Genebra: o estágio farsesco da guerra Síria

Por: Pepe Escobar, RT (29/01/2016).
Fonte em português: Oriente Mídia

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

O chamado processo de paz sírio entra agora no estágio de farsa em Genebra. Pode durar meses; preparem-se para doses abundantes de arrogância e vociferação capazes de fazer corar um Donald Trump. A noção de que Genebra possa fazer o papel de Damasco, naquela pantomima de terno e gravata, é, para começar, cômica. Até o enviado da ONU, o soberbamente snob-engomado Staffan de Mistura, admite que a missão à frente é de Sísifo – e assim continuaria, ainda que todos os atores relevantes estivessem à mesa.Depois, temos uma “figura da oposição” síria, George Sabra, a anunciar que nenhuma delegação de Riad, do Alto Comitê de Negociações, estará à mesa de negociações em Genebra. Como se os sírios carecessem de “oposição” instrumentalizada pela Arábia Saudita.Assim sendo, para lhes oferecer algum contexto, eis uma rápida recapitulação dos eventos recentes, cruciais, em solo sírio, que Genebra, autodeclarada “a nova capital”, talvez ignore e para prejuízo dela mesma.

Comecemos pelo verão passado, quando o comandante superstar general Qasem Soleimani das Forças Al-Quds do Irã falou em pessoa, em Moscou, para deixar absolutamente claro, sem dúvida possível, que a situação no teatro de guerra sírio era muitíssimo grave.

Na essência, Soleimani disse ao Kremlin e à inteligência russa que Aleppo podia estar prestes a cair; que Jabhat al-Nusra estava às portas de Damasco, no sul; que Idlib havia caído; e Latakia – onde está localizada a base naval russa em Tartus – estava prestes a cair.

Pode-se imaginar o efeito desse jato de realpolitik sobre a mente do presidente Putin. E ele acabou de decidir que, sim, a Rússia impediria que a Síria caísse e impediria que se tornasse uma Líbia remix.

A campanha da Força Aérea Russa marcou a mais completa virada naquela situação. Está ainda trabalhando no processo de cobrir e dar segurança a toda a rede Damasco-Homs-Latakia-Hama-Aleppo – o oeste urbano e desenvolvido da Síria, onde vive 70% da população do país. ISIS/ISIL/Daech e/ou Jabhat al-Nusra, também conhecida como Al-Qaeda na Síria, tem zero chances de tomar esse território. E o restante da Síria é quase totalmente o deserto.

Jaysh al-Islam – grupo terrorista armado pela Arábia Saudita – ainda defende algumas poucas posições no norte de Damasco. É controlável. Os “caipiras”, na província de Daraa, sul de Damasco só conseguiriam tentar algum assalto à capital num contexto, ali impossível, de Tempestade no Deserto à 1991.

“Rebeldes moderados” – essa invenção pervertida do Departamento de Estado dos EUA – bem que tentaram tomar Homs e Al-Qusayr, cortando a linha de ressuprimento de Damasco. Foram repelidos. Quanto à malta de “rebeldes moderados” que tomaram toda a província de Idlib, estão sendo bombardeados sem dó há quatro meses pela Força Aérea Russa. E o front sul de Aleppo também está sendo coberto e protegido.

Stahhan de Mistura
Mediador das Nações Unidas para a Síria, Staffan de Mistura. Imagem: Denis Balibouse/Reuters.

Não bombardeiem “nossos” rebeldes

Fácil logo ver quem está lívido ante a ação dos russos: Arábia Saudita, Turquia e – por último, mas não menos importante – o “Império do Caos”, todos esses sentados à mesa em Genebra.

Jabhat al-Nusra – comandado por controle remoto por Ayman al-Zawahiri – é grupo intimamente conectado à gangue dos jihadistas salafistas no “Exército da Conquista” patrocinado pelos sauditas, além de taticamente aliado a miríades de grupelhos nominalmente reunidos no já quase extinto “Exército Sírio Livre” (ESL) [orig. Free Syrian Army (FSA)].

CIA, usando os sauditas como anteparo para garantir a ela negabilidade plausível – armou até os dentes vários pseudoaliados do ESL – cuidadosamente “selecionados” –, aos quais a CIA enviou, dentre outras armas, mísseis TOW antitanques. Adivinhem quem “interceptou” praticamente todas as armas: Jabhat al-Nusra.

Dali em diante o desdobramento foi, para dizer o mínimo, hilário: Washington, Ancara e Riad puseram ensandecidamente a denunciar Moscou, que estaria bombardeando “rebeldes moderados” delas, não o ISIS/ISIL/Daesh.

Lentamente, mas sem retrocessos, o Exército Árabe Sírio (EAS) [orig. Syrian Arab Army (SAA)], operando conectado à ofensiva russa, retomou a iniciativa.

O grupo “4+1″ – Rússia, Síria, Irã (Forças Especiais, muitas das quais do Afeganistão) mais o Hezbollah – passaram a coordenar esforços. A província de Latakia – que abriga não só a base naval de Tartus, mas também a base aérea russa Khmeimim – está agora sob completo controle pelo governo de Damasco.

O que nos leva aos pesadelos de Ancara. A Força Aérea Russa esmagou todos os turcomenos aliados de Ancara – e pesadamente infiltrados por fascistas turcos – no noroeste da Síria. Essa foi a razão chave que levou o sultão Erdogan ao movimento desesperado de derrubar o Su-24 russo.

Já é claro hoje que os vencedores em campo, no pé em que estão as coisas, são os “4+1″, e que Arábia Saudita e Turquia perderam a guerra. Assim sendo, não é surpresa que os sauditas desejem contar com alguns dos próprios asseclas na mesa de negociações em Genebra; e que a Turquia tente mudar de assunto impedindo que curdos sírios participem: Ancara pinta os curdos sírios como terroristas muito mais ameaçadores que oISIS/ISIL/Daech.

Sai Genebra, entra Jarabulus

Como se já não houvesse confusão suficiente, a “Think-tank-elândia” dos EUA está agora espalhando que haveria um “entendimento” entre Washington e Ankara quanto ao que seria, para todos os propósitos práticos, uma invasão turca ao norte da Síria, sob o pretexto de que Ancara lá estaria para ‘esmagar’ o ISIS/ISIL/Daech no norte de Aleppo.

Absoluto nonsense. O jogo de Ancara tem três braços: reforçar os seus muito enfraquecidos asseclas turcomenos; manter o mais vivo possível o corredor até Aleppo – corredor que inclui a Rodovia Jihadista entre Turquia e Síria; e, principalmente, impedir, por todos os meios necessários, que os curdos do YPG façam a ponte de Afrin até Kobani e unam os três cantões de curdos sírios próximos da fronteira turca.

Nada disso tem qualquer coisa a ver com combater ISIS/ISIL/Daech. E a parte mais ensandecida é que Washington está, realmente, garantindo apoio aéreo de ajuda aos curdos sírios. Ou o Pentágono apoia os curdos sírios, ou apoia Erdogan na invasão do norte da Síria: aqui não cabem esquizofrenias.

Erdogan cego de desespero pode enlouquecer o bastante para confrontar a Força Aérea Russa, numa anunciada “invasão” turca. Putin já disse publicamente que resposta a qualquer provocação será imediata e letal. E, sobretudo, russos e norte-americanos estão realmente coordenando ações no espaço aéreo no norte da Síria.

Essa é a cena realmente importante e o próximo “evento” relevante, que eclipsará completamente a pantomima de Genebra. O YPG curdo e aliados estão planejando grande ofensiva para assumir o controle sobre a faixa de 100 km da fronteira sírio-turca que ainda está sob controle do ISIS/ISIL/Daech –, reunificando assim os seus três cantões.

Erdogan não mediu palavras: se o YPG avançar a oeste do Eufrates, é guerra. Ora. Então parece guerra, mesmo. O YPG apronta-se para atacar as cidades cruciais de Jarabulus e Manbij. Com certeza quase absoluta, a Rússia auxiliará o YPG a reconquistar Jarabulus. E assim, mais uma vez, a Turquia ter-se-á posto cara a cara, em solo, com a Rússia.

Genebra? Ali é coisa para turistas; a capital do horror agora é Jarabulus.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

Washington está em pânico por Putin estar a interromper as rotas de suprimento do EI

Este artigo foi publicado originalmente em alemão no site NEO Press. O autor desta matéria é Von Michael Lehner. O texto foi publicado em inglês no site Russia Insider de onde se obteve a tradução para o português, realizada por H. P. Patriota e publicado no grupo “Rússia e Seus Interesses no Contexto Mundial”.

Washington está em pânico por Putin estar a interromper as rotas de suprimento do EI

Durante anos, a aliança OTAN dirigida pelos EUA tem a certeza que os comboios cheios de comida, armas e outros bens, pertencentes aos grupos terroristas EI e Al-Qaeda trafegam através da fronteira sírio-turca.Pois, os ataques aéreos russos maciçamente impedem este serviço, quando não os levou a um impasse.

Quando os taques aéreos russos atingiram a um desses comboios na cidade síria de Azaz, ao noroeste da fronteira sírio – turca, o jornal diário turco Sabah informou da seguinte maneira:

“Pelo menos sete pessoas morreram, 10 ficaram feridas após um aparente ataque aéreo, supostamente realizados por jatos russos, foi alvejado um comboio de ajuda no noroeste da cidade síria de Azaz perto de uma passagem de fronteira com a Turquia na quarta-feira”.

Estranhamente, este incidente não foi destacado pela imprensa ocidental de alta circulação (mídia-empresa). Isto é bastante atípico, considerando que ambos os lados estão atualmente envolvidos em uma guerra de propaganda. Quase parece que os EUA/OTAN (a), não quer chamar a atenção para a localização desta linha de abastecimento restante, ou não (b) é um comboio de ajuda, mas sim uma rota de abastecimento para o EI.

O relato do diário Sabah continua:

“Em declarações ao diário Sabah, Serkan Nergis do Humanitarian Relief Foundation (IHH) disse que a área alvo está localizado a cerca de 5 quilômetros a sudoeste da Öncüpınar Border Crossing. Nergis disse que IHH tem uma unidade de defesa civil em Azaz e ajudaram os moradores para extinguir as chamas dos caminhões. Caminhões provavelmente estavam transportando suprimentos de ajuda, ou materiais comerciais, Nergis acrescentou”.

Independentemente do tipo de mercadorias que foram transportadas, isto confirma que os terroristas na área perto do Oncupinar Border Crossing estão no comando. Este é o lugar onde a linha de abastecimento da Turquia para EI pode ser encontrada. Já em novembro de 2014, a Oncupinar Border Crossing foi mencionada em um artigo publicado pelo Deutsche Welle (DW), que descreveu uma cena com centenas de caminhões à espera na fronteira para entrar em território sírio. Provavelmente com a aprovação de Ancara. O artigo DW a partir de 2014 tem a seguinte redação:

“Todos os dias, caminhões carregados com alimentos, roupas e outros suprimentos atravessam a fronteira da Turquia para a Síria. Não está claro quem está pegando as mercadorias. Os caminhoneiros acreditam que a maior parte da carga vai para a milícia ‘Estado islâmico’. Petróleo, armas e soldados também estão sendo contrabandeados através da fronteira, e os voluntários curdos estão patrulhando a área, em uma tentativa de conter os suprimentos”.

Já no ano passado uma pergunta legítima teria que ser feita: se o plano era destruir, por que os EUA não simplesmente bombardearam a rota, uma vez que são operações que levam abastecimento para dentro da Síria? (porque de fato, nunca foi o plano destruir EI). Especialmente se esses ataques eram considerados menos perigosos e (b), a logística para os atentados foram à direita na área (base aérea turca).

Fazer as perguntas mais óbvias seria suficiente para colocar uma coroa sobre a política de mentiras do Ocidente:

Porque estes comboios não foram parados enquanto eles ainda estavam em território turco?
Por que os condutores não foram detidos e presos na Turquia, e “as fontes para os suprimentos” rastreadas até as suas origens?

Porque eles simplesmente  assim não o queriam?

Ao responder a essas perguntas, ela tem que ser óbvia para todos – mesmo para aqueles que não dão muita atenção – que há de real intenção por trás disso, e que EUA / OTAN propositadamente forneciam suprimentos periodicamente.

É aqui onde a Rússia entra. Todo país que quer lutar ISIS irá fazê-lo atuando contra as  linhas de abastecimento. Esta tem sido uma estratégia militar empregada por séculos. Os bombardeios da Rússia dos caminhões de abastecimento, perto da fronteira (de modo que o menor número de produtos possíveis possam ser descarregados e redistribuídos por outros meios) são lógicos, pois,  caso os suprimentos forem barrados em postos de fronteira controlados, irão acabar todos nas mãos dos terroristas.

Este desenvolvimento não agrada nenhum pouco aos estrategistas de Washington e é provavelmente a razão para a derrubada do caça russo. Enquanto as forças sírias e curdas controlarem a fronteira leste do Eufrates, o corredor Afrin-Jarabulus é o último caminho restante para o abastecimento do EI. O exército sírio também iniciou uma campanha (a partir de Aleppo) e avançou para o leste. Eventualmente eles vão começar a balançar em direção à fronteira sírio-turca no Jarabulus. Mais ou menos ao mesmo tempo, o exército sírio começou sua campanha, a Rússia começou a bombardear na área ao redor Afrin, promontório de Dana, e Azaz, para cortar a rota de abastecimento.

As interações dos ataques aéreos russos, junto a ofensiva do exército sírio no terreno têm o potencial para se livrar do EI. Este é um pesadelo sem paralelo para os planejadores em Washington. Ao Fechar este corredor de oferta, dar-se-ia a completa derrota dos terroristas do EI, Al -Nusra & companhia, por significar a restauração da soberania síria e das estruturas governamentais nesta área. Isto poderia explicar a “atividade” súbita do Ocidente em enviar forças especiais para a Síria, como já mencionado, a razão para a filmagem da derrubada do avião de combate.

Em resumo, torna-se evidente que a “guerra civil” síria nunca foi na realidade uma delas. Ao invés disso, os terroristas foram apoiados pelo Ocidente, desde o início, com o objetivo claro de derrubar o governo de Assad (como eu escrevi em artigos anteriores). Quando confrontados com uma derrota do terrorismo, os patrocinadores deverão jogar todo o seu peso político por trás dos terroristas, não importa o que venha a custar.

Em última análise, esta é a prova de que as ambições hegemônicas dos EUA/Ocidente nesta região foram à razão básica por trás da criação do EI. Nunca houve uma luta contra EI. Era antes o alvo (objetivo), de planejamento, da criação intencional do extremismo islâmico, sob a forma daquilo que agora chamamos de “O Estado Islâmico”.