Tudo que você precisa saber para entender a força-tarefa naval russa ao largo do litoral sírio

Autor: The Saker,

Fonte original: Unz Review e The Vineyard of the Saker.

Fonte em português: Oriente Mídia

Data da publicação original: 25.10.2016

Tradução: Coletivo de tradutores da Vila Vudu.

 

A máquina de propaganda do Império Anglo-sionista, codinome “mídia-empresa”, enfrentou graves dificuldades para decidir o que devia publicar sobre a força-tarefa naval russa enviada para a Síria.

Afinal, os norte-americanos decidiram manifestar o desprezo de sempre por qualquer coisa que sugira Rússia e descreveram essa força como se construída em torno do porta-aviões “geriátrico” Almirante Kuznetsov; os britânicos optaram por descrevê-la como uma formidável “armada” a ponto de dar cabo, para sempre, dos terroristas moderados que há na Síria.

Meu amigo Alexander Mercouris recentemente escreveu análise soberba, explicando que, na realidade, essa força-tarefa não é nem geriátrica nem formidável. Em vez de repetir tudo aqui, prefiro escrever o que entendo que possa ser uma ‘atualização’ daquele excelente artigo, com uns poucos detalhes acrescentados. Primeiro passo: desmontar algumas concepções básicas erradas.

Comecemos pelo porta-aviões russo.

O “Cruzador Pesado Porta-aviões Almirante da Frota Soviética Kuznetsov”

Fiquem sabendo que os russos sequer chamam o Almirante Kuznetsov de porta-aviões. A designação oficial do Kuznetsov é “Cruzador Pesado Porta-aviões”. É importante entender por quê.

O que, na opinião de vocês, é um porta-aviões? Ou, dito de outro modo: por que os EUA mantêm uma força de 10-12 porta-aviões pesados? A acreditar-se no que dizia Ronald Reagan, seria para “posicionar adiante” [ing. “forward deploy”] e levar a guerra aos sovietes (essa era, então, a justificativa para haver 600 navios de guerra e porta-aviões dos EUA no Atlântico Norte). Nada poderia ser mais distante da verdade. De fato, porta-aviões de EUA, britânicos e franceses são ferramenta para impor o mando colonial. Você estaciona um ou dois grupos de combate naval em torno de um porta-aviões a umas poucas milhas de colônia desobediente, e bombardeia até cansar, ou até que a colônia se renda. Essa é, de fato, a única justificativa para tais descomunais estruturas. A beleza da coisa é que você pode ameaçar todo o planeta e que você não depende de aliados que concordem com sua missão. Assim sendo, pode-se dizer que porta-aviões dos EUA e de outros países ocidentais são uma projeção de capacidade de poder de longo alcance usados contra países pobres e fracamente defendidos.

Por que pobres e por que fracamente defendidos?

Aqui se chega ao feio segredo que todos sabem: porta-aviões não podem ser defendidos de ataque de inimigo sofisticado. Se a Guerra Fria tivesse esquentado, os soviéticos teriam atacado simultaneamente qualquer porta-aviões que vissem pela frente em todo o Atlântico norte, com um combo de:

Mísseis cruzadores lançados do ar;

Mísseis cruzadores lançados de submarinos;

Mísseis cruzadores lançados de navios de superfície;

Torpedos lançados de submarinos.

Kuznetsov lança um SU-33

O cruzador de combate movido a energia nuclear Pedro O Grande

Granit P-700 (3M45) de 7 toneladas

Esse é força da pesada e atualmente é a nave de guerra mais pesadamente armada de todo o planeta. Nem vou entrar em detalhes aqui. Os interessados encontram aqui uma lista de armas ali transportadas. Basta dizer que esse cruzador de combate pode fazer de tudo: antiaéreo, antinavios, antissubmarino. Está armado com sensores top de linha e comunicações avançadas. Sendo a nave madrinha da Frota do norte, é, na verdade, a nave madrinha de toda a Marinha Russa. Por último, mas não menos importante, o Pedro O Grande transporta carga formidável de 20 mísseis anti-superfície Granit (antinavios). Vejam, por favor, que o poder de fogo combinado dos mísseis antinavios Granit do Kuznetsov e do Pedro O Grande é 12+20, num total de 32. Adiante explicarei por que isso é importante.O restante da força-tarefa é composta de duas Grandes Naves Antissubmarino (“destroieres”, na terminologia ocidental), mais o Vice-almirante Kulakov e o Severomorsk, mais vários navios de apoio. O Kulakov e o Severomorsk são baseados no design Udaloy e são naves de combate modernas e de alta capacidade. Todas essas naves logo serão reunidas numa força, incluindo dois pequenos navios mísseis (corvetas, na terminologia ocidental) armados com os famosos mísseis cruzadores Kalibr especializados em ataques a navios de superfície. Por fim, embora nada disso venha a ser anunciado, creio que essa força-tarefa incluirá dois submarinos nucleares de ataque da classe Akula; um submarino míssil cruzador Oscar-II (armado com outros 12 mísseis cruzadores Granit) e vários submarinos elétricos-a-diesel da classe Kilo.Em resumo, o que ficou dito até aqui.A força-tarefa naval russa é tentativa, pelos russos, de reunir vários navios que jamais foram projetados para operar como uma única força-tarefa naval muito longe de território russo. Se quiserem, foi “sacada” muito esperta dos russos. Eu diria também que é sacada muito bem-sucedida, dado que essa força-tarefa é toda ela muito impressionante. Não, não pode ‘dar conta’ de toda a OTAN, sequer da Marinha dos EUA, mas pode fazer muitas coisas com muita efetividade.

Agora, a grande pergunta: O que a força-tarefa naval russa na Síria pode realmente fazer?

Antes de considerarmos o grande quadro, há um detalhe que acho que merece ser mencionado aqui. Praticamente tudo que leio sobre o míssil cruzador Granit diz que é míssil cruzador antinavios. Também escrevi isso, para manter as coisas em nível bem simples. Mas agora tenho de dizer que o Granit provavelmente sempre teve um modo “B” (B de beregovoy ou, se preferirem, modo “costeiro” ou “de terra”). Não sei se esse modo existiu sempre, desde o primeiro dia, ou se foi acrescentado depois, mas hoje já é absolutamente certo que o Granit tem esse modo. Foi provavelmente uma capacidade bem minimalista, sem auto-orientação e outros truques (que o Granit tem em seu modo principal antinavios), mas os russos revelaram recentemente que os Granits atualizados têm agora capacidade *real* (“complexa”) de ataque em terra. E isso exige que se reexamine o que essa novidade significa para essa força-tarefa. Eis o que sabemos do Granit novo e aprimorado (ao qual os russos referem-se como 3M45):

Resumindo tudo isso: o Kuznetsov é ótimo transportador de aviões que ainda assim reflete uma filosofia de projeto datada, que jamais considerou projetar o poder russo para longas distâncias, como acontece com os porta-aviões ocidentais, especialmente dos EUA.Agora, consideremos o restante da força-tarefa naval russa.O restante da força-tarefa naval russa em torno do Kuznetsov. Um grande nome imediatamente se destaca: o Cruzador Pesado Movido a Energia Nuclear Pedro O Grande.

Não posso provar o que digo a seguir, mas posso dar o testemunho de incontáveis amigos nas forças armadas dos EUA, inclusive vários que serviram em porta-aviões dos EUA, e todos eles compreendiam claramente que os porta-aviões dos EUA jamais sobreviveriam a ataque soviético de saturação, e que em caso de guerra de verdade teriam de ficar bem longe de litorais soviéticos. Acrescento apenas que os chineses, ao que parece, desenvolveram mísseis balísticos especializados, projetados para destruir grupos de combate de porta-aviões. Isso há tempos, no início dos anos 1990s. Hoje, até países como o Irã já começam a desenvolver capacidades para enfrentar e destruir com sucesso porta-aviões dos EUA.Os soviéticos jamais construíram qualquer verdadeiro porta-aviões. Tinham “cruzadores” com capacidade muito limitada para transportar aeronaves de decolagem vertical e, claro, helicópteros. Esses cruzadores tinham dois principais objetivos: ampliar o alcance das defesas aéreas soviéticas e apoiar o desembarque de força vinda do mar. Um traço muito especial desses cruzadores para transporte de aviões é que transportam mísseis cruzadores muito grandes (4,5-7 toneladas) projetados para atacar naves inimigas de alto valor, inclusive porta-aviões dos EUA. Podem ler aqui sobre o cruzador “da classe Kiev” para transporte de aeronaves. Outra característica chave desses cruzadores soviéticos transportadores de aeronaves é que transportavam uma aeronave cheia de problemas, a Yak-38 que seria alvo fácil para os F-14, F-15, F-16 ou F-18 dos EUA. Por essa razão, as defesas aéreas de classe-Kiev centraram-se em seus mísseis terra-ar, não no complemento de outras aeronaves. Quando o Kuznetsov foi construído, os soviéticos haviam desenvolvido aeronaves que eram no mínimo iguais, se não superiores, às contrapartes ocidentais: o MiG-29 e, especialmente, o SU-27. E isso deu a alguns soviéticos a ideia de construírem um porta-aviões “de verdade”.A decisão de construir o Kuznetsov foi extremamente controversa e enfrentou muita oposição. Os ‘pontos de venda’ do Kuznetsov eram a plataforma de defesa aérea muito superior; o fato de que podia transportar aeronaves muito superiores e por fim, mas não sem importância, que podia competir, em termos de prestígio, com os pesados porta-aviões norte-americanos, especialmente o planejado mas jamais construído porta-aviões movido a energia nuclear de uma geração futura. Considero esse argumento completamente não convincente; hoje já confio que a maioria dos planejadores da força naval russa concordariam comigo: a Rússia não precisa de porta-aviões de estilo norte-americanos, e se precisar de porta-aviões, mesmo de outro tipo, eles terão de ser projetados segundo padrões russos, para missões concebidas pelos russos, não como cópia dos norte-americanos.[Barra lateral: Eu adoraria pegar minha canastrinha de ideias e contar a vocês tudo que penso, de ruim, sobre porta-aviões em geral, e por que penso que a Marinha Russa devia ser centrada em submarinos e fragatas, mas isso tomaria todo meu espaço. Direi só que sempre preferirei ter muitas fragatas ou corveta, a ter uns poucos cruzadores pesados].

Assim o Kuznetsov acabou por ser uma mega concessão e, em matéria de concessão, uma bastante interessante. Pensem: transporta 12 mísseis massivos antinavios da classe Granit, e tem também, potencialmente, um complemento em aeronaves maior que o francês Charles de Gaulle (50 contra 40). Inicialmente, o Kuznetsov transportava 12 ar-ar puros SU-33, mas agora foram gradualmente substituídos por 20 MiG-29K muito mais modernos e seus 24 helicópteros Ka-27 serão substituídos pelos helicópteros de reconhecimento e ataque mais avançados do planeta hoje, o Ka-52K. O Kuznetsov mesmo assim tem dois grandes pontos fracos: uma propulsão sem dúvida datada (vejam o artigo de Mercouris) e a falta a bordo de um sistema AWACs. Esse último ponto fraco é consequência da filosofia de projeto do Kuznetsov, que nunca foi pensado para operar a distâncias acima de 500-1.000km das fronteiras russas (mais uma vez, a filosofia de planejamento da força russa, sempre para menos de 1.000km).

Massa: 7 toneladas;

Velocidade: Mach 1,5-2;

Alcance: 500-600 km; e

Ogiva: 750 kg (pode ser convencional e nuclear).

O Granit também é capaz de coisas muito avançadas, inclusive um míssil (destacado) que voa a 500m ou mais, para detectar o alvo e o restante da salva que parte rasante sobre a superfície ao mesmo tempo em que recebe dados daquele que voa acima. Esses mísseis também são capazes de atacar automaticamente de diferentes direções, para desnortear as defesas. Podem voar baixo, a 25m; e alto, a mais de 17 mil metros. Tudo isso significa que estes mísseis Granits são vetores de alta capacidade tático-operacional. E considerando que há, no mínimo, 32 desses na força-tarefa russa (46, se houver ali um submarino classe Oscar-II), significa que a força-tarefa tem poder tático para tiros de míssil similar ao de uma brigada completa de foguetes! Se as coisas ficarem realmente feias, essa força-tarefa pode não só ameaçar seriamente qualquer nave de superfície da Marinha dos EUA/OTAN a 500 km de distância da Síria, mas, também, qualquer cidade ou base militar nessa distância. Muito me surpreende que os doidos-por-guerras ocidentais tenham deixado passar esse detalhe, porque, sim, é coisa para assustar a OTAN muito, muito mesmo :-)Para ser honesto, alguns especialistas têm manifestado muitas dúvidas sobre as capacidades do Granit para ataque em terra. Todos sabem que são mísseis relativamente velhos e muito caros, mas ninguém sabe a quantidade de trabalho investido para modernizá-los. Mas ainda que tenham capacidades muito mais reduzidas do que foi anunciado, o fato de haver entre 32 e 46 desses mísseis ali perto, ao largo da costa da Síria, é formidável fator de contenção, porque ninguém jamais saberá o que esses mísseis podem fazer, até que tenham já feito.

Assim sendo,

As capacidades combinadas da força-tarefa naval russa e dos mísseis S-300/S-400 dispostos na Síria dão aos russos capacidade de defesa aérea de categoria mundial. Se preciso, os russos podem até lançar em combate os A-50 AWACs a partir da Rússia protegidos por MiG-31BMs. O que a maioria dos observadores não percebem é que aquele SA-N-6 “Grumble” que constitui o núcleo duro do Pedro O Grande é um S-300FM, a variante naval modernizada do S-300. Também é capaz de velocidade considerável (Mach 6), tem alcance de 150 km, capacidade acrescentada de um terminal infravermelho, um sistema de míssil-guia que lhe permite atacar mísseis balísticos e altitude ‘envelope’ de 27km. Além disso, adivinhem – o Pedro O Grande tem 48 desses mísseis (em 20 plataformas de lançamento) o equivalente a 12 baterias S-300 (considerando quatro lançadores por bateria).

Uma das maiores fragilidades da força que os russos alocaram na Síria é o número relativamente baixo de mísseis que podem ser disparados ao mesmo tempo. As forças de EUA/OTAN podem simplesmente saturar as defesas russas com grande número de mísseis. É verdade que, sim, continuam a poder fazer isso. Mas agora a coisa está muito, muito mais difícil.

Os russos podem fazer parar um ataque dos EUA contra a Síria?

Provavelmente, não.

Mas podem torná-lo muito mais difícil e dramaticamente menos efetivo.

Primeiro, logo que os EUA disparem os russos verão o disparo e alertarão as forças sírias e russas. Dado que os russos têm meios para rastrear todos e quaisquer mísseis dos EUA, podem passar os dados para todas as suas tripulações de defesa, que estarão a postos quando os mísseis chegarem. Além disso, quando os mísseis estiverem próximos, os russos com certeza derrubarão vários deles, obrigando os norte-americanos a calcular (do espaço) os danos e re-atacar os mesmos alvos muitas e muitas repetidas vezes.

Segundo, com tecnologia stealth [invisíveis aos radares] ou sem, não acredito que a Marinha dos EUA ou a Força Aérea dos EUA se arriscarão a voar para dentro de espaço aéreo controlado pelos russos ou, se se arriscarem, será experimento de vida curta. Acredito que a presença dos russos na Síria tornará qualquer ataque contra a Síria um ataque “de um só míssil”. A menos que os norte-americanos derrubem as defesas aéreas russas – o que só conseguirão fazer se quiserem iniciar a 3ª Guerra Mundial, a aviação norte-americana terá de se manter fora dos céus sírios. E isso significa que (i) os russos terão implantado, basicamente, sua própria zona aérea de exclusão sobre a Síria, e que (ii) toda e qualquer ‘no fly zone’ dos EUA tornou-se empreitada impossível de concretizar.

Na sequência, o Kuznetsov terá, saindo do forno, um número de aeronaves (asas fixas e rotatórias) incluindo helicópteros 15-20 Ka-27 e Ka-52K, e 15-20 SU-33K e MiG-29K (acho que não se divulgaram números oficiais). O que os russos disseram foi que as aeronaves de asas fixas serão upgraded para poderem atacar alvos em solo. Fará alguma diferença? Talvez sim, marginalmente. Sem dúvida ajudará a lidar com o fluxo esperado de terroristas moderados vindos de Mosul (cortesia da operação dos EUA para encaminhá-los para a Síria), mas os russos podem simplesmente ter movido mais SU-25 ou até SU-34 para Khmeimin ou Irã, a custo muito mais baixo. Assim, em termos de asas, concordo integralmente com Mercouris – será mais ocasião para treino em condições de luta real, não alguma oportunidade para virar o jogo.

Conclusão

Esse deslocamento de forças é altamente não típico do que os russos sempre treinaram para fazer. Basicamente encontraram um meio para reforçar o contingente russo na Síria, especialmente contra o pesadelo da tal “no fly zone” de Hillary. Mas também é caso de extrair proveito da necessidade: a operação na Síria sempre foi distante demais da fronteira russa, e a força russa na Síria sempre foi pequena para sua tarefa. Além do mais, esse deslocamento não é sustentável no longo prazo, e os russos sabem disso. Conseguiram impor com sucesso sobre a Síria uma “zona aérea de exclusão de ianques” por tempo suficiente para que os sírios retomassem Aleppo, e para que os norte-americanos elegessem o próximo presidente.

Depois disso, ou a coisa melhorará dramaticamente (com Trump), ou piorará dramaticamente (com Hillary). De um modo ou de outro, a situação seguinte requererá dos russos estratégia completamente diferente.

The Saker

PS: Sei do anúncio semioficial dos russos, sobre planos para construir um moderno porta-aviões, provavelmente nuclear, com catapultas e tal. Valha o que valer o meu parecer, sou fortemente contra essa ideia, que me parece perdulária e sem qualquer conexão profunda com a doutrina russa de defesa. Mas a nova geração de submarinos russos (SSNs e SLBMs), essa, aplaudo de pé.*****

Nota do Editor do Blog DG: Saker é o pseudônimo de um analista de sistemas de Defesa e politica do leste europeu, cujos serviços foram, e ainda o são, aproveitados pelos órgãos de inteligência dos EUA. Aqui, faço repercutir a versão do seu texto publicado primeiramente pelo veículo Oriente Mídia, traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu, que foi por este editor mantido em sua integridade, tanto nos hiperlinks, quanto no uso dos negritos, havendo apenas pequeninas adaptações aos jargões militares, dado que o coletivo de tradutores, certamente, não tem o convívio necessário com tais termos. Por fim, fiz a opção da foto pelo Pyotr Velikiy,  pelo fato único de ser ele o elemento da frota de real peso.

Semana 15 da intervenção russa na Síria: Quando nenhuma notícia é boa notícia

Data de publicação: 17/1/2015.

Autor: The Saker

Fonte original:  Vineyard of the Saker

Fonte em Português: Oriente Mìdia

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu.

Pode-se dizer que a intervenção russa na Síria entrou numa espécie de rotina: os russos bombardeiam, muito, e os sírios avançam em quase todos os fronts, mas lentamente. Por mais que os que esperavam colapso rápido do Daesh seguido de várias grandes vitórias do estado sírio estejam talvez desapontados, pessoalmente estou ainda mais encorajado por esses eventos. Explico por quê:

Se os sírios não venceram em alguma rápida Blitzkrieg [guerra-relâmpago], é porque, em primeiro lugar e sobretudo, nenhuma Blitzkrieg jamais foi possibilidade real. Os sírios nunca tiveram números que lhes permitisse concentrar forças suficientes num eixo de ataque e, subsequentemente, explorar alguma abertura. Os sírios tampouco têm o poder de fogo necessário para preparar as defesas do Daesh antes de tentar ofensiva daquele tipo.

De fato, um papel secundário das Forças Aeroespaciais Russas foi prover, do ar, o poder de fogo que os sírios não tinham nas próprias forças terrestres. Mas, por mais que uma Blitzkrieg seja muito impressionante, embora arriscada, há outro tipo de guerra também já testada no tempo, a guerra de atrito [ing. attrition warfare], que também gera resultados. Não estou falando de um tipo de guerra de atrito da 1ª Guerra Mundial, é claro, mas de um tipo específico do conflito sírio.

Os russos não param de degradar o Daesh em vários níveis: atingem postos de comando, depósitos de munição, rotas logísticas e de suprimento, bases de treinamento, etc. Dado que vários desses alvos já estão destruídos, os russos também estão provendo mais e mais apoio aéreo direto próximo, quer dizer, agora estão voando missões em apoio direto às operações do exército sírio. Há também cada vez mais evidências de que há oficiais russos trabalhando bem próximos das unidades sírias de linha de frente. Essa cooperação próxima e a coordenação fina entre russos e sírios já gerou várias pequenas vitórias e pelo menos uma grande vitória: a cidade estratégica de Salma, na província de Latakia no nordeste do país, está agora completamente libertada.

– Assistam a esse vídeo (em russo, com legendas em inglês, mas o idioma nem é necessário), da libertação da cidade.

– Para acompanhar progressos recentes, há esse relatório do Quartel-general Russo (legendas em inglês).

Do lado negativo, sírios e russos ainda não encontraram meio para negar ao Daesh sua maior vantagem: a capacidade para arrastar mais e mais combatentes para dentro da Síria, pela Turquia e outros países.

Nesse momento ainda não se vê com clareza quem está levando vantagem nessa competição: se os sírios matam takfiris mais depressa do que o Daesh os importa, ou não. Seja como for, o que é certo é que os sírios estão avançando, o que me diz que, por mais que o influxo de novos combatentes com certeza seja problema para os sírios, não é fator que tenha tornado possível, para o Daesh, impedir os sírios de avançarem.

Já mencionei no passado que os russos estão fornecendo aos sírios sistemas avançados de artilharia que, gradualmente, restaurarão, para os sírios, a capacidade de poder de fogo nas unidades de solo do exército.

Outro item interessante do noticiário recém surgido: há relatos de que a Rússia, agora,está fornecendo armamento diretamente ao Hezbollah.

Se aquelas notícias se confirmarem (mais ou menos; ninguém jamais reconhecerá oficialmente, claro), teremos aí resposta muito elegante às bombas de Israel contra depósitos de armamento do Hezbollah.

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Soldados do Exército Árabe da Síria exultantes por libertarem um bairro dos terroristas. Foto: Portal R7.

Quanto ao Irã, podemos ter certeza de que podem obter no mercado russo, em todos os casos, quase qualquer coisa de que venham a precisar. Em outras palavras, Rússia estará lentamente, mas consistentemente, reconstruindo as capacidades sírias.

Mesmo com tudo isso, o grande evento das duas últimas semanas é, na realidade, um não evento. É o fato de que a “coalizão alternativa” liderada pelos EUA está conseguindo precisamente nada. Não apenas a grande conferência na Arábia Saudita foi fracasso totaldepois que o grupo Ahrar al-Sham deixou a reunião, mas, além disso, a recente tentativa dos sauditas para criar uma crise com o Irã também deu em nada, acabou sem qualquer resultado tangível.

O mesmo vale para a intervenção francesa em resposta aos massacres em Paris: o [porta-aviões] Charles de Gaulle navegou para a Síria e daí… nada! Literalmente nada, coisa nenhuma, aconteceu. Quando ao Hegemon Mundial, parece que Tio Sam simplesmente não sabe o que fazer: todos vimos uma série de declarações insípidas e depois delas, nada. Os turcos, por sua vez, enfrentam agora situação interna que só piora dia após dia e também já parecem não saber o que fazer quanto à Síria.

Por tudo isso é que entendo que “nenhuma notícia é boa notícia”: porque nenhuma notícia significa que a Rússia é o único jogo na cidade: seja qual for o passo do avanço russo-sírio contra o Daech, são os únicos que estão realmente fazendo acontecer alguma coisa, enquanto todos os demais atores estão em total desarranjo e confusão.

Por algum tempo o Pentágono fez circular a ideia de uma ofensiva curda apoiada pelos EUA contra a cidade de  apresentada como “capital do Daesh“, e algumas forças especiais dos EUA foram mandadas para ajudar os curdos, mas rapidamente se viu que os turcos opunham-se firmemente àquela ação. Pior ainda, os curdos recusaram-se a servir como bucha de canhão para operação comandada dos EUA contra o Daech. E foi-se pelo ralo o grande plano.

Em outras palavras, e nesse ponto do tempo, parece é que EUA, OTAN, UE, turcos, sauditas etc. estão absolutamente sem plano viável e sem ação. Os únicos atores que não só têm plano, mas também estão agora trabalhando a favor de seu objetivo de longo prazo são Rússia e Irã. Vale a pena também observar que o plano russo-iraniano inclui flexibilidade prevista na estrutura: sendo possível, russos e iranianos querem alcançar a melhor situação em campo, antes de iniciar quaisquer negociações sobre o futuro da Síria. Se não for possível e se o Império insistir e mudar as regras do jogo e aumentar a aposta, nesse caso o plano de volta ao pé de apoio é simples: derrotar militarmente o Daech.

A melhor prova de que o lado russo está disposto a sustentar campanha longa é o recente acordo SOFA (ing. status of forces agreement) assinado entre Russos e Síria e que, basicamente, regula a presença russa na Síria e que foi assinado sem limite de tempo. De fato, qualquer dos lados que queira retirar-se do acordo comprometeu-se a dar um ‘aviso prévio’ com um ano de antecedência. É possível que iranianos e sírios também tenham acordo similar, mas não foi divulgado.

Há muita especulação sobre uma possível operação russa de solo, na Síria. É ideia que absolutamente não me convence. Não apenas funcionários e especialistas militares russos descartaram essa possiblidade, mas, simplesmente, os militares russos não estão configurados para esse tipo de projeção de poder de longo alcance. Sim, a Rússia pode, em teoria, mandar forças aeroembarcadas para lá e depois apoiá-las com uma força-tarefa naval, mas seria ação contrária à doutrina militar russa e gera riscos potenciais muito sérios. Exceto se ocorrer algo de realmente extraordinário, não vejo o Kremlin entrando nesse tipo de gambito extremamente perigoso.

Por tudo isso, o plano parece ser o seguinte:

  1. Estabilizar o governo sírio [feito]
  2. Guerra de atrito contra o Daesh (em andamento)
  3. Reconstruir as forças armadas sírias (em andamento)
  4. Estabelecer uma presença militar russa permanente [feito]
  5. Impedir que EUA-OTAN imponham uma zona aérea de exclusão [feito]
  6. Forçar o Império a negociar com Assad (em andamento)
  7. Bloquear o apoio que turcos, sauditas e qataris dão aoDaech (em andamento)
  8. Cooptar a maior parte possível da oposição armada contra Assad para uma frente unida anti-Daech(em andamento)
  9. Prover ajuda militar ao Irã e ao Hezbollah (em andamento)
  10. Manter combatentes do Daesh longe da Rússia e dos aliados da Rússia no Cáucaso e na Ásia Central (em andamento)
  11. Tentar convencer os europeus de que a posição deles no Oriente Médio (e em e nos demais pontos) é de autoderrota, e que devem trabalhar com a Rússia para restaurar a estabilidade (sem resultados até agora)
  12. Tentar meter uma cunha entre EUA e Europa (sem resultados até agora).

Acho que esse plano combina com sucesso objetivos de curto e de longo prazo, e tem boa chance de ser bem-sucedido em, pelo menos, os 10 primeiros objetivos. Infelizmente, não vejo sinal algum de que o tacão dos EUA sobre a Europa (aplicado mediante as elites europeias comprador que estão no poder) esteja perdendo força. Se por mais não for, o fracasso que foi a viagem de Hollande a Washington já provou que também à França já não resta qualquer soberania real.