Um Dia de Cão em Caracas

Por: César Antônio Ferreira

Não vamos nos enganar, a Venezuela sofreu neste dia 30 de abril de 2019 um dica de cão, típico das guerras híbridas, das quais são vítimas todas as sociedades donas de subsolo rico em hidrocarbonetos, ou que sejam uma passagem estratégica para o trânsito dos mesmos, que sofrem dolorosamente apenas por exibir politicas afirmativas da sua soberania por ventura dissonantes dos interesses dos EUA e dos seus associados da OTAN.

O roteiro é bem conhecido: aproveitando-se do fato de que nenhuma sociedade é monolítica, fomenta-se através das redes sociais uma oposição cujas bandeiras reivindicativas são induzidas a partir de pesquisas analíticas do conteúdo circulante no ambiente cibernético da nação alvo. Esta é a primeira parte e a de maior novidade. Na medida em que as lideranças vão se enfraquecendo no campo político, a engrenagem põe-se a rodar… Manifestações com tópicos de abrangência universal, como o “combate à corrupção”, um mal sempre associado as autoridades de plantão, e a “falta de liberdade”, pouco importando se suposta, ou verdadeira.

Caso a unidade política da nação alvo mantenha-se de pé, parte-se para a fase dois: a criação de situações capazes de criar comoção, tanto no âmbito interno, como externo, com intuito de se capitalizar os sentimentos difusos e canalizá-los em prol das emoções básicas como a equidade e o desejo de vingança, além da apropriação do discurso narrativo da “promoção da justiça”. Neste momento a liderança opositora, a partir da atenção midiática que lhe é dedicada encarnará a “sobriedade do justo”, enquanto a liderança nacional será demonizada, apontada como a responsável direta pelos trágicos eventos, estrategicamente registrados pela mídia, em suma, o líder nacional será para todos os efeitos um…  “Demônio encarnado que ataca o próprio povo”.

Este roteiro já foi visto várias vezes, tanto que podemos elencar as nações que foram vítimas: Líbia, Síria, Iraque, Ucrânia, dentre as operações de sucesso, Rússia e Turquia, entre as fracassadas (não chegaram a Fase 2), além do Brasil, exemplo mais bem sucedido, visto que houve a cooptação direta da classe média, tornando desnecessária as ações de desestabilização.  Todavia, este não é o caso da Venezuela: o país está mergulhado em uma crise econômica sem precedentes, mas, apesar da depressão econômica reinante ser, como se percebe, um fator de divisão social, a população começa a perceber que algo mais está em jogo do que a mudança pura e simples do mandatário. Tanto é assim que a quartelada promovida neste 30 de abril último resultou em um sonoro fracasso.

Há de se perguntar o motivo do fracasso do golpe promovido pelo senhor Guaidó, e uma das respostas é a previsibilidade dos atos. De fato, a Venezuela foi um protótipo de guerra híbrida no distante ano de 2002, quando uma outra quartelada, então  efetivada pelo o que havia de mais antigo e retrógrado no espectro político venezuelano,  depôs Hugo Chávez, apenas para ver o cerco popular do Palácio Miraflores e o retorno triunfal de Chávez… Neste golpe fracassado houve um detalhe importante: um atentado de falsa bandeira, feito pelos golpistas, que consistia em disparos contra manifestantes contrários ao presidente Hugo Chávez…

O uso de franco-atiradores para ataques de falsa bandeira é um modo operativo recorrente nas realizações de “mudança de regime” mundo afora. Tal como testado na Venezuela foi aplicado na Síria, Iraque, Líbia e Ucrânia. É desnecessário dizer que as mortes são atribuídas aos “agentes do governo”, incendiando com emoções extremas os nacionais, que se identificam com as vítimas e com isto colocando qualquer um que não professe as mesmas convicções como inimigo desprovido de humanidade e de identidade. Neste dia 30, para desespero de Guaidó, os atiradores foram neutralizados pelas forças de seguranças venezuelanas. Um roteiro conhecido pode ser antecipado.

Entretanto, se os snipers não funcionaram à contento, ao menos houve para os golpistas a imagem de manifestantes atropelados por blindados. Uma cena lamentável neste enredo, pois era evidente uma reação de força por parte dos militares que protegiam os acessos da base aérea Generalíssimo Francisco de Miranda, localizada no centro de Caracas [1]. Dá-se que era evidente que se pretendia fazer-se na referida base um ato político afirmativo, bastante simbólico, uma espécie de tomada da Bastilha caribenha, mas… Redundou em fracasso. O número de manifestantes parecia significativo quando a câmera estava fechada, mas quando aberta em grande angular percebia-se que os manifestantes presentes não encheriam o Engenhão [2], tal como se vê quando o Botafogo [3] está em má fase.

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Arma apreendida ppelas forças de segurança que se destinava para ataques de falsa bandeira. Foto: Topete GLZ. Internet.

Com manifestantes atropelados, ou não, Maduro sai fortalecido, mais uma vez. Pois a quartelada do dia 30 de abril se soma a fracassada entrega forçada de “ajuda humanitária” [4} cujo objetivo era justamente a de provocar um incidente, um cadáver para ser lamentado, o que não se deu. Estes fracassos reiterados acabam por expor Guaidó como líder sem carisma pessoal, farsesco, e artificial, que acabou por apostar alto demais. Aposta leviana, visto que agora os seus atos não se escusam atrás de uma “ajuda humanitária”, ou “oposição democrática”, mas consistem de um levante declarado contra o governo venezuelano, um crime objetivo, portanto.

Algo mais

Cabe perguntar: por que Guaidó se arriscou hoje? Simples, porque contava ele com algo mais… Cadáveres que lhe dessem a justificativa para uma intervenção armada dos EUA. Ora, pois, não seria uma especulação descabida? Nem tanto, se considerarmos que o Sr. Jair Messias Bolsonaro, Presidente da República Federativa do Brasil, comunicou que decidiria exclusivamente com o Conselho de Segurança Nacional sobre a Venezuela [5]. Isto foi dito, acredite, ainda que se saiba ser uma responsabilidade do Congresso Nacional as declarações de hostilidades abertas para com outras nações. (art. 137º)[6]. Ora, ora, ganha um doce quem não previu que tais eventos foram discutidos no encontro havido entre os presidentes Trump e Bolsonaro,

Não deu certo a jogada, haverá outra, e outras…

Notas:

[1] Base Aérea icônica, conhecida por “La Carlota” área de 105 hectares, abriga o Comando Geral de Aviação. O Palácio Miraflores situa-se a alguns quilômetros. Ver em Jornal GGN: Gilberto Maringoni_ Ação irresponsável evidencia isolamento de Guiadó.

[2] Estádio Nilton Santos, Rio de Janeiro, Brasil. Capacidade para 40 mil torcedores.

[3] Botafogo de Futebol e Regatas, tradicional grande clube do futebol brasileiro, sediado na cidade do Rio de Janeiro.

[4] 23 de fevereiro de 2019.

[5] “A situação da Venezuela preocupa a todos. Qualquer hipótese será decidida EXCLUSIVAMENTE pelo Presidente da República, ouvindo o Conselho de Defesa Nacional. O Governo segue unido, juntamente com outras nações, na busca da melhor solução que restabeleça a democracia naquele país”. (Brasil 247 – Conforme publicado no Twitter).

[6] “Em relação ao tuíte do presidente Jair Bolsonaro sobre a situação da Venezuela, é importante lembrar que os artigos. 49, II c/c art. 84, XIX; c/c art. 137, II da Constituição Federal precisam ser respeitados”, (Brasil 247 – Deputado Federal Rodrigo Maia – DEM /RJ).

 

Venezuela, os riscos de uma intervenção

Fonte: Arsenal – Geopolítica e Defesa

Por Pedro Paulo Rezende

A Venezuela está sob ameaça de intervenção estrangeira para derrubar o presidente da República, Nicolás Maduro. O presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, já deixou claro que uma invasão não foi descartada. Seus principais auxiliares — como o secretário de Estado Mike Pompeo e John Bolton, assessor de segurança da Presidência — sempre ressaltam a possibilidade de intervenção militar. O Comando Sul das Forças Armadas já enviou oficiais superiores para analisar a situação a partir de território colombiano. Diante destes sinais, cabe analisar o aparato militar dos dois países e a experiência de intervenção ocorrida em outros países.

Os Estados Unidos já patrocinaram mais de 50 intervenções militares ao longo dos últimos 100 anos, boa parte delas na América Latina. Depois do fim da Guerra Fria, com a dissolução da União Soviética, o Departamento de Estado norte-americano acentuou suas ações na África, Ásia e Europa. Em função disto, na década de 1990, a Iugoslávia se desmembrou em seis repúblicas. Posteriormente, houve a invasão do Afeganistão, justificada pelos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, que resultaram na destruição completa do World Trade Center e de parte do Pentágono, sede do Departamento de Defesa norte-americano.

Em 2003, o alvo foi o regime de Saddam Hussein, no Iraque, realizado sob o pretexto falso de que o país desenvolvia armas de destruição em massa. A invasão estadunidense resultou em um longo processo de resistência da minoria sunita, beneficiada no arranjo de forças anterior, contra a administração em Bagdá e as tropas de ocupação. A radicalização deste movimento terminou com o surgimento do Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS), primeiro movimento terrorista da história a se organizar formalmente como governo e a dominar uma grande área territorial. O custo em vidas humanas de todos estes processos supera 1,5 milhão, civis, em sua grande maioria.

Revoluções patrocinadas

Além de intervenções diretas, Washington desenvolveu modelos alternativos que usam a sociedade civil. Em 2004, patrocinou o movimento a favor de novas eleições na Ucrânia depois que Viktor Yanukovych, defensor da cooperação com a Rússia, venceu a disputa contra Viktor Yushchenko, que queria se aproximar dos Estados Unidos. Os protestos, chamados de Revolução Laranja, foram bem sucedidos. Uma nova disputa foi determinada pela Suprema Corte e os norte-americanos conseguiram seu objetivo. O país, desde então, apresenta queda no Produto Interno Bruto, alta inflacionária e crescimento nos índices de desemprego.

O modelo da Revolução Laranja foi exportado para o norte da África em 2011. A chamada Primavera Árabe causou a mudança de governos na Tunísia e no Egito. No Marrocos, o rei Maomé 6º antecipou-se e garantiu importantes mudanças constitucionais, mas o processo resultou na instalação de um grupo fundamentalista no Cairo, comandado por Maomé Morsi, líder da Irmandade Islâmica, em 2012. A reação militar foi inevitável e o comandante do Exército, Abdul Fatah Al-Sissi, assumiu o controle do país em 2013.

Uma segunda intervenção americano-europeia, em 2014, resultou em mais uma mudança de governo na Ucrânia. Dependente do gás russo, com a economia em queda, o país oscilava entre Moscou e a União Europeia, defendida pelos grupos ultranacionalistas. Diante da falta de propostas concretas por parte do Ocidente e com a oferta de investimentos russos superiores a US$ 300 milhões, o presidente Viktor Yanukovych, o mesmo derrubado em 2004, iniciou tratativas com Moscou. Washington apoia o chamado Movimento de Maidan política e financeiramente. A vitória do grupo, que incluía milícias de orientação neonazista, resultou na colocação de Petro Poroshenko na presidência e na tentativa de um processo de limpeza étnica contra a minoria russa, que reagiu e iniciou um processo de resistência separatista na região de Donbass e de reincorporação da Crimeia à Federação Russa. O PIB ucraniano hoje é de apenas 20% do registrado na época em que o país integrava a União Soviética.

Movimentos armados

Na Líbia e na Síria, Washington, junto com aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), adotaram outro modelo: patrocinaram grupos oposicionistas a se levantarem militarmente contra os governos, de maneira a justificar uma “intervenção militar humanitária.” Os movimentos pacíficos da Primavera Árabe desandam em guerras civis com requintes de crueldade.

Na Líbia, a derrubada do ditador Muamar Al Gaddafi, apoiada diretamente por uma ação conjunta dos Estados Unidos, França, Itália e Reino Unido, quebrou o país em várias regiões dominadas por senhores da guerra. O linchamento de Gaddafi, em 20 de outubro de 2011, na cidade de Misurata, resultou em uma virada na política externa da Federação Russa e da República Popular da China. Até então, os dois países se abstinham de votar contra o intervencionismo americano, apoiado pela Europa, no Conselho de Segurança das Nações Unidas

A Síria só não sofreu fim igual ao da Líbia porque a Federação Russa, junto com o Irã, intervieram para garantir a permanência do presidente Bashar Al Assad. Neste último caso, houve uma evidência clara da esquizofrenia que atinge a política externa de Washington. Enquanto combatiam os militantes do ISIS em território iraquiano, facções do grupo terrorista recebiam financiamento, treinamento e armas fornecidos pelos governos norte-americano e aliados, incluindo Alemanha, França, Israel e monarquias do Golfo Pérsico. O conflito ainda não terminou, mas o número de vítimas fatais já supera 500 mil, com mais de 7,5 milhões de refugiados.

A questão venezuelana

Diante desses antecedentes, defender uma intervenção militar contra o governo de Nicolás Maduro beira a irresponsabilidade. Durante a presidência de Hugo Chávez, que assumiu o governo em 1998, o país sofreu uma tentativa de golpe em 2002. Na ocasião, o chefe de Estado venezuelano chegou a ser apeado do poder para ser reconduzido ao Palácio de Miraflores 72 horas depois. O episódio, que teve apoio escancarado da imprensa, dominada pela oposição, e do presidente dos Estados Unidos George Wayne Bush, que reconheceu rapidamente o presidente golpista Pedro Carmona, ficou registrado em um documentário sensacional da TV canadense: A revolução não será televisionada (veja aqui).

A partir daí, Chávez, que defendia um modelo de desenvolvimento com investimento estrangeiro, radicalizou o seu discurso. Ao morrer, em 2013, deixou um país menos injusto. O total de venezuelanos abaixo da linha de pobreza caiu de 72% para 23%, segundo dados do Banco Mundial. Os índices de analfabetismo desabaram e os indicadores sociais melhoraram. Esta herança se dissolveu ao longo do governo de Maduro por causa da escalada dos índices inflacionários.

Chávez chegou ao poder como uma forma de reação popular ao regime corrupto mantido pelas elites venezuelanas. O país se desindustrializou e perdeu capacidade de produção agrícola desde a década de 1940, quando se constatou o potencial de suas reservas petrolíferas, as maiores do mundo. Foi o primeiro episódio do que foi batizado, em 1977, pela revista britânica The Economist de “doença holandesa”. Em 1959, ao se descobrirem poços promissores no Mar do Norte, se evidenciou nos Países Baixos uma transferência de recursos das áreas produtivas para a de serviço.

Em verdade, a “doença holandesa” deveria ser chamada de “doença venezuelana”. Na década de 1950, Caracas se beneficiou de grandes investimentos em construção em detrimento da produção agrícola e industrial. Com isto, o Bolívar se sobrevalorizou e se criou uma dependência cada vez maior de produtos importados. A concentração de renda se acelerou em detrimento de 72% da população. Em um estudo feito para a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) em 1957, Celso Furtado já entendia que o dólar barato em relação ao bolívar era o principal entrave ao desenvolvimento venezuelano.

Na época, o país vivia sob regime militar de Marcos Pérez Jimenes. A Venezuela gerava muitos dólares. Os dólares eram comprados por empresas venezuelanas que os usavam para a compra de bens importados não produzidos no país. Como a relação dólar e bolívar era bastante favorável à moeda venezuelana, os bens importados entravam no país a preços bastante baixos. Os produtores locais não tinham como competir.

Aliado a isto, havia um fluxo de capitais importantes para paraísos fiscais. Segundo estudo do Banco Mundial publicado em 2000, entre 1956 e 1998, data de entrada de Chávez no governo, cerca de US$ 12 trilhões, praticamente o PIB anual da República Popular da China, foram desviados da Venezuela.

Arreglo político

Este modelo foi, a partir de 1958, administrado pela versão venezuelana da “Política do Café com Leite”, que dominou os Estados Unidos do Brasil entre 1889 e 1930. Em 1958, o regime de Marcos Pérez Jiménez caiu e eleições gerais foram marcadas para dezembro do mesmo ano. Em 31 de outubro de 1958, os três grandes partidos venezuelanos — a Ação Democrática (AD), de centro-esquerda; a União Republicana Democrática (URD), de centro, e o democrata cristão Comitê de Organização Política Eleitoral Independente (COPEI), de centro-direita — firmaram um acordo na casa de Rafael Caldera, líder da COPEI, batizada de Punto Fijo.

O Pacto de Punto Fijo permitiu à Venezuela trinta anos de estabilidade política, durante os quais a Ação Democrática e a COPEI foram efetivamente os únicos partidos a governar o país, alternando-se no poder conforme o resultado das eleições, a cada cinco anos. O equilíbrio se rompeu com o desenvolvimento de um forte clientelismo, acompanhado de intensa corrupção e a diminuição dos rendimentos advindos do petróleo.

Carlos Andrés Pérez, da AD, teve dois mandatos. No primeiro, de 1973 a 1978, seguiu uma orientação social democrática. No segundo, de 1988 a 1993, seguiu um receituário neoliberal com austeridade fiscal e desvalorização do Bolívar para enfrentar a inflação. Uma grande onda de fome resultou em uma revolta popular, o Caracazo, em 1989. Estima-se que 2.500 pessoas morreram sob a repressão do Exército em apenas três dias. Em 1992, um desconhecido tenente-coronel do Exército, Hugo Chávez, tenta tomar o poder, mas é derrotado. Preso e anistiado, concorreria à Presidência e venceria em 1998.

Fragilidade institucional

Os indicadores sociais herdados por Nicolás Maduro foram excelentes, mas Chávez não enfrentou a principal razão da fragilidade econômica venezuelana. O país depende fortemente dos preços internacionais do petróleo. Hoje, importa cerca de 90% do que consome, o que é um avanço — era de 99% na época de Carlos Andrés Pérez. Para complicar o quadro, os setores atacadistas estão sob controle da oposição. Há um regime especial para financiar os importadores, com dólar subsidiado, mas boa parte destes recursos é desviada para paraísos fiscais. Além disto, nunca se enfrentou a necessidade de uma reforma no sistema de tributação, um dos pontos destacados por Celso Furtado em 1958. Os encargos são extremamente baixos e não cobrem as despesas do governo, o que causa um déficit crônico e crescente.

O quadro é muito similar ao que resultou na derrubada do governo socialista de Salvador Allende no Chile. Produtos desaparecem das prateleiras durante meses, mas surgem milagrosamente quando o governo faz concessões aos oposicionistas e sempre podem ser encontrados no mercado negro. É preciso ressaltar que todas as reformas bolivarianas foram feitas pelo voto. Nesse processo, Chávez teve uma grande aliada: a oposição, que se recusou a disputar um pleito para tentar deslegitimar o processo. Foi um tiro no pé que resultou na diminuição da credibilidade dos partidos de oposição. Suas diferenças políticas também impediam, até Juan Guaidó, que apresentassem uma frente unida contra o regime.

Há sinais claros de corrupção no regime de Maduro, mas a oposição não fica muito atrás. Com algumas exceções, os políticos mostram sinais evidentes de aumento de patrimônio. Em uma das reuniões dos partidos, na sede da Venevisión, enquanto aguardavam o resultado do encontro, os correspondentes internacionais foram agraciados com pratos caros e vinhos importados de qualidade servidos por candidatas do concurso de Miss Venezuela. No final do encontro, os políticos protestaram contra o quadro de miséria e escassez imposto à população e anunciaram que não tinham conseguido um acordo para uma candidatura de união.

O principal racha estava na divergência de opinião entre Henrique Caprilles, um político jovem e sem envolvimento escuso com o mundo empresarial, e Leopoldo López. Na eleição presidencial de 2014, Caprilles chegou muito perto da vitória. Teve apenas 300 mil votos a menos que Maduro. A Venezuela usa o modelo eleitoral defendido pelo ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva e pelo atual chefe de Estado Jair Bolsonaro. O voto eletrônico imprime um recibo depositado em urna lacrada, que serve como contraprova. A oposição pediu recontagem, mas a auditoria, acompanhado por fiscais de todos os partidos, confirmou o resultado.

Leopoldo López, ao contrário de Caprilles, sempre defendeu uma política mais agressiva. Pessoas que o visitaram contam que ele mantém em sua biblioteca, ao alcance da mão, uma cópia de Minha Luta,livro escrito por Adolf Hitler. Partiu dele a série de manifestações agressivas que resultaram no incêndio de instalações governamentais. Maduro colocou as forças de segurança na rua, resultando em um total aproximado de 500 mortos nos últimos cinco anos. Deste total, há 150 policiais.

López foi preso, com boa dose de justiça, por incentivar atos violentos. Contra Caprilles, alegou-se seu envolvimento na compra de votos na eleição de governador para o Estado de Miranda. Hoje, está sem direitos políticos. Sem figuras de proa, os partidos de oposição usaram uma tática frequente no país: ausentaram-se da disputa presidencial para deslegitimizar Maduro.

A última eleição teve abstenção recorde de 54%, mas foi realizada sob supervisão internacional. O ex-presidente do Conselho de Ministros da Espanha, José Luiz Zapateiro, foi um dos fiscais e testemunhou a limpeza do pleito, apesar dos rumores de intimidação de eleitores.

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SU-30 MKV – Força Aérea Bolivariana da Venezuela. 23 aeronaves no inventário de 24 recebidas, uma delas perdida em acidente de desorientação espacial. Imagem: internet.

Quadro atual

O presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente da Venezuela, é discípulo de Leopoldo López. Formado pela Universidade Católica Andrés Bello, de Caracas, fez pós-graduação na Universidade George Washington, um dos centros que fomentam líderes conservadores de países do terceiro mundo.

Ele não dispõe do apoio militar e tem um oponente de peso no aparato de segurança, criado durante a gestão de Hugo Chávez. Além das Forças Armadas Bolivarianas, que incluem Exército, Marinha e Aeronáutica, existem os coletivos, grupos armados de autodefesa que se localizam nas áreas populares, e as milícias, com mais de 1,5 milhão de cidadãos armados. O país mantém as melhores equipadas forças do continente. São 24 caças Su-30MKV, capazes de lançar mísseis antinavio supersônicos; 16 caças Lockheed-Martin F-16A de fabricação norte-americana, operacionais, apesar dos anos de embargo; mísseis antiaéreos russos de última geração, inclusive S300S, capazes de cobrir todos os aspectos de altitude em um raio de ação de 150 quilômetros, e mais de 450 carros de combate, 250 deles do modelo T-72.

Uma intervenção militar estrangeira poderia superar as forças armadas regulares, mas não se pode minimizar o risco da resistência popular. Ao contrário do Iraque, o terreno na Venezuela facilita a guerrilha urbana e no campo. Há boa cobertura e potencial humano em todo o território da república e um núcleo duro do bolivarianismo que entraria na clandestinidade para resistir aos invasores.

Conscientização e militância

Tive uma oportunidade rara no dia da fundação da União de Nações Sulamericanas (UNASUL), em 23 de maio de 2008: encontrar e conversar com o general Jacinto Pérez de Arcay, principal teórico do bolivarianismo e professor de Hugo Chávez na Escola Militar. Ele explicou a parte ideológica do movimento, embasado em Hegel e no socialismo cristão defendido por alas à esquerda da Igreja Católica e da Teologia da Libertação. Usava argumentos sólidos e bem embasados. A formação dele, no entanto, está longe de ser atípica. As Forças Armadas da Venezuela se preocupam, desde a década de 1960, com a adaptação dos militares que passam para a reserva à vida civil. Os oficiais são estimulados a frequentar universidades civis ao longo da carreira e recebem incentivos financeiros para seguirem uma carreira acadêmica paralela à caserna. A maioria segue cursos na área de humanas.

A exemplo do Brasil, a carreira militar é um dos meios de ascensão social. Este é o caldo de cultura do bolivarianismo: consciência proletária alicerçada pelo acesso a teorias econômicas e políticas progressistas no meio acadêmico. É bem verdade que o núcleo duro do chavismo se afastou de Maduro, inclusive o general Pérez de Arcay, mas restam poucas dúvidas de que se uniria contra um invasor estrangeiro.

Diante dos antecedentes, se houver uma intervenção militar, os resultados serão desastrosos para o povo venezuelano. Uma grande dose de bom senso deve prevalecer para que a grave situação no país não se torne ainda pior. É bom lembrar que a maior potência militar, os Estados Unidos, negocia, neste mesmo instante, sua saída do Afeganistão com o Talibã, um grupo fundamentalista islâmico que tirou do poder ao invadir o país em 2001. Uma prova de que entrar é fácil. Sair, com um mínimo de dignidade, é que são elas. É só recordar as cenas da evacuação da embaixada americana em Saigon, o último episódio da Guerra do Vietnã, em 30 de abril de 1975.

Para os que apostam em uma melhoria imediata com a tomada do poder pela oposição, é preciso lembrar que há uma série de problemas estruturais gravíssimos que não se solucionaram. O petróleo é uma droga pesada e destruiu quase todos os setores da economia da Venezuela, que já foi um grande produtor de alimentos até a década de 1940. Os esforços de Chávez para diminuir a dependência, apesar de avaliação positiva da FAO, apresentaram resultados insuficientes

Um retrato da intervenção russa na Síria

Autor: Pedro Paulo Rezende

Fonte: Arsenal – Geopolítica e Defesa

É inegável o impacto da intervenção russa, aprovada pelo Parlamento em Moscou no dia 30 de setembro de 2015, na Guerra Civil da Síria. Quando o processo teve início, em 1º de outubro de 2015, o regime sírio de Bashar Al Assad, de caráter laico, controlava pouco mais de 25% do território do país. O Estado Islâmico da Síria e do Levante dominava cerca de 30% e o restante estava dividido entre 12 grupos do que o Ocidente batizou de “oposição democrática”, formado, em sua enorme maioria, por facções religiosas sunitas bancadas financeiramente pelas monarquias absolutistas do Golfo Pérsico e apoiados por uma coalizão chefiada pelos Estados Unidos.

Hoje, 29 meses depois, os últimos focos de resistência nas proximidades de Damasco, a capital, foram eliminados no dia 21 de maio. Graças a acordos entre governo e opositores, os rebeldes são transportados por ônibus para uma faixa de 20% do território mantida, junto às fronteiras iraquiana e turca, graças ao suporte militar de Washington. A presença norte-americana tornou-se ainda mais problemática com a recente intervenção ordenada pelo presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, colocando em campos contrários os interesses de dois dos maiores integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Os focos de resistência opositores sob o alcance do regime sírio caem aos poucos em ações de cerco e o governo de Assad, legal e legítimo, controla a quase totalidade dos grandes centros econômicos do país.

É importante ressaltar que estes avanços ocorreram com o uso de forças extremamente limitadas. O contingente russo no país resume-se a 10 mil homens, a grande maioria, cerca de 8 mil, envolvido na proteção do porto de Tartus e do aeródromo de Khmeimim, bases que atuam no suprimento logístico e no suporte aéreo das operações militares.

Autossuficiência

Quando o processo de intervenção teve início, a pedido do governo sírio, os especialistas ocidentais garantiram que a Federação Russa não teria condições de manter o volume inicial de operações, devido às sanções econômicas determinadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia como punição pela reincorporação da Crimeia, ocorrida em 2015.

A avaliação não levou em conta o potencial industrial e agrícola herdado da União Soviética. O país, hoje, retomou o crescimento, caminha para a autossuficiência e apresenta um índice de desemprego de apenas 5%. Além disto, ao manter uma presença limitada no Levante, a Rússia diminuiu o impacto da intervenção militar em sua economia. Para isto, investiu na reconstrução do Exército Árabe da Síria.

O primeiro passo envolveu a reposição dos equipamentos perdidos durante as ofensivas mantidas pelo Exército Islâmico e pelos grupos rebeldes. Foram transportadas mais de 4.000 unidades, que totalizaram 1.608.000 toneladas de carga, por meio de 342 navios e 2.278 voos. Unidades russas de manutenção e reparação instalaram a infraestrutura necessária para apoiar, manter e corrigir deficiências ou mau funcionamento nos equipamentos em instalações na base aérea de Khmeimim e no porto de Tartus.

Para reconstruir o potencial combativo do Exército Árabe da Síria, a Rússia entregou sistemas de ponta, como os carros de combate T-90U — que resistiram a impactos diretos de mísseis antitanques ocidentais como o MILAN, francês, e o TOW norte-americano — e o lança-foguetes TOS-1A Buratino, que emprega munições termobáricas. Ao mesmo tempo, deslocou especialistas para servirem de consultores às unidades sírias. Hoje, os comandantes de brigadas do país árabe contam com apoio direto de oficiais russos que auxiliam, em tempo real, no processo de tomada de decisões. Para isto, dispõem do apoio de aeronaves remotamente pilotadas e com pequenas unidades das melhores forças especiais da inteligência russa, equivalentes aos SEALS da Marinha estadunidense, que trabalham de forma independente em campo.

Com estas medidas simples e de certa forma baratas, o governo sírio conseguiu retomar o moral para lançar novas ofensivas contando com apoio aéreo efetivo oferecido pela Força Aérea e pela Marinha da Federação Russa. É preciso ressaltar que a oposição conta com fluxo constante de material ocidental e de origem soviética. Em reportagem publicada pelo jornal búlgaro Trud, a jornalista Dilyana Gaytandzhieva comprovou, por meio de documentos, o envio de armas búlgaras, tchecas e romenas para os rebeldes usando 350 voos classificados como mala diplomática. O equipamento, segundo a documentação, teria como destino o Arsenal de Picatinny, nos Estados Unidos.

Outro ponto ajudou o processo de reconstrução do Exército Árabe da Síria: a atuação desastrosa da chamada “oposição democrática” nas áreas que manteve sob seu controle. A imposição da Lei Islâmica, a Sharia, com a imposição do uso de véu às mulheres, ações agressivas contra minorias religiosas muçulmanas (alauíta, sufi e xiita) e cristã, como assírios e coptas, terminaram por minar o apoio popular e por favorecer o fluxo de voluntários dispostos a lutar por Bashar Al Assad, mas é óbvio que o fator predominante para a virada na Síria foi a eficiência do apoio aéreo oferecido pelos russos.

Apoio Aéreo

Empregando aviões, helicópteros e mísseis de cruzeiro, cerca de 40 mil missões foram realizadas desde o início da intervenção. A lista de equipamentos testados é extremamente abrangente e envolve, praticamente, todos os modelos de aviões de combate empregados pela Força Aérea e pela Marinha da Federação Russa. Neste processo, 215 diferentes tipos de armamentos modernos e avançados foram empregados durante a operação, inclusive o novíssimo caça furtivo Sukhoi Su-57. Capacidades foram reveladas surpreendendo o Ocidente. Quando pequenas corvetas de 500 toneladas de deslocamento que operam no Mar Cáspio atingiram, com mísseis de cruzeiro Kalibr, alvos na Síria, a Marinha dos Estados Unidos retirou temporariamente seu porta-aviões do Golfo Pérsico.

A Marinha, empregando, além das pequenas corvetas, submarinos convencionais e fragatas, disparou mais de 100 Kalibr. Ela também executou missões a partir do porta-aviões Almirante Kuznestsov, as primeiras da história da Rússia, atingindo 1.252 alvos terroristas.

Um ponto importante, pouco destacado pela mídia ocidental, foi o emprego de aeronaves remotamente pilotadas. O jornal israelense Haaretz destacou em um artigo, publicado em 2016, que um aparelho de pequeno porte invadiu, durante 30 minutos, o território das Colinas de Golan. Para neutralizá-lo foram disparados dois mísseis Patriot de fabricação norte-americana, que falharam. Um caça F-16 decolou e tentou engajar o alvo, que realizou manobras de evasão, aparentemente com o uso de inteligência artificial, e retornou incólume ao território sírio.

A intervenção utilizou bombardeiros estratégicos Tupolev Tu-160 e Tu-22M3 armados com mísseis Kh-101; caças-bombardeiros Sukhoi Su-24, Su-30 e Su-34; aviões de ataque Su-25 e helicópteros de ataque Mil Mi-35, Mi-28 e Kamov Ka-52. O total de perdas, menos de dez aeronaves e cerca de 200 homens (incluindo combatentes de terra), foi reduzido diante do volume de operações envolvido.

As unidades russas também enfrentaram desafios novos. As forças de oposição usaram enxames de drones armados com pequenas bombas explosivas para atacarem Khmeimim e o porto de Tartus. Nenhum deles atingiu o alvo. De um total de 14, oito foram derrubados por mísseis PANTSIR S-2. Usando sistemas de interferência, a defesa tomou o controle de seis drones, capturando-os. Ao acessarem os dados, verificaram, com surpresa, que estavam programados para atingirem milimetricamente, com a ajuda de GPS, alvos valiosos, como aviões de combate, o que prova o envolvimento de potências estrangeiras.

Para evitar problemas como os enfrentados pela OTAN durante a invasão de Kosovo, quando os estoques de armas inteligentes da Coalizão praticamente se esgotaram, os pilotos russos treinam para usar armas convencionais com grande precisão. Este approach tem dado certo e o total de baixas colaterais se assemelha ao verificado em ataques com equipamentos guiados realizados pela Aliança Ocidental na Síria, uma prova de que o homem pode superar a máquina.

Nota do Editor do Blog DG:  Pedro Paulo Rezende é um veterano jornalista, especializado em Defesa e Geopolitica.

A ridícula farsa do assassinato que não houve

Por: César A. Ferreira

Pode-se dizer que as autoridades ucranianas dispensam a companhia de humoristas, pois elas mesmas fazem humor… E muito. Nesta quarta-feira a piada veio ao mundo na forma da aparição do “jornalista”, até então assassinado, Arkadiy Babchenko…

A história é a que segue: no dia 29 ultimo, o SBU forjou o “assassinato” de Arkadiy Babchenko, cujo corpo teria sido encontrado pela sua mulher, no apartamento, crivado de balas… Menos de vinte minutos depois uma intensa cobertura de mídia canonizava a suposta vítima, e hostilizava Moscou, apontada como a mandante do assassinato. O mundo inteiro comprou a versão ucraniana que culpava Putin e a Rússia inteira pelo caso… E assim se deu com mensagens solidárias ao morto e hostil aos russos, dos Repórteres Sem Fronteira à BBC…

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A imagem da farsa de Arkadiy Babchenko e do SBU: o sangue provavelmente é molho de tomate. Imagem: Central European News.

Pois bem… Arkadiy Babchenko apareceu no dia 30, vivo, serelepe e pampeiro, com cara de parvo, que talvez lhe seja natural, ladeado pelo Chefe do Serviço de Segurança da Ucrânia, Ce pelo Procurador Geral,  Yury Lutsenko. A piada de mau gosto foi justificada como uma maneira de evitar que Arkadiy Babchenko viesse a ser eliminado por profissional, que segundo a SBU deveria receber US$ 30.000,00 pelo serviço. Desnecessário dizer que a versão ucraniana passou a carecer de crédito após o país inteiro ter sido feito de bobo pela mídia local, que realizou uma maratona de entrevistas e matérias sobre a vítima, pessoa sem qualquer brilho pessoal até então. O interessante, todavia, foi ver a ginástica intelectual de repórteres e colunistas europeus e norte-americanos em vista da farsa quando revelada. Frank Gardner, correspondente da BBC afirmou ter sido um “engano” que turvaria o caso Skripal... Não se vê em Gardner a indignação natural de ter sido feito de palhaço. Ah! Se fossem os russos…

Os russos, por óbvio, irão tirar proveito desta trapalhada e acusar outra, desta vez britânica, no caso Skripal, afinal, pessoas que nada sabem sobre agente de nervos podem comprar o fato de que existem vitimas que se recuperam em um hospital após expostas a um gás mais poderoso que o agente de nervos VX, mas, que conhece sobre o assunto sabe que ninguém exposto a um agente desta natureza sobreviveria… A farsa britânica não é tão grotesca, é mais elaborada e blindada pela mídia ocidental, mas ainda assim é uma farsa.

 

Ucrânia: derrotas e recriminações

Por: César A. Ferreira

Para o governo ucraniano os mortos são desaparecidos.

Dezenas de combatentes ucranianos mortos no conflito do Donbass não são reconhecidos como tais pelo governo de Kiev, sendo por este, taxados simplesmente de “desaparecidos”… Esta classificação possui um ingrediente cruel para as famílias dos soldados vitimados, dado que quando classificados como desaparecidos não permite a legislação vigente na Ucrânia a concessão de pensão aos familiares. Em outras palavras, o executivo ucraniano vale-se de um preciosismo legal para sonegar aos familiares um direito legítimo, o que em última instância demonstra o caráter daqueles que governam o pai frente àqueles que tributam em sangue pela pretensa honra ucraniana.

Estes mortos encontraram o seu destino na última ofensiva empreendida pelas forças ucranianas na área do distrito de Gorlovka, nas datas de 20 e 21 de maio último, ofensiva esta que já no dia 22 havia sido paralisada pelas ações contraofensivas das milícias do Donbass. Verificou-se, como sempre, a incompetência e o pouco empenho das formações ucranianas em contraste com as ações aguerridas dos milicianos. Deu-se que membros de forças de reconhecimento viram-se, para grande espanto destes, confinados em uma vasta área minada na terra de ninguém, e ao solicitarem apoio atraíram fogo para estes e a eles. A planejada ofensiva foi revelada, resultando no comprometimento prematuro dos infantes, bem como dos blindados e da artilharia autopropulsada… A 1º Batalhão da 24ª Brigada de Infantaria Mecanizada, que conta com oito carros blindados e quatro obuses autopropulsados, foram monitorados desde a sua concentração na localidade de Dzerzhinsk o que motivou a sua confrontação, resultando primeiro na paralisação das ações e depois no retraimento sob fogo.

Além do grupo precursor que incrivelmente não havia mapeado o campo minado e enviado sapadores para limparem trilhas para incursões, outros três grupos precursores tiveram a mesma sorte madrasta. Isto revela um problema sério de doutrina e adestramento nas armas ucranianas. O fracasso da ofensiva em Gorlovka resultou nos costumeiros bombardeios de artilharia nas áreas civis, após o retraimento apressado das formações para a localidade de Dzerzhinsk, com consequente minagem emergencial dos campos no entorno desta localidade, o que em si revela certo grau de pânico, se não nas formações, ao menos no comando.

Após a derrota as recriminações. Duas formações táticas deveriam se lançar para pressionar as formações milicianas na forma de uma pinça. Seriam as formações táticas “Leste” e “Norte”. O Comandante da operação, Tenente-General Sergei Naev eximiu-se de responsabilidades e criticou fortemente o comandante do braço “Norte”, enquanto poupava o comando do braço “Leste”. É interessante notar que o comandante da ala “Leste” da operação, A. Krasnok, é diretamente supervisionado pelo serviço de segurança da Ucrânia, tendo como serviço anterior comando de formações divisionais mal afamado batalhão “Azov” da Guarda Nacional Ucraniana. De fato, investigação conduzida às ordens do Chefe de Gabinete das Forças Armadas da Ucrânia, General de Exército Viktor Muzhenko, constatou conflito entre as formações militares e aquelas que respondiam à SBU (Sluzhba Bezpeky Ukrayiny – Serviço de Segurança da Ucrânia), além disto, a má disciplina, consumo inveterado de álcool e condutas criminosas foram observadas nas formações, especialmente na 36ª Brigada de Fuzileiros Navais, cujo comandante foi apontado como dotado de extrema fraqueza moral e incapaz de executar as suas obrigações como oficial.

O General de Exército Viktor Muzhenko tem muito que lamentar… A operação que resultou em mais um desastre, algo em torno de 31 mortos e 40 feridos com gravidade, pode parecer algo em escala pequena para muitos, mas se tratava obviamente de uma operação escalonada. O objetivo estratégico perseguido por Kiev é interromper o trafego logístico entre Lugansk e Donetsk. O foco para separar os dois distritos rebeldes é a localidade de Debaltsevo, centro logístico de importância fulcral. Para tanto, a posso de Gorlovka torna-se chave para que sejam efetuadas operações contra Debaltsevo e Enakievo. O fracasso da operação, frente ao assentamento de Chigary, é a parte mais dolorosa para Kiev, visto contar com Carros de Combate e blindados BMP e onde ao menos uma dezena de combatentes encontrou o seu destino final, mas que para o governo de Kiev estão apenas… Desaparecidos.

An-26 abatido

Ucranianos vão tirar foto nos destroços da AN-26
Restos do Antonov An-26 abatido em Izvarino. Moradores locais demonstram a sua curiosidade. Imagem: Dominique Faget/AFP Photo.

Uma aeronave de transporte militar, Antonov (An-26), pertencente às armas ucranianas, foi abatida por milicianos da República Popular de Lugansk, quando sobrevoava o território desta na altura da localidade de Izvarino, assentamento urbano nos arredores de Lugansk. Não foi informado qual foi o meio antiaéreo empregado, todavia, relatam-se 20 fatalidades decorrentes do ato.

Moradores de Izvarino relataram ao menos três paraquedas desfraldados no ar, todavia nã relataram o encontro de nenhum tripulante sobrevivente. Os destroços da aeronave chamaram atenção destes mesmos moradores, que pegaram partes metálicas do avião como recordação. A ação antiaérea se deu por volta das 12:30 do dia 28 último, horário local.

Em vista dos acontecimentos, onde se constata, mais uma vez, incompetência crassa, leniência e compadrio, entendem-se, pois, os motivos do Estado Ucraniano recusar reconhecer as dezenas de mortos desta operação fracassada, impondo às famílias, além da dor da perda dos seus entes queridos, nenhum vintém pela morte dos seus arrimos. Muito há o que esconder nesta guerra cruel e insana, movida por motivos ideológicos torpes. A população do Donbass sangra, enquanto a população da Ucrânia pasta sem perspectiva alguma de melhora de vida, imersa numa contínua crise econômica e social. Parabéns à Maidan.

Nota do Editor: artigo realizado com materiais advindos das agências Voenkor, Southfront, AFP, News Front, Prensa Latina e de contribuições de correspondentes locais.

A Rússia apresenta o seu próprio míssil “Carrier Killer”, e este é mais perigoso que o da China

Como o Kh-47M2 pode alterar drasticamente o equilíbrio de poder no Pacífico.

Por:  Abraham Ait 

Fonte:  The Diplomat (12 de maio de 2018).

O míssil balístico “matador de Porta-Aviões” da China, o DF-21D, ganhou manchetes desde que entrou em serviço, em 2010, por sua capacidade de destruir grandes navios de guerra dos EUA até 1.450 quilômetros de distância das costas do país. O míssil foi fundamental para alterar o equilíbrio de poder nos mares do Sul e do Leste da China a favor de Pequim e expandiu vastamente a zona marítima de negação / defesa de área (A2 / AD) do país em face da crescente presença naval americana. A Marinha dos Estados Unidos, pela  admissão do Instituto Naval dos EUA não tinha defesa contra tais ataques, e o míssil limita a capacidade dos Estados Unidos de responder a uma crise potencial no Estreito de Taiwan, como ocorreu em 1996. Embora o DF-21D seja um sistema de armas único e altamente formidável, um novo sistema de armas implantado a partir de 2018 é susceptível de representar uma ameaça muito maior para os navios de guerra dos EUA no Pacífico – o novo míssil hipersônico Kh-47M2 Kinzhal das forças armadas russas.

O Kinzhal (Adaga) foi revelado pessoalmente pelo presidente russo, Vladimir Putin, em março de 2018, como uma das seis novas armas hipersônicas que entrariam em serviço nas forças armadas russas. Enquanto outras plataformas hipersônicas, caso do Sarmat ((ICBMS: míssil balístico intercontinental) e da ogiva (veículo de entrada hipersônico de precisão) Avangard, que foram projetados unicamente para cumprir um  papel estratégico de ataque nuclear, o que faz com que o Kinzhal se destaque é a sua capacidade de ser usado como uma plataforma de ataque tático com uma ogiva não nuclear – o que equivale dizer que ele faz dos campos de batalha um cenário para ataques de precisão contra alvos militares. Embora o Kinzhal possa carregar uma ogiva nuclear para um papel de ataque estratégico, o que o torna verdadeiramente inestimável é sua capacidade de cumprir um papel tático de caçar navios em escalas extremas – possivelmente melhor do que qualquer outra plataforma de mísseis de longo alcance atualmente em serviço em outros lugares.

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MiG-31K portando o míssil “Khinzal”. Foto: internet.

A ogiva de Kinzhal é estimada entre 500 e 700 kg, uma carga útil formidável, embora seja bem inferior à do DF-21D chinês. O que diferencia o Kinzhal, no entanto, e o torna um caçador de navios verdadeiramente letal é sua combinação de precisão, alcance e velocidade de impacto hipersônica, acima de Mach 5. Mesmo sem ogiva, a energia cinética desse impacto seria suficiente para colocar fora de combate se não destruir, completamente, até mesmo o maior dos navios de guerra. Alguma indicação de seu poder pode ser obtida examinando o míssil de cruzeiro anti-navio BrahMos, russo-indiano, uma plataforma restrita a velocidades de Mach 2.8 e dotado de uma ogiva com 250 kg, que foi desenvolvida para destruir navios grandes, cortando-os pela metade com a pura força do seu impacto em alta velocidade – e apesar da falta de velocidades hipersônicas, provou-se capaz de fazê-lo. A partir disso, pode-se inferir que o Kinzhal (é capaz de fazer).

De acordo com o vice-ministro da Defesa da Rússia, Yuriy Borisov, os militares já modificaram dez interceptadores MiG-31 para portar os mísseis ar-mar Kinzhal desde março. O oficial afirmou sobre as capacidades da arma: “Esta é uma classe de armas de precisão que tem uma ogiva multifuncional capaz de atacar alvos estacionários e em movimento… (Isto) decola no ar, acelera a uma certa velocidade em alta altitude, e então o míssil inicia seu próprio movimento autônomo”. Ele enfatizou a importância de uma alta velocidade de impacto para o desenho de Kinzhal, e ainda afirmou que o o míssil foi projetado para “manobrar durante o vôo e contornar zonas perigosas contendo sistemas de defesa antiaéreos ou antimísseis (…)”.

Várias figuras-chaves militares dos Estados Unidos observaram após a revelação russa dos seus novos mísseis hipersônicos, que os Estados Unidos atualmente não possuem capacidade de interceptar ataques em tão alta velocidade, estando o Comandante Estratégico, John Hyten, afirmado  durante uma reunião do Comitê de Serviços das Armas do Senado que os sistemas de defesa aérea dos EUA permanecem totalmente incapazes de impedir ataques por plataformas hipersônicas. De fato, de acordo com vários relatos de fontes norte-americanas, algumas das mais avançadas plataformas militares de defesa aérea lutaram e falharam recentemente em Interceptar até mesmo os ataques de mísseis subsônicos como o Scud B, um projeto primitivo que data de mais de 50 anos. Isso tem sérias implicações não apenas para o continente americano diante dos novos ICBMs russos, mas também para a Marinha dos EUA, que poderia ver seus destróieres e transportadores (Porta-Aviões) afundados pelas novas plataformas de ataque Kinzhal de maneira extrema em caso de conflito.

Embora a Rússia tenha pouca necessidade de mísseis anti-navios de longo alcance em suas fronteiras ocidentais, onde as distâncias marítimas estão relativamente confinadas (por imperativo geográfico), a implantação do Kinzhal no Extremo Oriente do país teria implicações significativas para o equilíbrio de poder no Pacífico. Com o interceptor MiG-31 mantendo um raio de combate de 1.500 km, a Força Aérea Russa seria capaz de atingir navios de guerra dos EUA a até 3.500 km de distância de suas costas. Deveriam combater com aeronaves desdobradas, próximas de Vladivostok, no extremo oriente da Rússia, a sua área de ataque cobriria todo o Mar da China Oriental e grande parte do Mar da China Meridional, até as Filipinas e incluindo toda a região marítima contestada reivindicada pela China e sujeita à liberdade dos EUA com as suas patrulhas de navegação. As implicações são realmente severas e poderiam muito bem fortalecer seriamente a posição de Moscou no Pacífico. Se a Rússia visar negar aos recursos navais dos Estados Unidos e dos seus aliados, negando o acesso aos mares do sul e do leste da China, seja para ajudar Pequim, ou por suas próprias razões, teria uma arma à sua disposição mais capaz de fazê-lo do que aquelas que possuem, atualmente, as mãos chinesas. Moscou poderia alavancar esse ativo para ganhar influência considerável no Pacífico, o que pode mais do que compensar a relativa escassez dos seus recursos militares na região.

O Kinzhal ainda pode usurpar o título de “matador de Porta-Aviões” do Pacífico e facilitar o objetivo russo/chinês de reduzir a influência e a presença militar do bloco ocidental no Pacífico, deixando a frota de superfície dos EUA efetivamente indefesa – minando o incontestado domínio naval dos EUA, que tem sido o alicerce da ordem regional desde 1945.Quanto a Moscou é altamente provável que venha alavancar este formidável ativo para a sua vantagem no futuro.

Abraham Ait é um analista militar especializado em segurança na Ásia-Pacífico e no papel do poder aéreo na guerra moderna. Ele é editor-chefe da  Military Watch Magazine ..

A integridade desapareceu do ocidente

Por:  Paul Craig Roberts

Entre os líderes políticos ocidentais não há nem um pouco de integridade ou moralidade. A mídia impressa e televisiva ocidental é desonesta e corrupta além do reparo. No entanto, o governo russo persiste em sua fantasia de “trabalhar com parceiros ocidentais da Rússia”. A única maneira pela qual a Rússia pode trabalhar com vigaristas é se tornar um bandido. É isso que o governo russo quer?

Finian Cunningham observa o absurdo no tumulto político e midiático sobre Trump (tardiamente) telefonando a Putin para parabenizá-lo por sua reeleição com 77% dos votos, uma demonstração de aprovação pública que nenhum líder político ocidental conseguiria alcançar. O enlouquecido senador pelo Arizona (McCain) chamou a pessoa com o maior voto majoritário do nosso tempo de “um ditador”. No entanto, o autocrata da Arábia Saudita é festejado na Casa Branca e bajulado pelo presidente dos Estados Unidos.

Os políticos e assessores de imprensa do Ocidente estão moralmente indignados com um suposto envenenamento, sem o apoio de qualquer evidência, de um ex-espião sem importância por ordem do próprio presidente da Rússia. Esses insultos insanos lançados contra o líder da nação militar mais poderosa do mundo – e a Rússia é uma nação, ao contrário dos países ocidentais heterogêneos – aumentam as chances do Armagedom nuclear além dos riscos durante a Guerra Fria do século XX. Os tolos insanos que fazem essas acusações sem base mostram total desrespeito por toda a vida na Terra. No entanto, eles se consideram o sal da terra, como pessoas “excepcionais e indispensáveis”.

Pense no suposto envenenamento de Skripal pela Rússia. O que isso pode ser diferente de um esforço orquestrado para demonizar o presidente da Rússia? Como pode o Ocidente ficar tão indignado com a morte de um ex-agente duplo, isto é, uma pessoa enganosa, e completamente indiferente aos milhões de povos destruídos pelo Ocidente somente no século 21? Onde está o ultraje entre os povos ocidentais sobre as mortes massivas pelas quais o Ocidente, atuando através de seu agente saudita, é responsável no Iêmen? Onde está o ultraje ocidental entre os povos ocidentais sobre as mortes na Síria? As mortes na Líbia, na Somália, no Paquistão, na Ucrânia, no Afeganistão? Onde está a indignação no Ocidente em relação à constante interferência ocidental nos assuntos internos de outros países? Quantas vezes Washington derrubou um governo democraticamente eleito em Honduras e reinstalou um fantoche de Washington?

A corrupção no Ocidente se estende além dos políticos, dos assessores de imprensa e de um público despreocupado para os especialistas. Quando a ridícula Condoleeza Rice, assessora de segurança nacional do presidente George W. Bush, falou das armas de destruição em massa inexistentes de Saddam Hussein, que enviavam uma nuvem nuclear sobre uma cidade americana, os especialistas não riram dela na tribuna. A chance de qualquer evento desse tipo era precisamente zero e todo especialista sabia disso, mas os especialistas corruptos seguraram suas línguas. Se eles falassem a verdade, eles sabiam que não apareceriam à TV, não receberiam subvenção do governo, estariam fora da disputa para uma nomeação governamental. Então eles aceitaram a mentira absurda projetada para justificar uma invasão americana que destruiu um país.

Este é o Ocidente. Não há nada além de mentiras e indiferença às mortes de outros. A única indignação é orquestrada e dirigida contra seus alvos: o Taleban, Saddam Hussein, Gaddafi, Irã, Assad, Rússia e Putin, e contra os líderes reformistas na América Latina. Os alvos da indignação ocidental são sempre aqueles que agem independentemente de Washington ou que não são mais úteis para os propósitos de Washington.

A qualidade das pessoas nos governos ocidentais entrou em colapso e atingiu o fundo do poço. Os britânicos na verdade têm uma pessoa, Boris Johnson, como secretário do Exterior, que é tão depreciativo que um ex-embaixador britânico não tem escrúpulos em chamá-lo de mentiroso categórico. O laboratório britânico Porton Down, ao contrário da alegação de Johnson, não identificou o agente associado ao ataque à Skripal como um agente “novichok” russo. Note também que se o laboratório britânico fosse capaz de identificar um agente “novichok”, ele também teria a capacidade de produzi-lo, uma capacidade que muitos países têm, já que as fórmulas foram publicadas anos atrás em um livro.

Que o envenenamento por “novichok” de Skripal é uma orquestração é óbvio. No minuto em que o evento ocorreu, a história estava pronta. Sem evidência, o governo britânico e a mídia da imprensa estavam gritando “os russos fizeram isso”. Não contentes com isso, Boris Johnson gritou “Putin fez isso”. Para institucionalizar o medo e o ódio da Rússia à consciência britânica, na escola britânica as crianças estão aprendendo que Putin é como Hitler.

Orquestrações tão flagrantes demonstram que os governos ocidentais não respeitam a inteligência de seus povos. Que os governos ocidentais se safam dessas mentiras fantásticas indica que os governos são imunes à responsabilidade. Mesmo que a prestação de contas fosse possível, não há sinal de que os povos ocidentais sejam capazes de responsabilizar seus governos. Enquanto Washington leva o mundo à guerra nuclear, onde estão os protestos? O único protesto é a lavagem cerebral em crianças em idade escolar protestando contra a Associação Nacional de Rifles e a Segunda Emenda.

A democracia ocidental é uma farsa. Considere a Catalunha. O povo votou pela independência e foi denunciado por fazê-lo por políticos europeus. O governo espanhol invadiu a Catalunha alegando que o referendo popular, no qual as pessoas expressavam sua opinião sobre o próprio futuro, era ilegal. Líderes catalães estão na prisão aguardando julgamento, exceto por Carles Puigdemont, que escapou para a Bélgica. Agora, a Alemanha o capturou quando retornou da Finlândia para a Bélgica, onde lecionou na Universidade de Helsinque e o mantém preso por um governo espanhol que se parece mais com Francisco Franco do que com a democracia. A própria União Europeia é uma conspiração contra a democracia.

O sucesso da propaganda ocidental em criar virtudes inexistentes é o maior sucesso de relações públicas da história.

 

Fonte: Institute For Political Economy

Foi revelado para Israel quem é o principal ator da região

O fim da hegemonia de Israel – perdeu um avião no céu sobre a Síria e apelou para Moscou para a salvação dos iranianos.

Autor: Pokrovsky, Alexander

Fonte: Tsargrad. Tv

Tradução: Alexey Thomas Filho

Não, Israel não perdeu fisicamente. A perda de uma aeronave é desagradável, mas não é um absurdo. Tel Aviv tem muitos deles… Israel perdeu moralmente.

Aproximadamente, é possível descrever não tanto os aspectos militares quanto o quadro psicológico/ militar que se desenvolveu no Oriente Médio após este fim de semana. Tal imagem poderia ser chamada geopsicológica, por analogia com geopolítica, quando, em termos formais, nada mudou no confronto dos lados em guerra, mas a imagem psicológica desse confronto tornou-se fundamentalmente diferente.

Batalha aérea no céu sobre a Síria

O que aconteceu? De acordo com o exército israelense, eles interceptaram na noite de sábado um drone iraniano que alegadamente invadiu o espaço aéreo de Israel no território da Síria.

Aqui, deve-se notar,  entre aspas, que a Síria não tem uma “fronteira comum” com Israel. Os limites são divididos pelas Colinas de Golan – território ocupado por Israel, que foi proclamado como seu, unilateralmente, mas reconhecido pelo mundo inteiro como território da Síria ocupado por Israel.

Também se deve notar que a Síria, adjacente ao Golan Heights, ocupada por Israel, acolhe vários grupos hostis a Damasco, incluindo a organização IG / IGIL (EI – Estado Islâmico), proibida na Rússia e no mundo pelo terrorismo. Todos eles estão sob controle óbvio e sob a capa protetora de Israel, que repetidamente bombardeou as forças do governo de Damasco, impedindo que os terroristas eliminados das áreas que ocuparam nas províncias de Deraa e Kuneitra.

Portanto, os drones iranianos não poderiam invadir o território de Israel. Muito provavelmente – embora os iranianos geralmente neguem a sua existência -, o aparelho estava realizando o reconhecimento das posições do IG (EI – Estado Islâmico), contra  o qual o grupo Hezbollah, que está sob o controle do Irã e do governo sírio – aliado ao legítimo governo sírio, está conduzindo uma luta irreconciliável.

Israel, de acordo com sua própria versão, realizou um ataque de “retaliação”, derrubando drones e atacando os “alvos iranianos” na Síria. É desta maneira que é denominada a base T4 “Tiyas” perto de Palmyra – 300 km adentro no território sírio. Foguetes (mísseis balísticos táticos) foram também dispados contra baterias antiaéreas na proximidade de de Damasco, que são considerados alvos “iranianos” por Israel…

Isso aconteceu muitas vezes, como se diz em Jerusalém, mais de uma vez. Parece ser formalmente, o suficiente, mas na verdade, até então, a fraca defesa aérea da Síria não tinha como resistir aos atos aéreos israelenses por um longo período de tempo. E até mesmo quando um caso relativamente recente, onde supostamente uma ave migratória danificou o super-moderno e super-implacável F-35 israelense, o comando judaico não se atentou (alertou-se).

Mas desta vez, deu-se o inesperado, uma verdadeira “resposta” séria chegou: as forças de defesa aérea da Síria lançaram vários mísseis contra as aeronaves israelenses. Como resultado, um F-16 foi derrubado e caiu no território de Israel. Os pilotos ejetaram, mas um deles veio a falecer em função dos ferimentos sofridos.  Além disso, os sírios anunciaram que atingiram e danificaram outras aeronaves de Israel, mas, aqui o fator Oriente entra em jogo e como é sabido, é praticamente impossível estabelecer de fora alguma confirmação que seja. Israel, em qualquer caso, silencia-se sobre este assunto – o que, no entanto, também pode ser explicado pelo mesmo fator Oriente.

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Destroços do F-16I Sufa abatido. Imagem: Reuters.

Quanto ao que exatamente “desbancou” os pilotos também diferem em versões.  De acordo com uma fonte, estes eram mísseis do complexo S-200, de acordo com outras, um dos mísseis do sistema “Pantsir-S1”, que foram transferidos recentemente para o exército sírio. Figuram, também, o sistema “BuK” como um dos heróis dos eventos. Alguns até indicam o S-400, mas isto é, na opinião geral dos observadores militares, improvável. Não no espírito, não no costume e não nos interesses. A menos que os capitães da defesa aérea síria Al-Ekseya. Mas, sem tal força maior, estava na ordem das coisas.

De qualquer forma, os restos de mísseis do S-200 foram encontrados no território da Jordânia e do “BuK” – no vale Bekaa no Líbano.

Um hooligan desdentado apelou para a polícia

Não, inicialmente caindo no estado de “anestesia” advinda da reação inesperadamente eficaz, Israel entrou em colapso nervoso encetando poderosos ataques às posições da defesa aérea síria e iraniana (na Síria). Os subúrbios ocidentais de Damasco foram submetidos a bombardeios. O resultado das invasões (três, de acordo com fontes locais) é novamente contraditório, mas, segundo alguns relatórios, outro vetor israelense foi abatido – helicóptero de ataque “Apache”. A autenticidade da mensagem é a mesma do leste.

Imediatamente, um alarme foi disparado em Israel, os habitantes do Golã foram enviados para abrigos, as decolagens e o desembarque de civis foram suspensos no aeroporto internacional Ben Gurion. Esta é uma evidência clara de que, em primeiro lugar, Tel Aviv, considerou seriamente a possibilidade de uma maior escalada das hostilidades, tanto contra a Síria como contra o Irã. A propósito, de acordo com os analistas, independentemente das ações concretas no futuro próximo, as partes se tornaram, em qualquer caso, em um ponto de inflexão histórica. Ou seja, o caminho para a perda da supremacia incondicional dos judeus no ar (excluindo o fator da Rússia, é claro) e o fortalecimento adicional da defesa aérea árabe e persa, significa, a retomada desta mesma dominação pela exclusão.

Em qualquer caso, do “voo” do “corvo” que danificou o F-35, ao realmente abatido F-16 passou-se um intervalo bastante rápido – alguns meses. E se os sírios – e, portanto, os iranianos – vierem a fechar completamente seus céus ao inimigo, significará uma mudança tectônica nas forças de todo o Oriente Médio. E caso os EUA não possam evitar que os seus aliados no Golfo comprem os sistemas S-400 da Rússia, então a configuração de todo o puzzle de energia na região poderá ser reformatada radicalmente.

Alguns analistas acreditam que, após o incidente atual, os americanos serão mais difíceis de jogar com as sanções: se o S-200, originários da década de 1960 abatem os F-16, o que o S-400 poderia fazer com os aviões israelenses?

É muito provável que em Israel, calculou-se muito rapidamente as consequências, em longo prazo, da atual batalha nos céus da Síria. Porque o “hooligan” decidiu reclamar à “polícia” sobre o comportamento ofensivo da vítima pretendida.

Em outras palavras, Israel se voltou para a… Rússia! Com um pedido para intervir e prevenir a escalada da “violência“. “Israel contatou os funcionários em Moscou com um pedido para transmitir a mensagem à Síria e ao Irã que, apesar de ter dado um poderoso golpe em resposta ao incidente com o drone, ele não está interessado em agravar a violência no futuro”, informou o jornal Times, com referências as fontes diplomáticas de Israel.

Claro, havia outras vozes. Conhecida por seus links com os círculos militares e de inteligência, o portal DEBKAfile acena com os punhos: “os mísseis de defesa aérea sírios que atingiram o F-16 israelense no sábado, 10 de fevereiro, fazem parte de um sistema administrado pelos russos a partir de sua base aérea Khmeimim”.

Bem, como você gostaria? Vamos questionar-lhes: o que você faz no céu da Síria, que tem um acordo de cooperação com a Rússia, incluindo o militar? Sim, vamos adicionar: por que, de fato, você está defendendo os bandidos ISIS (EI – Estado Islâmico) perto das Colinas de Golan, enquanto perde os vetores aéreos?

De qualquer maneira, o apelo a Moscou se deu. E a partir disto não houve continuação de ataques contra as posições das forças iranianas na Síria. E o Irã engrandeceu-se, muito. Não só anunciou que “a era dos ataques israelenses impunes na Síria terminou”, mas também prometeu que “as portas do inferno se abrirão sobre Israel”.

O mediador para a resolução da situação, àquele para o qual se apela para que a luta não chegue ao extremo, por padrão geral tem por escolha, Moscou. Tornou-se para todos no Oriente Médio uma espécie de policial militar.

Nota do Editor do Blog Debate Geopolítico: Ainda está nebuloso, no tocante aos vetores empregados contra o F-16I (Sufa), mas os debris, ou seja, partes do booster de um S-125 (Pechora) foram encontrados em solo libanês, além de partes de um vetor do sistema S-200. Alega a defesa antiaérea síria que os vetores 57E6 do sistema Pantsyr-S1 abateram vários mísseis táticos lançados contra alvos militares e civis em território sírio. As alegações da defesa aérea síria compreendem além do F-16I Sufa, abatido, outro F-16, um F-15I e um AH-64 “Apache”. Israel nega tais alegações e reconhece a perda do único F-16, pelo fato simples de que não é possível negar os destroços fumegantes ao lado de uma rodovia, aos olhos de todos e dos respectivos celulares.

Iron Dome: entre falhas e acertos

Por: César A. Ferreira

É natural uma nação ter orgulho das suas realizações e que se dê ao exagero quando dá publicidade das capacidades presentes nestas mesmas realizações, principalmente se estas provêm do campo militar. Algumas nações exageram demasia e entre estas se encontra Israel e o seu sistema antimísseis “Iron Dome”… O sistema possui como vetor o míssil Tamir e está destinado a dar conta de munições no seu trajeto terminal. O alcance efetivo do vetor é curto, cerca de 10 km, adequado a sua função de defesa crítica de último nível. Até aqui, tudo bem. O que não está bem, como bem já demonstrou o diário israelense Haaretz, é a alegada taxa de sucesso do sistema, apontada como de 90% segundo o fabricante, a Rafael Advanced Defense System, dado que a informação de 90% de interceptações com sucesso é fornecida como usual em ambiente de fogo saturado. Somam-se a isto as declarações jamais confirmadas de que o sistema foi responsável por 400 abates de ogivas inimigas, disparadas pelo grupo Hamas contra concentrações habitacionais de Israel. Pois, pois…

As sirenes “Tseva HelI” soaram e os vetores de interceptação foram lançados bloqueando o ataque de foguetes realizado pelos resistentes palestinos da Faixa de Gaza em direção ao aglomerado habitacional de Kafar Aze. A cidade mostra danos de monta em edifícios cuja causa foram os foguetes lançados pelos resistentes palestinos. A comunicação oficial é de que não houve casualidades em função do ataque palestino e que os ataques dirigidos aos assentamentos de Shaar Hanegev e Sdot Negev foram rechaçados, não houve alusão aos danos em Kafar Aze…

O fato é que não existe e jamais existirá percentual absoluto de sucesso em qualquer sistema antimíssil, e que a taxa de sucesso dependerá de quão saturado estará este mesmo sistema defensivo. Agora, caro leitor, transporte isto para um sistema ABM e você terá a resposta da sanidade de quem deposita confiança total em tais sistemas, que deverão ser os alegados escudos contra ataques nucleares…

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Pantsyr S1 em ação. Imagem: Site Defesa Aérea & Naval.

Patsyr S-1 testado mais uma vez em combate

Desenvolvido para prover proteção de camada de último nível para formações militares terrestres da Federação Russa, o sistema Pantsyr S1, que conta como vetor principal o míssil 57E6, contou mais de uma vez com sucesso pleno em interceptar foguetes lançados contra a base aérea russa na Síria, Khemeimin. No dia 27 de dezembro este sistema teria dado conta de foguetes disparados contra a base desdobrada de Bdama, na província de Idlib, quando dois foguetes foram abatidos, conforme informa a senhora Maria Zakharova, oficial representante do Ministério das Relações Exteriores da Federação Russa.

As armas utilizadas pelos terroristas são foguetes de saturação de área pertencentes ao sistema “Grad”. Proveniente da Bulgária, são obtidos pelos terroristas em áreas dominadas pelos EUA na Síria, cujo serviço de inteligência abastece os extremistas com propósito óbvio de manter a desestabilização da Síria como nação.

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S-400 na neve. Imagem: internet.

S-400

Enquanto isso outro sistema é notícia, o S-400… A Turquia e a Federação Russa acertaram como meio de pagamento a moeda nacional desta última, o Rublo. Desta maneira evita-se o rastreio do envio do montante pelo sistema bancário internacional caso este fosse efetivado via USD, bem como qualque3r restrição advinda, como sequestro, ou bloqueio de crédito ou do valor propriamente dito. A Rússia financiará em sua moeda nacional a venda deste sistema e deverá ser ressarcida na sua própria moeda nacional evidenciando desta maneira uma fuga do dólar como meio internacional de pagamentos. Um detalhe desta negociação é que a Turquia poderá compensar os russos com moeda de terceiros países, que vale dizer com o Yuan/Renmibi como referência.

Nota do Editor: ABM – Anti Ballistic Missile.

Navios da Marinha do Brasil iniciam retorno


Por: César A. Ferreira

Após darem apoio às buscas ao ARA San Juan, atendendo ao chamado da Armada Argentina de apoio SAR, dois dos navios da Marinha do Brasil, a fragata F-49 “Rademaker” (Type 22) e o navio polar de pesquisas oceanográficas H-41 “Almirante Maximiano”, retornam as suas missões anteriores, caso do H-41 “Almirante Maximiano”, que segue para o continente antártico, e ao Brasil, destino da fragata F-49 “Rademaker”. Permanece em Mar del Plata, todavia, aguardando as ordens do comando da Armada da República Argentina o vaso vocacionado para resgate da Marinha do Brasil, o K-11 “Felinto Perry”.

As facilidades apresentadas pelo K-11 “Felinto Perry” para resgate de tripulantes de submarinos sinistrados são: baleeira com câmera hiperbárica, sino atmosférico com capacidade de realização de resgates até em profundidades superiores a 300 metros, câmaras de descompressão, veículo remotamente tripulado capaz de operar até a profundidade de 600 metros, sistema de posicionamento dinâmico e um guindaste com capacidade de 30 toneladas.

Delimitação da nova área de busca

A Organização do Tratado de Proibição Completa dos Ensaios Nucleares, cuja sigla em inglês é CTBTO, anunciou o refinamento dos dados por ela obtidos, sobra o evento análogo a uma explosão não nuclear, a partir de dados coletados por duas estações sísmicas, a TRQA – Tornquist, Argentina e a USGS e EFI de Mount Kent, nas ilhas Falklands (Malvinas na denominação argentina). Os novos dados apontam para a latitude de -46,1175 e longitude de -59,7257. Uma das dificuldades enfrentadas pelas embarcações de busca, além do estado de mar, são os numerosos sinais de falsos positivos, pois não são poucos os pesqueiros sinistrados na costa argentina. O Atlântico Sul é reconhecidamente um mar difícil e cobra um preço alto de embarcações mal comandadas e em péssimo estado.

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Delimitação da área do evento catastrófico. Imagem: Lassina Zerbo.

Conjecturas

Dentre as possibilidades discutidas como contribuintes para o naufrágio do submarino ARA San Juan, aquela que conta como a mais provável é a de presença de concentração do gás hidrogênio no ambiente acima da proporção de 2%. Aventa-se a possibilidade de que em função das dificuldades enfrentadas pelo submarino esteja, também, uma falha dos monitores de gases do submarino. .Em decorrência desta concentração a ocorrência de um arco-voltaico teria provocado um incêndio de considerável proporção, sendo assim um fator debilitante, se não for o preponderante para o naufrágio da embarcação que implodiu na medida que mergulhava nas profundidades abissais. A conjectura se dá em conformidade com o comunicado anterior ao desastre, este revelador do fato da embarcação navegar avariada. Tal hipótese foi amplamente abordada neste espaço, Debate Geopolítico, com paralelos traçados com outros naufrágios e acidentes ocorridos com submarinos diesel-elétricos.

Fraude

Imagens de um novo documento da Armada Argentina circularam em meio às redes sociais. Não há confirmação alguma até o momento sobre a veracidade deste documento, que pode muito bem ter sido forjado (maior possibilidade), obra de uma mente insana. O discutível documento, classificado como “Confidencial” e destinado ao Comando da Armada Argentina,  informa que o navio “Sophie Siem” haveria encontrado a “unidade”, ou seja lá o que quer dizer. O informe possui a hora de distribuição como de 12:19 minutos e a data de 28.11.2017… Não creio que este informe seja verdadeiro, afinal, tal documento com timbre da ARA é bem fácil de ser forjado, ademais, o fato de justamente citar o “Sophie Siem” leva imensa desconfiança quanto a credibilidade do referido documento.

Treinamento conjunto recusado

Em um documento datado de 25 de julho de 2017, o Poder Executivo da República Argentina solicitava ao Senado Federal daquele país autorização para execução de exercício conjunto SAR, especificamente de resgate de tripulantes de submarinos sinistrados, que seria realizado em Mar del Plata, com submarinos da Armada Argentina, e no Rio de Janeiro. A Marinha do Brasil disponibilizaria o seu meio de resgate K-11 “Felinto Perry”. Este importante exercício de adestramento foi recusado pelos congressistas argentinos.

Nota do Editor: também retornaram ao Brasil as aeronaves da FAB. Duas aeronaves P-3AM e uma aeronave SC-105 (SAR).

 

 

ARA San Juan: vaza para a imprensa a ultima mensagem

Mensagem dava conta de admissão de água pelo snorkel, curto-circuito e principio de incêndio

Por: César Antônio Ferreira

Um terremoto político varreu as terras argentinas na data última de 27.11.2017, na forma da revelação pela mídia argentina do último informe ao Almirantado por parte do submarino A-42 ARA San Juan, informe este que foi solenemente sonegado à mídia argentina, como também, ao que parece, do Ministro da Defesa e do próprio Comandante em Chefe, o Presidente da República Mauricio Macri.

O periodista que revelou o vazamento foi Eduardo Feinmann, apresentador de um programa televisivo no canal A24 (America 24). O informe do ARA San Juan confirma as conjecturas anteriores deste espaço, Debate Geopolitico, sobre as possibilidades havidas no tocante ao naufrágio do ARA San Juan. Diz o documento vazado:

“Ingreso de agua de mar por sistema de ventilación al tanque de baterías n° 3 ocasionó cortocircuito y principio de incendio en el balcón de barra de baterías. Baterías de proa fuera de servicio al momento en inmersión propulsando con circuito dividido. Sin novedades de personal. Mantendré informado”.

A mensagem é datada de quarta-feira, dia 15 de novembro de 2017 e o horário registrado para distribuição interna é de 08:52 (horário de distribuição entre órgãos da Armada e não do contato propriamente dito). Isto confirma e vai de encontro com a informação amplamente conhecida de que o último contato teria se dado às 07:30 daquela mesma manhã. Esta revelação bate com as informações repercutidas na matéria “Almirantado argentino sabia das avarias com um dia de antecedência”, que foi publicada neste mesmo espaço, Blog Debate Geopolítico.

A mensagem em si é bastante elucidativa. De maneira inequívoca apresenta um sério problema em submarinos diesel-elétricos que é a admissão de água pelo snorkel, além do terror de todo submarinista: o incêndio a bordo. A mensagem passa o entendimento que naquele presente momento as avarias estariam controladas, apesar de revelar que o submarino navegava desfalcado de boa parte das suas baterias, estando na proa desativados os dois bancos de baterias dianteiros, e na popa pelo menos um deles (o de número 3). Horas depois, não muitas, ocorreu um evento incapacitante, responsável pelo naufrágio do submarino.

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S644 Eurydice. Imagem: internet.

Esta narrativa apresenta uma similaridade com o naufrágio de um submarino da Marine Nationale, o S 644 Eurydice, ocorrido no dia 4 de março de 1970 no través de Toulon (latitude: 43,16 longitude: 6,80 – 35 milhas distante do porto), cuja a destruição também foi atribuída a um evento brutal e incapacitante, uma explosão, cujas causas permanecem não definidas, mas que tem o snorkel defeituoso como principal suspeito. Repousando no leito marinho ao largo da Baie de Bonporteau em um profundidade de 600 metros, foi fotografado pelo minisubmarino Mizar da USNAVY. O registro da implosão foi percebido pelo sismógrafo de Nice. Não houve a recuperação do submarino e nem dos corpos da tripulação, permanecendo desta forma como a sepultura permanente para todos estes.

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Local do naufrágio do S 644 Eurydice. 600 metros de profundidade. Bing Maps.

Em comunicado à imprensa, o porta-voz da Armada da República Argentina, Capitán de Navio Enrique Balbi, revelou que o S-42 ARA San Juan não dispunha de torpedos com cabeças de guerra vivas à bordo (“torpedos de combate”). Em função dos dados que agora são de conhecimento geral, formam-se conjecturas de que entre o último contato e o horário dos eventos hidroacústicos detectados, que houve um novo curto-circuito, havendo um incêndio calamitoso, advindo da conjunção de um arco-voltaico com a concentração de hidrogênio presente no ambiente, que foi incapacitante para a tripulação, cortando a energia e levando para o fundo o submarino. Os sons captados seriam advindos da colapso e ruptura do casco resultante da pressão superior a suportável pela classe TR-1700.

É desnecessário dizer que apenas as imagens do S-42 ARA San Juan no sítio do seu naufrágio poderão confirmar qualquer conjectura e especulações realizadas em função do seu destino.

Sequer localizado o foi…

Nota do Editor: quando o comandante informa “circuito dividido” ele diz que utiliza parte de um banco de baterias e parte das baterias de outro banco.

Almirantado argentino sabia das avarias com um dia de antecedência


Informativo argentino Infobae revela em reportagem que o Almirantado da Armada da República da Argentina detinha a informação de graves avarias um dia antes da data do último contato.

Por: César A. Ferreira

O informativo argentino Infobae, através de matéria assinada por Román Lejtman, revela que o comando da Armada Argentina detinha 24 horas antes do último contato a informação que o S-42 teria avarias sérias em um dos seus bancos de baterias, motivado pela ingestão de água do mar pelo snorkel. Apesar do último contato do submarino ter sido na quarta-feira, 14/11/2017, as 07:30, horário de Buenos Aires, informando que um dos bancos de baterias localizado na proa da embarcação se encontrava-avariado, o fato é que segundo o que foi revelado pela matéria, houve um comunicado do capitão, ocorrido na terça-feira, em que relatava a perda de um dos bancos de baterias devido ao contato destas com inundação marinha proveniente da ingestão desta pelo snorkel, que apresentou falha no seu sistema de vedação. Portanto, quando o capitão informa ao Almirantado os seus problemas na quarta-feira ele está relatando novos problemas, que possivelmente poderiam ser extensões daqueles vivenciados 24 horas antes. O periodista relata da seguinte maneira a cadeia de eventos:

“La primera vez que las autoridades en tierra de la Armada Argentina tomaron conocimiento de que el submarino sufría una seria avería fue el martes 14 cerca de la medianoche. En esa comunicación, el capitán del ARA San Juan, Pedro Fernández, le informó a la base de Mar del Plata -desde donde había partido quince días antes- que tenía un “cortocircuito en la batería 3” de la sala de baterías de proa porque le entraba agua por el snorkel.

En los primeros minutos del miércoles 15, el capitán avisó a la base que el inconveniente había sido solucionado. Sin embargo, horas más tarde, volvió a llamar para decir que tenía un problema con las baterías en la proa. Nuevamente, en la madrugada volvió a informar que el inconveniente había sido resuelto.

Cerca de las 6 de la mañana, mediante el teléfono satelital Iridium, el ARA San Juan pidió un cambio de rumbo. A las 7.30 fue la última comunicación de la nave con tierra”.

Em sua reportagem o periodista, em vista dos dados coletados, acaba por assumir uma conclusão, que se adotada daria um destino diferente ao ARA San Juan:

“En el momento en el que el ARA San Juan denunció dificultades se encontraba a una distancia en línea recta con el Golfo San Jorge de menos de 300 kilómetros. Si se le hubiese ordenado que se dirigiera hacia allí, a la velocidad que navegaba a ese momento -entre 15 y 20 kilómetros por hora-, se cree que la nave podría haber alcanzado tierra. Sin embargo, recibió la orden de dirigirse a Mar del Plata”.

Tendo os fatos narrados em mente, vamos ao raciocínio: as avarias sucederam-se, não imediatamente, mas em uma sequencia com intervalo de tempo, o que pode ter levado o capitão a acreditar que as estava superando, tendo-as sobre controle. O fato revelado e de suma importância é a admissão de água pelo snorkel, pois esta é sabidamente uma falha que implica em ocorrências graves em submarinos diesel-elétricos. Em geral, a presença de água junto ao banco de baterias leva a formação de gás de cloro, contaminante reconhecidamente fatal, responsável pela morte de 70 tripulantes do submarino Nº 361 da Marinha do Exército Popular de Libertação da China (é a versão mais aceita, outra admite o sequestro por parte dos motores diesel de todo o ar presente, o que levou a tripulação a sufocar-se)..

Analisando as informações temos o fato que por duas vezes o capitão informou dano nos seus bancos de baterias e igualmente, por outras duas vezes, informou a solução destas avarias, todavia, não obtendo desempenho total, visto que navegava com 50%, ou menos da capacidade advinda das suas baterias. Por certo havia isolado os painéis de baterias que tinha apresentado problemas. O dado interessante é a última comunicação, que não se deu por rádio frequência, mas através de telefone via satélite, cujo serviço é provido pela empresa Iridium. Neste contato, segundo informa o periodista, o comandante pedia uma alteração da derrota prevista, que era para Mar del Plata.

A última comunicação é importantíssima, pois caso seja uma informação verídica, torna -se um elemento elucidativo para que se entenda o quadro contextual da tragédia do S-42 ARA San Juan, pois se percebe o motivo pelo qual se pode entender o porquê de não se ter traçado uma derrota para Comodoro Rivadávia, ou qualquer outro porto mais próximo: simplesmente recebera o comandante uma ordem para ter Mar del Plata como destino. É óbvio que o comandante detinha confiança em sua embarcação, e mesmo com 480 baterias fora de linha, acreditava que poderia navegar até a base de Mar del Plata, lugar onde as facilidades para a manutenção dos submarinos da Flota de Mar se fazem presentes.

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S-42 ARA San Juan. Imagem: internet.

Com o conforto de um observador que analisa os eventos passados, ou seja, que não se vê obrigado a tomar decisões em meio à cadeia de eventos se pode criticar a decisão de o comandante não ter traçado derrota para o Golfo de São Jorge e solicitado a presença de vasos da Armada para formarem piquetes de socorro para o submarino, todavia, é preciso entender as condições de mar, que certamente haviam sido preponderantes na falha do snorkel ao admitir a entrada de água, eram restritivas. Uma condição de mar (Estado de Mar – 6) que, então, apresentava ondas acima dos seis metros, certamente inviabilizaria qualquer faina, ou seja, procedimento marinheiro, em atar cabos para tração (reboque), já que as vagas imensas varreriam a coberta do submarino levando consigo os submarinistas. Daí, que atendendo a sua consciência o Capitán de Fragata Pedro Martín Fernández resolveu prosseguir submerso.

Dá-se que o motor da história humana são as decisões. Algumas delas são infelizes. Não há motivos, no entender deste redator, em se empreender uma cruzada pela busca de culpados, mesmo que se confirme uma ordem clara e objetiva do Almirantado pela manutenção da derrota para Mar del Plata, pelo motivo simples que o capitão detinha autonomia suficiente para decidir-se por outro destino. Ao se decidir por prosseguir em direção à sua base, demonstrou inequivocamente que detinha confiança bastante na sua embarcação, tripulação e em si mesmo para tanto. Todo comandante é escravo das suas ponderações e avaliações e com o comandante Pedro Martin Fernández não foi diferente.

Chicoutimi

A admissão de água pelo snorkel  traça um paralelo possível com um acidente havido com o submarino Chicoutimi, da Royal Canadian Navy. Este evento não terminou em naufrágio, como o caso dos submarinos franceses da classe Daphne, mas, justamente por isso, por ter sobrevivido, existe a riqueza de detalhes, que por sua vez esclarece pontos obscuros para este tipo de acidente.

O Chicoutimi era (ainda é) um submarino diesel-elétrico produzido pela Vickers, com o intuito de ser o cabeça de uma classe destinada a substituir a afamada classe Oberon de submarinos diesel-elétricos da Marinha de Sua Majestade. Esta classe batizada de Upholder, ou Type 2400, devido ao seu deslocamento, não obteve o sucesso esperado colhendo em sua história muitos acidentes, entre eles o do Chicoutimi.

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Chicoutimi: parte de uma classe de submarinos de muito má fama. Imagem: internet.

Tendo zarpado de Faislane no dia 4 de outubro em direção ao Canadá, que havia adquirido da Inglaterra os quatro exemplares da malfadada classe, viu-se obrigado a navegar à superfície marinha, devido as restrições impostas pelo Almirantado Britânico, pelo fato de partir de uma base britânica de submarinos nucleares da OTAN. No dia 5, segundo dia de viagem, enfrentou severas condições de mar com vagas superiores a 8 metros, havendo admissão de grande volume de água na torre. A escotilha impedia a entrada de água, todavia o dreno apresentou falha, não escoando a água presente. Este problema foi percebido quando da abertura da escotilha inferior e logicamente formou-se uma equipe de reparos. Esta equipe, necessitando de uma ferramenta em especial estava a recebê-la através da escotilha quando uma imensa vaga atingiu e cobriu a vela do submarino fazendo-o admitir mais de 500 galões de água do mar. De imediato irromperam curtos-circuitos, arcos elétricos e incêndios. Nove submarinistas ficaram feridos, três seriamente e um veio a falecer em decorrência destes ferimentos. Desprovido de energia, em função da necessidade de combate ao incêndio, o Chicoutimi ficou a deriva até ser encontrado e socorrido pelo patrulheiro irlandês Le Rousin e pela fragata HMS Montrose.

É tentador, portanto, traçar a mesma cadeia de acontecimentos para o S-42 ARA San Juan, onde a admissão de água pelo snorkel, devido as condições de mar, seguido pela formação de arcos voltaicos e incêndios formam o quadro do possível sinistro. Sendo que neste caso o temos de forma sequencial, ou seja, repetitivo, ocorrendo sucessivamente nos dias 14 e 15, onde cada evento debilitou decisivamente o submarino e cuja última ocorrência foi-lhe fatal. Tentador é, mas sei bem que não passa de mais uma especulação. E as especulações não ajudam. Apenas causam maiores dores e sofrimento nos familiares que ficam a formar quadros em suas mentes sobre os últimos momentos dos seus entes queridos. O correto é esperar pelas imagens do submarino, quando este for encontrado, observar as suas condições para então se ter o mínimo embasamento. As tragédias havidas com o Minerve, Eurydice e com o N° 361 servem apenas de parâmetros, não produzem certezas, para estas, só o tempo.

Nota do Editor: acabo de ser informado por uma fonte, que a Armada da República Argentina admitiu a pouco (27/11/2017) que houve a ocorrência de três eventos de suma importância, são estes: a entrada de água, o curto-circuito e o princípio de incêndio a bordo. Ao que parece o paralelo com os eventos enfrentados pelo submarino canadense Chicoutimi se reforça. Entende-se o motivo da Armada Argentina acreditar firmemente que poderia encontrar o S-42 ARA San Juan à superfície, inerte, a deriva, tal como se sucedeu com o Chicoutimi. 

ARA San Juan: desnecessária polêmica com os acumuladores

A mídia argentina parece ter mais interesse em ajustes de contas políticos do que perscrutar as verdadeiras causas do acidente com o ARA San Juan.

Por: César A. Ferreira

O mistério quanto ao destino do ARA San Juan permanece, todavia, para alguns analistas políticos argentinos e órgãos de mídia, o que vale é buscar um ajuste de contas com os adversários políticos, que estavam no poder durante a longa revitalização de meia-vida do ARA San Juan. Isto se dá focado em um simples fato:  de os jornalistas dos principais meios de comunicação argentinos terem descoberto que os acumuladores do submarino sinistrado não eram novos, mas “recondicionados”.

Não foi uma descoberta difícil, convenhamos, afinal, na página do Estaleiro Tandanor, que trata com orgulho do trabalho efetuado no S-42 ARA San Juan está declarado com todas as letras:

“Baterías

Tambiém se realizó un replacado integral de cada una de las 960 baterías que hacem funcionar al submarino y se repararon las válvulas y demás mecanismos del submarino para alcanzar su condición original”

Este detalhe da revitalização do submarino associado ao conteúdo da última mensagem do Capitán de Fragata Pedro Martín Fernández que relatava avarias no painel de baterias dianteiro, somado ao agora afamado sinal “hidroacústico, anômalo e não nuclear”, resultou nos culpados: os antigos ocupantes do poder, incluídos os ministros da defesa durante os últimos períodos, Garré e Rossi, sem falar da antiga dignitária. O fato disto lançar uma sombra no Estaleiro Tandanor, nos engenheiros e técnicos que trabalharam na revitalização do S-42 ARA San Juan, ao que parece não vem ao caso.

A mídia não especializada foca que a escolha por recondicionar os acumuladores deu-se em função dos custos, apontando para isso os valores correspondentes de cinco milhões de euros pelo conjunto de 960 baterias novas. Esquece tal mídia que a empresa que “recondicionou” as baterias Varta 14UR12F, o fez sob supervisão da Hawker GmBH, nome da empresa que havia absorvido a fabricante original, Varta GmBH. Não só isso, como o fato de que o processo de revitalização das referidas baterias envolveu não só a troca de placas, como dos diodos, válvulas e conectores, cujo serviço contou com garantia dado pelo fabricante, de seis anos.  Eram baterias novas, pode-se afirmar, pois, de antigo somente a carcaça. Ademais, a fabricação de baterias de Chumbo/Ácido não é algo longe do horizonte industrial latino-americano, para se ter uma ideia a empresa brasileira Saturnia fornecia para os submarinos da Marinha do Brasil baterias feitas no país (Brasil), concebidas com tecnologia alemã durante as décadas de 80 e 90. Ademais, o submarino foi testado e admitido pela Armada da República Argentina em 2014. Estamos em 2017.

Explosão

Acredita-se que a hipótese mais forte para uma explosão, tal como registrado pelos hidrofones do CTBTO – Comprehensive Nuclear-Test-Ban Treaty Organization (ing.) , sejam advindos de uma concentração de gás hidrogênio, proveniente das baterias e que atingiu a concentração fatal de 5%, ou mais, momento em que se torna explosivo no caso de haver uma fagulha, tal como um arco-voltaico nascido de um curto-circuito no painel de baterias. É uma hipótese que tem a força do indício fornecido pelo órgão internacional, todavia para que isto viesse acontecer deveria haver uma cadeia de avarias, a começar pelos instrumentos de monitoramento de gases.

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O ponto “A” é aquele do evento “anômalo” e não nuclear, enquanto o ponto “B” é o do último contato.

É difícil, mas não impossível. Em 2010, quando fundeado em Visakhapatnam, o submarino designativo S-63 INS Sindhurakshak apresentou incêndio em suas baterias, ocasionando casualidades: um morto e dois feridos. A concentração não detectada de hidrogênio foi a responsável, estando acima de 3%.

Aceitando-se que o S-42 ARA San Juan foi vitimado por esta cadeia de acontecimentos que por ventura tenha resultado em uma catastrófica explosão, fica uma dúvida: teria tal explosão advinda da concentração de hidrogênio, provocada por uma fagulha elétrica, capaz de romper o casco de pressão?
Outra pergunta se faz: seria incapacitante de toda a tripulação caso tal explosão tenha sido contida pelo casco? Ou ainda… Dado o fato de que a característica do projeto TR-1700 é a de possuir dois grandes compartimentos estanques, dianteiro e posterior, que a tripulação abrigada possa ter sobrevivido ao evento anômalo, intenso e catastrófico?

Evidentemente não tenho as repostas, mas as analogias com o Kursk fazem-se sentir.

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Kursk após ser retirado do fundo do Mar de Barents. Os estragos são bem evidentes. Imagem: internet.

Kursk

Tal como a hipótese favorita para o sinistro do ARA San Juan, o Kursk foi vitimado por uma catástrofe, neste caso a culpa recai em um torpedo de 650mm, modelo 65-76, denominado pelas tripulações como “Gordo” e também chamado de “Baleia”. O seu instável combustível propulsor a base de peróxido de hidrogênio é apontado como responsável pelo desastre.

Fato por muitos conhecido é o abrigo dos sobreviventes no último compartimento do submarino, o compartimento nº 9. Muitos acreditam que estes sobreviventes morreram devido à mortal concentração de dióxido de carbono, por sua vez motivada pela extrema demora no resgate. Não foi bem assim. Os sobreviventes faleceram em grupo, entre as 19 e as 20 horas do dia 12 de agosto de 2000. Ou seja, não muito depois do naufrágio por uma infelicidade da tripulação sobrevivente, que na escuridão e em um compartimento alagado, viu-se forçada a trocar as partes de um aparelho sequestrador de dióxido de carbono, mas cujas partes reagentes inflavam-se na presença de óleo e de água. Houve um incêndio resultante desta reação que consumiu todo o ar respirável. Aqueles que estavam próximos ao procedimento de troca morreram queimados, desfigurados, e os demais caíram inconscientes devido ao envenenamento por monóxido de carbono.

As semelhanças possíveis, creio, param por aqui, visto que no tocante ao S-42 ARA San Juan têm-se apenas especulações, algo bem diferente do Kursk, cujo naufrágio é bem conhecido e narrado pelo motivo simples de ter sido resgatado do fundo do mar em uma operação complexa e custosa, muito custosa, pois sangrou os cofres da Federação Russa em mais de 135 milhões de dólares norte-americanos.

Neste presente momento o ARA San Juan sequer foi localizado, mas como submarino diesel-elétrico compartilha a semelhança com o infortúnio do submarino francês Eurýdice, que também tem em uma explosão a causa do seu naufrágio.

Eurýdice
Eurydice repousando no fundo do Mediterrâneo. Imagem: internet.

Outra hipótese para a tragédia do S-42 ARA San Juan repousa na admissão de água pelo seu snorkel, bem como pela presença de água nas baterias, que resultariam em contaminação do ambiente por gás de cloro. Este foi o fim do submarino chinês “361”, cuja admissão de água salgada nos painéis de baterias resultou em contaminação e morte por asfixia dos 70 submarinistas do referido submarino. Esta hipótese não casa com a explosão “anômala”, mas este redator pensa que tal registro deva servir como indício e não como norte a ser seguido cegamente.

Por fim fica a percepção de que as armadas sul-americanas precisam, urgentemente, de meios para resgate e socorro submarino mais eficiente do que os existentes. O navio “Cabo de Hornos” da Armada do Chile é novo, mas não é dedicado à função, o “Vanguardia” da Armada do Uruguai não consegue manter-se operacional, além de apresentar limitações evidentes e o NSS K-11 “Felindo Perry”, apesar de suficientemente equipado para resgate até a profundidade de 300 metros,  arrastou-se pela costa brasileira até chegar ao “Mar Argentino”. Ter uma frota de submarinos sem meios consistentes de resgate parece ser mais um atropelo da lógica, dentre tantos deste continente.

Nota do Editor: viceja nas redes sociais argentinas a teoria conspiratória de que o ARA San Juan fora torpedeado. Argumentam para isso com a explosão e com a presença dos “buzos tacticos”, que segundo os conspiradores empreenderam uma missão em “las islas Malvinas”, acrescentam que a coordenada da explosão não coincide com a coordenada estimada do submarino de acordo com a velocidade informada de 5 nós…
Desmontando a teoria conspiratória devemos dizer que a posição estimada deve ser calculada com a velocidade acrecida pela corrente ascendente das Malvinas, que dá a embarcação mais dois nós. Nada impede que o capitão tenha seguido a sua derrota acima dos 5 nós informados. No tocante aos interesses britânicos resta saber que ganho teriam em torpedear um submarino argentino, justamente quando o dignitário atual não faz menção em lutar pela soberania das ilhas… Não tem sentido. A pergunta, portanto, que se deve fazer quando se lê, ou se ouve uma barbaridade destas é saber quem ganharia com um ato desta natureza. Ao se perceber que ninguém nada ganharia tem-se a resposta: uma teoria de loucos, para doidos.

ARA San Juan: evento catastrófico


Por: César A. Ferreira

As últimas informações disponibilizadas levam a crer que o submarino S-42 ARA San Juan, sofreu um evento catastrófico, enquanto realizava derrota prevista para Mar del Plata, evento este acontecido às 10h51min da quarta-feira última, horário local (Buenos Aires) 15 de novembro de 2017. O local apontado para este evento registrado por hidrofones distribuídos pelo atlântico sul, corresponde as coordenadas de -46.12 (latitude) e -59.69 (longitude). Estas coordenadas resultam em cerca de 30 milhas náuticas distantes do ultimo contato do submarino, que se deu às 07h30min do horário local (Buenos Aires) e coincide com o ponto estimado de onde deveria estar o submarino de acordo com as informações passadas pelo comandante (Capitán de Fragata Pedro Martín Fernández), de que navegava à 5 nós com avarias em suas baterias (7 nós, contando com 2 nós de corrente marinha ascendente). A informação foi oficialmente disponibilizada pelo CTBTO – Comprehensive Nuclear-Test-Ban Treaty Organization (ing.)  Esta informação foi disponibilizada, inclusive, pelo próprio Secretário Executivo da Organização, Sr. Lassina Zerbo, que afirmou textualmente em comunicado pessoal (Twiter):

 “Our hydroacoustic network detected an unusual signal near the last known position of #missing San Juan #submarine. The signal from an underwater impulsive event was detected 15 Nov 13:51 GMT, Lat -46.12 deg; Long: -59.69 deg. Details & data shared with Argentinian authorities”.

A comunicação pessoal do Secretário Executivo foi confirmada pelo comunicado oficial do órgão disponibilizado para a mídia:

“MEDIA ADVISORY – CTBTO HYDROACOUSTIC DATA TO AID IN SEARCH FOR MISSING SUB SAN JUAN

23 November 2017

On 15 November 2017 two CTBTO hydroacoustic stations detected an unusual signal in the vicinity of the last known position of missing Argentine submarine ARA San Juan.

Hydroacoustic stations HA10 (Ascension Island) and HA04 (Crozet) detected a signal from an underwater impulsive event that occurred at 13:51 GMT on 15 November. The location of the event is as follows: Event Latitude: -46.12 deg; Event Longitude: -59.69 deg which is in the vicinity of the last known location of the ARA San Juan.

Details and data are being made available to the Argentinian Authorities to support the search operations that are underway.

The hydroacoustic stations are part of the CTBTO’s International Monitoring System (IMS) which monitors the globe continuously for signs of nuclear explosions. Low frequency underwater sound, which can be produced by a nuclear test, propagates very efficiently through water. Consequently these underwater sounds can be detected at great distances, even thousands of kilometres, from their source. This is why the IMS requires only eleven hydroacoustic stations to effectively monitor the world’s oceans. HA04 at Crozet Island (France) was certified in June 2017 as the final of these eleven stations.”(…)

O evento comunicado  foi endossado pelo comando da Armada Argentina quem em uma coletiva de imprensa, na pessoa do porta-voz da Armada, oficial Enrique Balbi, realizada nesta manhã, expressou-se de maneira direta aos correspondentes presentes:

“(…) hubo um evento anómalo, singular, corto, violento y no nuclear, consistente com uma explosíon (…)  No conoecemos la causa que produjo em esse lugar, em esa fecha, um evento de essas características”.

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Localização e profundidade relativa do ultimo contato e do local da Anomalia hidroacústica. Infográfico> La Nacion.

A hipótese comentada como a mais tangível dentre todas as especulações, formada a partir das informações das avarias comunicadas pelo capitão, indicam a formação de um arco voltaico advindo do curto-circuito presente no painel de baterias. A formação de um arco elétrico em um ambiente fechado poderia resultar em graves danos e casualidades imediatas, principalmente se houver concentração de hidrogênio advindo das baterias. É evidente, todavia, que apenas uma vistoria pericial no casco sinistrado do S-42 ARA San Juan poderá colocar a termo as reais causas do acidente.

Este presente contexto leva a crer pela infelicidade total da tripulação do S-42 ARA San Juan, vitimada por um naufrágio provocado por catastrófico evento, uma explosão devastadora. O projeto do TR-1700 consiste de duas secções estanques, dianteira e traseira, todavia, tomando que a referida explosão tenha se dado em uma destas, o tempo já decorrido de 8 dias, não é alentador para a possibilidade de qualquer um dos submarinistas que por ventura tenham sobrevivido ao evento. Neste caso, contanto com o realismo, ainda que taxado de pessimismo, por razões compreensíveis, pode-se tratar a presente operação de resgate em andamento como uma operação de recuperação, ou seja, contando-se que cada um dos submarinistas seja agora uma casualidade. Neste dado momento três belonaves da Armada Argentina executam na área designada varredura com sonares no módulo ativo, e um P-3AM da FAB – Força Aérea Brasileira foi convocado para auxílio, pois dispõe do sensor MAD, inexistente nos P-8A da USNAVY.

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Navio de pesquisas oceanográficas Yantar. Imagem: Shipspotting.

Yantar. O presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, ordenou que o navio oceanográfico Yantar, que se encontra na costa africana em missão, se dirija imediatamente para a costa argentina, com o intuito de integrar-se ao esforço de localização do ARA San Juan. Ainda que as possibilidades de resgate sejam irrisórias, o Yantar conta com sensores de varredura lateral, capazes de localizar objetos até a profundidade de 6.000 metros.

Nota do Editor: dado o atual momento, não se entende o motivo da Marinha do Brasil e do Ministério da Defesa de não terem enviado junto com o Navio de Socorro Submarino K-11 “Felinto Perry”, o Navio de Pesquisa Hidroceanográfico H-39 “Vital de Oliveira”, que dispõe de um sonar de varredura lateral operativo até a profundidade de 4.000 metros..

Nota do Editor (2): este editor foi informado há pouco, que o Navio de Pesquisa Hidroceanográfico H-39 “Vital de Oliveira” se encontrava em missão nas águas dos rochedos oceânicos de São Pedro e São Paulo. Este é um motivo suficiente para o não envio deste navio às águas argentinas. Por uma razão de honestidade editorial não foi alterada a primeira nota, mas publicada esta segunda.

ARA San Juan: intensificam-se as buscas

Por: César Antônio Ferreira

As buscas ao submarino S-42 ARA San Juan se intensificam, visto que agora cada hora que passa conta.

Devido uma esclarecedora revelação por parte do porta-voz da Base Naval de Mar del Plata, Capitão Gabriel Galeazzi, sabe-se hoje que em seu último contato o submarino ARA San Juan informou a ocorrência de um curto-circuito em suas baterias. O Capitão Galeazzi expressou-se da seguinte maneira:

“El buque salió a la superficie y de ahí comunicó que las baterías habían sufrido una avería con un cortocircuito. Por eso, el comando de las Fuerzas de Submarinos, que era su control en tierra, le dice que cambie inmediatamente la derrota y venga a Mar del Plata”.

Tem-se, portanto, duas revelações importantes até então mantidas em sigilo pela Armada Argentina: 1) confirma-se que houve avarias nos painéis de baterias do submarino; 2) que este havia realizado uma emersão e estava à superfície quando da realização do contato na meia-noite da última quarta-feira. O termo “derrota” no meio naval possui o significado de retorno.

Compreendem-se, agora, os procedimentos iniciais de busca por parte da Armada Argentina que tinha a expectativa inicial de que o submarino estaria emerso, ou seja, na superfície. Mas, tal não se deu, com todos os esforços das armas argentinas e dos meios internacionais disponibilizados não se localizou um charuto negro de metal com 65 metros de comprimento flutuando ao sabor das ondas. O Vice Almirante reformado Antônio Mozzarelli em declaração ao canal América confirmou a perspectiva deste redator:

“Dado el tiempo transcurrido, se empiezan a tomar previsiones, pensando que pudo haber ocurrido lo peor. Una posibilidad es que el submarino no esté en la superficie, ya que debería haber sido detectado por los radares de los aviones especializados”.

Se o sentimento que perpassa os militares era de urgência, agora este o é ainda mais, pois se torna evidente que as avarias agravaram-se e caso esteja no fundo, imobilizado, as condições de sobrevivência degradam-se a cada hora que passa. Para renovação do oxigênio a bordo o submarino depende de energia. Não se sabe as condições atuais do S-42 ARA San Juan, mas, tomando-se como expectativa o pior cenário, que seria de estar imobilizado e imerso, sem energia, o tempo limite para a manutenção de vida a bordo seria de sete dias.  No caso de estarem os 44 tripulantes realmente confinados e desprovidos de energia no fundo, sem possibilidade alguma de renovação do ar a bordo, a sobrevivência estaria delegada a capacidade de se retirar, ou seja, filtrar o dióxido de carbono que se acumula, concentra-se, a cada hora que passa, resultado da expiração de cada um dos 44 tripulantes presentes.

Sinais de batida nos casco.

Uma nota do serviço da CNN em espanhol afirma que a Armada Argentina teria identificado por meio do sonar de uma das suas embarcações, sinais sonoros típicos do bater de ferramentas metálicas junto ao casco, procedimento esperado de uma tripulação confinada e que quer se fazer ouvir pelas embarcações de busca.  Com isto a Armada Argentina redobrou o seus esforços na proximidade do contato havido, que teria se dado na manhã desta segunda-feira, em uma área de 35 milhas náuticas, em uma faixa de 330 milhas da costa.

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UUV Bluefin 12D. Imagem: Bluefin.

EUA enviam “drone” subaquático

Participando ativamente do esforço de busca internacional pelo ARA San Juan a USNAVY apressa o envio de veículos subaquáticos não tripulados, dotados de sonar de varredura lateral, para efetuarem a busca e localização do referido submarino. Estes veículos são dos modelos UUV Bluefin 12D e Iver 580. O Bluefin, mais sofisticado, realiza varredura a 3 nós até a profundidade de 1520 metros, ou cerca de 5.000 pés, exibindo uma resistência (autonomia) de 30 horas. Já o modelo Iver 580 trabalha até a profundidade de 99 ~100 metros e exibindo uma resistência de 14 horas.

Nota do Editor: nestas últimas horas, a Armada Argentina não confirmou como sendo provindo dos submarinistas os sons gravados, até então tidos como de “golpes de casco”. Não se observou a cadência típica de uma mensagem em código morse. Todavia, navios de investigação científica e que possuem sonar de varredura lateral se dirigiram para área, dentre eles se encontra o navio polar H-41 “Almirante Maximiano”.

A pergunta natural após a revelação de que o S-42 ARA San Juan em seu último contato comunicou curto-circuito em suas baterias e que quando o fez estava emerso, ou seja, à superfície marinha, que seria justamente o fato dele não ter se mantido à tona, é respondida pelo ex-oficial submarinista Horácio Tobías, no programa Café de La Tarde, do canal La Nacíon, que explicou que as condições de mar levaram o comandante a imergir, pois assim considerava ser melhor para navegação. Disse aos seus interlocutores que as condições de mar observadas (estado de mar 6) proporcionavam vagas que eram da altura da vela do submarino, quando não maiores e que a violência das mesmas jogaria de tal forma o submarino que a tripulação poderia sofrer contusões graves durante as suas atividades. O TR-1700, como outros submarinos, foi projetado para melhor desempenho quando submerso. Pois bem, até o presente momento não me parece ter sido uma decisão feliz, caso tenha havido, diga-se, esta de imergir o submarino avariado. Esperamos, agora, pelo desenrolar dos acontecimentos.