Um Dia de Cão em Caracas

Por: César Antônio Ferreira

Não vamos nos enganar, a Venezuela sofreu neste dia 30 de abril de 2019 um dica de cão, típico das guerras híbridas, das quais são vítimas todas as sociedades donas de subsolo rico em hidrocarbonetos, ou que sejam uma passagem estratégica para o trânsito dos mesmos, que sofrem dolorosamente apenas por exibir politicas afirmativas da sua soberania por ventura dissonantes dos interesses dos EUA e dos seus associados da OTAN.

O roteiro é bem conhecido: aproveitando-se do fato de que nenhuma sociedade é monolítica, fomenta-se através das redes sociais uma oposição cujas bandeiras reivindicativas são induzidas a partir de pesquisas analíticas do conteúdo circulante no ambiente cibernético da nação alvo. Esta é a primeira parte e a de maior novidade. Na medida em que as lideranças vão se enfraquecendo no campo político, a engrenagem põe-se a rodar… Manifestações com tópicos de abrangência universal, como o “combate à corrupção”, um mal sempre associado as autoridades de plantão, e a “falta de liberdade”, pouco importando se suposta, ou verdadeira.

Caso a unidade política da nação alvo mantenha-se de pé, parte-se para a fase dois: a criação de situações capazes de criar comoção, tanto no âmbito interno, como externo, com intuito de se capitalizar os sentimentos difusos e canalizá-los em prol das emoções básicas como a equidade e o desejo de vingança, além da apropriação do discurso narrativo da “promoção da justiça”. Neste momento a liderança opositora, a partir da atenção midiática que lhe é dedicada encarnará a “sobriedade do justo”, enquanto a liderança nacional será demonizada, apontada como a responsável direta pelos trágicos eventos, estrategicamente registrados pela mídia, em suma, o líder nacional será para todos os efeitos um…  “Demônio encarnado que ataca o próprio povo”.

Este roteiro já foi visto várias vezes, tanto que podemos elencar as nações que foram vítimas: Líbia, Síria, Iraque, Ucrânia, dentre as operações de sucesso, Rússia e Turquia, entre as fracassadas (não chegaram a Fase 2), além do Brasil, exemplo mais bem sucedido, visto que houve a cooptação direta da classe média, tornando desnecessária as ações de desestabilização.  Todavia, este não é o caso da Venezuela: o país está mergulhado em uma crise econômica sem precedentes, mas, apesar da depressão econômica reinante ser, como se percebe, um fator de divisão social, a população começa a perceber que algo mais está em jogo do que a mudança pura e simples do mandatário. Tanto é assim que a quartelada promovida neste 30 de abril último resultou em um sonoro fracasso.

Há de se perguntar o motivo do fracasso do golpe promovido pelo senhor Guaidó, e uma das respostas é a previsibilidade dos atos. De fato, a Venezuela foi um protótipo de guerra híbrida no distante ano de 2002, quando uma outra quartelada, então  efetivada pelo o que havia de mais antigo e retrógrado no espectro político venezuelano,  depôs Hugo Chávez, apenas para ver o cerco popular do Palácio Miraflores e o retorno triunfal de Chávez… Neste golpe fracassado houve um detalhe importante: um atentado de falsa bandeira, feito pelos golpistas, que consistia em disparos contra manifestantes contrários ao presidente Hugo Chávez…

O uso de franco-atiradores para ataques de falsa bandeira é um modo operativo recorrente nas realizações de “mudança de regime” mundo afora. Tal como testado na Venezuela foi aplicado na Síria, Iraque, Líbia e Ucrânia. É desnecessário dizer que as mortes são atribuídas aos “agentes do governo”, incendiando com emoções extremas os nacionais, que se identificam com as vítimas e com isto colocando qualquer um que não professe as mesmas convicções como inimigo desprovido de humanidade e de identidade. Neste dia 30, para desespero de Guaidó, os atiradores foram neutralizados pelas forças de seguranças venezuelanas. Um roteiro conhecido pode ser antecipado.

Entretanto, se os snipers não funcionaram à contento, ao menos houve para os golpistas a imagem de manifestantes atropelados por blindados. Uma cena lamentável neste enredo, pois era evidente uma reação de força por parte dos militares que protegiam os acessos da base aérea Generalíssimo Francisco de Miranda, localizada no centro de Caracas [1]. Dá-se que era evidente que se pretendia fazer-se na referida base um ato político afirmativo, bastante simbólico, uma espécie de tomada da Bastilha caribenha, mas… Redundou em fracasso. O número de manifestantes parecia significativo quando a câmera estava fechada, mas quando aberta em grande angular percebia-se que os manifestantes presentes não encheriam o Engenhão [2], tal como se vê quando o Botafogo [3] está em má fase.

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Arma apreendida ppelas forças de segurança que se destinava para ataques de falsa bandeira. Foto: Topete GLZ. Internet.

Com manifestantes atropelados, ou não, Maduro sai fortalecido, mais uma vez. Pois a quartelada do dia 30 de abril se soma a fracassada entrega forçada de “ajuda humanitária” [4} cujo objetivo era justamente a de provocar um incidente, um cadáver para ser lamentado, o que não se deu. Estes fracassos reiterados acabam por expor Guaidó como líder sem carisma pessoal, farsesco, e artificial, que acabou por apostar alto demais. Aposta leviana, visto que agora os seus atos não se escusam atrás de uma “ajuda humanitária”, ou “oposição democrática”, mas consistem de um levante declarado contra o governo venezuelano, um crime objetivo, portanto.

Algo mais

Cabe perguntar: por que Guaidó se arriscou hoje? Simples, porque contava ele com algo mais… Cadáveres que lhe dessem a justificativa para uma intervenção armada dos EUA. Ora, pois, não seria uma especulação descabida? Nem tanto, se considerarmos que o Sr. Jair Messias Bolsonaro, Presidente da República Federativa do Brasil, comunicou que decidiria exclusivamente com o Conselho de Segurança Nacional sobre a Venezuela [5]. Isto foi dito, acredite, ainda que se saiba ser uma responsabilidade do Congresso Nacional as declarações de hostilidades abertas para com outras nações. (art. 137º)[6]. Ora, ora, ganha um doce quem não previu que tais eventos foram discutidos no encontro havido entre os presidentes Trump e Bolsonaro,

Não deu certo a jogada, haverá outra, e outras…

Notas:

[1] Base Aérea icônica, conhecida por “La Carlota” área de 105 hectares, abriga o Comando Geral de Aviação. O Palácio Miraflores situa-se a alguns quilômetros. Ver em Jornal GGN: Gilberto Maringoni_ Ação irresponsável evidencia isolamento de Guiadó.

[2] Estádio Nilton Santos, Rio de Janeiro, Brasil. Capacidade para 40 mil torcedores.

[3] Botafogo de Futebol e Regatas, tradicional grande clube do futebol brasileiro, sediado na cidade do Rio de Janeiro.

[4] 23 de fevereiro de 2019.

[5] “A situação da Venezuela preocupa a todos. Qualquer hipótese será decidida EXCLUSIVAMENTE pelo Presidente da República, ouvindo o Conselho de Defesa Nacional. O Governo segue unido, juntamente com outras nações, na busca da melhor solução que restabeleça a democracia naquele país”. (Brasil 247 – Conforme publicado no Twitter).

[6] “Em relação ao tuíte do presidente Jair Bolsonaro sobre a situação da Venezuela, é importante lembrar que os artigos. 49, II c/c art. 84, XIX; c/c art. 137, II da Constituição Federal precisam ser respeitados”, (Brasil 247 – Deputado Federal Rodrigo Maia – DEM /RJ).

 

Um retrato da intervenção russa na Síria

Autor: Pedro Paulo Rezende

Fonte: Arsenal – Geopolítica e Defesa

É inegável o impacto da intervenção russa, aprovada pelo Parlamento em Moscou no dia 30 de setembro de 2015, na Guerra Civil da Síria. Quando o processo teve início, em 1º de outubro de 2015, o regime sírio de Bashar Al Assad, de caráter laico, controlava pouco mais de 25% do território do país. O Estado Islâmico da Síria e do Levante dominava cerca de 30% e o restante estava dividido entre 12 grupos do que o Ocidente batizou de “oposição democrática”, formado, em sua enorme maioria, por facções religiosas sunitas bancadas financeiramente pelas monarquias absolutistas do Golfo Pérsico e apoiados por uma coalizão chefiada pelos Estados Unidos.

Hoje, 29 meses depois, os últimos focos de resistência nas proximidades de Damasco, a capital, foram eliminados no dia 21 de maio. Graças a acordos entre governo e opositores, os rebeldes são transportados por ônibus para uma faixa de 20% do território mantida, junto às fronteiras iraquiana e turca, graças ao suporte militar de Washington. A presença norte-americana tornou-se ainda mais problemática com a recente intervenção ordenada pelo presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, colocando em campos contrários os interesses de dois dos maiores integrantes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Os focos de resistência opositores sob o alcance do regime sírio caem aos poucos em ações de cerco e o governo de Assad, legal e legítimo, controla a quase totalidade dos grandes centros econômicos do país.

É importante ressaltar que estes avanços ocorreram com o uso de forças extremamente limitadas. O contingente russo no país resume-se a 10 mil homens, a grande maioria, cerca de 8 mil, envolvido na proteção do porto de Tartus e do aeródromo de Khmeimim, bases que atuam no suprimento logístico e no suporte aéreo das operações militares.

Autossuficiência

Quando o processo de intervenção teve início, a pedido do governo sírio, os especialistas ocidentais garantiram que a Federação Russa não teria condições de manter o volume inicial de operações, devido às sanções econômicas determinadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia como punição pela reincorporação da Crimeia, ocorrida em 2015.

A avaliação não levou em conta o potencial industrial e agrícola herdado da União Soviética. O país, hoje, retomou o crescimento, caminha para a autossuficiência e apresenta um índice de desemprego de apenas 5%. Além disto, ao manter uma presença limitada no Levante, a Rússia diminuiu o impacto da intervenção militar em sua economia. Para isto, investiu na reconstrução do Exército Árabe da Síria.

O primeiro passo envolveu a reposição dos equipamentos perdidos durante as ofensivas mantidas pelo Exército Islâmico e pelos grupos rebeldes. Foram transportadas mais de 4.000 unidades, que totalizaram 1.608.000 toneladas de carga, por meio de 342 navios e 2.278 voos. Unidades russas de manutenção e reparação instalaram a infraestrutura necessária para apoiar, manter e corrigir deficiências ou mau funcionamento nos equipamentos em instalações na base aérea de Khmeimim e no porto de Tartus.

Para reconstruir o potencial combativo do Exército Árabe da Síria, a Rússia entregou sistemas de ponta, como os carros de combate T-90U — que resistiram a impactos diretos de mísseis antitanques ocidentais como o MILAN, francês, e o TOW norte-americano — e o lança-foguetes TOS-1A Buratino, que emprega munições termobáricas. Ao mesmo tempo, deslocou especialistas para servirem de consultores às unidades sírias. Hoje, os comandantes de brigadas do país árabe contam com apoio direto de oficiais russos que auxiliam, em tempo real, no processo de tomada de decisões. Para isto, dispõem do apoio de aeronaves remotamente pilotadas e com pequenas unidades das melhores forças especiais da inteligência russa, equivalentes aos SEALS da Marinha estadunidense, que trabalham de forma independente em campo.

Com estas medidas simples e de certa forma baratas, o governo sírio conseguiu retomar o moral para lançar novas ofensivas contando com apoio aéreo efetivo oferecido pela Força Aérea e pela Marinha da Federação Russa. É preciso ressaltar que a oposição conta com fluxo constante de material ocidental e de origem soviética. Em reportagem publicada pelo jornal búlgaro Trud, a jornalista Dilyana Gaytandzhieva comprovou, por meio de documentos, o envio de armas búlgaras, tchecas e romenas para os rebeldes usando 350 voos classificados como mala diplomática. O equipamento, segundo a documentação, teria como destino o Arsenal de Picatinny, nos Estados Unidos.

Outro ponto ajudou o processo de reconstrução do Exército Árabe da Síria: a atuação desastrosa da chamada “oposição democrática” nas áreas que manteve sob seu controle. A imposição da Lei Islâmica, a Sharia, com a imposição do uso de véu às mulheres, ações agressivas contra minorias religiosas muçulmanas (alauíta, sufi e xiita) e cristã, como assírios e coptas, terminaram por minar o apoio popular e por favorecer o fluxo de voluntários dispostos a lutar por Bashar Al Assad, mas é óbvio que o fator predominante para a virada na Síria foi a eficiência do apoio aéreo oferecido pelos russos.

Apoio Aéreo

Empregando aviões, helicópteros e mísseis de cruzeiro, cerca de 40 mil missões foram realizadas desde o início da intervenção. A lista de equipamentos testados é extremamente abrangente e envolve, praticamente, todos os modelos de aviões de combate empregados pela Força Aérea e pela Marinha da Federação Russa. Neste processo, 215 diferentes tipos de armamentos modernos e avançados foram empregados durante a operação, inclusive o novíssimo caça furtivo Sukhoi Su-57. Capacidades foram reveladas surpreendendo o Ocidente. Quando pequenas corvetas de 500 toneladas de deslocamento que operam no Mar Cáspio atingiram, com mísseis de cruzeiro Kalibr, alvos na Síria, a Marinha dos Estados Unidos retirou temporariamente seu porta-aviões do Golfo Pérsico.

A Marinha, empregando, além das pequenas corvetas, submarinos convencionais e fragatas, disparou mais de 100 Kalibr. Ela também executou missões a partir do porta-aviões Almirante Kuznestsov, as primeiras da história da Rússia, atingindo 1.252 alvos terroristas.

Um ponto importante, pouco destacado pela mídia ocidental, foi o emprego de aeronaves remotamente pilotadas. O jornal israelense Haaretz destacou em um artigo, publicado em 2016, que um aparelho de pequeno porte invadiu, durante 30 minutos, o território das Colinas de Golan. Para neutralizá-lo foram disparados dois mísseis Patriot de fabricação norte-americana, que falharam. Um caça F-16 decolou e tentou engajar o alvo, que realizou manobras de evasão, aparentemente com o uso de inteligência artificial, e retornou incólume ao território sírio.

A intervenção utilizou bombardeiros estratégicos Tupolev Tu-160 e Tu-22M3 armados com mísseis Kh-101; caças-bombardeiros Sukhoi Su-24, Su-30 e Su-34; aviões de ataque Su-25 e helicópteros de ataque Mil Mi-35, Mi-28 e Kamov Ka-52. O total de perdas, menos de dez aeronaves e cerca de 200 homens (incluindo combatentes de terra), foi reduzido diante do volume de operações envolvido.

As unidades russas também enfrentaram desafios novos. As forças de oposição usaram enxames de drones armados com pequenas bombas explosivas para atacarem Khmeimim e o porto de Tartus. Nenhum deles atingiu o alvo. De um total de 14, oito foram derrubados por mísseis PANTSIR S-2. Usando sistemas de interferência, a defesa tomou o controle de seis drones, capturando-os. Ao acessarem os dados, verificaram, com surpresa, que estavam programados para atingirem milimetricamente, com a ajuda de GPS, alvos valiosos, como aviões de combate, o que prova o envolvimento de potências estrangeiras.

Para evitar problemas como os enfrentados pela OTAN durante a invasão de Kosovo, quando os estoques de armas inteligentes da Coalizão praticamente se esgotaram, os pilotos russos treinam para usar armas convencionais com grande precisão. Este approach tem dado certo e o total de baixas colaterais se assemelha ao verificado em ataques com equipamentos guiados realizados pela Aliança Ocidental na Síria, uma prova de que o homem pode superar a máquina.

Nota do Editor do Blog DG:  Pedro Paulo Rezende é um veterano jornalista, especializado em Defesa e Geopolitica.

Sobrinho de JFK sobre a Síria: O ISIS é um produto da intervenção dos EUA por petróleo

Por: Claire Bernish

Fonte: The Free Thought Project

Tradução: J. Junker

Robert F. Kennedy Jr. escreveu um astuto artigo a respeito da verdade por trás da presença dos EUA no Oriente Médio – a sua subserviência ao bem mais precioso da indústria de combustíveis fósseis: o petróleo.

“À medida que nos concentramos no crescimento do ISIS e da busca pela origem da selvageria que levou tantas vidas em Paris e San Bernardino, podemos querer olhar para além das explicações convenientes de religião e ideologia e focar nas lógicas mais complexas da história e petróleo, que em sua maioria apontam o dedo da culpa do terrorismo de volta para os campeões do militarismo, o imperialismo e o petróleo aqui em nossas próprias costas”, Kennedy escreveu em um editorial para o EcoWatch.

O olhar crítico de Kennedy sobre a história dos Estados Unidos de intromissão, intervencionismo, e da hegemonia – quase exclusivamente para manter o fluxo de petróleo – torna evidente o seu papel na desestabilização de todo o Oriente Médio, especialmente na Síria. Na verdade, mais de cinquenta anos de intercessão violenta – em última análise, no interesse da indústria de combustíveis fósseis – tem alimentado enormes ressentimentos. Essencialmente, o corporativismo geoestratégico americano – sob o disfarce da manutenção da paz armada – criou o violento jihadismo islâmico contra quem os EUA agora lutam suas batalhas.

A partir da administração Eisenhower, a soberania árabe e a neutralidade das nações do Oriente Médio na Guerra Fria foram percebidas como ameaças para o acesso americano ao petróleo.

Em primeiro lugar na ordem do dia para a Presidência de Eisenhower estava o primeiro líder eleito do Irã em 4000 anos de história, o presidente Mohammed Mosaddegh. O desejo de Mosaddegh de renegociar contratos de petróleo desfavoráveis ​​ao Irã com a British Petroleum levou a um golpe fracassado da inteligência britânica – a quem ele prontamente expulsou do país. Apesar de parecer favorável aos EUA, a quem Mosaddegh via como um modelo de democracia que ele procurou empregar no Irã – Eisenhower, com a ajuda do notório diretor de inteligência Allan Dulles, derrubou o líder. A “Operação Ajax” depôs Mosaddegh e o substituiu pelo Shah Reza Pahlavi – um líder cujo reinado sangrento culminou na revolução islâmica de 1979, “que tem atormentado a nossa política externa por 35 anos”, escreveu Kennedy.

Talvez uma das maiores ameaças maiores sobre a Síria fosse a relutância dela para aprovar a Trans Arabian Pipeline – destinada a atravessar a Síria a fim de conectar o petróleo saudita com os portos do Líbano. Quando o democraticamente eleito e secular presidente sírio negou o plano, a CIA armou um golpe em uma tentativa de substituí-lo.

“O plano da CIA foi de desestabilizar o governo sírio, e criar um pretexto para uma invasão pelo Iraque e pela Jordânia, cujos governos já estavam sob controle da CIA”, explicou Kennedy. Não funcionou. Uma falha surpreendente, motins e violência anti-americana irromperam por toda a região. A Síria barrou vários adidos americanos, e, em seguida, expôs e executou todos os funcionários que abrigavam algum sentimento pró-americano. Na verdade, os EUA quase provocaram uma guerra com a Síria pelo incidente.

As repercussões da tentativa de golpe – bem como parcelas de maior êxito dos regimes fantoches em outros lugares – continuam a desempenhar um papel na política externa e relações geopolíticas no presente. A mais “bem sucedida” remoção de um líder e sua subsequente substituição envolveu um nome que todos nos EUA estão familiarizados: Saddam Hussein.

Depois de várias tentativas para depor o líder do Iraque falharam, a CIA, em última instância instalou Hussein e o Partido Baath no poder. Como Kennedy observou, o ministro do Interior Said Aburish disse sobre a trama: “Nós chegamos ao poder em um trem chamado CIA”. James Critchfield, o chefe do posto da CIA responsável tanto pelo golpe bem sucedido quanto pelo fracassado, mais tarde disse que a CIA tinha “essencialmente criado Saddam Hussein” – também lhe fornecendo armas, inteligência, além de armas químicas e biológicas.

“Ao mesmo tempo, a CIA estava a fornecer ilegalmente ao inimigo de Saddam – o Irã – milhares de mísseis anti-tanque e anti-aéreos para combater o Iraque, um crime que ficou famoso durante o escândalo Irã-Contras … A maioria dos americanos não estão cientes das muitas maneiras que essa reação de erros anteriores da CIA ajudou a criar a crise atual”.

Enquanto os americanos amplamente acreditam na grande imprensa e na narrativa governamental que o papel atual dos EUA na Síria eleva-se a objetivos humanitários, começando com a Primavera Árabe em 2011, “Em vez disso, começou em 2000, quando o Qatar propôs construir um gasoduto de 1,5 mil quilômetros e US$10bi através de Arábia Saudita, Jordânia, Síria e Turquia”, Kennedy explicou.

“O gasoduto proposto teria ligado o Qatar diretamente para mercados europeus de energia através de terminais de distribuição na Turquia que embolsariam grandes taxas de trânsito. O gasoduto Qatar-Turquia teria dado os reinos sunitas uma dominação decisiva do Golfo Pérsico em mercados de gás natural pelo mundo e fortalecido o Qatar, aliado mais próximo dos Estados Unidos no mundo árabe”.

A UE recebe atualmente 30 por cento de seu gás da Rússia, Kennedy observou, e “A Turquia, segundo maior cliente de gás da Rússia, estava particularmente ansiosa para acabar com sua dependência de sua antiga rival, além de posicionarem-se como um centro de transporte lucrativo dos combustíveis asiáticos para os mercados da UE. O gasoduto do Qatar teria beneficiado a monarquia conservadora sunita da Arábia Saudita, dando-lhes uma posição de dominação sobre os xiitas”.

Os cabos diplomáticos revelados pelo Wikileaks mostram que desde 2006 o Departamento de Estado dos EUA, a pedido do governo israelense, vinha propondo uma parceria entre Turquia, Qatar e Egito para fomentar uma guerra civil sunita na Síria, para enfraquecer o Irã. O propósito declarado, de acordo com o telegrama secreto, foi para incitar (o presidente sírio, Bashar al- Assad) uma brutal repressão da população sunita da Síria.

“Como previsto, a reação exagerada de Assad à crise fabricada no estrangeiro – lançando bombas de barril em redutos sunitas e matando civis – polarizou uma divisão xiita-sunita da Síria e permitiu aos responsáveis ​​políticos vender aos americanos a ideia de que  a luta pelo gasoduto era uma guerra humanitária”.

O contexto histórico e longo de Kennedy para o imbróglio atual merece uma leitura minuciosa. Sua mensagem inequívoca deve servir como um lembrete importante que o governo dos Estados Unidos e seu porta-voz da grande imprensa  –  tão convincente quanto eles podem parecer  –  nunca estão contando toda a história.

Síria: as próximas horas podem ser cruciais

Por: César A. Ferreira

Com o avanço das forças curdas, após a tomada da base aérea de Menagh, em direção à Az’az, o desespero abateu-se sobre as lideranças turcas: sem cerimônia alguma fizeram fogo de bateria contra as posições curdas e do Exército Árabe da Síria, que respondeu fazendo fogo de contra-bateria.  As ações curdas, após a conquista da Base Aérea de Menagh foram rápidas, dado que de imediato assaltaram Kafr Khashir e dirigem-se, agora, para Kafr Kalbeen, enquanto que ao norte de Az’az, assaltaram Qastal Jindu com o eixo em direção à Salameh. Caso haja inflexão dos eixos de progressão haverá um cerco a cidade fronteiriça de Az’az, importante entroncamento das vias de comunicação entre a Turquia e a Síria, portanto, importante base logística das espoliadas forças do Exército Livre Sírio e da Frente Nusra. A queda de Az’az significaria a eliminação virtual destes dois grupos insurgentes na frente de Aleppo, restando para combater apenas o EI, o qual, diga-se de passagem, foi obrigado a abandonar a Central Termoelétrica de Aleppo Oriental frente ao avanço da Força Tigre, tropa de elite do EAS.

Não deixa de ser sintomático, que hospitais tenham sido atacados, com a culpa, era de se esperar, sendo debitada aos russos. Não fosse o fato de que o pequeno grupamento aéreo da Rússia não ter seu histórico ataques contra a infraestrutura civil da Síria, com a exceção notável dos campos de exploração de petróleo em mãos do EI, poder-se-ia acreditar, no entanto, em meio ao visível estado de aflição histriônica demonstrada pela Turquia, bem como pela associada Arábia Saudita, com a eminente derrota dos grupos jihadistas ao norte de Aleppo, isto aliado ao anunciado aporte de bombardeiros da Força Aérea do Reino em Incirlik, faz com que este escriba tome para si a suspeição, forte, de que a responsabilidade dos ataques aos hospitais deveram recair com maior propriedade sobre as asas da Força Aérea da Turquia, ou dos aliados próximos, USAF e KSAF (Força Aérea do Reino da Arábia Saudita – ing); ademais, é bom lembrar, que a cidade de Aleppo, e adjacências, tivera a sua infraestrutura atacada anteriormente pela coalizão ocidental, caso da estação de captação e tratamento de água, cuja destruição obrigou os moradores a buscarem o recurso diretamente no Eufrates, com o risco de contraírem o bacilo da Cólera, caso venham a ingerir sem dar-se à fervura das águas retiradas do rio.

A exasperação turca dá-se por conta da concretização da agenda curda, pois o avanço curdo possui a intenção explícita de viabilizar um corredor territorial entre Kobane e Sarrin, ou seja, do oeste ao leste. Ainda que o nascimento de um estado curdo na região não faça parte dos planos de Assad para a Síria, dado que este nasceria à custa do Estado Sírio, prevê-se a concessão de uma autonomia ampla, algo que por certo se dará. Isto é entendido por Ancara como um embrião de um processo inexorável, que nas mentes turcas resultará na criação do Curdistão como estado nacional, que levará todo o leste da Turquia. Convenhamos, quando líderes nacionais deixam-se levar em suas mentes por fantasias tenebrosas, em meio ao desabar do seu castelo de cartas na forma das suas ambições territoriais, boas coisas, com certeza, não podem sair. Compreende-se, pois, o aviso emitido hoje, 16 de fevereiro de 2016, de que nas próximas 24 horas a Turquia realizará a invasão territorial da Síria. Basta esperar para ver se não se trata de um blefe.

Blefe, ou não, tomam os russos as suas medidas. Tendo constatado que quase todo o 2º Exército Turco se encontra estacionado junto à fronteira, formando não menos que 18.000 homens, valor de uma Divisão, como tropas operacionais, isto é, sem contar com o efetivo de apoio logístico, apontado para o eixo de Az’az, realizaram os eslavos uma verdadeira ponte aérea através da rota do Mar Cáspio, onde dois dos imensos cargueiros AN-124 foram avistados, descarregando material bélico na Base Aérea de Hmeimeem. Outro meio cuja presença não pode deixar de ser notado é composto pela aeronave SIGINT Tu-214R. Este avião para coleta de dados eletrônicos, de comunicações e de emissões, reflete que o comando russo espera uma mudança brusca do patamar do confronto havido na Síria, de um conflito contra forças insurgentes, portanto irregulares, contra uma força treinada e dependente de coordenação centralizada, portanto, emissora de sinais, comandos, caso de uma força regular, em suma de um Exército Nacional. A aeronave, de maneira elucidativa, não só seguiu a rota do Mar Cáspio, como fez também um desvio, sobrevoando boa parte do território iraquiano, afastando-se ao máximo da fronteira turca, adotando desta forma uma rota previdente contra a possibilidade de uma emboscada área por parte da THK (Força Aérea da Turquia – tur). Ademais, os porta-vozes das forças armadas sírias deixaram bem claro que, caso haja penetração na fronteira, darão combate às forças turcas as quais irão considerar, com razão, como forças invasoras. Vê-se claramente que as próximas horas serão decisivas para o desenrolar do drama de Aleppo. Para os expectadores resta aguardar.

Avanços sírios impõem aos turcos opções desesperadas

Por: César A. Ferreira

O desenrolar das ações do Exército Árabe da Síria ao norte do país, com vigorosa assistência do grupo aéreo russo, retira, uma a uma as opções turcas no tocante à guerra por procuração que move na Síria, com os seu agentes turcomanos e coligados da al-Qaeda, leia-se al-Nusra, Exército Livre Sírio e Estado Islâmico. A queda das cidades de Nublo e Zahran, trazem grandes consequências para as forças insurgentes, afora o contexto simbólico desta vitória, posto que eram cidades perdidas há mais de três anos. As forças insurgentes, mais uma vez, sofreram revezes de monta, onde fez-se decisiva a presença dos ataques aéreos demandados pelo agrupamento russo e pela Força Aérea Árabe da Síria.

Estas cidades, agora firmemente em mãos governamentais, vedam mais um corredor para abastecimento logístico para Aleppo, onde a cada dia que passa se enfraquecem as posições insurgentes frente àquelas do governo reconhecido da Síria. O foco, agora, dá-se no entorno de Azaz, justamente por ser um entroncamento importante para o abastecimento de Aleppo. Comboios turcos são sistematicamente bombardeados nas estradas próximas e caso haja a queda da localidade, restará apenas os corredores de Reyhanli e Idlib. É desnecessário dizer que quanto menores forem as rotas logísticas, mais fácil será a tarefa do poder aéreo russo na região, que é a de estrangular o esforço logístico dos grupos insurgentes na fronteira norte da Síria.

A Turquia vê com o avanço das forças do Exército Árabe da Síria, e dos grupamentos curdos do YPG/YPJ, junto aos entroncamentos viários da fronteira sírio-turca como o golpe mortal na sua propalada “zona de segurança para refugiados”. Além do mais, vê-se obrigada a assistir que contendores com os quais jogava, caso dos EUA e da Rússia, venham agora a abastecer os combatentes curdos, nas franjas fronteiriças, sem que tenha voz ativa contra tal movimento.

No tocante aos EUA, estes cumprem com o seu plano, não divulgado, mas à vista de todos, de fragmentar a Síria, onde um estado curdo teria o seu lugar natural, enquanto os russos passaram a apoiar um aliado interessado em dar combate aos insurgentes que lhe são hostis, cuja sobreposição de interesses ganhou um impulso grande, quando da atitude turca de abater o bombardeiro Su-24M2. Grandes consequências de um gesto impensado, visto que desde tal abate não houve outra coisa que não fosse o acelerar do avanço governamental. O fato de armar, largamente, os combatentes do YPG/YPJ, vir a constituir na concretude de um estado nacional curdo, parece ser nos cálculos russos e sírios como algo aceitável, em vista do combate mortal com os insurgentes, onde a necessidade extrema de infantes torna-se imperiosa.

Para a Turquia, pouco resta…

Dado que agora, existe uma bateria do Sistema S-400, na base aérea de Hmeymim , além de dois elementos de caças Su-35S, equipados com mísseis R-73E, R-27ET, além do novíssimo RVV-SD, restam aos turcos a atitude do confronto aberto com a invasão do território sírio, posto que a guerra por procuração entra em colapso, bem como a sonhada “no fly zone”, algo que de concreto pode-se dizer que existe, mas com as cores russas…

O desespero turco acentua-se, justamente, com a corrida das forças curdas para o oeste. Caso haja o sucesso do YPG/YPJ em liberar Marea, restará à Turquia a ligação logística através de Bab al-Hawa e de Idlib, mas estas, como dito antes, submetidas à interdição aérea russa.  Que não haja enganos, o discurso está pronto: salvar a minoria étnica turca, os “turcomanos” da Síria, contra o “massacre” perpetrado pelos curdos, “facínoras”, coadjuvados pelos odientos russos. Compra quem quiser.

O cenário está montado, portanto, para um confronto de forças convencionais. Entende-se, pois, a retórica saudita, de “estarem prontos” para participar de uma eventual invasão terrestre da Síria, quando se encontram atolados no Iêmen, para dar cabo do “Estado islâmico”. Ora, ora, existem tolos tão tontos assim? A invasão, sabem até os mais parvos, servirá para pavimentar a fragmentação da Síria e garantir, dentre os novos estados a nascer desta quebra, os chamados “Sunistões”, a existência. A questão é: a Síria vale à pena? Vale a ponto de levar o mundo a assistir a um confronto direto entre a OTAN e a Rússia, o que equivale dizer a um confronto nuclear? As respostas estão com o tempo… Um professor rigoroso.

VKS desdobra Su-35S na Síria

Por: César A. Ferreira

Dentre todas as notícias que versam sobre a guerra na Síria, ou do Oriente Médio em si, aquela de maior destaque, sem dúvida alguma, é a que noticia o desdobramento de elementos de caças Su-35S da VKS em direção à Latakia.  Dois elementos (quatro caças) com os designativos Vermelho 03, Vermelho 04, Vermelho 05 e Vermelho 06 (aviões da VKS possuem marcações de dois dígitos no nariz), tiveram suas fotos divulgadas enquanto realizavam voo de translado para a base aérea de Hemeimeem. Não foram vistos armas nos cabides, mas a presença dos pods nas pontas das asas, contendo o sistema de contra medidas eletrônicas (abreviatura em inglês: ECM) L175M1035S “Khibiny-M”, foi constatada pelas imagens.

Dado que não houve observação direta das armas nos cabides, pode-se apenas especular; sabe-se com certeza que os mísseis R-73E deverão fazer parte do arsenal, noto cante ao combate WVR (ao alcance visual), estando o combate BVR em aberto. Apontar a presença do R-37 no cenário sírio não seria um exagero, visto que a integração deste míssil ao Su-35S foi anunciada. O que é evidente, e nisto não há especulação, é o reforço do contingente aéreo na Síria, com aeronaves AEW, e agora com um interceptador com plena capacidade BVR, em meio as novas acusações turcas de invasão do seu espaço aéreo. Visto que o episódio que resultou no abate do Su-24M2 aconteceu em função de uma violação do espaço aéreo turco, hoje sabidamente falsa, entendem os russos, que haja interesse dos prepostos da OTAN em realizar novamente um raid contra as suas aeronaves.

Ao leitor que estiver curioso em relação às capacidades do Su-35S, convido-o a visitar a página Su-35: a grande águia russa.

Abaixo outras imagens dos caças da VKS (Scalemodels.ru, via Defense Blog):

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SU-35S “Red 02” durante voo de translado para Síria. Imagem: Scalemodel.ru/Defense Blog.
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Su-35S, designativo “Red 05”, visto da vigia do Tu-154 que o acompanhava. Imagem: Scalemodel.ru/Defense Blog.

Mapa: dias decisivos da batalha por Latakia

Por: Peto Lucem (exclusivo para o site South Front).

Tradução: Enlil

Adaptação: César A. Ferreira

Imagem ampliada do mapa, aqui.

Nos últimos dias, o Exército Árabe Sírio (EAS) obteve ganhos territoriais significativos no antigo reduto insurgente, localizado na “montanha dos curdos” região (Jabal al-Akrād), perto da fronteira com a Turquia em Latakia, província. Nos últimos três anos, a insurreição síria beneficiou-se das rotas de abastecimento em execução a partir da fronteira com a Turquia e também do terreno montanhoso e arborizado. Esta região tem uma importância vital para ambas as partes em guerra por causa de sua proximidade com a cidade de Latakia e outros centros urbanos próximos da costa do Mediterrâneo. A área de fronteira sírio-turca foi uma zona de interdição de área para as forças do governo sírio por um longo tempo. Este quadro foi alterado.

Como esperado, a queda do reduto insurgente mais importante de Salma teve um impacto negativo, severo, sobre as capacidades de defesa insurgência. Em 20 de janeiro, a EAS havia libertado a aldeia de Ateera e as zonas circundantes, que os insurgentes tentaram recapturar um dia antes, sem sucesso. As forças do governo empurraram os insurgentes da aldeia al-Kabeir e mudando-se desta maneira a pressão para longe das forças leais, concentradas na vila de Bayt Ablaq. O avanço mais importante aconteceu na área operacional do sul, perto da estratégica rodovia M4, que leva às cidades de Jisr al Shughour e Idlib.

Nesta área, a EAS foi capaz de assumir o controle das aldeias de Ayn al Hawr, Ghunaymiyah, e Khab al Jawz. Especialmente a captura de Khab al Jawz foi de enorme importância estratégica, semelhante à captura de Salma alguns dias antes. Ao capturar Khab al Jawz e os entroncamentos vitais das proximidades, a EAS começou um avanço para o bastião insurgente do norte de Rabi’ah. Os defensores deste ponto vital já tiveram um tempo difícil tentando adiar as forças governamentais destacadas para a zona norte. Agora, eles também tiveram que cobrir as duas estradas principais que funcionam do sul para Khab al Jawz. No entanto, os insurgentes veem-se oprimidos pelo rápido avanço do exército perto da autoestrada M4. Não foram capazes de desviar as forças para esta área. Assim, para eles não foi possível definir uma nova linha de defesa dentro de um prazo razoável, para evitar antecipadamente as forças do governo com eixo direcionado para com a Rabi’ah.

Apenas um dia depois de o EAS ter capturado o entroncamento de Khab al Jawz, o exército ocupou a vila de Baradun e a barragem próxima de Baradun. No Norte, o exército empurrou as forças insurgentes da área de Jaqruran, o que criou uma pressão adicional sobre os defensores de Rabi’ah. Em 22 de janeiro, as forças insurgentes, exaustas, mostraram sinais crescentes de desorganização e fadiga. Revelaram-se incapazes de deter as forças sírias que receberam apoio aéreo preciso das forças aéreas russas e sírias.

Durante este dia decisivo, o EAS lançou um ataque em grande escala. Ao longo de a linha defensiva insurgente posicionada na protuberância entre as aldeias de Baradun e ad-Durrah. O exército fez ganhos significativos e libertou uma série de aldeias, incluindo o importante vila de al-Rayhaniyyah, ao sul de Rabi’ah. Em 23 de janeiro, as defesas insurgentes desabaram completamente. As forças do governo também ganharam o controle sobre novas áreas e aldeias, tais como al-Malik, Tanahiyah e Al Huwlah.

Até agora, a insurreição foi incapaz de contrariar os recentes sucessos do governo de forma adequada. Ao que parece, eles contavam com a resistência de pontos fortes próximos das áreas da linha de frente, quando da ofensiva em larga escala lançadas pelas forças pró-governo em outubro passado. Tão logo houve a queda destes pontos fortes, como Salma, não detiveram possibilidades outras, para deter os avanços das forças legalistas.

Um fato óbvio é que eles, os insurgentes, não aplicaram a estratégia de defesa em profundidade (defesa compartimentada, elástica), o que provou ser fatal. Esta situação, provavelmente, deverá levar a uma diminuição acelerada dos recursos dos militantes e de mão de obra. Se Rabi’ah cai, ele provavelmente dar-se-á uma retirada em grande escala no sentido de Jisrt al Shughour. Os insurgentes provavelmente tentarão realizar uma resistência  final no ponto mais estreito, entre a área de Ayn al Hawr e a fronteira turca. Caso esta tentativa venha a falhar, o corredor para Jisr al Shughour estará aberto para as forças do governo. O posicionamento estratégico das formações insurgentes provavelmente será agravada ainda mais, devido ao fato de que o EAS liberou recentemente milhares de efetivos, ao ter encurtando a linha de frente na província de Latakia. Em outubro, a linha de frente exibia um comprimento total de aproximadamente 35 milhas. Até o momento, enquanto se aguarda começar o impulso em direção a Jisr al Shughour, o EAS terá de cobrir cerca de 10 milhas (no caso de a EAS manter as suas posições atuais em al Ghab). Embora o exército provavelmente  retire uma pequena parte de sua força ofensiva, para um posicionamento defensivo junto a  fronteira turca, deverá manter uma reserva suficientemente forte, com poder necessário para realizar uma ofensiva com intuito de capturar Jisr al Shughour e até mesmo Idlib.

A libertação de Salma é a derrota de Erdogan na Síria

Fonte: Al-Manar

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

A vitória do IV Corpo do Exército Árabe da Síria ema Salma é a vitória mais importante da aliança russo-síria, bem como do envolvimento russo na guerra. Ela é um triunfo contra grupos terroristas, mas acima de tudo é uma vitória contra a Turquia, que havia apoiado esses grupos em sua ofensiva no ano passado, tanto em Latakia, quanto em Idlib.

Após a vitória em Salma, a pretensão turca de impor uma zona tampão se esvaiu.  Os aliados de Erdogan, tal como a Frente al-Nusra, terroristas chechenos e os uigures do “Partido Islâmico do Turquestão” sofreram uma pesada derrota, o mesmo com os Turkmen (turcomanos), grupos armados sírios de origem turca, que tem sido agentes de apoio para Ancara nesta área.

Auxílio turco não poderia acontecer desta vez por causa da barragem da aviação da Rússia, que fez mais de 200 ataques aéreos em dois dias consecutivos contra rotas de abastecimento, o que impediu os terroristas presentes em Salma não só de se mover, mas também de obter reforços. A Tomada de Salma findou uma campanha de três meses que levou à conquista de todas as colinas e platôs da região.

Irritação do governo Erdogan à ofensiva síria e russa em Latakia foi o que levou a Turquia a abater o avião russo Su-24M2 sobre o espaço aéreo sírio em 23 de Novembro. Este foi sem dúvida um importante indicador da importância que a província síria tinha para os turcos. Isso, no entanto, longe de dissuadir os russos, encorajou estes últimos e os sírios a prosseguirem em sua ofensiva, de maneira ainda mais rápida, o que levou à liberação de Salma. Esta parece ter sido, em última análise, a resposta escolhida por Moscou para a derrubada do seu dispositivo (bombardeiro Su-24M2).

A organização terrorista chechena, Ansar al Sham, apoiado pela Turquia, foi praticamente eliminada e a sua liderança afirmou que os militantes estão agora sem armas, ou dinheiro. Este colapso dos militantes augura um avanço rápido para os postos de fronteira entre a província de Latakia e a Turquia. O único reduto dos terroristas mantido em Latakia é a cidade de Rabia, que se espera, venha a cair nas mãos do Exército Árabe da Síria em breve, o que irá fechar a fronteira turca, totalmente, naquilo que é relativo à província.

Na província de Aleppo está a ser dada uma situação semelhante e o exército sírio e os seus aliados estão progredindo em direção à fronteira turca por vários eixos. O Exército Árabe Sírio assumiu recentemente a cidade de Ain Beida, situada 7-8 kms da linha de fronteira, quase que de maneira sincronizada com a ofensiva das forças militares sírias em Latakia.

A implantação do sistema antiaéreo S-400 em Latakia tem impedido as aeronaves turcas de adentrarem livremente no espaço aéreo da Síria, tal como reconhecido recentemente pelo primeiro-ministro, Ahmet Davutoglu. A Turquia suspendeu o voo das suas aeronaves, quando a Rússia introduziu o sistema acima descrito na Síria em 26 de novembro (2015).

Tudo isto evidencia a fraqueza da Turquia contra a presença russa. Ankara hesita em enviar tropas e agentes de inteligência à Síria por medo de serem capturados, ou mortos por lá. A este respeito, as advertências da Rússia para com o status da Síria têm se mostrado eficazes e a derrota dos grupos armados no norte de Latakia e Aleppo revelou a sua dependência destes com a Turquia, para dar continuidade à luta.

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Federação Russa, Maria Zajarova, acusou, por sua vez, a Turquia de “manter uma guerra oculta na região e trabalhar em prol dos seus próprios interesses na Síria, apoiando grupos terroristas e extremistas” e de violação da “Resolução do Conselho de Segurança da ONU (sobre o financiamento do terrorismo) por (permitir) transportar o tráfego de petróleo da Síria em seu território, especificamente o petróleo roubado pelo EI”.

Continua Zajarova: “Nós não vamos fechar os olhos às demonstrações contínuas por sênior responsável sênior turco, destinadas a desacreditar a Rússia aos olhos da comunidade internacional, tal como as acusações contra a força aérea russa de matar civis na Síria. O que é surpreendente é o fato do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Turquia degenerar-se ao ponto de usar métodos sujos,  como acusar sem provas o nosso país de assassinato em massa de civis”.

Inteligência russa caça chechenos no exterior

Federação Russa é a suspeita de efetuar assassinatos flagrantes no exterior, principalmente na Turquia.

Por: César A. Ferreira

Não importa o que digam sobre as ações de inteligência nestes tempos modernos, tal como as afirmações de que são as análises de interceptações eletrônicas a prioridade, ou a razão de existir das agências atualmente, o fato é que como antes, da antiguidade aos nossos dias, a inteligência efetuada por operadores é, e sempre será fundamental.

A antiga KGB, como se sabe, era mestra em trabalhar com o elemento humano. Ao que parece tal habilidade não foi esquecida pelas suas agências sucessoras, herdeiras do serviço de inteligência, a FSB (Serviço Federal de Segurança) e a SVR (Serviço de Inteligência no Exterior), além da igualmente eficiente e aparentemente eterna GRU (Inteligência Militar).  Dentre as atribuições da inteligência, aparte a óbvia coleta de informações, está a eliminação de personagens chave, cujo desaparecimento se faz necessário para o bem do Estado.  Os serviços de inteligência eslavos sempre foram reputados neste pormenor, não que fossem os ocidentais ineptos, ou desatenciosos no tocante à eliminação de indesejáveis, mas, fora o trabalho efetuado pelos serviços soviéticos aqueles que receberam a atenção da história, sendo o exemplo maior o assassinato de Trotsky por Ramón Mercader.

Os serviços atuais, FSB/SVR mostram-se muito atuantes nesta modalidade, como visto no caso Alexander Litvinenko (Alexander Valterovich Litvinenko), ex-coronel da FSB que havia desertado para o “Ocidente”. Foi alcançado pelo longo braço dos seus ex-colegas no Reino Unido ao tomar um simples chá verde… Batizado com Polônio! A morte de Litvinenko, foi um recado, pois o Polônio é um elemento radioativo mortal quando em contato com tecido vivo, visto que basta uma micrograma para matar uma pessoa com oitenta quilos de peso, emissor de partículas alpha, pode por isso ser transportado com facilidade, visto que as partículas alpha são facilmente contidas, um frasco simples já é suficiente… No caso de Litvinenko a morte lhe foi servida na forma de um adoçante… Dado o fato que o Polônio 210 possui uma vida de apenas 138 dias, e que a sua obtenção, em função da sua raríssima ocorrência na natureza deriva do intenso fluxo de neutros sobre o Bismuto (Bi-209), percebe-se que a intenção era dar um recado: que o Reino Unido era incapaz de proteger quem quer que fosse.

Não é um assombro, portanto, que haja operações para eliminação de inimigos declarados da Federação Russa, e que muitas destas ações venham a ocorrer em solo turco. Serviços de informações, como se sabe, acabam por ter maior afinidade em suas ações de uma maneira mais efetiva em algumas nações do que em outras. Os motivos são vários, desde uma identidade cultural próxima, proximidade, ou compartilhamento de fronteiras até a conivência entre governos. É fato, todavia, que os russos sentem-se bem nas operações centradas na Anatólia, e isso desde a Guerra-Fria, quando a unidade política atendia pelo nome de União Soviética e o braço de segurança pelo nome de KGB…  Istambul, como se sabe, é uma capital cosmopolita, com grande fluxo de pessoas/turistas e isto por certo facilita qualquer operação. Portanto, os casos de emboscadas mortais, como a que vitimou Abdulvakhid Edelgireyev, devem ser encaradas, sempre, como de reais possibilidades de ocorrer, independente do tempo, evento, ou mesmo do local.

O assassinato de Abdulvakhid Edelgireyev, diga-se, foi cinematográfico. Em visita a cidade para fazer compras com sua sobrinha, logo após ter adentrado ao carro e acomodado a criança de três anos de idade no assento do passageiro, sofreu uma colisão intencional em seu carro. De imediato abaixou a sobrinha no assento, empurrando-lhe a cabeça entre as pernas, para então empreender fuga e desabrida correria. Todavia, balas são mais rápidas… Crivado, ensanguentou no chão até a chegada dos paramédicos, que só fizeram atestar a sua morte. Cinco perfurações foram contabilizadas.

Abdulvakhid Edelgireyev não era um terrorista qualquer, por anos percorreu as montanhas da Chechênia e do Daguestão, promovendo surtidas rápidas eivadas de sangue. Planejamentos de ataques suicidas em Moscou e no Aeroporto Domodedovo lhe são atribuídos, além disso soma-se a sua participação no conflito sírio, em associação à Frente Al-Nusra. Portanto, percebe-se que Abdulvakhid Edelgireyev não era um alvo qualquer, mas sim de grande valor, o que explica a emboscada, elaborada com a monitoração dos seus movimentos em Istambul, notadamente do seu apartamento em Kayasehir. A escolha do momento para ação é notável: o passeio com a sobrinha de três anos de idade, um momento de estrema vulnerabilidade do alvo, dado a ligação emocional deste para com a criança; algo que comprovou-se no evento. Notável profissionalismo da equipe operativa, não só pela escolha do momento de vulnerabilidade da vítima, mas pela execução rápida e consequente evasão, que se deu em rota pré-planejada, dado a proximidade de uma delegacia de polícia do local escolhido para a emboscada.

Outros alvos foram eliminados em Istambul, o que não surpreende, visto que a cidade tornou-se base para refugiados chechenos, e dentre estes muitos líderes insurgentes. É notória a chacina da casa de chá, 2011, quando três chechenos foram mortos a tiros de calibre não usual, 9 x 39mm, disparados de um fuzil bullpup Groza, arma e munição que não são encontrados com facilidade para serem comercializados nas sombras dos mercados negros. Investigações efetuadas pelas autoridades turcas apontaram a participação de nove pessoas, todas elas ingressas na Turquia com passaportes falsos. Estes, deixados para trás em fuga.

Não só de ações violentas são os alvos vitimados, ações mais sutis são empreendidas para eliminá-los. Dado que existe uma comunidade chechena na cidade, Istambul, uma capital populosa com ares cosmopolitas, a possibilidade de infiltração existe e é aproveitada. O envenenamento de alimentos tem se mostrado como uma modalidade apreciada pelos agentes operativos, tanto, que está foi a forma adotada para eliminar o “emir” Umarov, líder religioso responsável pela conversão de inúmeros jovens chechenos à insurgência armada. Esta, dentre outras ações, acabou por alarmar a comunidade chechena em Istambul, forçando-os a adotar hábitos de discrição e proteção, tal como andar em grupos, abastecer o carro em um postos de combustíveis determinados, em estreita vigilância, restrição de deslocamento pela cidade de membros proeminentes, ou de insurgência ativa na comunidade, restrição esta que se estende aos familiares. Medidas compreensíveis, diga-se, mas pouco efetivas contra os métodos das agências de inteligência, seja de onde for.

Negócios de família

Por: César A. Ferreira

A guerra e tudo que a envolve possui um caráter triste, desonroso, cruel e canalha. Não é raro, mas antes comum, a existência de oportunistas que procuram ganhos pessoais com eventos que custam a morte e sofrimento para os seus semelhantes. A guerra civil Síria, ora em curso não exceção e neste exato momento fortunas são construídas na Turquia a expensas dos sofrimentos sírios, na forma de um intenso contrabando de petróleo, mas que também envolve algodão, armas, fosfato e mesmo escravas. Este último item, que mais parece algo perdido no tempo, comércio decadente marcado pela história, foi revivido dado, ao costume do Estado Islâmico em presentear os combatentes que se destacam, com esposas. Não existe pudor quando o objetivo é o lucro.

Dentre as famílias que se destacam com este comércio, uma delas ganha importância inaudita, devido o peso político, trata-se do sobrenome Erdogan, e o membro destacado é Bilal Erdogan, terceiro filho do Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Tendo recebido uma educação esmerada, da qual se inclui a obtenção de grau de mestrado na prestigiosa Harvard University John F. Kennedy School of Government, no ano de 2004, Bilal Erdogan tornou-se um empresário de meteórico sucesso, onde a sua participação societária na empresa de fretamento marítimo, “BMZ Grupo Denizcilik ve Sanayi Insaat Anonim Şirketi”, se destaca. As acusações de obtenção de empréstimos fraudulentos em bancos públicos se avolumam, mas caem rapidamente no esquecimento, visto que a Turqia é  uma nação anestesiada com o seu sucesso recente e nem mesmo a participação de familiares negócios parece perturbar a paz social.

Uma das acusações que versa sobre Bilal Erdogan é a de viabilizar o comércio do petróleo contrabandeado pelo Estado Islâmico através da fronteira turca, embarcando-o nos tankers adquiridos pela BMZ, encomendados junto ao İstanbul’s Türkter Shipyard, navios com cerca de 140 metros de extensão e calado de 5 metros, com pouco mais de 6.000 toneladas brutas, atendendo ao limites “Volga-Don, Max”, ou seja, preparados para tráfego no canal Volga/báltico.  O porto de embarque para estes navios é o de Çeihan, ou Ceyhan, porto estatal, o que inclui o terminal para embarque de óleo.  Quando confrontado com as atividades do filho, a resposta emitida pelo presidente turco é a que as atividades empreendidas pelo filho são legais, não havendo comprovação alguma de fonte ilícita das mesmas. De fato, existe um componente que mascara o atribuído comércio de 40.000 barris brutos diários do Estado Islâmico, que o envio de petróleo curdo advindo do Iraque. Acontece que o governo iraquiano considera a venda do petróleo extraído das terras curdas do Iraque como um extravio, um contrabando, de uma riqueza nacional. Todavia, a região autônoma do curdistão iraquiano age como se nação independente fora, ainda mais quando se defende praticamente só contra o Estado Islâmico, por isso, bem como por outras razões, Erbil, em termos práticos, não reconhece a autoridade de Bagdá, sendo esta existente apenas nominalmente. Assim, para todos os efeitos, o petróleo comercializado é curdo, facção que conta com a benção da União Européia e dos EUA. Forma melhor para mascarar o petróleo roubado da Síria não há.

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O “Armada Pride” um dos navios “Volga-Don Max Class” da frota do grupo BMZ. Imagem: internet.

O interessante, neste embate atual, sobre quem compra o óleo roubado da Síria é que os navios do grupo BMZ podem ser rastreados, localizados nos portos de destino, algo que nestes tempos de tecnologia da informação se dá em tempo real, por isso temos, como exemplo o Tanker “Armada Breeze”, do grupo BMZ, na data de 01 de dezembro de 2015, próximo ao seu destino, o porto de Bilbao, Espanha, trafegando pela Baía de Biscaia. O mesmo pode-se obter de outros tankers da frota BMZ: “Poet Qabil”, próximo a Rotterdeam, Holanda, no dia 29 de novembro; “Begim Aslanova”, junto a Savona, Itália, no dia 03 de dezembro, “Mecid Aslanov”, próximo a Ravenna, Itália, no dia 04 de dezembro e “Sovket Alekperova”, trafegando no Mar do Norte em direção a Thames, Grã-Bretanha. Percebe-se, portanto, o quanto as rotas realizadas pela frota BMZ são elucidativas, afinal, os portos de destino destes tankers são pertencentes à nações sócias da OTAN, isto, sem falar nas paradas para Odessa (Ucrânia), que são frequentes.

Outros negócios

Nem só do petróleo vivem os saqueadores turcos das riquezas sírias, aproveitam-se para roubar o que for possível. Um exemplo disso é a retirada de todos os equipamentos industriais da cidade de Aleppo, por membros do Estado Islâmico, comercializados na Turquia. Outro comércio ilegal, ainda mais danoso, versa sobre as antiguidades históricas da Síria, cujos objetos são comercializados sem o mínimo pudor em Ancara e Istambul. Além do saque há outra forma de ganhar dinheiro com o sofrimento do povo sírio: a chantagem dos refugiados. Concentrados em imensos campos de tendas, os refugiados são uma arma de barganha política de Ancara por recursos internacionais, notadamente da Europa Unida, destino preferido dos infelizes. Dá-se que tudo que se faz necessário para tais pessoas é adquirido de fornecedores turcos, de água potável aos remédios. Outra mina de outro, altamente condenável é a prestação de serviços médicos aos insurgentes, que para isso cruzam a fronteira da Síria com a Turquia com notável facilidade. Vários hospitais prestam serviços médicos e são ressarcidos pelos serviços prestados. A assistência médica aos insurgentes é tão profícua que até mesmo um hospital atende especificamente os feridos do Estado Islâmico, hospital este localizado em Sanliurfa, mais conhecida como Urfa, cerca de 150 km a leste de Gaziantep e 1,300 km a sudeste de Istambul, onde trabalha, para espanto de alguns, a enfermeira Sümeyye Erdogan, primogênita do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Educada em Londres, a herdeira abraçou de tal intensidade os preceitos da jihad, que se propôs mudar-se para Mosul, conhecido centro de extração, benefício de petróleo e de comunicação do Estado Islâmico. Mosul é a cidade para a qual foi enviada, à revelia do governo iraquiano, uma brigada do Exército Turco, aparentemente para proteger os interesses do Estado Islâmico, pois outra resposta é difícil de encontrar para este movimento.

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Sümeyye Erdogan. Foto: internet.

Como se percebe, a Turquia funciona como cobertura para o Estado Islâmico e isto se dá não apenas ao nível governamental, de Estado, mas como sociedade, ávida por buscar lucro no sofrimento vizinho. Nada mais humano, ou mais comum. Ganhar dinheiro, dizem, é uma arte, e esta arte é melhor conduzida em situações de pouco controle e de fácil tráfego de influências. Ora, ora, que situação melhor do que a proporcionada por uma guerra. Existe situação melhor para lucrar? Bem… Bilal Erdogan conhece a resposta.