Tudo que você precisa saber para entender a força-tarefa naval russa ao largo do litoral sírio

Autor: The Saker,

Fonte original: Unz Review e The Vineyard of the Saker.

Fonte em português: Oriente Mídia

Data da publicação original: 25.10.2016

Tradução: Coletivo de tradutores da Vila Vudu.

 

A máquina de propaganda do Império Anglo-sionista, codinome “mídia-empresa”, enfrentou graves dificuldades para decidir o que devia publicar sobre a força-tarefa naval russa enviada para a Síria.

Afinal, os norte-americanos decidiram manifestar o desprezo de sempre por qualquer coisa que sugira Rússia e descreveram essa força como se construída em torno do porta-aviões “geriátrico” Almirante Kuznetsov; os britânicos optaram por descrevê-la como uma formidável “armada” a ponto de dar cabo, para sempre, dos terroristas moderados que há na Síria.

Meu amigo Alexander Mercouris recentemente escreveu análise soberba, explicando que, na realidade, essa força-tarefa não é nem geriátrica nem formidável. Em vez de repetir tudo aqui, prefiro escrever o que entendo que possa ser uma ‘atualização’ daquele excelente artigo, com uns poucos detalhes acrescentados. Primeiro passo: desmontar algumas concepções básicas erradas.

Comecemos pelo porta-aviões russo.

O “Cruzador Pesado Porta-aviões Almirante da Frota Soviética Kuznetsov”

Fiquem sabendo que os russos sequer chamam o Almirante Kuznetsov de porta-aviões. A designação oficial do Kuznetsov é “Cruzador Pesado Porta-aviões”. É importante entender por quê.

O que, na opinião de vocês, é um porta-aviões? Ou, dito de outro modo: por que os EUA mantêm uma força de 10-12 porta-aviões pesados? A acreditar-se no que dizia Ronald Reagan, seria para “posicionar adiante” [ing. “forward deploy”] e levar a guerra aos sovietes (essa era, então, a justificativa para haver 600 navios de guerra e porta-aviões dos EUA no Atlântico Norte). Nada poderia ser mais distante da verdade. De fato, porta-aviões de EUA, britânicos e franceses são ferramenta para impor o mando colonial. Você estaciona um ou dois grupos de combate naval em torno de um porta-aviões a umas poucas milhas de colônia desobediente, e bombardeia até cansar, ou até que a colônia se renda. Essa é, de fato, a única justificativa para tais descomunais estruturas. A beleza da coisa é que você pode ameaçar todo o planeta e que você não depende de aliados que concordem com sua missão. Assim sendo, pode-se dizer que porta-aviões dos EUA e de outros países ocidentais são uma projeção de capacidade de poder de longo alcance usados contra países pobres e fracamente defendidos.

Por que pobres e por que fracamente defendidos?

Aqui se chega ao feio segredo que todos sabem: porta-aviões não podem ser defendidos de ataque de inimigo sofisticado. Se a Guerra Fria tivesse esquentado, os soviéticos teriam atacado simultaneamente qualquer porta-aviões que vissem pela frente em todo o Atlântico norte, com um combo de:

Mísseis cruzadores lançados do ar;

Mísseis cruzadores lançados de submarinos;

Mísseis cruzadores lançados de navios de superfície;

Torpedos lançados de submarinos.

Kuznetsov lança um SU-33

O cruzador de combate movido a energia nuclear Pedro O Grande

Granit P-700 (3M45) de 7 toneladas

Esse é força da pesada e atualmente é a nave de guerra mais pesadamente armada de todo o planeta. Nem vou entrar em detalhes aqui. Os interessados encontram aqui uma lista de armas ali transportadas. Basta dizer que esse cruzador de combate pode fazer de tudo: antiaéreo, antinavios, antissubmarino. Está armado com sensores top de linha e comunicações avançadas. Sendo a nave madrinha da Frota do norte, é, na verdade, a nave madrinha de toda a Marinha Russa. Por último, mas não menos importante, o Pedro O Grande transporta carga formidável de 20 mísseis anti-superfície Granit (antinavios). Vejam, por favor, que o poder de fogo combinado dos mísseis antinavios Granit do Kuznetsov e do Pedro O Grande é 12+20, num total de 32. Adiante explicarei por que isso é importante.O restante da força-tarefa é composta de duas Grandes Naves Antissubmarino (“destroieres”, na terminologia ocidental), mais o Vice-almirante Kulakov e o Severomorsk, mais vários navios de apoio. O Kulakov e o Severomorsk são baseados no design Udaloy e são naves de combate modernas e de alta capacidade. Todas essas naves logo serão reunidas numa força, incluindo dois pequenos navios mísseis (corvetas, na terminologia ocidental) armados com os famosos mísseis cruzadores Kalibr especializados em ataques a navios de superfície. Por fim, embora nada disso venha a ser anunciado, creio que essa força-tarefa incluirá dois submarinos nucleares de ataque da classe Akula; um submarino míssil cruzador Oscar-II (armado com outros 12 mísseis cruzadores Granit) e vários submarinos elétricos-a-diesel da classe Kilo.Em resumo, o que ficou dito até aqui.A força-tarefa naval russa é tentativa, pelos russos, de reunir vários navios que jamais foram projetados para operar como uma única força-tarefa naval muito longe de território russo. Se quiserem, foi “sacada” muito esperta dos russos. Eu diria também que é sacada muito bem-sucedida, dado que essa força-tarefa é toda ela muito impressionante. Não, não pode ‘dar conta’ de toda a OTAN, sequer da Marinha dos EUA, mas pode fazer muitas coisas com muita efetividade.

Agora, a grande pergunta: O que a força-tarefa naval russa na Síria pode realmente fazer?

Antes de considerarmos o grande quadro, há um detalhe que acho que merece ser mencionado aqui. Praticamente tudo que leio sobre o míssil cruzador Granit diz que é míssil cruzador antinavios. Também escrevi isso, para manter as coisas em nível bem simples. Mas agora tenho de dizer que o Granit provavelmente sempre teve um modo “B” (B de beregovoy ou, se preferirem, modo “costeiro” ou “de terra”). Não sei se esse modo existiu sempre, desde o primeiro dia, ou se foi acrescentado depois, mas hoje já é absolutamente certo que o Granit tem esse modo. Foi provavelmente uma capacidade bem minimalista, sem auto-orientação e outros truques (que o Granit tem em seu modo principal antinavios), mas os russos revelaram recentemente que os Granits atualizados têm agora capacidade *real* (“complexa”) de ataque em terra. E isso exige que se reexamine o que essa novidade significa para essa força-tarefa. Eis o que sabemos do Granit novo e aprimorado (ao qual os russos referem-se como 3M45):

Resumindo tudo isso: o Kuznetsov é ótimo transportador de aviões que ainda assim reflete uma filosofia de projeto datada, que jamais considerou projetar o poder russo para longas distâncias, como acontece com os porta-aviões ocidentais, especialmente dos EUA.Agora, consideremos o restante da força-tarefa naval russa.O restante da força-tarefa naval russa em torno do Kuznetsov. Um grande nome imediatamente se destaca: o Cruzador Pesado Movido a Energia Nuclear Pedro O Grande.

Não posso provar o que digo a seguir, mas posso dar o testemunho de incontáveis amigos nas forças armadas dos EUA, inclusive vários que serviram em porta-aviões dos EUA, e todos eles compreendiam claramente que os porta-aviões dos EUA jamais sobreviveriam a ataque soviético de saturação, e que em caso de guerra de verdade teriam de ficar bem longe de litorais soviéticos. Acrescento apenas que os chineses, ao que parece, desenvolveram mísseis balísticos especializados, projetados para destruir grupos de combate de porta-aviões. Isso há tempos, no início dos anos 1990s. Hoje, até países como o Irã já começam a desenvolver capacidades para enfrentar e destruir com sucesso porta-aviões dos EUA.Os soviéticos jamais construíram qualquer verdadeiro porta-aviões. Tinham “cruzadores” com capacidade muito limitada para transportar aeronaves de decolagem vertical e, claro, helicópteros. Esses cruzadores tinham dois principais objetivos: ampliar o alcance das defesas aéreas soviéticas e apoiar o desembarque de força vinda do mar. Um traço muito especial desses cruzadores para transporte de aviões é que transportam mísseis cruzadores muito grandes (4,5-7 toneladas) projetados para atacar naves inimigas de alto valor, inclusive porta-aviões dos EUA. Podem ler aqui sobre o cruzador “da classe Kiev” para transporte de aeronaves. Outra característica chave desses cruzadores soviéticos transportadores de aeronaves é que transportavam uma aeronave cheia de problemas, a Yak-38 que seria alvo fácil para os F-14, F-15, F-16 ou F-18 dos EUA. Por essa razão, as defesas aéreas de classe-Kiev centraram-se em seus mísseis terra-ar, não no complemento de outras aeronaves. Quando o Kuznetsov foi construído, os soviéticos haviam desenvolvido aeronaves que eram no mínimo iguais, se não superiores, às contrapartes ocidentais: o MiG-29 e, especialmente, o SU-27. E isso deu a alguns soviéticos a ideia de construírem um porta-aviões “de verdade”.A decisão de construir o Kuznetsov foi extremamente controversa e enfrentou muita oposição. Os ‘pontos de venda’ do Kuznetsov eram a plataforma de defesa aérea muito superior; o fato de que podia transportar aeronaves muito superiores e por fim, mas não sem importância, que podia competir, em termos de prestígio, com os pesados porta-aviões norte-americanos, especialmente o planejado mas jamais construído porta-aviões movido a energia nuclear de uma geração futura. Considero esse argumento completamente não convincente; hoje já confio que a maioria dos planejadores da força naval russa concordariam comigo: a Rússia não precisa de porta-aviões de estilo norte-americanos, e se precisar de porta-aviões, mesmo de outro tipo, eles terão de ser projetados segundo padrões russos, para missões concebidas pelos russos, não como cópia dos norte-americanos.[Barra lateral: Eu adoraria pegar minha canastrinha de ideias e contar a vocês tudo que penso, de ruim, sobre porta-aviões em geral, e por que penso que a Marinha Russa devia ser centrada em submarinos e fragatas, mas isso tomaria todo meu espaço. Direi só que sempre preferirei ter muitas fragatas ou corveta, a ter uns poucos cruzadores pesados].

Assim o Kuznetsov acabou por ser uma mega concessão e, em matéria de concessão, uma bastante interessante. Pensem: transporta 12 mísseis massivos antinavios da classe Granit, e tem também, potencialmente, um complemento em aeronaves maior que o francês Charles de Gaulle (50 contra 40). Inicialmente, o Kuznetsov transportava 12 ar-ar puros SU-33, mas agora foram gradualmente substituídos por 20 MiG-29K muito mais modernos e seus 24 helicópteros Ka-27 serão substituídos pelos helicópteros de reconhecimento e ataque mais avançados do planeta hoje, o Ka-52K. O Kuznetsov mesmo assim tem dois grandes pontos fracos: uma propulsão sem dúvida datada (vejam o artigo de Mercouris) e a falta a bordo de um sistema AWACs. Esse último ponto fraco é consequência da filosofia de projeto do Kuznetsov, que nunca foi pensado para operar a distâncias acima de 500-1.000km das fronteiras russas (mais uma vez, a filosofia de planejamento da força russa, sempre para menos de 1.000km).

Massa: 7 toneladas;

Velocidade: Mach 1,5-2;

Alcance: 500-600 km; e

Ogiva: 750 kg (pode ser convencional e nuclear).

O Granit também é capaz de coisas muito avançadas, inclusive um míssil (destacado) que voa a 500m ou mais, para detectar o alvo e o restante da salva que parte rasante sobre a superfície ao mesmo tempo em que recebe dados daquele que voa acima. Esses mísseis também são capazes de atacar automaticamente de diferentes direções, para desnortear as defesas. Podem voar baixo, a 25m; e alto, a mais de 17 mil metros. Tudo isso significa que estes mísseis Granits são vetores de alta capacidade tático-operacional. E considerando que há, no mínimo, 32 desses na força-tarefa russa (46, se houver ali um submarino classe Oscar-II), significa que a força-tarefa tem poder tático para tiros de míssil similar ao de uma brigada completa de foguetes! Se as coisas ficarem realmente feias, essa força-tarefa pode não só ameaçar seriamente qualquer nave de superfície da Marinha dos EUA/OTAN a 500 km de distância da Síria, mas, também, qualquer cidade ou base militar nessa distância. Muito me surpreende que os doidos-por-guerras ocidentais tenham deixado passar esse detalhe, porque, sim, é coisa para assustar a OTAN muito, muito mesmo :-)Para ser honesto, alguns especialistas têm manifestado muitas dúvidas sobre as capacidades do Granit para ataque em terra. Todos sabem que são mísseis relativamente velhos e muito caros, mas ninguém sabe a quantidade de trabalho investido para modernizá-los. Mas ainda que tenham capacidades muito mais reduzidas do que foi anunciado, o fato de haver entre 32 e 46 desses mísseis ali perto, ao largo da costa da Síria, é formidável fator de contenção, porque ninguém jamais saberá o que esses mísseis podem fazer, até que tenham já feito.

Assim sendo,

As capacidades combinadas da força-tarefa naval russa e dos mísseis S-300/S-400 dispostos na Síria dão aos russos capacidade de defesa aérea de categoria mundial. Se preciso, os russos podem até lançar em combate os A-50 AWACs a partir da Rússia protegidos por MiG-31BMs. O que a maioria dos observadores não percebem é que aquele SA-N-6 “Grumble” que constitui o núcleo duro do Pedro O Grande é um S-300FM, a variante naval modernizada do S-300. Também é capaz de velocidade considerável (Mach 6), tem alcance de 150 km, capacidade acrescentada de um terminal infravermelho, um sistema de míssil-guia que lhe permite atacar mísseis balísticos e altitude ‘envelope’ de 27km. Além disso, adivinhem – o Pedro O Grande tem 48 desses mísseis (em 20 plataformas de lançamento) o equivalente a 12 baterias S-300 (considerando quatro lançadores por bateria).

Uma das maiores fragilidades da força que os russos alocaram na Síria é o número relativamente baixo de mísseis que podem ser disparados ao mesmo tempo. As forças de EUA/OTAN podem simplesmente saturar as defesas russas com grande número de mísseis. É verdade que, sim, continuam a poder fazer isso. Mas agora a coisa está muito, muito mais difícil.

Os russos podem fazer parar um ataque dos EUA contra a Síria?

Provavelmente, não.

Mas podem torná-lo muito mais difícil e dramaticamente menos efetivo.

Primeiro, logo que os EUA disparem os russos verão o disparo e alertarão as forças sírias e russas. Dado que os russos têm meios para rastrear todos e quaisquer mísseis dos EUA, podem passar os dados para todas as suas tripulações de defesa, que estarão a postos quando os mísseis chegarem. Além disso, quando os mísseis estiverem próximos, os russos com certeza derrubarão vários deles, obrigando os norte-americanos a calcular (do espaço) os danos e re-atacar os mesmos alvos muitas e muitas repetidas vezes.

Segundo, com tecnologia stealth [invisíveis aos radares] ou sem, não acredito que a Marinha dos EUA ou a Força Aérea dos EUA se arriscarão a voar para dentro de espaço aéreo controlado pelos russos ou, se se arriscarem, será experimento de vida curta. Acredito que a presença dos russos na Síria tornará qualquer ataque contra a Síria um ataque “de um só míssil”. A menos que os norte-americanos derrubem as defesas aéreas russas – o que só conseguirão fazer se quiserem iniciar a 3ª Guerra Mundial, a aviação norte-americana terá de se manter fora dos céus sírios. E isso significa que (i) os russos terão implantado, basicamente, sua própria zona aérea de exclusão sobre a Síria, e que (ii) toda e qualquer ‘no fly zone’ dos EUA tornou-se empreitada impossível de concretizar.

Na sequência, o Kuznetsov terá, saindo do forno, um número de aeronaves (asas fixas e rotatórias) incluindo helicópteros 15-20 Ka-27 e Ka-52K, e 15-20 SU-33K e MiG-29K (acho que não se divulgaram números oficiais). O que os russos disseram foi que as aeronaves de asas fixas serão upgraded para poderem atacar alvos em solo. Fará alguma diferença? Talvez sim, marginalmente. Sem dúvida ajudará a lidar com o fluxo esperado de terroristas moderados vindos de Mosul (cortesia da operação dos EUA para encaminhá-los para a Síria), mas os russos podem simplesmente ter movido mais SU-25 ou até SU-34 para Khmeimin ou Irã, a custo muito mais baixo. Assim, em termos de asas, concordo integralmente com Mercouris – será mais ocasião para treino em condições de luta real, não alguma oportunidade para virar o jogo.

Conclusão

Esse deslocamento de forças é altamente não típico do que os russos sempre treinaram para fazer. Basicamente encontraram um meio para reforçar o contingente russo na Síria, especialmente contra o pesadelo da tal “no fly zone” de Hillary. Mas também é caso de extrair proveito da necessidade: a operação na Síria sempre foi distante demais da fronteira russa, e a força russa na Síria sempre foi pequena para sua tarefa. Além do mais, esse deslocamento não é sustentável no longo prazo, e os russos sabem disso. Conseguiram impor com sucesso sobre a Síria uma “zona aérea de exclusão de ianques” por tempo suficiente para que os sírios retomassem Aleppo, e para que os norte-americanos elegessem o próximo presidente.

Depois disso, ou a coisa melhorará dramaticamente (com Trump), ou piorará dramaticamente (com Hillary). De um modo ou de outro, a situação seguinte requererá dos russos estratégia completamente diferente.

The Saker

PS: Sei do anúncio semioficial dos russos, sobre planos para construir um moderno porta-aviões, provavelmente nuclear, com catapultas e tal. Valha o que valer o meu parecer, sou fortemente contra essa ideia, que me parece perdulária e sem qualquer conexão profunda com a doutrina russa de defesa. Mas a nova geração de submarinos russos (SSNs e SLBMs), essa, aplaudo de pé.*****

Nota do Editor do Blog DG: Saker é o pseudônimo de um analista de sistemas de Defesa e politica do leste europeu, cujos serviços foram, e ainda o são, aproveitados pelos órgãos de inteligência dos EUA. Aqui, faço repercutir a versão do seu texto publicado primeiramente pelo veículo Oriente Mídia, traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu, que foi por este editor mantido em sua integridade, tanto nos hiperlinks, quanto no uso dos negritos, havendo apenas pequeninas adaptações aos jargões militares, dado que o coletivo de tradutores, certamente, não tem o convívio necessário com tais termos. Por fim, fiz a opção da foto pelo Pyotr Velikiy,  pelo fato único de ser ele o elemento da frota de real peso.

Washington tenta quebrar os BRICS: começa o estupro do Brasil

Autor: F. William Engdahl

Fonte: NEO – New Eastern Outlook

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

(…) Um dia depois que a Câmara de Deputados aprovou o impeachment da presidenta eleita do Brasil, em abril, um alto membro do partido PSDB, aliado do PMDB de Temer, senador Aloysio Nunes, viajou a Washington, em missão organizada pela empresa de lobby da ex-secretária de Estado Madeline Albright, o Albright Stonebridge Group. Nunes, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado do Brasil, várias vezes pregou que o Brasil se aproximasse mais, outra vez, de uma aliança com EUA e Reino Unido.

Madeline Albright, diretora de um dos principais think-tanks nos EUA, o Council on Foreign Relations, também é presidenta da mais ativa ONG a serviço do governo dos EUA, especializada em promover “revoluções coloridas”, o National Democratic Institute (NDI). Interessante, não? Nunes foi a Washington para conjurar apoio para Temer e para os atores principais do golpe que já estava em curso para derrubar a presidenta Rousseff.

O ator chave a serviço de Washington, e o efetivo carrasco político de Rousseff foi, mais uma vez, o vice-presidente Joe Biden, o “Dick Cheney”, operador-sujo-em-chefe, no governo Obama.

Fatídica visita de Biden ao Brasil

Em maio, 2013, o vice-presidente dos EUA Joe Biden fez uma fatídica visita ao Brasil, para reunir-se com a presidenta Rousseff. Em janeiro de 2011, Rousseff substituíra seu mentor do Partido dos Trabalhadores, Luis Inácio Lula da Silva, ou Lula, que completara o segundo mandato consecutivo que a Constituição lhe permitia. Biden foi ao Brasil, para discutir petróleo com a nova presidenta. As relações entre Lula e Washington haviam gelado quando Lula apoiou o Irã contra sanções dos EUA e aproximou-se mais, economicamente, da China.

No final de 2007,  a Petrobrás havia descoberto o que se estimava que fosse uma reserva monstro de petróleo de alta qualidade na plataforma continental do Brasil, na Bacia de Santos. No total, a plataforma continental territorial do Brasil pode conter mais de 100 bilhões de barris de petróleo, o que transforma o país na maior potência mundial de petróleo e gás. Imediatamente Exxon & Chevron, as gigantes norte-americanas do petróleo, puseram-se em campo para conquistar o controle daquela riqueza recém descoberta.

Em 2009, segundo telegramas diplomáticos dos EUA publicados por Wikileaks, o Consulado dos EUA no Rio de Janeiro escreveu que Exxon e Chevron estavam tentando, sem sucesso, alterar uma lei encaminhada ao Congresso pelo mentor e predecessor da presidenta Rousseff, o presidente Lula. Essa lei de 2009 tornava a empresa estatal Petrobrás a principal operadora de todos os blocos do petróleo do pré-sal no Brasil. Washington e as gigantes norte-americanas do petróleo absolutamente não gostaram de perder o controle sobre o que parece ser a maior nova reserva de petróleo descoberta em décadas.

Lula não só tirou ExxonMobil e Chevron da posição de controladoras, em favor da estatal Petrobrás; ele também abriu a exploração do petróleo brasileiro aos chineses, desde 2009 principais parceiros, dentro do grupo BRICS, de Brasil, Rússia, Índia e África do Sul.

Em dezembro de 2010, num de seus últimos atos como presidente, Lula supervisionou a assinatura de um contrato entre a empresa de petróleo Repsol, espanhola-brasileira, e a estatal chinesa Sinopec. Sinopec formou uma joint venture, Repsol Sinopec Brasil, investindo mais de $7,1 bilhões na Repsol Brasil. Já em 2005 Lula havia aprovado a formação da empresa Sinopec International Petroleum Service of Brasil Ltd., parte de uma nova aliança estratégica entre China e Brasil.

Em 2012, em perfuração de exploração conjunta, as empresas Repsol Sinopec Brasil, Norway’s Statoil e Petrobrás fizeram outra grande descoberta, no poço batizado “Pão de Açúcar”, o terceiro no bloco BM-C-33, que inclui os poços de Seat e Gávea, esse uma das 10 maiores descobertas do mundo em 2011. Nenhuma das majors norte-americanas e britânicas do petróleo aparecia nesse cenário.

A missão de Biden era sondar a presidenta que sucederia Lula, Dilma Rousseff, sobre a possibilidade de ela reverter a exclusão das grandes do petróleo dos EUA em favor da Chinesa. Biden também se reuniu com as principais empresas de energia do país, inclusive a Petrobrás.

A notícia praticamente não apareceu na mídia-empresa brasileira, mas Rousseff recusou-se a reverter a lei do petróleo de 2009 e a convertê-la em qualquer coisa que agradasse a Biden, a Washington e às majors do petróleo dos EUA. Dias depois da visita de Biden surgiram as revelações feitas por Edward Snowden de que a Agência de Segurança Nacional dos EUA também espionara Rousseff e altos funcionários da Petrobrás. A presidenta Rousseff denunciou a operação em sua fala na Assembleia Geral da ONU, por violação da lei internacional. E, em protesto, cancelou uma viagem marcada para Washington. Depois disso, as relações EUA-Brasil naufragaram de vez.

Ao final dessa visita, em maio de 2013, Biden claramente deu à presidenta do Brasil o beijo da morte: o destino dela estava selado.

Antes da vinda de Biden em maio de 2013, a presidenta Rousseff gozava do apoio de 70% da população brasileira. Menos de duas semanas depois que Biden deixou o Brasil, começaram os protestos de rua, ‘animados’ por um grupo conhecido como Movimento Passe Livre, que protestava contra aumento nominal de 10 centavos no preço do passe de ônibus, que acabaram por fazer o país parar quase completamente e, a partir de certo ponto tornaram-se muito violentos. Os protestos tinham todas as características da típica “Revolução Colorida” ou da desestabilização social acionada por mídias sociais como Twitter ou Facebook que parecem seguir Biden pelo mundo, onde quer que apareça. Em poucas semanas, o apoio da população ao governo Dilma despencou para 30%.

Washington claramente enviara um sinal de que ou Rousseff mudava de rota, ou enfrentaria problemas graves. A máquina de mudança de regime de Washington – com todas as suas armas de guerra financeira, desde o vazamento de auditorias realizadas na Petrobrás, até a ação da agência de Wall Street, de avaliação de créditos, Standard & Poors, que degradou a dívida pública do Brasil ao nível de papel podre, em setembro de 2015 – entrou em ação a pleno vapor para derrubar Rousseff, apoiadora chave do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS e de uma estratégia de desenvolvimento nacional independente para o Brasil.

Vender as joias da Coroa

O homem que chegaria à presidência do Brasil, num perfeito arremedo de ‘legalidade’, corrupto condenado e então vice-presidente, Michel Temer, serviu em tempo integral como informante da embaixada dos EUA em Brasília. Em documentos distribuídos por Wikileaks, revelou-se que Temer já servira como informante da inteligência dos EUA desde, pelo menos, 2006, por telegramas que a Embaixada dos EUA no Brasil classificou como “sensíveis” e “para exclusivo uso oficial”.

Homem de Washington no Brasil, Temer não perdeu tempo para iniciar as reverências aos seus patrões em Wall Street. Ainda como presidente interino em maio, Temer nomeou Henrique Meirelles para o cargo de ministro das Finanças e da Seguridade Social. Meirelles, formado em Harvard [de fato, participou de um treinamento de Advanced Management Program (AMP) da Harvard Business School que prepara altos executivos de bancos (NTs)] e ex-presidente do Banco Central do Brasil, foi presidente do BankBoston nos EUA até 1999, e ainda trabalhava no banco em 1985, quando o banco foi multado por não reportar transferência ilegal de $1,2 bilhão em dinheiro, para bancos suíços.

Meirelles está agora na função de supervisor da liquidação planejada das “joias da Coroa” do Brasil a investidores estrangeiros, movimento que visa a minar qualquer poder que o estado brasileiro tenha na economia. Outro dos conselheiros econômicos chaves de Temer é Paulo Leme, ex-economista do FMI e hoje Diretor de Gestão de Pesquisa de Goldman Sachs. Wall Street está ativamente integrada ao processo de estupro econômico do Brasil ‘liderado’ por Temer.

Dia 13 de setembro, o governo Temer divulgou um programa massivo de privatizações, com um comentário cínico e enganador do próprio Temer: “É claro que o setor público não poderá fazer avançar esses projetos sozinho. Contamos com o setor privado.” Não explicou que por “setor privado” referia-se aos seus próprios patrões.

Temer revelou planos para consumar a maior privatização no país, em décadas. Convenientemente, a privatagem está planejada para estar concluída no final de 2018, pouco antes do fim do mandato de Temer. O influente US-Brasil Business Council detalhou a lista das empresas a serem privatizadas, em sua página na Internet (“Economia do Brasil depois do Impeachment”, ing.). Esse US-Brasil Business Council foi fundado há 40 anos por Citigroup, Monsanto, Coca-Cola, Dow Chemicals e outras multinacionais norte-americanas.

As licitações para a primeira rodada de privatizações serão lançadas antes do final do ano. Incluirão quatro aeroportos e dois terminais portuários, todos a serem leiloados no primeiro trimestre de 2017. Outras concessões incluem cinco rodovias, uma ferrovia, vários pequenos blocos de petróleo e uma rodada final de leilões, adiante, para os grandes blocos de petróleo a serem desenvolvidos, a maioria de reservas submarinas. O governo também selecionará reservas atualmente controladas pelo Departamento de Pesquisas Minerais do Brasil, mais seis distribuidoras de energia e três instalações para tratamento de água.

O coração dessa privatização planejada está – nada surpreendentemente –, nas empresas que Joe Biden cobiça, de petróleo e gás, além de fatias da empresa brasileira de energia, Eletrobrás. Temer planeja obter $24 bilhões nessa liquidação de patrimônio público. 11 bilhões devem sair da venda das empresas estatais chaves de petróleo e gás.

Claro que, quando patrimônio estatal dessa magnitude é liquidado e entregue a interesses estrangeiros, no que é uma muito evidente venda ‘combinada’, trata-se de negócio de soma zero: um lado ganha tudo, o outro perde tudo. Projetos de petróleo, gás e energia elétrica geram fluxos continuados de renda muito superiores a quaisquer ganhos que se possam auferir da venda em processo de privatização. O lado que perde necessariamente tudo e sempre, nesses negócios de privatização, é a economia do Brasil: os bancos de Wall Street e as multinacionais ganham tudo, conforme o planejado, em todos os casos.

Dias 19-21 de setembro, segundo o website do US-Brasil Business Council, os ministros chaves para a infraestrutura, do atual governo do Brasil, dentre os quais o ministro da infraestrutura, Moreira Franco; Fernando Bezerra Coelho Filho, de Minas e Energia; e Mauricio Quintella Lessa, de Transportes, Portos e Aviação Civil, estariam [estiveram] em New York City para reunião com “investidores em infraestrutura” de Wall Street.

É o modus operandi de Washington, exatamente como operam os Deuses do Mercado em Wall Street, título de um dos meus livros. Primeiro, destroem qualquer projeto de genuíno desenvolvimento nacional concebido por lideranças nacionais, como Dilma Rousseff. Na sequência, põe no lugar dele um regime subalterno disposto a fazer qualquer coisa por dinheiro, inclusive liquidar as joias da Coroa do próprio país, gente que faça como Anatoli Chubais na Rússia nos anos 1990, durante a “terapia de choque” de Boris Yeltsin. Como paga pelo que fez, Chubais tem lugar assegurado hoje no Conselho de Administração do banco JP MorganChase. Ainda não se sabe o que Temer e sócios obterão em troca do empenho que têm demonstrando na liquidação do patrimônio brasileiro.

Por enquanto, Washington conseguiu quebrar um dos países BRICS que realmente ameaçava a hegemonia global das empresas norte-americanas. Se a história recente ensina alguma coisa, não obterá sucesso duradouro.

 

Por que eventos recentes na Síria mostram que o governo Obama está em confusa agonia terminal

Autor: Saker.

Fonte: The Vineyard Of The Saker

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu. – Fonte em português: Blog do Alok

Os mais recentes desenvolvimentos na Síria não são, creio eu, resultado de algum plano deliberado pelos EUA para ajudar seus “terroristas moderados” aliados em campo, mas sintoma de algo talvez pior: os EUA parecem ter perdido completamente o controle sobre a situação na Síria e, possivelmente, também em outros pontos. Permitam recapitular o que acaba de acontecer:

Primeiro, depois de dias e dias de intensas negociações, o secretário Kerry dos EUA e o ministro Lavrov de Relações Exteriores da Rússia finalmente chegaram a um acordo sobre um cessar-fogo na Síria que teria potencial para pelo menos “congelar” a situação em campo, até as eleições presidenciais nos EUA e a troca de governo (esse é agora o evento mais importante no futuro próximo; assim sendo, nenhum plano de nenhum tipo estende-se além daquela data.

Foi quando a Força Aérea dos EUA, com mais alguns ‘parceiros’, bombardeou uma unidade do Exército Árabe Sírio, que não estava nem em movimento nem engajada em operações intensas, que simplesmente cobria um setor chave do front. O ataque norte-americano foi seguido por ofensiva massiva dos “terroristas moderados” que acabou por ser contida, com dificuldade, por militares sírios e as Forças Aeroespaciais Russas. Desnecessário dizer que, depois de tal provocação, o cessar-fogo morreu.

Os russos manifestaram total desagrado e indignação contra o ataque e começaram a dizer abertamente que os norte-americanos são “недоговороспособны“. A palavra significa literalmente “[gente, pessoa] incapaz para acordos” ou sem as competências mínimas para firmar um acordo e, na sequência, honrar o que assinou. É expressão polida, mas mesmo assim extremamente forte, porque implica, mais do que fingimento deliberado, a ausência da capacidade, dos meios morais necessários para respeitar a própria assinatura. Por exemplo, os russos têm dito com frequência que o governo de Kiev é “incapaz para acordos”, o que faz sentido, considerando-se que a Ucrânia ocupada pelos nazistas é, na essência, estado fracassado.

Mas dizer que uma superpotência nuclear mundial é “incapaz para acordos” é diagnóstico extremo e terrível. Significa basicamente que os norte-americanos enlouqueceram e perderam os meios morais mínimos necessários para firmar acordos, qualquer tipo de acordo. Afinal, governo que descumpra o que prometa ou tente burlar, mas o qual, pelo menos em teoria, conserve a capacidade para respeitar a própria assinatura em acordos não seria descrito como “incapaz para acordos”. É expressão que só é usada para descrever entidade que sequer tem condições mínimas indispensáveis para merecer a confiança necessária para que alguém possa iniciar negociações, porque não cumprirá o que for acordado. É diagnóstico absolutamente devastador.

Na sequência, vem a cena antiprofissional, patética, da embaixadora Samantha Powers embaixadora dos EUA na ONU que simplesmente levantou-se e saiu de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU quando o representante russo estava falando. Mais uma vez, os russos enfureceram-se, não pela tentativa infantiloide de ofender, mas pela absoluta falta de profissionalismo que Powers manifestou, como diplomata. Do ponto de vista dos russos, se uma superpotência levanta-se e sai da sala quando outra superpotência está falando sobre assunto crucialmente importante é, para começar, atitude irresponsável; mais uma vez, sinal de falta das competências mínimas indispensáveis para ser parte de qualquer negociação ou acordo.

Por fim, a coroação: o ataque ao comboio de ajuda humanitária na Síria, que os EUA, claro, atribuíram à Rússia. Mais uma vez, os russos mal acreditaram nos próprios olhos. Primeiro, porque foi flagrante (e sinceramente, de nível de jardim de infância) tentativa para ‘mostrar’ que “os russos também erram” e que “os russos mataram o cessar-fogo”. Segundo, apareceu aquela declaração cômica, dos norte-americanos, de que só duas forças aéreas poderiam ser autoras do ataque – ou os russos ou os sírios (como os norte-americanos supuseram que enganariam alguém, naquele espaço aéreo super controlado pelos radares russos, é questão que ultrapassa a minha capacidade de análise!). Sabe-se lá como, os norte-americanos “esqueceram” de mencionar a que força aérea dos EUA também está ativa na região, além de forças aéreas de vários aliados dos EUA. Mais importante: esqueceram de mencionar que, naquela noite, drones Predator norte-americanos armados voavam diretamente sobre aquele comboio.

O que aconteceu na Síria é dolorosamente óbvio: o Pentágono sabotou o acordo firmado entre Kerry e Lavrov; e quando o Pentágono foi acusado de ser responsável pelo ataque, rapidamente montaram (mal montado) um ataque sob falsa bandeira, e tentaram culpar os russos.

Tudo isso mostra que o governo Obama está em estado terminal de confusa agonia. A Casa Branca aparentemente está em tal estado de pânico ante a provável vitória de Trump em novembro, que perdeu, basicamente, o controle de toda sua política exterior em geral, e especialmente, na Síria. Os russos estão literalmente cobertos de razão: o governo Obama é realmente “incapaz para acordos”.

Claro: o fato de os norte-americanos estarem agindo como crianças malcriadas frustradas não implica que a Rússia tenha de se rebaixar. Já vimos Lavrov voltar sempre e sempre tentar negociar com Kerry. Não porque os russos sejam ingênuos, mas precisamente porque, diferente dos colegas norte-americanos, os diplomatas russos são profissionais que sabem que negociação e linhas de comunicação mantidas abertas sempre são, e por definição, preferíveis a dar as costas e sair da sala, sobretudo quando se negociar com uma superpotência. Os observadores que criticam a Rússia por ser “fraca” ou “ingênua” só fazem projetar sobre a Rússia o seu próprio modo de ser e agir, quase todo modelado pelos norte-americanos. E nem percebem que russos não são norte-americanos: pensam de modo diferente e agem de modo diferente.

Para começar, os russos não se incomodam com ser vistos como “fracos” ou “ingênuos”. De fato, preferem ser vistos desse modo, se essa percepção faz avançar seus objetivos e confundem o oponente sobre suas reais intenções e capacidades. Os russos sabem que não construíram o maior país do planeta por serem “fracos” ou “ingênuos” e não têm interesse em ‘lições’ que lhe venham de países mais jovens que muitos dos prédios russos.

O paradigma ocidental quase sempre é o seguinte: crise sempre leva a rompimento de negociações; em seguida vem o conflito. O paradigma russo é completamente diferente: crise leva a mais negociações que são mantidas até o último segundo, tentando impedir que irrompa o conflito.

Há duas razões para isso: primeiro, insistir em negociar até o último segundo possibilita procurar o mais possível por uma via pela qual sair do confronto; e, segundo, negociações nas quais se insista até o último momento possibilitam que o negociador aproxime-se o mais possível de pôr a seu favor a surpresa estratégica, no caso de ter de atacar. Assim, exatamente, a Rússia agiu na Crimeia e na Síria – sem absolutamente nenhum sinal ou, ainda menos, sem exibições propagandeadas de poder como meio para intimidar alguém (intimidação também é estratégia política ocidental, que os russos nunca usam).

Assim sendo, Lavrov continuará a negociar, não importa o quão ridículas ou inúteis pareçam essas negociações. O próprio Lavrov provavelmente jamais pronunciará publicamente a palavra “недоговороспособны”, mas a mensagem ao povo russo e aos aliados sírios, iranianos e chineses da Rússia sempre será clara: os russos, hoje, já perderam qualquer esperança de obter negociações proveitosas ou confiáveis com o atual governo dos EUA.

Obama & Co. estão assoberbados de trabalho, tentando esconder as reais condições de saúde e os problemas de caráter de Hillary e, no momento, provavelmente só conseguem pensar numa coisa: como sobreviver ao debate Hillary-Trump [2ª-feira, 26/9, na Hofstra University em Hempstead, N.Y.]. O Pentágono e o Departamento de Estado estão ocupados, sobretudo, em combater um contra o outro por causa da Síria, Turquia, curdos e Rússia. A CIA parece estar em guerra contra ela mesma, mas não se pode afirmar com certeza.

O mais provável é que algum tipo de acordo continuará a ser anunciado, por Kerry e Lavrov, se não hoje, então amanhã ou depois. Mas, francamente, concordo integralmente com os russos: norte-americanos são realmente “incapazes para acordos”, e nesse momento, os dois conflitos, na Síria e o da Ucrânia, estão congelados. Não digo “congelados”, isso sim, no sentido de “situação em que não há grandes desdobramentos possíveis”. Ainda haverá combates, especialmente agora que os aliados wahhabistas e nazistas dos EUA sentem que o chefe não está muito atento no comando, ocupado com eleições e conflagração racial quase generalizada nos EUA, mas dado que não há solução militar possível para nenhuma dessas guerras, os confrontos e ofensivas táticos não levarão a resultado estratégico.

Com exceção de algum ataque sob falsa bandeira dentro dos EUA, como o assassinato ou de Hillary ou de Trump por um “pistoleiro solitário”, as guerras na Ucrânia e Síria prosseguirão sem possibilidade de qualquer tipo de negociação significativa. E com Trump ou Hillary na Casa Branca, um grande “reset” acontecerá no início de 2017.  Trump provavelmente quererá encontrar Putin para uma grande sessão de negociações que envolva todos os temas chaves entre EUA e Rússia. Se Hillary e seus neoconservadores chegarem à Casa Branca, nesse caso será quase impossível impedir algum tipo de guerra entre Rússia e EUA.

[assina] The Saker.

PS: Alguns especialistas militares russos estão dizendo que o tipo de dano que se vê nas fotos e vídeos do ataque ao comboio humanitário não é consistente com ataque aéreo, sequer com ataque por artilharia; o que se vê parece ser resultado da explosão de vários IEDs [Dispositivos Explosivos Improvisados]. Se isso se confirmar, também não implica a Rússia, mas aponta para forças de “terroristas moderados” que controlam aquela locação. Ainda assim poderia ser ataque sob falsa bandeira ordenado pelos EUA ou, se não for isso, será prova de que os EUA perderam o controle sobre seus aliados wahhabitas em campo.*****

Irã: Nova China?

Por: Pepe Escobar
Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Fonte original: Telesur
Fonte em português: Oriente Mídia

Se o Irã engajar-se com sucesso num programa de desenvolvimento econômico de estilo chinês, ampliará sua significação e o próprio status geopolítico

Hoje, já praticamente se tem de sortear na moedinha, para indicar qual o trabalhador mais ativo e empenhado nos negócios da geopolítica: se Xi Jinping da China, ou Hassan Rouhani do Irã.

As respectivas rotas cruzaram-se espetacularmente semana passada em Teerã, quando Xi e Rouhani firmaram uma parceria estratégica crucial. As duas nações decidiram aumentar o comércio bilateral entre elas para $600 bilhões ao longo da próxima década. Em termos geoestratégicos, como já comentei, foi jogada de mestre(s).

Pequim vê o Irã, não só para o Sudoeste Asiático mas para toda a Eurásia, como o eixo essencial de qualquer movimento que vise a fazer frente ao muito propagandeado “pivô para a Ásia” centrado na hegemonia naval dos EUA. Não surpreende que Xi tenha deixado bem claro que o Irã será integrado à Organização de Cooperação de Xangai (OCX) como membro pleno, ainda durante 2016.

Parceria estratégica implica pleno apoio de Pequim ao renascimento econômico-político-diplomático do Irã em todo o arco que se estende do Golfo Persa ao Cáspio – e além. O arco também cobre todas as cruciais Novas Rotas da Seda marítimas e terrestres, vitalmente importantes para a projeção global do sonho chinês cunhado por Xi.

E então, poucos dias depois, Rouhani já estava em Roma, em afetuoso encontro a portas fechadas com o Papa Francisco, depois de ter assinado $17 bilhões em vários negócios.

Essa atividade frenética pós-sanções só faz ressaltar, em perspectiva, o absurdo que foi a crise nuclear iraniana integralmente fabricada em Washington. Realismo geopolítico na Europa e na Ásia não pode ignorar uma nação localizada na intersecção dos quatro mundos – mundo árabe, mundo turco, mundo indiano e mundo russo – ainda subestimada em seu papel de ponto de entrada e saída para o vasto conjunto Cáucaso-Ásia Central, que também inclui o Afeganistão.

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Imagem meramente especulativa sobre como seria um caça J-10A nas cores da IRIAF. Imagem: internet.

Geostrategicamente, como derradeiro entroncamento eurasiano, o Irã é imbatível, conectando o Oriente Médio, o Cáucaso, a Ásia Central, o subcontinente indiano e o Golfo Persa; entre três mares – Cáspio, Golfo Persa e Mar de Omã; relativamente próximo do Mediterrâneo e da Europa; e junto à porta de entrada para a Ásia.

Xi nem teve de falar sobre política explícita em Teerã; bastou-lhe assinar negócio depois de negócio, que já deixou impressão profunda também no campo político. A tendência de longo prazo, inevitavelmente, é a da visão chinesa de Um Cinturão, uma Estrada, que preencherá o hiato rumo a uma liderança sino-russa em toda a Eurásia, e que se traduz, na prática, em ir deixando de lado o continuum imperial britânico-norte-americano. Ao mesmo tempo, Itália e França, durante o tour europeu de Rouhani, mantiveram-se mutuamente ocupadíssimas brincando de pega-pega.

Quando Khamenei vira Deng

A cena frenética desse Irã pós-sanções afinal interrompe a incansável demonização obrada pelo ocidente e lança as bases para o desenvolvimento econômico em todas as esferas. A República Islâmica do Irã enfrentou tremenda dificuldade ao longo dos últimos 36 anos – tão terrível, que teria partido a espinha dorsal de sociedade menos bem servida de recursos.

Nos últimos dez anos, as sanções custaram ao Irã pelo menos 480 bilhões de euros; equivale a um ano inteiro do PIB iraniano. Em mundo no qual não reinassem os suspeitos de sempre da oligarquia financeira, Teerã teria bases jurídicas e morais para levar Washington aos tribunais, e arrancar-lhe a frio todos os dentes.

Quanto ao meme da “agressão iraniana” – o qual, por falar dele, persiste –, não passa de sórdida piada imperial. O Irã gasta 3,9% do PIB na Defesa; compare com os 10,3% dahacienda de petróleo que é a Casa de Saud. No total, o Irã gasta sete vezes menos em Defesa que as petromonarquias do Golfo, que não sobrevivem sem receber armas de (principalmente) EUA, Grã-Bretanha e França.

A estrada à frente, para o Irã, será cheia de obstáculos. Graves problemas dentre os quais corrupção, burocratas incompetentes e setores econômicos reservados para interesses especiais, ou fechados a qualquer investimento estrangeiro. Setores da elite no poder – como as bonyads (em persa, “fundações religiosas”) e o pasdaran (em persa, o Corpo de Guardas Revolucionários da República Islâmica) – não dão sinais de interesse em abandonar o controle que têm sobre setores vitais da economia nacional. A abertura econômica do Irã acelerará inevitavelmente a transformação social do país.

O que acontecer na sequência dependerá muito das cruciais eleições de fevereiro – que elegerão um novo Majlis (Parlamento) e uma nova Assembleia dos Sábios encarregada de escolher o próximo Supremo Líder.

O Irã é caso geopolítico único – de república cuja legitimidade advém simultaneamente do Islã e do voto universal. Pode não ser a democracia parlamentar ocidental clássica, mas tampouco é variante do autoritarismo nu e cru da Arábia Saudita. Há em ação um sistema complexo de pesos e contrapesos, que envolve a presidência, o Parlamento, o Conselho dos Guardiões, a Assembléia dos Sábios e diferentes corpos como o Conselho do Discernimento e o Conselho de Segurança Nacional.

O Supremo Líder Aiatolá Khamenei deixou muito claro que dedicará atenção especial às consequências de uma abertura econômica que pode debilitar a ideologia revolucionária da República Islâmica. Certo é que o Supremo Líder – como árbitro – preservará o cuidadoso equilíbrio das forças políticas no Irã.

Significa na prática que a Equipe Rouhani não será liberada para extrair ilimitado capital político da abertura econômica, ao mesmo tempo em que a transformação social e cultural do país não será sinônimo de invasão cultural pelo ocidente.

O acordo nuclear firmado em Viena no verão passado foi nada menos que evento geopolítico sísmico no Irã. Internamente, selou um consenso entre a máquina de estado de Teerã e a maioria da população, que desejava que o país voltasse a ser nação “normal”.

Agora vem a parte mais difícil. O cenário mais provável parece ser uma República Islâmica do Irã engajada num programa de desenvolvimento à moda chinesa. Uma espécie deremix persa de “enriquecer é glorioso”, sob estrito controle político.

Aí, há uma pergunta inescapável: estamos todos preparados para o novo papel do Supremo Líder, como um Deng Xiaoping iraniano?

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

O segredo por trás do próximo crash global

Por: Pepe Escobar – 21.01.2016

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Fonte original: Sputnik News

Reproduzido: Blog do Alok

O Fórum Econômico Mundial em Davos está naufragado sob um tsunami de denials – negar o que vê/fingir que não vê/não ver sinceramente – e também de non-denial denials – não negar o que nem vê que nega – e tudo isso só para ‘garantir’ que não acontecerá um desdobramento do Crash de 2008.

O caso é que sim, acontecerá. E o cenário já está pronto.

Seletos corretores de petróleo no Golfo Persa, o que inclui ocidentais que trabalham no Golfo confirmam que a Arábia Saudita está descarregando pelo menos $1 trilhão em securities e derrubando os mercados globais por ordem dos Masters of the Universe – os que mandam acima da presidência manca de Barack Obama.

Longe vão os dias quando bastaria a Casa de Saud flertar com essa ideia, para ter todos os seus bens congelados. Pois, hoje, já obedecem a ordens. E mais virá; na avaliação de corretores craques em Golfo Persa, os investimentos sauditas em securities ocidentais podem chegar a $8 trilhões; os de Abu Dhabi, a $4 trilhões.

Em Abu Dhabi tudo foi separado em compartimentos, e ninguém pode avaliar coisa alguma, exceto corretores e negociantes que conheçam cada supervisor de cada compartimento de investimentos. E para a Casa de Saud, como se poderia prever, a regra de ouro é negar sempre.

Essa massiva descarga de securities chegou algumas vezes à mídia-empresa, mas os números têm sido grosseiramente subestimados. A informação inteira não chegará até lá, porque os Masters of the Universe ordenaram que não chegasse.

Houve aumento gigante na descarga saudita-Abu Dhabi de securities desde o início de 2016. Fonte no Golfo Persa diz que a estratégia saudita “demolirá os mercados”. Outra fonte fala de “vermes comendo carcaça no escuro”; basta olhar a calamidade em Wall Street, por toda a Europa e em Hong Kong e Tóquio na 4ª-feira.

Quer dizer: já está acontecendo. E uma subtrama crucial pode ser, em prazo de curto a médio, nada menos que o colapso da eurozona.

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Desânimo no mercado. Foto: Euronews.

O crash de 2016?

Por tudo isso, pode ser um caso de a Casa de Saud em pânico, instrumentalizada para derrubar grossa fatia da economia global. Quem ganha com isso? Cui bono?

Moscou e Teerã tem muito a ver com isso. A lógica por trás de demolir mercados, criando recessão e depressão – do ponto de vista dos Masters of the Universe que reinam acima do presidente pato manco dos EUA – é arquitetar retardo gigante, impossibilitar os padrões de compra, reduzir o consumo de petróleo e gás natural, e pôr a Rússia em rota direta rumo à ruína. Além do quê, preços ultrabaixos do petróleo também se traduzem como uma espécie de sanção-substituta contra o Irã.

Mesmo assim, o petróleo iraniano que se aproxima de chegar ao mercado estará em torno de 500 mil barris/dia em meados do ano, mais um excedente armazenado em petroleiros no Golfo Persa. Esse petróleo pode ser e será absorvido, porque a demanda está aumentando (nos EUA, por exemplo, aumentou 1,9 milhão de barris por dia em 2015), e a oferta está caindo.

Em julho, aproximadamente, demanda crescente e produção em declínio reverterão o crash do petróleo. Além do mais, as importações de petróleo da China tiveram aumento recente de 9,3%, em 7,85 milhões de barris/dia, o que desacredita completamente a narrativa dominante de que a economia chinesa estaria ‘em colapso’ – ou de que a China seria culpada pelos padecimentos atuais do mercado.

Assim sendo, como já expus aqui em linhas gerais, em breve o petróleo dará a volta por cima. Goldman Sachs concorda. Implica que os Masters of the Universe tem uma estreita janela de oportunidade para fazer os sauditas despejarem quantidades massivas de securities nos mercados.

A Casa de Saud pode precisar desesperadamente de dinheiro, se se considera o alerta vermelho no orçamento. Mas esse despejo das próprias securities também é visivelmente autodestrutivo. Eles simplesmente não podem vender $8 trilhões. A Casa de Saud está, na verdade, destruindo o equilíbrio da própria riqueza. Por mais que a hagiografia ocidental tente pintar Riad como player responsável, fato é que legiões de príncipes sauditas estão horrorizados ante a destruição da riqueza do reino nesse haraquiri em câmera lenta.

Principe
Mohammed bin Sultan. Foto: Albawaba News.

Haveria algum Plano B? Haveria. O príncipe guerreiro Mohammed bin Sultan – atual manda-chuva em Riad – teria de meter-se no primeiro avião para Moscou, para arquitetar uma estratégia comum. Mas não acontecerá.

E quanto à China – maior importador de petróleo da Arábia Saudita –Xi Jinping acaba de visitar Riad; Aramco e Sinopec assinaram uma parceria estratégica; mas a parceria estratégica que realmente conta, considerando o futuro de “Um Cinturão, Uma Rota”, é, essa sim, a parceria Pequim-Teerã.

O despejo massivo das securities sauditas tem a ver com a guerra saudita do preço do petróleo. No momento atual de volatilidade extrema, o petróleo está em baixa, as ações estão em baixa e os estoques de petróleo estão baixos. Pois nem assim a Casa de Saud dá sinais de compreender que os Masters of the Universe os estão empurrando para que se autodestruam, os próprios sauditas, várias e várias vezes, incluindo inundar o mercado de petróleo depois de limitar a capacidade dos sauditas [orig. including flooding the oil market with their shut-in capacity]. E tudo isso, para ferir mortalmente Rússia, Irã e… a própria Arábia Saudita!

Apenas um peão no jogo de outros.

Entrementes, Riad ferve de boatos de que haverá um golpe contra o rei Salman – virtualmente incapacitado, demente e confinado a um quarto de seu palácio em Riad. Estão em jogo dois possíveis cenários:

1) Rei Salman, 80, abdica em favor do filho, conhecido ignorantão, arrogante criador de confusão e príncipe guerreiro Mohammed bin Salman, 30, atualmente vice-príncipe coroado e ministro da Defesa e o segundo na linha de sucessão, mas quem de fato comanda o show em Riad. Pode acontecer a qualquer momento. Como bônus, o atual ministro do Petróleo Ali al-Naimi, que não é da família real, poderia ser substituído por Abdulaziz bin Salman, outro filho do rei.

2) Um golpe palaciano. Salman – e seu filho criador de casos – cai fora do quadro, substituído por Ahmed bin Abdulaziz (que foi já ministro do Interior), ou pelo príncipe Mohammed bin Nayef (atual ministro do Interior e príncipe coroado).

Seja qual for o cenário que se concretize, o MI6 britânico está muito intimamente a par da pantomima. E talvez também o BND (Bundesnachrichtendienst, Serviço Nacional de Inteligência) alemão. Todos recordam o memorando do BND no final de 2015, que descrevia o então vice-príncipe coroado Mohammed bin Salman como “jogador político” que está desestabilizando o mundo árabe com as guerras por procuração no Iêmen e na Síria.

Fontes sauditas – que pedem, por óbvias razões, que não se publiquem seus nomes –, garantem que nada menos de 80% da Casa de Saud é favorável ao golpe.

Seja como for, permanece a questão de saber se alguma Casa de Saud reformatada interromperá o haraquiri em câmera lenta que lá acontece. O imperativo categórico não muda: os Masters of the Universe estão prontos para derrubar o mundo inteiro, empurrando-o para terrível recessão, para, basicamente, estrangular a Rússia. A Casa de Saud é apenas um peão nesse jogo de pervertidos.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

Semana 15 da intervenção russa na Síria: Quando nenhuma notícia é boa notícia

Data de publicação: 17/1/2015.

Autor: The Saker

Fonte original:  Vineyard of the Saker

Fonte em Português: Oriente Mìdia

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu.

Pode-se dizer que a intervenção russa na Síria entrou numa espécie de rotina: os russos bombardeiam, muito, e os sírios avançam em quase todos os fronts, mas lentamente. Por mais que os que esperavam colapso rápido do Daesh seguido de várias grandes vitórias do estado sírio estejam talvez desapontados, pessoalmente estou ainda mais encorajado por esses eventos. Explico por quê:

Se os sírios não venceram em alguma rápida Blitzkrieg [guerra-relâmpago], é porque, em primeiro lugar e sobretudo, nenhuma Blitzkrieg jamais foi possibilidade real. Os sírios nunca tiveram números que lhes permitisse concentrar forças suficientes num eixo de ataque e, subsequentemente, explorar alguma abertura. Os sírios tampouco têm o poder de fogo necessário para preparar as defesas do Daesh antes de tentar ofensiva daquele tipo.

De fato, um papel secundário das Forças Aeroespaciais Russas foi prover, do ar, o poder de fogo que os sírios não tinham nas próprias forças terrestres. Mas, por mais que uma Blitzkrieg seja muito impressionante, embora arriscada, há outro tipo de guerra também já testada no tempo, a guerra de atrito [ing. attrition warfare], que também gera resultados. Não estou falando de um tipo de guerra de atrito da 1ª Guerra Mundial, é claro, mas de um tipo específico do conflito sírio.

Os russos não param de degradar o Daesh em vários níveis: atingem postos de comando, depósitos de munição, rotas logísticas e de suprimento, bases de treinamento, etc. Dado que vários desses alvos já estão destruídos, os russos também estão provendo mais e mais apoio aéreo direto próximo, quer dizer, agora estão voando missões em apoio direto às operações do exército sírio. Há também cada vez mais evidências de que há oficiais russos trabalhando bem próximos das unidades sírias de linha de frente. Essa cooperação próxima e a coordenação fina entre russos e sírios já gerou várias pequenas vitórias e pelo menos uma grande vitória: a cidade estratégica de Salma, na província de Latakia no nordeste do país, está agora completamente libertada.

– Assistam a esse vídeo (em russo, com legendas em inglês, mas o idioma nem é necessário), da libertação da cidade.

– Para acompanhar progressos recentes, há esse relatório do Quartel-general Russo (legendas em inglês).

Do lado negativo, sírios e russos ainda não encontraram meio para negar ao Daesh sua maior vantagem: a capacidade para arrastar mais e mais combatentes para dentro da Síria, pela Turquia e outros países.

Nesse momento ainda não se vê com clareza quem está levando vantagem nessa competição: se os sírios matam takfiris mais depressa do que o Daesh os importa, ou não. Seja como for, o que é certo é que os sírios estão avançando, o que me diz que, por mais que o influxo de novos combatentes com certeza seja problema para os sírios, não é fator que tenha tornado possível, para o Daesh, impedir os sírios de avançarem.

Já mencionei no passado que os russos estão fornecendo aos sírios sistemas avançados de artilharia que, gradualmente, restaurarão, para os sírios, a capacidade de poder de fogo nas unidades de solo do exército.

Outro item interessante do noticiário recém surgido: há relatos de que a Rússia, agora,está fornecendo armamento diretamente ao Hezbollah.

Se aquelas notícias se confirmarem (mais ou menos; ninguém jamais reconhecerá oficialmente, claro), teremos aí resposta muito elegante às bombas de Israel contra depósitos de armamento do Hezbollah.

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Soldados do Exército Árabe da Síria exultantes por libertarem um bairro dos terroristas. Foto: Portal R7.

Quanto ao Irã, podemos ter certeza de que podem obter no mercado russo, em todos os casos, quase qualquer coisa de que venham a precisar. Em outras palavras, Rússia estará lentamente, mas consistentemente, reconstruindo as capacidades sírias.

Mesmo com tudo isso, o grande evento das duas últimas semanas é, na realidade, um não evento. É o fato de que a “coalizão alternativa” liderada pelos EUA está conseguindo precisamente nada. Não apenas a grande conferência na Arábia Saudita foi fracasso totaldepois que o grupo Ahrar al-Sham deixou a reunião, mas, além disso, a recente tentativa dos sauditas para criar uma crise com o Irã também deu em nada, acabou sem qualquer resultado tangível.

O mesmo vale para a intervenção francesa em resposta aos massacres em Paris: o [porta-aviões] Charles de Gaulle navegou para a Síria e daí… nada! Literalmente nada, coisa nenhuma, aconteceu. Quando ao Hegemon Mundial, parece que Tio Sam simplesmente não sabe o que fazer: todos vimos uma série de declarações insípidas e depois delas, nada. Os turcos, por sua vez, enfrentam agora situação interna que só piora dia após dia e também já parecem não saber o que fazer quanto à Síria.

Por tudo isso é que entendo que “nenhuma notícia é boa notícia”: porque nenhuma notícia significa que a Rússia é o único jogo na cidade: seja qual for o passo do avanço russo-sírio contra o Daech, são os únicos que estão realmente fazendo acontecer alguma coisa, enquanto todos os demais atores estão em total desarranjo e confusão.

Por algum tempo o Pentágono fez circular a ideia de uma ofensiva curda apoiada pelos EUA contra a cidade de  apresentada como “capital do Daesh“, e algumas forças especiais dos EUA foram mandadas para ajudar os curdos, mas rapidamente se viu que os turcos opunham-se firmemente àquela ação. Pior ainda, os curdos recusaram-se a servir como bucha de canhão para operação comandada dos EUA contra o Daech. E foi-se pelo ralo o grande plano.

Em outras palavras, e nesse ponto do tempo, parece é que EUA, OTAN, UE, turcos, sauditas etc. estão absolutamente sem plano viável e sem ação. Os únicos atores que não só têm plano, mas também estão agora trabalhando a favor de seu objetivo de longo prazo são Rússia e Irã. Vale a pena também observar que o plano russo-iraniano inclui flexibilidade prevista na estrutura: sendo possível, russos e iranianos querem alcançar a melhor situação em campo, antes de iniciar quaisquer negociações sobre o futuro da Síria. Se não for possível e se o Império insistir e mudar as regras do jogo e aumentar a aposta, nesse caso o plano de volta ao pé de apoio é simples: derrotar militarmente o Daech.

A melhor prova de que o lado russo está disposto a sustentar campanha longa é o recente acordo SOFA (ing. status of forces agreement) assinado entre Russos e Síria e que, basicamente, regula a presença russa na Síria e que foi assinado sem limite de tempo. De fato, qualquer dos lados que queira retirar-se do acordo comprometeu-se a dar um ‘aviso prévio’ com um ano de antecedência. É possível que iranianos e sírios também tenham acordo similar, mas não foi divulgado.

Há muita especulação sobre uma possível operação russa de solo, na Síria. É ideia que absolutamente não me convence. Não apenas funcionários e especialistas militares russos descartaram essa possiblidade, mas, simplesmente, os militares russos não estão configurados para esse tipo de projeção de poder de longo alcance. Sim, a Rússia pode, em teoria, mandar forças aeroembarcadas para lá e depois apoiá-las com uma força-tarefa naval, mas seria ação contrária à doutrina militar russa e gera riscos potenciais muito sérios. Exceto se ocorrer algo de realmente extraordinário, não vejo o Kremlin entrando nesse tipo de gambito extremamente perigoso.

Por tudo isso, o plano parece ser o seguinte:

  1. Estabilizar o governo sírio [feito]
  2. Guerra de atrito contra o Daesh (em andamento)
  3. Reconstruir as forças armadas sírias (em andamento)
  4. Estabelecer uma presença militar russa permanente [feito]
  5. Impedir que EUA-OTAN imponham uma zona aérea de exclusão [feito]
  6. Forçar o Império a negociar com Assad (em andamento)
  7. Bloquear o apoio que turcos, sauditas e qataris dão aoDaech (em andamento)
  8. Cooptar a maior parte possível da oposição armada contra Assad para uma frente unida anti-Daech(em andamento)
  9. Prover ajuda militar ao Irã e ao Hezbollah (em andamento)
  10. Manter combatentes do Daesh longe da Rússia e dos aliados da Rússia no Cáucaso e na Ásia Central (em andamento)
  11. Tentar convencer os europeus de que a posição deles no Oriente Médio (e em e nos demais pontos) é de autoderrota, e que devem trabalhar com a Rússia para restaurar a estabilidade (sem resultados até agora)
  12. Tentar meter uma cunha entre EUA e Europa (sem resultados até agora).

Acho que esse plano combina com sucesso objetivos de curto e de longo prazo, e tem boa chance de ser bem-sucedido em, pelo menos, os 10 primeiros objetivos. Infelizmente, não vejo sinal algum de que o tacão dos EUA sobre a Europa (aplicado mediante as elites europeias comprador que estão no poder) esteja perdendo força. Se por mais não for, o fracasso que foi a viagem de Hollande a Washington já provou que também à França já não resta qualquer soberania real.

 

E se a China tiver a chave do quebra-cabeça afegão?

Por: Pepe Escobar

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Fonte original: RT

Fonte em Português: Oriente Mídia

Como Lázaro, há razões para crer que o processo de paz afegão pode ter tido uma chance de ressuscitar na 2ª-feira passada em Islamabad, quando quatro grandes players – Afeganistão, Paquistão, EUA e China – sentaram-se ao mesmo tempo à mesma mesa.Mas o comunicado final ficou longe de ser retumbante: “Os participantes enfatizaram a necessidade imediata de conversações diretas entre representantes do governo do Afeganistão e representantes de grupos Talibã num processo de paz que visa a preservar a unidade, a soberania e a integridade territorial do Afeganistão.”Uma semana antes da reunião em Islamabad, ainda no Golfo Persa, tive conversa extremamente esclarecedora com um grupo de pashtuns afegãos. Depois de quebrado o gelo, quando todos se convenceram de que não sou algum tipo de agente à moda Sean Penn, com agenda oculta, meus interlocutores pashtuns entregaram o que tinham de melhor. Senti-me de volta a Peshawar em 2001, uns poucos dias antes do 11 de setembro.A primeira grande novidade foi que dois oficiais Talibã baseados no Qatar, estão próximos de reunir-se cara a cara com altos enviados chineses e paquistaneses, sem interferência dos EUA. Encaixa-se perfeitamente na estratégia demarcada pela Organização de Cooperação de Xangai (OCX), liderada por China e Rússia, segundo a qual o enigma afegão tem de ser resolvido como assunto asiático. E Pequim com certeza quer solução, e rápida; pensem no capítulo afegão das Novas Rotas da Seda.

A Guerra Afegã pós 11/9 arrasta-se por intermináveis 14 anos; adotando o jargão pentagonês, pode-se pensar em Liberdade Duradoura para sempre. Ninguém está vencendo – e os Talibã estão mais divididos que nunca, depois que processo de paz passado colapsou quando os Talibã anunciaram que Mullah Omar morrera dois anos antes.

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Guerreiro Taliban e o seu RPG-7. Foto: Foto: internet.

Aquela boa velha “profundidade estratégica”

Mesmo assim, tudo depende do complexo jogo entre Cabul  e Islamabad.

Considere os movimentos de vai-e-vem do Chefe Executivo Organizacional (CEO, é o título dele) afegão, Dr. Abdullah Abdullah. Vive entre Teerã – onde enfatiza que o terrorismo é ameaça contra ambos, Irã e Afeganistão – e Islamabad, onde discute os arcanos do processo de paz com oficiais paquistaneses.

O primeiro-ministro paquistanês Nawaz Sharif, por sua vez, não perde uma chance de renovar seu compromisso com a paz e o desenvolvimento econômico no Afeganistão.

Quando uma tentativa de processo de paz realmente começou – informalmente – em Doha, em 2012, incluindo oito funcionários Talibã, os Talibã ficaram furiosos por Cabul  ter realmente privilegiado as conversações com Islamabad. A posição oficial dos Talibã é que são politicamente – e militarmente – independentes de Islamabad.

Como meus interlocutores pashtuns destacaram, muita gente no Afeganistão não sabe o que fazer de toda aquela conversa Cabul -Islamabad, incluindo o que consideram concessões perigosas, como enviar jovens soldados afegãos para receberem treinamento no Paquistão.

Islamabad joga jogo muito alavancado. O grupo Haqqani – que Washington rotula de terroristas – encontra base segura dentro das áreas tribais do Paquistão. Pois o Talibã está sentado à mesa de negociações de qualquer processo de paz a ser negociado pelo Paquistão – que ainda conta com muita alavancagem sobre aqueles Talibã posicionados à volta do novo líder, Mullah Akhtar Mansoor.

Meus interlocutores pashtuns não têm dúvida alguma: os Talibã e os serviços secretos do Paquistão, ISI (Inter-Services Intelligence), são uma e a mesma coisa, como sempre foram. A aliança estratégica que sempre os uniu continua ativa. Todos os Talibã em Doha são monitorados pelo ISI.

Por outro lado, parece haver mudança sutil envolvendo militares paquistaneses e o ISI(que sabe tudo o que haja para saber, e é cúmplice de muito do que acontece concernente aos Talibã). Mês passado, o comandante do exército do Paquistão general Raheel Sharif foi sozinho ao Afeganistão; pode significar que os militares privilegiarão uma paz real em campo, em vez de manipular o Afeganistão como alguma “profundidade estratégica” do peão paquistanês.

Atenção: tubulação à frente

Assim sendo, em princípio, prosseguirá a conversa afegã. O grupo Hezb-i-Islami Afghanistan (HIA), liderado por Gulbuddin Hekmatyar – outro ator chave na Lista dos Terroristas Top Ten de Washington – está também interessado no processo de paz. Mas oHIA diz que tem de processo que pertença aos afegãos, liderado pelos afegãos – o que significa: sem interferência do Paquistão. Hekmatyar está claramente se posicionando para futuro papel de protagonista.

O enredo engrossa se se passa, dos Talibã para os avanços de ISIS/ISIL/Daesh no Afeganistão. Para círculos próximos do ex-presidente Hamid Karzai, codinome “ex-prefeito de Cabul” (porque só controlava a cidade, nada mais), Daesh é invenção da política externa de Islamabad, para garantir ao Paquistão acesso total à Ásia Central, à China e à Rússia ricas em energia.

Parece um pouco forçado, se se compara ao que realmente se passa hoje no Oleogasodutostão.

Cabul entregou a uma força de segurança gigante, de 7 mil membros, a tarefa de proteger o gasoduto de $10 bi, 1.800 km de comprimento Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia (TAPI), dentro do Afeganistão, assumindo que estará realmente construído até dezembro de 2018. Com otimismo, o trabalho de abrir caminho para o TAPI – o que inclui retirada de minas – começará em abril.

O presidente do Turcomenistão Gurbanguly Berdymukhamedov já ordenou que empresas estatais, a Turkmengaz e a Turkmengazneftstroi, comecem a construir a parte turcomena, de 214 km, do gasoduto TAPI. O gasoduto também atravessará 773 km pelo Afeganistão e 827 km pelo Paquistão, antes de chegar à Índia. Se esse frenesi todo realmente se materializará até 2018 é tema para infindáveis discussões.

E onde está minha heroína?

Enquanto tudo isso acontece, o que anda fazendo a CIA?

O ex-diretor interino da CIA Michael Morell está espalhando “a reemergência do Afeganistão como questão”, de modo que “a discussão de quantos soldados nós [os EUA] mantemos no Afeganistão vai ser reaberta”.

O Pentágono por sua vez anda espalhando que seriam necessários 10 mil coturnos em solo. O comandante da OTAN no Afeganistão, general John Campbell, fala de 10 mil, para acabar com a conversa: “Meu objetivo seria manter o maior número possível de soldados, pelo tempo mais longo possível”. Liberdade Duradoura para sempre, sem dúvida –, agora que o Pentágono foi forçado a admitir, on the record, que as forças de segurança afegãs são incapazes de “operar integralmente por conta própria”, apesar do investimento monstro que Washington fez, de mais de $60 bilhões desde 2002, até agora.

O mais recente relatório do Pentágono fala da segurança no Afeganistão cada vez maisdown, down, down. O que nos leva até Helmand.

Apenas poucos dias antes da reunião de Islamabad, forças especiais dos EUA encobertas por soldados afegãos enfrentaram em tremenda troca de tiros com o Talibã em Helmand. O secretário de imprensa do Pentágono Peter Cook, naquele duplifalar que é sua marca registrada, não falou de “combate” – falou de missão para “treinamento, aconselhamento e assistência”.

O Talibã controla mais território no Afeganistão – nada menos de quatro distritos em Helmand –, mais do que jamais antes, desde 2001. Civis são colhidos no fogo cruzado. E forças especiais e ataques aéreos por forças especiais do Pentágono em Helmand são descritos como ‘supervisão’.

No final, tudo volta sempre a Helmand. Por que Helmand? Meus interlocutores pashtuns relaxam e dizem, de boca cheia: sempre tem a ver com o envolvimento da CIA no tráfico de heroína no Afeganistão: “os norte-americanos simplesmente não podem perder aquilo tudo”.

Assim sendo, parece que estamos entrando num novo capítulo do épico ‘gás e papoulas’ no coração da Eurásia. Os Talibã, divididos ou não, já impuseram a linha vermelha deles: nada de conversas com Cabul, antes de terem conversa direta com Washington. Do ponto de vista Talibã, faz perfeito sentido. Oleogasodutostão? OK, mas queremos nossa fatia (é outra vez a mesma história, desde o primeiro governo Clinton). A CIA não abre mão da heroína? OK, levem quanto quiserem, mas queremos nossa parte.

Meus interlocutores pashtuns, que tem de tomar um avião para Peshawar, abrem um mapa do caminho. Os Talibã querem que o escritório deles no Qatar – palácio realmente muito bonito – seja oficialmente reconhecido como representação do Emirado Islâmico do Afeganistão (nome oficial do país de 1996 a 2001). Querem que a ONU – para nem falar dos EUA! – retirem os Talibã da lista de “mais procurados”. Querem que todos os Talibã sejam libertados das prisões afegãs.

Acontecerá? Claro que não. Significa que chegou a hora de Pequim entrar na conversa com um daqueles cenários de ganha-ganha.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

Síria destroça o sonho do Pentágono

O texto que segue é de autoria de Pepe Escobar, colunista brasileiro especialista em Oriente Médio e Ásia Central, que regularmente escreve em inglês para vários veículos, entre eles o Asia Times On-Line. Este texto, traduzido pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu foi em português publicado no site Txacala, a publicação original, em inglês, proveio do site Strategic Culture, com a data de 16.12.2015.

Síria destroça o sonho do Pentágono

Por: Pepe Escobar

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Não é de estranhar que os praticantes da Dominação de Pleno Espectro no governo dos EUA em Washington e noutras paragens estejam afogados em surto da mais obcecada negação.

Põem os olhos do tabuleiro sírio e, no que se relacione com projeção de poder, veem a Rússia instalando-se confortavelmente, com base a ser levada a sério em terra e ar, para conduzir em futuro próximo todos os tipos de operação em toda a região OMNA (Oriente Médio-Norte da África, ing. MENA, Middle East-Northern Africa). O Pentágono, obviamente, foi apanhado com as calças na mão.

E é só o começo. Adiante, nessa mesma trilha aumentará a interação militar entre Rússia, China e Irã, por todo o Sudoeste da Ásia. O Pentágono classifica Rússia, China e Irã – os nodos chaves da integração da Eurásia – como ameaças.

Rússia avança cada vez mais profundamente na Síria – e, no longo prazo, na área OMNA – avanços para os quais Moscou insiste em tratar com membros sortidos da OTAN como “parceiros” na guerra contra ISIS/ISIL/Daesh1 (EI – Estado Islâmico). Alguns apunhalam Moscou pelas costas, como a Turquia. Outros podem partilhar inteligência militar sensível, como a França. Alguns até manifestam desejo de colaborar, como a Grã-Bretanha. E alguns são como gêiseres de ambiguidade, como os EUA.

Nessa bruma de tantas ambiguidades, “parceiros” não poderiam ser o meio mais deliciosamente diplomático para mascarar o fato mais surpreendente que se vê nos céus: com sua atual sofisticada mistura de defesas terra-ar, mar-ar e ar-ar, de mísseis cruzadores lançados de submarinos aos S-400s, quem agora já se resolveu quanto a uma zona aérea de fato de exclusão sobre a Síria foi Moscou – não Washington e muito menos Ancara.

Escolha sua coalizão

Aqueles S-400s, por falar deles, logo serão movidos para o norte, dispostos em torno do terrivelmente complexo teatro de Aleppo, ao ritmo em que o Exército Árabe Sírio vai progressivamente ganhando terreno.

Na Primeira metade de 2016 devemos já estar contemplando uma situação na qual os S-400s estarão cobrindo e poderão tomar por alvo toda a fronteira sírio-turca. Será o momento quanto o presidente Recep Tayyip Erdogan terá ficado completamente sem bolinhas de gude para continuar no jogo. A cobertura que a Rússia dá aos avanços do Exército Árabe Sírio – e em breve também aos avanços das Unidades de Proteção Popular Curdas dos sírios curdos (YPG) – vai metodicamente preparando o terreno para o fim de todos os elaborados planos de Ancara para uma zona aérea de exclusão disfarçada de “zona segura”, comprada e paga pelos três bilhões de euros que a União Europeia pagou à Turquia para dar jeito na crise dos refugiados sírios.

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Combatente curdo – sírio do YPG. Foto: internet.

Assim sendo a lógica doravante, no campo de batalha é clara: os turcomenos – 5ª Coluna de Ancara, pesadamente infiltrada por islamo-fascistas turcos – estão sendo empurrados de volta para o território turco, em todo o espectro. E as YPG logo terá a chance de unir os três cantões de curdos sírios através da fronteira.

Quando acontecer, será, pode-se dizer, em resumo – a vitória de uma coalizão – a coalizão “4+1” (Rússia, Síria, Irã, Iraque plus Hezbollah) – sobre a outra (o combo CCGOTAN – Conselho de Cooperação do Golfo – plus OTAN, muito podada) nessa guerra surrealista de duas diferentes coalizões contra ISIS/ISIL/Daesh.

Qualquer praticante da Dominação de Pleno Espectro não cegado pela ideologia verá claramente que a “4+1” está vencendo. É caso exemplar de força aérea pequena, mas altamente motivada e comandada com perfeição, e posicionada no local certo, com a arma certa e alimentada por inteligência de boa qualidade em solo. A coalizão puxada pelos EUA, que tenho chamado de Coalizão dos Oportunistas Finórios (COF) não tem nenhum dos itens acima listados.

Equipe “Mediocridade” em ação

Washington está atolada num lodaçal que ela mesma produziu. E virtualmente tudo ali tem a ver com aquela turma espantosamente medíocre que constitui a equipe dita “sênior” de política exterior do governo Obama.

A equipe Obama sempre descuidou do caso de amor entre Erdogan e a Frente Al-Nusra, também chamada Al-Qaeda na Síria, com Ancara liberando total o seu Expresso Jihad, de lá para cá, pela fronteira sírio-turca. E a equipe Obama fez como se não soubesse do Expresso Petróleo Roubado da Síria, do ISIS/ISIL/Daesh, fluindo por uma frota gigante, facilmente detectável por satélite, de caminhões-tanques.

A equipe Obama deixou passar sem nada decodificar da frágil, escorregadia agenda da Turquia, aliada na OTAN; nisso, deixaram-se prender como reféns da Dominação de Pleno Espectro, porque para o Pentágono, Ancara é a proverbial “âncora de estabilidade” e peão chave da Dominação de Pleno Espectro na região.

Daí, pois, a incompetência/incapacidade da equipe de Obama, que não conseguiu detonar os comboios de caminhões-tanques: não fosse Ancara ofender-se e arrepiar as penas…

A equipe Obama sempre negligenciou o modo como Riad e Doha, diretamente, e depois mediante “doadores privados” – coordenados pelo notório Bandar Bush2 em pessoa – sempre financiaram ambos, a Frente Al-Nusra e o Daesh.

Em lugar de cuidar daquilo, a equipe Obama avançou festivamente na brincadeira de dar armas e mais armas para Al-Nusra e Ahrar ash-Sham, via os fornecedores da CIA que forneciam armas para o Exército Sírio Livre. Todas essas armas sempre acabaram capturadas pela Frente Al-Nusra e Ahrar ash-Sham.

A equipe Obama, sem jamais nem dar-se conta, muito menos tentar conter a própria miopia, providenciou para que Al-Nusra & Co., ficassem conhecidos como “rebeldes moderados”.

A equipe Obama sempre desqualificou o Irã, tratado como nação “hostil”, como “ameaça” aos vassalos do CCG3 e a Israel. Assim sendo, quem fosse aliado de Teerã ou apoiado por Teerã seria também ou “hostil” ou “ameaça”: o governo em Damasco, o Hezbollah, milícias xiitas treinadas pelos xiitas iraquianos, e até os Houthis no Iêmen.

E por cima de tudo isso, ainda veio a “agressão russa”, manifestada na Ucrânia; e, depois, com Moscou “interferindo” na Síria, mediante o que a Equipe Obama interpretou como jogo de poder nu e cru no Mediterrâneo Oriental.

Com toda a atual luta de sombras, o verdadeiro teste das intenções do governo Obama é se a coalizão dos EUA realmente dará combate real, sem reservas, a Daesh, Al-Nusra e Ahrar ash-Sham (que acolhe legiões de jihadistas da Chechênia, Daguestão e Uzbequistão).

Implica que a Equipe Obama terá de dizer a ambas, Ancara e Riad, em termos bem claros, que caiam fora. Nada mais de Expresso Jihad. Nada mais de armas para terroristas. Sem essas linhas vermelhas, o “processo de paz” para a Síria, que vive de malabarismos entre Viena e New York, não serve nem como piada.

Que ninguém espere demais. Porque ninguém em sã consciência pode esperar que a equipe inacreditavelmente medíocre de Obama pato-manco terá colhões para enfrentar o wahhabismo como a verdadeira matriz ideológica de todas as correntes do jihadismo salafista, “rebeldes moderados” incluídos.

O que nos leva de volta à terrível angústia que faz estremecer toda a Avenida Beltway em Washington. Com ou sem equipe Obama, permanece o único fato que nada e ninguém consegue alterar: sem conquistar – ou, pelo menos balcanizar – a Síria… Não há Dominação de Pleno Espectro.

Notas

1) ISIS/ISIL/Daesh: siglas em inglês para o Estado Islâmico – EI.

2) Bandar Bush: Bandar Bin Sultan – Principe Saudita reponsável pelo serviço de inteligência do reino.

3) CCG: Conselho de Cooperação do Golfo. Conselho que envolve as monarquias do Golfo Pérsico, produtoras de petróleo. A saber: Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Bahrein, Omã, Qatar e Kuwait.