Blitzkrieg, a queda da França

Por: Daniel Afonso da Silva

Fonte: Blog Luis Nassif

Wolfsschlucht, quartel-general alemão, 17 de junho de 1940. Hitler recebe a notícia da rendição francesa. O marechal Pétain vinha de proclamar o cessar-fogo. Perplexidade radiante envolve os presentes. Ainda na noite anterior, em entrevista a Goebbels, o füher havia anunciado guerra de ao menos seis semanas para vencer a França. Ninguém esperava uma batalha relâmpago (blitzkrieg) contra os franceses.

Desde a sua inauguração no poder em fevereiro de 1933 que Hitler vinha pondo em prática sua vingança à humilhação aos alemães materializada em Versalhes após a primeira grande guerra. Fora a amputação de territórios seguida de imposições financeiras, à Alemanha caberia reduzir seu exército ao máximo de 100 mil homens, não possuir artilharia pesada nem tanques blindados, aviões, cruzadores ou submarinos.

Em sua primeira mensagem ao seu Reichswehr (força de defesa do Reich), a 3 de fevereiro de 1933, ele firmaria o compromisso de remodelar o exército alemão para combater os inimigos internos e externos do Reich. Seu objetivo explícito era conquistar espaço vital. Seu mantra, germanizar toda a terra.

O primeiro álibi para o reequipamento da Reichswehr ocorreu no expurgo de 30 de junho de 1934, famosa noite dos longos punhais. Um ano depois seria anunciada a criação da Luftwaffe (força aérea), havia muito tramada em segredo com os soviéticos. A 7 de março de 1936, a Wehrmacht (forças armadas) recuperaria espaços na Renânia subvertendo o pacto de Locarno. Semanas depois, a Reichswehr vai convocada a se preparar para uma guerra longa e mundial a partir de 1940.

No verão-outono de 1938, com a conivência de França e Inglaterra nos acordos de Munique, o Reich agrediria a Tchecoslováquia subtraindo dela a região de Sudètes. Polônia e Hungria também reivindicariam, com sucesso, territórios tchecos. Os encaminhamentos saídos de Versalhes ficavam, assim, completamente caducos.

No dia 23 de agosto de 1939, alemães e soviéticos assinam pacto de não-agressão. Ciente da inação franco-britânica, Hitler avança sobre a Polônia. Contrariado em seus cálculos, no dia 3 de setembro de 1939, os ingleses declaram guerra ao Reich. Os franceses fariam o mesmo sem tardar. Como reação, o Reich propõe avançar de Varsóvia a Paris.

Em junho de 1940 o moral francês está devastado. “A besta se aproxima”. Na primeira semana do mês, entre sete e oito milhões de pessoas de todas as idades e ocupações fugiram de Paris e de seus arredores. A 10 de junho, o próprio governo francês parte em fuga e se instala em Tours.

No dia seguinte, os primeiro-ministros Paul Reynaud e Winston Churchill promovem uma reunião conjunta. A pauta era discutir sobre continuar ou não o combate contra o Reich. Muitos presentes hesitam. O marechal Pétain, herói de Verdun e da primeira grande guerra, propõe armistício. Reynaud considera desonroso. Churchill também; e pede tempo para consultar do presidente Roosevelt.

A 14 de junho, os alemães adentram Paris e a tese do armistício avança.

O coronel De Gaulle vai enviado a Londres para clamar por mais apoio inglês. Desde o palácio de Buckingham vem a proposta de unificação franco-britânica da nação e da administração para se continuar a guerra.

No 15-16 de junho, o primeiro-ministro francês está deveras apequenado. A maioria no conselho tendia ao armistício. Mas ele continua intransigente frente ao capitular.

Contrariado em suas intenções, o marechal Pétain apresenta sua demissão. O primeiro-ministro e o próprio presidente da república recusam aceitar. Ambos aguardam pela resposta do presidente norte-americano sobre o apoio contra o Reich.

Churchill porta a resposta no fim de 16 de junho. Os Estados Unidos mandam dizer que seu apoio poderia ser financeiro; militar, não.

O peso da história e a pressão da responsabilidade invadem o destino dos homens de decisão franceses. Todos lembravam – alguns por ter vivido – de 1870-1 e 1914-18. A máxima “tout est perdu fors l’honeur” (tudo foi perdido, exceto a honra) do rei François 1º após a derrota na batalha de Pavie de 1525 rondava todos os imaginários. A meditação passou entre a vida e a honra.

Outra reunião fora convocada para as dez da noite desse dia 16 de junho de 1940. Antes desse horário, o primeiro-ministro Reynaud anuncia sua demissão. O marechal Pétain, líder da maioria pelo armistício, toma seu lugar. Horas depois, o novo governo já estava completamente constituído. No dia seguinte, 17 de junho de 1940, o mundo inteiro soube da escolha do marechal.

O “Quarto Poder” e o controle da opinião pública (1° Parte)

Desde que pensadores como John Locke apontaram para a importância dos jornais na educação da população, muitos intelectuais e cientistas se dedicaram à compreensão do funcionamento da mídia de massa para estabelecer técnicas precisas de controle por meio de uma elite. O “Quarto Poder” é uma expressão utilizada com conotação positiva de que a Mídia (meios de comunicação de massa) exerce tanto poder e influência em relação à sociedade quanto os Três Poderes nomeados em nosso Estado Democrático (Legislativo, Executivo e Judiciário).

Por: Cristian Derosa

A palavra propaganda, na sociologia e na política, nos remete às técnicas empregadas por Joseph Goebbels a serviço de Hitler, cujos crimes normalmente nos trazem à memória o que acreditamos ser o pior e mais devastador genocídio que já houve. Ocorre, porém, que nem Goebbels é idealizador da propaganda nazista e nem o nazismo seria merecedor do status de maior causa de mortes na história humana. Mas por que então palavras como esta e tantas outras nos remetem a ideias sobre as quais manifestamos opiniões de apoio ou repulsa quase que imediatamente?

O uso que Goebbels fez das técnicas de propaganda foi somente uma articulação possível dentre as diversas possibilidades desenvolvidas, na verdade, por Edward Bernays, o pai da profissão de relações públicas e uma das maiores mentes da propaganda no século XX. A inovação trazida por ele foi justamente a associação de palavras e ideias a determinadas emoções, tornando possível o controle dos sentimentos do público e, com isso, de suas ações.

Ao longo do século passado, essas técnicas foram usadas para suscitar repulsa a determinadas ideias, paixões por outras, desejos e até dependências psicológicas a conceitos ou produtos comerciais de clientes específicos. Puderam transferir a culpa de crimes a inocentes mediante exposições na mídia, assim como transformar heróis em bandidos e vice-versa.

Bernays pode ser considerado o idealizador de grande parte da cultura de massa do século passado, do consumismo e da cultura sentimental que vemos hoje. Foi inspirador de Goebbels e deu à propaganda o nome mais genérico e menos agressivo de relações públicas. Com técnicas ligadas à psicanálise, ele empreendeu uma das maiores e mais decisivas mudanças na mente do cidadão comum ao transferir o interesse do consumo da necessidade prática ao desejo simbólico.

Junto aos trabalhos de outros pesquisadores de comunicação social anteriores e posteriores, as técnicas de Bernays foram utilizadas amplamente por institutos de pesquisa social e empresas interessadas em controlar a opinião pública. Este interesse foi crescendo a partir do que era visto como uma necessidade desde o século anterior: a do controle social por meio de uma elite esclarecida. Vejamos como essa necessidade veio a se formar para compreendermos então o papel de Bernays e dos resultados perceptíveis à nossa volta.

O primeiro mito a se desfazer é o de que ideias de controle social são oriundas de mentalidades ligadas a regimes totalitários. Estes regimes só aperfeiçoaram e deram caráter mais técnico a uma necessidade dos próprios regimes democráticos de caráter liberal. A prova disso é que essas ideias surgem da mente de liberais interessados no progresso das ideias e das liberdades. Em muitos aspectos, ideias totalitárias são decorrentes de uma hipertrofia de ideias profundamente democráticas. Afinal, a democracia para funcionar deve contar com o consentimento total. Isso não quer dizer que a democracia seja o problema, mas pode significar que a sua defesa meramente ideológica ou instrumental tem grandes chances de se transfigurar em uma campanha fascista. E gênios ideólogos souberam utilizar muito bem este potencial.

Desde que pensadores como John Locke apontaram para a importância dos jornais na educação da população, muitos intelectuais e cientistas se dedicaram à compreensão do funcionamento da mídia de massa para estabelecer técnicas precisas de controle por meio de uma elite. A própria ideia de democracia liberal exige um tipo de legitimação que vai além da mera defesa teórica de seus pressupostos, mas passa pela necessidade de se gerar um consentimento público ou o que Karl Mannheim chamaria de “democracia militante”. A existência de propostas de caráter controlador e totalitário, portanto, se deve ao tipo de intelectualidade que acabou ocupando lugar de destaque neste processo. A passagem da ideia de controle indireto da opinião pública para um processo de controle estatal da mídia propriamente, está diretamente ligado à ascensão de um tipo de elite, a socialista fabiana, que se origina das classes pequeno-burguesas historicamente carentes de atenção estatal.

A proeminência das classes intelectuais na opinião pública, a partir do processo de crescimento da circulação de jornais políticos desde o século XVIII, culminou, no final do século XIX, com o florescimento das ideologias massivas, herdeiras e saudosas dos “avanços” da Revolução Francesa. O puritanismo da classe burguesa (influenciado pelo protestantismo), aliado às crenças no poder redentor das revoluções populares, trouxe a idealização de um tipo de proletariado defensor de seus direitos e participativo nas lutas políticas. Esta expectativa, porém, existente só na mente dessa pequena burguesia, não se efetivou na prática, pois o povo proletário do final do século XIX não se interessava por política nem por revoluções, já que as próprias condições de trabalho não pioravam como tentara demonstrar Marx. Isso trouxe certa desilusão no poder popular transformador, por parte dos intelectuais. Marx foi um dos responsáveis pela confusão entre o proletariado e a pequena burguesia insatisfeita ao usar dados do proletariado inglês e cruzá-los com as suas supostas consequências, às revoluções de 1848. Ocorre que estas revoluções foram levantes provocados pela pequena burguesia alfabetizada e insatisfeita, não por operários.

O resultado deste processo psicológico, muito bem descrito por Emmanuel Todd em seu livro “O louco e o proletário – filosofia psiquiátrica da história” (1951), foi o estabelecimento de um poder paralelo dos herdeiros dessa recalcada burguesia intelectual, cuja expressão mais clara está na atual elite globalista que já no início do século XX estava no comando da intelectualidade mundial.

O início do século XX, portanto, foi marcado por pesquisas de opinião pública de caráter normativo, a chamada escola funcionalista, que tinha como principal objetivo o conhecimento de técnicas para a manutenção da ordem pública, objetivo de uma classe científica de escola positivista. Os institutos de pesquisa social, como Rockefeller e Tavistock, inspirados na antiga confraria de pesquisadores de Wellington House, dedicaram-se ao estudo do processo cognitivo e os seus resultados práticos para a política.

Mais tarde, porém, percebeu-se que as agendas políticas deviam ser trabalhadas no campo cultural, o que trouxe maior margem de ação a estes pesquisadores. Hoje, nomes como Edward Bernays, Kurt Lewin, Walter Lippmann, entre outros, são referências em matéria de opinião pública e psicologia das massas, apesar de seus estudos serem vistos como meras investigações sem funções práticas. Lippmann, em seu livro “Opinião Pública” (1922), revolucionou os estudos de mídia ao relacionar as decisões dos cidadãos às imagens do mundo em suas mentes, cuja construção caberia a uma elite de esclarecidos que tivessem o controle dos meios de comunicação. Suas conclusões foram derivadas das descobertas de Ivan Pavlov sobre o condicionamento cognitivo das ações e dos comportamentos dos animais aplicados ao homem. Assim, Lippmann salienta a importância dos diversos mecanismos de censura como condição para a construção social, e sua função de barreira necessária entre o público e os eventos para a construção dos pseudo-ambientes.

Lippman – importante fonte de estudos em comunicação hoje – argumentava que a democracia representativa não poderia funcionar sem uma “organização especializada e independente que torne os fatos invisíveis inteligíveis àqueles que tomam as decisões”. Ele concluia o primeiro capítulo dizendo: “Minha conclusão é que, para serem adequadas, as opiniões públicas precisam ser organizadas para a imprensa e não pela imprensa”.

Estando o público distanciado dos eventos reais por meio de barreiras naturais ou artificiais, este terá, portanto, como única imagem destes fatos o que é passado por meio da mídia, das notícias diárias. “O único sentimento que alguém pode ter acerca de um evento que ele não vivenciou é o sentimento provocado por sua imagem mental daquele evento”, diz Lippmann. Entre os seres humanos e o ambiente real, há a presença marcante dos pseudo-ambientes dos quais o comportamento é uma resposta. Este comportamento-resposta, porém, se é uma ação, não opera evidentemente no mundo dos pseudo-ambientes onde foi estimulado, mas no ambiente real onde de fato as ações acontecem.

Em termos práticos, isso quer dizer que, de posse do controle das notícias, pode-se determinar em grande parte as respostas dos cidadãos, por meio da geração destes pseudo-ambientes. Para determinar ações ou sentimentos específicos nos indivíduos, portanto, basta ater-se à forma como é construída a imagem do objeto e torná-lo socialmente válido. Ou seja, se as ações fossem respostas à realidade, seria muito difícil determinar ações, pois é impossível mudar os fatos dos quais as ações são a resposta. Esta é como se vê uma explicação lógica da mentira sistematizada.

Lippman foi membro da Sociedade Fabiana na juventude até se desiludir com o socialismo por não concordar com a ideia da luta de classes, embora aceitasse a sua existência na realidade. A imagem mental da ideia de luta de classes fomentaria o caos e a desordem, coisa tida como inevitável para os socialistas. Ele queria que a sociedade fosse controlada para a democracia e a ordem e via no marxismo ortodoxo um entrave à paz, apesar de concordar com a doutrina marxista quanto à economia. Não é a toa que Lippmann é um dos honoráveis fundadores do Council of Foreign Relations (CFR), em 1919, uma das mais atuantes entidades de influência da opinião pública no mundo. Com o CFR, o sonho de Lippmann e de muitos intelectuais fabianos estava mais perto de ser realizado.

— Cristian Derosa é jornalista.

*Continuação do artigo – O “Quarto Poder” e o controle da opinião pública (2° Parte) – com o subtítulo:Engenharia do consentimento.

*Titulo original deste artigo: Edward Bernays e o controle da opinião pública – Publicado em Midia Sem Mascara.