As mulheres na infantaria – a perspectiva de um soldado norte-americano

Por: Scott M.

Tradução: Clermont.                                 

Fonte: FDB

“Eu sei que isso já foi discutido, de novo e de novo.

Mas aqui está uma opinião de um soldado no Iraque. Eu queria ler o que ele tinha a dizer, portanto presumi que vocês também.

Eu mencionei, por acaso, para minha filha de 16 anos (que foi criada assistindo ‘Buff, a Caça-Vampiros’, ‘Stargate SG-1’, várias reencarnações de ‘Jornada nas Estrelas’, ‘Lara Croft’ e outras séries de ação que mostram garotas metendo a porrada) que não se permitem mulheres em unidades de combate das Forças Armadas dos EUA. Ela ficou ultrajada. Indignada. Ela quase gritou ‘POR QUÊ NÃO’! Eu fiz o melhor que pude para explicar as razões ‘oficiais’, as não-oficiais como eu as entendia, minhas objeções pessoais e como a linha entre ‘combatente’ e ‘não-combatente’ está cada vez mais obscurecida, mas ela não se convenceu.

Isso não é uma ordem por escrito, mas eu estaria muito interessado em sua opinião nesse assunto e suas experiências com fêmeas da espécie militar”.

A resposta do Soldado no Iraque:

Sim, é verdade, mulheres não podem estar na infantaria.

O tópico de mulheres na infantaria é muito cheio de armadilhas e é a única coisa em minha filosofia de vida pessoal sobre a qual sou um sexista. Eu vejo que existem duas razões por que mulheres não são permitidas na infantaria (ou na maioria das outras armas de combate). O “grunt” médio está bem de acordo com sua personalidade primordial e, sendo assim, geralmente só quer saber de duas coisas: trepar e brigar, nessa ordem. E a principal razão porque eles brigam é para serem durões para poder atrair mais mulheres, com as quais eles podem conseguir satisfazer o seu desejo por trepar. Tão logo existam mulheres à distância de uma cuspida, a diretriz número um primordial, chuta tudo o mais, especialmente a disciplina do serviço, direto para o inferno. Qualquer um que ache isso uma estupidez está certo, mas também é um retardado se acha que isso irá, algum dia, mudar. “Grunts” são “grunts”. O homem pensante encontra significados através de alguma espécie de objetivo mais elevado. O “grunt” acha significados só em trepar. E se ele puder lutar no intervalo das trepadas, ótimo.

A segunda razão porque mulheres não estão (e não devem estar) na infantaria é, igualmente, baseada no lado primário da existência humana como a primeira. Mulheres não podem fazer um trabalho digno de um “grunt”, de jeito nenhum. Eu gostaria de estar errado sobre isso porque vai contra todas as minhas noções de igualdade entre os sexos, mas é a verdade. Eu já treinei com mulheres em muitas ocasiões e eu posso dizer que elas alteram, completamente, o ambiente de treinamento. Não apenas os sujeitos ficam distraídos pela Razão Número Um, mas também o nível de intensidade do treinamento vai pras cucuias. A mulher mediana não se empenhará em treinamento do jeito que um homem faz. Eu já vi sujeitos se empenharem no treinamento até morrer, literalmente. Eu vi um sujeito acabar um teste físico, uma corrida de quatro quilômetros, então desmaiar e morrer de uma ruptura da aorta. Eu vi um sujeito marchar no sol até desmaiar pela insolação e ficar com danos cerebrais. Eu vi sujeitos marchando apesar de ossos quebrados, juntas deslocadas e ruptura de ligamentos. Morrer treinando é uma burrice, mas é um testemunho do grau em que um soldado está disposto a se empenhar. Em todas as minhas experiências com mulheres, o gene do bom-senso (que os sujeitos parecem carecer, para a felicidade das forças armadas) se rebela e diz a elas: “foda-se isso, não vá se matar fazendo essas coisas.”

Eu sei que há mulheres lá fora, que provavelmente, se esforçariam do mesmo modo, mas numa sociedade onde homens foram criados para se desempenharem devido à incrível força da pressão de seus pares machos, eles são mais fáceis de serem encontrados do que mulheres desejosas de fazer o mesmo. E eu ainda não entrei no fato de que o homem mediano é muito mais forte fisicamente do que a mulher mediana. E, ainda que fêmeas humanas fossem tão fortes fisicamente quanto os homens e desejosas de se empenharem no mesmo grau, haveria a Razão Um. Existem, na minha pequena base, quatro soldados mulheres. Na outra noite que a força de reação rápida teve de se mover, não conseguimos encontrar três dos nossos sujeitos. Acabamos por deixá-los para trás, inclusive um atirador de metralhadora calibre .50 pol. Ao voltar, descobrimos que estavam dormindo no quarto com uma das soldados que servem próximo a área de estacionamento da QRF (Quick Reaction Force). [nota: a área de estacionamento da QRF teve de ser realocada.

De qualquer modo, eu sei que essa é, provavelmente, a última coisa que sua filha queria ouvir. Talvez haja um tempo em que tais fatores não importem tanto e mulheres possam estar na infantaria. Enquanto isso, elas sempre podem servir na PM, que eles chamam de “a infantaria das cachorras”. Em combate, elas terminam fazendo a maior parte das coisas que a infantaria de verdade faz; ao menos, elas estão fazendo isso no Iraque.

Outros problemas com mulheres na infantaria:

– menstruação e saúde vaginal: as condições de vida podem ser muito duras e ter de lidar com uma, digamos, infecção por fungos na vagina enquanto se está sem chuveiros por vários meses, pode ser difícil de se imaginar.

– estupro (especialmente, se for capturada).

– gravidez: sem tempo para atendimento pré-natal em campanha.

– peitinhos: se eles foram grandes o bastante para ficarem no caminho dos equipamentos, blindagem corporal etc; ou de ações como rastejamento furtivo e outras atividades físicas da soldadesca, você se torna totalmente ineficaz como um “grunt”.

Eu gostaria de ter mais coisas positivas para dizer sobre mulheres na infantaria, mas há tantas coisas que fazem isso não ser uma boa idéia. Mulheres merecem oportunidades iguais, mas igualdade em certas funções de combate pode não fazer sentido tático.

Espero não ter esmagado as esperanças de sua filha, ou ter dado a impressão excessiva de ser um babaca sexista.

A resposta de Scott e um adendo:

Soldado escreveu: Agora o tópico de mulheres na infantaria é muito cheio de armadilhas…

Tem toda a razão.

Soldado escreveu: e essa é a única coisa em minha filosofia de vida pessoal na qual sou sexista.

Tenho de concordar. Bem, talvez uma ou duas coisas…

Soldado escreveu: Ao voltar, descobrimos que estavam dormindo no quarto com uma das soldados que servem próximo a área de estacionamento da QRF.

Todos eles? Porra! Meus amigos da Marinha contam-me histórias sobre as putas da Califórnia que se alistavam na Reserva Naval para conseguirem faturar à bordo dos navios durantes as instruções. As garotas tinham audiência cativa, especialmente, no mar, e uma fila se formava na porta do alojamento.

O que aconteceu com seus extraviados fodedores, depois disso? Disciplinarmente, quero dizer. Isso é contra o regulamento, não é? [nota: para registro, não havia nenhum Calígula obrigando ninguém, senão eles teriam clamado isso.]

Soldado escreveu: eu sei que essa é, provavelmente, a última coisa que sua filha queria ouvir.

Obrigado por sua honestidade. Eu concordo com a maioria de suas premissas. Realmente, minha filha precisa ouvir essas coisas ou ser surpreendida de forma rude e desagradável. Também, suas palavras carregam mais peso do que as minhas sobre o assunto.

Minhas objeções são menos fundamentais, e também difíceis de manter o passo com a visão mundial de estrito igualitarismo.

  1. Os jovens, fortes e saudáveis fazem os melhores soldados. Mulheres são os únicos seres humanos que podem gerar filhos. Uma mulher é muito mais do que um útero, mas nós, realmente, queremos pôr nossas mais jovens, fortes e saudáveis geradoras de bebês na linha de fogo? (vejam a curta história “Down Among The Dead Men” por John Campbell.) É verdade que não é exclusiva responsabilidade de uma mulher criar as crianças, mas eu penso que o bem-estar dos dependentes deveria ser uma prioridade mais elevada do que, digamos, promoção na carreira.

Há um garoto que vai a nossa igreja cujo único responsável, sua mãe, acabou de passar por um ano de treinamento e está, agora, na Alemanha. Ele está morando com outra família da igreja. Ele é um garoto feliz e brilhanto, mas também é, pateticamente, desesperado por atencão e aprovação. Nós damos a ele todo o amor e apoio que podemos, mas eu penso – sem pai e com a mãe desperdiçando a pré-adolescência dele, desdobrada no além-mar; será um milagre se isso não foder com a personalidade dele.

  1. A história nos diz que mulheres podem lutar, bem e ferozmente, mas no instante que uma unidade mista sofre baixas de mulheres, os homens (ao menos, os ocidentais) recuam. É a coisa fundamental novamente; o dever impregnado de proteger as mulheres (quando você não as está fodendo, quero dizer). Se “GI Jane” receber um mínimo ferimento, “GI Joe” sente-se como se fosse um fracassado (e age, e luta de acordo). Nada bom.

O único modo de superar isso seria criando uma sociedade, e por conseqüencia um exército, onde os homens fosse tolerantes ao sofrimento e morte de mulheres como são às mortes de outros homens. Não apenas eu não iria querer viver numa sociedade assim, como iria resistir, ativamente, à sua criação.

  1. E, é claro, o elefante na sala quando se trata de mulheres-em-combate tem de ser escrito em letras maiúsculas: ESTUPRO.

O abuso sexual de mulheres em tempo de guerra é uma história triste e antiga. No Ocidente, nós saímos do “luxúria, saque e bebida são o pagamento do soldado” para tornar o estupro em tempo de guerra um crime capital sob o UCMJ (código unificado de justiça militar das forças armadas americanas). Ainda acontece, mas torná-lo um crime maior, é um progresso.

Naturalmente, antiga é a palavra-chave na sentença acima: a maioria das culturas com as quais estaremos “interagindo” no futuro previsível são culturas tribais onde o abuso sexual de mulheres do inimigo são uma rotineira, se não compulsória, maneira de demonstrar o poder de alguém ao humilhar este inimigo. (quero dizer, que espécie de animal iria sodomizar uma mulher inconsciente com uma pélvis fraturada?) (*) E mais, eu aposto que as únicas garotas loiras que “GI Achmed” já viu estavam em algum tipo de revista pornô… (“Mas Coronel, a vadia infiel provavelmente estava gostando!”)

Enquanto escrevo, me ocorre que a chance – neste momento – de uma mulher soldado ser estuprada por um colega militar americano é, de fato, mais alta do que a chance dela ser capturada e estuprada por pessoal inimigo. Por outro lado, se ela for capturada, sua chance de ser estuprada é de cerca de 100 %. Suponho que seja problema dela se ela quis se voluntariar para isso, mas…

Eu me lembro de uma piloto de helicóptero de evacuação médica da primeira Guerra do Golfo, que foi abatida, capturada e molestada, repetidas vezes, apesar de estar com os dois braços quebrados. (O praça chefe dos tripulantes continuou tentando protegê-la e continuo sendo espancado por isso. Já que estava sendo violentada de qualquer jeito, ela teve de lhe dar ordem para parar de tentar protegê-la porque temia que eles acabassem matando-o.) Ela foi libertada e continuou servindo. Ela não foi à TV ou escreveu um livro; suponho que tenha contado para seu marido, seu capelão e fechou-se em si mesma, mas a história não se tornou pública até que ela foi forçada a testemunhar numa comissão do Congresso.

Como Lawrence da Arábia descobriu (para seu pesar, estou certo) os otomanos e seus assemelhados não se sentem constrangidos em abusar de cativos masculinos, mas isso não é de modo algum certo e, em qualquer caso, é assunto para outro debate.

À propósito, “infantaria das cachorras”, hein? Eu também me lembro que a senhora capitão que foi condecorada por bravura, no Panamá, era uma PM.

Obrigado pelos tiros no alvo.

As valentes mulheres combatentes curdas

Por: César A. Ferreira

Dá-se que não havia muito que fazer. A situação do pequeno grupo de combate, composto apenas por mulheres era desesperadora, desprovidas de água, ou qualquer espécie de víveres, pouquíssimas granadas, sem RPG algum que fosse, munição no fim, quase esgotada, isoladas e sem esperança de fogo de cobertura. A posição tornara-se insustentável, como bem sabia a comandante daquele desgraçado grupo feminino, a experiência de combate que já era muita para um corpo tão jovem assim lhe dizia. A regra da guerra manda que em tal situação a rendição se imponha, todavia, o inimigo do outro lado da colina era bem conhecido, e o destino que as aguardava, bem sabiam as valentes guerreiras, seria pior do que a morte.

O grupo de combate havia lutado bem, segurado um ponto importante por dias. A comandante, bela mulher e mãe de dois filhos, Deilar Kanj Khamis, conhecida pela alcunha de Arin Mirkan, por conhecer bem a psicologia do inimigo, concebeu um plano cujo resultado não poderia prever, mas que por certo permitiria uma pequena chance para as suas comandadas debandarem-se em fuga na direção das linhas curdas. O plano era simples: solicitar uma trégua para negociar a rendição das suas comandadas, mas, portando discretamente explosivos em seu corpo, para então detoná-los quando estivesse cercada de combatentes inimigos. A ideia era que a sua imolação viesse a permitir a fuga das demais combatentes curdas devido a distração proporcionada.E assim se deu, Arin MIrkan anunciou a intenção de ser render, caminhou até as linhas próximas dos militantes que as assediavam e quando viu-se cercada por mais de duas dezenas de curiosíssimos militantes da jihad, explodiu-se! Na época apontaram 10 islamitas mortos, mas hoje se sabe que a contagem é de 23… As suas comandadas empreenderam fuga, cuja sorte foi diversa, algumas sobrevivendo para combater outro dia, outras, vitimadas pelas balas inimigas.

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Arin Mikan, heroína curda que realizou auto – sacrifício em benefício das suas comandadas. Foto: internet.

O interessante da história de Arin MIrkan não é apenas o seu heroísmo, ou o fato de ser uma combatente do sexo feminino, algo aliás muito comum entre os curdos da Síria, mas o fato da habilidade de combate desta joven não ser algo incomum. Elas (as jovens combatentes) impressionaram os observadores norte-americanos destacados para realizarem reconhecimento e inteligência no terreno em favor da campanha da USAF contra o Estado Islâmico em Kobane.  Mostram-se rápidas, coordenadas, precisas e muito decididas, verdadeiras especialistas no combate urbano. Conhecem a fraqueza psicológica do inimigo, que teme ser morto por uma mulher, pois assim não terá a recompensa no paraíso (72 duas virgens e um palácio). Dado que a cidade, Kobane, tornou-se, com razão, em  uma analogia viva de Stalingrado, salta os olhos a comparação com a cidade símbolo da Grande Guerra Patriótica, onde mulheres combateram, como aliás o fizeram por todo o conflito. Em suma, as mulheres soviéticas combateram bem na década de 40 do século passado e as mulheres curdas fazem o mesmo, agora, neste início de século XXI.

Rehana
A mítica guerreira “Rehana” na Kobane libertada e em 22 de agosto de 2014, junto ao seu grupo de combate. Foto: internet.

Outra heroína, que inadvertidamente acabou em uma história controversa atende pela alcunha de guerra de Rehana, a esta mulher, que detém o comando de um pelotão, lhe é imputada a cifra aproximada de 100 jihadistas mortos. O Estado Islâmico, que possui um grande senso midiático, lançou na mídia imagens de uma combatente curda morta em combate com semelhança física àquela da heroína Rehana. Isto seguido da imagem da combatente decapitada, como é o costume bárbaro destes insurgentes. Os curdos, todavia, mostraram após o fim dos combates em Kobane, com a cidade pacificada após a expulsão dos extremistas, a dita combatente viva, em trajes civis, comprovando assim a sua sobrevivência e desmascarando a farsa midiática do Estado Islâmico. Não é uma novidade, diga-se, pois o Estado Islâmico lança mão de forma recorrente destas manipulações para destruir a moral inimiga via propaganda. Recentemente, por exemplo, lançaram a imagem de um combatente iraquiano morto, como sendo Abu Azrael, conhecido pela alcunha de “Rambo Iraquiano”, ou “Anjo da Morte”, ao qual se atribui a eliminação de 1.500 extremistas, no entanto, ele apresentou-se, vivo, para a TV iraquiana. Estas manipulações propagandísticas, entretanto, voltam-se contra o Estado Islâmico, pois acabam por marcar seus combatentes também como troféus, alvos procurados. É o caso do combatente do Estado Islâmico que apareceu nas imagens que correram o mundo segurando a cabeça decepada de uma jovem combatente curda pelas tranças, seu nome Abu Ansari Uveys, ou Abu Uveys Ansari, que seria cidadão do reino da Arábia Saudita. Foi morto dias após a realização das fotos que teriam se dado no dia 5 de outubro de 2014, pois as ações que culminaram em sua morte deram-se no dia 08 de outubro de 2014, três dias após.

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Abu Ansari Uveys, ou Abu Uveys Ansari, terrorista do EI afamado pela imagem da jovem curda decapitada, que o EI afirmou ser a mítica “Rehana”. A alegação do EI era falsa. Abu foi morto poucos dias depois por um ataque aéreo da coalizão ocidental. Foto: internet.

Como exemplo de guerreira curda emblemática envolvida em Fog Of War, temos a bela jovem Ceylan Özalp, 19 anos de idade e comandante de um grupo de combate feminino (YPJ). Tida como vítima de um suicídio por ver-se cercada por elementos do EI, foi posteriormente relatada como viva, sobrevivente, e ainda no comando do seu grupo de combate. A autora do relato que desmentiu a versão da autoimolação da jovem foi Ayla Akat Ata, advogada do PKK, partido dos trabalhadores do Curdistão (Turquia), que informou o jornalista de origem curda Müjgan Halis sobre a falsidade da história que envolvia a jovem combatente, que apesar de inspiradora, uma jovem guerreira que se mata para não ser seviciada, barbarizada, degolada e mutilada pelos selvagens extremistas do EI, não era um fato verídico, ademais, mais vale uma guerreira viva do que uma heroína morta. A história, por certo apareceu devido a uma entrevista cedida por Ceylan Özalp ao correspondente britânico da BBC, na qual dizia que não cairia viva em poder do EI, pois tinha sempre reservada uma ultima bala para si.

Ceylan
A bela Ceylan Özalp, cujo falso suicídio correu o mundo. A jovem combatente, até esta data, 21.12.2015, está viva e alistada ao YPJ. Foto: Internet. 

A qualidade destas mulheres, como guerreiras, é constantemente observada, e aquelas que demonstram capacidade de comando são rapidamente alçadas. Respeitadas, combatem junto com os homens, lideradas, ou liderando-os.  Estes por sua vez aceitam sem restrições as ordens de uma comandante, visto que dela emana, antes de tudo, experiência e capacidade de combate comprovada em ações reais. Este é o caso de Narin Afrin, codinome guerreiro de Mayssa Abdo. Comandante de frações do YPJ, a esta mulher, tida como culta e inteligente, agregou-se a qualidade de ser extremamente serena quando submetida a grande pressão, bem como de tomar, sempre, decisões lúcidas e acertadas nestas situações extremas. Todavia, apesar de não haver restrições às formações mistas, o que se vê, em geral, são mulheres combatendo juntas. Isto, por ironia constitui em uma força a mais para os curdos, dado a supertição dos terroristas islâmicos, de que lhes será vedado o paraíso com 72 virgens e um palácio caso sejam mortos por mulheres. Ao se verem defronte a pelotões femininos, não raro, paralisam-se e passam a combater com cuidado extremado, entretanto, quando em superioridade inconteste, agem com extrema brutalidade, como a descontar a ofensa de serem enfrentados por infantes do sexo feminino.

As mulheres compõem a denominada YPJ, sigla para Yekineyên Parastina J, em português, Força de Autodefesa Feminina, agregada a Força de Autodefesa do Povo, YPG. Antes compostas em uma Brigada, somam agora os valores de uma Divisão, com cerca de 10.000 combatentes alistadas, o que equivale a algo próximo da metade do efetivo curdo na Síria. As suas lideranças, via – de – regra, são femininas, muitas delas jovens, com a experiência de combate a listar àquelas com vocação de comando. Não é raro ver meninas com 19 anos comandando grupos de combate de mulheres, todavia, a maioria das comandantes possui uma idade maior. Menores de 18 anos não são aceitas nas fileiras combatentes, mas podem ser treinadas para assumirem o posto quando atingirem a idade mínima. A idade limite para admissão é de 40 anos, mas pode ser relativizado caso a candidata demonstre real capacidade física para o trato militar. Longos percursos de marcha são comuns, e elas o fazem deslocando-se com o equipamento, sem suporte motorizado, ou animal. São hábeis para montar pontos fortes e emboscadas, como todos os combatentes da região exibem uma predileção por armas automáticas, em especial para com as velhas PKM (metralhadoras de origem russa para apoio de fogo). Em Kobane as combatentes curdas foram relatadas como compondo entre 1/3 e ½ do total do efetivo curdo empregado na defesa da cidade. Em geral apresentam-se com fardamentos verdes, ou camuflados de verde, vestes negras não são incomuns e portam o indefectível AK-47. Além dos carregadores, ou seja, da munição, pouco mais que um cantil é visto. A prioridade, portanto, é de se manter leve, para movimentar-se com rapidez e destreza, pois a lentidão pode ser a sentença de morte de um infante no combate urbano. Não foram vistos equipamentos de proteção como capacetes, ou coletes balísticos. Concorre para tanto, as exigências do teatro de guerra, quente, árido, ou semi-árido, pedregoso e por vezes arenoso.

Curdas com metralhadora
Mulheres combatentes do YPG municiam uma arma automática. Foto: internet.

A presença feminina entre as forças curdas da Síria, de maneira tão constante e presente, acabou por ressaltar nos EUA uma discussão sobre a presença da mulher em unidades combatentes. Presente há muito em forças auxiliares, logísticas, as mulheres nas armas americanas, por força da pressão social, acabaram por assumir posições em unidades de infantaria nas frentes de batalha.  Não tardaram aparecer reclamações quanto a queda de qualidade das formações de infantaria, dado a constatação da maior ocorrência de lesões entre as mulheres, bem como menor status físico geral (força, explosão, resistência). Algo que foi replicado com imagens de soldadas com extremo preparo físico, algo próximo ao fisiculturismo e com o discurso igualitário pautado em exemplos. Entretanto, um escândalo recente em que um comandante, General Miller, Forte Benning, de acordo com a jornalista Susan Keating, do veículo The People, 25.09.2015, em vista de um concurso para tropa de elite do USARMY (Rangers), realizou um programa de treinamento físico específico para candidatos do gênero feminino, algo negado aos soldados homens, fez reavivar a discussão no tocante a presença da mulher na infantaria em missões de choque. Isto, devido ao fato de que com todo  o preparo específico ficou a selecionada na rabeira do grupo. Outro registro que suscitou comentários sobre o valor da mulher combatente deu-se em função de um vídeo veiculado no Youtube, onde uma oficial, Capitã Sarah Cudd, finaliza um exercício de marcha de 12 milhas, no limite de tempo de três horas (2hs e 46min) em pleno estado de esgotamento físico. No vídeo outros soldados emitem vozes de estímulo, dado que não poderiam ajudá-la fisicamente, pois isto a desclassificaria.

Sarah Cudd
A Capitã Sarah Cudd sofre para terminar a sua prova de marcha de 12 milhas. Foto: internet.

Esta discussão para os EUA faz todo o sentido, visto que as armas nacionais dos EUA estão geralmente em combate fora das suas fronteiras, como forças invasoras. Sabe-se que o invasor precisa sentir-se confortável para empreender o combate em solo inimigo. Este conforto advém da superioridade tecnológica por ele sentida, no espírito de corpo coeso, na sensação de que suas formações são invencíveis. A presença da mulher, aqui, se encaixa como uma incógnita. Se o infante perceber que o desempenho dela é inferior ao esperado de um infante masculino, sentir-se-á inseguro, ou pior, tentado a protegê-la a todo custo, comprometendo o trabalho do grupo de combate como equipe. Estes fantasmas somem quando se vê o pressuposto soviético, ou curdo: as mulheres defendem os seus lares contra um agressor brutal e insano. Antes eram os nazistas e fascistas ucranianos que matavam e estupravam, agora são os islamitas fanáticos, que degolam, seviciam, escravizam e estupram suas vítimas. As mulheres curdas, tal como as suas antecessoras soviéticas lutam pelas suas vidas, mas principalmente pelas dos seus filhos. Conhecem o destino reservado aos seus, caso haja uma vitória do medievalismo wahabbita. Não é uma questão de escolha, mas de sobrevivência. E nós sabemos, muito bem, que quando o destino da prole está em jogo as mulheres superam todas as barreiras havidas… Tornam-se leoas!