A loucura do Império aproxima a Rússia da Alemanha

Por: Pepe Escobar

Tradução: coletivo de tradutores da Vila Vudu.

Com Orwelliana maioria de 99%, que encheria de orgulho a dinastia Kim na Coreia do Norte, o Capitólio da “democracia representativa” passou como trator e aprovou o mais recente pacote de sanções da Câmara/Senado, que visa principalmente a Rússia, mas também atira contra Irã e Coreia do Norte.

O anúncio pela Casa Branca – no final da tarde da 6ª-feira – em pleno verão – de que o presidente Trump aprovou e assinará a lei acabou literalmente soterrado no ciclo do noticiário tomado completamente, 24h/dia, sete dias por semana, pela histeria relacionada ao chamado “russiagate”

Trump terá de justificar por escrito, ao Congresso, qualquer iniciativa para suavizar as sanções contra a Rússia. E o Congresso pode iniciar revisão automática de qualquer iniciativa dessa natureza.

Tradução: já soou o dobre de Finados de qualquer possibilidade de a Casa Branca vir a reiniciar melhores relações com a Rússia. O Congresso de fato está só ratificando a campanha em curso de demonização da Rússia, orquestrada pelo establishment do estado profundo neoconservador e neoliberal/Partido da Guerra.

Já há guerra econômica declarada contra a Rússia há, pelo menos, três anos. A diferença é que esse mais recente pacote também declara guerra econômica contra a Europa, especialmente a Alemanha. As sanções estão centradas no front da energia, demonizando a implantação do gasoduto Nord Stream 2 e forçando a União Europeia a comprar gás natural dos EUA.

Que ninguém se engane. A liderança da União Europeia revidará. Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia disse-o até bem gentilmente: “‘EUA em primeiro lugar’ não pode significar que os interesses da Europa ficam em último”.

No front da Rússia, o que o Império das Sanções está conseguindo não pode ser visto nem como vitória rasa. Kommersant já noticiou que Moscou, dentre outras ações, retaliará com banir do mercado russo todas as empresas norte-americanas de Tecnologia da Informação e todos os produtos da agricultura dos EUA; também deixará de exportar titânio para a empresa Boeing (30% do titânio com o qual a Boeing trabalha é importado da Rússia).

No front da parceria estratégica Rússia-China, tentar limitar os negócios de energia Rússia-União Europeia só levará a maisswaps [trocas de moeda] entre o rublo e o yuan – plataforma chave para o mundo multipolar pós-dólar.

E há também o grande fator que possivelmente alterará todo o jogo: o front alemão.

O(s) louco(s) na colina [The Fools on the Hill*]

Mesmo sem considerar o recorde histórico sideral de número de vezes em que Washington não apenas interferiu, mas bombardeou vastas porções do planeta, para mudar regimes – do Iraque e Líbia até as atuais ameaças contra Irã, Venezuela e Coreia do Norte –, a histeria do russiagate em torno de a Rússia ter/não ter interferido na eleição presidencial de 2016 nos EUA é antinotícia, e hoje já completamente desmoralizada.

O xis da questão é, mais uma vez, as guerras de energia.

Segundo uma fonte norte-americana no setor de energia, com base no Oriente Médio e que não é refém do consenso da Av. Beltway, “a mensagem nessas sanções é que a União Europeia não teria futuro a menos que compre o gás natural dos EUA, para expulsar a Rússia. Negar à Rússia o mercado de gás natural da União Europeia sempre foi o objetivo por trás da guerra que os EUA acabam de perder na Síria, para implantar o gasoduto Qatar-Arábia Saudita-Síria-Turquia-União Europeia e abrir o Irã para um gasoduto Irã-Iraque-Síria-Turquia-União Europeia. Nenhum desses planos dos EUA funcionaram”.

A fonte acrescenta como prova, a guerra de preços do petróleo de 2014 contra a Rússia, orquestrada pelo “poder que o superávit de petróleo ou as próprias reservas garantem aos Estados do Golfo, para fazer dumping no mercado mundial. Depois que nada disso conseguiu dobrar a Rússia, tornou-se prioridade nacional para os EUA destruir o mercado russo de gás natural”.

No pé em que estão as coisas, 30% de todas as importações de petróleo e de gás natural da União Europeia vêm da Rússia. Paralelamente, a parceria Rússia-China de energia vai sendo progressivamente fortalecida. A Rússia já está posicionada para aumentar todas as exportações de petróleo e gás para China e para toda a Ásia.

A liderança em Berlim está agora convencida de que Washington está pondo em perigo a diversificação e a segurança energéticas da Alemanha, com essa guerra de sanções. O gás natural e o petróleo russos são protegidos em rotas terrestres e não dependem de transporte por oceano, o qual, como insiste minha fonte, “já não está sob controle dos EUA. Se a Rússia, em resposta à beligerância dos EUA, deixar cair uma Cortina de Ferro sobre a Europa, e redirecionar todas as suas exportações de gás natural e petróleo para China e Ásia, a Europa ficará condenada a depender de fontes instáveis e não seguras de gás natural e de petróleo, como o Oriente Médio e a África”.

E isso nos leva à possibilidade “nuclear” que há no horizonte: um alinhamento Alemanha-Rússia, num Tratado de Resseguro [ing. Reinsurance Treaty] como firmado pela primeira vez por Bismarck. A Think-tankelândia ligada à CIA discute hoje ativamente essa possibilidade.

Outra fonte ativa no business e na política dos EUA, também ativo praticante da arte de pensar fora da caixa do Departamento de Estado, destaca que “é disso que se trata. Esse sempre foi o verdadeiro objetivo da Rússia, e os EUA caíram na armadilha. Os EUA estão fartos de Alemanha e consideram fazer dumping contra produtos alemães nos EUA, com manipulação da moeda. Agora estão ameaçando a Alemanha com sanções, e não há o que a Alemanha possa fazer, com a União Europeia às suas costas enfrentando vetos da Polônia, que outra vez causam problemas aos alemães. Os doidos no Congresso estão mesmo à caça da Alemanha. E com isso estão jogando a Alemanha nos braços da Rússia”.

EUA, a nova Cartago

Uma possível aliança Alemanha-Rússia, como já escrevi, consuma a entente China/Rússia/Alemanha capaz de reorganizar toda a Eurásia continental.

A parceria estratégica Rússia-China, que facilita o acesso via Iniciativa Cinturão e Estrada (ICE) é extremamente atraente para obusiness alemão. Segundo minha fonte business/política, “Os EUA estão em guerra com China e Rússia (mas não Trump, nosso presidente), e a Alemanha está reconsiderando a situação em que ficará, de bucha de canhão nuclear para os EUA. Discuti isso na Alemanha, e eles estão pensando em renovar o Tratado de Resseguro com a Rússia. Ninguém confia nesse Congresso dos EUA. É visto como um hospício, casa de doidos. Merkel pode ser convidada para a liderança na ONU, e nesse caso o tratado será assinado. Sacudirá o mundo e porá fim a qualquer ideia que reste sobre os EUA como potência global, que já não são”.

A fonte acrescenta, em tom de quase euforia, que “achamos que Brzezinski morreu por efeito da pressão de compreender o que se aproximava e de ver que todo o trabalho dele, uma vida dedicada a tentar destruir a Rússia por causa do ódio que tinha à Rússia, estava começando a ser desfeito”.

Assim, em certo sentido, “bem-vindos aos anos 1930s outra vez, e ao crescimento do nacionalismo na Europa. Dessa vez, a Alemanha não cometerá os erros de 1914 e 1941, mas se posicionará contra seus tradicionais inimigos anglo-saxões. Os EUA realmente se converteram na Cartago de hoje. A desordem no Congresso norte-americano reflete estupidez idêntica à que se viu em Cartago, quando os exércitos cartagineses provocavam Roma. Os políticos cartagineses minaram o seu próprio gênio, Aníbal, assim como os políticos dos EUA estão minando o maior presidente que os EUA já tiveram desde Andrew Jackson. Como Sófocles escreveu em Antígona, ‘Os deuses primeiro enlouquecem àqueles a quem querem destruir'” O Congresso dos EUA enlouqueceu.

Nota dos tradutores: (*) Há um trocadilho intraduzível com “hill” [colina, como na canção dos Beatles] e “Hill”[que designa a específica colina do Capitólio, com Senado e Câmara de Representantes dos EUA]. E na canção dos Beatles trata-se de um específico doido, no singular; no subtítulo de Pepe Escobar, são vários doidos, plurais (NTs).

A Rússia e o seu entorno

Por: César A. Ferreira

É difícil explicar para os leitores desacostumados com matérias afeitas aos assuntos sobre geopolítica e de defesa, sobre os interesses da Rússia , suas ações e o modo de agir do seu dignitário, dado o fato que estes mesmos leitores são bombardeados, cotidianamente, por matérias ditas “jornalísticas”, publicadas rotineiramente na chamada mídia-empresa, ou grande impressa como é mais comumente denominada no Brasil, que retratam a Rússia como nação agressiva, como se fosse uma espécie de nova “Alemanha Nazista”, liderada por um novo ser diabólico: Vladimir Putin.

Uma forma fácil de entender é esquecer o potencial russo no campo da dissuasão nuclear, incomparável, cujo espelho, único no globo, repousa no arsenal equivalente dos EUA. Focando-se na capacidade econômica e nas armas convencionais, percebe-se, que a Rússia apresenta-se como uma potencia regional, sendo a sua capacidade de intervenção e resposta é mais forte quanto mais próximo estiver o alvo das ações das suas fronteiras. Entende-se, pois, o motivo das pressões intensas dos EUA sobre a França, no tocante aos navios multipropósito da classe Mistral, cuja construção havia sido contratada pelo Ministério da Defesa da República da Rússia junto ao estaleiro STX, DCNS, em contrato então aquiescido e endossado pelo governo francês. Tais navios ampliariam consideravelmente a capacidade de projeção da Marinha da Rússia, e certamente estariam sendo por agora utilizados no chamado “Expresso de Damasco”.

O espaço pós-soviético é o campo óbvio das atenções russas, e ao contrário do que se possa pensar, não é na Europa, mas na Ásia Central, onde a Rússia devota as suas energias. Percebe-se, pois, que os russos perceberam já a algum tempo que o futuro tem morada no Oriente. Este espaço teve a influência ocidental revertida, com muita paciência e trabalho intenso no campo diplomático, de inteligência, bem como no econômico. A exceção notável permanece sendo o Azerbaijão, seduzido que é até a presente data, pelo prometido mercado europeu ao seu gás, que seria viabilizado pelo gasoduto Nabuco… No tocante ao Cáucaso, segue a dor de cabeça no Daguestão, vizinho da Chechênia, agora estabilizada. O Cáucaso e a Ásia Central explicam em grande parte o esforço russo na Síria, dado que lá se dá combate aos mesmos terroristas da jihad que praticam o terror nas republicas da Federação Russa, portanto, a luta na Síria evita que os terroristas “subam a estrada”…

No tocante ao espaço do Oriente Próximo, o apoio ao Governo Sírio, reforça a influência russa na mesma medida que faz declinar a influência turca e saudita. Não se faz necessária, sequer, a vitória completa sobre os terroristas, bastando apenas que a sobrevivência do Governo Sírio seja assegurada, como de fato é o que se observa. No Mar Negro, a espetacular incorporação da península da Criméia fala por si. Espetacular não apenas pelo deslocamento rápido dos efetivos, que subiram em questão de dias para o limite de 32.000, mas, pelas consequências: a Rússia toma posse das reservas de gás do Mar Negro, adjacentes à orla da Criméia, reservas estas que estão ainda por serem exploradas. A ocupação da península presenteou a Rússia com a posse definitiva da Base Naval de Sebastopol, e por extensão, do domínio efetivo do Mar Negro, algo que reflete sobre as demais nações que são banhadas pelo referido mar. Com a posse da península a Rússia garante a segurança das suas linhas de gasodutos que provém do Cáucaso em direção à fronteira ucraniana.

A Ucrânia é um caso aparte. Ela se revela como um desafio proposto pela OTAN desde o golpe da Praça Maidan. Como nação, por si, a Ucrânia não se revela como ameaça, dado que se desmantela, perde capacidade industrial e econômica a olhos vistos desde o rompimento, forçado, dos laços com o complexo industrial russo, seu maior cliente. É por entender o conflito na região do Donbass como uma isca, que a Rússia congelou o mesmo com o Minsk-2, retirando assim o fantasma de ter-se de desdobrar em duas frentes, uma na Síria e outra na sua fronteira ocidental. Não é que seja o conflito ucraniano visto como se fosse de menor importância, mas a sua evolução não se mostra atrativa ao governo da Federação Russa, por representar ganhos relativamente pequenos. Desta maneira, congelado, a Rússia pode armar e treinar os elementos nativos do Donbass com vagar, com um custo menor, podendo sempre que necessário plantar efetivos do outro lado da fronteira para dissuadir o governo ucraniano de tentar algo mais efetivo do que as trocas de fogos de bateria.

Os olhos da Rússia repousam no Oriente, como bem demonstra o acordo amplo feito com a China, no campo energético e de Defesa. Espera-se que os volumes contratados por Pequim venham a gerar algo em torno de 400 bilhões de dólares em 10 anos, o que é uma quantia salutar. A China também é contratante de volumes de gás das ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central e acaba por dividir influência com Moscou nestas repúblicas, mas no tocante ao aspecto de segurança é a Federação Russa a garantidora da paz nestes espaços geográficos, seja pela manutenção de bases com efetivos militares, ou por acordos de cúpula.

Por isto é falsa a ideia plantada de que seja a Federação Russa uma potencia expansiva, dado que se observa apenas uma reocupação de um espaço geoestratégico. Expansão se verifica por parte da OTAN, que avança sobre a fronteira russa e não o contrário. A Rússia exercita o seu papel de potência regional sem se iludir com o domínio global, bastando para si neste momento em alcançar o objetivo clássico acalentado por todo e qualquer coração russo: a segurança das suas fronteiras.

A Rússia sente-se confortável

Por: César A. Ferreira

Neste exato momento caças-bombardeiros Su-34, recentemente desdobrados para o território sírio, reiniciam a campanha de bombardeio em Aleppo contra as posições da Frente Al-Nusra, vaporizando desta forma as unidades deste grupo terrorista, que se viu reforçado pela trégua proposta por Washington.

A Rússia retorna com força plena à Síria a despeito do que se diga no Pentágono, ou no Departamento de Estado. Independe das vontades alheias, e isto devido a um fato muito simples: fracassaram as tentativas de isolamento diplomático e econômico da gigantesca nação. Sobraram, apenas, a constantes e conhecidas provocações da OTAN, que quando respondidas, sejam por sobrevoos, ou escoltas, revelam o ridículo das argumentas desabridas dos prepostos da Aliança Atlântica… Mas, isto, convenhamos, pouco importa (para eles).

A Rússia possui seis fusos horários, é a nação com as mais extensas fronteiras políticas do globo, possui um território riquíssimo em termos de minérios ainda por ser explorado, reservas petrolíferas e de gás que estão por ser avaliadas, enfim… Não necessita e não ambiciona o controle de reservas de terceiros, diferentemente dos EUA e dos seus associados da OTAN, que dormem, sonham, com outra coisa que não seja o domínio completo das nações produtoras, bem como das rotas da commoditie energética de uso global.

O xadrez africano, onde se destaca como jogador de peso a chancelaria chinesa, e do qual o nosso novo, augusto e magnânimo chanceler fez questão de nos retirar, não possui a Rússia como potência interessada, visto que dos recursos futuros do continente africano pouco ou nada necessita, deixando assim este continente, com vastíssimas áreas ainda por serem exploradas, entregues a sanha dos EUA e das antigas potências coloniais, que rivalizam com o dragão chinês a primazia pela conquista dos corações e mentes africanas.

Por isso, tendo uma nação focada, uníssona na perspectiva de que é um povo capaz de escolher, manter o equilíbrio e desafiar quem lhe tente pressionar, a Rússia sente-se confortável para intervir no seu entorno próximo, congelar, ou acelerar conflitos na qual por ventura esteja envolvida, pois a sua proteção, ou seja, a proteção das suas fronteiras, estão bem resolvidas pelas armas entregues pelo complexo industrial militar, que herdado da URSS foi modernizado em todos os quadrantes possíveis, bem como pela elevação do padrão de prontidão das forças nacionais, objetivo perseguido e alcançado enquanto a OTAN se desgastava no Afeganistão…  Em outras palavras, a Rússia fez o que se deve: aproveitou-se de todas as oportunidades para crescer e fortalecer as suas forças armadas, tidas como esteio da soberania nacional, além de braço de crescimento tecnológico e industrial…

A Rússia, agora, sente-se confortável, apesar da inquietude vez por outra imposta pelas provocações infantis da OTAN… Uma lição que não será aproveitada por um sonolento gigante do sul, agora também grande produtor de petróleo, pois se encontra enredado pela miragem da grama mais verde do vizinho do norte.

Pena. A Rússia é uma lição breve de como construir uma verdadeira soberania.

Ucrânia depois da Euromaidan

Por: César A. Ferreira

Não é uma opinião, tampouco uma perspectiva marcada por posição ideológica que seja, mas uma mera constatação: todas as nações detentoras de grandes reservas energéticas e de minerais estratégicos, ou que exibam posição geográfica essencial para o tráfego destas riquezas extraídas, sofreram em graus variados intervenções estrangeiras, que foram da desestabilização política à guerra civil, isto quando os eventos não envolveram pura e simplesmente a invasão direta por forças armadas das potências agressoras, estas, invariavelmente, oriundas da Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN.

Em 21 de novembro de 2013, embalados pela sensação sufocante de que todos os problemas existentes na Ucrânia proviam da corrupção que grassava no país, iniciou-se o processo que se conhece como revolução da Praça Maidan, ou Euromaidan. O estopim fora a recusa do então presidente, Yanukovich, de pactuar com a União Europeia, preferindo a oferta superior, muito mais substancial, de realizar uma união aduaneira com a Rússia, cuja proposta, além das vantagens de aduana, perfazia a compra de títulos da dívida ucraniana no valor de quinze bilhões de dólares americanos, além do fornecimento em taxas preferências de gás russo ao mercado ucraniano. Dado o fato de que a proposta da União Europeia era muito mais tímida, pois se tratava de um empréstimo de apenas setecentos milhões de euros, aliado a um status de parceiro comercial preferencial, mas sem adesão formal à união aduaneira, é de se espantar a existência da rejeição popular à proposta russa, absurdamente superior a sua contraparte europeia, venha a ser apontada como o estopim para a revolta generalizada.

Fato é que a Ucrânia exibia uma posição geoestratégica clara, pois é através do seu território que se encontram a maioria absoluta dos gasodutos, pelos quais trafega o gás provindo da Rússia destinado à Europa. Ademais a Crimeia, então parte integrante da república ucraniana era o território sede da importantíssima base naval de Sebastopol, sede da Frota do Mar Negro da Federação Russa. Não surpreende, portanto, a descoberta do financiamento clandestino efetuado pela legação diplomática dos Estados Unidos da América aos grupos opositores que cavalgaram politicamente a insatisfação pública dos manifestantes ucranianos, caso dos partidos de extrema direita e neonazistas, ambos desprovidos de densidade política, visto que invariavelmente permaneciam no patamar de 6% do eleitorado, inferiores ao Partido Comunista, que alcançava o dobro, cerca de 12%…

Todavia a mídia ucraniana, toda ela em posse de oligarcas locais, postou-se como crítica, uníssona, ao governo, favorável a pantomima dos estudantes, estes inflados pela ONG Students Of Liberty –  ONG cuja ligação com a CIA é para lá de notória, aponto de ser, antes, folclórica. De fato, no campo ucraniano ver-se-ia o aporte por parte dos EUA, por meio da CIA e do Departamento de Estado, do valor reportado de cinco bilhões de dólares para os eventos que culminaram com a Euromaidan.

O resultado é bem conhecido, após a ocorrência de disparos feitos por atiradores escalados pelas agências de inteligência do ocidente, que vitimaram tanto os policiais da Força Berkut (baixas encobertas pela mídia, não noticiadas), como os manifestantes (mortos e feridos amplamente cobertos pela mídia), mas cuja autoria de chofre foi jogada às costas do governo ucraniano; Yanukovich empreendeu uma fuga quixotesca em direção à Federação Russa objetivando a busca de refúgio, sendo sucedido por uma junta, cuja legalidade sempre foi questionada, até mesmo quando da eleição do atual dignitário, Poroshenko. A Ucrânia perdeu a rica península da Criméia, que optou por se juntar à Federação Russa e viu-se enredada em um conflito custoso no Donbass, que lhe impôs reveses militares múltiplos, de caráter verdadeiramente desmoralizante, caso dos cercos de Illovaysk e Gorlovka, ou da batalha pela posse do aeroporto de Donetsk. Mas, isto não representa tudo, ou todos os males.

Homens de verde
A Federação Russa agiu rápido e impôs a ordem na estratégica e rica península da Crimeia, com o uso do efetivo militar da Base de Sebastopol. Imagem: internet.

A Ucrânia, ao empreender o afastamento da Rússia, com a qual mantinha laços de cunho acadêmico, industrial e comercial de monta, em virtude de uma retórica vitimizante, de cunho nacionalista e hostil ao vizinho, de evidente carga ideológica, acabou por colher perdas econômicas desastrosas, como o encolhimento de 80% da produção da sua base industrial de Defesa, cujo símbolo é a empresa aeronáutica Antonov, imersa em dificuldades, incapaz de encontrar clientes para o belo mais dispendioso projeto An-70, cujo cliente de lançamento seria justamente a Força Aeroespacial da Federação Russa. A área de Petróleo e Gás também apresentou retração, agravado pelo aumento do dispêndio relacionado à compra desta commodity energética, agora adquirida da EU com preços majorados em 30%, quando comparados àqueles praticados pela Federação Russa, estes custos, por sua vez se agravam quando se percebe que a moeda ucraniana desvalorizou-se demasiado, cerca de 350% em comparação ao dólar norte-americano. Ademais, o rompimento com os laços financeiros havidos com a Federação Russa privou a Ucrânia de recursos da ordem de nove bilhões de dólares, anuais, na forma de remessas dos ucranianos viventes na Rússia, então o maior investimento direto obtido pela república.

A ladeira abaixo experimentada pela Ucrânia não se restringe ao setor industrial, afeta de maneira equivalente o setor agropastoril, cuja atividade também sofreu retração. Das empresas deste setor, acredita-se que quatro a cada cinco estejam falidas, ou em estágio falimentar. Apenas 72 empresas agropastoris estão credenciadas a exportar para a Europa Unida, sendo que destas 36 já excederam a sua cota anual. O FMI estima que o país, para honrar os termos acertados com o Fundo, ver-se-á obrigado a comprometer 50% da sua arrecadação até o longínquo ano de 2041, contanto que consiga exibir uma taxa de crescimento anual de… 4% ao ano!  Mágica, diga-se, um tanto inacreditável, principalmente quando se considera o fato de que a população ucraniana sofreu um rebaixamento, nesta aventura de orgia ideológica, de 50% no seu padrão de vida, queda imposta pela retração do produto interno bruto, que caiu 6,8% em 2014 e 7,5% em 2015.

Entende-se o motivo de Poroshenko ter hoje uma popularidade muito abaixo daquela que Yanukovich detinha, exibindo notáveis 77 % de rejeição, todavia, observa-se, não há contra Poroshenko nenhuma Maidan… “Revolução” que quando estava no seu auge, exibiu o apoio declarado de apenas 45% da população, notadamente daqueles do oeste, enquanto o Donbass, Criméia e a região de Odessa, opunham-se ao movimento desestabilizador.

Portanto, que se tenha em mente: qualquer semelhança, com eventos análogos que estejam a ocorrer, ou que venham a ocorrer, em qualquer parte do mundo onde hajam reservas a serem exploradas de Petróleo e Gás, não será, jamais, uma mera coincidência…

Sobrinho de JFK sobre a Síria: O ISIS é um produto da intervenção dos EUA por petróleo

Por: Claire Bernish

Fonte: The Free Thought Project

Tradução: J. Junker

Robert F. Kennedy Jr. escreveu um astuto artigo a respeito da verdade por trás da presença dos EUA no Oriente Médio – a sua subserviência ao bem mais precioso da indústria de combustíveis fósseis: o petróleo.

“À medida que nos concentramos no crescimento do ISIS e da busca pela origem da selvageria que levou tantas vidas em Paris e San Bernardino, podemos querer olhar para além das explicações convenientes de religião e ideologia e focar nas lógicas mais complexas da história e petróleo, que em sua maioria apontam o dedo da culpa do terrorismo de volta para os campeões do militarismo, o imperialismo e o petróleo aqui em nossas próprias costas”, Kennedy escreveu em um editorial para o EcoWatch.

O olhar crítico de Kennedy sobre a história dos Estados Unidos de intromissão, intervencionismo, e da hegemonia – quase exclusivamente para manter o fluxo de petróleo – torna evidente o seu papel na desestabilização de todo o Oriente Médio, especialmente na Síria. Na verdade, mais de cinquenta anos de intercessão violenta – em última análise, no interesse da indústria de combustíveis fósseis – tem alimentado enormes ressentimentos. Essencialmente, o corporativismo geoestratégico americano – sob o disfarce da manutenção da paz armada – criou o violento jihadismo islâmico contra quem os EUA agora lutam suas batalhas.

A partir da administração Eisenhower, a soberania árabe e a neutralidade das nações do Oriente Médio na Guerra Fria foram percebidas como ameaças para o acesso americano ao petróleo.

Em primeiro lugar na ordem do dia para a Presidência de Eisenhower estava o primeiro líder eleito do Irã em 4000 anos de história, o presidente Mohammed Mosaddegh. O desejo de Mosaddegh de renegociar contratos de petróleo desfavoráveis ​​ao Irã com a British Petroleum levou a um golpe fracassado da inteligência britânica – a quem ele prontamente expulsou do país. Apesar de parecer favorável aos EUA, a quem Mosaddegh via como um modelo de democracia que ele procurou empregar no Irã – Eisenhower, com a ajuda do notório diretor de inteligência Allan Dulles, derrubou o líder. A “Operação Ajax” depôs Mosaddegh e o substituiu pelo Shah Reza Pahlavi – um líder cujo reinado sangrento culminou na revolução islâmica de 1979, “que tem atormentado a nossa política externa por 35 anos”, escreveu Kennedy.

Talvez uma das maiores ameaças maiores sobre a Síria fosse a relutância dela para aprovar a Trans Arabian Pipeline – destinada a atravessar a Síria a fim de conectar o petróleo saudita com os portos do Líbano. Quando o democraticamente eleito e secular presidente sírio negou o plano, a CIA armou um golpe em uma tentativa de substituí-lo.

“O plano da CIA foi de desestabilizar o governo sírio, e criar um pretexto para uma invasão pelo Iraque e pela Jordânia, cujos governos já estavam sob controle da CIA”, explicou Kennedy. Não funcionou. Uma falha surpreendente, motins e violência anti-americana irromperam por toda a região. A Síria barrou vários adidos americanos, e, em seguida, expôs e executou todos os funcionários que abrigavam algum sentimento pró-americano. Na verdade, os EUA quase provocaram uma guerra com a Síria pelo incidente.

As repercussões da tentativa de golpe – bem como parcelas de maior êxito dos regimes fantoches em outros lugares – continuam a desempenhar um papel na política externa e relações geopolíticas no presente. A mais “bem sucedida” remoção de um líder e sua subsequente substituição envolveu um nome que todos nos EUA estão familiarizados: Saddam Hussein.

Depois de várias tentativas para depor o líder do Iraque falharam, a CIA, em última instância instalou Hussein e o Partido Baath no poder. Como Kennedy observou, o ministro do Interior Said Aburish disse sobre a trama: “Nós chegamos ao poder em um trem chamado CIA”. James Critchfield, o chefe do posto da CIA responsável tanto pelo golpe bem sucedido quanto pelo fracassado, mais tarde disse que a CIA tinha “essencialmente criado Saddam Hussein” – também lhe fornecendo armas, inteligência, além de armas químicas e biológicas.

“Ao mesmo tempo, a CIA estava a fornecer ilegalmente ao inimigo de Saddam – o Irã – milhares de mísseis anti-tanque e anti-aéreos para combater o Iraque, um crime que ficou famoso durante o escândalo Irã-Contras … A maioria dos americanos não estão cientes das muitas maneiras que essa reação de erros anteriores da CIA ajudou a criar a crise atual”.

Enquanto os americanos amplamente acreditam na grande imprensa e na narrativa governamental que o papel atual dos EUA na Síria eleva-se a objetivos humanitários, começando com a Primavera Árabe em 2011, “Em vez disso, começou em 2000, quando o Qatar propôs construir um gasoduto de 1,5 mil quilômetros e US$10bi através de Arábia Saudita, Jordânia, Síria e Turquia”, Kennedy explicou.

“O gasoduto proposto teria ligado o Qatar diretamente para mercados europeus de energia através de terminais de distribuição na Turquia que embolsariam grandes taxas de trânsito. O gasoduto Qatar-Turquia teria dado os reinos sunitas uma dominação decisiva do Golfo Pérsico em mercados de gás natural pelo mundo e fortalecido o Qatar, aliado mais próximo dos Estados Unidos no mundo árabe”.

A UE recebe atualmente 30 por cento de seu gás da Rússia, Kennedy observou, e “A Turquia, segundo maior cliente de gás da Rússia, estava particularmente ansiosa para acabar com sua dependência de sua antiga rival, além de posicionarem-se como um centro de transporte lucrativo dos combustíveis asiáticos para os mercados da UE. O gasoduto do Qatar teria beneficiado a monarquia conservadora sunita da Arábia Saudita, dando-lhes uma posição de dominação sobre os xiitas”.

Os cabos diplomáticos revelados pelo Wikileaks mostram que desde 2006 o Departamento de Estado dos EUA, a pedido do governo israelense, vinha propondo uma parceria entre Turquia, Qatar e Egito para fomentar uma guerra civil sunita na Síria, para enfraquecer o Irã. O propósito declarado, de acordo com o telegrama secreto, foi para incitar (o presidente sírio, Bashar al- Assad) uma brutal repressão da população sunita da Síria.

“Como previsto, a reação exagerada de Assad à crise fabricada no estrangeiro – lançando bombas de barril em redutos sunitas e matando civis – polarizou uma divisão xiita-sunita da Síria e permitiu aos responsáveis ​​políticos vender aos americanos a ideia de que  a luta pelo gasoduto era uma guerra humanitária”.

O contexto histórico e longo de Kennedy para o imbróglio atual merece uma leitura minuciosa. Sua mensagem inequívoca deve servir como um lembrete importante que o governo dos Estados Unidos e seu porta-voz da grande imprensa  –  tão convincente quanto eles podem parecer  –  nunca estão contando toda a história.