Por que eventos recentes na Síria mostram que o governo Obama está em confusa agonia terminal

Autor: Saker.

Fonte: The Vineyard Of The Saker

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu. – Fonte em português: Blog do Alok

Os mais recentes desenvolvimentos na Síria não são, creio eu, resultado de algum plano deliberado pelos EUA para ajudar seus “terroristas moderados” aliados em campo, mas sintoma de algo talvez pior: os EUA parecem ter perdido completamente o controle sobre a situação na Síria e, possivelmente, também em outros pontos. Permitam recapitular o que acaba de acontecer:

Primeiro, depois de dias e dias de intensas negociações, o secretário Kerry dos EUA e o ministro Lavrov de Relações Exteriores da Rússia finalmente chegaram a um acordo sobre um cessar-fogo na Síria que teria potencial para pelo menos “congelar” a situação em campo, até as eleições presidenciais nos EUA e a troca de governo (esse é agora o evento mais importante no futuro próximo; assim sendo, nenhum plano de nenhum tipo estende-se além daquela data.

Foi quando a Força Aérea dos EUA, com mais alguns ‘parceiros’, bombardeou uma unidade do Exército Árabe Sírio, que não estava nem em movimento nem engajada em operações intensas, que simplesmente cobria um setor chave do front. O ataque norte-americano foi seguido por ofensiva massiva dos “terroristas moderados” que acabou por ser contida, com dificuldade, por militares sírios e as Forças Aeroespaciais Russas. Desnecessário dizer que, depois de tal provocação, o cessar-fogo morreu.

Os russos manifestaram total desagrado e indignação contra o ataque e começaram a dizer abertamente que os norte-americanos são “недоговороспособны“. A palavra significa literalmente “[gente, pessoa] incapaz para acordos” ou sem as competências mínimas para firmar um acordo e, na sequência, honrar o que assinou. É expressão polida, mas mesmo assim extremamente forte, porque implica, mais do que fingimento deliberado, a ausência da capacidade, dos meios morais necessários para respeitar a própria assinatura. Por exemplo, os russos têm dito com frequência que o governo de Kiev é “incapaz para acordos”, o que faz sentido, considerando-se que a Ucrânia ocupada pelos nazistas é, na essência, estado fracassado.

Mas dizer que uma superpotência nuclear mundial é “incapaz para acordos” é diagnóstico extremo e terrível. Significa basicamente que os norte-americanos enlouqueceram e perderam os meios morais mínimos necessários para firmar acordos, qualquer tipo de acordo. Afinal, governo que descumpra o que prometa ou tente burlar, mas o qual, pelo menos em teoria, conserve a capacidade para respeitar a própria assinatura em acordos não seria descrito como “incapaz para acordos”. É expressão que só é usada para descrever entidade que sequer tem condições mínimas indispensáveis para merecer a confiança necessária para que alguém possa iniciar negociações, porque não cumprirá o que for acordado. É diagnóstico absolutamente devastador.

Na sequência, vem a cena antiprofissional, patética, da embaixadora Samantha Powers embaixadora dos EUA na ONU que simplesmente levantou-se e saiu de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU quando o representante russo estava falando. Mais uma vez, os russos enfureceram-se, não pela tentativa infantiloide de ofender, mas pela absoluta falta de profissionalismo que Powers manifestou, como diplomata. Do ponto de vista dos russos, se uma superpotência levanta-se e sai da sala quando outra superpotência está falando sobre assunto crucialmente importante é, para começar, atitude irresponsável; mais uma vez, sinal de falta das competências mínimas indispensáveis para ser parte de qualquer negociação ou acordo.

Por fim, a coroação: o ataque ao comboio de ajuda humanitária na Síria, que os EUA, claro, atribuíram à Rússia. Mais uma vez, os russos mal acreditaram nos próprios olhos. Primeiro, porque foi flagrante (e sinceramente, de nível de jardim de infância) tentativa para ‘mostrar’ que “os russos também erram” e que “os russos mataram o cessar-fogo”. Segundo, apareceu aquela declaração cômica, dos norte-americanos, de que só duas forças aéreas poderiam ser autoras do ataque – ou os russos ou os sírios (como os norte-americanos supuseram que enganariam alguém, naquele espaço aéreo super controlado pelos radares russos, é questão que ultrapassa a minha capacidade de análise!). Sabe-se lá como, os norte-americanos “esqueceram” de mencionar a que força aérea dos EUA também está ativa na região, além de forças aéreas de vários aliados dos EUA. Mais importante: esqueceram de mencionar que, naquela noite, drones Predator norte-americanos armados voavam diretamente sobre aquele comboio.

O que aconteceu na Síria é dolorosamente óbvio: o Pentágono sabotou o acordo firmado entre Kerry e Lavrov; e quando o Pentágono foi acusado de ser responsável pelo ataque, rapidamente montaram (mal montado) um ataque sob falsa bandeira, e tentaram culpar os russos.

Tudo isso mostra que o governo Obama está em estado terminal de confusa agonia. A Casa Branca aparentemente está em tal estado de pânico ante a provável vitória de Trump em novembro, que perdeu, basicamente, o controle de toda sua política exterior em geral, e especialmente, na Síria. Os russos estão literalmente cobertos de razão: o governo Obama é realmente “incapaz para acordos”.

Claro: o fato de os norte-americanos estarem agindo como crianças malcriadas frustradas não implica que a Rússia tenha de se rebaixar. Já vimos Lavrov voltar sempre e sempre tentar negociar com Kerry. Não porque os russos sejam ingênuos, mas precisamente porque, diferente dos colegas norte-americanos, os diplomatas russos são profissionais que sabem que negociação e linhas de comunicação mantidas abertas sempre são, e por definição, preferíveis a dar as costas e sair da sala, sobretudo quando se negociar com uma superpotência. Os observadores que criticam a Rússia por ser “fraca” ou “ingênua” só fazem projetar sobre a Rússia o seu próprio modo de ser e agir, quase todo modelado pelos norte-americanos. E nem percebem que russos não são norte-americanos: pensam de modo diferente e agem de modo diferente.

Para começar, os russos não se incomodam com ser vistos como “fracos” ou “ingênuos”. De fato, preferem ser vistos desse modo, se essa percepção faz avançar seus objetivos e confundem o oponente sobre suas reais intenções e capacidades. Os russos sabem que não construíram o maior país do planeta por serem “fracos” ou “ingênuos” e não têm interesse em ‘lições’ que lhe venham de países mais jovens que muitos dos prédios russos.

O paradigma ocidental quase sempre é o seguinte: crise sempre leva a rompimento de negociações; em seguida vem o conflito. O paradigma russo é completamente diferente: crise leva a mais negociações que são mantidas até o último segundo, tentando impedir que irrompa o conflito.

Há duas razões para isso: primeiro, insistir em negociar até o último segundo possibilita procurar o mais possível por uma via pela qual sair do confronto; e, segundo, negociações nas quais se insista até o último momento possibilitam que o negociador aproxime-se o mais possível de pôr a seu favor a surpresa estratégica, no caso de ter de atacar. Assim, exatamente, a Rússia agiu na Crimeia e na Síria – sem absolutamente nenhum sinal ou, ainda menos, sem exibições propagandeadas de poder como meio para intimidar alguém (intimidação também é estratégia política ocidental, que os russos nunca usam).

Assim sendo, Lavrov continuará a negociar, não importa o quão ridículas ou inúteis pareçam essas negociações. O próprio Lavrov provavelmente jamais pronunciará publicamente a palavra “недоговороспособны”, mas a mensagem ao povo russo e aos aliados sírios, iranianos e chineses da Rússia sempre será clara: os russos, hoje, já perderam qualquer esperança de obter negociações proveitosas ou confiáveis com o atual governo dos EUA.

Obama & Co. estão assoberbados de trabalho, tentando esconder as reais condições de saúde e os problemas de caráter de Hillary e, no momento, provavelmente só conseguem pensar numa coisa: como sobreviver ao debate Hillary-Trump [2ª-feira, 26/9, na Hofstra University em Hempstead, N.Y.]. O Pentágono e o Departamento de Estado estão ocupados, sobretudo, em combater um contra o outro por causa da Síria, Turquia, curdos e Rússia. A CIA parece estar em guerra contra ela mesma, mas não se pode afirmar com certeza.

O mais provável é que algum tipo de acordo continuará a ser anunciado, por Kerry e Lavrov, se não hoje, então amanhã ou depois. Mas, francamente, concordo integralmente com os russos: norte-americanos são realmente “incapazes para acordos”, e nesse momento, os dois conflitos, na Síria e o da Ucrânia, estão congelados. Não digo “congelados”, isso sim, no sentido de “situação em que não há grandes desdobramentos possíveis”. Ainda haverá combates, especialmente agora que os aliados wahhabistas e nazistas dos EUA sentem que o chefe não está muito atento no comando, ocupado com eleições e conflagração racial quase generalizada nos EUA, mas dado que não há solução militar possível para nenhuma dessas guerras, os confrontos e ofensivas táticos não levarão a resultado estratégico.

Com exceção de algum ataque sob falsa bandeira dentro dos EUA, como o assassinato ou de Hillary ou de Trump por um “pistoleiro solitário”, as guerras na Ucrânia e Síria prosseguirão sem possibilidade de qualquer tipo de negociação significativa. E com Trump ou Hillary na Casa Branca, um grande “reset” acontecerá no início de 2017.  Trump provavelmente quererá encontrar Putin para uma grande sessão de negociações que envolva todos os temas chaves entre EUA e Rússia. Se Hillary e seus neoconservadores chegarem à Casa Branca, nesse caso será quase impossível impedir algum tipo de guerra entre Rússia e EUA.

[assina] The Saker.

PS: Alguns especialistas militares russos estão dizendo que o tipo de dano que se vê nas fotos e vídeos do ataque ao comboio humanitário não é consistente com ataque aéreo, sequer com ataque por artilharia; o que se vê parece ser resultado da explosão de vários IEDs [Dispositivos Explosivos Improvisados]. Se isso se confirmar, também não implica a Rússia, mas aponta para forças de “terroristas moderados” que controlam aquela locação. Ainda assim poderia ser ataque sob falsa bandeira ordenado pelos EUA ou, se não for isso, será prova de que os EUA perderam o controle sobre seus aliados wahhabitas em campo.*****

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A “guerra invisível” da diplomacia russa

O presente texto foi redigido por Rotislav Ischenko, analista da RT  – Russian Today. Foi escrito originalmente em russo, onde pode ser encontrado no site Oko-planet, bem como da sua tradução para o inglês no site Global Research. Em português, encontra-se publicado no site Resistir.info e no blog Notícia Final.

A “guerra invisível” da diplomacia russa

Por: Rostilav Ischenko

Tradução: Margarida Ferreira   

Como é que a Rússia, em apenas 20 anos, sem guerras nem outras perturbações, pôde passar duma semi colônia para um reconhecido líder mundial, igual entre os mais importantes?

Os “estrategistas” de meia tigela, que acreditam seriamente que um grande ataque nuclear é a solução universal para qualquer problema internacional (mesmo o mais escaldante, perto da confrontação militar), sentem-se desanimados pela posição moderada da liderança russa na crise com a Turquia. No entanto, consideram insuficiente a participação direta das tropas russas no conflito sírio. Também se sentem insatisfeitos com as atividades de Moscou na frente ucraniana.

No entanto, não se percebe porque é que ninguém faz uma pergunta simples. Como é que aconteceu que, de repente, a Rússia começou a fazer frente ao poder hegemônico mundial e, além disso, ganhou com êxito em todas as frentes?

Porquê agora?

No final dos anos 90, a Rússia era um estado que, econômica e financeiramente, estava ao nível do terceiro mundo. Fervilhava uma rebelião anti-oligarquias no país. Estava a travar uma guerra infindável e sem esperança com os chechenos, que se alargava ao Daguestão. A segurança nacional repousava apenas nas armas nucleares mas, quanto a realizar quaisquer operações a sério, mesmo dentro das suas fronteiras, o exército não tinha nem pessoal bem treinado nem equipamento moderno, a frota não navegava e a aviação não voava.

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Tu-95 decolando para uma missão. Foto: Defense Blog.

Claro que todos podem dizer como a indústria, incluindo a militar, foi sendo gradualmente revitalizada, como o crescente nível de vida estabilizou a situação interna, como o exército foi modernizado.

Mas a questão fundamental não é quem mais fez para reconstruir as forças armadas russas: Shoygu, Serdukov, ou o Estado-Maior. A questão fundamental não é quem é melhor economista, Glaziev ou Kudrin, e se teria sido possível atribuir ainda mais recursos às despesas sociais.

O fator chave desconhecido nesta questão é o tempo. Como é que a Rússia teve tempo, porque é que os EUA deram tempo à Rússia para preparar a resistência, para criar músculo econômico e militar, para aniquilar o lobby pró-americano financiado pelo Departamento de Estado, na política e nos meios de comunicação?

Porque é que a confrontação aberta, que agora aparece em Washington, não começou mais cedo, há 10 ou 15 anos, quando a Rússia não tinha possibilidade de resistir às sanções? Na realidade, os EUA, nas décadas de 1990 ou 2000, começaram a instalar regimes fantoches no espaço pós-soviético, incluindo Moscou, que foi considerado como uma das várias capitais da Rússia desmembrada.

O conservadorismo saudável dos diplomatas

As condições para os êxitos militares e diplomáticos atuais foram sendo construídas durante décadas na frente invisível (diplomática).

Deve dizer-se que, entre os principais ministérios, o Ministério dos Estrangeiros foi o primeiro a recuperar da confusão administrativa provocada pelo desmembramento do início dos anos 90. Logo em 1996, Evgeny Primakov foi designado ministro dos Estrangeiros e, para além de alterar o plano do governo sobre o Atlântico, depois de ter conhecimento da agressão dos EUA contra a Yugoslávia, inverteu a política externa russa que, depois disso, nunca mais seguiu o curso dos EUA.

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Charge sobre o breve conflito da Ossétia do Sul (2008). Imagem: internet.

Dois anos e meio depois, recomendou Igor Ivanov para seu sucessor, que lentamente (quase imperceptivelmente), mas com segurança, continuou a reforçar a diplomacia russa. Foi sucedido em 2004 pelo atual ministro dos Estrangeiros, Sergey Lavrov, sob cuja liderança a diplomacia acumulou recursos suficientes para mudar duma posição de defesa para uma posição de ataque decisivo.

Destes três ministros, só Ivanov recebeu a medalha de Herói da Federação Russa, mas estou convencido de que tanto o seu antecessor como o seu sucessor também mereciam essa distinção.

Deve dizer-se que a cumplicidade de casta e o conservadorismo saudável do corpo diplomático contribuíram para uma rápida recuperação do trabalho do ministro dos Estrangeiros. A lentidão e o tradicionalismo de que os diplomatas são acusados ajudaram muito. O “Kozyrevshchina” [a palavra deriva do nome de Andrei Kozyrev, o ministro dos Estrangeiros em 1990-1996; a palavra significa “agir como Kozyrev”, isto é, de modo subserviente contra os seus próprios interesses – NT para inglês) nunca contaminou o Ministério dos Estrangeiros porque não se adequava.

Período de consolidação interna 

Voltemos a 1996. A Rússia está no fundo do poço, economicamente, mas o incumprimento de 1998 ainda está para chegar. Os EUA desprezam totalmente o direito internacional, substituindo-o por ações arbitrárias. A NATO e a União Europeia preparam-se para alterar as fronteiras russas.

A Rússia não tem como reagir. A Rússia (tal como a URSS anteriormente) pode aniquilar qualquer agressão em 20 minutos, mas ninguém pretende pôr isso em prática. Qualquer desvio da linha aprovada por Washington, qualquer tentativa de exercer uma política externa independente levaria ao estrangulamento econômico e à subsequente desestabilização interna – naquela época o país vivia com créditos do Ocidente.

A situação complica-se ainda mais pelo facto de que, até 1999, o poder está nas mãos da elite compradora dependente dos EUA (tal como a da atual Ucrânia) e, até 2004-2005, os compradores continuam a lutar pelo poder com a administração patriótica de Putin. A última batalha de retaguarda travada pelos compradores perdedores foi uma tentativa de revolução em 2011, na praça Bolotnaya. O que teria acontecido se eles tivessem feito essa jogada em 2000, quando tinham uma vantagem esmagadora?

Os líderes russos precisavam de tempo para a consolidação interna, para a restauração dos sistemas econômicos e financeiros, garantido a sua autonomia e independência do Ocidente e reconstruindo um exército moderno. E, por fim, a Rússia precisava de aliados.

Os diplomatas tinham uma missão quase impossível. Era necessário, sem se desviarem de questões fundamentais, consolidar a influência da Rússia nos estados pós-soviéticos, aliar-se com outros governos que resistiam aos EUA, fortalecê-los, se possível, tudo isso criando a ilusão em Washington de que a Rússia é fraca e está disposta a concessões estratégicas.

A ilusão da fraqueza da Rússia

Uma prova de que esta tarefa foi realizada com êxito são os mitos que continuam a viver entre alguns analistas ocidentais e na “oposição” russa pró-americana. Por exemplo, se a Rússia se opõe a qualquer situação de aventureirismo ocidental, está “a fazer ‘bluff’ para salvar a cara”, as elites russas estão totalmente dependentes do Ocidente porque “o dinheiro delas está lá”, “a Rússia está a vender os seus aliados”.

No entanto, os mitos de “foguetões enferrujados que não voam”, “soldados esfomeados que constroem casas de campo para generais”, e uma “economia em farrapos” já desapareceram. Só os marginais acreditam neles, não porque sejam incapazes, mas porque têm demasiado medo para reconhecer a realidade.

Estas ilusões de fraqueza e disposição para recuar, que levaram o Ocidente a acreditar que a questão russa estava resolvida e evitaram ataques políticos e econômicos a Moscou, deram à liderança russa um tempo precioso para as reformas.

Naturalmente, o tempo nunca é demais, e a Rússia teria preferido adiar a confrontação direta com os EUA, que começou em 2012-2013, por mais três ou cinco anos, ou mesmo evitá-la de todo, mas a diplomacia ganhou 12 a 15 anos para o país – um enorme período de tempo no atual mundo em rápida transformação.

 A diplomacia russa na Ucrânia

 Para poupar espaço, vou dar apenas um exemplo muito claro, muito relevante na atual situação política.

As pessoas continuam a criticar a Rússia por não contra-atacar os EUA na Ucrânia, de modo suficientemente ativo, por não ter criado uma “quinta coluna” pró-Rússia para contrabalançar a pró-americana, por trabalhar com as elites, em vez de com a população, etc. Vamos avaliar a situação, com base nas capacidades reais, em vez dos desejos.

Apesar de todas as referências à população, é a elite que determina a política do estado. A elite ucraniana, em todas as suas ações, sempre foi e continua a ser anti-russa. A diferença é que a elite ideologicamente nacionalista (que se está a tornar nazi) era abertamente russofóbica, enquanto que a elite econômica (compradora, oligárquica) era simplesmente pró-ocidental, mas não levantava problemas às ligações lucrativas com a Rússia.

Gostava de relembrar que não eram outros senão os representantes do Partido das Regiões, supostamente pró-russo, quem se gabava de não permitirem negócios russos na bacia do Donets. Também foram eles que tentaram convencer o mundo de que eram melhores para a integração no Euro do que os nacionalistas.

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Charge sobre a situação política ucraniana. Imagem: internet

O regime de Yanukovich-Azarov precipitou a confrontação econômica com a Rússia em 2013, exigindo que, apesar da assinatura do tratado de associação com a União Europeia, a Rússia retivesse e até reforçasse o regime favorável com a Ucrânia. Afinal, Yanukovich e os seus comparsas do Partido das Regiões, embora tivessem poder absoluto (2010-2013), apoiaram os nazis, financeira, informativa e politicamente. Elevaram-nos do seu nicho marginal à política dominante a fim de terem um adversário conveniente nas eleições presidenciais em 2015, enquanto suprimiam qualquer atividade informativa pró-russa (para não falar da política).

O Partido Comunista Ucraniano, embora mantendo a retórica pró-russa, nunca visou o poder e desempenhou um papel de conveniente oposição leal, apoiando indiretamente os oligarcas, canalizando a atividade de protesto em espaços seguros para quaisquer poderes (inclusive os atuais).

Nestas condições, qualquer tentativa russa de trabalhar com as ONGs ou criar meios de comunicação pró-russos seria considerada uma ingerência nos direitos dos oligarcas ucranianos para se apoderarem do país, o que provocaria uma maior fuga do oficialato ucraniano para o Ocidente, vista por Kiev como um contrabalanço em relação à Rússia. Os EUA, muito naturalmente, veriam isso como uma transição da Rússia para um confronto direto e apoiariam as elites pró-ocidentais em todo o espaço pós-soviético.

Nem em 2000, nem em 2004, a Rússia estava preparada para um confronto aberto com os EUA. Mesmo quando isso aconteceu em 2013 (e não foi por opção de Moscovo), a Rússia precisou de quase dois anos para mobilizar os seus recursos a fim de dar uma forte resposta na Síria. A elite síria, em contraste com a ucraniana, desde o início (em 2011-2012) rejeitou a opção de comprometimento com o Ocidente.

Foi por isso que, durante 12 anos (desde a ação “a Ucrânia sem Kuchma”, que foi a primeira tentativa sem êxito dum golpe pró-americano na Ucrânia), a diplomacia russa trabalhou em duas tarefas essenciais.

A primeira foi manter a situação na Ucrânia num equilíbrio instável; a segunda, convencer a elite ucraniana de que o Ocidente era um perigo para o seu bem-estar, enquanto a reorientação para a Rússia era a única forma de estabilizar a situação e salvar o país e a posição da própria elite.

A primeira tarefa foi realizada com êxito. Os EUA só em 2013 conseguiram alterar a Ucrânia do modo multidirecional para o modo de ariete anti-russo, depois de terem gasto imenso tempo e recursos e de terem arranjado um regime com enormes contradições internas, incapaz de existir independentemente (sem um crescente apoio americano). Em vez de usarem os recursos ucranianos, os EUA foram forçados a gastar os seus próprios recursos para prolongar a agonia do Estado ucraniano, destruído pelo golpe.

A segunda tarefa não foi realizada devido a razões objetivas (independentes dos esforços russos). A elite ucraniana revelou-se totalmente inadequada, incapaz de raciocínio estratégico, de avaliação dos riscos e vantagens reais e a viver sob a influência de dois mitos.

Primeiro – o Ocidente ganharia qualquer confrontação com a Rússia e partilharia o espólio com a Ucrânia. Segundo – não era necessário nenhum esforço, exceto a inabalável posição anti-russa, para uma existência confortável (à custa do financiamento ocidental). Numa situação de escolha entre uma orientação para a Rússia e para a sobrevivência, ou de alinhamento com o Ocidente e com a morte, a elite ucraniana escolheu a morte.

No entanto, mesmo perante a opção negativa da elite ucraniana, a diplomacia russa conseguiu obter a máxima vantagem. A Rússia não se deixou afundar numa confrontação com o regime ucraniano, forçando Kiev e o Ocidente a um cansativo processo de negociação nos bastidores duma moderada guerra civil e excluindo os EUA do formato Minsk. Concentrando-se nas contradições entre Washington e a União Europeia, a Rússia conseguiu sobrecarregar financeiramente o Ocidente com a Ucrânia.

Em consequência, a posição inicialmente consolidada de Washington e Bruxelas desintegrou-se. Contando com uma guerra relâmpago político-diplomática, os políticos europeus não estavam preparados para uma confrontação prolongada. A economia da União Europeia não podia sustentá-la. Por seu turno, os EUA não estavam preparados para aceitar exclusivamente Kiev na sua folha de pagamentos.

Hoje, após um ano e meio de esforços, a “velha Europa”, que determina a posição da União Europeia, como a Alemanha e a França, abandonou totalmente a Ucrânia e está a procurar uma forma de estender a mão à Rússia, passando por cima dos países limítrofes pró-americanos (Polônia e bálticos) da Europa de Leste. Até Varsóvia, que costumava ser o principal “defensor” de Kiev na União Europeia, aponta abertamente (embora semioficialmente) para a possibilidade de dividir a Ucrânia, depois de ter perdido a fé na capacidade das autoridades de Kiev para controlar todo o país

.Na comunidade política e de peritos ucranianos cresce a histeria sobre “a traição da Europa”. O oligarca Sergey Taruta, antigo governador da região de Donets (nomeado pelo regime nazi), afirma que o seu país só dura oito meses. O oligarca Dmitry Firtash (que tinha a reputação do “fazedor de reis” ucraniano) prevê a desintegração já na próxima primavera.

Tudo isto, calma e imperceptivelmente, sem utilização de tanques e de aviação estratégica, foi conseguido pela diplomacia russa. Conseguido numa dura confrontação com o bloco dos países mais poderosos, militar e economicamente, partindo duma posição muito mais fraca e com os aliados mais peculiares, alguns dos quais não muito satisfeitos com o crescente poder russo.

Reviravolta no Médio Oriente 

Em paralelo, a Rússia conseguiu regressar ao Médio Oriente, manter e desenvolver a integração no espaço pós-soviético (União Econômica Eurasiática), juntamente com a China alargar um projeto de integração eurasiático (Organização de Cooperação de Xangai) e iniciar, via BRICS, um projeto de integração global.

Infelizmente, o espaço limitado não me permite analisar em pormenor todas as ações estratégicas da diplomacia russa, nos últimos 20 anos (desde Primakov até ao dia de hoje). Um estudo abrangente ocuparia muitos volumes.

No entanto, quem quiser tentar responder honestamente a como a Rússia conseguiu, num prazo de 20 anos, sem guerras nem revoluções, passar do estado de uma semicolonia para o estado de líder mundial reconhecido, terá que notar as contribuições de muita gente da Praça Smolenska (onde se situa o Ministério dos Estrangeiros – NT). Os seus esforços não toleram espalhafato nem publicidade, mas sem sangue e sem vítimas colhem resultados comparáveis aos conseguidos por exércitos de muitos milhões, durante muitos anos.

Washington, Bagdá, em diferentes páginas na luta contra o Estado Islâmico

A matéria que segue assinada por Slobodan Lekic, é de uma importância impar, não só pelo conteúdo revelador do texto, mas pelo fato de ter sido publicada na revista Stars & Stripes, conhecido órgão informativo militar dos EUA. Portanto, ter uma matéria que elenca entre aspas o conceito de rebelde “moderado”, como neste texto publicado na Star & Stripes, é perceber que a retórica do Departamento de Estado não está sendo considerada como séria, nem mesmo dentro das fronteiras dos EUA. A matéria foi publicada originalmente na Stars & Stripes no dia 13 de dezembro de 2015.

Washington, Bagdá, em diferentes páginas na luta contra o Estado Islâmico

Por: Slobodan Lekic

Deu-se durante a semana passada uma longa série de desavenças políticas em Bagdá, em torno da presença de forças estrangeiras em solo iraquiano, o que acabou por ter exposto a progressiva fraqueza do primeiro – ministro do Iraque, bem como a uma desconexão entre Washington e Bagdá, no tocante à luta empreendida contra o grupo Estado Islâmico.

Disse John Kerry: “(…) com a transição da Síria, as forças terrestres, Estado Islâmico, pode vir a ser derrotado em questão de meses”.

O Estado Islâmico pode ser derrotado em “meses”, caso haja um cessar –fogo entre o governo e os rebeldes “moderados” da Síria, afirmou o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, nesta quinta-feira, exortando o mundo a se unir em torno de uma estratégia de paz, lançada recentemente pelos Estados Unidos, Rússia e outras nações.

Irbid, Jordânia: o principal grupo rebelde árabe apoiado pelo Ocidente na Síria parece à beira do colapso, por causa da moral baixo, advindo das deserções, desconfiança de seus líderes pelo despreparo e confisco de soldos, ameaçando os esforços dos EUA para montar uma força terrestre que seja capaz de derrotar o Estado Islâmico e com isto negociar um fim à guerra civil síria.

“Depois de cinco anos desta guerra as pessoas estão apenas cansadas…  Por isso são nossos combatentes”, disse Jaseen Salabeh, um voluntário no Exército Sírio Livre, que foi formado em setembro de 2011 por desertores do exército do presidente sírio, Bashar Al Assad.

O Exército Sírio Livre, ESL em português, ou FSA, em inglês, que possui dentre aas suas fileiras membros treinados pela Agência Central de Inteligência, CIA, é o maior e o mais secular dos grupos rebeldes que combatem o governo Assad. Apesar de o foco de atenção do Ocidente ser a derrota do Estado Islâmico, acreditam os EUA não poder haver uma paz duradoura na Síria, e a não eliminação do Estado Islâmico, enquanto Assad continuar no poder.

A fim de lidar tanto com o Estado Islâmico, quanto com o futuro de Assad, o Secretário de Estado, John Kerry, e o Ministro do Exterior da Federação Russa, Sergey Lavrov,   buscam intermediar um plano para trazer o governo sírio, que a Rússia apoia, e todos os grupos rebeldes “moderados”, para uma mesa de negociação,  em Viena, Áustria,  no próximo mês. O objetivo é construir uma coalizão para empreender uma campanha  de contra-terrorismo tendo como alvo os militantes Estado islâmico e se preparar para eleições democráticas nos próximos 18 meses.

Com uma estimativa de efetivos da ordem de 35.000 combatentes, a ESL continua a ser o maior grupo rebelde e é um elemento-chave na estratégia norte-americana. Aos combatentes do Estado islâmico são creditados o número de  30.000 homens em armas, mas espalhados por uma ampla área da Síria e do Iraque. Caso o ESL não possa ser invocado como um parceiro forte, de confiança, os EUA e seus parceiros ocidentais ver-se-iam obrigados a recorrer a uma imensa gama de milícias islâmicas radicais, com efetivos menores – apoiadas pela Arábia Saudita e pelo Qatar –  algo que o Ocidente teme, por serem demasiadamente militantes para conciliar com um o governo secular. Rebeldes curdos, conhecidos como o YPG, têm lutado muito bem em áreas curdas, mas tais forças não são consideradas como uma opção válida para as partes árabes do país.

Ao contrário do Estado Islâmico e outros grupos mais extremistas mais, o ESL não conseguiu atingir obter vitórias significativas,  ou criar uma zona “libertada” a partir do seu próprio esforço. Em muitas ocasiões, dizem os seus ex-combatentes, as unidades ESL têm cooperado estreitamente com a Frente Al-Nusra, filiada a Al-Qaeda, que é forte ao norte e que compartilha o mesmo campo de batalha como o ESL no sul da Síria.

“A falta de sucessos nos campos de batalha os enfraqueceram”, Ed. Blanche, um membro baseado em Beirute do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres, e especialista em guerras do Oriente Médio. Disse sobre o ESL: “Eles não estão recebendo apoio significativo (externo), por não terem mostrado resultados”. Dentre outros problemas, Salabeh e outros informam, está o fato de estarem os combatentes do ESL a perder a fé em sues próprios líderes. “Eles roubam regularmente nossos soldos”, disse Salabeh, que veio a esta cidade no norte da Jordânia depois de ser ferido em batalha e agora pretende ficar aqui. “Nós deveríamos receber US$ 400 por mês, mas realmente recebemos só US$ 100”. Queixou-se também da falta de apoio para aqueles mortos, ou feridos em batalha. Combatentes  que perderam as pernas em combate foram reduzidos à mendicância dentro dos enormes campos de refugiados no norte da Jordânia. “Se alguém está ferido, eles simplesmente jogam-no na Jordânia e o abandonam”, disse ele. “As viúvas de combatentes, mártires, também nada recebem após as suas mortes”.

Como resultado desta situação, muitos dos homens do ESL no sul da Síria estão abandonando o grupo, geralmente desertando e se dirigindo para a Jordânia, ou se reunindo ao estimado corpo de 15.000 combatentes da Frente Al-Nusra, de acordo com Saleh e outros sírios entrevistados no norte da Jordânia. Por outro lado, a Frente Al-Nusra alegadamente paga aos seus insurgentes US$ 1.000 por mês e cuida dos seus membros feridos, lhes pagando as contas médicas e fornecendo-lhes pensões, estas destinadas para as famílias daqueles que pereceram em combate.

A situação tornou-se tão ruim, disse Salabeh, que alguns combatentes do ESL questionam-se, perguntando qual a razão para continuar o conflito.  Relatou  que um número crescente acredita, convictamente,  que chegou o momento para um cessar-fogo, mesmo que isso signifique cooperar com o regime de Assad.

“Afinal de contas, Bashar não é tão ruim assim”, disse Salabeh.

Karim Jamal Sobeihi, um refugiado do sul da Síria e que se descreve como simpatizante  ESL, disse que o principal problema da oposição foi o fato de que vários grupos deviam sua lealdade à governos estrangeiros,  fornecedores de dinheiro, portanto, os rebeldes não podem concordar com posições unificadas. Isto incluiu o ESL, que se consiste de muitas facções diferentes, afirmou. Isso fez com que os radicais – com sua ideologia islamita e raia independente – mais atraentes para aqueles dispostos a lutar contra o regime, finalizou. “Existe desunião total. A Síria tornou-se um campo de batalha para a América, Rússia, Turquia, Arábia Saudita e outros países. Terroristas de todos os tipos “, exclamou Sobeihi.

Analistas na Jordânia e no Líbano, lugares que abrigam um grande número de refugiados sírios, culparam o ESL, por permitir que a revolução que eclodiu no início de 2011, tenha sido tomada por grupos jihadistas radicais. Hisham Jaber, analista geral e militar libanês aposentado, afirmou que o foco internacional na luta contra o Estado islâmico, invés de derrubar Assad,  indica que o Ocidente e os  seus aliados árabes reconhecem que Assad não pode ser derrubado militarmente, especialmente após a intervenção russa em nome do presidente sírio  Isto, por sua vez, desmoraliza as tropas do ESL, relatou Jaber ao Stars & Stripes durante uma entrevista em Beirute. Ele disse unidades dp ESL, tanto no norte, como no sul, estavam a cooperar de forma estreita com a Frente Al-Nusra, muito melhor organizada e dotada de financiamento mais robusto, independentemente das suas conexões com a Al-Qaeda. “Em contraste, a Frente Al-Nusra ganha os corações e as mentes das pessoas, posicionando-se como moderados, isto, apesar de suas ligações com a Al-Qaeda”, disse Elias Hanna, um ex-professor libanês geral e de geopolítica da Universidade Americana de Beirute.