Wheels and deals: fermenta a guerra na Casa de Saud

Por: Pepe Escobar (4.10.2017)

Fonte primária: Asia Times – Counterpunch; fonte em português: Blog do Alok.

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu.

De repente, a matriz ideológica de todas as variantes de jihadismo salafista passa a ser elogiada no Ocidente como modelo de progresso – porque mulheres sauditas afinal receberam permissão para dirigir carros. Mas só ano que vem. Mas só algumas mulheres. Mas só com muitas restrições.

O que é certo é que o momento para anunciar a novidade – que vem depois de anos de pressão de liberais norte-americanos – foi calculado com precisão, e aconteceu apenas poucos dias antes que o capo da Casa de Saud rei Salman apareceu para dois dedos de prosa na Casa Branca de Trump. O movimento de soft power foi coordenado pelo príncipe coroado, 32 anos, Muhammad bin Salman, codinome MBS, o Destróier do Iêmen; o rei só fez assinar.

A tática diversionista mascara graves problemas na corte. Uma fonte especialista em negócios do Golfo, com conhecimento íntimo da Casa de Saud e encontros pessoais frequentes com eles, disse a Asia Times que “as famílias Fahd, Nayef e Abdullah, descendentes do Rei Abdulaziz al Saud e sua esposa Hassa bin Ahmed al-Sudairi, estão formando uma aliança contra a ascensão ao trono do príncipe coroado.”

Não chega a surpreender, se se sabe que o deposto príncipe coroado Mohammed bin Nayef – muito considerado no Departamento de Estado dos EUA, especialmente em Langley [cidade onde está o quartel-general da CIA] – está em prisão domiciliar. Sua massiva rede de agentes no Ministério do Interior foi quase toda “dispensada de qualquer autoridade”. O novo ministro do Interior é Abdulaziz bin Saud bin Nayef, 34, filho mais velho do governador da Província Oriental marcadamente xiita, onde está todo o petróleo do reino. Curiosamente, o pai agora é subordinado do filho. MBS está cercado de príncipes sem qualquer experiência, todos com cerca de 30 anos, e afastando de si praticamente todos os demais.

O ex-rei Abdulaziz definiu a própria sucessão baseado na idade dos filhos; em teoria, se todos chegarem à mesma idade todos terão algum tempo de reinado, o que evitaria o banho de sangue historicamente habitual nos clãs árabes, em disputas pela sucessão.

Agora, diz a fonte, “já todos preveem que um banho de sangue é iminente”. Especialmente porque “a CIA está indignada por o compromisso negociado em abril de 2014 estar sendo descumprido, como se vê no fato de o maior fator antiterrorismo no Oriente Médio, Mohammed bin Nayef, estar preso.” Tudo isso pode levar a “ação vigorosa contra MBS, possivelmente no início de outubro.” E pode até coincidir com o encontro Salman-Trump.

O ISIS joga pelo livro (saudita)

A fonte de Asia Times especialista em negócios no Golfo destaca que “a economia saudita está sob estresse extremo, por efeito de sua guerra pelo preço do petróleo contra a Rússia, e estão tendo muita dificuldade para pagar os fornecedores. Essa situação pode levar à falência algumas das maiores empresas na Arábia Saudita. A Arábia Saudita de MBS vê o iate de US$600 milhões comprado pelo príncipe coroado, e o pai dele gastando US$100 milhões nas férias de verão, sempre nas primeiras páginas do New York Times, enquanto o reino sufoca sob aquela liderança.”

O projeto que é a menina-dos-olhos de MBS, o super propagandeado Vision 2030, visa, em teoria, a diversificar e afastar o reino da dependência dos lucros do petróleo e dos EUA, na direção de uma economia mais moderna (e política externa mais independente).

Na avaliação da mesma fonte, é tudo completamente sem sentido, porque “o problema na Arábia Saudita é que suas empresas não conseguem funcionar com a mão de obra local e dependem de expatriados, que constituem 70% ou mais dos empregados. A gigante do petróleo Aramco simplesmente não opera sem expatriados. Daí que vender 5% da Aramco para diversificar não resolve o problema. Se ele quer sociedade mais produtiva e menos empregos no próprio governo onde só se copia, terá primeiro de treinar e garantir emprego ao próprio povo.”

A também elogiadíssima venda pública de parte da Aramco, apresentada como a maior venda de ações de toda a história, originalmente agendada para o próximo ano, foi mais uma vez adiada – “possivelmente” para o segundo semestre de 2019, segundo funcionários em Riad. E ainda ninguém sabe onde serão vendidas as ações; a Bolsa de Nova York está longe de ser assunto decidido.

Paralelamente, a guerra de MBS contra o Iêmen e o ímpeto saudita a favor de mudança de regime na Síria e de reformatar o Oriente Médio Expandido, revelaram-se desastres espetaculares. Egito e Paquistão recusaram-se a enviar tropas ao Iêmen, onde o pervertido infindável bombardeio aéreo pelos sauditas – com armas dos EUA e Grã-Bretanha – acelerou a desnutrição, a fome e o cólera e configurou crise humanitária massiva.

O projeto do Estado Islâmico foi concebido como ferramenta ideal para levar o Iraque a implodir. Hoje já é de domínio público que o dinheiro para organizar a coisa partiu quase todo da Arábia Saudita. Até o ex-Imã de Meca admitiu publicamente que a liderança do ISIS “extraiu suas ideias do que está escrito em nossos livros, nossos próprios princípios.”

O que nos leva a maior e mais profunda contradição saudita. O jihadismo salafista está mais que vivo dentro do Reino, por mais que MBS tente fazer-se passar por líder liberal (fake) da linha “gatinha, deixo você dirigir o meu carro”. O problema é que Riad nunca, em tempo algum, cumprirá qualquer promessa que se aproxime de liberalização: a única legitimidade da Casa de Saud depende daqueles “livros” e “princípios” religiosos.

Na Síria, além da evidência de que a maioria absoluta da população do país não quer viver num Takfiristão, a Arábia Saudita apoiou o ISIS enquanto o Qatar apoiava al-Qaeda (Jabhat al-Nusra). E isso acabou num banho de sangue de fogo cruzado, com todos aqueles tais inexistentes “rebeldes moderados” apoiados pelos EUA reduzidos pilotos de carros antiquados.

E há também o bloqueio econômico contra o Qatar – mais um brilhante enredo cerebrado por MBS. Só serviu para melhorar as relações de Doha com ambos, Ankara e Teerã. O emir do Qatar Tamim bin Hamad Al Thani não foi derrubado, tenha Trump realmente persuadido Riad e Abu Dhabi a evitar qualquer “ação militar”, ou não. Nada de estrangulamento econômico: a Total francesa, por exemplo, está às vésperas de investir US$2 bilhões para expandir a produção de gás natural no Qatar. E o Qatar, via seu fundo soberano, contragolpeou com o mais espetaculoso dos movimentos de soft power – comprou a marca e craque de futebol Neymar, para o PSG, e o “bloqueio” soçobrou sem deixar traço.

“Roubam até a roupa do corpo do próprio povo”

Em In Enemy of the State, o mais recente thriller de Mitch Rapp escrito por Kyle Mills, o presidente Alexander, sentado na Casa Branca, esbraveja que “o Oriente Médio está implodindo porque aqueles filhos da puta sauditas só fazem inflar o fundamentalismo religioso, para encobrir o fato de que roubam até a roupa do corpo do próprio povo.” É uma avaliação equilibrada.

Não se admite absolutamente nenhuma discordância na Arábia Saudita. Até o analista econômico Isam Az-Zamil, muito próximo do poder, foi preso durante a atual campanha de repressão. A oposição a MBS portanto não vem só da família real ou de alguns clérigos – embora digam os boatos que só quem apoie o “terrorismo” da Fraternidade Muçulmana, da Turquia, do Irã e do Qatar estaria sendo perseguido e atacado.

Em termos de o que Washington deseja, a CIA não aprecia MBS, para dizer o mínimo. Querem o homem “deles”, Nayef, de volta ao poder. Quanto ao governo Trump, o que se ouve é que está “desesperado em busca de dinheiro saudita, especialmente para investimentos em infraestrutura no Cinturão da Ferrugem”.

Será muitíssimo iluminador comparar o que Trump obtém de Salman e o que Putin obtém do mesmo Salman: o rei doente visitará Moscou no final de outubro. Rosneft está interessada em comprar ações da Aramco quando afinal acontecer a venda pública. Riad e Moscou estão considerando uma extensão de negócios da OPEP, bem como uma plataforma de cooperação OPEP-não-OPEP que incorpore o Fórum de Países Exportadores de Gás [ing. Gas Exporting Countries Forum, GECF].

Riad leu as palavras escritas no novo muro: o capital político e estratégico de Moscou não para de crescer por todos os lados, de Irã Síria e Qatar até Turquia e Iêmen. Não é coisa que se dê bem com o estado profundo dos EUA. Mesmo se Trump conseguir alguns negócios para o Cinturão da Ferrugem, a questão candente é se CIA & Amigos conseguem viver com MBS no trono da Casa de Saud.

Nota dos tradutores: Orig. Wheels and Deals. É uma rede de venda de carros usados, que tem lojas em várias cidades por todo o país. A ironia parece ter a ver com a licença para mulheres dirigirem na Arábia Saudita. Não conseguirmos traduzir.

O Iêmen e o “Game Of Thrones” da Arábia

Fonte: Katehon – 23.08.2016 –  Arábia Saudita

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

A Arábia Saudita sofre, no momento,  uma derrota esmagadora no Iêmen. O conflito parece ser apenas pouco promissor para eles. Os Houthis e as tropas leais ao ex-presidente Saleh seguram firmemente o Iêmen do Norte e estão a conduzir operações militares na província de Najran em pleno território saudita. O Iêmen do Sul está ocupado e controlado por um entrelaçar de tropas da coligação Arábia Saudita/EAU, Península Árabe al-Qaeda, ISIS, e separatistas do sul do Iêmen. Recentemente, representantes do movimento Houthi anunciaram a criação de um governo que irá incluir membros do seu próprio partido “Ansar Allah”, o partido “Congresso Geral do Povo” do ex-presidente Ali Abdullah Saleh, bem como membros de outros partidos e organizações. Ao mesmo tempo, tentativas similares por parte dos sauditas para criar algum tipo de governo interino em Aden foram completamente fracassadas. O presidente Hadi, apoiado pelos sauditas e seus aliados, e seu governo são baseadas em Riyadh (Riad). Em Najran, na região de fronteira com o Iêmen, tribos locais árabes lançaram uma rebelião contra as autoridades oficiais da Arábia Saudita.

Recordemos que 2015 foi marcado pela invasão em larga escala da coalizão Árabe liderada pelo sauditas no Iêmen. Além dos sauditas, os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Egito, Marrocos, Jordânia, Kuwait e Paquistão têm participado nesta guerra contra o Iêmen. Este último se juntou apenas formalmente a coalizão, mas não tem envolvimento real no conflito. O principal impacto da guerra é suportado pela Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrein.

Ao mesmo tempo, a Arábia Saudita também foi derrotada na Síria. Ela não conseguiu derrubar Bashar Al – Assad e desde a reorientação da Turquia em relação à Rússia e o Irã, a posição da Arábia Saudita tornou-se mais precária. O chamado grupo de oposição sírio em Riyadh foi em grande parte controlado pelos turcos. A alavancagem dos sauditas sobre o processo da Síria em Riyadh está ficando menor. A realização de duas campanhas militares de uma só vez – a guerra aberta no Iêmen e a guerra por procuração na Síria –  está cada vez mais difícil. Este é o entendimento por aliados próximos dos sauditas, caso dos Estados Unidos. Assim, os EUA reconhecem a futilidade da campanha militar no Iêmen, como foi noticiado que os Estados Unidos devem retirar o seu grupo de planejamento do país que forneceu a  inteligência necessária para os sauditas. O grupo agora tem sido baseado no Bahrein.

A intervenção no Iêmen e a guerra na Síria são largamente projetos de uma disputa (pelo menos algumas fontes estão tentando apresentá-las desta forma). Deve ser entendido que a Arábia Unido enfrenta agora uma luta feroz entre suas elites. O rei reinante Salman está gravemente doente. Após a sua morte, deverá ser passado o poder para os membros da segunda geração da dinastia saudita. É mais provável que o príncipe Mohammed ibn Salman (Ministro da Defesa) e príncipe Mohammed Ibn Nayef Al Saud deverão confrontar-se em uma luta pelo poder no futuro próximo.

Mohammed Ibn Nayef é conhecido como sendo aquele mais influente dentre os membros mais intimamente ligados aos EUA na elite saudita. A aventura síria é considerada um projeto pelo seu grupo que coordena estreitamente as suas atividades com os Estados Unidos. Em sua juventude, Ibn Naif estudou nos EUA e até mesmo treinos em cursos especiais da FBR.. De acordo com as memórias de ex-funcionários da CIA, o príncipe sempre foi leal para com  os EUA e ativamente cooperou com as agências de inteligência dos EUA . Os EUA percebem-no como o candidato mais desejável para o trono saudita, embora estejam preocupados com a sua saúde.

Por sua vez, Mohammed ibn Salman, que tem apenas 31 anos de idade, é bastante ambicioso e procura a todo o custo a assumir o trono de seu pai. Alguns analistas ainda preveem um golpe suave após a morte do rei Salman dado que o seu filho é o segundo na linha de sucessão ao trono após seu tio Muhammad ibn Naif. Para os EUA, ele é um jogador muito novo. A guerra no Iêmen foi uma iniciativa deste Salman. Com a ajuda de uma guerra vitoriosa, ele procura aumentar seu próprio prestígio e status, mas calculou mal.

Assim, existem dois grupos opostos na Arábia Saudita: uma é completamente pró-americana; o outro é bastante agressivo e expansionista, mas sem apoio suficiente por parte dos Estados Unidos, cujo projeto e iniciativa política externa deverá falhar primeiramente na determinada vontade quem ganhar este presente árabe “Game of Thrones”.

Mohammed ibn Salman visitou periodicamente Rússia, aparentemente em busca de apoio do lado russo. Recentemente, o representante especial do presidente russo para o Oriente Médio e África, o  Vice – Ministro russo das Relações Exteriores Mikhail Bogdanov, reuniu-se com ele. Estes contatos acabam por explicar a crescente importância da Rússia no Oriente Médio tendo como pano de fundo a operação bem sucedida e consistente na Síria. A Rússia também é aguardada no Iêmen. O ex-presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh afirmou ontem que a Rússia está pronta para guarnecer portos e bases oferecidos para o estacionamento de soldados russos. Controlar o Iêmen significa ter controle sobre a mais importante artéria de transporte: o caminho do Oceano Índico e do Golfo Pérsico para o Mar Vermelho e Mediterrâneo.

A Rússia não está, naturalmente, interessada em uma vitória da Arábia Saudita no Iêmen. E isso é impossível. No entanto, existe a possibilidade de que a Rússia venha a poder ajudar a coalizão  da Arábia Saudita a alcançar uma “derrota honrosa”, iniciar o processo de paz, e, assim, permitir que Muhammad ibn Salman venha a sair da sua aventura no Iêmen com uma perda mínima de face (prestígio pessoal). Por outro lado, as ações da Rússia na Síria podem minar a posição daqueles que se opõem a ele. Enquanto isso, o Iêmen ver-se-á livre da influência e da ocupação das forças sauditas.

 

O segredo por trás do próximo crash global

Por: Pepe Escobar – 21.01.2016

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Fonte original: Sputnik News

Reproduzido: Blog do Alok

O Fórum Econômico Mundial em Davos está naufragado sob um tsunami de denials – negar o que vê/fingir que não vê/não ver sinceramente – e também de non-denial denials – não negar o que nem vê que nega – e tudo isso só para ‘garantir’ que não acontecerá um desdobramento do Crash de 2008.

O caso é que sim, acontecerá. E o cenário já está pronto.

Seletos corretores de petróleo no Golfo Persa, o que inclui ocidentais que trabalham no Golfo confirmam que a Arábia Saudita está descarregando pelo menos $1 trilhão em securities e derrubando os mercados globais por ordem dos Masters of the Universe – os que mandam acima da presidência manca de Barack Obama.

Longe vão os dias quando bastaria a Casa de Saud flertar com essa ideia, para ter todos os seus bens congelados. Pois, hoje, já obedecem a ordens. E mais virá; na avaliação de corretores craques em Golfo Persa, os investimentos sauditas em securities ocidentais podem chegar a $8 trilhões; os de Abu Dhabi, a $4 trilhões.

Em Abu Dhabi tudo foi separado em compartimentos, e ninguém pode avaliar coisa alguma, exceto corretores e negociantes que conheçam cada supervisor de cada compartimento de investimentos. E para a Casa de Saud, como se poderia prever, a regra de ouro é negar sempre.

Essa massiva descarga de securities chegou algumas vezes à mídia-empresa, mas os números têm sido grosseiramente subestimados. A informação inteira não chegará até lá, porque os Masters of the Universe ordenaram que não chegasse.

Houve aumento gigante na descarga saudita-Abu Dhabi de securities desde o início de 2016. Fonte no Golfo Persa diz que a estratégia saudita “demolirá os mercados”. Outra fonte fala de “vermes comendo carcaça no escuro”; basta olhar a calamidade em Wall Street, por toda a Europa e em Hong Kong e Tóquio na 4ª-feira.

Quer dizer: já está acontecendo. E uma subtrama crucial pode ser, em prazo de curto a médio, nada menos que o colapso da eurozona.

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Desânimo no mercado. Foto: Euronews.

O crash de 2016?

Por tudo isso, pode ser um caso de a Casa de Saud em pânico, instrumentalizada para derrubar grossa fatia da economia global. Quem ganha com isso? Cui bono?

Moscou e Teerã tem muito a ver com isso. A lógica por trás de demolir mercados, criando recessão e depressão – do ponto de vista dos Masters of the Universe que reinam acima do presidente pato manco dos EUA – é arquitetar retardo gigante, impossibilitar os padrões de compra, reduzir o consumo de petróleo e gás natural, e pôr a Rússia em rota direta rumo à ruína. Além do quê, preços ultrabaixos do petróleo também se traduzem como uma espécie de sanção-substituta contra o Irã.

Mesmo assim, o petróleo iraniano que se aproxima de chegar ao mercado estará em torno de 500 mil barris/dia em meados do ano, mais um excedente armazenado em petroleiros no Golfo Persa. Esse petróleo pode ser e será absorvido, porque a demanda está aumentando (nos EUA, por exemplo, aumentou 1,9 milhão de barris por dia em 2015), e a oferta está caindo.

Em julho, aproximadamente, demanda crescente e produção em declínio reverterão o crash do petróleo. Além do mais, as importações de petróleo da China tiveram aumento recente de 9,3%, em 7,85 milhões de barris/dia, o que desacredita completamente a narrativa dominante de que a economia chinesa estaria ‘em colapso’ – ou de que a China seria culpada pelos padecimentos atuais do mercado.

Assim sendo, como já expus aqui em linhas gerais, em breve o petróleo dará a volta por cima. Goldman Sachs concorda. Implica que os Masters of the Universe tem uma estreita janela de oportunidade para fazer os sauditas despejarem quantidades massivas de securities nos mercados.

A Casa de Saud pode precisar desesperadamente de dinheiro, se se considera o alerta vermelho no orçamento. Mas esse despejo das próprias securities também é visivelmente autodestrutivo. Eles simplesmente não podem vender $8 trilhões. A Casa de Saud está, na verdade, destruindo o equilíbrio da própria riqueza. Por mais que a hagiografia ocidental tente pintar Riad como player responsável, fato é que legiões de príncipes sauditas estão horrorizados ante a destruição da riqueza do reino nesse haraquiri em câmera lenta.

Principe
Mohammed bin Sultan. Foto: Albawaba News.

Haveria algum Plano B? Haveria. O príncipe guerreiro Mohammed bin Sultan – atual manda-chuva em Riad – teria de meter-se no primeiro avião para Moscou, para arquitetar uma estratégia comum. Mas não acontecerá.

E quanto à China – maior importador de petróleo da Arábia Saudita –Xi Jinping acaba de visitar Riad; Aramco e Sinopec assinaram uma parceria estratégica; mas a parceria estratégica que realmente conta, considerando o futuro de “Um Cinturão, Uma Rota”, é, essa sim, a parceria Pequim-Teerã.

O despejo massivo das securities sauditas tem a ver com a guerra saudita do preço do petróleo. No momento atual de volatilidade extrema, o petróleo está em baixa, as ações estão em baixa e os estoques de petróleo estão baixos. Pois nem assim a Casa de Saud dá sinais de compreender que os Masters of the Universe os estão empurrando para que se autodestruam, os próprios sauditas, várias e várias vezes, incluindo inundar o mercado de petróleo depois de limitar a capacidade dos sauditas [orig. including flooding the oil market with their shut-in capacity]. E tudo isso, para ferir mortalmente Rússia, Irã e… a própria Arábia Saudita!

Apenas um peão no jogo de outros.

Entrementes, Riad ferve de boatos de que haverá um golpe contra o rei Salman – virtualmente incapacitado, demente e confinado a um quarto de seu palácio em Riad. Estão em jogo dois possíveis cenários:

1) Rei Salman, 80, abdica em favor do filho, conhecido ignorantão, arrogante criador de confusão e príncipe guerreiro Mohammed bin Salman, 30, atualmente vice-príncipe coroado e ministro da Defesa e o segundo na linha de sucessão, mas quem de fato comanda o show em Riad. Pode acontecer a qualquer momento. Como bônus, o atual ministro do Petróleo Ali al-Naimi, que não é da família real, poderia ser substituído por Abdulaziz bin Salman, outro filho do rei.

2) Um golpe palaciano. Salman – e seu filho criador de casos – cai fora do quadro, substituído por Ahmed bin Abdulaziz (que foi já ministro do Interior), ou pelo príncipe Mohammed bin Nayef (atual ministro do Interior e príncipe coroado).

Seja qual for o cenário que se concretize, o MI6 britânico está muito intimamente a par da pantomima. E talvez também o BND (Bundesnachrichtendienst, Serviço Nacional de Inteligência) alemão. Todos recordam o memorando do BND no final de 2015, que descrevia o então vice-príncipe coroado Mohammed bin Salman como “jogador político” que está desestabilizando o mundo árabe com as guerras por procuração no Iêmen e na Síria.

Fontes sauditas – que pedem, por óbvias razões, que não se publiquem seus nomes –, garantem que nada menos de 80% da Casa de Saud é favorável ao golpe.

Seja como for, permanece a questão de saber se alguma Casa de Saud reformatada interromperá o haraquiri em câmera lenta que lá acontece. O imperativo categórico não muda: os Masters of the Universe estão prontos para derrubar o mundo inteiro, empurrando-o para terrível recessão, para, basicamente, estrangular a Rússia. A Casa de Saud é apenas um peão nesse jogo de pervertidos.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

Os ganhos da guerra: traficantes búlgaros inflamam os conflitos do Oriente Médio

Mariya Petkova é um jornalista búlgara cuja cobertura abrange as área da Europa de Leste, nos Bálcãs e do Médio Oriente. Este artigo foi produzido como parte do Fellowship Balkan para excelência jornalística, apoiada pela Fundação ERSTE e Open Society Foundations, em cooperação com a Rede Reportagem Investigativa Balkan – BIRN.

O texto a seguir, apesar de longo, se faz necessário por ser elucidativo sobre o tráfico de armas efetuados por nações que apoiam o bainho de sangue na terra síria. Trata-se de uma reportagem feita pela jornalista Mariya Petkova, que percorreu cidades como Sofia, Anevo, Istambul, Gaziantep e Antióquia. 

Os ganhos da guerra: traficantes búlgaros inflamam os conflitos do Oriente Médio

Por: Mariya Petkova

Tradução: J. Junker

Adaptação: C. A. Ferreira

Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e os EUA compram milhões de dólares em armamentos búlgaros, com a Guerra Civil Síria como destina provável, revela uma investigação BIRN.

Em outubro do ano passado, spotters de aeronaves notaram,  com alguma emoção, que aviões Boeing 747  jumbo com as marcas da Saudi Arabian Cargo tinham taxiado junto ao gate de carga e descarga do aeroporto da capital búlgara, Sofia.

“Um avião de carga Saudita nunca tinha vindo aqui… Nos últimos 20 anos!”, explicou Stephan Gagov, um veterano spotter de aeronaves búlgaro. Os vôos tornaram-se tão frequentes que Gagov começou uma discussão em um Fórum on-line de spotters de aeronaves sobre elas, usando a frase “a rota regular” no título. Spotters relataram terem  visto aviões aterrarem duas vezes no final de outubro, uma vez em novembro, quatro vezes em dezembro e uma vez cada, em março e maio deste ano.

A aeronave gigante chegou do aeroporto de Jidá, embarcou a sua carga e em seguida voou para a cidade saudita de Tabuk, cerca de 100 km da fronteira com Jordânia, relatou os observadores, que utilizam ferramentas voo com acompanhamento online. Gagov estimou que a carga embarcada nas aeronaves corresponda a cerca de 60 a 80 toneladas por vez, na forma de caixas. Ele não podia ver o que estava dentro das grades, mas pode estimar o quanto estavam pesados.

Após os voos da Saudi Arabian Cargo terem parado, os aviões de carga de Abu Dhabi começaram a chegar. Airbus A330F e Boeing 777F com as cores da Etihad Cargo chegaram em Sofia cinco vezes entre o final de Junho e meados de agosto deste ano. Recentemente, em 19 de Outubro, uma aeronave de carga Airbus 330F da Etihad voou de Abu Dhabi para a cidade búlgara de Burgas e, em seguida, a Al Dhafra Air Base, uma instalação militar ao sul da capital dos Emirados.

A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e as autoridades búlgaras não revelaram  o conteúdo dessas remessas. Mas, a reportagem Investigativa da Rede Balkan, BIRN, pode revelar que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos têm comprado grandes quantidades de armas e munições a partir de Bulgária nos últimos dois anos, certamente para utilização pelas forças locais que apoiam na Guerra Civil Síria, e possivelmente para o conflito no Iêmen.

O relatório anual da Bulgária sobre as suas exportações, provenientes da sua base industrial de defesa, foi publicado em agosto deste ano, não recebeu, todavia, nenhuma cobertura da mídia. Afirma  o documento que o governo aprovou o valor superior a cifra de € 85.000.000, em munições e equipamentos militares para a Arábia Saudita no amo de 2014, com negócios no valor de quase 29.000.000 € concluída até o final deste ano (2015). O governo búlgaro também confirmou à BIRN, que emitira guias de exportação para a venda de armas, em favor dos Emirados Árabes Unidos.

Bulgária produz e estoca, principalmente, armas de design soviético. Analistas afirmam que é altamente improvável que tanto a Arábia Saudita, ou os Emirados Árabes Unidos venham a comprar estes meios para as suas próprias forças, que usam armas ocidentais padrão OTAN, e por isso é muito mais plausível que eles comprem a munição para as facções locais, deles aliados, envolvidas em conflitos na Síria e no Iêmen, onde armas de desenho soviético são preferidas e amplamente utilizadas.

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Legenda: Aeronave de carga Boeing 777F, com as cores da Etihad, descola do aeroporto de Sófia, em 30 de junho de 2015. Foto: Stephan Gagov.

Um ex-oficial búlgaro, com acesso aos bastidores governamentais,  relatou à  BIRN que as compras sauditas foram transportadas nas aeronave visto pelos spotters de aviões e destinados aos combatentes da oposição síria, com os embarques posteriores, possivelmente, destinados a serem utilizados no Iêmen. No ano passado, os Estados Unidos também teriam comprado armas da Bulgária como parte de um programa de US $ 500 milhões para treinar e equipar as forças de oposição sírias, programa este que por agora foi abandonado.

Combatentes da oposição e analistas independentes também têm dito à  BIRN que as armas búlgaras estão a ser utilizadas na Síria, onde mais de 250.000 pessoas foram mortas e mais de 11 milhões forçadas a deixar suas casas desde que a guerra eclodiu em 2011. Fato é que sob o domínio do regime comunista a Bulgária, país de apenas sete milhões, construiu uma gigantesca indústria de armas, empregando 110.000 pessoas e capaz de captar até US $ 1,5 bilhão (€ 1.300.000.000) em divisas por ano. O regime, então solidário ao esforço soviético, adquiriu deste a tecnologia para fabricar armas de fogo e munição. Acumulou vastos estoques para apoiar o seu contingente militar de 1000.000 homens em armas, bem como a possibilidade de uma mobilização geral. Durante a regra dos 45 anos  do partido comunista da Bulgária no poder, deu-se o desenvolvimento de  fortes laços comerciais com o Oriente Médio e a África, laços estes que foram mantidos por muitos comerciantes, incluindo aqueles do inefável negócio de armas.

Um negócio rentável

Ao perscrutar através de seus grandes óculos, Nikolay Nikolov, acaba de forma casual a mencionar que se sentou na mesma mesa de Carlos, o Chacal, o militante marxista notório,  que era ativo no Oriente Médio e na Europa nas décadas de 70 e 80 do século passado. Nikolov, um pseudônimo para proteger sua identidade, esteve presente e atuante no comércio de armas por mais de 25 anos. “Todo mundo fica com uma parte”, disse ele, incluindo funcionários do governo e corretores. “As comissões são valiosas e correspondem por vezes ao valor do negócio das armas. Se algo custa 10 milhões, o preço final será de 35 milhões”.

Ao sentar-se em um pequeno café no centro de Sofia, onde ele gosta de conhecer e fazer negócios, Nikolov enrola cigarros de fumos artesanais e relembra histórias. Questionado sobre a venda de armas para o Oriente Médio, conta uma história sobre ter arrastando malas cheias de dinheiro no meio de um escaldante deserto árabe por volta do meio dia…

Após o colapso do comunismo em 1989, a produção de armas na Bulgária caiu substancialmente. O valor oficial das exportações de defesa caiu para € 111 milhões em 2006. Mas, em seguida, as vendas começaram a pegar e até 2014 tinham atingido € 403.000.000, segundo dados do governo.

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Legenda: exportações da indústria de defesa búlgara de 2006-2014, em milhões de euros. Fonte: Ministério da Economia da Bulgária, Relatórios.

Nikolov afirma que a Bulgária está a vender uma grande quantidade de armas, mas dos estoques antigos. “O pico das nossas exportações de armas foi durante as guerras na Iugoslávia. Um monte de armas foi exportado para a Sérvia e para a Albânia”, diz ele. “Naquela época, tínhamos estoques no valor de bilhões, agora temos apenas algumas centenas de milhões”. Apesar de a produção e as vendas serem apenas uma fração dos níveis pré-1989, o comércio de armas na Bulgária continua a ser um negócio altamente lucrativo. “Ainda é mais rentável do que o tráfico de drogas”, disse Nikolov.

O interesse do Golfo

A Arábia Saudita, até então, não tinha se tornado um cliente importante para as empresas de armas búlgaras nestes anos recentes. Mas isso mudou em 2014. O relatório do governo búlgaro diz que foram emitidas licenças para venda de munições e equipamentos militares no valor de 85.500.000 € para a Arábia Saudita no ano passado. Munições no valor de  € 65.400.000, armas de grande calibre com valor da ordem de € 12.500.000 e armas de pequeno calibre no valor de € 5 milhões. Até o final de 2014, as empresas búlgaras do setor tinham concluído ofertas de exportação para as Monarquias do Golfo com valores da ordem de € 28.900.000. O Ministério da Economia Da Bulgária, que supervisiona o comércio de armas, informou à BIRN em um comunicado, que as ofertas incluíam armas de uso pessoal, bem como armamento leve e pesado.

Um relatório da ONU listadas 827 metralhadoras leves e 120 SPG-9, armas anti-carro, sem recuo,  como parte das exportações de armas da Bulgária para a Arábia Saudita em 2014. Ben Moores, analista sênior da consultoria IHS Janes defesa, afirmou que provavelmente tais armas eram remessas para a Síria, ou o Iêmen. O militar saudita estará armado com metralhadoras leves belgas e não faria uso de um SPG-9, afirmou. “É muito improvável que este tipo de arma venha a ser usada pelos militares da Arábia Saudita, mas é muito popular e utilizada no Iêmen, Iraque e Síria”, relatou.

De acordo com o ex-oficial búlgaro, em condição de anonimato, os voos entre Sófia e a Arábia Saudita se deram com o intuito de transportar armas búlgaras para os grupos da oposição síria. Depois que os aviões aterrissaram em Tabuk, a carga foi embarcada em caminhões e transportada para um centro de distribuição na Jordânia,  para as forças militantes de extremistas sírios, afirmou.

A Arábia Saudita é um dos maiores financiadores de combatentes contrários ao presidente sírio, Bashar al-Assad. Riyad financiou uma compra fenomenal de armas de infantaria da Croácia para as forças da oposição síria, compra esta informada pelo The New York Times, em 2013, então citando funcionários americanos e ocidentais “familiarizados com as compras”. Em uma entrevista à BBC no fim de outubro de 2015, o ministro do Exterior saudita Adel al-Jubeir reconheceu abertamente que Riyad forneceu armas aos combatentes da oposição extremista síria. “Nós temos que contribuir para mudar o equilíbrio do poder no terreno”, disse ele. O informante, ex-oficial militar búlgaro, também  disse que algumas das armas enviados para a Arábia Saudita “podem ​​também têm sido utilizadas contra o Iêmen, pois os vôos posteriores coincidiram com o início da operação da Arábia por lá”. Arábia Saudita começou a ação militar no Iêmen no final de março, em apoio das forças leais ao presidente exilado Abd-Rabbu Mansour Hadi.

Ao contrário da Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos já tinham uma história recente de compra das armas búlgaras. O  telegrama diplomático  a partir da embaixada dos EUA em Sofia, publicado pelo site WikiLeaks, informou que os Emirados Árabes Unidos financiou um acordo de 2010 para compra de dezenas de milhares de fuzis de assalto rifles, 100.000 cargas de alto explosivo, granadas lançadas por foguete e munições para o então governo do Iêmen. O cabograma também relatava que a Bulgária realiza consultas  junto à embaixada dos EUA, no tocante aos negócios de armas potencialmente controversos. Contatados pela BIRN, a embaixada se recusou a dizer se ele estavam cientes de outros países a compra de armas búlgaras para uso na Síria.

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Legenda: exportações da indústria de defesa búlgara para os Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, em milhões de euros. Fonte: Ministério da Economia da Bulgária, relatórios.

Este ano, o governo búlgaro emitiu licenças para a exportação de munições, armas de fogo e equipamentos de defesa para os Emirados Árabes Unidos, o Ministério da Economia, todavia, recusou-se a demonstrar os valores envolvidos nestes negócios.  Pieter Wezeman, pesquisador do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo, disse que “não faz sentido algum”  os Emirados Árabes Unidos vir a comprar armas e munições da Bulgária para as suas próprias forças. Ele disse suspeitar que estas munições seriam desviadas para a Síria, ou o Iêmen. Moores expressou uma conclusão similar.”É muito mais provável o que [as armas] os Emirados Árabes Unidos compraram seja reencaminhado para um terceiro”, pautou.

Tanto a Arábia Saudita, quanto os Emirados Árabes Unidos são parte de uma coalizão contra o Iêmen, que tem realizado ataques aéreos, imposto forças terrestres desdobradas e fornecido armas para extremistas locais, com o objetivo de combater as forças xiitas, conhecidos como houthis. Riad também foi envolvido no fornecimento de armas ao Iêmen antes de suas próprias forças intervissem por lá, disse Wezeman.

As embaixadas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, responsáveis ​​pelos respectivos negócios armamentistas realizados na Bulgária não responderam às perguntas da BIRN. Da parte búlgara, o Ministério da Economia disse que não iria emitir licenças para negócios de armas quando forem levantadas preocupações sobre o possível desvio ou re-exportação de armas.

Acidente americano

Em 06 de junho deste ano (2015), uma explosão fatal ocorrida em um campo de testes de armas da Bulgária, forçou os Estados Unidos a admitir que o evento  tinham sido proveniente de armas de compradas na Bulgária, como parte de um esforço para apoiar combatentes da oposição extremista síria. Um empreiteiro norte-americano, veterano de 41 anos de idade, veterano da USNAVY, Francis Norwillo, morreu quando uma granada-foguete explodiu, enquanto estava sendo carregada em um lançador RPG-7. Outras quatro pessoas,  dois cidadãos norte-americanos e dois búlgaros, também foram feridos. Os americanos estavam trabalhando para uma empresa dos EUA nomeada Purple Shovel, contratado pelos militares dos EUA para ajudar a treinar e equipar combatentes da oposição extremista síria. A embaixada dos EUA disse em uma declaração concisa:

“Os três empreiteiros estavam conduzindo formação de familiarização para outros funcionários da empresa no momento do incidente”, disse a embaixada, recusando-se a fazer qualquer comentário adicional.

O banco de dados de compras governamentais dos EUA demonstra que Comando de Operações Especiais (SOCOM), que está no comando do esforço militar dos EUA para ajudar os extremistas sírios, concedeu a Purple Shovel, um contrato no valor superior a US$ 26,700,000 (24.600.000 €) em dezembro de 2014, para o fornecimento de armas estrangeiras e munição. O país de origem está listado como Bulgária. O contrato foi alterado duas vezes para chegar ao valor total de US$ 28,300,000, de acordo com o banco de dados.

Questionado sobre o negócio, porta-voz SOCOM Kenneth McGraw disse via e-mail:

“As armas que foram compradas com este contrato incluíram o AT-5 Anti-Tank Missile Launcher, SPG-9 Anti-Tank Recoilless Gun e RPG-7 Rocket Grenade Launcher”. Informou, no entanto, que a arma envolvida na explosão em Anevo não fazia parte do contrato. Apesar do incidente fatal, McGraw relatou que o contrato não tinha sido cancelado.

A granada foi fabricada em 1984, de acordo com autoridades búlgaras que estão investigando o incidente. Um relatório Buzzfeed News citou um especialista em armas não identificado afirmando que a granada passara toda a sua existência e esgotado sua validade em “uma prateleira”.  Mas, dois ex-oficiais militares búlgaros explicaram à BIRN, que a munição tem uma vida útil de décadas se armazenado adequadamente e uma granada feita em 1984 não seria velha demais para ser usada com segurança.

Alexander Dimitrov, o proprietário do Alguns, uma empresa privada que tinha contratado o campo de testes no dia da explosão, se recusou a comentar. A Purple Shovel,, empresa sediada em Sterling, Virginia, também se recusou a comentar o incidente, ou o contrato com SOCOM. O banco de dados de aquisição dos EUA mostra o SOCOM também premiado com um contrato no valor de mais de $ 32.000 (€ 28.200), para outra empresa norte-americana, UDC EUA, para fornecer munição a partir da Bulgária. O contrato foi assinado na mesma data que o negócio Purple Shovel, e exibe o mesmo “ID solicitação”, o código usado em uma chamada virtual, registrar os lances necessários para o cumprimento do contrato. Contatado ao telefone, perguntou-se sobre o contrato, se o mesmo era para a força-tarefa do USARMY armar extremistas sírios,  o presidente da empresa, Matthew Herring, disse à BIRN: “Não, não, nós não somos parte disso e certamente não temos a liberdade para falar sobre isso”.

O esforço militar dos EUA para treinar e equipar forças para lutar contra o grupo militante ISIS (Estado Islâmico) na Síria foi fortemente criticado por membros do Congresso dos Estados Unidos, por ser ineficaz. Em 09 de outubro deste ano (2015), a administração Obama anunciou que estava abandonando o programa. Mas, as atividades da Agência Central de Inteligência, CIA, de  secretamente armar os sírios que combatem as forças de Assad, continua em vigor.

Conexão Turca

Em uma manhã quente no final de julho, uma dúzia de comandantes da oposição extremista síria conversou no café de um hotel boutique perto da Praça Taksim, no centro de Istambul depois de participar de reuniões de coordenação. Eles estavam se preparando para ir para o sul da Turquia e, em seguida, de volta para a linha de frente no norte da Síria.

Três homens, comandantes de unidades em Idlib e Aleppo, concordaram em falar com a BIRN. Um deles explicou que a logística é fornecida para as forças de oposição através de dois corredores de operações militares –  uma na Turquia e outro na Jordânia. Todos os três disseram que receberam armas do corredor de suprimentos/logística turco – incluindo fuzis AK-47, RPG-7 foguetes lançadores de granadas e armas anti-tanque SPG-9.

Perguntado se eles receberam as armas búlgaras, um deles disse: “Todas as armas na Síria são modelos russos Tanto o regime e a revolução [oposição] fazem uso.  Eles podem ser provenientes de países como Bulgária, Ucrânia, República Checa, mas nós não… Não sabemos exatamente onde eles são produzidos”.

Relatou que as armas búlgaras, por vezes, apresentam o número 10 dentro de dois círculos. Um dos comandantes enviou uma mensagem WhatsApp do seu telefone celular para um combatente em sua unidade na Síria, que retornou com três fotos de armas. Dois deles tinha o símbolo de identificação descrito.

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Legenda: a imagem da esquerda pertence a uma metralhadora búlgara da família PK (PKM), a outra imagem é de um lançador (RPG-7) fabricado na Bulgária. Armas utilizadas no oeste da província de Aleppo. Imagens: extremistas sírios via WhatsApp/BIRN.

Um especialista em munições, que não quis se identificar, apontou serem as duas armas como sendo um lançador de granadas-foguete e uma metralhadora PK. O comandante disse que eles foram usados ​​no Aleppo campo ocidental. A BIRN não pode verificar onde as fotos foram registradas, mas NR Jenzen-Jones, diretor da consultoria britânica de Armamento Research Services, afirmou que havia “quantidades substanciais de armas e munições produzidos na Bulgária que foram documentadas na Síria”. A maioria das armas é datada dentro do período compreendido entre 1970 e 1980 e incluiu armas pequenas, leves, bem como armas anti-tanque, munições e engenhos tais como projéteis para armas sem recuo e projéteis de morteiro, disse ele via e-mail.

A Bulgária foi fornecedora dos exércitos nacionais do Iraque e da Síria ao longo de muitos anos, Permitindo, então, a possibilidade de algumas dessas armas terem vindo de estoques existentes dentro destes países. Mas, Jenzen-Jones afirmou que a sua organização havia recebido “inúmeras alegações de que o material excedente búlgaro foi cedido as facções rebeldes sírias”.

“Nós não temos sido capazes de verificar de forma independente essas alegações”, acrescentou.

Como a Arábia Saudita e os Estados Unidos, a Turquia tem sido fortemente envolvida na prestação de apoio aos grupos de oposição armada na Síria. Nihat Ozcan, oficial militar aposentado e analista da Fundação de Pesquisa de Política Econômica Turca, disse que as nações que apoiam a oposição síria também usam a Turquia como um ponto de trânsito para obter armas para a Síria. “Eles recolhem todo o  tipo de armas antigas e equipamentos soviéticos de [ex-bloco do Leste] países como Bulgária e Romênia, ou mesmo da Ásia Central. Eles os trazem para a Turquia e, em seguida, passam-nos à Síria, sob o controle da aliança Estados Unidos, Turquia. “, disse Ozcan.

Um trabalhador humanitário sírio, com ligações pessoais com membros de grupos extremistas anti-Assad “moderados” nas províncias de Idlib e Aleppo, relatou que as armas compradas por nações estrangeiras foram transferidas para as forças de oposição através do corredor logístico de suprimentos militares. As armas foram entregues através da fronteira turco-síria, onde os extremistas sírios as pegaram, informou em uma entrevista concedida na cidade turca de Gaziantep, perto da fronteira.

As operações militares nas bordas fronteiriças da Turquia e Jordânia são apoiadas por um grupo seleto de países ocidentais e árabes, incluindo os Estados Unidos, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, bem como as nações anfitriãs, de acordo com várias fontes da oposição síria.  Para além destas transferências de armas sancionadas pelos governos nacionais, há alguma evidência, de que as munições também estão sendo contrabandeadas para a Síria em negócios privados. Outro homem com o grupo no hotel de Istambul, que se identificou como membro de um conselho militar da oposição extremista  na província de Homs, disse à BIRN, que ele viu um carregamento de armas búlgaras chegar de caminhão em Homs em agosto de 2012. O homem, que pediu para ser identificado apenas como Abu Fatima, disse que um empresário sírio supostamente pagou US$ 1,600,000 (€ 1,4 milhão) por armas, que incluíam fuzis AK-47, lançadores de granadas e munições. Ele disse que o acordo foi organizado por traficantes de armas búlgaros e sírios.

Em uma entrevista separada, um ex – combatente da oposição extremista síria, disse estar  envolvido em nada menos que 12 transferências de armas búlgaras no início de 2013, a maior das quais era de US $ 7 milhões (€ 6.400.000). O ex – terrorista, que pediu para não ser identificado, afirmou que os embarques se deram na fronteira turco-síria, em dois caminhões e foram organizadas por cidadãos sírios e turcos que possuem conexões com traficantes de armas búlgaras.

Enquadramento jurídico

Não há proibição da ONU de fornecer armas para a Síria e a maioria dos elementos de embargo da União Europeia foram levantados em 2013. Na guerra do Iêmen, a ONU impôs uma proibição apenas no fornecimento de armas para as forças Houthis. No entanto, como signatária do Tratado de Comércio Global de Armas (ATT), que entrou em vigor em dezembro de 2014, a Bulgária tem a responsabilidade de impedir que armas sejam desviadas para outras nações, ou grupos, que difiram dos destinatários especificados. A legalidade de todos os negócios que levaram a armas búlgaras até a Síria, pode depender dos termos precisos de tais acordos.

Em negócios de armas, o Estado importador tem de fornecer um Certificado de Usuário Final, que pode incluir uma cláusula especificando que as armas não serão transferidas a terceiros. Mas mesmo que tal cláusula exista, um estado de importador pode enfrentar pouca, ou nenhuma punição por ter ignorado tal clausula. “Se uma exportação é autorizada, e ocorre um desvio, as ações passíveis de serem efetuadas por parte do Estado exportador são limitadas (além de não exportar armas para esse país / entidade novamente),” Sarah Parker, pesquisadora sênior do Small Arms Survey, centro de pesquisas baseado em Genebra, Suíça, através de E-mail.

“Ela [a nação exportadora] tem uma obrigação decorrente do ATT para enfrentar e prevenir o desvio. Então, se ela vê um destinatário como um risco de desvio, deve também compartilhar essas informações com outros exportadores”, acrescentou.

 

 

Síria destroça o sonho do Pentágono

O texto que segue é de autoria de Pepe Escobar, colunista brasileiro especialista em Oriente Médio e Ásia Central, que regularmente escreve em inglês para vários veículos, entre eles o Asia Times On-Line. Este texto, traduzido pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu foi em português publicado no site Txacala, a publicação original, em inglês, proveio do site Strategic Culture, com a data de 16.12.2015.

Síria destroça o sonho do Pentágono

Por: Pepe Escobar

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Não é de estranhar que os praticantes da Dominação de Pleno Espectro no governo dos EUA em Washington e noutras paragens estejam afogados em surto da mais obcecada negação.

Põem os olhos do tabuleiro sírio e, no que se relacione com projeção de poder, veem a Rússia instalando-se confortavelmente, com base a ser levada a sério em terra e ar, para conduzir em futuro próximo todos os tipos de operação em toda a região OMNA (Oriente Médio-Norte da África, ing. MENA, Middle East-Northern Africa). O Pentágono, obviamente, foi apanhado com as calças na mão.

E é só o começo. Adiante, nessa mesma trilha aumentará a interação militar entre Rússia, China e Irã, por todo o Sudoeste da Ásia. O Pentágono classifica Rússia, China e Irã – os nodos chaves da integração da Eurásia – como ameaças.

Rússia avança cada vez mais profundamente na Síria – e, no longo prazo, na área OMNA – avanços para os quais Moscou insiste em tratar com membros sortidos da OTAN como “parceiros” na guerra contra ISIS/ISIL/Daesh1 (EI – Estado Islâmico). Alguns apunhalam Moscou pelas costas, como a Turquia. Outros podem partilhar inteligência militar sensível, como a França. Alguns até manifestam desejo de colaborar, como a Grã-Bretanha. E alguns são como gêiseres de ambiguidade, como os EUA.

Nessa bruma de tantas ambiguidades, “parceiros” não poderiam ser o meio mais deliciosamente diplomático para mascarar o fato mais surpreendente que se vê nos céus: com sua atual sofisticada mistura de defesas terra-ar, mar-ar e ar-ar, de mísseis cruzadores lançados de submarinos aos S-400s, quem agora já se resolveu quanto a uma zona aérea de fato de exclusão sobre a Síria foi Moscou – não Washington e muito menos Ancara.

Escolha sua coalizão

Aqueles S-400s, por falar deles, logo serão movidos para o norte, dispostos em torno do terrivelmente complexo teatro de Aleppo, ao ritmo em que o Exército Árabe Sírio vai progressivamente ganhando terreno.

Na Primeira metade de 2016 devemos já estar contemplando uma situação na qual os S-400s estarão cobrindo e poderão tomar por alvo toda a fronteira sírio-turca. Será o momento quanto o presidente Recep Tayyip Erdogan terá ficado completamente sem bolinhas de gude para continuar no jogo. A cobertura que a Rússia dá aos avanços do Exército Árabe Sírio – e em breve também aos avanços das Unidades de Proteção Popular Curdas dos sírios curdos (YPG) – vai metodicamente preparando o terreno para o fim de todos os elaborados planos de Ancara para uma zona aérea de exclusão disfarçada de “zona segura”, comprada e paga pelos três bilhões de euros que a União Europeia pagou à Turquia para dar jeito na crise dos refugiados sírios.

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Combatente curdo – sírio do YPG. Foto: internet.

Assim sendo a lógica doravante, no campo de batalha é clara: os turcomenos – 5ª Coluna de Ancara, pesadamente infiltrada por islamo-fascistas turcos – estão sendo empurrados de volta para o território turco, em todo o espectro. E as YPG logo terá a chance de unir os três cantões de curdos sírios através da fronteira.

Quando acontecer, será, pode-se dizer, em resumo – a vitória de uma coalizão – a coalizão “4+1” (Rússia, Síria, Irã, Iraque plus Hezbollah) – sobre a outra (o combo CCGOTAN – Conselho de Cooperação do Golfo – plus OTAN, muito podada) nessa guerra surrealista de duas diferentes coalizões contra ISIS/ISIL/Daesh.

Qualquer praticante da Dominação de Pleno Espectro não cegado pela ideologia verá claramente que a “4+1” está vencendo. É caso exemplar de força aérea pequena, mas altamente motivada e comandada com perfeição, e posicionada no local certo, com a arma certa e alimentada por inteligência de boa qualidade em solo. A coalizão puxada pelos EUA, que tenho chamado de Coalizão dos Oportunistas Finórios (COF) não tem nenhum dos itens acima listados.

Equipe “Mediocridade” em ação

Washington está atolada num lodaçal que ela mesma produziu. E virtualmente tudo ali tem a ver com aquela turma espantosamente medíocre que constitui a equipe dita “sênior” de política exterior do governo Obama.

A equipe Obama sempre descuidou do caso de amor entre Erdogan e a Frente Al-Nusra, também chamada Al-Qaeda na Síria, com Ancara liberando total o seu Expresso Jihad, de lá para cá, pela fronteira sírio-turca. E a equipe Obama fez como se não soubesse do Expresso Petróleo Roubado da Síria, do ISIS/ISIL/Daesh, fluindo por uma frota gigante, facilmente detectável por satélite, de caminhões-tanques.

A equipe Obama deixou passar sem nada decodificar da frágil, escorregadia agenda da Turquia, aliada na OTAN; nisso, deixaram-se prender como reféns da Dominação de Pleno Espectro, porque para o Pentágono, Ancara é a proverbial “âncora de estabilidade” e peão chave da Dominação de Pleno Espectro na região.

Daí, pois, a incompetência/incapacidade da equipe de Obama, que não conseguiu detonar os comboios de caminhões-tanques: não fosse Ancara ofender-se e arrepiar as penas…

A equipe Obama sempre negligenciou o modo como Riad e Doha, diretamente, e depois mediante “doadores privados” – coordenados pelo notório Bandar Bush2 em pessoa – sempre financiaram ambos, a Frente Al-Nusra e o Daesh.

Em lugar de cuidar daquilo, a equipe Obama avançou festivamente na brincadeira de dar armas e mais armas para Al-Nusra e Ahrar ash-Sham, via os fornecedores da CIA que forneciam armas para o Exército Sírio Livre. Todas essas armas sempre acabaram capturadas pela Frente Al-Nusra e Ahrar ash-Sham.

A equipe Obama, sem jamais nem dar-se conta, muito menos tentar conter a própria miopia, providenciou para que Al-Nusra & Co., ficassem conhecidos como “rebeldes moderados”.

A equipe Obama sempre desqualificou o Irã, tratado como nação “hostil”, como “ameaça” aos vassalos do CCG3 e a Israel. Assim sendo, quem fosse aliado de Teerã ou apoiado por Teerã seria também ou “hostil” ou “ameaça”: o governo em Damasco, o Hezbollah, milícias xiitas treinadas pelos xiitas iraquianos, e até os Houthis no Iêmen.

E por cima de tudo isso, ainda veio a “agressão russa”, manifestada na Ucrânia; e, depois, com Moscou “interferindo” na Síria, mediante o que a Equipe Obama interpretou como jogo de poder nu e cru no Mediterrâneo Oriental.

Com toda a atual luta de sombras, o verdadeiro teste das intenções do governo Obama é se a coalizão dos EUA realmente dará combate real, sem reservas, a Daesh, Al-Nusra e Ahrar ash-Sham (que acolhe legiões de jihadistas da Chechênia, Daguestão e Uzbequistão).

Implica que a Equipe Obama terá de dizer a ambas, Ancara e Riad, em termos bem claros, que caiam fora. Nada mais de Expresso Jihad. Nada mais de armas para terroristas. Sem essas linhas vermelhas, o “processo de paz” para a Síria, que vive de malabarismos entre Viena e New York, não serve nem como piada.

Que ninguém espere demais. Porque ninguém em sã consciência pode esperar que a equipe inacreditavelmente medíocre de Obama pato-manco terá colhões para enfrentar o wahhabismo como a verdadeira matriz ideológica de todas as correntes do jihadismo salafista, “rebeldes moderados” incluídos.

O que nos leva de volta à terrível angústia que faz estremecer toda a Avenida Beltway em Washington. Com ou sem equipe Obama, permanece o único fato que nada e ninguém consegue alterar: sem conquistar – ou, pelo menos balcanizar – a Síria… Não há Dominação de Pleno Espectro.

Notas

1) ISIS/ISIL/Daesh: siglas em inglês para o Estado Islâmico – EI.

2) Bandar Bush: Bandar Bin Sultan – Principe Saudita reponsável pelo serviço de inteligência do reino.

3) CCG: Conselho de Cooperação do Golfo. Conselho que envolve as monarquias do Golfo Pérsico, produtoras de petróleo. A saber: Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Bahrein, Omã, Qatar e Kuwait.