A loucura do Império aproxima a Rússia da Alemanha

Por: Pepe Escobar

Tradução: coletivo de tradutores da Vila Vudu.

Com Orwelliana maioria de 99%, que encheria de orgulho a dinastia Kim na Coreia do Norte, o Capitólio da “democracia representativa” passou como trator e aprovou o mais recente pacote de sanções da Câmara/Senado, que visa principalmente a Rússia, mas também atira contra Irã e Coreia do Norte.

O anúncio pela Casa Branca – no final da tarde da 6ª-feira – em pleno verão – de que o presidente Trump aprovou e assinará a lei acabou literalmente soterrado no ciclo do noticiário tomado completamente, 24h/dia, sete dias por semana, pela histeria relacionada ao chamado “russiagate”

Trump terá de justificar por escrito, ao Congresso, qualquer iniciativa para suavizar as sanções contra a Rússia. E o Congresso pode iniciar revisão automática de qualquer iniciativa dessa natureza.

Tradução: já soou o dobre de Finados de qualquer possibilidade de a Casa Branca vir a reiniciar melhores relações com a Rússia. O Congresso de fato está só ratificando a campanha em curso de demonização da Rússia, orquestrada pelo establishment do estado profundo neoconservador e neoliberal/Partido da Guerra.

Já há guerra econômica declarada contra a Rússia há, pelo menos, três anos. A diferença é que esse mais recente pacote também declara guerra econômica contra a Europa, especialmente a Alemanha. As sanções estão centradas no front da energia, demonizando a implantação do gasoduto Nord Stream 2 e forçando a União Europeia a comprar gás natural dos EUA.

Que ninguém se engane. A liderança da União Europeia revidará. Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia disse-o até bem gentilmente: “‘EUA em primeiro lugar’ não pode significar que os interesses da Europa ficam em último”.

No front da Rússia, o que o Império das Sanções está conseguindo não pode ser visto nem como vitória rasa. Kommersant já noticiou que Moscou, dentre outras ações, retaliará com banir do mercado russo todas as empresas norte-americanas de Tecnologia da Informação e todos os produtos da agricultura dos EUA; também deixará de exportar titânio para a empresa Boeing (30% do titânio com o qual a Boeing trabalha é importado da Rússia).

No front da parceria estratégica Rússia-China, tentar limitar os negócios de energia Rússia-União Europeia só levará a maisswaps [trocas de moeda] entre o rublo e o yuan – plataforma chave para o mundo multipolar pós-dólar.

E há também o grande fator que possivelmente alterará todo o jogo: o front alemão.

O(s) louco(s) na colina [The Fools on the Hill*]

Mesmo sem considerar o recorde histórico sideral de número de vezes em que Washington não apenas interferiu, mas bombardeou vastas porções do planeta, para mudar regimes – do Iraque e Líbia até as atuais ameaças contra Irã, Venezuela e Coreia do Norte –, a histeria do russiagate em torno de a Rússia ter/não ter interferido na eleição presidencial de 2016 nos EUA é antinotícia, e hoje já completamente desmoralizada.

O xis da questão é, mais uma vez, as guerras de energia.

Segundo uma fonte norte-americana no setor de energia, com base no Oriente Médio e que não é refém do consenso da Av. Beltway, “a mensagem nessas sanções é que a União Europeia não teria futuro a menos que compre o gás natural dos EUA, para expulsar a Rússia. Negar à Rússia o mercado de gás natural da União Europeia sempre foi o objetivo por trás da guerra que os EUA acabam de perder na Síria, para implantar o gasoduto Qatar-Arábia Saudita-Síria-Turquia-União Europeia e abrir o Irã para um gasoduto Irã-Iraque-Síria-Turquia-União Europeia. Nenhum desses planos dos EUA funcionaram”.

A fonte acrescenta como prova, a guerra de preços do petróleo de 2014 contra a Rússia, orquestrada pelo “poder que o superávit de petróleo ou as próprias reservas garantem aos Estados do Golfo, para fazer dumping no mercado mundial. Depois que nada disso conseguiu dobrar a Rússia, tornou-se prioridade nacional para os EUA destruir o mercado russo de gás natural”.

No pé em que estão as coisas, 30% de todas as importações de petróleo e de gás natural da União Europeia vêm da Rússia. Paralelamente, a parceria Rússia-China de energia vai sendo progressivamente fortalecida. A Rússia já está posicionada para aumentar todas as exportações de petróleo e gás para China e para toda a Ásia.

A liderança em Berlim está agora convencida de que Washington está pondo em perigo a diversificação e a segurança energéticas da Alemanha, com essa guerra de sanções. O gás natural e o petróleo russos são protegidos em rotas terrestres e não dependem de transporte por oceano, o qual, como insiste minha fonte, “já não está sob controle dos EUA. Se a Rússia, em resposta à beligerância dos EUA, deixar cair uma Cortina de Ferro sobre a Europa, e redirecionar todas as suas exportações de gás natural e petróleo para China e Ásia, a Europa ficará condenada a depender de fontes instáveis e não seguras de gás natural e de petróleo, como o Oriente Médio e a África”.

E isso nos leva à possibilidade “nuclear” que há no horizonte: um alinhamento Alemanha-Rússia, num Tratado de Resseguro [ing. Reinsurance Treaty] como firmado pela primeira vez por Bismarck. A Think-tankelândia ligada à CIA discute hoje ativamente essa possibilidade.

Outra fonte ativa no business e na política dos EUA, também ativo praticante da arte de pensar fora da caixa do Departamento de Estado, destaca que “é disso que se trata. Esse sempre foi o verdadeiro objetivo da Rússia, e os EUA caíram na armadilha. Os EUA estão fartos de Alemanha e consideram fazer dumping contra produtos alemães nos EUA, com manipulação da moeda. Agora estão ameaçando a Alemanha com sanções, e não há o que a Alemanha possa fazer, com a União Europeia às suas costas enfrentando vetos da Polônia, que outra vez causam problemas aos alemães. Os doidos no Congresso estão mesmo à caça da Alemanha. E com isso estão jogando a Alemanha nos braços da Rússia”.

EUA, a nova Cartago

Uma possível aliança Alemanha-Rússia, como já escrevi, consuma a entente China/Rússia/Alemanha capaz de reorganizar toda a Eurásia continental.

A parceria estratégica Rússia-China, que facilita o acesso via Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE) é extremamente atraente para obusiness alemão. Segundo minha fonte business/política, “Os EUA estão em guerra com China e Rússia (mas não Trump, nosso presidente), e a Alemanha está reconsiderando a situação em que ficará, de bucha de canhão nuclear para os EUA. Discuti isso na Alemanha, e eles estão pensando em renovar o Tratado de Resseguro com a Rússia. Ninguém confia nesse Congresso dos EUA. É visto como um hospício, casa de doidos. Merkel pode ser convidada para a liderança na ONU, e nesse caso o tratado será assinado. Sacudirá o mundo e porá fim a qualquer ideia que reste sobre os EUA como potência global, que já não são”.

A fonte acrescenta, em tom de quase euforia, que “achamos que Brzezinski morreu por efeito da pressão de compreender o que se aproximava e de ver que todo o trabalho dele, uma vida dedicada a tentar destruir a Rússia por causa do ódio que tinha à Rússia, estava começando a ser desfeito”.

Assim, em certo sentido, “bem-vindos aos anos 1930s outra vez, e ao crescimento do nacionalismo na Europa. Dessa vez, a Alemanha não cometerá os erros de 1914 e 1941, mas se posicionará contra seus tradicionais inimigos anglo-saxões. Os EUA realmente se converteram na Cartago de hoje. A desordem no Congresso norte-americano reflete estupidez idêntica à que se viu em Cartago, quando os exércitos cartagineses provocavam Roma. Os políticos cartagineses minaram o seu próprio gênio, Aníbal, assim como os políticos dos EUA estão minando o maior presidente que os EUA já tiveram desde Andrew Jackson. Como Sófocles escreveu em Antígona, ‘Os deuses primeiro enlouquecem àqueles a quem querem destruir'” O Congresso dos EUA enlouqueceu.

Nota dos tradutores: (*) Há um trocadilho intraduzível com “hill” [colina, como na canção dos Beatles] e “Hill”[que designa a específica colina do Capitólio, com Senado e Câmara de Representantes dos EUA]. E na canção dos Beatles trata-se de um específico doido, no singular; no subtítulo de Pepe Escobar, são vários doidos, plurais (NTs).

HSV-2 dos EAU é colocado à pique pelo Ansarullah

Belonave produzida na Austrália pelos estaleiro Incat e que já foi operada pela USNAVY, encontrou o seu fim na costa do Yemen.

Por: César A. Ferreira

No dia 30 de setembro último, as forças de defesa do Yemen obtiveram um sucesso estrondoso: o afundamento espetacular do vaso de alta velocidade, em inglês High Speed Vessel, HSV-2, navio de apoio logístico da Marinha dos Emirados Árabes Unidos.

A belonave em questão operava em apoio as operações de combate na região costeira adjacente à cidade portuária de Mokha, onde intensos combates são travados, sabe-se, ao menos, da presença de 22 fuzileiros dos EAU, dado que este número foi contabilizado como de baixas em combate. Em imediato houve um comunicado emitido pelas forças conjuntas dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita negando o ocorrido, que foi seguido, após as evidências em imagens incontestáveis da vitória iemenita, de que a belonave em questão encontrava-se em “missão humanitária”, isto, conforme visto, em uma área costeira onde se travam combates intensos…

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Colagem de frames do vídeo disponibilizado na internet. Fonte: Al-Masdar News.

O vetor para o ataque realizado contra o vaso logístico não foi anunciado, todavia, acredita-se que tenha sido um míssil anti-navio C-802, de fabricação chinesa, ou a sua versão produzida no Irã, o “míssil “Noor”. Portanto, o ataque evidencia a capacidade de emprego de vetores com alto grau de tecnologia agregada. Não foi veiculado de qual plataforma partiu o vetor, se de uma bateria costeira, ou de uma embarcação rápida.

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Míssil iraniano Noor, versão iraniana do afamado C-802 sino, disparado de uma bateria de artilharia de costa. Imagem: internet.

A embarcação destruída pelos combatentes da milícia Ansarullah era um catamarã, capaz de navegar a 45 nós em emergência e de perfazer um cruzeiro a 30 nós. Suas dimensões eram de 98 metros de comprimento, 27 metros de largura e um calado de apenas 3,50 metros. A tripulação usual era a de 35 oficiais e marinheiros, e sua capacidade de transporte era a de mais de 100 fuzileiros armados e seus complementos.

A Rússia e o seu entorno

Por: César A. Ferreira

É difícil explicar para os leitores desacostumados com matérias afeitas aos assuntos sobre geopolítica e de defesa, sobre os interesses da Rússia , suas ações e o modo de agir do seu dignitário, dado o fato que estes mesmos leitores são bombardeados, cotidianamente, por matérias ditas “jornalísticas”, publicadas rotineiramente na chamada mídia-empresa, ou grande impressa como é mais comumente denominada no Brasil, que retratam a Rússia como nação agressiva, como se fosse uma espécie de nova “Alemanha Nazista”, liderada por um novo ser diabólico: Vladimir Putin.

Uma forma fácil de entender é esquecer o potencial russo no campo da dissuasão nuclear, incomparável, cujo espelho, único no globo, repousa no arsenal equivalente dos EUA. Focando-se na capacidade econômica e nas armas convencionais, percebe-se, que a Rússia apresenta-se como uma potencia regional, sendo a sua capacidade de intervenção e resposta é mais forte quanto mais próximo estiver o alvo das ações das suas fronteiras. Entende-se, pois, o motivo das pressões intensas dos EUA sobre a França, no tocante aos navios multipropósito da classe Mistral, cuja construção havia sido contratada pelo Ministério da Defesa da República da Rússia junto ao estaleiro STX, DCNS, em contrato então aquiescido e endossado pelo governo francês. Tais navios ampliariam consideravelmente a capacidade de projeção da Marinha da Rússia, e certamente estariam sendo por agora utilizados no chamado “Expresso de Damasco”.

O espaço pós-soviético é o campo óbvio das atenções russas, e ao contrário do que se possa pensar, não é na Europa, mas na Ásia Central, onde a Rússia devota as suas energias. Percebe-se, pois, que os russos perceberam já a algum tempo que o futuro tem morada no Oriente. Este espaço teve a influência ocidental revertida, com muita paciência e trabalho intenso no campo diplomático, de inteligência, bem como no econômico. A exceção notável permanece sendo o Azerbaijão, seduzido que é até a presente data, pelo prometido mercado europeu ao seu gás, que seria viabilizado pelo gasoduto Nabuco… No tocante ao Cáucaso, segue a dor de cabeça no Daguestão, vizinho da Chechênia, agora estabilizada. O Cáucaso e a Ásia Central explicam em grande parte o esforço russo na Síria, dado que lá se dá combate aos mesmos terroristas da jihad que praticam o terror nas republicas da Federação Russa, portanto, a luta na Síria evita que os terroristas “subam a estrada”…

No tocante ao espaço do Oriente Próximo, o apoio ao Governo Sírio, reforça a influência russa na mesma medida que faz declinar a influência turca e saudita. Não se faz necessária, sequer, a vitória completa sobre os terroristas, bastando apenas que a sobrevivência do Governo Sírio seja assegurada, como de fato é o que se observa. No Mar Negro, a espetacular incorporação da península da Criméia fala por si. Espetacular não apenas pelo deslocamento rápido dos efetivos, que subiram em questão de dias para o limite de 32.000, mas, pelas consequências: a Rússia toma posse das reservas de gás do Mar Negro, adjacentes à orla da Criméia, reservas estas que estão ainda por serem exploradas. A ocupação da península presenteou a Rússia com a posse definitiva da Base Naval de Sebastopol, e por extensão, do domínio efetivo do Mar Negro, algo que reflete sobre as demais nações que são banhadas pelo referido mar. Com a posse da península a Rússia garante a segurança das suas linhas de gasodutos que provém do Cáucaso em direção à fronteira ucraniana.

A Ucrânia é um caso aparte. Ela se revela como um desafio proposto pela OTAN desde o golpe da Praça Maidan. Como nação, por si, a Ucrânia não se revela como ameaça, dado que se desmantela, perde capacidade industrial e econômica a olhos vistos desde o rompimento, forçado, dos laços com o complexo industrial russo, seu maior cliente. É por entender o conflito na região do Donbass como uma isca, que a Rússia congelou o mesmo com o Minsk-2, retirando assim o fantasma de ter-se de desdobrar em duas frentes, uma na Síria e outra na sua fronteira ocidental. Não é que seja o conflito ucraniano visto como se fosse de menor importância, mas a sua evolução não se mostra atrativa ao governo da Federação Russa, por representar ganhos relativamente pequenos. Desta maneira, congelado, a Rússia pode armar e treinar os elementos nativos do Donbass com vagar, com um custo menor, podendo sempre que necessário plantar efetivos do outro lado da fronteira para dissuadir o governo ucraniano de tentar algo mais efetivo do que as trocas de fogos de bateria.

Os olhos da Rússia repousam no Oriente, como bem demonstra o acordo amplo feito com a China, no campo energético e de Defesa. Espera-se que os volumes contratados por Pequim venham a gerar algo em torno de 400 bilhões de dólares em 10 anos, o que é uma quantia salutar. A China também é contratante de volumes de gás das ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central e acaba por dividir influência com Moscou nestas repúblicas, mas no tocante ao aspecto de segurança é a Federação Russa a garantidora da paz nestes espaços geográficos, seja pela manutenção de bases com efetivos militares, ou por acordos de cúpula.

Por isto é falsa a ideia plantada de que seja a Federação Russa uma potencia expansiva, dado que se observa apenas uma reocupação de um espaço geoestratégico. Expansão se verifica por parte da OTAN, que avança sobre a fronteira russa e não o contrário. A Rússia exercita o seu papel de potência regional sem se iludir com o domínio global, bastando para si neste momento em alcançar o objetivo clássico acalentado por todo e qualquer coração russo: a segurança das suas fronteiras.

Irã: Nova China?

Por: Pepe Escobar
Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Fonte original: Telesur
Fonte em português: Oriente Mídia

Se o Irã engajar-se com sucesso num programa de desenvolvimento econômico de estilo chinês, ampliará sua significação e o próprio status geopolítico

Hoje, já praticamente se tem de sortear na moedinha, para indicar qual o trabalhador mais ativo e empenhado nos negócios da geopolítica: se Xi Jinping da China, ou Hassan Rouhani do Irã.

As respectivas rotas cruzaram-se espetacularmente semana passada em Teerã, quando Xi e Rouhani firmaram uma parceria estratégica crucial. As duas nações decidiram aumentar o comércio bilateral entre elas para $600 bilhões ao longo da próxima década. Em termos geoestratégicos, como já comentei, foi jogada de mestre(s).

Pequim vê o Irã, não só para o Sudoeste Asiático mas para toda a Eurásia, como o eixo essencial de qualquer movimento que vise a fazer frente ao muito propagandeado “pivô para a Ásia” centrado na hegemonia naval dos EUA. Não surpreende que Xi tenha deixado bem claro que o Irã será integrado à Organização de Cooperação de Xangai (OCX) como membro pleno, ainda durante 2016.

Parceria estratégica implica pleno apoio de Pequim ao renascimento econômico-político-diplomático do Irã em todo o arco que se estende do Golfo Persa ao Cáspio – e além. O arco também cobre todas as cruciais Novas Rotas da Seda marítimas e terrestres, vitalmente importantes para a projeção global do sonho chinês cunhado por Xi.

E então, poucos dias depois, Rouhani já estava em Roma, em afetuoso encontro a portas fechadas com o Papa Francisco, depois de ter assinado $17 bilhões em vários negócios.

Essa atividade frenética pós-sanções só faz ressaltar, em perspectiva, o absurdo que foi a crise nuclear iraniana integralmente fabricada em Washington. Realismo geopolítico na Europa e na Ásia não pode ignorar uma nação localizada na intersecção dos quatro mundos – mundo árabe, mundo turco, mundo indiano e mundo russo – ainda subestimada em seu papel de ponto de entrada e saída para o vasto conjunto Cáucaso-Ásia Central, que também inclui o Afeganistão.

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Imagem meramente especulativa sobre como seria um caça J-10A nas cores da IRIAF. Imagem: internet.

Geostrategicamente, como derradeiro entroncamento eurasiano, o Irã é imbatível, conectando o Oriente Médio, o Cáucaso, a Ásia Central, o subcontinente indiano e o Golfo Persa; entre três mares – Cáspio, Golfo Persa e Mar de Omã; relativamente próximo do Mediterrâneo e da Europa; e junto à porta de entrada para a Ásia.

Xi nem teve de falar sobre política explícita em Teerã; bastou-lhe assinar negócio depois de negócio, que já deixou impressão profunda também no campo político. A tendência de longo prazo, inevitavelmente, é a da visão chinesa de Um Cinturão, uma Estrada, que preencherá o hiato rumo a uma liderança sino-russa em toda a Eurásia, e que se traduz, na prática, em ir deixando de lado o continuum imperial britânico-norte-americano. Ao mesmo tempo, Itália e França, durante o tour europeu de Rouhani, mantiveram-se mutuamente ocupadíssimas brincando de pega-pega.

Quando Khamenei vira Deng

A cena frenética desse Irã pós-sanções afinal interrompe a incansável demonização obrada pelo ocidente e lança as bases para o desenvolvimento econômico em todas as esferas. A República Islâmica do Irã enfrentou tremenda dificuldade ao longo dos últimos 36 anos – tão terrível, que teria partido a espinha dorsal de sociedade menos bem servida de recursos.

Nos últimos dez anos, as sanções custaram ao Irã pelo menos 480 bilhões de euros; equivale a um ano inteiro do PIB iraniano. Em mundo no qual não reinassem os suspeitos de sempre da oligarquia financeira, Teerã teria bases jurídicas e morais para levar Washington aos tribunais, e arrancar-lhe a frio todos os dentes.

Quanto ao meme da “agressão iraniana” – o qual, por falar dele, persiste –, não passa de sórdida piada imperial. O Irã gasta 3,9% do PIB na Defesa; compare com os 10,3% dahacienda de petróleo que é a Casa de Saud. No total, o Irã gasta sete vezes menos em Defesa que as petromonarquias do Golfo, que não sobrevivem sem receber armas de (principalmente) EUA, Grã-Bretanha e França.

A estrada à frente, para o Irã, será cheia de obstáculos. Graves problemas dentre os quais corrupção, burocratas incompetentes e setores econômicos reservados para interesses especiais, ou fechados a qualquer investimento estrangeiro. Setores da elite no poder – como as bonyads (em persa, “fundações religiosas”) e o pasdaran (em persa, o Corpo de Guardas Revolucionários da República Islâmica) – não dão sinais de interesse em abandonar o controle que têm sobre setores vitais da economia nacional. A abertura econômica do Irã acelerará inevitavelmente a transformação social do país.

O que acontecer na sequência dependerá muito das cruciais eleições de fevereiro – que elegerão um novo Majlis (Parlamento) e uma nova Assembleia dos Sábios encarregada de escolher o próximo Supremo Líder.

O Irã é caso geopolítico único – de república cuja legitimidade advém simultaneamente do Islã e do voto universal. Pode não ser a democracia parlamentar ocidental clássica, mas tampouco é variante do autoritarismo nu e cru da Arábia Saudita. Há em ação um sistema complexo de pesos e contrapesos, que envolve a presidência, o Parlamento, o Conselho dos Guardiões, a Assembléia dos Sábios e diferentes corpos como o Conselho do Discernimento e o Conselho de Segurança Nacional.

O Supremo Líder Aiatolá Khamenei deixou muito claro que dedicará atenção especial às consequências de uma abertura econômica que pode debilitar a ideologia revolucionária da República Islâmica. Certo é que o Supremo Líder – como árbitro – preservará o cuidadoso equilíbrio das forças políticas no Irã.

Significa na prática que a Equipe Rouhani não será liberada para extrair ilimitado capital político da abertura econômica, ao mesmo tempo em que a transformação social e cultural do país não será sinônimo de invasão cultural pelo ocidente.

O acordo nuclear firmado em Viena no verão passado foi nada menos que evento geopolítico sísmico no Irã. Internamente, selou um consenso entre a máquina de estado de Teerã e a maioria da população, que desejava que o país voltasse a ser nação “normal”.

Agora vem a parte mais difícil. O cenário mais provável parece ser uma República Islâmica do Irã engajada num programa de desenvolvimento à moda chinesa. Uma espécie deremix persa de “enriquecer é glorioso”, sob estrito controle político.

Aí, há uma pergunta inescapável: estamos todos preparados para o novo papel do Supremo Líder, como um Deng Xiaoping iraniano?

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

Análise: EUA estão encarando uma dura luta com a China

Autor: Wendell Minnick

Tradução: Dinamica Global

Fonte Original: Defense News

23 de janeiro de 2016

Um novo relatório da RAND desafia os militares dos EUA a repensar uma guerra com a China. O relatório examina EUA e capacidades militares chinesas em 10 áreas operacionais, produzindo um “scorecard” para cada um, de quatro anos: 1996, 2003, 2010 e 2017. Cada um dos scorecards avalia capacidades no contexto da geografia e da distância, cada um dos os scorecards avalia capacidades no contexto de dois cenários: uma invasão de Taiwan e uma campanha nas Spratly Islands. Estes cenários centram-se em locais que se encontram cerca de 160 km e 940 km, respectivamente, a partir da costa chinesa.

O relatório de 430 páginas, US-China Militar Scorecard: Forças, Geografia, e o equilíbrio evolutivo do Poder, 1997-2017, foi escrito por 14 estudiosos, incluindo o gênio dos jogos de guerra da RAND, David Shlapak; o especialista Jeff Hagen da modelagem e simulação; Kyle Brady, anteriormente com Lawrence Livermore; e o pesquisador de operações Michael Nixon.

Este relatório é sobre músculo e máquinas, não sobre política e questões políticas. Este é um objetivo “onde a borracha encontra a estrada” análise que olha para as capacidades da China em espancar as bases aéreas dos EUA na região, afundando porta-aviões norte-americanos com novos mísseis balísticos antinavio, e transformando satélites de espionagem e de comunicação americanos em lixo espacial.

O formato do scorecard com a análise dá ao leitor uma sensação de disputa esportiva, sobre como tão ruim as coisas podem ficar para os militares dos EUA em um conflito com a China. Os 10 scorecards de cada particularidade das capacidades relativas norte-americanas e chinesas em cada uma das área operacionais específicas: ar (1-4), marítima (5-6), espaço, cibernética e nuclear (7-10).

Scorecard 1: Capacidade chinesa de ataque a Bases Aéreas.

Desde 1996-97 com a Crise dos Mísseis no Estreito de Taiwan, assumiu-se que a China iria paralisar as bases aéreas de Taiwan com ataques de saturação de múltiplas camadas usando mísseis balísticos de curto alcance (SRBM). Porém, hoje há inclusive a base aérea de Kadena em Okinawa. O número de SRBMs têm crescido desde 1996, de um punhado para cerca de 1.400, e a probabilidade de erro circular encolheu de centenas de metros para menos de cinco metros. Até mesmo um número relativamente pequeno de mísseis precisos poderia inutilizar Kadena durante os dias críticos no início de uma guerra, e “ataques cometidos podem fechar uma única base por semanas”. Isso vai forçar os aviões americanos a voar a partir de distâncias mais longas para se envolver com forças chinesas, por exemplo: Alaska, Havaí e Guam.

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Missil DF-21D, míssil balístico com ogiva direcionável, conhecido como “Carrier Killer”, ou “Assassino de Porta-Aviões”. Imagem: internet.

Scorecard 2: Campanhas aéreas sobre Taiwan e as Spratly Islands.

A China substituiu metade da sua frota de caças com caças de quarta geração. O impacto desse esforço tem sido próximo, mas não perto, da diferença qualitativa entre as forças aéreas dos Estados Unidos e da China. No entanto, isso levou a problemas gradativos dificultando a proteção de Taiwan em 2017. Nesse ano, os “comandantes dos Estados Unidos seriam incapazes de encontrar o embasamento necessário para as forças dos EUA prevalecerem em uma campanha de sete dias”, mas, eles poderiam deixar de lado a exigência de tempo e prevalecer em uma campanha mais prolongada, mas isso implicaria deixar as forças terrestres e navais vulneráveis ​​às operações aéreas chinesas por um longo período de tempo.

Scorecard 3: Penetração dos EUA sobre o espaço aéreo chinês.

Os avanços da China na defesa aérea têm tornado mais difícil de operar no espaço aéreo ou nas proximidades chinesas. Em 1996, os sistemas superfície-ar de mísseis (SAM) da China eram em grande parte cópias de antigos sistemas russos, como os SA-2 com 35 km de alcance. Até 2010, a China implantou cerca de 200 lançadores de “SAMs de dois dígitos” com candidatos mais sofisticados, com alcance de até 200 km. A análise mostrou ganhos líquidos para a China entre 1996-2017 com melhores sistemas integrados de Defesa Aérea, lutadores de quarta geração, e aeronaves de alerta aéreo antecipado. No entanto, em um cenário nas Spratly Islands, longe da China continental, a capacidade dos EUA de penetrar alvos é muito mais robusta, devido à utilização de aeronaves stealth e um conjunto alvo muito menor.

Scorecard 4: Capacidade dos EUA para atacar as bases aéreas chinesas.

Enquanto penetrar o espaço aéreo chinês é mais perigoso, o desenvolvimento de armas de precisão de fabricação americana tem dado aos norte-americanos mais opções e maior ímpeto em um cenário em Taiwan. Exemplos como os Joint Direct Attack Munitions e as armas retaliação de longo alcance oferecem aos EUA algumas vantagens no quintal da China. O relatório toma por modelo ataques sobre as 40 bases aéreas chinesas dentro do alcance, sem reabastecimento, dos caças de Taiwan. Em 1996, os EUA poderiam encerrar pistas a uma média de oito horas, e este número aumentou para entre dois e três dias em 2010, e permanece aproximadamente o mesmo em 2017. “Apesar do ataque ao solo representar um raro ponto de brilho para o desempenho relativo dos Estados Unidos, é importante notar que o inventário de armas à distância é finito, e o desempenho em um conflito maior iria depender de uma ampla gama de fatores”.

Scorecard 5: Capacidades chinesas de guerra antissuperfície.

A China tem uma obsessão com a proximidade dos porta-aviões dos EUA desde que os EUA implantaram dois durante a Crise dos Mísseis de 1996-1997 no Estreito de Taiwan. Uma piada comum agora cogitada entre os analistas de defesa na China é que, quando há uma crise, o presidente dos Estados Unidos sempre pergunta “onde está o porta-aviões mais próximo”? Mas em uma crise futura, a primeira coisa que um presidente chinês vai perguntar é “onde está o mais próximo porta-aviões dos EUA”?

A China finalmente atingiu o ponto em que pode oferecer risco aos porta-aviões norte-americanos com os novos mísseis balísticos antinavio (ASBM), o primeiro implantado por qualquer nação. Embora o relatório indique que a cadeia de destruição ainda faz ASBMs vulneráveis às contra medidas dos EUA, os EUA têm de encarar o fato de que a China desenvolveu uma capacidade de localizar e comprometer as transportadoras dos EUA que só vai melhorar nos próximos anos. Atualmente, a China tem uma capacidade de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR) cada vez mais robusta ao longo do horizonte, que inclui satélites militares de imagem. Junto com a ameaça ASBM, os EUA devem considerar o aumento da sofisticação dos submarinos chineses armados com mísseis de cruzeiro e torpedos.

Scorecard 6: Capacidades de guerra antissuperfície dos EUA contra os navios da marinha chinesa.

Os EUA faz um trabalho muito melhor de prevenir um desembarque anfíbio chinês em Taiwan. Graças em grande parte aos submarinos, o poder aéreo e às forças de superfície, o relatório indica que 40% (quarenta por cento) do transporte anfíbio chinês seria destruído durante uma campanha de sete dias, “perdas que provavelmente causariam destruição sobre a integridade organizacional de uma força de desembarque”. Entretanto , a China está melhorando seus helicópteros e navios de guerra antissubmarina, e continua a expandir sua frota de embarcações anfíbias. Desde 1996, a China dobrou sua capacidade de elevação anfíbia, e sua frota inclui agora quatro grandes docas de transporte classe Tipo 071 que podem transportar quatro embarcações infláveis de desembarque terrestre.

Scorecard 7: Capacidades counterspace dos EUA contra Sistemas Espaciais Chineses.

Em resposta ao aumento da dependência da China por satélites e sinais preocupantes armas antiespaciais foram desenvolvidas, em 2002, os EUA começaram a financiar capacidades antiespaciais seletivas. Isso inclui a criação em 2004 do Sistema de Anticomunicação para obstruir satélites de comunicações inimigos. O relatório também sugere aos EUA desenvolverem sistemas de laser de alta energia para ofuscar os sensores ópticos dos satélites chineses, e incumbir interceptores de mísseis balísticos para abater satélites chineses. Estas recomendações são em grande parte resultado da derrubada em 2007 pela China de um dos seus satélites meteorológicos, e não uma decisão unilateral feita pelos EUA.

Scorecard 8: Capacidades counterspace chinesas contra Sistemas Espaciais dos EUA.

A China testou três testes de cinética de mísseis antissatélites desde 2007 em órbitas terrestres baixas (LEO). A China também opera estações de alcance a laser que poderiam ofuscar os satélites dos EUA ou rastrear suas órbitas para facilitar outras formas de ataque. O relatório constatou que as ameaças aos satélites de comunicação dos Estados Unidos na forma de sistemas de interferência e de imagem que estão em LEO são graves. O relatório argumenta que “mais preocupantes” na China são os sistemas e transmissores de alta potência de rádio de dupla utilização, de fabricação russa, que podem ser utilizados contra a comunicação dos EUA e satélites ISR.

Scorecard 9: Capacidades da guerra cibernética chinesa e americana.

As unidades cibernéticas da China operam desde a década de 1990 e estão intimamente ligadas ou operadas por militares chineses. Embora os EUA tenham sofrido ataques graves, sendo destes o mais notável o recente incidente no Escritório de Gestão de Pessoas nos EUA, indica o relatório que os EUA “podem ​​não sair tão mal no domínio cibernético como muitos supõem” durante um conflito. A Cyber ​​Command dos EUA trabalha em estreita colaboração com a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos e pode desenhar fortemente o kit de ferramentas sofisticadas deste último. Apesar da vantagem dos Estados Unidos durante a guerra, ambos vão, “mesmo assim enfrentar surpresas significativas” e os esforços logísticos dos EUA serão particularmente vulneráveis, uma vez que dependem de redes não classificadas na Internet.

Scorecard 10: EUA e China, Estabilidade Nuclear Estratégica.

Este scorecard avalia as capacidades de sobrevivência de ambas as partes para um segundo ataque nuclear em face de um primeiro ataque. A China tem melhorado suas forças nucleares de forma constante desde 1996, com a introdução de novos mísseis balísticos intercontinentais, como o DF-31/31A e um atualizado DF-5 com capacidade MIRV. A Marinha também implantou seu primeiro míssil JL-2 balístico lançado de submarino operacional a bordo de seus submarinos da classe Jin. Apesar destas novas capacidades a China não tem a capacidade de impedir uma segunda capacidade de ataque dos EUA. Os EUA têm uma vantagem numérica de ogivas de 13:1 (treze para um).

Conclusões e Recomendações

O relatório afirma que nos próximos cinco a 15 anos, se as forças americanas e chinesas permanecem nas trajetórias atuais, a Ásia vai testemunhar uma fronteira que irá se afastar progressivamente do domínio dos Estados Unidos. As forças chinesas se tornarão mais capazes de estabelecer temporariamente no local a superioridade naval e aérea no início de um conflito, e isso poderá permitir que a China “alcance objetivos limitados sem derrotar as forças dos EUA”.

“Talvez mais preocupante do ponto de vista político-militar, a capacidade para contestar o domínio pode levar os líderes chineses a acreditar que eles poderiam impedir a intervenção num conflito entre eles e um ou mais dos seus vizinhos”. Isso poderia minar a dissuasão norte-americana e poderia durante uma crise pender a balança da disputa para a China sobre a conveniência de usar a força.

O relatório recomenda que os EUA trabalhem para moldar as percepções equivocadas dos líderes chineses de que a força militar dos EUA está enfraquecendo na região e enfatizem que existem sérios riscos de se envolver com as forças militares dos EUA.

As prioridades de aquisição devem ser ajustadas para enfatizar a redundância de base e capacidade de sobrevivência, mais armas standoff, caças e bombardeiros de sobrevivência furtivos, e melhorou as capacidades de guerra submarina e antissubmarina, e um programa espacial e antiespacial robusto. Os militares dos EUA também devem fazer cortes rápidos para as forças de combate legados e diminuir a ênfase em porta-aviões de grande porte.

Os militares dos EUA devem considerar uma estratégia de negação ativa que utilize a profundidade estratégica da Ásia e “permita que as forças dos EUA possam absorver os golpes iniciais e lutar contra seu caminho de volta”.  A defesa de posições estáticas próximas a China “podem ​​simplesmente se tornar inacessíveis”.

As relações político-militares com as nações regionais devem ser ampliada, com ênfase no acesso ao tempo de guerra para instalações e bases, particularmente nas Filipinas, Vietnã, Indonésia e Malásia.

Apesar destes esforços, os EUA enfrentam sérios desafios na região. A China tem um foco mais estreito sobre uma série de missões regionais, especialmente em Taiwan, o que lhe permite optimizar as suas forças para aqueles trabalhos. “Geograficamente – ‘o esqueleto da estratégia’- complica enormemente os desafios enfrentados pelos Estados Unidos”. A proximidade da China até as áreas de conflito em potencial lhe permite capitalizar sobre as áreas de paragem relativamente seguras. “Isso permite que o PLA se concentre em grande parte, nos ‘dentes’ (forças de combate) ao invés da ‘cauda’ (ativos de apoio)”.  Em contraste, os EUA devem manter um extenso mar e uma capacidade logística aérea, juntamente com uma grande parte baseada sistema de comunicação espacial, que é vulnerável ​​a perturbações por parte da China.

Fim da era do Petróleo? Queda dos preços do óleo cru agita a ordem mundial

Fonte: Sputinik News

Tradução: Blog DG.

A queda dos preços do petróleo pode desafiar o status quo geopolítico estabelecido e até mesmo resultar em guerras e turbulência, alertam os especialistas. Será que o mundo centrado no petróleo, desde a metade do século passado, possa vir a ser restaurado, novamente, em breve?

A atual queda nos preços do petróleo afetou empresas petrolíferas gigantes e as empresas auxiliares; ele também ameaça minar economias dos principais países produtores de energia, resultando em um profundo “shake up” na ordem política, de acordo com Michael T. Klare, professor de estudos de paz e segurança mundial no Hampshire College (Massachusetts, Estados Unidos).

O acadêmico norte-americano sente que a depressão contínua dos preços do petróleo pode se estender para a década de 2020 e além.

“De modo geral, os preços do petróleo sobem quando a economia mundial é robusta, a procura mundial está a aumentar, os fornecedores estão bombeando em seus níveis máximos, pouco armazenados, ou com os excessos de capacidade à mão. Eles tendem a cair quando, como agora, a economia global está estagnada, ou em queda, a demanda de energia é morna, os principais fornecedores não conseguem conter a produção em consonância com a queda da demanda, o óleo excedente se acumula e os fornecimentos futuros apareçam assegurados”, o acadêmico americano explica em seu artigo para TomDispatch.com.

Klare refere-se à desaceleração econômica temporária na China, ao aumento da produção de petróleo na América do Norte (até 9,2 milhões de barris por dia), e mais notavelmente a “firme resistência” da Arábia Saudita para diminuir a sua própria produção ou a da Organização dod Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

O que se encontra debaixo do pano da recusa saudita em reduzir a sua produção de petróleo? Riyadh estaria, possivelmente, determinada em punir a Rússia e o Irã,  devido ao apoio destes ao governo da Síria, isto segundo as notas acadêmicas norte-americanas. Por outro lado, a Arábia Saudita estaria, aparentemente, fazendo tentativas de conduzir os produtores americanos de xisto fora do mercado de petróleo.

Para adicionar mais combustível ao fogo, Iraque e Irã continuam, também, a aumentar a sua produção. Como Daesh (Estado Islâmico/EI/ISIS/ISIL) está a perder terreno na Síria e no Iraque, espera-se que a produção de petróleo de Bagdá continue a crescer, observa Klare.

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Cavalo de Ferro, Cavalo de Extração ou Cavalo de Petróleo. Foto: internet.

Quanto ao Irã, o seu acordo nuclear com Washington abriu as portas para Teerã entrar novamente no mercado de petróleo. De acordo com a US Energy Information Administration em previsão lançada no mês de agosto de 2015: “O Irã tem a capacidade técnica para aumentar a produção de petróleo bruto em cerca de 600.000 b / d (barris-dia) até o final de 2016”.

“Apenas três desenvolvimentos poderiam concebivelmente alterar o atual ambiente de preços baixos do petróleo: guerra do Oriente Médio que retire um, ou mais, dentre os principais produtores de energia; uma decisão saudita para restringir a sua produção, a fim de impulsionar os preços, ou um inesperado surto mundial por demanda”, acredita Klaire.

O colunista norte-americano James Stafford da Oilprice.com ecoa a suposição de Klare: de acordo com Stafford, um confronto militar direto entre a Arábia Saudita e o seu rival regional de longa data, o Irã, poderia colocar o valor do óleo cru novamente no patamar de “de três dígitos” e chegar até US $ 250 por barril.

“A guerra entre os dois países poderia ocasionar rupturas de abastecimento, com impactos previsíveis sobre os preços”, observa ele, citando Dr. Hossein Askari, professor da George Washington University.

No entanto, Klare e Stafford concordam que, embora não seja impossível neste momento, a guerra entre Arábia Saudita e Irã é uma questão meramente “especulativa”. Klare acrescenta, que tanto uma decisão da Arábia Saudita em não reduzir a sua produção, como um aumento repentino na demanda, parece improvável.

Na verdade, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), as taxas de crescimento das economias emergentes e em desenvolvimento, que representam quase 60 por cento do PIB mundial e 85 por cento da população mundial, são neste momento, negativas.

“Não só os preços do petróleo e dos metais caíram cerca de dois terços do seu pico mais recente, mas fatores de oferta e do lado da procura sugerem que eles estão propensos a permanecer baixo por um longo período”, disse a diretora do FMI, Christine Lagarde no simpósio em Paris em 12 de janeiro de 2016.

O resultado mais provável da desta queda, todavia, é uma onda de inquietação em nações produtoras de petróleo, sugere Klare. O professor americano assume que Nigéria, Venezuela, Argélia e Angola venham a enfrentar perspectivas de turbulência política.

Embora a Arábia Saudita, um dos maiores produtores do mundo, tenha sobrevivido ao choque inicial, devido às suas enormes reservas cambiais, é significativo o fato de Riyadh ter anunciado cortes nos seus gastos públicos, incitando com isso o descontentamento crescente da população deste reino do Golfo.

Em contraste, o establishment russo enfrenta melhor a situação, com o Kremlin a desfrutar amplo apoio popular. Apesar da queda dos preços do petróleo, a liderança da Rússia “de fato move-se ambiciosamente no plano internacional”, observa Klare.

“Aconteça o que acontecer ao petróleo e aos países produtores, a ordem política global que uma vez repousou no preço crescente do petróleo está condenada”, sugere o acadêmico norte-americano.

Nota do Editor do Blog DG: realmente as perspectivas do preço do barril de petróleo não são nada boas, dado que a China, grande consumidora, possui um plano estratégico de investimento em energias renováveis que pretende incluir cerca de 560 gigavatts (GW) em um futuro próximo. Daí, que um crescimento de 6,5% ao ano da economia chinesa, não deverá resultar em um aumento correspondente de demanda por óleo cru. Neste contexto é interessante notar a atitude inexplicável, suicida, da Arábia Saudita, que mantém uma política de superprodução, ao mesmo tempo em que se envolve em um atoleiro no Iêmen, perde-se no seu sonho de grandeza na Síria e no Iraque na medida em que o EI e os seus satélites wahhabitas são escorraçados, enquanto o temido rival regional,  Irã, tem por agora aberta as portas dos mercados ocidentais, com o fim das sanções antes impostas por estes.

O desenho do apocalipse

Este artigo foi redigido por mim especialmente para o site Plano Brasil, no ano de 2013. É interessante compará-lo com o artigo recente do Dr. Paul Craig Roberts, que trata do mesmo assunto e com perspectiva equivalente.

O desenho do apocalipse

Por César A. Ferreira

Uma boa parte dos cidadãos norte-americanos acredita no apocalipse, assim creem, piamente, pois está escrito na bíblia cristã, e como sabemos, para estes os dinossauros andaram sobre a terra… Ao lado dos Neandertais. Uns poucos, no entanto, acreditam no fim da humanidade, na forma que conhecemos pelo menos, devido ao colapso do petróleo, que levaria ao caos uma sociedade edificada em torno desse recurso mineral. Acontece, que antes do fim do ciclo do petróleo, devido a forma da nossa arquitetura financeira, haveria, segundo a crença de poucos cidadãos norte-americanos, forçosamente um conflito global, visto que a sinergia petróleo-dólar seria abalada, muito antes.

Para entender o motivo deste temor é preciso recuar no tempo, no caso para 1944, quando ao final da Segunda Grande Guerra, os EUA, única potência intocada pela destruição, promove do alto da sua superioridade econômica e industrial, sem par na história humana, aquilo que seria o primeiro acordo negociado da humanidade, mas que de regra não deixava de ser uma imposição ditada pelos fatos, de que seria a moeda nacional dos EUA o meio corrente para transações internacionais, sendo a garantia do valor o lastro em ouro mantido pelos EUA. A relação seria de 35 dólares por onça, sendo tácita a percepção de que os EUA deveriam se abster de uma farra financeira.

Pois o que não deveria foi justamente o que se deu. A guerra do Vietnam exigiu empenhos de tal monta, que ficou óbvio até ao mais parvo dos seres, que os americanos haviam girado a máquina de impressão sem cerimônia alguma. Ao solicitar o repatrio das suas reservas em ouro, mantidas em solo dos EUA, receberam as nações que assim o fizeram um sonoro não. E como todo bom escroque, Richard Nixon anuncia que os EUA desvinculavam a sua moeda do padrão-ouro. Ou seja, da noite para o dia, uma banana para o mundo e um calote geral… No entanto, não ficou só nisso… Os norte-americanos convenceram aos príncipes sauditas a investirem em papéis do tesouro norte-americano. Com isso nasceu a veiculação do papel nacional norte-americano com o óleo de consumo geral da humanidade.

Os EUA obtiveram, assim, uma genial engenharia financeira. Poderiam os americanos colocar para rodar a máquina como quisessem, nunca faltaria recurso, posto que o petróleo, ainda que finito, é vastíssimo. O único perigo para a arquitetura seria o abandono do dólar como moeda de transações correntes, mas, quem o faria? Afinal, os EUA eram o paraíso na terra, Yeap!

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Teste nuclear Licorne. Esta imagem corre o mundo incorretamente como sendo da Tzar Bomb, Imagem: internet.

O mundo rodava e tudo parecia caminhar como um sonho para os norte-americanos, o fim da URSS parecia confirmar o autodesígnio da alma yankee, de que são eles o povo escolhido, os eleitos da nova era, os excepcionais, a perfeição da história e o fim da mesma… Contudo a história, sempre ela, costuma ser cruel para quem se deixa iludir e vaticinar de que ela tenha mesmo um fim. Na medida em que a sociedade americana se enriquecia com sua máquina mágica, a impressora offset, o interesse produtivo parecia ser atrativo, apenas, fora das suas fronteiras e os asiáticos, primeiro os japoneses, depois os sinos, demonstraram que haviam feito a leitura correta daquilo que o mundo sussurrava. Com a abertura de novos polos produtivos, a demanda por commodities aumenta o que acaba por dar alento para as economias dependentes, envoltas por razões estruturais em crises cíclicas, e os reflexos dessa demanda acabam por beneficiar nações de grandes extensões territoriais, que além de detentoras de recursos naturais, possuíam em adjunto, estruturas industriais.

Desenhava-se desta maneira a ressurreição da Rússia, herdeira da URSS, bem como a ascensão da Índia, e do novo status econômico de relativa estabilidade do Brasil. A estratégia chinesa de ser o polo produtivo do consumo norte-americano, como dreno constante de moeda nacional americana para suas fronteiras, por extensão, acabou por beneficiar as demais nações produtoras de matérias primas, que passam a acumular reservas quanto antes às perdiam, em profusão. Consequentemente, algumas delas, como já dito, por possuírem base industrial e de pesquisa, carrearam as suas reservas acumuladas para o desenvolvimento de tecnologia e inovação.

O crescimento de nações em termos de riqueza, por conseguinte, em poder, acaba por refletir na mente norte-americana como um desafio proposto, e neste contexto, é a Rússia o exemplo que não foge às retinas. Detentora de uma base científica de grande valor, ao ressurgir das cinzas ao qual Yeltsin e os saqueadores haviam-na submetido, justamente através de uma ferramenta constitucional que permitia ao chefe do executivo um poder inaudito, como se um Tzar fosse (obra do “democrático” Yeltsin), papel este exercido por Putin, a Rússia ergue-se após a desilusão com o ocidente não de costas para este, e sim de frente. Detentora dos recursos energéticos para manter viva uma esbanjadora Europa Unida, a Rússia de maneira silenciosa, porem determinada, colhe os recursos e moderniza-se, passo a passo, sem ter sobre os ombros o peso de estar presente de forma desafiadora por todo o globo. Não precisa, ela corresponde por quase sexta parte das terras continentais, da Europa à Ásia, portanto, no que tange à corrida de recursos, esta não lhe diz respeito… A postura altiva, no entanto, enfurece a alma yakee, pois não corresponde aquela que se espera de um derrotado, mas sim, de um vencedor.

Por outro lado, a China, criatura que desenvolveu uma notória simbiose econômica com os EUA, não possui assegurada o petróleo que necessita. Não tem os xeiques do petróleo na mão, tampouco a moeda nacional que segue como padrão para transações correntes, ainda que acumule aos montes, a mesma. Por isso perseguem os sinos, de todas as maneiras, assegurar-se da continuidade do fornecimento de óleo, a ponto de oferecer as nações embargadas todos os subterfúgios possíveis, incluindo créditos em sua moeda nacional, e desta maneira agem de forma consciente por enfraquecer o âmago do sistema de manutenção do poder americano: a veiculação petróleo-dólar.

O Iraque havia feito isto antes. Saddam Hussein instituiu que aceitaria apenas a moeda europeia, o Euro, como moeda para saldo de transações. Péssima ideia, pelo menos para quem não tinha sequer Sarin em seus estoques, quanto mais uma arma termonuclear. A China, por sua vez não padece deste mal, pois detém um arsenal nuclear, e mais importante, uma relação sinérgica com a economia dos EUA, da qual se configura como a maior detentora de títulos do tesouro… Os chineses, sempre que encontram uma nação que possa prescindir do dólar propõem que se saldem as trocas comerciais por compensações entre os respectivos bancos centrais, sem o envolvimento de uma moeda de referência, ou com o uso de moeda chinesa, o Renminbi. Por óbvio que os EUA não aceitam essas movimentações como algo inócuo, por ser de fato um ataque celerado ao âmago do seu poder, bem mais perigoso do que os naufrágios de porta-aviões, típicos dos romances de Tom Clancy, poderiam representar. É por isto que vemos, todos os dias, as pressões sobre o Irã. O Irã é pressionado e sofre embargos não por executar um projeto soberano de domínio pleno do ciclo produtivo da energia nuclear, mas por ser um fornecedor independente de petróleo, que aceita transações em uma cesta de moedas, dentre as quais, os reais brasileiros.

Percebe-se, portanto, como se forma o apocalipse. Pode uma nação acostumada ao bem estar de imprimir os seus desejos, e materializá-los apenas em armas, pois não sabe mais fazer outra coisa, deixar o poder mundial escorrer por entre os dedos? Ficará inerte? A lógica avisa que não e o passo natural, dado a conveniência do sistema petróleo-dólar, será o de aumentar a pressão e cortar de vez, eliminar por assim dizer, os fornecedores independentes de petróleo no mundo. É óbvio que a China, caso isso venha se concretizar, terá que se mover… Ainda que se diga, que o Irã não é o único fornecedor independente de petróleo, de que a Venezuela possui reservas ainda não exploradas no Orenoco (petróleo extra-pesado) que superam aquelas dos sauditas, por mais que se tente banhar-se no bom senso, fato é que não se pode contar com a razão quando a loucura, a alucinação, brada na mente de uns poucos que não enxergam outra coisa que o próprio poder, como se ele por si fosse tudo, e a soma de todos os valores; acontece que estes senhores são apenas 1% da população norte-americana, mas, são os alienados e os donos da chave do manicômio. Não há saída…

Ou ela existe, e não a vemos… Profecias, ao contrário da crença popular não precisam se materializar, podem não se cumprir…  Nostradamus, que o diga.