Venezuela, os riscos de uma intervenção

Fonte: Arsenal – Geopolítica e Defesa

Por Pedro Paulo Rezende

A Venezuela está sob ameaça de intervenção estrangeira para derrubar o presidente da República, Nicolás Maduro. O presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, já deixou claro que uma invasão não foi descartada. Seus principais auxiliares — como o secretário de Estado Mike Pompeo e John Bolton, assessor de segurança da Presidência — sempre ressaltam a possibilidade de intervenção militar. O Comando Sul das Forças Armadas já enviou oficiais superiores para analisar a situação a partir de território colombiano. Diante destes sinais, cabe analisar o aparato militar dos dois países e a experiência de intervenção ocorrida em outros países.

Os Estados Unidos já patrocinaram mais de 50 intervenções militares ao longo dos últimos 100 anos, boa parte delas na América Latina. Depois do fim da Guerra Fria, com a dissolução da União Soviética, o Departamento de Estado norte-americano acentuou suas ações na África, Ásia e Europa. Em função disto, na década de 1990, a Iugoslávia se desmembrou em seis repúblicas. Posteriormente, houve a invasão do Afeganistão, justificada pelos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, que resultaram na destruição completa do World Trade Center e de parte do Pentágono, sede do Departamento de Defesa norte-americano.

Em 2003, o alvo foi o regime de Saddam Hussein, no Iraque, realizado sob o pretexto falso de que o país desenvolvia armas de destruição em massa. A invasão estadunidense resultou em um longo processo de resistência da minoria sunita, beneficiada no arranjo de forças anterior, contra a administração em Bagdá e as tropas de ocupação. A radicalização deste movimento terminou com o surgimento do Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS), primeiro movimento terrorista da história a se organizar formalmente como governo e a dominar uma grande área territorial. O custo em vidas humanas de todos estes processos supera 1,5 milhão, civis, em sua grande maioria.

Revoluções patrocinadas

Além de intervenções diretas, Washington desenvolveu modelos alternativos que usam a sociedade civil. Em 2004, patrocinou o movimento a favor de novas eleições na Ucrânia depois que Viktor Yanukovych, defensor da cooperação com a Rússia, venceu a disputa contra Viktor Yushchenko, que queria se aproximar dos Estados Unidos. Os protestos, chamados de Revolução Laranja, foram bem sucedidos. Uma nova disputa foi determinada pela Suprema Corte e os norte-americanos conseguiram seu objetivo. O país, desde então, apresenta queda no Produto Interno Bruto, alta inflacionária e crescimento nos índices de desemprego.

O modelo da Revolução Laranja foi exportado para o norte da África em 2011. A chamada Primavera Árabe causou a mudança de governos na Tunísia e no Egito. No Marrocos, o rei Maomé 6º antecipou-se e garantiu importantes mudanças constitucionais, mas o processo resultou na instalação de um grupo fundamentalista no Cairo, comandado por Maomé Morsi, líder da Irmandade Islâmica, em 2012. A reação militar foi inevitável e o comandante do Exército, Abdul Fatah Al-Sissi, assumiu o controle do país em 2013.

Uma segunda intervenção americano-europeia, em 2014, resultou em mais uma mudança de governo na Ucrânia. Dependente do gás russo, com a economia em queda, o país oscilava entre Moscou e a União Europeia, defendida pelos grupos ultranacionalistas. Diante da falta de propostas concretas por parte do Ocidente e com a oferta de investimentos russos superiores a US$ 300 milhões, o presidente Viktor Yanukovych, o mesmo derrubado em 2004, iniciou tratativas com Moscou. Washington apoia o chamado Movimento de Maidan política e financeiramente. A vitória do grupo, que incluía milícias de orientação neonazista, resultou na colocação de Petro Poroshenko na presidência e na tentativa de um processo de limpeza étnica contra a minoria russa, que reagiu e iniciou um processo de resistência separatista na região de Donbass e de reincorporação da Crimeia à Federação Russa. O PIB ucraniano hoje é de apenas 20% do registrado na época em que o país integrava a União Soviética.

Movimentos armados

Na Líbia e na Síria, Washington, junto com aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), adotaram outro modelo: patrocinaram grupos oposicionistas a se levantarem militarmente contra os governos, de maneira a justificar uma “intervenção militar humanitária.” Os movimentos pacíficos da Primavera Árabe desandam em guerras civis com requintes de crueldade.

Na Líbia, a derrubada do ditador Muamar Al Gaddafi, apoiada diretamente por uma ação conjunta dos Estados Unidos, França, Itália e Reino Unido, quebrou o país em várias regiões dominadas por senhores da guerra. O linchamento de Gaddafi, em 20 de outubro de 2011, na cidade de Misurata, resultou em uma virada na política externa da Federação Russa e da República Popular da China. Até então, os dois países se abstinham de votar contra o intervencionismo americano, apoiado pela Europa, no Conselho de Segurança das Nações Unidas

A Síria só não sofreu fim igual ao da Líbia porque a Federação Russa, junto com o Irã, intervieram para garantir a permanência do presidente Bashar Al Assad. Neste último caso, houve uma evidência clara da esquizofrenia que atinge a política externa de Washington. Enquanto combatiam os militantes do ISIS em território iraquiano, facções do grupo terrorista recebiam financiamento, treinamento e armas fornecidos pelos governos norte-americano e aliados, incluindo Alemanha, França, Israel e monarquias do Golfo Pérsico. O conflito ainda não terminou, mas o número de vítimas fatais já supera 500 mil, com mais de 7,5 milhões de refugiados.

A questão venezuelana

Diante desses antecedentes, defender uma intervenção militar contra o governo de Nicolás Maduro beira a irresponsabilidade. Durante a presidência de Hugo Chávez, que assumiu o governo em 1998, o país sofreu uma tentativa de golpe em 2002. Na ocasião, o chefe de Estado venezuelano chegou a ser apeado do poder para ser reconduzido ao Palácio de Miraflores 72 horas depois. O episódio, que teve apoio escancarado da imprensa, dominada pela oposição, e do presidente dos Estados Unidos George Wayne Bush, que reconheceu rapidamente o presidente golpista Pedro Carmona, ficou registrado em um documentário sensacional da TV canadense: A revolução não será televisionada (veja aqui).

A partir daí, Chávez, que defendia um modelo de desenvolvimento com investimento estrangeiro, radicalizou o seu discurso. Ao morrer, em 2013, deixou um país menos injusto. O total de venezuelanos abaixo da linha de pobreza caiu de 72% para 23%, segundo dados do Banco Mundial. Os índices de analfabetismo desabaram e os indicadores sociais melhoraram. Esta herança se dissolveu ao longo do governo de Maduro por causa da escalada dos índices inflacionários.

Chávez chegou ao poder como uma forma de reação popular ao regime corrupto mantido pelas elites venezuelanas. O país se desindustrializou e perdeu capacidade de produção agrícola desde a década de 1940, quando se constatou o potencial de suas reservas petrolíferas, as maiores do mundo. Foi o primeiro episódio do que foi batizado, em 1977, pela revista britânica The Economist de “doença holandesa”. Em 1959, ao se descobrirem poços promissores no Mar do Norte, se evidenciou nos Países Baixos uma transferência de recursos das áreas produtivas para a de serviço.

Em verdade, a “doença holandesa” deveria ser chamada de “doença venezuelana”. Na década de 1950, Caracas se beneficiou de grandes investimentos em construção em detrimento da produção agrícola e industrial. Com isto, o Bolívar se sobrevalorizou e se criou uma dependência cada vez maior de produtos importados. A concentração de renda se acelerou em detrimento de 72% da população. Em um estudo feito para a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) em 1957, Celso Furtado já entendia que o dólar barato em relação ao bolívar era o principal entrave ao desenvolvimento venezuelano.

Na época, o país vivia sob regime militar de Marcos Pérez Jimenes. A Venezuela gerava muitos dólares. Os dólares eram comprados por empresas venezuelanas que os usavam para a compra de bens importados não produzidos no país. Como a relação dólar e bolívar era bastante favorável à moeda venezuelana, os bens importados entravam no país a preços bastante baixos. Os produtores locais não tinham como competir.

Aliado a isto, havia um fluxo de capitais importantes para paraísos fiscais. Segundo estudo do Banco Mundial publicado em 2000, entre 1956 e 1998, data de entrada de Chávez no governo, cerca de US$ 12 trilhões, praticamente o PIB anual da República Popular da China, foram desviados da Venezuela.

Arreglo político

Este modelo foi, a partir de 1958, administrado pela versão venezuelana da “Política do Café com Leite”, que dominou os Estados Unidos do Brasil entre 1889 e 1930. Em 1958, o regime de Marcos Pérez Jiménez caiu e eleições gerais foram marcadas para dezembro do mesmo ano. Em 31 de outubro de 1958, os três grandes partidos venezuelanos — a Ação Democrática (AD), de centro-esquerda; a União Republicana Democrática (URD), de centro, e o democrata cristão Comitê de Organização Política Eleitoral Independente (COPEI), de centro-direita — firmaram um acordo na casa de Rafael Caldera, líder da COPEI, batizada de Punto Fijo.

O Pacto de Punto Fijo permitiu à Venezuela trinta anos de estabilidade política, durante os quais a Ação Democrática e a COPEI foram efetivamente os únicos partidos a governar o país, alternando-se no poder conforme o resultado das eleições, a cada cinco anos. O equilíbrio se rompeu com o desenvolvimento de um forte clientelismo, acompanhado de intensa corrupção e a diminuição dos rendimentos advindos do petróleo.

Carlos Andrés Pérez, da AD, teve dois mandatos. No primeiro, de 1973 a 1978, seguiu uma orientação social democrática. No segundo, de 1988 a 1993, seguiu um receituário neoliberal com austeridade fiscal e desvalorização do Bolívar para enfrentar a inflação. Uma grande onda de fome resultou em uma revolta popular, o Caracazo, em 1989. Estima-se que 2.500 pessoas morreram sob a repressão do Exército em apenas três dias. Em 1992, um desconhecido tenente-coronel do Exército, Hugo Chávez, tenta tomar o poder, mas é derrotado. Preso e anistiado, concorreria à Presidência e venceria em 1998.

Fragilidade institucional

Os indicadores sociais herdados por Nicolás Maduro foram excelentes, mas Chávez não enfrentou a principal razão da fragilidade econômica venezuelana. O país depende fortemente dos preços internacionais do petróleo. Hoje, importa cerca de 90% do que consome, o que é um avanço — era de 99% na época de Carlos Andrés Pérez. Para complicar o quadro, os setores atacadistas estão sob controle da oposição. Há um regime especial para financiar os importadores, com dólar subsidiado, mas boa parte destes recursos é desviada para paraísos fiscais. Além disto, nunca se enfrentou a necessidade de uma reforma no sistema de tributação, um dos pontos destacados por Celso Furtado em 1958. Os encargos são extremamente baixos e não cobrem as despesas do governo, o que causa um déficit crônico e crescente.

O quadro é muito similar ao que resultou na derrubada do governo socialista de Salvador Allende no Chile. Produtos desaparecem das prateleiras durante meses, mas surgem milagrosamente quando o governo faz concessões aos oposicionistas e sempre podem ser encontrados no mercado negro. É preciso ressaltar que todas as reformas bolivarianas foram feitas pelo voto. Nesse processo, Chávez teve uma grande aliada: a oposição, que se recusou a disputar um pleito para tentar deslegitimar o processo. Foi um tiro no pé que resultou na diminuição da credibilidade dos partidos de oposição. Suas diferenças políticas também impediam, até Juan Guaidó, que apresentassem uma frente unida contra o regime.

Há sinais claros de corrupção no regime de Maduro, mas a oposição não fica muito atrás. Com algumas exceções, os políticos mostram sinais evidentes de aumento de patrimônio. Em uma das reuniões dos partidos, na sede da Venevisión, enquanto aguardavam o resultado do encontro, os correspondentes internacionais foram agraciados com pratos caros e vinhos importados de qualidade servidos por candidatas do concurso de Miss Venezuela. No final do encontro, os políticos protestaram contra o quadro de miséria e escassez imposto à população e anunciaram que não tinham conseguido um acordo para uma candidatura de união.

O principal racha estava na divergência de opinião entre Henrique Caprilles, um político jovem e sem envolvimento escuso com o mundo empresarial, e Leopoldo López. Na eleição presidencial de 2014, Caprilles chegou muito perto da vitória. Teve apenas 300 mil votos a menos que Maduro. A Venezuela usa o modelo eleitoral defendido pelo ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva e pelo atual chefe de Estado Jair Bolsonaro. O voto eletrônico imprime um recibo depositado em urna lacrada, que serve como contraprova. A oposição pediu recontagem, mas a auditoria, acompanhado por fiscais de todos os partidos, confirmou o resultado.

Leopoldo López, ao contrário de Caprilles, sempre defendeu uma política mais agressiva. Pessoas que o visitaram contam que ele mantém em sua biblioteca, ao alcance da mão, uma cópia de Minha Luta,livro escrito por Adolf Hitler. Partiu dele a série de manifestações agressivas que resultaram no incêndio de instalações governamentais. Maduro colocou as forças de segurança na rua, resultando em um total aproximado de 500 mortos nos últimos cinco anos. Deste total, há 150 policiais.

López foi preso, com boa dose de justiça, por incentivar atos violentos. Contra Caprilles, alegou-se seu envolvimento na compra de votos na eleição de governador para o Estado de Miranda. Hoje, está sem direitos políticos. Sem figuras de proa, os partidos de oposição usaram uma tática frequente no país: ausentaram-se da disputa presidencial para deslegitimizar Maduro.

A última eleição teve abstenção recorde de 54%, mas foi realizada sob supervisão internacional. O ex-presidente do Conselho de Ministros da Espanha, José Luiz Zapateiro, foi um dos fiscais e testemunhou a limpeza do pleito, apesar dos rumores de intimidação de eleitores.

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SU-30 MKV – Força Aérea Bolivariana da Venezuela. 23 aeronaves no inventário de 24 recebidas, uma delas perdida em acidente de desorientação espacial. Imagem: internet.

Quadro atual

O presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente da Venezuela, é discípulo de Leopoldo López. Formado pela Universidade Católica Andrés Bello, de Caracas, fez pós-graduação na Universidade George Washington, um dos centros que fomentam líderes conservadores de países do terceiro mundo.

Ele não dispõe do apoio militar e tem um oponente de peso no aparato de segurança, criado durante a gestão de Hugo Chávez. Além das Forças Armadas Bolivarianas, que incluem Exército, Marinha e Aeronáutica, existem os coletivos, grupos armados de autodefesa que se localizam nas áreas populares, e as milícias, com mais de 1,5 milhão de cidadãos armados. O país mantém as melhores equipadas forças do continente. São 24 caças Su-30MKV, capazes de lançar mísseis antinavio supersônicos; 16 caças Lockheed-Martin F-16A de fabricação norte-americana, operacionais, apesar dos anos de embargo; mísseis antiaéreos russos de última geração, inclusive S300S, capazes de cobrir todos os aspectos de altitude em um raio de ação de 150 quilômetros, e mais de 450 carros de combate, 250 deles do modelo T-72.

Uma intervenção militar estrangeira poderia superar as forças armadas regulares, mas não se pode minimizar o risco da resistência popular. Ao contrário do Iraque, o terreno na Venezuela facilita a guerrilha urbana e no campo. Há boa cobertura e potencial humano em todo o território da república e um núcleo duro do bolivarianismo que entraria na clandestinidade para resistir aos invasores.

Conscientização e militância

Tive uma oportunidade rara no dia da fundação da União de Nações Sulamericanas (UNASUL), em 23 de maio de 2008: encontrar e conversar com o general Jacinto Pérez de Arcay, principal teórico do bolivarianismo e professor de Hugo Chávez na Escola Militar. Ele explicou a parte ideológica do movimento, embasado em Hegel e no socialismo cristão defendido por alas à esquerda da Igreja Católica e da Teologia da Libertação. Usava argumentos sólidos e bem embasados. A formação dele, no entanto, está longe de ser atípica. As Forças Armadas da Venezuela se preocupam, desde a década de 1960, com a adaptação dos militares que passam para a reserva à vida civil. Os oficiais são estimulados a frequentar universidades civis ao longo da carreira e recebem incentivos financeiros para seguirem uma carreira acadêmica paralela à caserna. A maioria segue cursos na área de humanas.

A exemplo do Brasil, a carreira militar é um dos meios de ascensão social. Este é o caldo de cultura do bolivarianismo: consciência proletária alicerçada pelo acesso a teorias econômicas e políticas progressistas no meio acadêmico. É bem verdade que o núcleo duro do chavismo se afastou de Maduro, inclusive o general Pérez de Arcay, mas restam poucas dúvidas de que se uniria contra um invasor estrangeiro.

Diante dos antecedentes, se houver uma intervenção militar, os resultados serão desastrosos para o povo venezuelano. Uma grande dose de bom senso deve prevalecer para que a grave situação no país não se torne ainda pior. É bom lembrar que a maior potência militar, os Estados Unidos, negocia, neste mesmo instante, sua saída do Afeganistão com o Talibã, um grupo fundamentalista islâmico que tirou do poder ao invadir o país em 2001. Uma prova de que entrar é fácil. Sair, com um mínimo de dignidade, é que são elas. É só recordar as cenas da evacuação da embaixada americana em Saigon, o último episódio da Guerra do Vietnã, em 30 de abril de 1975.

Para os que apostam em uma melhoria imediata com a tomada do poder pela oposição, é preciso lembrar que há uma série de problemas estruturais gravíssimos que não se solucionaram. O petróleo é uma droga pesada e destruiu quase todos os setores da economia da Venezuela, que já foi um grande produtor de alimentos até a década de 1940. Os esforços de Chávez para diminuir a dependência, apesar de avaliação positiva da FAO, apresentaram resultados insuficientes

O que os líderes russos aprenderam do colapso da URSS?

Por: Pyotr Akopov

Publicado originalmente (Ru), por: Vzglyad

Data: 27.01.2016

Traduzido para o inglês e publicado no site South Front, por: J. Halk

Traduzido para o português pelo Coletivo da Vila Vudu

Fonte em português: Blog do Alok

Adaptado por: César A. Ferreira/DG.

A Rússia Soviética foi destruída pelo vai-não-vai para todos os lados e para lado algum, pela ausência de visão estratégica, pela fraqueza e pela covardia de Gorbachev (…).

Tendo iniciado a reforma do sistema econômico e político antes de ter construído plano estratégico coerente, tão logo as reformas começaram a gerar mais problemas que soluções, Gorbachev assustou-se e meteu os pés pelas mãos. E daquele momento em diante – cercado por intrigas e dedicado a promover ‘mudanças’ sem qualquer rumo ou sentido nos quadros mais altos do governo –, Gorbachev consumiu todas as próprias forças exclusivamente para preservar a própria autoridade”.

A declaração do secretário do Conselho de Segurança da Rússia Nikolai Patrushev sobre as causas do colapso da URSS é nela e por si mesma muito esclarecedora. Mostra que a liderança russa não apenas compreende corretamente as razões daquela catástrofe, mas tem a vontade política indispensável para responder aos desafios internos e externos. Quanto a isso, sua avaliação da atual situação na Ucrânia é particularmente indicativa.

Durante toda a era Putin, Nikolai Patrushev sempre foi um dos mais importantes líderes nacionais russos. Começou por assumir o lugar de Putin na direção do Serviço Federal de Segurança da Federação Russa (ru. FSB, órgão que substituiu a KGB), e ocupou por oito anos o posto de secretário do Conselho de Segurança.

Ao longo dos últimos quatro anos, o Conselho de Segurança foi-se convertendo na principal instituição coletiva de governança na Rússia. Entre seus membros estão os chefes militares e de segurança e ministros do bloco presidencial, além dos presidentes das Câmaras legislativas.

O Conselho de Segurança lida com conjunto muito vasto de problemas, mas, além disso, Patrushev é um dos quatro cabeças que definem e mantém o curso do país na arena internacional, ao lado de Putin, Sergey Ivanov e Sergey Lavrov. No ocidente, Patrushev é tradicionalmente pintado como “falcão”, mas nada é além de realista sóbrio e homem sem ilusões sobre o “projeto” atlanticista [que quer a integração do país ao “ocidente”, sob o “comando” dos EUA; opõe-se aos “eurasianos soberanistas”, na expressão do Saker, que querem a integração da Eurásia para constituir outro polo, em mundo multipolar (NTs)].

E entre os quatro citados acima não há divisão entre “falcões” e “pombos”, como se vê nos EUA, assim como não há desacordos fundamentais no que tenha a ver com a situação internacional e os objetivos da Rússia. Mas, dos quatro, Patrushev é o que mantém perfil de menor exposição pública. Explica-se pela sua natureza, o tipo de homem que é e por sua biografia, e também pela posição que ocupa no Estado, e que não lhe permite deixar-se distrair com cerimônias e discursos rituais. Por tudo isso, Patrushev serve-se de entrevistas para divulgar suas ideias sobre o país. Mas continua extremamente cuidadoso nas declarações e edita todas as entrevistas depois de redigidas, para remover qualquer formulação que lhe pareça descabida. Também por esse procedimento, pode-se ter certeza de que o que é afinal publicado é realmente o sumo importante do pensamento do entrevistado, mais do que do entrevistador –, como tão frequentemente acontece em entrevistas jornalísticas no ocidente.

Isso, precisamente, é o que acontece na entrevista que Patrushev concedeu, na 3ª-feira, ao jornal Moskovskiy Komsomolets (ru.).

A discussão pós-entrevista ficou centrada nas palavras dele sobre como os EUA, para alcançar dominação global, têm de enfraquecer a Rússia o mais que possam, “e não se deve descartar que trabalhem diretamente com o objetivo de desintegrar a Federação Russa”.

Patrushev disse que “Washington acredita que, sendo necessário, pode servir como catalisador daquele processo”, o que “daria aos EUA acesso à enorme riqueza, em recursos naturais, que, na avaliação dos norte-americanos, a Rússia não mereceria ter”.

É declaração importante, porque define abertamente os objetivos estratégicos do adversário. Mas não traz nenhuma novidade absoluta, porque o mesmo Patrushev já disse isso por várias outras vezes.

No período pós-Crimeia, todos os membros da alta liderança, de Putin a Lavrov, tornaram-se mais, ou menos abertos nas críticas às ações dos EUA. Não porque tenham aprendido alguma coisa nova sobre os planos de Washington, mas porque o relacionamento com os atlanticistas entrou no estágio do conflito geopolítico direto.

Até o extremamente reservado Patrushev fez várias declarações bem duras – mas, afinal, guerra é guerra. Enquanto isso, o Kremlin continua a destacar que não foram os russos que começaram o confronto com os EUA. Patrushev faz lembrar mais uma vez que “os EUA iniciaram o atual conflito. E a Europa submeteu-se ao que os EUA determinaram; e, para neutralizar os membros ‘abertamente’ independentes da OTAN (França, Alemanha e Itália), Washington está usando com habilidade a orientação anti-Rússia nos países do flanco oriental da OTAN”.

De fato, a pressão começou sobre a Rússia em 2011, com as “revoluções coloridas” e os preparativos para as eleições presidenciais na Rússia. Washington não queria saber da volta de Putin, e começou a interferir abertamente em assuntos internos de nosso país. Depois de fracassar, sem conseguir impedir a eleição e a posse de Putin, os EUA passaram a reforçar então a política de contenção da Rússia e de “cercar o país”. E isso, logo depois, levou ao golpe na Ucrânia.

Sobre o conflito na Ucrânia, Patrushev não disse apenas que “a sociedade internacional deveria agradecer-nos pela Crimeia. Graças ao que fizemos ali, muito diferente do que foi feito no Donbass, não houve nenhuma morte na reincorporação da Crimeia”. Patrushev também ofereceu sua visão sobre o futuro da Ucrânia, no trecho que traz as duas declarações mais importantes da entrevista.

O secretário do Conselho de Segurança da Rússia disse, de fato, que se Kiev continuar no curso em que está hoje, a Ucrânia deixará de existir. Não é ultimato ou ameaça: é simples constatação de um fato. É também uma explanação de como o Kremlin avalia a situação da Ucrânia e de nossa estratégia para aquele estado.

“Nesse momento, a Ucrânia é governada por prepostos dos EUA que implementam o desejo de forças externas que querem afastar a Ucrânia, da Rússia, cada vez mais. Esse é curso absolutamente sem futuro. Se não for alterado em breve, levará ao total colapso da economia ucraniana e à desintegração do país. Sobretudo, a Federação Russa e a Ucrânia são povoadas por, de fato, uma única nação, que está dividida. A Ucrânia inevitavelmente passará pela experiência de repensar o que está acontecendo hoje. Relações normais entre nossos países podem, eventualmente, ser restauradas”.

Não, Patrushev nada disse que sugira que o Kremlin trabalharia sobre a hipótese de que os dois países serão inevitavelmente reunificados no futuro. Nada disse, nem teria por que dizer isso, menos ainda agora, quando as chamas dos dois conflitos – o interno na Ucrânia e o conflito Kiev-Moscou – estão sendo tão ativamente infladas de fora e por dentro.

Não há motivo algum para dar, não importa a quem, subsídios para acusar a Rússia de expansionismo (a reunificação do povo russo e do território russo não é assunto para discussão fora do país, não importa que o ‘interlocutor’ tente impor-se). Hoje, a primeira questão é repelir o ataque que deu aos atlanticistas o controle de Kiev, ao mesmo tempo em que se luta para impedir que os atlanticistas construam uma muralha que venha a separar a Rússia da União Europeia.

Sim, Patrushev menciona que “estamos interessados em preservar a Ucrânia como país unificado e não estamos interessados em que o país seja rachado. Acreditamos que os Acordos de Minsk têm de ser integralmente implementados. A questão é se Kiev está preparada para tudo isso”.

É perfeitamente verdade – a Rússia não quer a Ucrânia quebrada, porque levaria a mais derramamento de sangue e complicaria, embora não a impeça, a futura reunificação com a Rússia. Mas para deter a desintegração da Ucrânia hoje em andamento, é preciso rejeitar o modelo pelo qual a “Ucrânia não é parte da Rússia, mas parte da Europa” (o modelo atlanticista, de orientação anti-Rússia). A atual elite ucraniana rejeitará aquele modelo? Não. Assim sendo, todos os aspectos apontam cada vez mais para o cisma ucraniano.

Por enquanto o Donbass, que está sobre patrocínio e proteção da Rússia, terá de esperar que chegue a hora de reintegrar a Ucrânia como a Malorossia [“Pequena Rússia”] e a Novorrússia.

A referência à “nação ainda dividida” indica que Patrushev partilha a visão de Putin – de que há um grande povo russo, do qual os “ucranianos” são parte e que será reunido. Naturalmente, não diz como nem quando, porque não se pode adivinhar o futuro; mesmo assim, é crucial que a liderança russa trabalhe com o pressuposto de que há um só povo russo e busque a união de todos os russos. A estratégia e as táticas do Kremlin foram e continuam a ser decididas com vistas a alcançar esse objetivo.

Essa política em nada se beneficiaria de excessiva publicidade e só alcançará sucesso se as pessoas que a conduzem se movimentarem sob a firme convicção de que seja a política mais acertada e não tenham medo de tomar decisões. E a questão da responsabilidade dos governantes é, precisamente, tema do segundo pronunciamento mais importante nessa entrevista.

Respondendo uma pergunta sobre a expectativa dos EUA de que a Rússia venha a consumir todos os seus recursos econômicos e renda-se, Patrushev disse que somos país autossuficiente, que pode prover aos próprios cidadãos tudo de que precisem para viver. Na sequência, passou a analisar paralelos que se observam entre o que se passa hoje e o que se passou há um quarto de século:

[Patrushev]Você me perguntou sobre o colapso da URSS. A União Soviética não colapsou por causa de problemas econômicos ou na economia soviética. O que aconteceu foi que os líderes soviéticos simplesmente perderam a cabeça, enlouqueceram. Deixaram de compreender o que tinham de fazer e por quê; não conseguiram ver ou criar saída à frente que superasse os problemas da União Soviética. E o mais grave e decisivo para aquele colapso: a liderança soviética não assumiu a responsabilidade que lhe cabia.

Os últimos líderes soviéticos esqueceram o mais importante princípio do que significa governar um Estado: o governante que toma uma decisão responde por ela. Relembre, por exemplo, a decisão de enviar tropas à Geórgia ou a Lituânia. Será que alguém realmente crê que teria acontecido como aconteceu, por decisão tomada no comando local? Não é possível. Não é explicação séria”.

[Entrevistador] – Concordo que não seja séria. Mas o que isso tem a ver com os problemas econômicos da URSS ou da Rússia contemporânea?

[Patrushev] – “Tem a ver muito diretamente, porque nesse primeiro caso o que se tem é a decadência do sistema de governança do Estado. A liderança da URSS não manifestou qualquer vontade política quando ela era mais necessária, não mostrou qualquer senso de convicção, de autoconvencimento profundo, de confiança em sua própria capacidade para preservar o país; e não tomou as necessárias medidas econômicas.

Hoje, as lideranças russas que comandam o país já comprovaram mais de uma vez que têm forte vontade política e que têm as indispensáveis capacidades para preservar e fortalecer o desenho constitucional, a soberania e a integridade territorial do Estado russo.”

Patrushev, portanto, observa muitíssimo corretamente que o colapso da URSS nada teve a ver com crise econômica, mas, isso sim, com o comportamento irresponsável dos governantes, que levou ao colapso, não da União Soviética, como se o problema tivesse sido os sovietes ou o comunismo, mas do sistema de governança do Estado.

De fato, apesar da inflexibilidade da economia planejada, a Rússia não foi destruída nem pela queda dos preços do petróleo nem, sequer, por reformas econômicas alucinadas, sem qualquer sentido.

O país foi destruído pelo vai-não-vai para todos os lados e para lado algum, pela ausência de visão estratégica, pela fraqueza e pela covardia de Gorbachev, que era quem governava o país naquele momento.

Tendo iniciado a reforma do sistema econômico e político antes de ter construído plano estratégico coerente, tão logo as reformas começaram a gerar mais problemas que soluções, Gorbachev assustou-se e meteu os pés pelas mãos. E daquele momento em diante – cercado por intrigas e dedicado a promover ‘mudanças’ sem qualquer rumo nos quadros mais altos do governo –, Gorbachev consumiu todas as próprias forças exclusivamente para preservar a própria autoridade.

Já sem o apoio do partido, deslocou o centro de gravidade na direção dos sovietes e de expandir os direitos das repúblicas, ao mesmo tempo em que sacrificou a posição internacional do país.

Gorbachev nunca foi particularmente brilhante, mas, pela posição, tinha imenso poder executivo. Seus “parceiros” só se rebelaram contra ele em agosto de 1991, quando afinal se descobriu que Gorbachev já avançara a ponto de ter preparado um tratado que transformaria a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas numa confederação – desmontando a unidade do Estado russo. De fato, Gorbachev apoiou a (intenção/interesses) dos “parceiros”, depois que se deu conta de que não lhe restava alternativas. Mas Gorbachev apoiou os “parceiros” de tal modo, que lançou às costas deles responsabilidades que, a rigor, não eram deles, mas suas, de Gorbachev.

“Vão em frente”, disse o presidente da Rússia aos que resolveram criar o Comitê Estatal do Estado de Emergência [ru. sigla, GKChP) em 1991. Mas logo no dia seguinte, deu-se contra de que estava sendo deposto, não por causa de intrigas de Yeltsin, mas por causa dos putschistas (golpistas) que o haviam procurado. O que fez Gorbachev? Correu para casa e gravou uma mensagem a ser distribuída por televisão, denunciando que o presidente havia sido “preso” (caso acontecesse).

Irresponsabilidade, falta de visão do que tinha de ser feito, e falta de confiança nas próprias capacidades e habilidades – eis o que pôs abaixo um grande país. Isso é o que o Kremlin de hoje compreende perfeitamente.

E aí está por que Patrushev diz que os governantes, hoje, assumem plena responsabilidade pelo que decidem; que desejam – com vontade política clara – preservar o Estado russo e torná-lo mais forte; que sabem que a Rússia é país autossuficiente; que acreditam na Rússia e, não menos importante, que conhecem e confiam nas próprias capacidades.

O secretário do Conselho de Segurança da Rússia fala aí, em primeiro lugar e, sobretudo, embora sem citá-lo nominalmente, do presidente Putin, mas também se refere a mais alta instância de governo do país que, precisamente, se reúne no Conselho de Segurança. As políticas econômicas do governo e os debates a elas associados têm, nessas condições, importância secundária.

Sem negar a enorme importância do que está sendo feito e de quais são as preferências macroeconômicas desses ou de outros ministros do Gabinete como um todo,  a autoconfiança bem informada dos que hoje, no Kremlin, traçam a rota da Rússia e a fazem caminhar por ela é, de longe, muito mais importante.

O que se vê hoje é uma equipe coesa, que navega abaixo de tempestade densa, ajudada por um coro de assessores e conselheiros que vão iluminando o caminho, caminhando abaixo do fogo inimigo, rumo a objetivo bem definido, que todos os membros da equipe conhecem e entendem com perfeita clareza. Essa autoconfiança fundamentada, combinada à vontade política, é indispensável para reparar os buracos que nos fazem as balas do inimigo e para enfrentar as tentativas internas para fazer naufragar o navio e reabrir os buracos no casco.

A responsabilidade que o presidente russo aceita, e assume sobre o trabalho bem coordenado de uma equipe de pessoas que tenham visão comum e ocupem os postos chaves – é item imprescindível. E aí está a diferença crucial, entre a Rússia de hoje e àquela que existiu naqueles tristes anos da perestroika.

E se a China tiver a chave do quebra-cabeça afegão?

Por: Pepe Escobar

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Fonte original: RT

Fonte em Português: Oriente Mídia

Como Lázaro, há razões para crer que o processo de paz afegão pode ter tido uma chance de ressuscitar na 2ª-feira passada em Islamabad, quando quatro grandes players – Afeganistão, Paquistão, EUA e China – sentaram-se ao mesmo tempo à mesma mesa.Mas o comunicado final ficou longe de ser retumbante: “Os participantes enfatizaram a necessidade imediata de conversações diretas entre representantes do governo do Afeganistão e representantes de grupos Talibã num processo de paz que visa a preservar a unidade, a soberania e a integridade territorial do Afeganistão.”Uma semana antes da reunião em Islamabad, ainda no Golfo Persa, tive conversa extremamente esclarecedora com um grupo de pashtuns afegãos. Depois de quebrado o gelo, quando todos se convenceram de que não sou algum tipo de agente à moda Sean Penn, com agenda oculta, meus interlocutores pashtuns entregaram o que tinham de melhor. Senti-me de volta a Peshawar em 2001, uns poucos dias antes do 11 de setembro.A primeira grande novidade foi que dois oficiais Talibã baseados no Qatar, estão próximos de reunir-se cara a cara com altos enviados chineses e paquistaneses, sem interferência dos EUA. Encaixa-se perfeitamente na estratégia demarcada pela Organização de Cooperação de Xangai (OCX), liderada por China e Rússia, segundo a qual o enigma afegão tem de ser resolvido como assunto asiático. E Pequim com certeza quer solução, e rápida; pensem no capítulo afegão das Novas Rotas da Seda.

A Guerra Afegã pós 11/9 arrasta-se por intermináveis 14 anos; adotando o jargão pentagonês, pode-se pensar em Liberdade Duradoura para sempre. Ninguém está vencendo – e os Talibã estão mais divididos que nunca, depois que processo de paz passado colapsou quando os Talibã anunciaram que Mullah Omar morrera dois anos antes.

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Guerreiro Taliban e o seu RPG-7. Foto: Foto: internet.

Aquela boa velha “profundidade estratégica”

Mesmo assim, tudo depende do complexo jogo entre Cabul  e Islamabad.

Considere os movimentos de vai-e-vem do Chefe Executivo Organizacional (CEO, é o título dele) afegão, Dr. Abdullah Abdullah. Vive entre Teerã – onde enfatiza que o terrorismo é ameaça contra ambos, Irã e Afeganistão – e Islamabad, onde discute os arcanos do processo de paz com oficiais paquistaneses.

O primeiro-ministro paquistanês Nawaz Sharif, por sua vez, não perde uma chance de renovar seu compromisso com a paz e o desenvolvimento econômico no Afeganistão.

Quando uma tentativa de processo de paz realmente começou – informalmente – em Doha, em 2012, incluindo oito funcionários Talibã, os Talibã ficaram furiosos por Cabul  ter realmente privilegiado as conversações com Islamabad. A posição oficial dos Talibã é que são politicamente – e militarmente – independentes de Islamabad.

Como meus interlocutores pashtuns destacaram, muita gente no Afeganistão não sabe o que fazer de toda aquela conversa Cabul -Islamabad, incluindo o que consideram concessões perigosas, como enviar jovens soldados afegãos para receberem treinamento no Paquistão.

Islamabad joga jogo muito alavancado. O grupo Haqqani – que Washington rotula de terroristas – encontra base segura dentro das áreas tribais do Paquistão. Pois o Talibã está sentado à mesa de negociações de qualquer processo de paz a ser negociado pelo Paquistão – que ainda conta com muita alavancagem sobre aqueles Talibã posicionados à volta do novo líder, Mullah Akhtar Mansoor.

Meus interlocutores pashtuns não têm dúvida alguma: os Talibã e os serviços secretos do Paquistão, ISI (Inter-Services Intelligence), são uma e a mesma coisa, como sempre foram. A aliança estratégica que sempre os uniu continua ativa. Todos os Talibã em Doha são monitorados pelo ISI.

Por outro lado, parece haver mudança sutil envolvendo militares paquistaneses e o ISI(que sabe tudo o que haja para saber, e é cúmplice de muito do que acontece concernente aos Talibã). Mês passado, o comandante do exército do Paquistão general Raheel Sharif foi sozinho ao Afeganistão; pode significar que os militares privilegiarão uma paz real em campo, em vez de manipular o Afeganistão como alguma “profundidade estratégica” do peão paquistanês.

Atenção: tubulação à frente

Assim sendo, em princípio, prosseguirá a conversa afegã. O grupo Hezb-i-Islami Afghanistan (HIA), liderado por Gulbuddin Hekmatyar – outro ator chave na Lista dos Terroristas Top Ten de Washington – está também interessado no processo de paz. Mas oHIA diz que tem de processo que pertença aos afegãos, liderado pelos afegãos – o que significa: sem interferência do Paquistão. Hekmatyar está claramente se posicionando para futuro papel de protagonista.

O enredo engrossa se se passa, dos Talibã para os avanços de ISIS/ISIL/Daesh no Afeganistão. Para círculos próximos do ex-presidente Hamid Karzai, codinome “ex-prefeito de Cabul” (porque só controlava a cidade, nada mais), Daesh é invenção da política externa de Islamabad, para garantir ao Paquistão acesso total à Ásia Central, à China e à Rússia ricas em energia.

Parece um pouco forçado, se se compara ao que realmente se passa hoje no Oleogasodutostão.

Cabul entregou a uma força de segurança gigante, de 7 mil membros, a tarefa de proteger o gasoduto de $10 bi, 1.800 km de comprimento Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia (TAPI), dentro do Afeganistão, assumindo que estará realmente construído até dezembro de 2018. Com otimismo, o trabalho de abrir caminho para o TAPI – o que inclui retirada de minas – começará em abril.

O presidente do Turcomenistão Gurbanguly Berdymukhamedov já ordenou que empresas estatais, a Turkmengaz e a Turkmengazneftstroi, comecem a construir a parte turcomena, de 214 km, do gasoduto TAPI. O gasoduto também atravessará 773 km pelo Afeganistão e 827 km pelo Paquistão, antes de chegar à Índia. Se esse frenesi todo realmente se materializará até 2018 é tema para infindáveis discussões.

E onde está minha heroína?

Enquanto tudo isso acontece, o que anda fazendo a CIA?

O ex-diretor interino da CIA Michael Morell está espalhando “a reemergência do Afeganistão como questão”, de modo que “a discussão de quantos soldados nós [os EUA] mantemos no Afeganistão vai ser reaberta”.

O Pentágono por sua vez anda espalhando que seriam necessários 10 mil coturnos em solo. O comandante da OTAN no Afeganistão, general John Campbell, fala de 10 mil, para acabar com a conversa: “Meu objetivo seria manter o maior número possível de soldados, pelo tempo mais longo possível”. Liberdade Duradoura para sempre, sem dúvida –, agora que o Pentágono foi forçado a admitir, on the record, que as forças de segurança afegãs são incapazes de “operar integralmente por conta própria”, apesar do investimento monstro que Washington fez, de mais de $60 bilhões desde 2002, até agora.

O mais recente relatório do Pentágono fala da segurança no Afeganistão cada vez maisdown, down, down. O que nos leva até Helmand.

Apenas poucos dias antes da reunião de Islamabad, forças especiais dos EUA encobertas por soldados afegãos enfrentaram em tremenda troca de tiros com o Talibã em Helmand. O secretário de imprensa do Pentágono Peter Cook, naquele duplifalar que é sua marca registrada, não falou de “combate” – falou de missão para “treinamento, aconselhamento e assistência”.

O Talibã controla mais território no Afeganistão – nada menos de quatro distritos em Helmand –, mais do que jamais antes, desde 2001. Civis são colhidos no fogo cruzado. E forças especiais e ataques aéreos por forças especiais do Pentágono em Helmand são descritos como ‘supervisão’.

No final, tudo volta sempre a Helmand. Por que Helmand? Meus interlocutores pashtuns relaxam e dizem, de boca cheia: sempre tem a ver com o envolvimento da CIA no tráfico de heroína no Afeganistão: “os norte-americanos simplesmente não podem perder aquilo tudo”.

Assim sendo, parece que estamos entrando num novo capítulo do épico ‘gás e papoulas’ no coração da Eurásia. Os Talibã, divididos ou não, já impuseram a linha vermelha deles: nada de conversas com Cabul, antes de terem conversa direta com Washington. Do ponto de vista Talibã, faz perfeito sentido. Oleogasodutostão? OK, mas queremos nossa fatia (é outra vez a mesma história, desde o primeiro governo Clinton). A CIA não abre mão da heroína? OK, levem quanto quiserem, mas queremos nossa parte.

Meus interlocutores pashtuns, que tem de tomar um avião para Peshawar, abrem um mapa do caminho. Os Talibã querem que o escritório deles no Qatar – palácio realmente muito bonito – seja oficialmente reconhecido como representação do Emirado Islâmico do Afeganistão (nome oficial do país de 1996 a 2001). Querem que a ONU – para nem falar dos EUA! – retirem os Talibã da lista de “mais procurados”. Querem que todos os Talibã sejam libertados das prisões afegãs.

Acontecerá? Claro que não. Significa que chegou a hora de Pequim entrar na conversa com um daqueles cenários de ganha-ganha.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

Washington, Bagdá, em diferentes páginas na luta contra o Estado Islâmico

A matéria que segue assinada por Slobodan Lekic, é de uma importância impar, não só pelo conteúdo revelador do texto, mas pelo fato de ter sido publicada na revista Stars & Stripes, conhecido órgão informativo militar dos EUA. Portanto, ter uma matéria que elenca entre aspas o conceito de rebelde “moderado”, como neste texto publicado na Star & Stripes, é perceber que a retórica do Departamento de Estado não está sendo considerada como séria, nem mesmo dentro das fronteiras dos EUA. A matéria foi publicada originalmente na Stars & Stripes no dia 13 de dezembro de 2015.

Washington, Bagdá, em diferentes páginas na luta contra o Estado Islâmico

Por: Slobodan Lekic

Deu-se durante a semana passada uma longa série de desavenças políticas em Bagdá, em torno da presença de forças estrangeiras em solo iraquiano, o que acabou por ter exposto a progressiva fraqueza do primeiro – ministro do Iraque, bem como a uma desconexão entre Washington e Bagdá, no tocante à luta empreendida contra o grupo Estado Islâmico.

Disse John Kerry: “(…) com a transição da Síria, as forças terrestres, Estado Islâmico, pode vir a ser derrotado em questão de meses”.

O Estado Islâmico pode ser derrotado em “meses”, caso haja um cessar –fogo entre o governo e os rebeldes “moderados” da Síria, afirmou o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, nesta quinta-feira, exortando o mundo a se unir em torno de uma estratégia de paz, lançada recentemente pelos Estados Unidos, Rússia e outras nações.

Irbid, Jordânia: o principal grupo rebelde árabe apoiado pelo Ocidente na Síria parece à beira do colapso, por causa da moral baixo, advindo das deserções, desconfiança de seus líderes pelo despreparo e confisco de soldos, ameaçando os esforços dos EUA para montar uma força terrestre que seja capaz de derrotar o Estado Islâmico e com isto negociar um fim à guerra civil síria.

“Depois de cinco anos desta guerra as pessoas estão apenas cansadas…  Por isso são nossos combatentes”, disse Jaseen Salabeh, um voluntário no Exército Sírio Livre, que foi formado em setembro de 2011 por desertores do exército do presidente sírio, Bashar Al Assad.

O Exército Sírio Livre, ESL em português, ou FSA, em inglês, que possui dentre aas suas fileiras membros treinados pela Agência Central de Inteligência, CIA, é o maior e o mais secular dos grupos rebeldes que combatem o governo Assad. Apesar de o foco de atenção do Ocidente ser a derrota do Estado Islâmico, acreditam os EUA não poder haver uma paz duradoura na Síria, e a não eliminação do Estado Islâmico, enquanto Assad continuar no poder.

A fim de lidar tanto com o Estado Islâmico, quanto com o futuro de Assad, o Secretário de Estado, John Kerry, e o Ministro do Exterior da Federação Russa, Sergey Lavrov,   buscam intermediar um plano para trazer o governo sírio, que a Rússia apoia, e todos os grupos rebeldes “moderados”, para uma mesa de negociação,  em Viena, Áustria,  no próximo mês. O objetivo é construir uma coalizão para empreender uma campanha  de contra-terrorismo tendo como alvo os militantes Estado islâmico e se preparar para eleições democráticas nos próximos 18 meses.

Com uma estimativa de efetivos da ordem de 35.000 combatentes, a ESL continua a ser o maior grupo rebelde e é um elemento-chave na estratégia norte-americana. Aos combatentes do Estado islâmico são creditados o número de  30.000 homens em armas, mas espalhados por uma ampla área da Síria e do Iraque. Caso o ESL não possa ser invocado como um parceiro forte, de confiança, os EUA e seus parceiros ocidentais ver-se-iam obrigados a recorrer a uma imensa gama de milícias islâmicas radicais, com efetivos menores – apoiadas pela Arábia Saudita e pelo Qatar –  algo que o Ocidente teme, por serem demasiadamente militantes para conciliar com um o governo secular. Rebeldes curdos, conhecidos como o YPG, têm lutado muito bem em áreas curdas, mas tais forças não são consideradas como uma opção válida para as partes árabes do país.

Ao contrário do Estado Islâmico e outros grupos mais extremistas mais, o ESL não conseguiu atingir obter vitórias significativas,  ou criar uma zona “libertada” a partir do seu próprio esforço. Em muitas ocasiões, dizem os seus ex-combatentes, as unidades ESL têm cooperado estreitamente com a Frente Al-Nusra, filiada a Al-Qaeda, que é forte ao norte e que compartilha o mesmo campo de batalha como o ESL no sul da Síria.

“A falta de sucessos nos campos de batalha os enfraqueceram”, Ed. Blanche, um membro baseado em Beirute do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres, e especialista em guerras do Oriente Médio. Disse sobre o ESL: “Eles não estão recebendo apoio significativo (externo), por não terem mostrado resultados”. Dentre outros problemas, Salabeh e outros informam, está o fato de estarem os combatentes do ESL a perder a fé em sues próprios líderes. “Eles roubam regularmente nossos soldos”, disse Salabeh, que veio a esta cidade no norte da Jordânia depois de ser ferido em batalha e agora pretende ficar aqui. “Nós deveríamos receber US$ 400 por mês, mas realmente recebemos só US$ 100”. Queixou-se também da falta de apoio para aqueles mortos, ou feridos em batalha. Combatentes  que perderam as pernas em combate foram reduzidos à mendicância dentro dos enormes campos de refugiados no norte da Jordânia. “Se alguém está ferido, eles simplesmente jogam-no na Jordânia e o abandonam”, disse ele. “As viúvas de combatentes, mártires, também nada recebem após as suas mortes”.

Como resultado desta situação, muitos dos homens do ESL no sul da Síria estão abandonando o grupo, geralmente desertando e se dirigindo para a Jordânia, ou se reunindo ao estimado corpo de 15.000 combatentes da Frente Al-Nusra, de acordo com Saleh e outros sírios entrevistados no norte da Jordânia. Por outro lado, a Frente Al-Nusra alegadamente paga aos seus insurgentes US$ 1.000 por mês e cuida dos seus membros feridos, lhes pagando as contas médicas e fornecendo-lhes pensões, estas destinadas para as famílias daqueles que pereceram em combate.

A situação tornou-se tão ruim, disse Salabeh, que alguns combatentes do ESL questionam-se, perguntando qual a razão para continuar o conflito.  Relatou  que um número crescente acredita, convictamente,  que chegou o momento para um cessar-fogo, mesmo que isso signifique cooperar com o regime de Assad.

“Afinal de contas, Bashar não é tão ruim assim”, disse Salabeh.

Karim Jamal Sobeihi, um refugiado do sul da Síria e que se descreve como simpatizante  ESL, disse que o principal problema da oposição foi o fato de que vários grupos deviam sua lealdade à governos estrangeiros,  fornecedores de dinheiro, portanto, os rebeldes não podem concordar com posições unificadas. Isto incluiu o ESL, que se consiste de muitas facções diferentes, afirmou. Isso fez com que os radicais – com sua ideologia islamita e raia independente – mais atraentes para aqueles dispostos a lutar contra o regime, finalizou. “Existe desunião total. A Síria tornou-se um campo de batalha para a América, Rússia, Turquia, Arábia Saudita e outros países. Terroristas de todos os tipos “, exclamou Sobeihi.

Analistas na Jordânia e no Líbano, lugares que abrigam um grande número de refugiados sírios, culparam o ESL, por permitir que a revolução que eclodiu no início de 2011, tenha sido tomada por grupos jihadistas radicais. Hisham Jaber, analista geral e militar libanês aposentado, afirmou que o foco internacional na luta contra o Estado islâmico, invés de derrubar Assad,  indica que o Ocidente e os  seus aliados árabes reconhecem que Assad não pode ser derrubado militarmente, especialmente após a intervenção russa em nome do presidente sírio  Isto, por sua vez, desmoraliza as tropas do ESL, relatou Jaber ao Stars & Stripes durante uma entrevista em Beirute. Ele disse unidades dp ESL, tanto no norte, como no sul, estavam a cooperar de forma estreita com a Frente Al-Nusra, muito melhor organizada e dotada de financiamento mais robusto, independentemente das suas conexões com a Al-Qaeda. “Em contraste, a Frente Al-Nusra ganha os corações e as mentes das pessoas, posicionando-se como moderados, isto, apesar de suas ligações com a Al-Qaeda”, disse Elias Hanna, um ex-professor libanês geral e de geopolítica da Universidade Americana de Beirute.