Capturado, combatente do Estado Islâmico revela os laços dos terroristas com a Turquia.

A matéria que segue, concisa, mas reveladora, traz a entrevista com um combatente do EI mantido como cativo pelas forças curdas, YPG.  Cidadão turco recrutado pelo EI ele cedeu ao Sputnik News Turquia uma entrevista elucidativa, posto que confirma aquilo que já se sabe sobre o EI. A matéria não é assinada.

Capturado, combatente do Estado Islâmico revela os laços dos terroristas com a Turquia.

Matéria: corpo editorial do Sputnik News/Turquia

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

Mahmut Ghazi Tatar, membro combatente capturado da organização terrorista Daesh, Estado Islâmico, cedeu declarações ao Sputnik Turquia, revelando detalhes sobre como é estar nas fileiras do Daesh, Estado Islâmico,  e dos da Turquia com o grupo terrorista.

Correspondente Sputnik Türkiye conseguiu gravar uma entrevista com um dos membro da Daesh (Estado Islâmico) que foi capturado por tropas curdas na Síria. O depoente é  Mahmut Ghazi Tatar, de 24 anos de idade, que se juntou Daesh da cidade turca de Adıyaman.

Mahmut Ghazi juntou Daesh depois de ter sido influenciado por um amigo seu que havia se juntado ao grupo. Ele, junto com outros 27 turcos, foi auxiliado no processo de travessia da fronteira síria, onde se juntou às fileiras dos militantes.

“Depois de atravessar fronteira fomos transferidos para um campo de treinamento a uns 5 km da fronteira. Recebemos treinamento militar e frequentamos aulas de religião. Antes do início do treinamento, a cada um de nós foi perguntado se aceitaríamos ser mártires. Eu recusei. Esta pergunta é feita de todos os novos recrutas. Aqueles que concordam, no prazo de 6 meses recebem formação religiosa especial. Desde que eu recusei, minha educação e treinamento durou 70 dias. Aprendemos pelos livros turcos. Durante o treinamento, algumas pessoas da Turquia vieram até nós para verificar-nos. Eles não tinham barbas, não eram membros da Daesh (Estado Islâmico) “, Mahmut Tatar, em entrevista para o Sputnik Turkiye.

Depois de receber a sua formação militar/religiosa, os 27 turcos membros do EI foram enviados para a cidade de Tel Abaid, onde passaram a viver em casas, tendo a formação continuada. Seus nomes foram mantidos em segredo e não lhes fora permitido entrar em contato com as suas famílias, por um período mínimo de seis meses.

Falando sobre como ele foi aprisionado por soldados curdos, Ghazi disse que, ao receber o aviso da presença de soldados curdos por parte de outros membros Daesh/EI, ele como 12 outros membros do grupo, empreenderam fuga de Tal Abaid. Estavam escondidos em uma vila próxima. Mas na manhã seguinte, quando Ghazi tentou fazer uma corrida, foi surpreendido e rendido.

“Os curdos tratam bem os prisioneiros, oferecem água, alimentação e cigarros. Aqui sou mantido, nesta sala, juntamente com várias outras pessoas. Eu não achava que eles me tratariam tão bem, tinha medo de tortura. Pensei que seria morto, mas descobri que as tropas curdas não matam os seus cativos. Ouvi dizer que os membros do Daesh/EI ao serem capturados por curdos são mortos de imediato, ou são mantidos vivos, para que façam  trocas de prisioneiros com os curdos”.

Falando sobre o que ele ouviu de seu comandante, o membro capturado revelou que durante sua permanência no campo de treinamento, em Maio de 2015, um dos comandantes do Daesh/Ei, Abu Talha, disse-lhes que o grupo vende petróleo para a Turquia. De acordo com Abu Talha, o dinheiro que foi levantado a partir da venda do petróleo no mercado Turco ajudou o Daesh/EI a resolver todas as suas dificuldades financeiras.

“Comboios petroleiros são enviados todos os dias para a Turquia com petróleo bruto, óleo combustível e gasolina. A principal fonte de renda para Daesh/EI é o comércio de petróleo e os estoques de petróleo vai durar-lhes um longo tempo “.

Abu Talha disse-lhe, também, que “o grupo ganha rios de dinheiro ao travar comércio com a Turquia”. Ele também disse que o óleo é vendido por meio de mediação, que faz uso de grande número de empresários e comerciantes, mas não deu nomes. Daesh/EI recebe “muitos produtos provenientes da Turquia e de outros países árabes “, Mahmut Ghazi revelado.

Ele mencionou que seus comandantes não atribuiu particular importância aos bombardeios norte-americanos. Eles acreditavam que ele foi feito como um pretexto. Um dos militantes perguntou por que o comandante Daesh/EI não estava lutando contra Israel. Abu Talha disse: “Primeiro temos de quebrar um pequeno muro e, em seguida, destruir o grande”.

De acordo com o membro capturado, novos recrutas se juntaram ao grupo, provindos da Arábia Saudita, Tunísia, Iêmen, Qatar, Líbano e Egito. Cruzaram a fronteira com a Turquia, algo que é muito simples de fazer. Os militantes provindos da Europa e América seguem a mesma rota.

“Os comandantes disseram-nos que eles estavam indo para cometer um ato terrorista que irá exceder em escala aquele dos ataques do 11 de setembro contra os EUA”, Mahmut Ghazi concluiu.

 

Síria destroça o sonho do Pentágono

O texto que segue é de autoria de Pepe Escobar, colunista brasileiro especialista em Oriente Médio e Ásia Central, que regularmente escreve em inglês para vários veículos, entre eles o Asia Times On-Line. Este texto, traduzido pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu foi em português publicado no site Txacala, a publicação original, em inglês, proveio do site Strategic Culture, com a data de 16.12.2015.

Síria destroça o sonho do Pentágono

Por: Pepe Escobar

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Não é de estranhar que os praticantes da Dominação de Pleno Espectro no governo dos EUA em Washington e noutras paragens estejam afogados em surto da mais obcecada negação.

Põem os olhos do tabuleiro sírio e, no que se relacione com projeção de poder, veem a Rússia instalando-se confortavelmente, com base a ser levada a sério em terra e ar, para conduzir em futuro próximo todos os tipos de operação em toda a região OMNA (Oriente Médio-Norte da África, ing. MENA, Middle East-Northern Africa). O Pentágono, obviamente, foi apanhado com as calças na mão.

E é só o começo. Adiante, nessa mesma trilha aumentará a interação militar entre Rússia, China e Irã, por todo o Sudoeste da Ásia. O Pentágono classifica Rússia, China e Irã – os nodos chaves da integração da Eurásia – como ameaças.

Rússia avança cada vez mais profundamente na Síria – e, no longo prazo, na área OMNA – avanços para os quais Moscou insiste em tratar com membros sortidos da OTAN como “parceiros” na guerra contra ISIS/ISIL/Daesh1 (EI – Estado Islâmico). Alguns apunhalam Moscou pelas costas, como a Turquia. Outros podem partilhar inteligência militar sensível, como a França. Alguns até manifestam desejo de colaborar, como a Grã-Bretanha. E alguns são como gêiseres de ambiguidade, como os EUA.

Nessa bruma de tantas ambiguidades, “parceiros” não poderiam ser o meio mais deliciosamente diplomático para mascarar o fato mais surpreendente que se vê nos céus: com sua atual sofisticada mistura de defesas terra-ar, mar-ar e ar-ar, de mísseis cruzadores lançados de submarinos aos S-400s, quem agora já se resolveu quanto a uma zona aérea de fato de exclusão sobre a Síria foi Moscou – não Washington e muito menos Ancara.

Escolha sua coalizão

Aqueles S-400s, por falar deles, logo serão movidos para o norte, dispostos em torno do terrivelmente complexo teatro de Aleppo, ao ritmo em que o Exército Árabe Sírio vai progressivamente ganhando terreno.

Na Primeira metade de 2016 devemos já estar contemplando uma situação na qual os S-400s estarão cobrindo e poderão tomar por alvo toda a fronteira sírio-turca. Será o momento quanto o presidente Recep Tayyip Erdogan terá ficado completamente sem bolinhas de gude para continuar no jogo. A cobertura que a Rússia dá aos avanços do Exército Árabe Sírio – e em breve também aos avanços das Unidades de Proteção Popular Curdas dos sírios curdos (YPG) – vai metodicamente preparando o terreno para o fim de todos os elaborados planos de Ancara para uma zona aérea de exclusão disfarçada de “zona segura”, comprada e paga pelos três bilhões de euros que a União Europeia pagou à Turquia para dar jeito na crise dos refugiados sírios.

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Combatente curdo – sírio do YPG. Foto: internet.

Assim sendo a lógica doravante, no campo de batalha é clara: os turcomenos – 5ª Coluna de Ancara, pesadamente infiltrada por islamo-fascistas turcos – estão sendo empurrados de volta para o território turco, em todo o espectro. E as YPG logo terá a chance de unir os três cantões de curdos sírios através da fronteira.

Quando acontecer, será, pode-se dizer, em resumo – a vitória de uma coalizão – a coalizão “4+1” (Rússia, Síria, Irã, Iraque plus Hezbollah) – sobre a outra (o combo CCGOTAN – Conselho de Cooperação do Golfo – plus OTAN, muito podada) nessa guerra surrealista de duas diferentes coalizões contra ISIS/ISIL/Daesh.

Qualquer praticante da Dominação de Pleno Espectro não cegado pela ideologia verá claramente que a “4+1” está vencendo. É caso exemplar de força aérea pequena, mas altamente motivada e comandada com perfeição, e posicionada no local certo, com a arma certa e alimentada por inteligência de boa qualidade em solo. A coalizão puxada pelos EUA, que tenho chamado de Coalizão dos Oportunistas Finórios (COF) não tem nenhum dos itens acima listados.

Equipe “Mediocridade” em ação

Washington está atolada num lodaçal que ela mesma produziu. E virtualmente tudo ali tem a ver com aquela turma espantosamente medíocre que constitui a equipe dita “sênior” de política exterior do governo Obama.

A equipe Obama sempre descuidou do caso de amor entre Erdogan e a Frente Al-Nusra, também chamada Al-Qaeda na Síria, com Ancara liberando total o seu Expresso Jihad, de lá para cá, pela fronteira sírio-turca. E a equipe Obama fez como se não soubesse do Expresso Petróleo Roubado da Síria, do ISIS/ISIL/Daesh, fluindo por uma frota gigante, facilmente detectável por satélite, de caminhões-tanques.

A equipe Obama deixou passar sem nada decodificar da frágil, escorregadia agenda da Turquia, aliada na OTAN; nisso, deixaram-se prender como reféns da Dominação de Pleno Espectro, porque para o Pentágono, Ancara é a proverbial “âncora de estabilidade” e peão chave da Dominação de Pleno Espectro na região.

Daí, pois, a incompetência/incapacidade da equipe de Obama, que não conseguiu detonar os comboios de caminhões-tanques: não fosse Ancara ofender-se e arrepiar as penas…

A equipe Obama sempre negligenciou o modo como Riad e Doha, diretamente, e depois mediante “doadores privados” – coordenados pelo notório Bandar Bush2 em pessoa – sempre financiaram ambos, a Frente Al-Nusra e o Daesh.

Em lugar de cuidar daquilo, a equipe Obama avançou festivamente na brincadeira de dar armas e mais armas para Al-Nusra e Ahrar ash-Sham, via os fornecedores da CIA que forneciam armas para o Exército Sírio Livre. Todas essas armas sempre acabaram capturadas pela Frente Al-Nusra e Ahrar ash-Sham.

A equipe Obama, sem jamais nem dar-se conta, muito menos tentar conter a própria miopia, providenciou para que Al-Nusra & Co., ficassem conhecidos como “rebeldes moderados”.

A equipe Obama sempre desqualificou o Irã, tratado como nação “hostil”, como “ameaça” aos vassalos do CCG3 e a Israel. Assim sendo, quem fosse aliado de Teerã ou apoiado por Teerã seria também ou “hostil” ou “ameaça”: o governo em Damasco, o Hezbollah, milícias xiitas treinadas pelos xiitas iraquianos, e até os Houthis no Iêmen.

E por cima de tudo isso, ainda veio a “agressão russa”, manifestada na Ucrânia; e, depois, com Moscou “interferindo” na Síria, mediante o que a Equipe Obama interpretou como jogo de poder nu e cru no Mediterrâneo Oriental.

Com toda a atual luta de sombras, o verdadeiro teste das intenções do governo Obama é se a coalizão dos EUA realmente dará combate real, sem reservas, a Daesh, Al-Nusra e Ahrar ash-Sham (que acolhe legiões de jihadistas da Chechênia, Daguestão e Uzbequistão).

Implica que a Equipe Obama terá de dizer a ambas, Ancara e Riad, em termos bem claros, que caiam fora. Nada mais de Expresso Jihad. Nada mais de armas para terroristas. Sem essas linhas vermelhas, o “processo de paz” para a Síria, que vive de malabarismos entre Viena e New York, não serve nem como piada.

Que ninguém espere demais. Porque ninguém em sã consciência pode esperar que a equipe inacreditavelmente medíocre de Obama pato-manco terá colhões para enfrentar o wahhabismo como a verdadeira matriz ideológica de todas as correntes do jihadismo salafista, “rebeldes moderados” incluídos.

O que nos leva de volta à terrível angústia que faz estremecer toda a Avenida Beltway em Washington. Com ou sem equipe Obama, permanece o único fato que nada e ninguém consegue alterar: sem conquistar – ou, pelo menos balcanizar – a Síria… Não há Dominação de Pleno Espectro.

Notas

1) ISIS/ISIL/Daesh: siglas em inglês para o Estado Islâmico – EI.

2) Bandar Bush: Bandar Bin Sultan – Principe Saudita reponsável pelo serviço de inteligência do reino.

3) CCG: Conselho de Cooperação do Golfo. Conselho que envolve as monarquias do Golfo Pérsico, produtoras de petróleo. A saber: Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Bahrein, Omã, Qatar e Kuwait.

Washington está em pânico por Putin estar a interromper as rotas de suprimento do EI

Este artigo foi publicado originalmente em alemão no site NEO Press. O autor desta matéria é Von Michael Lehner. O texto foi publicado em inglês no site Russia Insider de onde se obteve a tradução para o português, realizada por H. P. Patriota e publicado no grupo “Rússia e Seus Interesses no Contexto Mundial”.

Washington está em pânico por Putin estar a interromper as rotas de suprimento do EI

Durante anos, a aliança OTAN dirigida pelos EUA tem a certeza que os comboios cheios de comida, armas e outros bens, pertencentes aos grupos terroristas EI e Al-Qaeda trafegam através da fronteira sírio-turca.Pois, os ataques aéreos russos maciçamente impedem este serviço, quando não os levou a um impasse.

Quando os taques aéreos russos atingiram a um desses comboios na cidade síria de Azaz, ao noroeste da fronteira sírio – turca, o jornal diário turco Sabah informou da seguinte maneira:

“Pelo menos sete pessoas morreram, 10 ficaram feridas após um aparente ataque aéreo, supostamente realizados por jatos russos, foi alvejado um comboio de ajuda no noroeste da cidade síria de Azaz perto de uma passagem de fronteira com a Turquia na quarta-feira”.

Estranhamente, este incidente não foi destacado pela imprensa ocidental de alta circulação (mídia-empresa). Isto é bastante atípico, considerando que ambos os lados estão atualmente envolvidos em uma guerra de propaganda. Quase parece que os EUA/OTAN (a), não quer chamar a atenção para a localização desta linha de abastecimento restante, ou não (b) é um comboio de ajuda, mas sim uma rota de abastecimento para o EI.

O relato do diário Sabah continua:

“Em declarações ao diário Sabah, Serkan Nergis do Humanitarian Relief Foundation (IHH) disse que a área alvo está localizado a cerca de 5 quilômetros a sudoeste da Öncüpınar Border Crossing. Nergis disse que IHH tem uma unidade de defesa civil em Azaz e ajudaram os moradores para extinguir as chamas dos caminhões. Caminhões provavelmente estavam transportando suprimentos de ajuda, ou materiais comerciais, Nergis acrescentou”.

Independentemente do tipo de mercadorias que foram transportadas, isto confirma que os terroristas na área perto do Oncupinar Border Crossing estão no comando. Este é o lugar onde a linha de abastecimento da Turquia para EI pode ser encontrada. Já em novembro de 2014, a Oncupinar Border Crossing foi mencionada em um artigo publicado pelo Deutsche Welle (DW), que descreveu uma cena com centenas de caminhões à espera na fronteira para entrar em território sírio. Provavelmente com a aprovação de Ancara. O artigo DW a partir de 2014 tem a seguinte redação:

“Todos os dias, caminhões carregados com alimentos, roupas e outros suprimentos atravessam a fronteira da Turquia para a Síria. Não está claro quem está pegando as mercadorias. Os caminhoneiros acreditam que a maior parte da carga vai para a milícia ‘Estado islâmico’. Petróleo, armas e soldados também estão sendo contrabandeados através da fronteira, e os voluntários curdos estão patrulhando a área, em uma tentativa de conter os suprimentos”.

Já no ano passado uma pergunta legítima teria que ser feita: se o plano era destruir, por que os EUA não simplesmente bombardearam a rota, uma vez que são operações que levam abastecimento para dentro da Síria? (porque de fato, nunca foi o plano destruir EI). Especialmente se esses ataques eram considerados menos perigosos e (b), a logística para os atentados foram à direita na área (base aérea turca).

Fazer as perguntas mais óbvias seria suficiente para colocar uma coroa sobre a política de mentiras do Ocidente:

Porque estes comboios não foram parados enquanto eles ainda estavam em território turco?
Por que os condutores não foram detidos e presos na Turquia, e “as fontes para os suprimentos” rastreadas até as suas origens?

Porque eles simplesmente  assim não o queriam?

Ao responder a essas perguntas, ela tem que ser óbvia para todos – mesmo para aqueles que não dão muita atenção – que há de real intenção por trás disso, e que EUA / OTAN propositadamente forneciam suprimentos periodicamente.

É aqui onde a Rússia entra. Todo país que quer lutar ISIS irá fazê-lo atuando contra as  linhas de abastecimento. Esta tem sido uma estratégia militar empregada por séculos. Os bombardeios da Rússia dos caminhões de abastecimento, perto da fronteira (de modo que o menor número de produtos possíveis possam ser descarregados e redistribuídos por outros meios) são lógicos, pois,  caso os suprimentos forem barrados em postos de fronteira controlados, irão acabar todos nas mãos dos terroristas.

Este desenvolvimento não agrada nenhum pouco aos estrategistas de Washington e é provavelmente a razão para a derrubada do caça russo. Enquanto as forças sírias e curdas controlarem a fronteira leste do Eufrates, o corredor Afrin-Jarabulus é o último caminho restante para o abastecimento do EI. O exército sírio também iniciou uma campanha (a partir de Aleppo) e avançou para o leste. Eventualmente eles vão começar a balançar em direção à fronteira sírio-turca no Jarabulus. Mais ou menos ao mesmo tempo, o exército sírio começou sua campanha, a Rússia começou a bombardear na área ao redor Afrin, promontório de Dana, e Azaz, para cortar a rota de abastecimento.

As interações dos ataques aéreos russos, junto a ofensiva do exército sírio no terreno têm o potencial para se livrar do EI. Este é um pesadelo sem paralelo para os planejadores em Washington. Ao Fechar este corredor de oferta, dar-se-ia a completa derrota dos terroristas do EI, Al -Nusra & companhia, por significar a restauração da soberania síria e das estruturas governamentais nesta área. Isto poderia explicar a “atividade” súbita do Ocidente em enviar forças especiais para a Síria, como já mencionado, a razão para a filmagem da derrubada do avião de combate.

Em resumo, torna-se evidente que a “guerra civil” síria nunca foi na realidade uma delas. Ao invés disso, os terroristas foram apoiados pelo Ocidente, desde o início, com o objetivo claro de derrubar o governo de Assad (como eu escrevi em artigos anteriores). Quando confrontados com uma derrota do terrorismo, os patrocinadores deverão jogar todo o seu peso político por trás dos terroristas, não importa o que venha a custar.

Em última análise, esta é a prova de que as ambições hegemônicas dos EUA/Ocidente nesta região foram à razão básica por trás da criação do EI. Nunca houve uma luta contra EI. Era antes o alvo (objetivo), de planejamento, da criação intencional do extremismo islâmico, sob a forma daquilo que agora chamamos de “O Estado Islâmico”.

Negócios de família

Por: César A. Ferreira

A guerra e tudo que a envolve possui um caráter triste, desonroso, cruel e canalha. Não é raro, mas antes comum, a existência de oportunistas que procuram ganhos pessoais com eventos que custam a morte e sofrimento para os seus semelhantes. A guerra civil Síria, ora em curso não exceção e neste exato momento fortunas são construídas na Turquia a expensas dos sofrimentos sírios, na forma de um intenso contrabando de petróleo, mas que também envolve algodão, armas, fosfato e mesmo escravas. Este último item, que mais parece algo perdido no tempo, comércio decadente marcado pela história, foi revivido dado, ao costume do Estado Islâmico em presentear os combatentes que se destacam, com esposas. Não existe pudor quando o objetivo é o lucro.

Dentre as famílias que se destacam com este comércio, uma delas ganha importância inaudita, devido o peso político, trata-se do sobrenome Erdogan, e o membro destacado é Bilal Erdogan, terceiro filho do Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Tendo recebido uma educação esmerada, da qual se inclui a obtenção de grau de mestrado na prestigiosa Harvard University John F. Kennedy School of Government, no ano de 2004, Bilal Erdogan tornou-se um empresário de meteórico sucesso, onde a sua participação societária na empresa de fretamento marítimo, “BMZ Grupo Denizcilik ve Sanayi Insaat Anonim Şirketi”, se destaca. As acusações de obtenção de empréstimos fraudulentos em bancos públicos se avolumam, mas caem rapidamente no esquecimento, visto que a Turqia é  uma nação anestesiada com o seu sucesso recente e nem mesmo a participação de familiares negócios parece perturbar a paz social.

Uma das acusações que versa sobre Bilal Erdogan é a de viabilizar o comércio do petróleo contrabandeado pelo Estado Islâmico através da fronteira turca, embarcando-o nos tankers adquiridos pela BMZ, encomendados junto ao İstanbul’s Türkter Shipyard, navios com cerca de 140 metros de extensão e calado de 5 metros, com pouco mais de 6.000 toneladas brutas, atendendo ao limites “Volga-Don, Max”, ou seja, preparados para tráfego no canal Volga/báltico.  O porto de embarque para estes navios é o de Çeihan, ou Ceyhan, porto estatal, o que inclui o terminal para embarque de óleo.  Quando confrontado com as atividades do filho, a resposta emitida pelo presidente turco é a que as atividades empreendidas pelo filho são legais, não havendo comprovação alguma de fonte ilícita das mesmas. De fato, existe um componente que mascara o atribuído comércio de 40.000 barris brutos diários do Estado Islâmico, que o envio de petróleo curdo advindo do Iraque. Acontece que o governo iraquiano considera a venda do petróleo extraído das terras curdas do Iraque como um extravio, um contrabando, de uma riqueza nacional. Todavia, a região autônoma do curdistão iraquiano age como se nação independente fora, ainda mais quando se defende praticamente só contra o Estado Islâmico, por isso, bem como por outras razões, Erbil, em termos práticos, não reconhece a autoridade de Bagdá, sendo esta existente apenas nominalmente. Assim, para todos os efeitos, o petróleo comercializado é curdo, facção que conta com a benção da União Européia e dos EUA. Forma melhor para mascarar o petróleo roubado da Síria não há.

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O “Armada Pride” um dos navios “Volga-Don Max Class” da frota do grupo BMZ. Imagem: internet.

O interessante, neste embate atual, sobre quem compra o óleo roubado da Síria é que os navios do grupo BMZ podem ser rastreados, localizados nos portos de destino, algo que nestes tempos de tecnologia da informação se dá em tempo real, por isso temos, como exemplo o Tanker “Armada Breeze”, do grupo BMZ, na data de 01 de dezembro de 2015, próximo ao seu destino, o porto de Bilbao, Espanha, trafegando pela Baía de Biscaia. O mesmo pode-se obter de outros tankers da frota BMZ: “Poet Qabil”, próximo a Rotterdeam, Holanda, no dia 29 de novembro; “Begim Aslanova”, junto a Savona, Itália, no dia 03 de dezembro, “Mecid Aslanov”, próximo a Ravenna, Itália, no dia 04 de dezembro e “Sovket Alekperova”, trafegando no Mar do Norte em direção a Thames, Grã-Bretanha. Percebe-se, portanto, o quanto as rotas realizadas pela frota BMZ são elucidativas, afinal, os portos de destino destes tankers são pertencentes à nações sócias da OTAN, isto, sem falar nas paradas para Odessa (Ucrânia), que são frequentes.

Outros negócios

Nem só do petróleo vivem os saqueadores turcos das riquezas sírias, aproveitam-se para roubar o que for possível. Um exemplo disso é a retirada de todos os equipamentos industriais da cidade de Aleppo, por membros do Estado Islâmico, comercializados na Turquia. Outro comércio ilegal, ainda mais danoso, versa sobre as antiguidades históricas da Síria, cujos objetos são comercializados sem o mínimo pudor em Ancara e Istambul. Além do saque há outra forma de ganhar dinheiro com o sofrimento do povo sírio: a chantagem dos refugiados. Concentrados em imensos campos de tendas, os refugiados são uma arma de barganha política de Ancara por recursos internacionais, notadamente da Europa Unida, destino preferido dos infelizes. Dá-se que tudo que se faz necessário para tais pessoas é adquirido de fornecedores turcos, de água potável aos remédios. Outra mina de outro, altamente condenável é a prestação de serviços médicos aos insurgentes, que para isso cruzam a fronteira da Síria com a Turquia com notável facilidade. Vários hospitais prestam serviços médicos e são ressarcidos pelos serviços prestados. A assistência médica aos insurgentes é tão profícua que até mesmo um hospital atende especificamente os feridos do Estado Islâmico, hospital este localizado em Sanliurfa, mais conhecida como Urfa, cerca de 150 km a leste de Gaziantep e 1,300 km a sudeste de Istambul, onde trabalha, para espanto de alguns, a enfermeira Sümeyye Erdogan, primogênita do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. Educada em Londres, a herdeira abraçou de tal intensidade os preceitos da jihad, que se propôs mudar-se para Mosul, conhecido centro de extração, benefício de petróleo e de comunicação do Estado Islâmico. Mosul é a cidade para a qual foi enviada, à revelia do governo iraquiano, uma brigada do Exército Turco, aparentemente para proteger os interesses do Estado Islâmico, pois outra resposta é difícil de encontrar para este movimento.

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Sümeyye Erdogan. Foto: internet.

Como se percebe, a Turquia funciona como cobertura para o Estado Islâmico e isto se dá não apenas ao nível governamental, de Estado, mas como sociedade, ávida por buscar lucro no sofrimento vizinho. Nada mais humano, ou mais comum. Ganhar dinheiro, dizem, é uma arte, e esta arte é melhor conduzida em situações de pouco controle e de fácil tráfego de influências. Ora, ora, que situação melhor do que a proporcionada por uma guerra. Existe situação melhor para lucrar? Bem… Bilal Erdogan conhece a resposta.