O retorno do Exército Árabe Síria

Por: Valentin Vasilescu

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

Rede Voltaire | Bucareste (Roménia) | 05 de março de 2016

Tendo que enfrentar durante os primeiros quatro anos da guerra, mal treinados, mas muito bem armados mercenários estrangeiros, em um fluxo substancial, o Exército Árabe Sírio, que desde 2005 não conseguia manter o estado técnico das suas armas, se faz retornar. Graças à formação por parte do Irã, da presença de membros da milícia popular e depois de receber material bélico moderno da Rússia, o Exército Árabe da Síria é agora capaz de recuperar o terreno perdido. A partir de dois meses de combate, com constante avanço das tropas.

Após cinco meses de ataques aéreos garantidos pelo grupo aéreo russo, com cerca de 70 aeronaves implantadas na Síria, muitos analistas militares, por ter o Exército Árabe da Síria se mostrado capaz apenas de recuperar uma pequena parte dos territórios ocupados pelos maravilhosos jihadistas, criticaram-no. Tais especialistas estabelecem uma comparação, totalmente inadequada, com o Exército dos EUA, que conseguiu ocupar o Iraque em quarenta e dois dias… Mas, com 1.800 aeronaves e 380.000 soldados.

O que motivou a baixa capacidade de combate do Exército Árabe Síria?

Durante os cinco anos desta guerra na Síria, entre 100.000 e 250.000 mercenários islâmicos recrutados e armados pela Arábia Saudita, Qatar, Estados Unidos e Turquia vem a penetrar o território sírio através das fronteiras desse país com a Turquia, Jordânia e Israel. Estes mercenários abriram várias frentes, forçando as unidades do Exército Árabe da Síria a se dispersar em pequenos grupos por todo o país.

Nesta primeira fase, as ações dos radicais islâmicos envolveram a realização de ataques surpresa contra instalações do Exército Árabe da Síria e da polícia. A reação do Exército Árabe da Síria foi lenta e inadequada, usando apenas as tropas da 104ª Brigada  da Guarda Republicana e da 4ª divisão mecanizada. O sucesso desta primeira fase de ataques dos chamados “rebeldes”, resultou em uma  propagação em cascata, principalmente devido a um perfeito conhecimento das fraquezas do Exército Árabe da Síria.  O Planejamento desses ataques tiveram como responsáveis os instrutores militares turcos das forças especiais (conhecidos como Bordo Bereliler, referência a boina vermelha escura usadas) e dos seus equivalentes da Arábia Saudita.

Durante os três primeiros anos da guerra, o Exército Árabe da Síria, cuja preparação focava uma guerra convencional a ser travada contra os seus vizinhos e não para a guerra assimétrica, mostrou apenas o básico em termos de disposições táticas, adotando-as de maneira inadequada, sem espaços entre dispositivos, cobertura de tiros entre os elementos destes mesmos dispositivos, sem técnicas de identificação para distinguir amigos de inimigos, etc. Os jihadistas, em contraste, detinham disponível, em grande quantidade, material de construção, importado anteriormente, tal como o equipamento que lhes permitia escavar túneis muito rapidamente, enquanto o Exército Árabe Sírio não possuía nenhuma forma de detectar a existência de tais túneis. Isto permitiu que as operações dos extremistas islâmicos agregar ao seu favor o fator surpresa contra as tropas sírias, incapazes de reagir à infiltração maciça de terroristas, e conseguir ocupar numerosas bases militares e depósitos de armas e munições. Portanto, o Exército Árabe Sírio não poderia mesmo garantir as medidas básicas de combate (e prevenção), ou prever o melhor momento para se preparar e planejar a guerra.

Os aviões de reconhecimento remotamente pilotados (UAV) Shahed-129, fornecido pelo Irã, ajudou a melhorar os procedimentos táticos dos grupos de assalto do Exército Árabe da Síria e seu uso bem sucedido, resultando na realização de manobras muito rápidas. A Rússia apoiou o governo sírio desde o início, tanto política e diplomaticamente, com embarques esporádicos de armas e cursos de formação. Mas no outono de 2015, a ajuda russa tornou-se uma ajuda à la carte, aumentando exponencialmente. O Exército Árabe da Síria viu-se rapidamente equipado com novas armas. Neste momento, chegou ao fim o período durante o qual o Exército Árabe da Síria resignou-se a sacrificar territórios e a se confinar, exclusivamente, para proteger sua população civil contra os extremistas da jihad.

Armas individuais e equipamentos de proteção

Em um primeiro momento, o Exército Árabe da Síria estava equipado apenas com os capacetes chineses QGF-02. Alguns soldados da Guarda Republicana e forças especiais tinham coletes blindados TAT-BA-7. As armas individuais consistiam de AK-47, como fuzis de assalto (ou a sua variante chinesa Type 56). A ausência de dispositivos de visão noturna, infravermelho e/ou binóculos com sistemas com intensificação de luz residual constitui uma séria limitação.

Embora a Síria tenha optado em 2005 por um projeto de equipamentos individual moderno, projeto russo conhecido como “Soldado do Futuro” (Ratnick) , no momento do início da guerra civil, tais equipamentos não tinham sido adquiridos, devido ao embargo imposto como resultado da suspeita de que seria a Síria aquela responsável pela organização do assassinato de Rafic Hariri (ex-primeiro-ministro do Líbano). Este equipamento individual inclui visores noturnos Baighis, nível 6 e o ​​fuzil de assalto AK-74M. Com a chegada dos instrutores russos, a maioria das unidades do Exército Árabe Sírio foram equipadas com os coletes balísticos 6B45, capacetes Kevlar 6b7 e fuzis de assalto AK-74M, ou AK-104, com o dispositivo lançador de granadas, GP-30. O Exército Árabe Sírio equipados com equipamentos russos de visão noturna moderna, lançadores de granadas termobáricas AGS-17, lançadores de granadas 6G30 (40 mm).

Shilkas
O combate urbano travado na Síria permitiu ver o retorno das veneráveis Shilkas, agora, na função de apoio de fogo aproximado. Os sensores sofisticados foram retirados, mas a mira óptica, então mero back up, foi mantida. Imagem: internet.

O retorno do exército sírio

Os reservistas

Durante estes cinco anos de guerra, o Exército Árabe da Síria sofreu pesadas baixas, superiores aquelas sofridas durante as guerras contra Israel, perda superior em termos de material bélico,  destruído, ou capturado pelos jihadistas, estando muitas cidades permanecendo sob o controle destes elementos, cuja ocupação se caracteriza pela posse 75% do território sírio geográfico, bem como pela execução cruel de soldados capturados e os civis favoráveis ​​à República Árabe Síria. Isso, por óbvio, dificultou a substituição do grande número de tropas que o Exército Árabe da Síria havia perdido, num processo que se tornou muito mais difícil do que o previsto nos planos de mobilização originalmente planejados em tempos de paz. Temendo por suas vidas, 130.000 reservistas não compareceram quando convocados, de modo que há apenas 270.000 combatentes. Dada a esta circunstância, o Exército Árabe da Síria recorreu à criação de subunidades formadas com voluntários mais idosos do que o esperado, calcadas na maior parte do tempo no princípio da territorialidade. Principalmente naquelas áreas atacadas pelos rebeldes, estes grupos de defesa locais sem coordenação alguma com as unidades do exército profissional, mal armados, destituídos  de treinamento físico adequado, desprovidos de treinamento de tiro, sem comandantes capacitados em escolas militares que por ventura fossem dotados de um mínimo de conhecimento aplicável em uma situação de combate, acabaram por sofrer baixas significativas, pois baseavam-se, unicamente, no seu entusiasmo patriótico

Com a melhoria da situação e a transição para o exército ofensivo, o Exército Árabe da Síria empreendeu com estes grupos de defesa locais treinamentos táticos intensivos, centradas em temas de guerrilha urbana com prática de tiro real, marchas e noções de engenharia e pirotecnia. Uma ponte aérea entre Damasco e Teerã foi implementada, proporcionando que voluntários sírios fossem treinados pela Bassidji iraniana, que recebe e continua recebendo combatentes do Hezbollah. Pela primeira vez, os iranianos treinam não só os xiitas, mas também os sunitas e os cristãos.

As operações especiais

As forças especiais sírias foram formadas e treinadas pelo exército egípcio, durante a década de sessenta (1960-1969), de acordo com um programa de comandos britânicos, focado em unidades de infantaria ligeira, bem como nos militares capacitados como paraquedistas. No início desta guerra, o Exército Árabe da Síria tinha seis batalhões independentes de forças especiais e outro batalhão de paraquedistas, que é a 104ª Brigada da Guarda Republicana.

Um grupo de Comandos, denominado “Leões Protetores”, subordinado 4ª Divisão Mecanizada, que opera no norte da Síria, foi estabelecido como tal em maio de 2014. No início desta guerra, equipamento das forças especiais sírias era tão pobre quanto aquele de outras forças do Exército Árabe da Síria e os Comandos não detinham mais a experiência em combate urbano, ou de combate anti-inssurrecional, adquirida em Beirute, em 1982. Naquela época,  unidades de Comandos sírios foram equipados com lançadores RPG-7, sistemas de mísseis anticarro 9K111 e Milan-1, que tinha causado enorme devastação entre os blindados israelenses.

A situação obteve significativa melhora quando da chegada na Síria da Força al-Quds, provinda do Irã, bem equipados e bem treinados, e dos combatentes do Hezzbollah libanês com grande experiência em guerra urbana. É interessante a lembrança que as forças especiais iranianas foram criadas e moldadas como espelho das suas equivalentes americanas e britânicas (Special Boat Service-SBS), nos tempos do Xá Mohammad Reza Pahlavi. Os comandos do Hezzbollah libanês, por sua vez, apresentaram-se armados com modernos mísseis anti-carro (9M113 KONKURS, 9M131 Metis-M e 9M133 Kornet-E) e lançadores de granadas RPG 7V e RPG-29, adquiridos em 2006, provados em uma experiência de combate sólida, com táticas assimétricas e de guerra urbana contra os Carros de Combate Merkava do exército israelense. E eles têm aperfeiçoado novas técnicas de combate anti-tanque extremamente eficazes.

Com a chegada de elementos Spetsnaz [1], além de instrutores russos, tudo que havia acabou por ser analisado e revisto de acordo com princípios de ação e regras claras. Apesar de o Irã ter investido fortemente no equipamento das forças especiais, tal equipamento não era de última geração, como dos russos. Fotos recentes de membros das forças especiais sírias apresentam-nos equipados exatamente como os russos, tecido de proteção térmica, camuflagem tipo MultiCam, com capacetes Fast Ops-Core que possuem um sistema optrônico integrado à prova de bala, dispositivos de visão noturna, colete com capuz e botas de qualidade, fuzis equipados com mira telescópica, padrão de precisão britânico AWM, com silenciadores, ou armados com fuzis de assalto AK-74M, equipado com um telêmetro a laser Alpha 7115, lançador de granadas automático AGS-30, ou de metralhadora.

O progresso havido no treinamento e equipamento dos Comandos sírios com armamento moderno pode ser visto na operação recente, que visou a recuperação da estrada Khanasser-Ithriyah,  única maneira de fornecer comunicação efetiva (logística) para as forças pró-governo na província de Aleppo.

Os Snipers

Lutas em áreas urbanas não podem ser concebidas sem o uso de muitos atiradores de elite, treinados e equipados com armamento moderno. No início da guerra, devido a ausência de pontos de observação, principalmente nas partes superiores dos edifícios e da presença de  franco-atiradores, os “homens-bomba” poderam facilmente escolher seus alvos e se explodir, ou penetrar veículos em postos de controle do Exército Árabe da Síria. Este último possuía alguns snipers e tinha apenas antigos modelos de rifles com miras telescópicas, como o Dragunov SVD e DRM (fuzil da NORINCO, empresa chinesa que produz uma copia do velho M-14 norte-americano). Posteriormente, o Exército Árabe da Síria dotou-se de cópias iranianas do fuzil austríaco Steyr HS.50 com mira telescópica, dos russos vieram os modernos Orsis T-5000 (7,62 milímetros), também com uma mira telescópica, e metralhadora KSVK com mira telescópica (12,7 mm).

Por iniciativa iraniana e russa criou-se uma escola na Síria para atiradores do exército, com instrutores libaneses (Hezzbollah), iranianos e russos. Os atiradores russos são considerados os melhores do mundo, graças aos seus centros de preparação, armas, camuflagem e formação. O foco para os atiradores sírios está exemplificado na máxima: “tornar-se invisível e ver sem ser visto”.

Kontact-5
CC T-72 equipado com blindagem reativa Kontact-5. As blindagens ERA mostraram-se muito efetivas no conflito sírio. Imagem: internet.

Viaturas blindadas e os corpos mecanizados

Quando foi empregado durante a Segunda Guerra Mundial, a finalidade do tank era de atacar, quebrar as barreiras e as linhas de defesa do inimigo graças à proteção de sua armadura, do poder de fogo e da alta mobilidade. No nosso tempo, unidades equipadas com sistemas de mísseis antitanques são muito menos caros do que as unidades de tanques, cuja ação é difícil em um ambiente hostil saturado com armas antitanque. Os blindados enviados para restaurar a ordem, sem um exame aprofundado do âmbito de ação, desprovidos do apoio da infantaria e forçados a operar no meio das aldeias, acabaram por cair em emboscadas sob o fogo de lança-granadas portáteis e mísseis antitanque. Dezenas de milhares de sistemas de mísseis antitanque BGM-71 TOW, norte-americanos, Milan-2, franco-alemão, bem como do croata lança – foguetes M-79 Osa, foram introduzidos secretamente na Síria pelos serviços de inteligência da Turquia, Arábia Saudita, França e dos Estados Unidos.

Os blindados sírios não exibiam proteção ativa, como as  placas ERA, montado na parte frontal e na parte superior da torre, ou sistemas coletores que permitem cegar e confundir a orientação dos mísseis antitanque, ou sistemas de proteção ativa, com sensores que ativam a intercepção dos mísseis antitanque e possa destruí-los antes que eles atinjam o escudo (ERA). Devido a estas deficiências, perderam-se Carros de Combate por  miudezas,  perfurados que foram com um golpe direto. E vendo-os destruídos, ou danificados às centenas, o Exército Árabe da Síria teve que se adaptar, empreendendo soldas de  chapas de aço e montagem de placas para incorporar ERA com o intuito de neutralizar os impactos cumulativos.

Após a sua chegada à Síria, os instrutores militares russos também descobriram que um dos maiores erros que o Exército Árabe da Síria havia cometido era o abandono do blindado danificado. Os russos perceberam que a maioria dos que foram abandonados foram reparados por militares turcos especialistas em blindados, que os levaram até aos jihadistas, ou que foram usados ​​como baterias de artilharia fixa para fortificar posições capturadas. Portanto, o Exército Árabe Síria aumentou o número de subunidades de reboque e prontificou a  evacuação dos blindados danificados, bem como levantou e equipou oficinas de reparos.

No início de 2016, os russos forneceram aos sírios, para uso do seu  exército cerca de 20 tanques T-72B3 e T-90S, que têm uma proteção reativa eficaz contra  os mísseis antitanque norte-americanos BGM-71 TOW. O tanque T-90S tem sido utilizada na composição de destacamentos avançados para quebrar as defesas das jihadistas, como foi visto em fevereiro de 2016, durante a ofensiva para liberar a cidade de Kuweires, junto de Aleppo. Embora tenham sido integrados no Exército Árabe Sírio, os tanques T-90S foram pagos pelo Irã e estão sendo usados ​​por tripulações iranianas.

A Artilharia

Além dos blindados capturados ao Exército Árabe da Síria, os extremistas islâmicos receberam lotes de caminhões equipados com artilharia, metralhadoras pesadas, lançadores de foguetes, metralhadoras leves e armas de pequeno calibre, o que lhes permite exibir uma grande mobilidade e, assim, a possibilidade de explorar o efeito de surpresa de maneira contumaz. Para neutralizar essas metas, então dispostas em uma área limitada seriam necessárias munições inteligentes, algo que o Exército Árabe da Síria não dispunha. Os russos forneceram o “PRP-4A Argus” para a artilharia expedicionária, que determina as coordenadas dos sistemas de artilharia para o fogo de contra-bateria (artilharia inimiga), blindados de reconhecimento inimigos, bem como a posição dos grupos isolados de franco atiradores, com a marcação fornecida de forma automática por telêmetros lasers conjugados. Além desses equipamentos, o Exército Árabe Sírio recebeu lançadores de mísseis dotados de ogivas termobáricas (220 mm) TOS-1 “Buratino”, que apresenta uma taxa de fogo de 24 rodadas em 7, ou 15 segundos. Uma salva de TOS-1 abrange uma área de dispersão de fogo de aproximadamente 200 metros por 400 metros.

Com a chegada dos instrutores da Rússia para a Síria o padrão foi elevado para o conceito de feixe laser dentro do Exército Árabe da Síria, com o uso dos mísseis  guiados KM-2 Krasnopol. Este sistema precisa de um operador para o dispositivo LTD (laser designador de alvo) que ilumina o alvo com o laser de um veículo blindado. Abrangendo a área de 2 quilômetros de comprimento por 1,6 km de largura, ao redor do alvo, o sistema de orientação de mísseis Krasnopol é direcionado para o alvo iluminado pelo laser.

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Su-34 sendo abastecido para mais uma surtida. A Força Expedicionária Russa mostrou-se vital para a virada da maré do conflito. Imagem: internet

Aviação de combate

Até a chegada do contingente russo, a força aérea síria não dispunha de sistemas para orientação de armas destinadas ao ataque com alta precisão, capazes, por isso,  de garantir um apoio para as tropas terrestres. Por essa razão, a aviação síria utilizava principalmente foguetes não guiados de  57mm e bombas convencionais dos modelos FAB-50 e FAB-100, por sua vez lançadas em mergulhos na altitude compreendida entre 1 500 e 3 000 metros. Portanto, as aeronaves sírias operavam dentro da faixa que as tornavam vulneráveis ​​ao fogo das peças de artilharia de 23 e 30 mm, em poder dos islamistas e bem dentro do alcance dos mísseis portáteis terra-ar (MANPAD), o que explica as numerosas perdas de aeronaves por parte da aviação síria.

Enquanto isso, 21 bombardeiros Su-24MK sírios foram modernizados na Fábrica No. 514 ARZ em Rzhev, Rússia, subindo de nível para o padrão Su-24M2, equipados com sistemas de navegação e de guiamento para armas de precisão (PNS-M), tal como os modelos russos desdobrados para a Base Aérea Hmeymim. Em 2015, a Rússia entregou motores aeronáuticos e aviônicos, dentre outras peças para modernizar 64 MiG-23 MLD, trazendo-os ao nível MiG-23-98. O MiG-23 tem os sistemas OLS-M, da classe LANTIRN para navegação noturna, detecção de infravermelho dos alvos terrestres e orientação voltada para vários tipos de armas inteligentes, tais como aqueles usados ​​por bombardeiros táticos russos instalados na Síria.

Os Su-24 e MiG-23 da Força Aérea da Síria, podem agora executar os bombardeio de precisão necessários, dia e noite, a partir de altitudes em que estão fora do alcance dos mísseis terra-ar portáteis. Então, conseguem, por exemplo, destruir postos de comando subterrâneos que jihadistas haviam construído em todos os lugares com o uso de bombas dotadas de ogivas de penetração. Para atingir as tropas terrestres inimigas, ao contrário do ano anterior, já não se faz mais necessário o uso de barris explosivos (bombas barril) largados de helicópteros, que de qualquer forma seriam (os helicópteros) alvos passíveis de serem destruídos por sistemas antiaéreos do tipo MANPAD.

Valentin Vasilescu

[1] Spetsnaz: é um apelo genérico, nascido na antiga URSS, que continua hoje a designação de grupos de intervenção ou forças especiais de vários órgãos ou serviços armadas russas do Ministério do Interior e Justiça, ao FSB e as diferentes ramos das forças armadas. Nota pela Rede Voltaire.

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Hillary Assobrada pela Líbia

Por: Eric Margolis 

Fonte: Eric Margolis.com

Adaptação: César A. Ferreira

No corrente ano de 1987 desloquei-me até a Líbia para entrevistar seu homem-forte, Muammar Khadaffi. Vivenciamos um entardecer conversando na sua colorida tenda beduína ao lado dos Quartéis Bab al-Azizya em Trípoli que haviam sido bombardeados um ano antes pelos EUA em uma tentativa de matar o altivo líder líbio.

Khadaffi preveniu-me que caso fosse derrubado, a Líbia dividir-se-ia em três partes, tornando-se novamente presa do domínio ocidental. Seus esforços para tirar o mundo árabe e a África Ocidental da subserviência e do atraso findar-se-iam, anteviu.

Correto estava o líder líbio. Hoje, após sua morte, a Líbia se fragmenta em regiões hostis. Os EUA, França e Egito expandem sua influência pela Líbia, por último tendo-se  juntado a Itália, governante colonial da Líbia no passado. Instalaram o conjunto habitual de serviçais para cumprir suas ordens. Velhos hábitos são difíceis de morrer.

Vamos ouvir muito sobre a Líbia após as  vitórias grandiosas de Hillary Clinton e Donald Trump nas primárias da última Super Terça.

A ex-secretária de estado Hillary Clinton logo enfrentará o retorno de uma grande ameaça que a persegue desde 2012 – o ataque de extremistas da jihad contra o consulado americano em Trípoli, Líbia e a subsequente chacina a do embaixador americano Christopher Stevens e seus seguranças.

Os republicanos vêm tentando jogar a culpa por Benghazi sobre Clinton. Até agora não tem sido bem-sucedidos. Mas o boca de trapo Donald Trump com certeza hostilizará Hillary por Benghazi, seu registro como Secretária de Estado que nada fez e os problemas legais advindos. E mais, a autêntica história da falsa “libertação” da Líbia pode finalmente vir à tona.

Nem os democratas, ou republicanos até agora ousaram revelar o que realmente se deu em Benghazi. A chamada “revolução popular” de 2011 na Líbia foi um elaborado complô da França, Grã-Bretanha e EUA, ajudados pelos Emirados do Golfo e Egito, para derrubar Khadaffi, homem-forte da Líbia por quatro décadas, e assim assumir o controle de seu petróleo de alta-qualidade.

A inteligência ocidental e ONGs semi-governamentais utilizaram as mesmas táticas de subversão na Líbia que haviam empregado nas bem-sucedidas “revoluções coloridas” na Geórgia, Ucrânia e Síria, porém fracassadas no Irã e na Rússia.

Os franceses desejavam derrubar Khadaffi, pois ele afirmava ter ajudado a financiar a eleição do ex-presidente Nicholas Sarkozy. Este negou a acusação. Os árabes do Golfo queriam Khadaffi morto porque ele continuava acusando-lhes de roubar a riqueza árabe e serem fantoches das potências ocidentais. Elementos operativos da inteligência francesa tentaram assassinar Khadaffi nos anos 80. O MI6 da Grã-Bretanha procurou matar o líder líbio com uma massiva explosão de um carro-bomba em Benghazi.

A operação de mudança de regime pelos EUA, França e Grã-Bretanha começou em 2011 com os protestos populares engendrados em Benghazi. Logo foram seguidos por uma operação militar clandestina liderada por forças especiais ocidentais contra o esfarrapado exército de Khadaffi, seguido por pesados ataques aéreos. A mídia ocidental amestrada, de boa vontade fechou os olhos a esta intervenção militar ocidental, saudando-a  de “revolução popular” na Líbia.

Após Khadaffi ter sido derrubado e assassinados (reportadamente por agentes da inteligência francesa), enormes estoques de armas tornaram-se disponíveis. A secretária de estado Clinton, que patrocinara a derrubada de Khadaffi, decidiu armar a mais nova “revolução colorida” do Ocidente, os rebeldes anti-Assad da Síria.

A maioria das armas líbias estava estocada em Benghazi, foram transportadas via aérea para o Líbano, ou Jordânia, então sendo contrabandeadas para os rebeldes na Síria. O embaixador americano Stevens estava supervisionando as transferências de armas do consulado em Benghazi. Ele foi morto por jihadistas anti-americanos combatendo a ocupação da Líbia e não por “terroristas”.

Hillary Clinton, financiada por neocons importantes, arca com a responsabilidade principal por duas calamidades: a deposição de Khadaffi e a terrível guerra civil da Síria. Khadaffi estava contendo numerosos grupos jihadistas norte-africanos. Depois de sua derrocada, eles despejaram-se para o sul, no Sahel e regiões subsaarianas, ameaçando os governos dominados pelo Ocidente.

Também descobrimos que o Departamento de Estado de Clinton deu luz verde para mais de US$ 150 bilhões em vendas de armas para dezesseis nações repressivas que doaram grandes somas para a Fundação Clinton – uma espécie de governo no exílio para o Clinton Clan.

Todos os negócios sórdidos. Não é de se admirar que tantos americanos exibam fúria para com a sua classe política. Um bocado de munição para Donald Trump.

Os curdos renegados do Estado Islâmico

Por: César A. Ferreira

Toda história tem dois lados, duas vertentes, narrativas contraditórias, dispersas, poucas vezes convergentes, mas que na maior parte das vezes espelham-se, ou se sobrepõem. O conflito sírio, complexo, não linear, nos brinda com acontecimentos e eventos acima de qualquer concepção ficcional, e como tal, tem-se o caso anacrônico dos membros curdos da jihad.

Os curdos, povo de origem centro-asiática, caucasianos, que lutam por séculos em prol de uma pátria, do solo que lhes permitam serem reconhecidos como Estado-Nação, pelos demais estados do globo. Altivos e ferozes como guerreiros, laicos, ou bem perto disso, igualitários a ponto de terem mulheres em suas fileiras combatentes em pé de igualdade com os homens, possuem também eles, elementos dissidentes, que neste caso, especificamente, significa a adesão aos grupos extremistas islâmicos de orientação wahabbita. Portanto, são curdos que combatem curdos, dado a situação da região.

Agregam-se, principalmente ao Estado Islâmico, outros poucos, a Al-Nusra. São acompanhados de perto pelos líderes curdos, que se informam da forma que podem sobre estes terroristas convertidos. O Governo Regional do Curdistão (KRG) esforça-se para rastrear um número restante de 70 terroristas,  oriundos da adesão anterior de aproximadamente 500 combatentes ao Estado Islâmico, sendo que deste número, cerca de 270 foram mortos em combate contra as forças Peshmerga e combatentes do YPG/YPJ, bem como outros 150, que se renderam aos seus compatriotas. A rendição, neste caso é bastante interessante, dado que se rendem aos seus antigos compatriotas, sendo que o inverso, caso viesse acontecer, não se daria com a detenção, mas com a execução..

Em entrevista cedida ao órgão informativo “Bas News”, o Chefe de Mídia e Comunicação do Ministério de Assuntos Religiosos, Marivan Naqshbandi, afirmou a ocorrência de uma execução de combatentes da jihad, cerca de 31 terroristas agregados ao Estado Islâmico, pelas forças de segurança deste mesmo califado, sob a alegação de serem “espiões” que estariam a colaborar com as forças de seguranças curdas, bem como com forças estrangeiras (iraquianos, sírios, russos e americanos). Um destino assaz irônico, diga-se, para quem traiu o seu povo.

Como informado, restam cerca de 70 a 80 combatentes curdos nas fileiras do Estado Islâmico, a maior parte já veterana de combates, posto que o período de grande adesão de curdos ao EI deu-se em 2014. Ainda assim não se distinguiram em combates, a ponto de gerar algum herói midiático, ou de angariarem respeito por ações extraordinárias em combate. Ao que parece, os curdos valentes se encontram do outro lado da cerca, onde não existem 72 virgens à espera.