A Petrobrás não é padaria

Por: Ricardo Maranhão

Fonte: AEPT – Associação de Engenheiros da Petrobrás.

Procurando justificar a política de preços para os derivados de petróleo, adotada por sua administração, que implica na paridade com preços internacionais, o atual presidente da Petrobrás, fez, tempos atrás, comparação esdrúxula do petróleo com o trigo. Deu explicação simplória, reducionista: quando os preços do trigo sobem no exterior, é necessário reajustar o valor do pão.

A afirmação pode convencer incautos, cidadãos desavisados, consumidores desinformados.

Na realidade esta política de preços, de orientação entreguista, está prejudicando não apenas a revenda constituída por milhares de empresários brasileiros, segmento fundamental de nossa economia, mas, também, milhões de consumidores. A Petrobrás e a economia do país, também são sacrificadas.

Os preços elevados desgastam a imagem da Petrobrás. A quase totalidade da população não sabe que a Companhia recebe menos de 25% do valor pago pelo consumidor, que inclui mais de 50% de tributos. Ocorrem, em todo o país, justos protestos contra esta política, com bloqueios nas estradas, greves de caminhoneiros, cercos às bases de distribuição da Petrobrás. 

Aponto alguns aspectos negativos desta política, que somente favorece as grandes distribuidoras privadas, importadores de derivados e fornecedores estrangeiros, notadamente os norte-americanos. Cerca de 82% das importações brasileiras de diesel são provenientes dos Estados Unidos. Por isto o Corpo Técnico da Petrobrás classifica esta política como “America First”.

Em 2017 foram nada menos de 127 alterações nos preços nas refinarias, desorganizando o mercado, confundindo revendedores e consumidores. As distribuidoras se aproveitam das freqüentes mudanças de preços para aumentar seus lucros, com prejuízos para a revenda.

Esta política, todos sabem, é uma velha aspiração das companhias multinacionais, que desejam globalizar os preços do petróleo, derivados e gás natural, desconsiderando as peculiaridades de cada país; Será razoável submeter os consumidores e a economia brasileira aos preços internacionais, sabidamente voláteis, sensíveis a fatores múltiplos sobre os quais não temos qualquer controle?

Por que preços internacionais, se não temos salários, renda per capita, IDH nivelados aos dos países ricos? O que tem o consumidor brasileiro a ver com as tensões no Oriente Médio, os furacões no Caribe e nos USA, as disputas internas na Arábia Saudita, as bravatas e escaramuças do presidente Trump com o líder norte coreano? Temos, no Brasil, invernos severos, nevascas, temperaturas de até 50 graus negativos? Devemos punir os consumidores brasileiros pelas elevações de preços decorrentes de crescimentos sazonais da demanda?

O Brasil é um grande produtor de petróleo, a custos inferiores aos vigentes no mercado internacional e pode se aproveitar deste fato, dando competitividade à sua economia, beneficiando os consumidores e remunerando, adequadamente, a Petrobrás e demais agentes da cadeia; Preços muito elevados da energia – e o petróleo é a maior fonte de energia primária no Brasil – tiram a competitividade da economia brasileira, já tão sacrificada, por juros extorsivos, pesada carga tributária, graves deficiências de logística dentre outros inconvenientes. Ademais, reduzem a demanda, já impactada negativamente por forte recessão.

Decorrido pouco mais de um ano desta política, insensata e impatriótica, o que vemos é a maciça importação de diesel e gasolina, combinada com o absurdo, ainda maior, de uma ociosidade de mais de 25% no parque de refino nacional; Além disso as exportações de óleo cru dispararam, deixando o país de se beneficiar com o valor agregado proporcionado pelo refino.

No período de janeiro a novembro de 2017, as importações de gasolina e as de diesel explodiram, chegando ao absurdo de mais de 200 milhões de barris, nível jamais alcançado, nem mesmo quando nossa economia apresentava bom desempenho. Esta brincadeira de mau gosto custou ao país, nos últimos doze meses pelo menos uns US$ 8,00 bilhões em importações.  Sendo o revendedor o último elo de uma cadeia que inclui, também, importadores, refinadores, formuladores, transportadores e distribuidoras, ele é, ainda, acusado de ser o vilão desta política, ditada pelos que hoje comandam a Petrobrás. Os dados da ANP mostram que os preços da gasolina aumentaram 9,40% em 2017, quatro vezes mais do que a inflação (2,07% pelo INPC). No GLP, produto de amplo consumo pela população mais pobre, o sacrifício é ainda maior, traduzido em uma majoração superior a 16,30%, já descontada a inflação. A maior majoração dos últimos 15 anos.

É hora de rever esta insensata política, sem prejudicar a Petrobrás – e isto é possível – em benefício de nossa economia.

Autor: Ricardo Maranhão, Engenheiro e Conselheiro da Associação dos Engenheiros da Petrobrás e do Clube de Engenharia.

Nota do editor do blog Debate Geopolítico: pode parecer estranho para alguns que um espaço dedicado aos assuntos provindos do exterior venha a tratar de uma crise interna, mas políticas externas não independem do quadro político interno de uma nação, na verdade se entrelaçam e interdependem. O quadro atual de colapso de abastecimento devido a paralisação advinda dos transportadores rodoviários, fruto de uma greve de caminhoneiros autônomos com locaute dos empresários do ramo de logística rodoviária, provém em última instância da política posta em prática por Michel Temer assim que assenhorou-se no poder, que é a de alinhamento automático com os interesses financeiros de Wall Street e com os desígnios de Washington. É neste contexto que se insere uma política atrelada a flutuação do preço internacional de derivados, que resultou no aumento de 56% no espaço de 12 meses para o óleo diesel, cuja produção interna, já deficitária quando plena, registrou neste mesmo período de tempo ociosidade de 25%, enquanto a importação oriunda dos EUA ganhou 82% do mercado nacional. Ou seja, não refinamos o que podemos em moeda nacional,para importar dos EUA aquilo que consumimos em moeda de referência, jogando os custos da flutuação desta nos ombros do consumidor brasileiro. Este desatino, devo lembrar, iniciou-se com o atual mandatário, que foi alçado ao governo sem apoio popular, do qual, diga-se, muito carece.

Brasil exportará urânio enriquecido para a Argentina

Fonte:Jornal GGN

Pela primeira vez país firma acordo de exportação do material produzido pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB).

O Brasil exportará urânio enriquecido para a Argentina alimentar um reator nuclear na cidade de Lima. O acordo firmado prevê a venda inicial de quatro toneladas de pó de dióxido de urânio produzida pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB) num contrato de US$ 4,5 milhões.

Será a primeira vez que, oficialmente, o Brasil exportará urânio enriquecido. Apesar do acordo ter sido assinado em junho a entrega começará a ser feita apenas no final deste ano, pois o produto precisará passar pela autorização da Coordenação-Geral de Bens Sensíveis do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, do qual a INB está vinculada, e também da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen).

O Brasil é um dos poucos países no mundo que tem tecnologia para o enriquecimento de urânio, ao todo são 12 nações no mundo inteiro, incluindo França, Irã e Estados Unidos. A tecnologia utilizada pela usina da INB, localizada em Resende (RJ) é totalmente nacional, desenvolvida pelo Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo em parceria com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nuclear do Cnen. O contrato com a Argentina não envolve a concessão da tecnologia brasileira, mas há um outro acordo envolvendo os dois países no desenvolvimento do Reator Multipropósito Brasileiro. Brasil e Argentina possuem acordos na área nuclear desde a década de 1960.

Agência Brasil

Brasil exportará urânio enriquecido pela primeira vez 

A empresa brasileira Indústrias Nucleares do Brasil (INB) exportará urânio enriquecido pela primeira vez. A empresa, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, firmou acordo com a empresa estatal argentina Combustibles Nucleares Argentinos (Conuar), que prevê o envio de quatro toneladas de pó de dióxido de urânio para a carga inicial de abastecimento de um reator nuclear localizado na cidade de Lima, ao norte de Buenos Aires. O contrato, no valor de US$ 4,5 milhões, foi assinado em junho.

Enriquecido na fábrica da INB em Resende (RJ), o produto ainda precisa de autorização da Coordenação-Geral de Bens Sensíveis do ministério e da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) para completar o processo de exportação, o que deve ocorrer até o fim deste ano. As 4 toneladas serão divididas em três lotes, com teores de enriquecimento de 1,9%, 2,6% e 3,1%.

Além do Brasil, o urânio é enriquecido por outros 11 países. A tecnologia usada na unidade da INB em Resende é a de ultracentrifugação para enriquecimento isotópico, desenvolvida pelo Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo em parceria com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, autarquia gerida administrativa e tecnicamente pela Cnen.

Segundo o ministério, a exportação não afeta o abastecimento de combustível das centrais nucleares de Angra dos Reis (RJ). Atualmente, a Usina de Enriquecimento tem seis cascatas de ultracentrífugas em operação e atende a cerca de 40% das necessidades de Angra 1.

O acordo com a Argentina não envolve intercâmbio de conhecimento, uma vez que prevê a entrega de um produto pronto, mas abre essa perspectiva. A empresa estatal argentina Invap participa do desenvolvimento do Reator Multipropósito Brasileiro, e os programas nucleares dos dois países são contemporâneos, iniciados na década de 1960.

Criada em 1988, a INB atua na cadeia produtiva do urânio, da mineração à fabricação do combustível que gera energia elétrica nas usinas nucleares. A empresa pública tem sede no Rio de Janeiro e também está presente nos estados da Bahia, Ceará, Minas Gerais e São Paulo.

O urânio é um mineral com propriedades físicas de emitir partículas radioativas, a radioatividade. Sua principal aplicação comercial é na geração de energia elétrica, como combustível para os reatores nucleares de potência.

Segundo a INB, o Brasil tem a sétima maior reserva geológica de urânio do mundo, o que permite o suprimento das necessidades domésticas no longo prazo e uma possível disponibilização do excedente para exportação. As reservas estão concentradas nos estados da Bahia, do Ceará, Paraná e de Minas Gerais, com cerca de 309 mil toneladas de concentrado de urânio.

A única mina de urânio em operação no Brasil está em Caetité (BA) e tem capacidade de produzir 400 toneladas de concentrado de urânio por ano. Em 2013, a produção mundial de urânio concentrado foi 70.330 toneladas.

 

O discurso de Marco Antônio no funeral de César

Autor: William Shakespeare

Adaptação: César A. Ferreira

Nota de introdução: um espaço dedicado aos assuntos de geopolítica não pode se furtar aos eventos internos, pois a prática política e suas idiossincrasias marcam a atuação externa de uma nação. Todavia, melhor cobertura existe em blogs, jornais e revistas dedicados aos assuntos políticos, por força da especialização destes, ademais, a prática opinativa, tão em voga, não satisfaz os critérios deste editor. Pois, ao visitar o perfil de um amigo numa rede social, dei-me conta deste clássico de Willian Shakespeare, parte central do drama Julio César, que para olhos atentos, afeitos à reflexão, muito explica e sugere. Daí a decisão de publicar O Discurso de Marco Antônio no Funeral de César, pois, não raro é em torno da destruição deliberada de lideranças carismáticas em função de ambições políticas pautadas pelo imediatismo e oportunismo míope, que nascem os dissensos e conflitos civis responsáveis por dilacerar nações por gerações, e gerações.

O discurso de Marco Antônio no funeral de César:

Amigos, romanos, cidadãos escutai-me!

Vim para enterrar Cesar, não para louvá-lo. O mal que os homens fazem a eles sobrevive. O bem que se faz é sepultado com ossos, que seja assim com Cesar.

O nobre Brutus lhes disse que Cesar era ambicioso. Se verdade que o era, a falta era muito grave, e Cesar pagou com a vida, aqui, pelas mãos de Brutus e dos demais. Pois Brutus é um homem honrado, e assim são todos eles; todos homens de honra.

Venho para falar no funeral de Cesar. Ele era meu amigo, fiel e justo para comigo. Mas Brutus diz que ele era ambicioso. E Brutus é um homem honrado.

Trouxe muitos prisioneiros para Urbes que, para serem libertados, encheram os cofres de Roma. Isto lhes parece uma atitude ambiciosa de Cesar? Quando os pobres sofriam Cesar pranteava. Ora, a ambição torna as pessoas duras e sem compaixão. Entretanto, Brutus diz que Cesar era ambicioso. E Brutus é um homem honrado.

Todos vocês viram que nas Lupercais, eu, por três vezes, ofereci-lhe uma coroa real, a qual ele por três vezes a recusou. Isto era ambição? Mas, Brutus lhes diz que era ambicioso, e Brutus, todos o sabemos, é um homem honrado.

Não venho aqui para discordar da retórica de Brutus. Mas, tenho de lhes falar daquilo que sei. Vocês todos já o amaram e tinham razões para amá-lo. Qual a razão que os impede, agora, de render-lhe homenagem na morte?

O julgamento! Foste para o meio dos brutos animais, tendo os humanos perdido o uso da razão. Perdoai-me; mas tenho o coração, neste momento, no ataúde de César; é preciso calar até que ele ao peito me volte.

Ontem, a palavra de Cesar seria capaz de prevalecer neste mundo, agora, jaz aqui morta. Ah! Se eu estivesse disposto a levar os seus corações e mentes para o motim e a violência, mal falaria de Brutus e de Cassius, os quais, como sabem, são homens honrados. Deles não vou falar mal.

Prefiro falar mal do morto. Prefiro falar mal de mim e de vocês do que destes homens honrados. Mas, eis aqui, um pergaminho com o selo de Cesar. Eu o achei no seu armário. É o seu testamento. Quando os pobres lerem o seu testamento, porque, perdoem-me, não pretendo o ler, se arrojarão para beijar os ferimentos de Cesar, molhar os seus lenços em seu sagrado sangue.

Tenham paciência amigos, pois não devo lê-lo. Vocês não são de madeira ou ferro, e sim humanos. E, sendo humanos, ao ouvir o testamento de Cesar vão se inflamar, ficarão furiosos. É melhor que vocês não saibam que são os herdeiros de Cesar! Pois se souberem… O que vai acontecer? Vocês vão me obrigar a ler o testamento de Cesar? Então façam um círculo em volta do corpo e deixem-me mostrar-lhes César morto, aquele que escreveu este testamento.

Cidadãos! Se vocês lágrimas possuem, preparem-se para vertê-las. Todos vocês conhecem este manto. Vejam, foi neste lugar que a faca de Cassius penetrou. Através deste outro rasgão, Brutus, tão querido de Cesar, enfiou-lhe a faca, e, quando ele arrancou a sua maldita lâmina do ferimento, vejam como jorrou o sangue de Cesar.

Brutus, como vocês sabem, era o anjo de Cesar. Oh! Deuses, como Cesar o amava! O golpe de Brutus foi, de todos, o mais brutal e perverso. Pois, quando o nobre Cesar viu que Brutus o apunhalava, a ingratidão, mais do que a força da traidora punhalada, parou o seu coração.

Oh! Que queda brutal meus concidadãos. Então, eu e vocês, todos nós também tombamos, enquanto esta sanguinária traição florescia sobre nós.

Sim, agora vocês choram. Percebo que sentem um pouco de piedade por ele. Boas almas.Choram ao ver o manto do nosso Cesar despedaçado.

Bons amigos, queridos amigos; não quero estimular a revolta de vocês. Aqueles que praticaram este ato são honrados. Quais queixas e interesses particulares os levaram a fazer o que fizeram, não sei. Mas são sábios e honrados e tenho certeza que apresentarão a vocês as suas razões.

Eu não vim para roubar seus corações. Eu não sou um bom orador como Brutus. Sou um homem simples e direto, que ama os seus amigos.

Aqui está o testamento, com o selo de Cesar! A cada cidadão ele deixou 75 dracmas. Mais, para vocês lhes deixou os seus bens. Seus sítios deste lado do Tibre, com suas árvores, seu pomar, para vocês e para os herdeiros de vocês,  para todo o sempre.

Este era Cesar. Quando aparecerá outro como ele?

 

Radar de Vigilância BRADAR SABER M60

Esta matéria foi redigida originalmente para o site Portal Defesa e publicada na data de 08.09.2014.

Por: César Antônio Ferreira

A Embraer Defesa & Segurança, por meio da sua subsidiária, BRADAR, demonstrou na última mostra BID BRASIL o seu carro – chefe: o radar de vigilância de campo contra incursões de baixa altura BRADAR M60. O radar em questão é desmontável, capaz de ser transportado por veículos off-road leves, caso do Agrale Marruá AM-21 (3/4 ton), pois o peso total do conjunto é pouco maior do que 364 kg, ocupando 15 minutos de trabalho de uma equipe de três especialistas para ser montado. O radar é capaz de ser montado em qualquer tipo de terreno e opera sobre severas condições climáticas, exibindo flexibilidade e robustez.

A importância de dotar o Exército Brasileiro de um radar de vigilância e varredura de alvos aéreos, notadamente incursores de baixa altura, está refletida na recente cadeia de eventos do leste ucraniano, onde a Força Aérea da Ucrânia sofreu baixas exorbitantes entre as suas aeronaves de ataque disponíveis em rampa, devido a insistência em ataques à baixa altura, contra uma força dotada de um respeitável estoque de MANPADS e de canhões de tiro rápido. O radar de vigilância avisa aos artilheiros a direção da ameaça, preparando-os para o combate. Esta é a função do radar SABER M60.

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Antena rotativa do Radar Saber M60, desdobrada no Campo. Foto: internet.

O SABER M60 é um radar 3D, ou seja, é tridimensional, de estado sólido, modular e Pulso Doppler, possui a capacidade de rastreio de até 40 alvos, simultâneos, que por ventura estejam dentro do seu alcance de detecção. O cilindro que representa o seu alcance de detecção compreende um raio de 60 km de distância, com altura de até 5 km. Opera na Banda L (Frequência de 950 MHz a 1450 MHz, com Comprimento de Onda de 23 cm), sendo capaz de distinguir se a ameaça é um vetor de asas fixas (caça – bombardeiro), ou rotativas (helicóptero).

O processamento dos sinais é digital, e a interface do sistema é amigável, baseada que é em arquitetura aberta (Linux), portanto, adaptável às necessidades e requerimentos dos clientes, passível de ser instalado em computadores portáteis, exibindo a notável robustez do software. A transmissão se dá por cabo, ou conexão segura de rádio. Estes dados são enviados, recebidos e trabalhados por um COAAe – Centro de Operações de Artilharia Antiaérea, que é um módulo transportável, equipado com equipamentos de radiocomunicação, comando e controle, interceptação e monitoramento, que permite ao operador uma centralização de dados em vista de facilitar a consciência operacional. O COAAe dispõe de facilidades como telas de LCD, computadores, roteadores e ar-condicionado, entre outros.

Especificações Técnicas

Características físicas

Peso Total: 364,25 kg.

Comprimento Total em Operação: 3,20 m.

Largura Total em Operação: 3,20 m.

Altura Total em Operação: 2,85 m.

Alimentação do Sistema

Bateria: 28V, CC.

Comercial: 90-230V, CA, 50-60 Hz.

Gerador: Customizado (orgânico).

Radar

Alcance: 60 km.

Teto Máximo Aproximado: 5000 m.

Rotação da Antena: 7,5 ou 15 RPM.

Transmissor

Tipo: Estado Sólido; Pulso Doppler.

Frequência:Banda L.

Potência Média: 50 W.

Potência de Pico: 500 W.

Processamento de Sinais

MTI: Digital.

Entre um tapa e o Cunha

Por: Guilherme Silva

Fim de mais um dia de ralação e ele foi cumprir o ritual diário de percorrer a estrada próxima de sua casa e liberar os neurônios, com um fumo adquirido, é claro, de forma criminosa. Fazia isso todos os dias, tomando sempre a direção oposta à do rush, para passar despercebido. Acendia o beck, ligava o rádio e deixava as músicas e as notícias da rádio Câmara arrancarem, aqui e ali, o dia. Percorria cerca de uns 12 quilômetros, entre ida e volta.

Entre uma tragada e outra, canta a música tocada no momento, ou comenta notícias de realidade fantástica, ou saídas do século 16. A dita Casa do Povo é presidida por um deputado acusado de ser o proprietário da bagatela de R$ 9 milhões depositados na Suíça e não declarados ao Governo. Pior, mentiu em depoimento na CPI da Petrobras, pois negou ser o dono da fortuna. A postura do deputado Eduardo Cunha compromete todo o Congresso Nacional, pois ele e todos os que o apoiam dizem que a falta de decoro parlamentar compensa.

Em uma Câmara dos Deputados minimamente séria, ele já estaria preso e processado. Apoiado pelas bancadas fundamentalistas rural, religiosa e a da bala, seu caráter cínico, perverso e cretino, coisa de que se orgulha, está expresso em leis que punem agentes públicos que ajudem a uma mulher exercer o livre, terrível e doloroso direito de abortar.

Em caso de estupro, agentes de saúde podem ser presos, processados e exonerados, caso realizem o ato sem antes a mulher passar pelo calvário da ocorrência policial e exame de corpo de delito. A palavra da mulher, da cidadã, não basta. Não é confiável.

Mais uma tragada e o pensamento lamenta pelos dias sombrios pelos quais o País passa. A Câmara dos Deputados é o mais fiel reflexo do quanto a sociedade brasileira está doente ou falta amadurecer para ser, de fato, minimamente civilizada. Basta um superficial retrospecto de 2015 para enxergar a Câmara mais medieval, oligárquica e tirana da história da República.

A PEC 215 e a lei do armamento são dois exemplos de legislação do inferno. Por falta de uma reforma agrária e devido à nossa oligarquia brejeira e truculenta e as exigências do mercado de commodities, reduz-se terras indígenas e, ainda, nos mesmos moldes do século 16. Mas, desta vez, sem espadas, apenas com pólvora.

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Pistola automática no momento do disparo. Foto: George Frey/Bloomberg.

Graças ao projeto de lei 3722/2012, todo cidadão de bem, a partir dos 21 anos, poderá adquirir até nove armas para utilizar as cinquenta munições a que tem direito de comprar por mês. Vasculhou, em vão, a memória em busca de algum amigo, conhecido ou parente de bem que tenha o hábito de dar 50 tiros em 30 dias.

Mas lembrou dos 22 deputados da bancada da bala, dos quais 11 financiados pela indústria bélica e de segurança, que derrubaram o Estatuto do Desarmamento. Segundo pesquisas do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ, desde que foi instituído, em 2003, ele evitou a perda de mais de 120 mil vidas.

A proposta de redução da maioridade penal, capitaneada pelas bancadas da bala e religiosa, mas apoiada pelas rural e industrial, é coisa de gente cruel. Os ditos deputados não ignoram as condições do sistema carcerário brasileiro. Sabem quem serão os mais de 40 mil jovens deste País a serem jogados anualmente nesse calabouço desumano, cujo índice de reincidência é de 75%. Os sobreviventes terão carteira assinada no crime, cada vez mais organizado, e currículo com todo tipo de especialização criminosa.

Esses projetos em nada têm a ver com a simpatia, a cordialidade, a alegria e mais algum sentimento mítico sobre a dita brasilidade, elucubrou. Em bairros onde os bens materiais encontram-se em franca vantagem de acesso, dentro de uma sociedade na qual se é o que se tem de material, todos concordam com a redução da maioridade. É o ódio da Casa Grande pela Senzala.

Trafegava na pista da esquerda para acessar o retorno que o poria na estrada de volta para casa. Notou aproximação acelerada de um carro grande. Ele estava devagar, não queria aumentar a velocidade e, por isso, passou para a pista da direita. Apoiou a mão esquerda na perna e assim aguardaria até o carro passar.

Quando os veículos foram emparelhados, a velocidade do da esquerda diminuiu abruptamente e assim se manteve por alguns metros, atiçando sua curiosidade. Não resistiu e, com o canto do olho e um leve girar de pescoço identificou, aterrorizado, o sinistro carro do BOPE, com quatro ou cinco agentes.

Gelou da cabeça aos pés, mas manteve um olhar tranquilo e fixo no carro da frente, enquanto o coração era contido pelos dentes. Nunca aquele retorno foi tão longe. Uma pesquisa Datafolha, deste ano, revelou que mais de 60% dos brasileiros têm medo da Polícia Militar. Pensou na sua condição social. Não é rico, mas também não é pobre. E é branco. Caso fosse flagrado, não passaria de uma reprimenda e multa.

Depois pensou na condição dos jovens pretos e pobres deste País que morrem sob o manto legitimador de um dispositivo legal chamado auto de resistência seguido de morte. De acordo com a ONG Human Rights, os números de mortes nessas condições, entre 2013 e 2014, nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, saltaram de 369 para 728 e de 416 para 585, respectivamente. Dessas mortes, 77% são de jovens pretos e pobres, entre 15 e 29 anos. E a Câmara, o nosso reflexo, apoia tudo isso.

Guilherme Silva é jornalista e professor.