Mapa: dias decisivos da batalha por Latakia

Por: Peto Lucem (exclusivo para o site South Front).

Tradução: Enlil

Adaptação: César A. Ferreira

Imagem ampliada do mapa, aqui.

Nos últimos dias, o Exército Árabe Sírio (EAS) obteve ganhos territoriais significativos no antigo reduto insurgente, localizado na “montanha dos curdos” região (Jabal al-Akrād), perto da fronteira com a Turquia em Latakia, província. Nos últimos três anos, a insurreição síria beneficiou-se das rotas de abastecimento em execução a partir da fronteira com a Turquia e também do terreno montanhoso e arborizado. Esta região tem uma importância vital para ambas as partes em guerra por causa de sua proximidade com a cidade de Latakia e outros centros urbanos próximos da costa do Mediterrâneo. A área de fronteira sírio-turca foi uma zona de interdição de área para as forças do governo sírio por um longo tempo. Este quadro foi alterado.

Como esperado, a queda do reduto insurgente mais importante de Salma teve um impacto negativo, severo, sobre as capacidades de defesa insurgência. Em 20 de janeiro, a EAS havia libertado a aldeia de Ateera e as zonas circundantes, que os insurgentes tentaram recapturar um dia antes, sem sucesso. As forças do governo empurraram os insurgentes da aldeia al-Kabeir e mudando-se desta maneira a pressão para longe das forças leais, concentradas na vila de Bayt Ablaq. O avanço mais importante aconteceu na área operacional do sul, perto da estratégica rodovia M4, que leva às cidades de Jisr al Shughour e Idlib.

Nesta área, a EAS foi capaz de assumir o controle das aldeias de Ayn al Hawr, Ghunaymiyah, e Khab al Jawz. Especialmente a captura de Khab al Jawz foi de enorme importância estratégica, semelhante à captura de Salma alguns dias antes. Ao capturar Khab al Jawz e os entroncamentos vitais das proximidades, a EAS começou um avanço para o bastião insurgente do norte de Rabi’ah. Os defensores deste ponto vital já tiveram um tempo difícil tentando adiar as forças governamentais destacadas para a zona norte. Agora, eles também tiveram que cobrir as duas estradas principais que funcionam do sul para Khab al Jawz. No entanto, os insurgentes veem-se oprimidos pelo rápido avanço do exército perto da autoestrada M4. Não foram capazes de desviar as forças para esta área. Assim, para eles não foi possível definir uma nova linha de defesa dentro de um prazo razoável, para evitar antecipadamente as forças do governo com eixo direcionado para com a Rabi’ah.

Apenas um dia depois de o EAS ter capturado o entroncamento de Khab al Jawz, o exército ocupou a vila de Baradun e a barragem próxima de Baradun. No Norte, o exército empurrou as forças insurgentes da área de Jaqruran, o que criou uma pressão adicional sobre os defensores de Rabi’ah. Em 22 de janeiro, as forças insurgentes, exaustas, mostraram sinais crescentes de desorganização e fadiga. Revelaram-se incapazes de deter as forças sírias que receberam apoio aéreo preciso das forças aéreas russas e sírias.

Durante este dia decisivo, o EAS lançou um ataque em grande escala. Ao longo de a linha defensiva insurgente posicionada na protuberância entre as aldeias de Baradun e ad-Durrah. O exército fez ganhos significativos e libertou uma série de aldeias, incluindo o importante vila de al-Rayhaniyyah, ao sul de Rabi’ah. Em 23 de janeiro, as defesas insurgentes desabaram completamente. As forças do governo também ganharam o controle sobre novas áreas e aldeias, tais como al-Malik, Tanahiyah e Al Huwlah.

Até agora, a insurreição foi incapaz de contrariar os recentes sucessos do governo de forma adequada. Ao que parece, eles contavam com a resistência de pontos fortes próximos das áreas da linha de frente, quando da ofensiva em larga escala lançadas pelas forças pró-governo em outubro passado. Tão logo houve a queda destes pontos fortes, como Salma, não detiveram possibilidades outras, para deter os avanços das forças legalistas.

Um fato óbvio é que eles, os insurgentes, não aplicaram a estratégia de defesa em profundidade (defesa compartimentada, elástica), o que provou ser fatal. Esta situação, provavelmente, deverá levar a uma diminuição acelerada dos recursos dos militantes e de mão de obra. Se Rabi’ah cai, ele provavelmente dar-se-á uma retirada em grande escala no sentido de Jisrt al Shughour. Os insurgentes provavelmente tentarão realizar uma resistência  final no ponto mais estreito, entre a área de Ayn al Hawr e a fronteira turca. Caso esta tentativa venha a falhar, o corredor para Jisr al Shughour estará aberto para as forças do governo. O posicionamento estratégico das formações insurgentes provavelmente será agravada ainda mais, devido ao fato de que o EAS liberou recentemente milhares de efetivos, ao ter encurtando a linha de frente na província de Latakia. Em outubro, a linha de frente exibia um comprimento total de aproximadamente 35 milhas. Até o momento, enquanto se aguarda começar o impulso em direção a Jisr al Shughour, o EAS terá de cobrir cerca de 10 milhas (no caso de a EAS manter as suas posições atuais em al Ghab). Embora o exército provavelmente  retire uma pequena parte de sua força ofensiva, para um posicionamento defensivo junto a  fronteira turca, deverá manter uma reserva suficientemente forte, com poder necessário para realizar uma ofensiva com intuito de capturar Jisr al Shughour e até mesmo Idlib.

Exército Árabe da Síria demonstra novas habilidades

Por: César A. Ferreira

É sabido que um exército que se mantém muito tempo em paz tende a enrijecer-se, devido não só ao apego das formas conhecidas de combater, como ao desprezo,  discreto,  mas sentido, por tudo que seja inovador, ou diferente. Um exemplo clássico é a Armée de Terre, que partiu para lutar a Segunda Grande Guerra como se esta fosse a repetição do Front Ocidental da Primeira Grande Guerra. O resultado é bem conhecido por todos.

Não poderia ser diferente com o Exército Árabe da Síria, que neste confronto com foras irregulares, mas extensas, além de muito bem armadas no padrão OTAN, com aquilo que há de melhor no arsenal ocidental, tal como os ATGW TOW, foi obrigado por estes mesmos motivos a rever de maneira ampla os seus conceitos, formas de combater e dogmas, antes arraigados, para fazer valer a sua vontade no campo de batalha. Não que seja uma novidade para os sírios. Em 1982 a infantaria síria concebeu grupos de infantaria, armados com RPG-7, com o intuito de caçar blindados israelenses no Vale do Bekaa. Estes grupos “matadores” causaram baixas desproporcionais na força blindada israelense, dado que eram grupos pequenos, que se aproveitavam das reentrâncias do terreno e do ambiente urbano. Para as Forças de Defesa de Israel o drama iria se repetir, desta vez na forma de pesadelo em 1986, tendo como inimigo o Hezzbolah. Mas, esta é outra história…

Não é novidade que este conflito, na Síria, tenha um forte componente urbano, portanto de uma guerra de atrito, mas se enganam aqueles que pensam em formações pesadas, ataques maciços, com uso de extenso de Carros de Combate como aríetes modernos. Isto só os exporia às armas anti-carro. Na verdade dá-se uma procura grande pela mobilidade e poder de fogo. Não por outro motivo, vê-se de forma onipresentes os canhões de tiro rápido de 23mm montados nas caçambas de “Pick Ups”… O Exército Árabe da Síria adotou esta forma de combater, e possui a sua frota de canhões de tiro rápido de deslocamento imediato.

0222VI
Elemento de ligação e exploração do exército sírio percorre de motocicleta a cidade disputada de Salma. Foto: Youssef Karwashan/AFP

A arma secreta, no entanto, é outra… A motocicleta! Isto mesmo, uma simples moto é a grande estrela da vitória do Exército Árabe da Síria na retomada de Salma. É verdade que a ala aérea russa se fez presente, e que a barragem de artilharia foi intensa e muito bem coordenada, mas no campo da infantaria, foram as motocicletas aquelas que permitiram os avanços rápidos dos infantes, evadindo-se dos snipers, que não tinha tempo de mirar e disparar em alvos tão fugidios. Em declaração para a Agência AFP, um jovem combatente, identificado como Hany, afirmou: ”A forma como combatemos tem  mudado desde o princípio da guerra, e temos desenvolvido os nossos próprios métodos ofensivos”, em seguida completou, “Hoje, nós utilizamos as motos pela sua velocidade e mobilidade”.

O motivo deste apreço, além da velocidade, que serve como um subterfúgio contra os franco-atiradores, deve-se ao fato delas superarem obstáculos com facilidade, além de serem os veículos ideais para transitar nas ruelas estreitas dos bairros típicos de muitas cidades sírias. As ruas estreitas, tal como aquelas que existem em Salma, dificultam, isto quando não inviabilizam por completo a progressão dos blindados e dos Carros de Combate. Para as motos, isto não é um problema, daí o uso de cerca de 80 motocicletas na batalha pela cidade de Salma.

Não foi uma inspiração celestial, tampouco de algum iluminado oficial, ou praça. Foi, isto sim, a observação objetiva e sem menosprezo da forma como o inimigo combatia. O uso de motos foi copiado, sem cerimônia ou vergonha, como demonstra o nosso informante: “Não nos negamos a dizer que aprendemos a tática de utilizar motos com os rebeldes. Temos desenvolvidos novos métodos no combate urbano e contra a guerra de guerrilha, e a luta em motocicletas pode chegar a ser uma tática em que os exércitos regulares podem vir a se basear”.

Para os sírios a moto significa a sobrevivência, pois pode transladar feridos, levar munições para grupos semi-cercados, recompletar pelotões e grupos de combate, bem como serem equipadas com metralhadoras, RPG-7, ou superior, onde até mesmo o uso de Nightvison Goggles, se faz presente.

Quem diria que a guerra está aos poucos se parecendo com a sua representação hollywoodiana…

É assim.

A libertação de Salma é a derrota de Erdogan na Síria

Fonte: Al-Manar

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

A vitória do IV Corpo do Exército Árabe da Síria ema Salma é a vitória mais importante da aliança russo-síria, bem como do envolvimento russo na guerra. Ela é um triunfo contra grupos terroristas, mas acima de tudo é uma vitória contra a Turquia, que havia apoiado esses grupos em sua ofensiva no ano passado, tanto em Latakia, quanto em Idlib.

Após a vitória em Salma, a pretensão turca de impor uma zona tampão se esvaiu.  Os aliados de Erdogan, tal como a Frente al-Nusra, terroristas chechenos e os uigures do “Partido Islâmico do Turquestão” sofreram uma pesada derrota, o mesmo com os Turkmen (turcomanos), grupos armados sírios de origem turca, que tem sido agentes de apoio para Ancara nesta área.

Auxílio turco não poderia acontecer desta vez por causa da barragem da aviação da Rússia, que fez mais de 200 ataques aéreos em dois dias consecutivos contra rotas de abastecimento, o que impediu os terroristas presentes em Salma não só de se mover, mas também de obter reforços. A Tomada de Salma findou uma campanha de três meses que levou à conquista de todas as colinas e platôs da região.

Irritação do governo Erdogan à ofensiva síria e russa em Latakia foi o que levou a Turquia a abater o avião russo Su-24M2 sobre o espaço aéreo sírio em 23 de Novembro. Este foi sem dúvida um importante indicador da importância que a província síria tinha para os turcos. Isso, no entanto, longe de dissuadir os russos, encorajou estes últimos e os sírios a prosseguirem em sua ofensiva, de maneira ainda mais rápida, o que levou à liberação de Salma. Esta parece ter sido, em última análise, a resposta escolhida por Moscou para a derrubada do seu dispositivo (bombardeiro Su-24M2).

A organização terrorista chechena, Ansar al Sham, apoiado pela Turquia, foi praticamente eliminada e a sua liderança afirmou que os militantes estão agora sem armas, ou dinheiro. Este colapso dos militantes augura um avanço rápido para os postos de fronteira entre a província de Latakia e a Turquia. O único reduto dos terroristas mantido em Latakia é a cidade de Rabia, que se espera, venha a cair nas mãos do Exército Árabe da Síria em breve, o que irá fechar a fronteira turca, totalmente, naquilo que é relativo à província.

Na província de Aleppo está a ser dada uma situação semelhante e o exército sírio e os seus aliados estão progredindo em direção à fronteira turca por vários eixos. O Exército Árabe Sírio assumiu recentemente a cidade de Ain Beida, situada 7-8 kms da linha de fronteira, quase que de maneira sincronizada com a ofensiva das forças militares sírias em Latakia.

A implantação do sistema antiaéreo S-400 em Latakia tem impedido as aeronaves turcas de adentrarem livremente no espaço aéreo da Síria, tal como reconhecido recentemente pelo primeiro-ministro, Ahmet Davutoglu. A Turquia suspendeu o voo das suas aeronaves, quando a Rússia introduziu o sistema acima descrito na Síria em 26 de novembro (2015).

Tudo isto evidencia a fraqueza da Turquia contra a presença russa. Ankara hesita em enviar tropas e agentes de inteligência à Síria por medo de serem capturados, ou mortos por lá. A este respeito, as advertências da Rússia para com o status da Síria têm se mostrado eficazes e a derrota dos grupos armados no norte de Latakia e Aleppo revelou a sua dependência destes com a Turquia, para dar continuidade à luta.

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Federação Russa, Maria Zajarova, acusou, por sua vez, a Turquia de “manter uma guerra oculta na região e trabalhar em prol dos seus próprios interesses na Síria, apoiando grupos terroristas e extremistas” e de violação da “Resolução do Conselho de Segurança da ONU (sobre o financiamento do terrorismo) por (permitir) transportar o tráfego de petróleo da Síria em seu território, especificamente o petróleo roubado pelo EI”.

Continua Zajarova: “Nós não vamos fechar os olhos às demonstrações contínuas por sênior responsável sênior turco, destinadas a desacreditar a Rússia aos olhos da comunidade internacional, tal como as acusações contra a força aérea russa de matar civis na Síria. O que é surpreendente é o fato do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Turquia degenerar-se ao ponto de usar métodos sujos,  como acusar sem provas o nosso país de assassinato em massa de civis”.