Iêmen: a nação que se recusa morrer

Por: César A. Ferreira

Mais do que um espinho, daqueles que encravam na garganta, ou um osso duro de roer, o Iêmen, para a Arábia Saudita e os seus aliados, tonou-se uma faca, cuja ponta os príncipes sauditas não se cansam de esmurrar. Para o mundo, ao que parece, o que acontece no Iêmen não importa, dado que o conflito, oficialmente apresentado como uma guerra civil entre partidários do ex-presidente Ali Abdullah Saleh, contra os partidários do deposto Abdo Rabu Mansur Hadi, ser antes de tudo, uma ilusão. Não existe uma guerra civil, o que existe, sabe-se, é uma agressão armada, providenciada pela vizinha Arábia Saudita, na forma de uma guerra por procuração, com os conhecidíssimos extremistas da Al-Qaeda, e agora, com os bombardeios diários da Força Aérea Saudita, bloqueio naval da “Coalizão Árabe”, além das  tropas sudanesas e sauditas. O Iêmen foi invadido e está em guerra contra os seus vizinhos.

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Moradias destruídas. Foto: CICV – Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

É triste ver, no entanto, o quanto o Iêmem, nação empobrecida, vem a sofrer com a agressão do seu riquíssimo vizinho: a Arábia Saudita. Hospitais são destruídos, bem como mercados e a parca infraestrutura do país, tal como as estações de tratamento de água.  A situação humanitária tornou-se caótica, como bem se vê na declaração cedida à Reuters, pela porta-voz da Cruz Vermelha, Maria Claire Feghali: “Já era bastante difícil antes, mas agora me faltam palavras para dizer o quão ruim ficou. É uma catástrofe, uma catástrofe humanitária”. Todavia, vê-se mais do mesmo. Hospitais arrasados, moradias bombardeadas. Não se pode dizer que foram eventos isolados, acidentes, pois quem conhece o caráter da região sabe que as ações foram intencionais.

Entretanto, o noroeste do Iêmen, reduto da etnia Houthi, encorpada pelo que sobrou do exército nacional iemenita, resiste bravamente, impondo aos sauditas reveses de importância, através da guerra de guerrilha. De maneira assombrosa pululam no Youtube vídeos de veículos blindados sauditas capturados, ou destruídos, sendo particularmente chocante a imagem de uma coluna saudita composta por carros de combate M-60 A3, totalmente destroçada. Não foram os únicos…

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Míssil balístico tático Tochka, no momento do seu lançamento por forças iemenitas. Foto: Asia Defense News.

Nestes últimos meses as perdas sauditas avolumaram-se. No dia 20 de dezembro (2015), elementos do Exército Nacional Iemenita, junto com reforços das Forças Populares, dispararam mísseis Qaher-1, contra tropas sauditas dispostas em Ma’arib, ocasionando a morte de mais de uma dezena de militares do reino. Em termos materiais, perderam-se alguns helicópteros de ataque AH-64 (perda admitida, mas não quantificada) e aeronaves, drones, de reconhecimento. No dia anterior, 19 de dezembro, as forças sauditas já haviam levado um golpe devastador, quando um míssil balístico Tochka-U foi disparado contra um acampamento militar, vitimando 180 militares sauditas e dos Emirados Árabes Unidos, havendo entre eles oficiais.

O interessante deste conflito, além da inadvertida resiliência iemenita, é a capacidade de produzir fatos inusitados, como a morte de um príncipe real da Casa de Saud, Mohammad bin Amir bin Jalawi Mosaed, morto, segundo a Reuters, quando chefiava um ataque contra formações “rebeldes”. Isto aconteceu 24 horas após as forças houthis terem imposto a morte de vários mercenários sauditas na região, o que demonstra inabilidade, ou falta de importância com oficiais que tenham sangue real.  Aliás, mercenários é que não faltam na região, providos pela inefável fornecedora de soldados da fortuna, Academi (ex – Blackwater). Oriundos de todas as partes do globo, boa parte deles da América Latina, notadamente da Colômbia. Como sempre, o costume saudita de lutar por procuração se faz presente, visto que o sangue mercenário derramado não causa problema algum em termos domésticos. Assim, as mortes de mercenários se acumulam, dado que sempre se pode vir a contratar outros. Desta forma temos a morte de 42 mercenários quando do ataque iemenita contra a base militar saudita de Bab-el-Mandeb, na província de Taiz, oeste do Iêmen,  aos quais se somaram 23 militares sauditas, nove dos EAU e sete marroquinos, conforme declarado por fontes e noticiado pelo site al-Masirah. A arma utilizada fora, novamente, o míssil balístico tático Tochka-U.

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MRAP destroçado por IED no Iêmen. Veículo pertencente as forças dos EAU. Três soldados morreram nesta emboscada. Foto: Asia Defense News.

A humilhação maior está para acontecer; o cerco de uma importante formação militar saudita por infantes iemenitas. Segundo informe da Agência Fars News, centenas de militares sauditas e dos EAU estariam cercados por tropas iemenitas na província de al-Jawl, mais precisamente na cidade de al-Jabal al-Aswad, sendo que dentre estes, em confrontos anteriores, haviam sido capturados 130 infantes sauditas, 39 infantes dos EAU e nove oficiais, todos eles na mesma área geográfica: província de Jawl. Isto se deu mesmo com os esforços da Força Aérea Saudita, que opera com relativa impunidade e tenta pressionar as tropas iemenitas com várias missões diárias na área, todavia, mesmo com perdas crescentes devido aos ataques aéreos, os iemenitas mantém o cerco.

E a guerra prossegue, inabalável, em seu curso. Apesar de ser impossível prever por agora o seu desfecho, percebe-se alguns paralelos com o conflito congelado do leste ucraniano, onde tropas governamentais, com todo o seu poderio, primeiro foram detidas, após um recuo tático, e depois destroçadas e forçadas a recuar. É bem verdade que o Iêmen se encontra em uma situação geográfica menos favorecida, dado que o leste ucraniano possui uma fronteira extensa com a Rússia, apoiadora dos separatistas, enquanto o Iêmen se encontra isolado por mar do seu aliado, o Irã. O conflito produziu até aqui 7.000 mortos, 14.000 feridos, outros tantos desabrigados. Este é o custo da vaidade saudita que não admite ao seu vizinho a escolha de um governante de sua preferência. Entretanto, o sonho de potência regional da Casa de Saud naufraga defronte à incompetência militar do exército saudita, bem como dos seus aliados. Enquanto isso, o Iêmen se agiganta perante as demais nações regionais, levado pelo braço forte dos seus habitantes, que combatem com Ak’s e RPG’s, calçados com sandálias… É uma história repetida e bem conhecida.

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