A Rússia desafia os EUA na Síria

Autor: Yusuf Fernandez

Tradução: César A. Ferreira

Fonte: Al Manar

O envio do sistema S-300VM (SA-23 Gladiator terminologia da OTAN) para a  Síria, provocou a ira dos Estados Unidos  que expressou alarme a uma medida deste tipo apesar do fato de que a mídia dos EUA haver afirmado pouco antes, que  Washington estava considerando “as opções militares “contra a Rússia no tocante à crise síria. A última ameaça levou a Rússia a tomar as suas próprias medidas, incluindo a implantação do sistema acima, capaz de abater aeronaves e mísseis de cruzeiro, e reforçar a sua frota no Mediterrâneo.

A Rússia indicou, entretanto, que a S-300VM é um sistema defensivo e disse não entender por que os EUA estão a  expressar tais alarmes.

Os EUA têm-se queixado sobre os ataques russos na Síria contra a Frente  Al-Nusra e outros grupos terroristas e clamando pela imobilização das aeronaves da Rússia e Síria, de uma maneira que evidencia ainda  mais o seu apoio ao terrorismo. A implantação do S-300 VM é irrelevante contra a Frente Al-Nusra, que não tem poder aéreo, mas é uma parede contra possíveis ataques dos Estados Unidos ou os seus aliados contra a Síria.

Na verdade a ameaça contra a Rússia e a Síria é real. Os EUA afirmaram que não irão mais  realizar esforços diplomáticos na Síria, enquanto culpam a Rússia pelo seu próprio fracasso em respeitar os compromissos assumidos no conflito sírio. Ao que tudo indica, nunca tiveram real intenção em respeitar…

A próxima reunião do Conselho de Administração, que inclui os secretários de Estado e de Defesa, o chefe do Estado-Maior Conjunto, bem como o diretor da CIA, deverá examinar várias políticas de ação midiática e militar na Síria. Uma das proposta sobre a mesa é atacar as pistas dos aeroportos militares sírios com mísseis de cruzeiro e outras armas disparados de aeronaves de longo alcance e de navios, além de outras ações militares.

Seria, portanto, uma agressão militar aberta contra outro país sem a autorização do Conselho de Segurança da ONU. Portanto, um oficial militar dos EUA, citado pelo Washington Post, disse que os ataques seriam realizados “dissimuladamente ou sem reconhecimento público.”

Na verdade, apenas os EUA, frente aos seus aliados ocidentais deitam a falar de “opções militares”, já que parece difícil pensar que os aliados europeus aceitem o risco de uma guerra com a Rússia para proteger a Frente Al-Nusra, uma organização ligada à Al Qaeda.

O reforço da frota mediterrânica e o envio do sistema  S-300 VM sugerem, fortemente,  que a Rússia está ciente de tais planos agressivos dos EUA e que decidiu portar-se altivamente na Síria. Em contraste, a reação histérica de Washington sugere que eles estão a perder uma posição militar estratégica, daí  correr o risco de um ataque deste tipo num momento em que a Rússia aumentou as suas defesas na Síria.

A política dos EUA na Síria representa uma ameaça para a própria Rússia e faz parte das tentativas de Washington para circundar este país. Uma bem sucedida operação de mudança de regime na Síria seria em seguida constituída de uma  intervenção dos EUA na Rússia, na forma do envio de terroristas financiados pela CIA para as repúblicas russas do Cáucaso para alimentar um movimentos separatistas latentes por lá. Um regime fantoche em Damasco ajudaria a canalizar tais forças, treinadas no campo de batalha da Síria, para dentro do solo da Rússia,  realizando uma campanha para desestabilizar e, finalmente, desmembrar a Federação Russa.

Nota do Editor: O sistema S-300VM (Antey 2500) possui como alvos primários misseis de cruzeiro, bem como os mísseis balísticos táticos de curto e médio alcance. De forma subsidiária pode ser utilizado para neutralizar aeronaves e outras ameaças aéreas. O seu alcance é de 200 km e caso a informação de que seria postado em Tartus, ou seja, junto a costa, isto significa que as formações de combatentes em Deir Ez Zoir e Aleppo não contariam com a proteção deste referido sistema, algo que já acontecia com sistema S-400 postado em Latakia.

A capacidade do sistema é a de vetorar até 24 alvos, sendo 4 por unidade de vetoramento por vez. Isto significa que a bateria, isolada, pode vir a ser saturada, não é por outro motivo que o conceito russo de Defesa Antiaérea prevê uma distribuição em camadas, ou seja, com proteção convergente de cada sistema por sobre o outro. Espera-se, portanto, que o sistema S-300VM tenha o seu complemento como segurança crítica na forma de uma bateira do sistemas Pantsyr S-1.

 

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Washington tenta quebrar os BRICS: começa o estupro do Brasil

Autor: F. William Engdahl

Fonte: NEO – New Eastern Outlook

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

(…) Um dia depois que a Câmara de Deputados aprovou o impeachment da presidenta eleita do Brasil, em abril, um alto membro do partido PSDB, aliado do PMDB de Temer, senador Aloysio Nunes, viajou a Washington, em missão organizada pela empresa de lobby da ex-secretária de Estado Madeline Albright, o Albright Stonebridge Group. Nunes, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado do Brasil, várias vezes pregou que o Brasil se aproximasse mais, outra vez, de uma aliança com EUA e Reino Unido.

Madeline Albright, diretora de um dos principais think-tanks nos EUA, o Council on Foreign Relations, também é presidenta da mais ativa ONG a serviço do governo dos EUA, especializada em promover “revoluções coloridas”, o National Democratic Institute (NDI). Interessante, não? Nunes foi a Washington para conjurar apoio para Temer e para os atores principais do golpe que já estava em curso para derrubar a presidenta Rousseff.

O ator chave a serviço de Washington, e o efetivo carrasco político de Rousseff foi, mais uma vez, o vice-presidente Joe Biden, o “Dick Cheney”, operador-sujo-em-chefe, no governo Obama.

Fatídica visita de Biden ao Brasil

Em maio, 2013, o vice-presidente dos EUA Joe Biden fez uma fatídica visita ao Brasil, para reunir-se com a presidenta Rousseff. Em janeiro de 2011, Rousseff substituíra seu mentor do Partido dos Trabalhadores, Luis Inácio Lula da Silva, ou Lula, que completara o segundo mandato consecutivo que a Constituição lhe permitia. Biden foi ao Brasil, para discutir petróleo com a nova presidenta. As relações entre Lula e Washington haviam gelado quando Lula apoiou o Irã contra sanções dos EUA e aproximou-se mais, economicamente, da China.

No final de 2007,  a Petrobrás havia descoberto o que se estimava que fosse uma reserva monstro de petróleo de alta qualidade na plataforma continental do Brasil, na Bacia de Santos. No total, a plataforma continental territorial do Brasil pode conter mais de 100 bilhões de barris de petróleo, o que transforma o país na maior potência mundial de petróleo e gás. Imediatamente Exxon & Chevron, as gigantes norte-americanas do petróleo, puseram-se em campo para conquistar o controle daquela riqueza recém descoberta.

Em 2009, segundo telegramas diplomáticos dos EUA publicados por Wikileaks, o Consulado dos EUA no Rio de Janeiro escreveu que Exxon e Chevron estavam tentando, sem sucesso, alterar uma lei encaminhada ao Congresso pelo mentor e predecessor da presidenta Rousseff, o presidente Lula. Essa lei de 2009 tornava a empresa estatal Petrobrás a principal operadora de todos os blocos do petróleo do pré-sal no Brasil. Washington e as gigantes norte-americanas do petróleo absolutamente não gostaram de perder o controle sobre o que parece ser a maior nova reserva de petróleo descoberta em décadas.

Lula não só tirou ExxonMobil e Chevron da posição de controladoras, em favor da estatal Petrobrás; ele também abriu a exploração do petróleo brasileiro aos chineses, desde 2009 principais parceiros, dentro do grupo BRICS, de Brasil, Rússia, Índia e África do Sul.

Em dezembro de 2010, num de seus últimos atos como presidente, Lula supervisionou a assinatura de um contrato entre a empresa de petróleo Repsol, espanhola-brasileira, e a estatal chinesa Sinopec. Sinopec formou uma joint venture, Repsol Sinopec Brasil, investindo mais de $7,1 bilhões na Repsol Brasil. Já em 2005 Lula havia aprovado a formação da empresa Sinopec International Petroleum Service of Brasil Ltd., parte de uma nova aliança estratégica entre China e Brasil.

Em 2012, em perfuração de exploração conjunta, as empresas Repsol Sinopec Brasil, Norway’s Statoil e Petrobrás fizeram outra grande descoberta, no poço batizado “Pão de Açúcar”, o terceiro no bloco BM-C-33, que inclui os poços de Seat e Gávea, esse uma das 10 maiores descobertas do mundo em 2011. Nenhuma das majors norte-americanas e britânicas do petróleo aparecia nesse cenário.

A missão de Biden era sondar a presidenta que sucederia Lula, Dilma Rousseff, sobre a possibilidade de ela reverter a exclusão das grandes do petróleo dos EUA em favor da Chinesa. Biden também se reuniu com as principais empresas de energia do país, inclusive a Petrobrás.

A notícia praticamente não apareceu na mídia-empresa brasileira, mas Rousseff recusou-se a reverter a lei do petróleo de 2009 e a convertê-la em qualquer coisa que agradasse a Biden, a Washington e às majors do petróleo dos EUA. Dias depois da visita de Biden surgiram as revelações feitas por Edward Snowden de que a Agência de Segurança Nacional dos EUA também espionara Rousseff e altos funcionários da Petrobrás. A presidenta Rousseff denunciou a operação em sua fala na Assembleia Geral da ONU, por violação da lei internacional. E, em protesto, cancelou uma viagem marcada para Washington. Depois disso, as relações EUA-Brasil naufragaram de vez.

Ao final dessa visita, em maio de 2013, Biden claramente deu à presidenta do Brasil o beijo da morte: o destino dela estava selado.

Antes da vinda de Biden em maio de 2013, a presidenta Rousseff gozava do apoio de 70% da população brasileira. Menos de duas semanas depois que Biden deixou o Brasil, começaram os protestos de rua, ‘animados’ por um grupo conhecido como Movimento Passe Livre, que protestava contra aumento nominal de 10 centavos no preço do passe de ônibus, que acabaram por fazer o país parar quase completamente e, a partir de certo ponto tornaram-se muito violentos. Os protestos tinham todas as características da típica “Revolução Colorida” ou da desestabilização social acionada por mídias sociais como Twitter ou Facebook que parecem seguir Biden pelo mundo, onde quer que apareça. Em poucas semanas, o apoio da população ao governo Dilma despencou para 30%.

Washington claramente enviara um sinal de que ou Rousseff mudava de rota, ou enfrentaria problemas graves. A máquina de mudança de regime de Washington – com todas as suas armas de guerra financeira, desde o vazamento de auditorias realizadas na Petrobrás, até a ação da agência de Wall Street, de avaliação de créditos, Standard & Poors, que degradou a dívida pública do Brasil ao nível de papel podre, em setembro de 2015 – entrou em ação a pleno vapor para derrubar Rousseff, apoiadora chave do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS e de uma estratégia de desenvolvimento nacional independente para o Brasil.

Vender as joias da Coroa

O homem que chegaria à presidência do Brasil, num perfeito arremedo de ‘legalidade’, corrupto condenado e então vice-presidente, Michel Temer, serviu em tempo integral como informante da embaixada dos EUA em Brasília. Em documentos distribuídos por Wikileaks, revelou-se que Temer já servira como informante da inteligência dos EUA desde, pelo menos, 2006, por telegramas que a Embaixada dos EUA no Brasil classificou como “sensíveis” e “para exclusivo uso oficial”.

Homem de Washington no Brasil, Temer não perdeu tempo para iniciar as reverências aos seus patrões em Wall Street. Ainda como presidente interino em maio, Temer nomeou Henrique Meirelles para o cargo de ministro das Finanças e da Seguridade Social. Meirelles, formado em Harvard [de fato, participou de um treinamento de Advanced Management Program (AMP) da Harvard Business School que prepara altos executivos de bancos (NTs)] e ex-presidente do Banco Central do Brasil, foi presidente do BankBoston nos EUA até 1999, e ainda trabalhava no banco em 1985, quando o banco foi multado por não reportar transferência ilegal de $1,2 bilhão em dinheiro, para bancos suíços.

Meirelles está agora na função de supervisor da liquidação planejada das “joias da Coroa” do Brasil a investidores estrangeiros, movimento que visa a minar qualquer poder que o estado brasileiro tenha na economia. Outro dos conselheiros econômicos chaves de Temer é Paulo Leme, ex-economista do FMI e hoje Diretor de Gestão de Pesquisa de Goldman Sachs. Wall Street está ativamente integrada ao processo de estupro econômico do Brasil ‘liderado’ por Temer.

Dia 13 de setembro, o governo Temer divulgou um programa massivo de privatizações, com um comentário cínico e enganador do próprio Temer: “É claro que o setor público não poderá fazer avançar esses projetos sozinho. Contamos com o setor privado.” Não explicou que por “setor privado” referia-se aos seus próprios patrões.

Temer revelou planos para consumar a maior privatização no país, em décadas. Convenientemente, a privatagem está planejada para estar concluída no final de 2018, pouco antes do fim do mandato de Temer. O influente US-Brasil Business Council detalhou a lista das empresas a serem privatizadas, em sua página na Internet (“Economia do Brasil depois do Impeachment”, ing.). Esse US-Brasil Business Council foi fundado há 40 anos por Citigroup, Monsanto, Coca-Cola, Dow Chemicals e outras multinacionais norte-americanas.

As licitações para a primeira rodada de privatizações serão lançadas antes do final do ano. Incluirão quatro aeroportos e dois terminais portuários, todos a serem leiloados no primeiro trimestre de 2017. Outras concessões incluem cinco rodovias, uma ferrovia, vários pequenos blocos de petróleo e uma rodada final de leilões, adiante, para os grandes blocos de petróleo a serem desenvolvidos, a maioria de reservas submarinas. O governo também selecionará reservas atualmente controladas pelo Departamento de Pesquisas Minerais do Brasil, mais seis distribuidoras de energia e três instalações para tratamento de água.

O coração dessa privatização planejada está – nada surpreendentemente –, nas empresas que Joe Biden cobiça, de petróleo e gás, além de fatias da empresa brasileira de energia, Eletrobrás. Temer planeja obter $24 bilhões nessa liquidação de patrimônio público. 11 bilhões devem sair da venda das empresas estatais chaves de petróleo e gás.

Claro que, quando patrimônio estatal dessa magnitude é liquidado e entregue a interesses estrangeiros, no que é uma muito evidente venda ‘combinada’, trata-se de negócio de soma zero: um lado ganha tudo, o outro perde tudo. Projetos de petróleo, gás e energia elétrica geram fluxos continuados de renda muito superiores a quaisquer ganhos que se possam auferir da venda em processo de privatização. O lado que perde necessariamente tudo e sempre, nesses negócios de privatização, é a economia do Brasil: os bancos de Wall Street e as multinacionais ganham tudo, conforme o planejado, em todos os casos.

Dias 19-21 de setembro, segundo o website do US-Brasil Business Council, os ministros chaves para a infraestrutura, do atual governo do Brasil, dentre os quais o ministro da infraestrutura, Moreira Franco; Fernando Bezerra Coelho Filho, de Minas e Energia; e Mauricio Quintella Lessa, de Transportes, Portos e Aviação Civil, estariam [estiveram] em New York City para reunião com “investidores em infraestrutura” de Wall Street.

É o modus operandi de Washington, exatamente como operam os Deuses do Mercado em Wall Street, título de um dos meus livros. Primeiro, destroem qualquer projeto de genuíno desenvolvimento nacional concebido por lideranças nacionais, como Dilma Rousseff. Na sequência, põe no lugar dele um regime subalterno disposto a fazer qualquer coisa por dinheiro, inclusive liquidar as joias da Coroa do próprio país, gente que faça como Anatoli Chubais na Rússia nos anos 1990, durante a “terapia de choque” de Boris Yeltsin. Como paga pelo que fez, Chubais tem lugar assegurado hoje no Conselho de Administração do banco JP MorganChase. Ainda não se sabe o que Temer e sócios obterão em troca do empenho que têm demonstrando na liquidação do patrimônio brasileiro.

Por enquanto, Washington conseguiu quebrar um dos países BRICS que realmente ameaçava a hegemonia global das empresas norte-americanas. Se a história recente ensina alguma coisa, não obterá sucesso duradouro.

 

Blitzkrieg, a queda da França

Por: Daniel Afonso da Silva

Fonte: Blog Luis Nassif

Wolfsschlucht, quartel-general alemão, 17 de junho de 1940. Hitler recebe a notícia da rendição francesa. O marechal Pétain vinha de proclamar o cessar-fogo. Perplexidade radiante envolve os presentes. Ainda na noite anterior, em entrevista a Goebbels, o füher havia anunciado guerra de ao menos seis semanas para vencer a França. Ninguém esperava uma batalha relâmpago (blitzkrieg) contra os franceses.

Desde a sua inauguração no poder em fevereiro de 1933 que Hitler vinha pondo em prática sua vingança à humilhação aos alemães materializada em Versalhes após a primeira grande guerra. Fora a amputação de territórios seguida de imposições financeiras, à Alemanha caberia reduzir seu exército ao máximo de 100 mil homens, não possuir artilharia pesada nem tanques blindados, aviões, cruzadores ou submarinos.

Em sua primeira mensagem ao seu Reichswehr (força de defesa do Reich), a 3 de fevereiro de 1933, ele firmaria o compromisso de remodelar o exército alemão para combater os inimigos internos e externos do Reich. Seu objetivo explícito era conquistar espaço vital. Seu mantra, germanizar toda a terra.

O primeiro álibi para o reequipamento da Reichswehr ocorreu no expurgo de 30 de junho de 1934, famosa noite dos longos punhais. Um ano depois seria anunciada a criação da Luftwaffe (força aérea), havia muito tramada em segredo com os soviéticos. A 7 de março de 1936, a Wehrmacht (forças armadas) recuperaria espaços na Renânia subvertendo o pacto de Locarno. Semanas depois, a Reichswehr vai convocada a se preparar para uma guerra longa e mundial a partir de 1940.

No verão-outono de 1938, com a conivência de França e Inglaterra nos acordos de Munique, o Reich agrediria a Tchecoslováquia subtraindo dela a região de Sudètes. Polônia e Hungria também reivindicariam, com sucesso, territórios tchecos. Os encaminhamentos saídos de Versalhes ficavam, assim, completamente caducos.

No dia 23 de agosto de 1939, alemães e soviéticos assinam pacto de não-agressão. Ciente da inação franco-britânica, Hitler avança sobre a Polônia. Contrariado em seus cálculos, no dia 3 de setembro de 1939, os ingleses declaram guerra ao Reich. Os franceses fariam o mesmo sem tardar. Como reação, o Reich propõe avançar de Varsóvia a Paris.

Em junho de 1940 o moral francês está devastado. “A besta se aproxima”. Na primeira semana do mês, entre sete e oito milhões de pessoas de todas as idades e ocupações fugiram de Paris e de seus arredores. A 10 de junho, o próprio governo francês parte em fuga e se instala em Tours.

No dia seguinte, os primeiro-ministros Paul Reynaud e Winston Churchill promovem uma reunião conjunta. A pauta era discutir sobre continuar ou não o combate contra o Reich. Muitos presentes hesitam. O marechal Pétain, herói de Verdun e da primeira grande guerra, propõe armistício. Reynaud considera desonroso. Churchill também; e pede tempo para consultar do presidente Roosevelt.

A 14 de junho, os alemães adentram Paris e a tese do armistício avança.

O coronel De Gaulle vai enviado a Londres para clamar por mais apoio inglês. Desde o palácio de Buckingham vem a proposta de unificação franco-britânica da nação e da administração para se continuar a guerra.

No 15-16 de junho, o primeiro-ministro francês está deveras apequenado. A maioria no conselho tendia ao armistício. Mas ele continua intransigente frente ao capitular.

Contrariado em suas intenções, o marechal Pétain apresenta sua demissão. O primeiro-ministro e o próprio presidente da república recusam aceitar. Ambos aguardam pela resposta do presidente norte-americano sobre o apoio contra o Reich.

Churchill porta a resposta no fim de 16 de junho. Os Estados Unidos mandam dizer que seu apoio poderia ser financeiro; militar, não.

O peso da história e a pressão da responsabilidade invadem o destino dos homens de decisão franceses. Todos lembravam – alguns por ter vivido – de 1870-1 e 1914-18. A máxima “tout est perdu fors l’honeur” (tudo foi perdido, exceto a honra) do rei François 1º após a derrota na batalha de Pavie de 1525 rondava todos os imaginários. A meditação passou entre a vida e a honra.

Outra reunião fora convocada para as dez da noite desse dia 16 de junho de 1940. Antes desse horário, o primeiro-ministro Reynaud anuncia sua demissão. O marechal Pétain, líder da maioria pelo armistício, toma seu lugar. Horas depois, o novo governo já estava completamente constituído. No dia seguinte, 17 de junho de 1940, o mundo inteiro soube da escolha do marechal.

A Rússia sente-se confortável

Por: César A. Ferreira

Neste exato momento caças-bombardeiros Su-34, recentemente desdobrados para o território sírio, reiniciam a campanha de bombardeio em Aleppo contra as posições da Frente Al-Nusra, vaporizando desta forma as unidades deste grupo terrorista, que se viu reforçado pela trégua proposta por Washington.

A Rússia retorna com força plena à Síria a despeito do que se diga no Pentágono, ou no Departamento de Estado. Independe das vontades alheias, e isto devido a um fato muito simples: fracassaram as tentativas de isolamento diplomático e econômico da gigantesca nação. Sobraram, apenas, a constantes e conhecidas provocações da OTAN, que quando respondidas, sejam por sobrevoos, ou escoltas, revelam o ridículo das argumentas desabridas dos prepostos da Aliança Atlântica… Mas, isto, convenhamos, pouco importa (para eles).

A Rússia possui seis fusos horários, é a nação com as mais extensas fronteiras políticas do globo, possui um território riquíssimo em termos de minérios ainda por ser explorado, reservas petrolíferas e de gás que estão por ser avaliadas, enfim… Não necessita e não ambiciona o controle de reservas de terceiros, diferentemente dos EUA e dos seus associados da OTAN, que dormem, sonham, com outra coisa que não seja o domínio completo das nações produtoras, bem como das rotas da commoditie energética de uso global.

O xadrez africano, onde se destaca como jogador de peso a chancelaria chinesa, e do qual o nosso novo, augusto e magnânimo chanceler fez questão de nos retirar, não possui a Rússia como potência interessada, visto que dos recursos futuros do continente africano pouco ou nada necessita, deixando assim este continente, com vastíssimas áreas ainda por serem exploradas, entregues a sanha dos EUA e das antigas potências coloniais, que rivalizam com o dragão chinês a primazia pela conquista dos corações e mentes africanas.

Por isso, tendo uma nação focada, uníssona na perspectiva de que é um povo capaz de escolher, manter o equilíbrio e desafiar quem lhe tente pressionar, a Rússia sente-se confortável para intervir no seu entorno próximo, congelar, ou acelerar conflitos na qual por ventura esteja envolvida, pois a sua proteção, ou seja, a proteção das suas fronteiras, estão bem resolvidas pelas armas entregues pelo complexo industrial militar, que herdado da URSS foi modernizado em todos os quadrantes possíveis, bem como pela elevação do padrão de prontidão das forças nacionais, objetivo perseguido e alcançado enquanto a OTAN se desgastava no Afeganistão…  Em outras palavras, a Rússia fez o que se deve: aproveitou-se de todas as oportunidades para crescer e fortalecer as suas forças armadas, tidas como esteio da soberania nacional, além de braço de crescimento tecnológico e industrial…

A Rússia, agora, sente-se confortável, apesar da inquietude vez por outra imposta pelas provocações infantis da OTAN… Uma lição que não será aproveitada por um sonolento gigante do sul, agora também grande produtor de petróleo, pois se encontra enredado pela miragem da grama mais verde do vizinho do norte.

Pena. A Rússia é uma lição breve de como construir uma verdadeira soberania.

Como os soviéticos roubaram um F-86 Sabre em 1951

Fonte: War History On Line

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

Na data de 06 de outubro de 1951, o então Segundo Tenente Bill N. Garret, em missão de patrulha, deu-se de frente contra a 324ª IAD (Istrevitenye Avia Divizya , Fighter Aviation Division – ing. Divisão de Aviação de Caça), composta por pilotos dotados dos maiores escores dentre aqueles que lutaram a Segunda Grande Guerra. Atingido, Garret retirou-se em direção à base enquanto o resto da sua patrulha continuou a combater, naquele momento nenhum dos dois lados queria arriscar a ter um dos seus jatos capturado pelo inimigo, daí o fato de Garret ter obedecido a regra imposta.

No caminho de volta, no entanto, ele encontrou uma patrulha de quatro jatos MiG-15, encabeçados pelo capitão Konstantin Sheberstov. De acordo com sua entrevista na Mir Aviatsii (um diário aviação russa), o F-86 Sabre de Garret deixava um rastro de fumaça preta ao realizar uma descida controlada.

Shebertsov  ganhou altura, subindo para 3.300 pés, e quando colimou o norte-americano entre  975 e 1.150 pés, disparou seus canhões. Eles atingiram o Sabre atrás do cockpit, danificando seu motor J-47 e também atingindo-o logo atrás do assento de ejeção do piloto.

Incapaz de responder ao fogo, Garret começou a realizar manobras evasivas, mas perdeu altitude, enquanto Shebertsov continuava  a segui-lo. O capitão soviético sabia que seu governo queria um Sabre, por isso ele foi confrontado com um dilema.

Os soviéticos não estavam  autorizados a voar em território ocupado pelas Nações Unidas, ou seja, na Coreia do Sul. Eles também não poderiam atacar aviões inimigos de perto para evitar a identificação. A União Soviética não participava oficialmente na Guerra da Coreia, afinal de contas, tanto é assim,  que os seus pilotos usavam uniformes da Coreia do Norte. Estas regras foram tão rigorosamente aplicadas que, quando um piloto soviético era alijado sobre o mar, os seus companheiros pilotos metralhavam a ele e ao seu avião para evitar a captura e sua posterior  identificação.

Então para Shebertsov era necessário forçar Garret ir para baixo antes de o americano atingir o espaço aéreo da ONU, mas ele não poderia destruir o Sabre, isto é, caso pudesse evitá-lo. A descida lenta de Garret foi exatamente o que ele precisava, portanto. Ele, Garret, poderia vir ao solo sem muito dano.

O Sabre apontou em direção à costa do Mar Amarelo, tentando aproximar-se do território amigo, tanto  quanto fosse possível. Garret também sabia que os soviéticos queriam seu avião, então desejava,  desesperadamente,  dele se livrar na água. Ele finalmente alcançou à costa, mas não conseguiu fazê-lo no Mar Amarelo. Quase colidiu com a praia, quando um piloto de resgate o encontrou, momento em que pulou para fora; mas o avião era outra questão. Este ficou preso nas piscinas de lama. Os norte-coreanos dispararam contra ele, então Garret e os seus salvadores fugiram.

Nos céus, a batalha se desenrolava com os MiGs lutando para reclamar o seu prêmio, enquanto Sabres tentavam combatê-los. Em seguida, a maré começou a entrar, subir. Centenas de chineses e norte-coreanos se esforçavam para desmontar o Sabre antes de o mar o engolir completamente, mas eles eram constantemente alvejados por aviões americanos e por navios da Marinha dos EUA que navegam ao largo da costa.

Apesar de perder sete dos seus MiGs, os soviéticos obtiveram o seu prêmio e o levaram, juntamente com assuas peças de volta para a União Soviética, em um comboio de caminhões. Eles tiveram que viajar durante a noite porque os americanos os tinham seguido para a China, atacando, inclusive, um caminhão isca cheio de chumbo, que logrou escapar. Com pilotos soviéticos e chineses a perseguir os norte-americanos, as peças fizeram o seu caminho de volta à Rússia. Dias depois, em 24 de outubro, eles capturaram mais um Sabre.

Desesperados, os americanos estenderam a  Operação Moolah para a China e a Coreia do Norte, transmitindo a sua oferta no rádio, bem como por alijamento folhetos de aviões. Valeu a pena. Em 21 de setembro de 1952, Tenente Sênior Sem Kum Sok desertou para a Coréia do Sul, enviando o  seu MiG-15 norte-coreano para a Base da Força Aérea, em Kimpo.

Norte-americanos acreditam que ganharam a guerra sozinhos, russos teriam apenas “ajudado”

Fonte: RT

Tradução: Alexey Thomas Filho

Nos Estados Unidos, a vitória na Segunda Guerra Mundial é lembrada como um triunfo para os norte-americanos, e consideram que o Exército Vermelho agiu “mais ou menos como um assistente”, escreve o diário Washington Post. No entanto, o aniversário da vitória sobre a Alemanha nazista passa quase que despercebida nos Estados Unidos, enquanto na Rússia, todavia, ainda é um dos maiores festivais do país, porque não há quase nenhuma família que não tenha sido afetada pela guerra.

Para a maioria dos norte-americanos, o aniversário da vitória sobre a Alemanha nazista passa despercebida, escreve Washington Post. No entanto, na Rússia é um dos maiores feriados.

“Pergunte a qualquer russo sobre a experiência e as experiências de sua família durante a Segunda Guerra Mundial, e quase invariavelmente a resposta obtida será a seguinte: sofrimento a serviço do país no campo de batalha ” – as notas do jornal.

Ao contrário dos Estados Unidos, que, após o ataque japonês a Pearl Harbor foram amplamente protegidos contra ataques pelas águas do Pacífico e  do Atlântico, a Rússia durante a Segunda Guerra Mundial estava sob cerco, foi bombardeada no seu território que tinha sido invadido. Em seguida, o Exército Vermelho chegou a Berlim desempenhando um papel fundamental na derrubada de Adolf Hitler.

As perdas da União Soviética foram enormes. Segundo a maioria dos historiadores, a União Soviética perdeu entre 27-28 milhões de pessoas. E a geração dos idosos russos ainda mantém memórias dolorosas de fome durante a guerra.

Enquanto isso, no que se refere á II Guerra Mundial, Estados Unidos a lembram como uma vitória para os norte-americanos, considerado apenas que o Exército Vermelho agiu “mais ou menos como um assistente”.

As memórias dos russos são focadas em suas próprias vítimas, diz o artigo. Segundo os cidadãos da Rússia, o verdadeiro significado do feriado não reside em paradas militares, possui um contexto mais pessoal.

“Na Rússia, são muito poucas as famílias que não foram afetadas pela guerra”, – disse a edição russa do Washington Post.

E, como os veteranos morrem, seus filhos e netos começaram então a realizar procissões por ocasião do dia da vitória na qual eles carregam imagens de seus familiares, os participantes da Grande Guerra Patriótica. Esta iniciativa, que um evento separado dos desfiles militares, apareceu em 2012 como um movimento não-político, entretanto, de acordo com a publicação, uma vez que pegou,  o Kremlin a adotou.

Além disso, a partir de 2008, Vladimir Putin reavivou a tradição de realizar “desfiles de tanques ao estilo soviético”, algo que se vê na comemoração do 09 de maio “para reunir os cidadãos em torno da bandeira”.

Os críticos das celebrações do Dia da vitória de Putin dizem que ele transformou este aniversário em um “evento politizado “, que se destina mais à servir o Estado, e não a memória das pessoas que sofreram na guerra.

“Antes os veteranos se reuniam nesta celebração, para beber e para recordar camaradas caídos. Veem, agora, o foco principal ser colocado por sobre os desfiles militares”, – diz o artigo.

De acordo com o Washington Post, a palavra fascismo agora também adquiriu os “novos valores”, o Kremlin geralmente a aplicada à nova liderança da Ucrânia. Ao mesmo tempo, com a ajuda da celebração da vitória na Segunda Guerra Mundial o termo se soma aos “esforços de Putin que visam a angariar apoio interno para uma política dura em direção a seu vizinho “, – citação presente no artigo.

As palavras de um líder

Por: Ho Chi Minh
Fonte: Esquerda Tradicionalista

Nota de introdução: o pensamento de um líder nacional, na forma de relato, é precioso documento histórico. Através dele é possível entendermos o desenvolvimento do entendimento de mundo deste líder, como personagem dinâmico, bem como da maneira deste interagir com o contexto que o rodeava. Desta forma, o depoimento abaixo do líder revolucionário Ho Chi Minh se reveste de importância fulcral, dado que Ho Chi Minh foi dentre os líderes das revoluções anticoloniais do século passado aquele cujas ações desembocaram na vitória de maior repercussão, a mais simbólica, algo que, aliás, não viu concretizar totalmente em vida. Ho Chi Minh foi um líder que sempre cultivou uma independência própria no campo ideológico, nunca se curvando a pressões e por isto um contumaz causador de “dores de cabeças” em lideranças revolucionárias chinesas. Entretanto, sempre manteve um perfil discreto e prático, quase pragmático, algo convencional em comunistas, diga-se. Era fã declarado de Lênin, como o eram quase todas as lideranças revolucionárias anticolonialistas do século XX.  Nascido como Nguyen Singh Cung, em 19 de maio de 1890, adotou Ho Chi Minh para nomear o seu alter ego revolucionário. Faleceu em 2 de setembro de 1969.

Disse Ho Chi Minh:

“Após a Primeira Guerra Mundial, eu levava minha vida em Paris, ora como retocador de fotografias, ora como pintor de ‘antiguidades chinesas’ (feitas na França). Também distribuía panfletos denunciando os crimes cometidos pelos colonizadores franceses no Vietnã.

Naquele tempo, eu apoiava a Revolução de Outubro apenas por intuição, não tendo em mente ainda toda sua importância histórica. Eu amava e admirava Lênin porque ele era um grande patriota que libertara seus compatriotas; até então, eu não havia lido nenhum de seus livros.

A razão para eu ter me unido ao Partido Socialista Francês foi porque essas ‘damas e cavalheiros’ – como eu chamava meus camaradas na época – demonstraram sua simpatia por mim, pela luta dos povos oprimidos. Mas eu não entendia o que era um partido, um sindicato, nem mesmo socialismo ou comunismo.

Discussões acaloradas aconteciam nos comitês do Partido Socialista sobre a dúvida de se deveríamos continuar na Segunda Internacional, se deveria ser fundada uma Segunda Internacional e Meia ou se o Partido deveria se juntar à Terceira Internacional de Lênin. Eu comparecia aos encontros com frequência, duas ou três vezes por semana, e ouvia atentamente a discussão. No início, eu não conseguia entender o assunto por completo. Por que os debates eram tão acalorados? Seja com a Segunda, a Segunda e Meia ou a Terceira Internacional, a revolução poderia ser alcançada. Qual o objetivo de discutir sobre isso? E a Primeira Internacional, o que aconteceu com ela?

O que eu mais queria saber – e o que justamente não era debatido nos encontros – era: qual Internacional está do lado dos povos das colônias?

Eu levantei essa dúvida – a mais importante em minha opinião – no encontro. Alguns camaradas responderam: é a Terceira Internacional, não a Segunda. E um camarada me deu para ler a “Tese sobre as questões nacionais e coloniais” de Lênin, publicadas pela L’Humanité.

Havia termos políticos difíceis de entender nessa tese. Mas por meio do esforço de lê-la e relê-la pude finalmente apreender a maior parte deles. Que emoção, entusiasmo, esclarecimento e confiança essa obra provocou em mim! Eu me regozijava em lágrimas. Embora estivesse sentado sozinho em meu quarto, eu gritei fortemente, como se me dirigisse a grandes multidões: ‘Caros mártires compatriotas! É disso que precisamos, este é o caminho para nossa libertação’!

A partir dali, tive plena confiança em Lênin e na Terceira Internacional.

Formalmente, durante os encontros no comitê do Partido, eu apenas escutava a discussão; tinha uma crença vaga de que tudo era lógico, e não conseguia diferenciar quem estava certo de quem estava errado. Mas a partir daquele momento, passei a me envolver nos debates e a discutir com fervor. Ainda que me faltassem palavras em francês para expressar todas as minhas ideias, eu rebatia energicamente os ataques feitos a Lênin e a Terceira Internacional. Meu único argumento era: “Se vocês não condenam o colonialismo, se vocês não estão alinhados com a população das colônias, que tipo de revolução vocês estão buscando”?

Eu não apenas participava dos encontros do meu comitê do Partido, mas também ia às reuniões dos outros comitês para reafirmar ‘minha posição’. Devo dizer que mais uma vez meus camaradas Marcel Cachin, Vaillant-Couturier, Monmousseau e muitos outros me ajudaram a expandir meu conhecimento. Por fim, no Congresso de Tours, eu votei junto com eles por nossa adesão a Terceira Internacional.

Em primeiro lugar, foi o patriotismo, e não o comunismo, que me levaram a acreditar em Lênin e na Terceira Internacional. Aos poucos, durante a luta e enquanto estudava o marxismo-leninismo paralelamente às minhas participações nas atividades práticas, eu me dei conta de forma gradativa de que somente o socialismo e o comunismo poderiam libertar as nações oprimidas e o povo trabalhador ao redor do mundo da escravidão.

Existe uma lenda, tanto em nosso país como na China, sobre o milagroso ‘Livro da sabedoria’. Ao se deparar com grandes dificuldades, pode-se abrir o livro e encontrar a solução. O leninismo não é apenas um milagroso ‘livro da sabedoria’, um compasso para nós revolucionários e cidadãos vietnamitas: é também o fulgurante sol iluminando nosso caminho para a vitória final, ao socialismo e ao comunismo”.

O discurso de Marco Antônio no funeral de César

Autor: William Shakespeare

Adaptação: César A. Ferreira

Nota de introdução: um espaço dedicado aos assuntos de geopolítica não pode se furtar aos eventos internos, pois a prática política e suas idiossincrasias marcam a atuação externa de uma nação. Todavia, melhor cobertura existe em blogs, jornais e revistas dedicados aos assuntos políticos, por força da especialização destes, ademais, a prática opinativa, tão em voga, não satisfaz os critérios deste editor. Pois, ao visitar o perfil de um amigo numa rede social, dei-me conta deste clássico de Willian Shakespeare, parte central do drama Julio César, que para olhos atentos, afeitos à reflexão, muito explica e sugere. Daí a decisão de publicar O Discurso de Marco Antônio no Funeral de César, pois, não raro é em torno da destruição deliberada de lideranças carismáticas em função de ambições políticas pautadas pelo imediatismo e oportunismo míope, que nascem os dissensos e conflitos civis responsáveis por dilacerar nações por gerações, e gerações.

O discurso de Marco Antônio no funeral de César:

Amigos, romanos, cidadãos escutai-me!

Vim para enterrar Cesar, não para louvá-lo. O mal que os homens fazem a eles sobrevive. O bem que se faz é sepultado com ossos, que seja assim com Cesar.

O nobre Brutus lhes disse que Cesar era ambicioso. Se verdade que o era, a falta era muito grave, e Cesar pagou com a vida, aqui, pelas mãos de Brutus e dos demais. Pois Brutus é um homem honrado, e assim são todos eles; todos homens de honra.

Venho para falar no funeral de Cesar. Ele era meu amigo, fiel e justo para comigo. Mas Brutus diz que ele era ambicioso. E Brutus é um homem honrado.

Trouxe muitos prisioneiros para Urbes que, para serem libertados, encheram os cofres de Roma. Isto lhes parece uma atitude ambiciosa de Cesar? Quando os pobres sofriam Cesar pranteava. Ora, a ambição torna as pessoas duras e sem compaixão. Entretanto, Brutus diz que Cesar era ambicioso. E Brutus é um homem honrado.

Todos vocês viram que nas Lupercais, eu, por três vezes, ofereci-lhe uma coroa real, a qual ele por três vezes a recusou. Isto era ambição? Mas, Brutus lhes diz que era ambicioso, e Brutus, todos o sabemos, é um homem honrado.

Não venho aqui para discordar da retórica de Brutus. Mas, tenho de lhes falar daquilo que sei. Vocês todos já o amaram e tinham razões para amá-lo. Qual a razão que os impede, agora, de render-lhe homenagem na morte?

O julgamento! Foste para o meio dos brutos animais, tendo os humanos perdido o uso da razão. Perdoai-me; mas tenho o coração, neste momento, no ataúde de César; é preciso calar até que ele ao peito me volte.

Ontem, a palavra de Cesar seria capaz de prevalecer neste mundo, agora, jaz aqui morta. Ah! Se eu estivesse disposto a levar os seus corações e mentes para o motim e a violência, mal falaria de Brutus e de Cassius, os quais, como sabem, são homens honrados. Deles não vou falar mal.

Prefiro falar mal do morto. Prefiro falar mal de mim e de vocês do que destes homens honrados. Mas, eis aqui, um pergaminho com o selo de Cesar. Eu o achei no seu armário. É o seu testamento. Quando os pobres lerem o seu testamento, porque, perdoem-me, não pretendo o ler, se arrojarão para beijar os ferimentos de Cesar, molhar os seus lenços em seu sagrado sangue.

Tenham paciência amigos, pois não devo lê-lo. Vocês não são de madeira ou ferro, e sim humanos. E, sendo humanos, ao ouvir o testamento de Cesar vão se inflamar, ficarão furiosos. É melhor que vocês não saibam que são os herdeiros de Cesar! Pois se souberem… O que vai acontecer? Vocês vão me obrigar a ler o testamento de Cesar? Então façam um círculo em volta do corpo e deixem-me mostrar-lhes César morto, aquele que escreveu este testamento.

Cidadãos! Se vocês lágrimas possuem, preparem-se para vertê-las. Todos vocês conhecem este manto. Vejam, foi neste lugar que a faca de Cassius penetrou. Através deste outro rasgão, Brutus, tão querido de Cesar, enfiou-lhe a faca, e, quando ele arrancou a sua maldita lâmina do ferimento, vejam como jorrou o sangue de Cesar.

Brutus, como vocês sabem, era o anjo de Cesar. Oh! Deuses, como Cesar o amava! O golpe de Brutus foi, de todos, o mais brutal e perverso. Pois, quando o nobre Cesar viu que Brutus o apunhalava, a ingratidão, mais do que a força da traidora punhalada, parou o seu coração.

Oh! Que queda brutal meus concidadãos. Então, eu e vocês, todos nós também tombamos, enquanto esta sanguinária traição florescia sobre nós.

Sim, agora vocês choram. Percebo que sentem um pouco de piedade por ele. Boas almas.Choram ao ver o manto do nosso Cesar despedaçado.

Bons amigos, queridos amigos; não quero estimular a revolta de vocês. Aqueles que praticaram este ato são honrados. Quais queixas e interesses particulares os levaram a fazer o que fizeram, não sei. Mas são sábios e honrados e tenho certeza que apresentarão a vocês as suas razões.

Eu não vim para roubar seus corações. Eu não sou um bom orador como Brutus. Sou um homem simples e direto, que ama os seus amigos.

Aqui está o testamento, com o selo de Cesar! A cada cidadão ele deixou 75 dracmas. Mais, para vocês lhes deixou os seus bens. Seus sítios deste lado do Tibre, com suas árvores, seu pomar, para vocês e para os herdeiros de vocês,  para todo o sempre.

Este era Cesar. Quando aparecerá outro como ele?

 

Ucrânia depois da Euromaidan

Por: César A. Ferreira

Não é uma opinião, tampouco uma perspectiva marcada por posição ideológica que seja, mas uma mera constatação: todas as nações detentoras de grandes reservas energéticas e de minerais estratégicos, ou que exibam posição geográfica essencial para o tráfego destas riquezas extraídas, sofreram em graus variados intervenções estrangeiras, que foram da desestabilização política à guerra civil, isto quando os eventos não envolveram pura e simplesmente a invasão direta por forças armadas das potências agressoras, estas, invariavelmente, oriundas da Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN.

Em 21 de novembro de 2013, embalados pela sensação sufocante de que todos os problemas existentes na Ucrânia proviam da corrupção que grassava no país, iniciou-se o processo que se conhece como revolução da Praça Maidan, ou Euromaidan. O estopim fora a recusa do então presidente, Yanukovich, de pactuar com a União Europeia, preferindo a oferta superior, muito mais substancial, de realizar uma união aduaneira com a Rússia, cuja proposta, além das vantagens de aduana, perfazia a compra de títulos da dívida ucraniana no valor de quinze bilhões de dólares americanos, além do fornecimento em taxas preferências de gás russo ao mercado ucraniano. Dado o fato de que a proposta da União Europeia era muito mais tímida, pois se tratava de um empréstimo de apenas setecentos milhões de euros, aliado a um status de parceiro comercial preferencial, mas sem adesão formal à união aduaneira, é de se espantar a existência da rejeição popular à proposta russa, absurdamente superior a sua contraparte europeia, venha a ser apontada como o estopim para a revolta generalizada.

Fato é que a Ucrânia exibia uma posição geoestratégica clara, pois é através do seu território que se encontram a maioria absoluta dos gasodutos, pelos quais trafega o gás provindo da Rússia destinado à Europa. Ademais a Crimeia, então parte integrante da república ucraniana era o território sede da importantíssima base naval de Sebastopol, sede da Frota do Mar Negro da Federação Russa. Não surpreende, portanto, a descoberta do financiamento clandestino efetuado pela legação diplomática dos Estados Unidos da América aos grupos opositores que cavalgaram politicamente a insatisfação pública dos manifestantes ucranianos, caso dos partidos de extrema direita e neonazistas, ambos desprovidos de densidade política, visto que invariavelmente permaneciam no patamar de 6% do eleitorado, inferiores ao Partido Comunista, que alcançava o dobro, cerca de 12%…

Todavia a mídia ucraniana, toda ela em posse de oligarcas locais, postou-se como crítica, uníssona, ao governo, favorável a pantomima dos estudantes, estes inflados pela ONG Students Of Liberty –  ONG cuja ligação com a CIA é para lá de notória, aponto de ser, antes, folclórica. De fato, no campo ucraniano ver-se-ia o aporte por parte dos EUA, por meio da CIA e do Departamento de Estado, do valor reportado de cinco bilhões de dólares para os eventos que culminaram com a Euromaidan.

O resultado é bem conhecido, após a ocorrência de disparos feitos por atiradores escalados pelas agências de inteligência do ocidente, que vitimaram tanto os policiais da Força Berkut (baixas encobertas pela mídia, não noticiadas), como os manifestantes (mortos e feridos amplamente cobertos pela mídia), mas cuja autoria de chofre foi jogada às costas do governo ucraniano; Yanukovich empreendeu uma fuga quixotesca em direção à Federação Russa objetivando a busca de refúgio, sendo sucedido por uma junta, cuja legalidade sempre foi questionada, até mesmo quando da eleição do atual dignitário, Poroshenko. A Ucrânia perdeu a rica península da Criméia, que optou por se juntar à Federação Russa e viu-se enredada em um conflito custoso no Donbass, que lhe impôs reveses militares múltiplos, de caráter verdadeiramente desmoralizante, caso dos cercos de Illovaysk e Gorlovka, ou da batalha pela posse do aeroporto de Donetsk. Mas, isto não representa tudo, ou todos os males.

Homens de verde
A Federação Russa agiu rápido e impôs a ordem na estratégica e rica península da Crimeia, com o uso do efetivo militar da Base de Sebastopol. Imagem: internet.

A Ucrânia, ao empreender o afastamento da Rússia, com a qual mantinha laços de cunho acadêmico, industrial e comercial de monta, em virtude de uma retórica vitimizante, de cunho nacionalista e hostil ao vizinho, de evidente carga ideológica, acabou por colher perdas econômicas desastrosas, como o encolhimento de 80% da produção da sua base industrial de Defesa, cujo símbolo é a empresa aeronáutica Antonov, imersa em dificuldades, incapaz de encontrar clientes para o belo mais dispendioso projeto An-70, cujo cliente de lançamento seria justamente a Força Aeroespacial da Federação Russa. A área de Petróleo e Gás também apresentou retração, agravado pelo aumento do dispêndio relacionado à compra desta commodity energética, agora adquirida da EU com preços majorados em 30%, quando comparados àqueles praticados pela Federação Russa, estes custos, por sua vez se agravam quando se percebe que a moeda ucraniana desvalorizou-se demasiado, cerca de 350% em comparação ao dólar norte-americano. Ademais, o rompimento com os laços financeiros havidos com a Federação Russa privou a Ucrânia de recursos da ordem de nove bilhões de dólares, anuais, na forma de remessas dos ucranianos viventes na Rússia, então o maior investimento direto obtido pela república.

A ladeira abaixo experimentada pela Ucrânia não se restringe ao setor industrial, afeta de maneira equivalente o setor agropastoril, cuja atividade também sofreu retração. Das empresas deste setor, acredita-se que quatro a cada cinco estejam falidas, ou em estágio falimentar. Apenas 72 empresas agropastoris estão credenciadas a exportar para a Europa Unida, sendo que destas 36 já excederam a sua cota anual. O FMI estima que o país, para honrar os termos acertados com o Fundo, ver-se-á obrigado a comprometer 50% da sua arrecadação até o longínquo ano de 2041, contanto que consiga exibir uma taxa de crescimento anual de… 4% ao ano!  Mágica, diga-se, um tanto inacreditável, principalmente quando se considera o fato de que a população ucraniana sofreu um rebaixamento, nesta aventura de orgia ideológica, de 50% no seu padrão de vida, queda imposta pela retração do produto interno bruto, que caiu 6,8% em 2014 e 7,5% em 2015.

Entende-se o motivo de Poroshenko ter hoje uma popularidade muito abaixo daquela que Yanukovich detinha, exibindo notáveis 77 % de rejeição, todavia, observa-se, não há contra Poroshenko nenhuma Maidan… “Revolução” que quando estava no seu auge, exibiu o apoio declarado de apenas 45% da população, notadamente daqueles do oeste, enquanto o Donbass, Criméia e a região de Odessa, opunham-se ao movimento desestabilizador.

Portanto, que se tenha em mente: qualquer semelhança, com eventos análogos que estejam a ocorrer, ou que venham a ocorrer, em qualquer parte do mundo onde hajam reservas a serem exploradas de Petróleo e Gás, não será, jamais, uma mera coincidência…

Hillary Assobrada pela Líbia

Por: Eric Margolis 

Fonte: Eric Margolis.com

Adaptação: César A. Ferreira

No corrente ano de 1987 desloquei-me até a Líbia para entrevistar seu homem-forte, Muammar Khadaffi. Vivenciamos um entardecer conversando na sua colorida tenda beduína ao lado dos Quartéis Bab al-Azizya em Trípoli que haviam sido bombardeados um ano antes pelos EUA em uma tentativa de matar o altivo líder líbio.

Khadaffi preveniu-me que caso fosse derrubado, a Líbia dividir-se-ia em três partes, tornando-se novamente presa do domínio ocidental. Seus esforços para tirar o mundo árabe e a África Ocidental da subserviência e do atraso findar-se-iam, anteviu.

Correto estava o líder líbio. Hoje, após sua morte, a Líbia se fragmenta em regiões hostis. Os EUA, França e Egito expandem sua influência pela Líbia, por último tendo-se  juntado a Itália, governante colonial da Líbia no passado. Instalaram o conjunto habitual de serviçais para cumprir suas ordens. Velhos hábitos são difíceis de morrer.

Vamos ouvir muito sobre a Líbia após as  vitórias grandiosas de Hillary Clinton e Donald Trump nas primárias da última Super Terça.

A ex-secretária de estado Hillary Clinton logo enfrentará o retorno de uma grande ameaça que a persegue desde 2012 – o ataque de extremistas da jihad contra o consulado americano em Trípoli, Líbia e a subsequente chacina a do embaixador americano Christopher Stevens e seus seguranças.

Os republicanos vêm tentando jogar a culpa por Benghazi sobre Clinton. Até agora não tem sido bem-sucedidos. Mas o boca de trapo Donald Trump com certeza hostilizará Hillary por Benghazi, seu registro como Secretária de Estado que nada fez e os problemas legais advindos. E mais, a autêntica história da falsa “libertação” da Líbia pode finalmente vir à tona.

Nem os democratas, ou republicanos até agora ousaram revelar o que realmente se deu em Benghazi. A chamada “revolução popular” de 2011 na Líbia foi um elaborado complô da França, Grã-Bretanha e EUA, ajudados pelos Emirados do Golfo e Egito, para derrubar Khadaffi, homem-forte da Líbia por quatro décadas, e assim assumir o controle de seu petróleo de alta-qualidade.

A inteligência ocidental e ONGs semi-governamentais utilizaram as mesmas táticas de subversão na Líbia que haviam empregado nas bem-sucedidas “revoluções coloridas” na Geórgia, Ucrânia e Síria, porém fracassadas no Irã e na Rússia.

Os franceses desejavam derrubar Khadaffi, pois ele afirmava ter ajudado a financiar a eleição do ex-presidente Nicholas Sarkozy. Este negou a acusação. Os árabes do Golfo queriam Khadaffi morto porque ele continuava acusando-lhes de roubar a riqueza árabe e serem fantoches das potências ocidentais. Elementos operativos da inteligência francesa tentaram assassinar Khadaffi nos anos 80. O MI6 da Grã-Bretanha procurou matar o líder líbio com uma massiva explosão de um carro-bomba em Benghazi.

A operação de mudança de regime pelos EUA, França e Grã-Bretanha começou em 2011 com os protestos populares engendrados em Benghazi. Logo foram seguidos por uma operação militar clandestina liderada por forças especiais ocidentais contra o esfarrapado exército de Khadaffi, seguido por pesados ataques aéreos. A mídia ocidental amestrada, de boa vontade fechou os olhos a esta intervenção militar ocidental, saudando-a  de “revolução popular” na Líbia.

Após Khadaffi ter sido derrubado e assassinados (reportadamente por agentes da inteligência francesa), enormes estoques de armas tornaram-se disponíveis. A secretária de estado Clinton, que patrocinara a derrubada de Khadaffi, decidiu armar a mais nova “revolução colorida” do Ocidente, os rebeldes anti-Assad da Síria.

A maioria das armas líbias estava estocada em Benghazi, foram transportadas via aérea para o Líbano, ou Jordânia, então sendo contrabandeadas para os rebeldes na Síria. O embaixador americano Stevens estava supervisionando as transferências de armas do consulado em Benghazi. Ele foi morto por jihadistas anti-americanos combatendo a ocupação da Líbia e não por “terroristas”.

Hillary Clinton, financiada por neocons importantes, arca com a responsabilidade principal por duas calamidades: a deposição de Khadaffi e a terrível guerra civil da Síria. Khadaffi estava contendo numerosos grupos jihadistas norte-africanos. Depois de sua derrocada, eles despejaram-se para o sul, no Sahel e regiões subsaarianas, ameaçando os governos dominados pelo Ocidente.

Também descobrimos que o Departamento de Estado de Clinton deu luz verde para mais de US$ 150 bilhões em vendas de armas para dezesseis nações repressivas que doaram grandes somas para a Fundação Clinton – uma espécie de governo no exílio para o Clinton Clan.

Todos os negócios sórdidos. Não é de se admirar que tantos americanos exibam fúria para com a sua classe política. Um bocado de munição para Donald Trump.