ganhou 12 a 15 anos para o país – um enorme período de tempo no atual mundo em rápida transformação.

 A diplomacia russa na Ucrânia

 Para poupar espaço, vou dar apenas um exemplo muito claro, muito relevante na atual situação política.

As pessoas continuam a criticar a Rússia por não contra-atacar os EUA na Ucrânia, de modo suficientemente ativo, por não ter criado uma “quinta coluna” pró-Rússia para contrabalançar a pró-americana, por trabalhar com as elites, em vez de com a população, etc. Vamos avaliar a situação, com base nas capacidades reais, em vez dos desejos.

Apesar de todas as referências à população, é a elite que determina a política do estado. A elite ucraniana, em todas as suas ações, sempre foi e continua a ser anti-russa. A diferença é que a elite ideologicamente nacionalista (que se está a tornar nazi) era abertamente russofóbica, enquanto que a elite econômica (compradora, oligárquica) era simplesmente pró-ocidental, mas não levantava problemas às ligações lucrativas com a Rússia.

Gostava de relembrar que não eram outros senão os representantes do Partido das Regiões, supostamente pró-russo, quem se gabava de não permitirem negócios russos na bacia do Donets. Também foram eles que tentaram convencer o mundo de que eram melhores para a integração no Euro do que os nacionalistas.

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Charge sobre a situação política ucraniana. Imagem: internet

O regime de Yanukovich-Azarov precipitou a confrontação econômica com a Rússia em 2013, exigindo que, apesar da assinatura do tratado de associação com a União Europeia, a Rússia retivesse e até reforçasse o regime favorável com a Ucrânia. Afinal, Yanukovich e os seus comparsas do Partido das Regiões, embora tivessem poder absoluto (2010-2013), apoiaram os nazis, financeira, informativa e politicamente. Elevaram-nos do seu nicho marginal à política dominante a fim de terem um adversário conveniente nas eleições presidenciais em 2015, enquanto suprimiam qualquer atividade informativa pró-russa (para não falar da política).

O Partido Comunista Ucraniano, embora mantendo a retórica pró-russa, nunca visou o poder e desempenhou um papel de conveniente oposição leal, apoiando indiretamente os oligarcas, canalizando a atividade de protesto em espaços seguros para quaisquer poderes (inclusive os atuais).

Nestas condições, qualquer tentativa russa de trabalhar com as ONGs ou criar meios de comunicação pró-russos seria considerada uma ingerência nos direitos dos oligarcas ucranianos para se apoderarem do país, o que provocaria uma maior fuga do oficialato ucraniano para o Ocidente, vista por Kiev como um contrabalanço em relação à Rússia. Os EUA, muito naturalmente, veriam isso como uma transição da Rússia para um confronto direto e apoiariam as elites pró-ocidentais em todo o espaço pós-soviético.

Nem em 2000, nem em 2004, a Rússia estava preparada para um confronto aberto com os EUA. Mesmo quando isso aconteceu em 2013 (e não foi por opção de Moscovo), a Rússia precisou de quase dois anos para mobilizar os seus recursos a fim de dar uma forte resposta na Síria. A elite síria, em contraste com a ucraniana, desde o início (em 2011-2012) rejeitou a opção de comprometimento com o Ocidente.

Foi por isso que, durante 12 anos (desde a ação “a Ucrânia sem Kuchma”, que foi a primeira tentativa sem êxito dum golpe pró-americano na Ucrânia), a diplomacia russa trabalhou em duas tarefas essenciais.

A primeira foi manter a situação na Ucrânia num equilíbrio instável; a segunda, convencer a elite ucraniana de que o Ocidente era um perigo para o seu bem-estar, enquanto a reorientação para a Rússia era a única forma de estabilizar a situação e salvar o país e a posição da própria elite.

A primeira tarefa foi realizada com êxito. Os EUA só em 2013 conseguiram alterar a Ucrânia do modo multidirecional para o modo de ariete anti-russo, depois de terem gasto imenso tempo e recursos e de terem arranjado um regime com enormes contradições internas, incapaz de existir independentemente (sem um crescente apoio americano). Em vez de usarem os recursos ucranianos, os EUA foram forçados a gastar os seus próprios recursos para prolongar a agonia do Estado ucraniano, destruído pelo golpe.

A segunda tarefa não foi realizada devido a razões objetivas (independentes dos esforços russos). A elite ucraniana revelou-se totalmente inadequada, incapaz de raciocínio estratégico, de avaliação dos riscos e vantagens reais e a viver sob a influência de dois mitos.

Primeiro – o Ocidente ganharia qualquer confrontação com a Rússia e partilharia o espólio com a Ucrânia. Segundo – não era necessário nenhum esforço, exceto a inabalável posição anti-russa, para uma existência confortável (à custa do financiamento ocidental). Numa situação de escolha entre uma orientação para a Rússia e para a sobrevivência, ou de alinhamento com o Ocidente e com a morte, a elite ucraniana escolheu a morte.

No entanto, mesmo perante a opção negativa da elite ucraniana, a diplomacia russa conseguiu obter a máxima vantagem. A Rússia não se deixou afundar numa confrontação com o regime ucraniano, forçando Kiev e o Ocidente a um cansativo processo de negociação nos bastidores duma moderada guerra civil e excluindo os EUA do formato Minsk. Concentrando-se nas contradições entre Washington e a União Europeia, a Rússia conseguiu sobrecarregar financeiramente o Ocidente com a Ucrânia.

Em consequência, a posição inicialmente consolidada de Washington e Bruxelas desintegrou-se. Contando com uma guerra relâmpago político-diplomática, os políticos europeus não estavam preparados para uma confrontação prolongada. A economia da União Europeia não podia sustentá-la. Por seu turno, os EUA não estavam preparados para aceitar exclusivamente Kiev na sua folha de pagamentos.

Hoje, após um ano e meio de esforços, a “velha Europa”, que determina a posição da União Europeia, como a Alemanha e a França, abandonou totalmente a Ucrânia e está a procurar uma forma de estender a mão à Rússia, passando por cima dos países limítrofes pró-americanos (Polônia e bálticos) da Europa de Leste. Até Varsóvia, que costumava ser o principal “defensor” de Kiev na União Europeia, aponta abertamente (embora semioficialmente) para a possibilidade de dividir a Ucrânia, depois de ter perdido a fé na capacidade das autoridades de Kiev para controlar todo o país

.Na comunidade política e de peritos ucranianos cresce a histeria sobre “a traição da Europa”. O oligarca Sergey Taruta, antigo governador da região de Donets (nomeado pelo regime nazi), afirma que o seu país só dura oito meses. O oligarca Dmitry Firtash (que tinha a reputação do “fazedor de reis” ucraniano) prevê a desintegração já na próxima primavera.

Tudo isto, calma e imperceptivelmente, sem utilização de tanques e de aviação estratégica, foi conseguido pela diplomacia russa. Conseguido numa dura confrontação com o bloco dos países mais poderosos, militar e economicamente, partindo duma posição muito mais fraca e com os aliados mais peculiares, alguns dos quais não muito satisfeitos com o crescente poder russo.

Reviravolta no Médio Oriente 

Em paralelo, a Rússia conseguiu regressar ao Médio Oriente, manter e desenvolver a integração no espaço pós-soviético (União Econômica Eurasiática), juntamente com a China alargar um projeto de integração eurasiático (Organização de Cooperação de Xangai) e iniciar, via BRICS, um projeto de integração global.

Infelizmente, o espaço limitado não me permite analisar em pormenor todas as ações estratégicas da diplomacia russa, nos últimos 20 anos (desde Primakov até ao dia de hoje). Um estudo abrangente ocuparia muitos volumes.

No entanto, quem quiser tentar responder honestamente a como a Rússia conseguiu, num prazo de 20 anos, sem guerras nem revoluções, passar do estado de uma semicolonia para o estado de líder mundial reconhecido, terá que notar as contribuições de muita gente da Praça Smolenska (onde se situa o Ministério dos Estrangeiros – NT). Os seus esforços não toleram espalhafato nem publicidade, mas sem sangue e sem vítimas colhem resultados comparáveis aos conseguidos por exércitos de muitos milhões, durante muitos anos.

As valentes mulheres combatentes curdas

Por: César A. Ferreira

Dá-se que não havia muito que fazer. A situação do pequeno grupo de combate, composto apenas por mulheres era desesperadora, desprovidas de água, ou qualquer espécie de víveres, pouquíssimas granadas, sem RPG algum que fosse, munição no fim, quase esgotada, isoladas e sem esperança de fogo de cobertura. A posição tornara-se insustentável, como bem sabia a comandante daquele desgraçado grupo feminino, a experiência de combate que já era muita para um corpo tão jovem assim lhe dizia. A regra da guerra manda que em tal situação a rendição se imponha, todavia, o inimigo do outro lado da colina era bem conhecido, e o destino que as aguardava, bem sabiam as valentes guerreiras, seria pior do que a morte.

O grupo de combate havia lutado bem, segurado um ponto importante por dias. A comandante, bela mulher e mãe de dois filhos, Deilar Kanj Khamis, conhecida pela alcunha de Arin Mirkan, por conhecer bem a psicologia do inimigo, concebeu um plano cujo resultado não poderia prever, mas que por certo permitiria uma pequena chance para as suas comandadas debandarem-se em fuga na direção das linhas curdas. O plano era simples: solicitar uma trégua para negociar a rendição das suas comandadas, mas, portando discretamente explosivos em seu corpo, para então detoná-los quando estivesse cercada de combatentes inimigos. A ideia era que a sua imolação viesse a permitir a fuga das demais combatentes curdas devido a distração proporcionada.E assim se deu, Arin MIrkan anunciou a intenção de ser render, caminhou até as linhas próximas dos militantes que as assediavam e quando viu-se cercada por mais de duas dezenas de curiosíssimos militantes da jihad, explodiu-se! Na época apontaram 10 islamitas mortos, mas hoje se sabe que a contagem é de 23… As suas comandadas empreenderam fuga, cuja sorte foi diversa, algumas sobrevivendo para combater outro dia, outras, vitimadas pelas balas inimigas.

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Arin Mikan, heroína curda que realizou auto – sacrifício em benefício das suas comandadas. Foto: internet.

O interessante da história de Arin MIrkan não é apenas o seu heroísmo, ou o fato de ser uma combatente do sexo feminino, algo aliás muito comum entre os curdos da Síria, mas o fato da habilidade de combate desta joven não ser algo incomum. Elas (as jovens combatentes) impressionaram os observadores norte-americanos destacados para realizarem reconhecimento e inteligência no terreno em favor da campanha da USAF contra o Estado Islâmico em Kobane.  Mostram-se rápidas, coordenadas, precisas e muito decididas, verdadeiras especialistas no combate urbano. Conhecem a fraqueza psicológica do inimigo, que teme ser morto por uma mulher, pois assim não terá a recompensa no paraíso (72 duas virgens e um palácio). Dado que a cidade, Kobane, tornou-se, com razão, em  uma analogia viva de Stalingrado, salta os olhos a comparação com a cidade símbolo da Grande Guerra Patriótica, onde mulheres combateram, como aliás o fizeram por todo o conflito. Em suma, as mulheres soviéticas combateram bem na década de 40 do século passado e as mulheres curdas fazem o mesmo, agora, neste início de século XXI.

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A mítica guerreira “Rehana” na Kobane libertada e em 22 de agosto de 2014, junto ao seu grupo de combate. Foto: internet.

Outra heroína, que inadvertidamente acabou em uma história controversa atende pela alcunha de guerra de Rehana, a esta mulher, que detém o comando de um pelotão, lhe é imputada a cifra aproximada de 100 jihadistas mortos. O Estado Islâmico, que possui um grande senso midiático, lançou na mídia imagens de uma combatente curda morta em combate com semelhança física àquela da heroína Rehana. Isto seguido da imagem da combatente decapitada, como é o costume bárbaro destes insurgentes. Os curdos, todavia, mostraram após o fim dos combates em Kobane, com a cidade pacificada após a expulsão dos extremistas, a dita combatente viva, em trajes civis, comprovando assim a sua sobrevivência e desmascarando a farsa midiática do Estado Islâmico. Não é uma novidade, diga-se, pois o Estado Islâmico lança mão de forma recorrente destas manipulações para destruir a moral inimiga via propaganda. Recentemente, por exemplo, lançaram a imagem de um combatente iraquiano morto, como sendo Abu Azrael, conhecido pela alcunha de “Rambo Iraquiano”, ou “Anjo da Morte”, ao qual se atribui a eliminação de 1.500 extremistas, no entanto, ele apresentou-se, vivo, para a TV iraquiana. Estas manipulações propagandísticas, entretanto, voltam-se contra o Estado Islâmico, pois acabam por marcar seus combatentes também como troféus, alvos procurados. É o caso do combatente do Estado Islâmico que apareceu nas imagens que correram o mundo segurando a cabeça decepada de uma jovem combatente curda pelas tranças, seu nome Abu Ansari Uveys, ou Abu Uveys Ansari, que seria cidadão do reino da Arábia Saudita. Foi morto dias após a realização das fotos que teriam se dado no dia 5 de outubro de 2014, pois as ações que culminaram em sua morte deram-se no dia 08 de outubro de 2014, três dias após.

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Abu Ansari Uveys, ou Abu Uveys Ansari, terrorista do EI afamado pela imagem da jovem curda decapitada, que o EI afirmou ser a mítica “Rehana”. A alegação do EI era falsa. Abu foi morto poucos dias depois por um ataque aéreo da coalizão ocidental. Foto: internet.

Como exemplo de guerreira curda emblemática envolvida em Fog Of War, temos a bela jovem Ceylan Özalp, 19 anos de idade e comandante de um grupo de combate feminino (YPJ). Tida como vítima de um suicídio por ver-se cercada por elementos do EI, foi posteriormente relatada como viva, sobrevivente, e ainda no comando do seu grupo de combate. A autora do relato que desmentiu a versão da autoimolação da jovem foi Ayla Akat Ata, advogada do PKK, partido dos trabalhadores do Curdistão (Turquia), que informou o jornalista de origem curda Müjgan Halis sobre a falsidade da história que envolvia a jovem combatente, que apesar de inspiradora, uma jovem guerreira que se mata para não ser seviciada, barbarizada, degolada e mutilada pelos selvagens extremistas do EI, não era um fato verídico, ademais, mais vale uma guerreira viva do que uma heroína morta. A história, por certo apareceu devido a uma entrevista cedida por Ceylan Özalp ao correspondente britânico da BBC, na qual dizia que não cairia viva em poder do EI, pois tinha sempre reservada uma ultima bala para si.

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A bela Ceylan Özalp, cujo falso suicídio correu o mundo. A jovem combatente, até esta data, 21.12.2015, está viva e alistada ao YPJ. Foto: Internet. 

A qualidade destas mulheres, como guerreiras, é constantemente observada, e aquelas que demonstram capacidade de comando são rapidamente alçadas. Respeitadas, combatem junto com os homens, lideradas, ou liderando-os.  Estes por sua vez aceitam sem restrições as ordens de uma comandante, visto que dela emana, antes de tudo, experiência e capacidade de combate comprovada em ações reais. Este é o caso de Narin Afrin, codinome guerreiro de Mayssa Abdo. Comandante de frações do YPJ, a esta mulher, tida como culta e inteligente, agregou-se a qualidade de ser extremamente serena quando submetida a grande pressão, bem como de tomar, sempre, decisões lúcidas e acertadas nestas situações extremas. Todavia, apesar de não haver restrições às formações mistas, o que se vê, em geral, são mulheres combatendo juntas. Isto, por ironia constitui em uma força a mais para os curdos, dado a supertição dos terroristas islâmicos, de que lhes será vedado o paraíso com 72 virgens e um palácio caso sejam mortos por mulheres. Ao se verem defronte a pelotões femininos, não raro, paralisam-se e passam a combater com cuidado extremado, entretanto, quando em superioridade inconteste, agem com extrema brutalidade, como a descontar a ofensa de serem enfrentados por infantes do sexo feminino.

As mulheres compõem a denominada YPJ, sigla para Yekineyên Parastina J, em português, Força de Autodefesa Feminina, agregada a Força de Autodefesa do Povo, YPG. Antes compostas em uma Brigada, somam agora os valores de uma Divisão, com cerca de 10.000 combatentes alistadas, o que equivale a algo próximo da metade do efetivo curdo na Síria. As suas lideranças, via – de – regra, são femininas, muitas delas jovens, com a experiência de combate a listar àquelas com vocação de comando. Não é raro ver meninas com 19 anos comandando grupos de combate de mulheres, todavia, a maioria das comandantes possui uma idade maior. Menores de 18 anos não são aceitas nas fileiras combatentes, mas podem ser treinadas para assumirem o posto quando atingirem a idade mínima. A idade limite para admissão é de 40 anos, mas pode ser relativizado caso a candidata demonstre real capacidade física para o trato militar. Longos percursos de marcha são comuns, e elas o fazem deslocando-se com o equipamento, sem suporte motorizado, ou animal. São hábeis para montar pontos fortes e emboscadas, como todos os combatentes da região exibem uma predileção por armas automáticas, em especial para com as velhas PKM (metralhadoras de origem russa para apoio de fogo). Em Kobane as combatentes curdas foram relatadas como compondo entre 1/3 e ½ do total do efetivo curdo empregado na defesa da cidade. Em geral apresentam-se com fardamentos verdes, ou camuflados de verde, vestes negras não são incomuns e portam o indefectível AK-47. Além dos carregadores, ou seja, da munição, pouco mais que um cantil é visto. A prioridade, portanto, é de se manter leve, para movimentar-se com rapidez e destreza, pois a lentidão pode ser a sentença de morte de um infante no combate urbano. Não foram vistos equipamentos de proteção como capacetes, ou coletes balísticos. Concorre para tanto, as exigências do teatro de guerra, quente, árido, ou semi-árido, pedregoso e por vezes arenoso.

Curdas com metralhadora
Mulheres combatentes do YPG municiam uma arma automática. Foto: internet.

A presença feminina entre as forças curdas da Síria, de maneira tão constante e presente, acabou por ressaltar nos EUA uma discussão sobre a presença da mulher em unidades combatentes. Presente há muito em forças auxiliares, logísticas, as mulheres nas armas americanas, por força da pressão social, acabaram por assumir posições em unidades de infantaria nas frentes de batalha.  Não tardaram aparecer reclamações quanto a queda de qualidade das formações de infantaria, dado a constatação da maior ocorrência de lesões entre as mulheres, bem como menor status físico geral (força, explosão, resistência). Algo que foi replicado com imagens de soldadas com extremo preparo físico, algo próximo ao fisiculturismo e com o discurso igualitário pautado em exemplos. Entretanto, um escândalo recente em que um comandante, General Miller, Forte Benning, de acordo com a jornalista Susan Keating, do veículo The People, 25.09.2015, em vista de um concurso para tropa de elite do USARMY (Rangers), realizou um programa de treinamento físico específico para candidatos do gênero feminino, algo negado aos soldados homens, fez reavivar a discussão no tocante a presença da mulher na infantaria em missões de choque. Isto, devido ao fato de que com todo  o preparo específico ficou a selecionada na rabeira do grupo. Outro registro que suscitou comentários sobre o valor da mulher combatente deu-se em função de um vídeo veiculado no Youtube, onde uma oficial, Capitã Sarah Cudd, finaliza um exercício de marcha de 12 milhas, no limite de tempo de três horas (2hs e 46min) em pleno estado de esgotamento físico. No vídeo outros soldados emitem vozes de estímulo, dado que não poderiam ajudá-la fisicamente, pois isto a desclassificaria.

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A Capitã Sarah Cudd sofre para terminar a sua prova de marcha de 12 milhas. Foto: internet.

Esta discussão para os EUA faz todo o sentido, visto que as armas nacionais dos EUA estão geralmente em combate fora das suas fronteiras, como forças invasoras. Sabe-se que o invasor precisa sentir-se confortável para empreender o combate em solo inimigo. Este conforto advém da superioridade tecnológica por ele sentida, no espírito de corpo coeso, na sensação de que suas formações são invencíveis. A presença da mulher, aqui, se encaixa como uma incógnita. Se o infante perceber que o desempenho dela é inferior ao esperado de um infante masculino, sentir-se-á inseguro, ou pior, tentado a protegê-la a todo custo, comprometendo o trabalho do grupo de combate como equipe. Estes fantasmas somem quando se vê o pressuposto soviético, ou curdo: as mulheres defendem os seus lares contra um agressor brutal e insano. Antes eram os nazistas e fascistas ucranianos que matavam e estupravam, agora são os islamitas fanáticos, que degolam, seviciam, escravizam e estupram suas vítimas. As mulheres curdas, tal como as suas antecessoras soviéticas lutam pelas suas vidas, mas principalmente pelas dos seus filhos. Conhecem o destino reservado aos seus, caso haja uma vitória do medievalismo wahabbita. Não é uma questão de escolha, mas de sobrevivência. E nós sabemos, muito bem, que quando o destino da prole está em jogo as mulheres superam todas as barreiras havidas… Tornam-se leoas!