ARA San Juan: desnecessária polêmica com os acumuladores

A mídia argentina parece ter mais interesse em ajustes de contas políticos do que perscrutar as verdadeiras causas do acidente com o ARA San Juan.

Por: César A. Ferreira

O mistério quanto ao destino do ARA San Juan permanece, todavia, para alguns analistas políticos argentinos e órgãos de mídia, o que vale é buscar um ajuste de contas com os adversários políticos, que estavam no poder durante a longa revitalização de meia-vida do ARA San Juan. Isto se dá focado em um simples fato:  de os jornalistas dos principais meios de comunicação argentinos terem descoberto que os acumuladores do submarino sinistrado não eram novos, mas “recondicionados”.

Não foi uma descoberta difícil, convenhamos, afinal, na página do Estaleiro Tandanor, que trata com orgulho do trabalho efetuado no S-42 ARA San Juan está declarado com todas as letras:

“Baterías

Tambiém se realizó un replacado integral de cada una de las 960 baterías que hacem funcionar al submarino y se repararon las válvulas y demás mecanismos del submarino para alcanzar su condición original”

Este detalhe da revitalização do submarino associado ao conteúdo da última mensagem do Capitán de Fragata Pedro Martín Fernández que relatava avarias no painel de baterias dianteiro, somado ao agora afamado sinal “hidroacústico, anômalo e não nuclear”, resultou nos culpados: os antigos ocupantes do poder, incluídos os ministros da defesa durante os últimos períodos, Garré e Rossi, sem falar da antiga dignitária. O fato disto lançar uma sombra no Estaleiro Tandanor, nos engenheiros e técnicos que trabalharam na revitalização do S-42 ARA San Juan, ao que parece não vem ao caso.

A mídia não especializada foca que a escolha por recondicionar os acumuladores deu-se em função dos custos, apontando para isso os valores correspondentes de cinco milhões de euros pelo conjunto de 960 baterias novas. Esquece tal mídia que a empresa que “recondicionou” as baterias Varta 14UR12F, o fez sob supervisão da Hawker GmBH, nome da empresa que havia absorvido a fabricante original, Varta GmBH. Não só isso, como o fato de que o processo de revitalização das referidas baterias envolveu não só a troca de placas, como dos diodos, válvulas e conectores, cujo serviço contou com garantia dado pelo fabricante, de seis anos.  Eram baterias novas, pode-se afirmar, pois, de antigo somente a carcaça. Ademais, a fabricação de baterias de Chumbo/Ácido não é algo longe do horizonte industrial latino-americano, para se ter uma ideia a empresa brasileira Saturnia fornecia para os submarinos da Marinha do Brasil baterias feitas no país (Brasil), concebidas com tecnologia alemã durante as décadas de 80 e 90. Ademais, o submarino foi testado e admitido pela Armada da República Argentina em 2014. Estamos em 2017.

Explosão

Acredita-se que a hipótese mais forte para uma explosão, tal como registrado pelos hidrofones do CTBTO – Comprehensive Nuclear-Test-Ban Treaty Organization (ing.) , sejam advindos de uma concentração de gás hidrogênio, proveniente das baterias e que atingiu a concentração fatal de 5%, ou mais, momento em que se torna explosivo no caso de haver uma fagulha, tal como um arco-voltaico nascido de um curto-circuito no painel de baterias. É uma hipótese que tem a força do indício fornecido pelo órgão internacional, todavia para que isto viesse acontecer deveria haver uma cadeia de avarias, a começar pelos instrumentos de monitoramento de gases.

Maapa-explo
O ponto “A” é aquele do evento “anômalo” e não nuclear, enquanto o ponto “B” é o do último contato.

É difícil, mas não impossível. Em 2010, quando fundeado em Visakhapatnam, o submarino designativo S-63 INS Sindhurakshak apresentou incêndio em suas baterias, ocasionando casualidades: um morto e dois feridos. A concentração não detectada de hidrogênio foi a responsável, estando acima de 3%.

Aceitando-se que o S-42 ARA San Juan foi vitimado por esta cadeia de acontecimentos que por ventura tenha resultado em uma catastrófica explosão, fica uma dúvida: teria tal explosão advinda da concentração de hidrogênio, provocada por uma fagulha elétrica, capaz de romper o casco de pressão?
Outra pergunta se faz: seria incapacitante de toda a tripulação caso tal explosão tenha sido contida pelo casco? Ou ainda… Dado o fato de que a característica do projeto TR-1700 é a de possuir dois grandes compartimentos estanques, dianteiro e posterior, que a tripulação abrigada possa ter sobrevivido ao evento anômalo, intenso e catastrófico?

Evidentemente não tenho as repostas, mas as analogias com o Kursk fazem-se sentir.

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Kursk após ser retirado do fundo do Mar de Barents. Os estragos são bem evidentes. Imagem: internet.

Kursk

Tal como a hipótese favorita para o sinistro do ARA San Juan, o Kursk foi vitimado por uma catástrofe, neste caso a culpa recai em um torpedo de 650mm, modelo 65-76, denominado pelas tripulações como “Gordo” e também chamado de “Baleia”. O seu instável combustível propulsor a base de peróxido de hidrogênio é apontado como responsável pelo desastre.

Fato por muitos conhecido é o abrigo dos sobreviventes no último compartimento do submarino, o compartimento nº 9. Muitos acreditam que estes sobreviventes morreram devido à mortal concentração de dióxido de carbono, por sua vez motivada pela extrema demora no resgate. Não foi bem assim. Os sobreviventes faleceram em grupo, entre as 19 e as 20 horas do dia 12 de agosto de 2000. Ou seja, não muito depois do naufrágio por uma infelicidade da tripulação sobrevivente, que na escuridão e em um compartimento alagado, viu-se forçada a trocar as partes de um aparelho sequestrador de dióxido de carbono, mas cujas partes reagentes inflavam-se na presença de óleo e de água. Houve um incêndio resultante desta reação que consumiu todo o ar respirável. Aqueles que estavam próximos ao procedimento de troca morreram queimados, desfigurados, e os demais caíram inconscientes devido ao envenenamento por monóxido de carbono.

As semelhanças possíveis, creio, param por aqui, visto que no tocante ao S-42 ARA San Juan têm-se apenas especulações, algo bem diferente do Kursk, cujo naufrágio é bem conhecido e narrado pelo motivo simples de ter sido resgatado do fundo do mar em uma operação complexa e custosa, muito custosa, pois sangrou os cofres da Federação Russa em mais de 135 milhões de dólares norte-americanos.

Neste presente momento o ARA San Juan sequer foi localizado, mas como submarino diesel-elétrico compartilha a semelhança com o infortúnio do submarino francês Eurýdice, que também tem em uma explosão a causa do seu naufrágio.

Eurýdice
Eurydice repousando no fundo do Mediterrâneo. Imagem: internet.

Outra hipótese para a tragédia do S-42 ARA San Juan repousa na admissão de água pelo seu snorkel, bem como pela presença de água nas baterias, que resultariam em contaminação do ambiente por gás de cloro. Este foi o fim do submarino chinês “361”, cuja admissão de água salgada nos painéis de baterias resultou em contaminação e morte por asfixia dos 70 submarinistas do referido submarino. Esta hipótese não casa com a explosão “anômala”, mas este redator pensa que tal registro deva servir como indício e não como norte a ser seguido cegamente.

Por fim fica a percepção de que as armadas sul-americanas precisam, urgentemente, de meios para resgate e socorro submarino mais eficiente do que os existentes. O navio “Cabo de Hornos” da Armada do Chile é novo, mas não é dedicado à função, o “Vanguardia” da Armada do Uruguai não consegue manter-se operacional, além de apresentar limitações evidentes e o NSS K-11 “Felindo Perry”, apesar de suficientemente equipado para resgate até a profundidade de 300 metros,  arrastou-se pela costa brasileira até chegar ao “Mar Argentino”. Ter uma frota de submarinos sem meios consistentes de resgate parece ser mais um atropelo da lógica, dentre tantos deste continente.

Nota do Editor: viceja nas redes sociais argentinas a teoria conspiratória de que o ARA San Juan fora torpedeado. Argumentam para isso com a explosão e com a presença dos “buzos tacticos”, que segundo os conspiradores empreenderam uma missão em “las islas Malvinas”, acrescentam que a coordenada da explosão não coincide com a coordenada estimada do submarino de acordo com a velocidade informada de 5 nós…
Desmontando a teoria conspiratória devemos dizer que a posição estimada deve ser calculada com a velocidade acrecida pela corrente ascendente das Malvinas, que dá a embarcação mais dois nós. Nada impede que o capitão tenha seguido a sua derrota acima dos 5 nós informados. No tocante aos interesses britânicos resta saber que ganho teriam em torpedear um submarino argentino, justamente quando o dignitário atual não faz menção em lutar pela soberania das ilhas… Não tem sentido. A pergunta, portanto, que se deve fazer quando se lê, ou se ouve uma barbaridade destas é saber quem ganharia com um ato desta natureza. Ao se perceber que ninguém nada ganharia tem-se a resposta: uma teoria de loucos, para doidos.

Norte-americanos acreditam que ganharam a guerra sozinhos, russos teriam apenas “ajudado”

Fonte: RT

Tradução: Alexey Thomas Filho

Nos Estados Unidos, a vitória na Segunda Guerra Mundial é lembrada como um triunfo para os norte-americanos, e consideram que o Exército Vermelho agiu “mais ou menos como um assistente”, escreve o diário Washington Post. No entanto, o aniversário da vitória sobre a Alemanha nazista passa quase que despercebida nos Estados Unidos, enquanto na Rússia, todavia, ainda é um dos maiores festivais do país, porque não há quase nenhuma família que não tenha sido afetada pela guerra.

Para a maioria dos norte-americanos, o aniversário da vitória sobre a Alemanha nazista passa despercebida, escreve Washington Post. No entanto, na Rússia é um dos maiores feriados.

“Pergunte a qualquer russo sobre a experiência e as experiências de sua família durante a Segunda Guerra Mundial, e quase invariavelmente a resposta obtida será a seguinte: sofrimento a serviço do país no campo de batalha ” – as notas do jornal.

Ao contrário dos Estados Unidos, que, após o ataque japonês a Pearl Harbor foram amplamente protegidos contra ataques pelas águas do Pacífico e  do Atlântico, a Rússia durante a Segunda Guerra Mundial estava sob cerco, foi bombardeada no seu território que tinha sido invadido. Em seguida, o Exército Vermelho chegou a Berlim desempenhando um papel fundamental na derrubada de Adolf Hitler.

As perdas da União Soviética foram enormes. Segundo a maioria dos historiadores, a União Soviética perdeu entre 27-28 milhões de pessoas. E a geração dos idosos russos ainda mantém memórias dolorosas de fome durante a guerra.

Enquanto isso, no que se refere á II Guerra Mundial, Estados Unidos a lembram como uma vitória para os norte-americanos, considerado apenas que o Exército Vermelho agiu “mais ou menos como um assistente”.

As memórias dos russos são focadas em suas próprias vítimas, diz o artigo. Segundo os cidadãos da Rússia, o verdadeiro significado do feriado não reside em paradas militares, possui um contexto mais pessoal.

“Na Rússia, são muito poucas as famílias que não foram afetadas pela guerra”, – disse a edição russa do Washington Post.

E, como os veteranos morrem, seus filhos e netos começaram então a realizar procissões por ocasião do dia da vitória na qual eles carregam imagens de seus familiares, os participantes da Grande Guerra Patriótica. Esta iniciativa, que um evento separado dos desfiles militares, apareceu em 2012 como um movimento não-político, entretanto, de acordo com a publicação, uma vez que pegou,  o Kremlin a adotou.

Além disso, a partir de 2008, Vladimir Putin reavivou a tradição de realizar “desfiles de tanques ao estilo soviético”, algo que se vê na comemoração do 09 de maio “para reunir os cidadãos em torno da bandeira”.

Os críticos das celebrações do Dia da vitória de Putin dizem que ele transformou este aniversário em um “evento politizado “, que se destina mais à servir o Estado, e não a memória das pessoas que sofreram na guerra.

“Antes os veteranos se reuniam nesta celebração, para beber e para recordar camaradas caídos. Veem, agora, o foco principal ser colocado por sobre os desfiles militares”, – diz o artigo.

De acordo com o Washington Post, a palavra fascismo agora também adquiriu os “novos valores”, o Kremlin geralmente a aplicada à nova liderança da Ucrânia. Ao mesmo tempo, com a ajuda da celebração da vitória na Segunda Guerra Mundial o termo se soma aos “esforços de Putin que visam a angariar apoio interno para uma política dura em direção a seu vizinho “, – citação presente no artigo.

As palavras de um líder

Por: Ho Chi Minh
Fonte: Esquerda Tradicionalista

Nota de introdução: o pensamento de um líder nacional, na forma de relato, é precioso documento histórico. Através dele é possível entendermos o desenvolvimento do entendimento de mundo deste líder, como personagem dinâmico, bem como da maneira deste interagir com o contexto que o rodeava. Desta forma, o depoimento abaixo do líder revolucionário Ho Chi Minh se reveste de importância fulcral, dado que Ho Chi Minh foi dentre os líderes das revoluções anticoloniais do século passado aquele cujas ações desembocaram na vitória de maior repercussão, a mais simbólica, algo que, aliás, não viu concretizar totalmente em vida. Ho Chi Minh foi um líder que sempre cultivou uma independência própria no campo ideológico, nunca se curvando a pressões e por isto um contumaz causador de “dores de cabeças” em lideranças revolucionárias chinesas. Entretanto, sempre manteve um perfil discreto e prático, quase pragmático, algo convencional em comunistas, diga-se. Era fã declarado de Lênin, como o eram quase todas as lideranças revolucionárias anticolonialistas do século XX.  Nascido como Nguyen Singh Cung, em 19 de maio de 1890, adotou Ho Chi Minh para nomear o seu alter ego revolucionário. Faleceu em 2 de setembro de 1969.

Disse Ho Chi Minh:

“Após a Primeira Guerra Mundial, eu levava minha vida em Paris, ora como retocador de fotografias, ora como pintor de ‘antiguidades chinesas’ (feitas na França). Também distribuía panfletos denunciando os crimes cometidos pelos colonizadores franceses no Vietnã.

Naquele tempo, eu apoiava a Revolução de Outubro apenas por intuição, não tendo em mente ainda toda sua importância histórica. Eu amava e admirava Lênin porque ele era um grande patriota que libertara seus compatriotas; até então, eu não havia lido nenhum de seus livros.

A razão para eu ter me unido ao Partido Socialista Francês foi porque essas ‘damas e cavalheiros’ – como eu chamava meus camaradas na época – demonstraram sua simpatia por mim, pela luta dos povos oprimidos. Mas eu não entendia o que era um partido, um sindicato, nem mesmo socialismo ou comunismo.

Discussões acaloradas aconteciam nos comitês do Partido Socialista sobre a dúvida de se deveríamos continuar na Segunda Internacional, se deveria ser fundada uma Segunda Internacional e Meia ou se o Partido deveria se juntar à Terceira Internacional de Lênin. Eu comparecia aos encontros com frequência, duas ou três vezes por semana, e ouvia atentamente a discussão. No início, eu não conseguia entender o assunto por completo. Por que os debates eram tão acalorados? Seja com a Segunda, a Segunda e Meia ou a Terceira Internacional, a revolução poderia ser alcançada. Qual o objetivo de discutir sobre isso? E a Primeira Internacional, o que aconteceu com ela?

O que eu mais queria saber – e o que justamente não era debatido nos encontros – era: qual Internacional está do lado dos povos das colônias?

Eu levantei essa dúvida – a mais importante em minha opinião – no encontro. Alguns camaradas responderam: é a Terceira Internacional, não a Segunda. E um camarada me deu para ler a “Tese sobre as questões nacionais e coloniais” de Lênin, publicadas pela L’Humanité.

Havia termos políticos difíceis de entender nessa tese. Mas por meio do esforço de lê-la e relê-la pude finalmente apreender a maior parte deles. Que emoção, entusiasmo, esclarecimento e confiança essa obra provocou em mim! Eu me regozijava em lágrimas. Embora estivesse sentado sozinho em meu quarto, eu gritei fortemente, como se me dirigisse a grandes multidões: ‘Caros mártires compatriotas! É disso que precisamos, este é o caminho para nossa libertação’!

A partir dali, tive plena confiança em Lênin e na Terceira Internacional.

Formalmente, durante os encontros no comitê do Partido, eu apenas escutava a discussão; tinha uma crença vaga de que tudo era lógico, e não conseguia diferenciar quem estava certo de quem estava errado. Mas a partir daquele momento, passei a me envolver nos debates e a discutir com fervor. Ainda que me faltassem palavras em francês para expressar todas as minhas ideias, eu rebatia energicamente os ataques feitos a Lênin e a Terceira Internacional. Meu único argumento era: “Se vocês não condenam o colonialismo, se vocês não estão alinhados com a população das colônias, que tipo de revolução vocês estão buscando”?

Eu não apenas participava dos encontros do meu comitê do Partido, mas também ia às reuniões dos outros comitês para reafirmar ‘minha posição’. Devo dizer que mais uma vez meus camaradas Marcel Cachin, Vaillant-Couturier, Monmousseau e muitos outros me ajudaram a expandir meu conhecimento. Por fim, no Congresso de Tours, eu votei junto com eles por nossa adesão a Terceira Internacional.

Em primeiro lugar, foi o patriotismo, e não o comunismo, que me levaram a acreditar em Lênin e na Terceira Internacional. Aos poucos, durante a luta e enquanto estudava o marxismo-leninismo paralelamente às minhas participações nas atividades práticas, eu me dei conta de forma gradativa de que somente o socialismo e o comunismo poderiam libertar as nações oprimidas e o povo trabalhador ao redor do mundo da escravidão.

Existe uma lenda, tanto em nosso país como na China, sobre o milagroso ‘Livro da sabedoria’. Ao se deparar com grandes dificuldades, pode-se abrir o livro e encontrar a solução. O leninismo não é apenas um milagroso ‘livro da sabedoria’, um compasso para nós revolucionários e cidadãos vietnamitas: é também o fulgurante sol iluminando nosso caminho para a vitória final, ao socialismo e ao comunismo”.

O discurso de Marco Antônio no funeral de César

Autor: William Shakespeare

Adaptação: César A. Ferreira

Nota de introdução: um espaço dedicado aos assuntos de geopolítica não pode se furtar aos eventos internos, pois a prática política e suas idiossincrasias marcam a atuação externa de uma nação. Todavia, melhor cobertura existe em blogs, jornais e revistas dedicados aos assuntos políticos, por força da especialização destes, ademais, a prática opinativa, tão em voga, não satisfaz os critérios deste editor. Pois, ao visitar o perfil de um amigo numa rede social, dei-me conta deste clássico de Willian Shakespeare, parte central do drama Julio César, que para olhos atentos, afeitos à reflexão, muito explica e sugere. Daí a decisão de publicar O Discurso de Marco Antônio no Funeral de César, pois, não raro é em torno da destruição deliberada de lideranças carismáticas em função de ambições políticas pautadas pelo imediatismo e oportunismo míope, que nascem os dissensos e conflitos civis responsáveis por dilacerar nações por gerações, e gerações.

O discurso de Marco Antônio no funeral de César:

Amigos, romanos, cidadãos escutai-me!

Vim para enterrar Cesar, não para louvá-lo. O mal que os homens fazem a eles sobrevive. O bem que se faz é sepultado com ossos, que seja assim com Cesar.

O nobre Brutus lhes disse que Cesar era ambicioso. Se verdade que o era, a falta era muito grave, e Cesar pagou com a vida, aqui, pelas mãos de Brutus e dos demais. Pois Brutus é um homem honrado, e assim são todos eles; todos homens de honra.

Venho para falar no funeral de Cesar. Ele era meu amigo, fiel e justo para comigo. Mas Brutus diz que ele era ambicioso. E Brutus é um homem honrado.

Trouxe muitos prisioneiros para Urbes que, para serem libertados, encheram os cofres de Roma. Isto lhes parece uma atitude ambiciosa de Cesar? Quando os pobres sofriam Cesar pranteava. Ora, a ambição torna as pessoas duras e sem compaixão. Entretanto, Brutus diz que Cesar era ambicioso. E Brutus é um homem honrado.

Todos vocês viram que nas Lupercais, eu, por três vezes, ofereci-lhe uma coroa real, a qual ele por três vezes a recusou. Isto era ambição? Mas, Brutus lhes diz que era ambicioso, e Brutus, todos o sabemos, é um homem honrado.

Não venho aqui para discordar da retórica de Brutus. Mas, tenho de lhes falar daquilo que sei. Vocês todos já o amaram e tinham razões para amá-lo. Qual a razão que os impede, agora, de render-lhe homenagem na morte?

O julgamento! Foste para o meio dos brutos animais, tendo os humanos perdido o uso da razão. Perdoai-me; mas tenho o coração, neste momento, no ataúde de César; é preciso calar até que ele ao peito me volte.

Ontem, a palavra de Cesar seria capaz de prevalecer neste mundo, agora, jaz aqui morta. Ah! Se eu estivesse disposto a levar os seus corações e mentes para o motim e a violência, mal falaria de Brutus e de Cassius, os quais, como sabem, são homens honrados. Deles não vou falar mal.

Prefiro falar mal do morto. Prefiro falar mal de mim e de vocês do que destes homens honrados. Mas, eis aqui, um pergaminho com o selo de Cesar. Eu o achei no seu armário. É o seu testamento. Quando os pobres lerem o seu testamento, porque, perdoem-me, não pretendo o ler, se arrojarão para beijar os ferimentos de Cesar, molhar os seus lenços em seu sagrado sangue.

Tenham paciência amigos, pois não devo lê-lo. Vocês não são de madeira ou ferro, e sim humanos. E, sendo humanos, ao ouvir o testamento de Cesar vão se inflamar, ficarão furiosos. É melhor que vocês não saibam que são os herdeiros de Cesar! Pois se souberem… O que vai acontecer? Vocês vão me obrigar a ler o testamento de Cesar? Então façam um círculo em volta do corpo e deixem-me mostrar-lhes César morto, aquele que escreveu este testamento.

Cidadãos! Se vocês lágrimas possuem, preparem-se para vertê-las. Todos vocês conhecem este manto. Vejam, foi neste lugar que a faca de Cassius penetrou. Através deste outro rasgão, Brutus, tão querido de Cesar, enfiou-lhe a faca, e, quando ele arrancou a sua maldita lâmina do ferimento, vejam como jorrou o sangue de Cesar.

Brutus, como vocês sabem, era o anjo de Cesar. Oh! Deuses, como Cesar o amava! O golpe de Brutus foi, de todos, o mais brutal e perverso. Pois, quando o nobre Cesar viu que Brutus o apunhalava, a ingratidão, mais do que a força da traidora punhalada, parou o seu coração.

Oh! Que queda brutal meus concidadãos. Então, eu e vocês, todos nós também tombamos, enquanto esta sanguinária traição florescia sobre nós.

Sim, agora vocês choram. Percebo que sentem um pouco de piedade por ele. Boas almas.Choram ao ver o manto do nosso Cesar despedaçado.

Bons amigos, queridos amigos; não quero estimular a revolta de vocês. Aqueles que praticaram este ato são honrados. Quais queixas e interesses particulares os levaram a fazer o que fizeram, não sei. Mas são sábios e honrados e tenho certeza que apresentarão a vocês as suas razões.

Eu não vim para roubar seus corações. Eu não sou um bom orador como Brutus. Sou um homem simples e direto, que ama os seus amigos.

Aqui está o testamento, com o selo de Cesar! A cada cidadão ele deixou 75 dracmas. Mais, para vocês lhes deixou os seus bens. Seus sítios deste lado do Tibre, com suas árvores, seu pomar, para vocês e para os herdeiros de vocês,  para todo o sempre.

Este era Cesar. Quando aparecerá outro como ele?

 

Revisionistas nipônicos propõem uma nova perspectiva da Segunda Grande Guerra

Este artigo foi retirado do site War History On Line. Traduzido e adaptado a partir de matriz cibernética, não há no site original a indicação do autor, o que é uma infelicidade.O link para a matéria original é o que segue: revisionismo nipônico.

Revisionistas nipônicos propõem uma nova perspectiva da Segunda Grande Guerra.

Os revisionistas históricos japoneses são a nova força motriz por trás da versão diferente sobre os acontecimentos da Segunda Grande Guerra. Trabalho forçado, tortura e escravatura sexual são todas elas versões aceitas sobre o Japão no tempo da guerra de acordo com a maior parte do mundo, exceto pelo pequeno, mas crescente grupo de pessoas do Japão.

Dentre os revisionistas, um dos  mais proeminentes é Toshio Tamogami, que já foi Chefe do Estado Maior da Força Aérea de Autodefesa do Japão. Mesmo ele, educado e esmeradamente civilizado, acredita em uma versão diferente do papel usualmente atribuído ao Japão pela historiográfica corrente. O que é interessante, pois esta retórica está se tornando cada vez mais popular no Japão, especialmente entre os mais jovens, que estão fartos em observar o seu país constantemente ter de pedir desculpas a China e a Coréia. Tomogami não é apenas um aposentado feliz, quer ele mais, concorreu para o cargo de governador de Toquio, e porquanto não ter ganho obteve, todavia, a quarta posição com mais de meio milhão de votos. Destes, quase um quarto dos votos foram de pessoas com menos de 30 anos de idade.

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Civis chineses sendo degolados por militares nipônicos. Foto: internet.

Tomogami afirma que os Aliados, vencedores da Segunda Grande Guerra forçaram uma versão dos fatos e a impuseram para o povo japonês, diz ser necessário ao Japão estar de pé e escrever sua própria história.  Na sua versão, Tomogami profere que o Japão não era agressivo, mas que estava apenas a lutar pela sua liberdade contra os brancos imperialistas que estavam a dominar a região do extremo oriente por séculos.  Fala de estar orgulhoso do papel nipônico na luta para empurrar para fora da Ásia as nações europeias. Não corrobora, entretanto, com as atrocidades infligidas nos demais povos asiáticos pelo Japão, chama a invasão da Coréia de “investimento”, e o mesmo para Taiwan e a Manchúria, segundo reportagem da BBC News. Tanto, que quando perguntado sobre a invasão da China pelo Japão e em particular sobre os assassinatos documentados em Nanking, 1937, Tomogami afirma que isto é falso e que não existem relatos comprobatórios de testemunhas oculares. Além disso, quando pressionado sobre o uso de mulheres coreanas como escravas sexuais para as tropas japonesas, responde que isto é uma história totalmente fabricada.

Dá-se que Tomogami não está sozinho, pois muitos nacionalistas japoneses veem alimentado esta versão dos fatos, enquanto isso, o atual Primeiro Ministro do Japão, Shinzo Abe, profere as desculpas protocolares sobre as ações do Japão no período da Segunda Grande Guerra, embora, no tocante àquilo que se trata sobre as mulheres coreanas, prostituição forçada, afirma que não houve por parte dos militares nipônicos o recrutamento de escravas sexuais, mas uma prostituição que se deu por iniciativa das mulheres coreanas.