O lugar do Exército Árabe da Síria na história está assegurado

Por: John Wight

Tradução: J. Junker

Fonte: American Herald Tribune

Quando os historiadores do futuro sentarem-se para escrever a história do conflito sírio, existe um teste simples que irá determinar se o seu objetivo é cavar e revelar a verdade ou se meramente querem jogar uma pá de terra na montanha das coisas que foram erigidas ao longo dos seus cinco longos anos, como um monumento à propaganda.

O teste será a representação do Exército Árabe da Síria e seu papel no conflito. Se ditos historiadores creditarem a ele segurar a linha contra as forças do inferno que se comprometeram com a destruição do país como um Estado secular, multi-religioso e multi-étnico, suportando todo tipo de perdas e baixas, colocando-o entre os mais corajosos, resistentes e heroicos de qualquer exército de qualquer nação que já existiu, então as pessoas vão saber que a verdade, ao invés da propaganda, terá prevalecido.

A glorificação da guerra e do conflito é difícil de resistir para aqueles que vivem em segurança, a muitas milhas de distância de seus horrores e brutalidades. Aqueles que a glorificam devem tomar um momento para estudar e assimilar as palavras de Jeannette Rankin, que disse: “Você não pode vencer uma guerra mais do que você pode ganhar de um terremoto”.

A guerra na Síria confirma a verdade permanente dessas palavras quando consideramos a natureza épica da destruição que ela tem proporcionado, o custo humano trágico, e como ela abalou a sociedade síria até os limites da resistência. Isso significa que, enquanto a sobrevivência do país como um Estado secular independente pode agora ser uma certeza, a sua capacidade para se recuperar totalmente do terremoto que Rankin descreve é ​​algo que só o tempo dirá.

Mas o fato de que o país conseguiu alcançar a sua sobrevivência e, com isso, a oportunidade de se recuperar é predominantemente uma realização do Exército Árabe da Síria, cuja formação é um microcosmo da própria sociedade e as pessoas que ele tem defendido – sunitas, xiitas, drusos, cristãos, alauítas. E no processo de fazê-lo, ao tempo em que estas palavras estão sendo escritas, ele já perdeu mais de 60000 homens de acordo com o mais recente relatório de Robert Fisk, um dos correspondentes ocidentais mais confiáveis, baseado na região. E isto é sem ter em conta os milhares de combatentes do Hezbollah que foram mortos, junto com curdos e membros dos vários grupos de milícias aliadas ao governo. Também não inclui as dezenas de milhares que foram feridos ou mutilados.

Mas pense sobre essa estatística impressionante de 60.000 mortos por um momento. Em um país com uma população, que antes do início do conflito era de 25 milhões, e um exército em número de 220.000 com força total, a perda de 60.000 tropas coloca a natureza épica desse conflito em que pereceram, em pé de igualdade com a Frente Oriental durante a Segunda Guerra Mundial.

A ajuda russa tem sido, naturalmente, um fator-chave para virar a maré do conflito sírio. Mas toda a ajuda e solidariedade no mundo significa pouco sem um povo e sua vontade, com seu exército, para resistir à invasão do país por milhares de extremistas cujas paixões para massacrar seres humanos das formas mais hediondas que se possa imaginar qualifica sua rotulagem como bárbaros.

O ponto saliente perdido nas incontáveis ​​colunas, relatórios e artigos de opinião que foram escritos e publicados, que equivalem esses bárbaros com o governo sírio e seus militares, é que o Exército Árabe da Síria e as pessoas sírias são uma e a mesma, em que um começa onde termina o outro e vice-versa. A capacidade e a vontade do exército de suportar o forte golpe que tem levado, e que nenhum outro exército na região poderia ter resistido, tem sido dependente do apoio do povo sírio. Este apoio tem sido constante, e vem mesmo em meio à enorme pressão externa, disposta contra o país por potências ocidentais que em um ponto estavam convencidas de que o colapso e derrota total do exército era apenas uma questão de quando e não se.

O atual cessar-fogo, intermediado pela Rússia e apoiado por Washington, tem lugar num momento em que o conflito se transformou enfaticamente em favor do governo. Durante uma operação ofensiva que começou no início de fevereiro, o Exército Árabe Sírio esmagou todos os insurgentes em seu caminho pelo norte do país. Combinado com uma ofensiva lançada pelas Forças Democráticas Sírias (SDF) de composição multi-étnicas na província de Aleppo, ao norte, ele efetivamente conseguiu cercar a cidade de Aleppo e cortar as principais rotas de abastecimento das forças da oposição pela Turquia no controle de uma grande parte da cidade. Dado o número de facções armadas envolvidas no conflito, a falta de qualquer estrutura de comando central direcionando suas atividades, o fato de que o cessar-fogo, até agora realizado com apenas algumas violações menores, é uma prova da realidade alterada no chão.

As maquinações, plotagem e falsidade dos sauditas e turcos – não esquecendo dos seus aliados ocidentais – foram negadas em um país onde cada cidade e rua, cada colina, aldeia e estrada foi tocada pela guerra. É a prova de que, em última análise, a história não é feita por governos, diplomatas ou funcionários em gabinetes palacianos e chancelarias. Ela é feita por homens e mulheres comuns dispostos a lutar e morrer em defesa de seus familiares, suas casas e comunidades, e cuja honra, ao fazer isso contrasta com a desonra de quem cometeu o erro de considerar a Síria como apenas uma outra peça em seu tabuleiro de xadrez geopolítico.

Ninguém deve subestimar o custo humano de proteger a soberania e a integridade da Síria. Faça isso e você irá denegrir aqueles que caíram e os que, sem dúvida, ainda cairão quando a luta recomeçar. Também não devemos subestimar o tamanho da montanha à escalar antes da Síria ser pacificada, quando as armas, eventualmente, caírem em silêncio. Pois, assim como uma luta termina outra começará.

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Mapa: dias decisivos da batalha por Latakia

Por: Peto Lucem (exclusivo para o site South Front).

Tradução: Enlil

Adaptação: César A. Ferreira

Imagem ampliada do mapa, aqui.

Nos últimos dias, o Exército Árabe Sírio (EAS) obteve ganhos territoriais significativos no antigo reduto insurgente, localizado na “montanha dos curdos” região (Jabal al-Akrād), perto da fronteira com a Turquia em Latakia, província. Nos últimos três anos, a insurreição síria beneficiou-se das rotas de abastecimento em execução a partir da fronteira com a Turquia e também do terreno montanhoso e arborizado. Esta região tem uma importância vital para ambas as partes em guerra por causa de sua proximidade com a cidade de Latakia e outros centros urbanos próximos da costa do Mediterrâneo. A área de fronteira sírio-turca foi uma zona de interdição de área para as forças do governo sírio por um longo tempo. Este quadro foi alterado.

Como esperado, a queda do reduto insurgente mais importante de Salma teve um impacto negativo, severo, sobre as capacidades de defesa insurgência. Em 20 de janeiro, a EAS havia libertado a aldeia de Ateera e as zonas circundantes, que os insurgentes tentaram recapturar um dia antes, sem sucesso. As forças do governo empurraram os insurgentes da aldeia al-Kabeir e mudando-se desta maneira a pressão para longe das forças leais, concentradas na vila de Bayt Ablaq. O avanço mais importante aconteceu na área operacional do sul, perto da estratégica rodovia M4, que leva às cidades de Jisr al Shughour e Idlib.

Nesta área, a EAS foi capaz de assumir o controle das aldeias de Ayn al Hawr, Ghunaymiyah, e Khab al Jawz. Especialmente a captura de Khab al Jawz foi de enorme importância estratégica, semelhante à captura de Salma alguns dias antes. Ao capturar Khab al Jawz e os entroncamentos vitais das proximidades, a EAS começou um avanço para o bastião insurgente do norte de Rabi’ah. Os defensores deste ponto vital já tiveram um tempo difícil tentando adiar as forças governamentais destacadas para a zona norte. Agora, eles também tiveram que cobrir as duas estradas principais que funcionam do sul para Khab al Jawz. No entanto, os insurgentes veem-se oprimidos pelo rápido avanço do exército perto da autoestrada M4. Não foram capazes de desviar as forças para esta área. Assim, para eles não foi possível definir uma nova linha de defesa dentro de um prazo razoável, para evitar antecipadamente as forças do governo com eixo direcionado para com a Rabi’ah.

Apenas um dia depois de o EAS ter capturado o entroncamento de Khab al Jawz, o exército ocupou a vila de Baradun e a barragem próxima de Baradun. No Norte, o exército empurrou as forças insurgentes da área de Jaqruran, o que criou uma pressão adicional sobre os defensores de Rabi’ah. Em 22 de janeiro, as forças insurgentes, exaustas, mostraram sinais crescentes de desorganização e fadiga. Revelaram-se incapazes de deter as forças sírias que receberam apoio aéreo preciso das forças aéreas russas e sírias.

Durante este dia decisivo, o EAS lançou um ataque em grande escala. Ao longo de a linha defensiva insurgente posicionada na protuberância entre as aldeias de Baradun e ad-Durrah. O exército fez ganhos significativos e libertou uma série de aldeias, incluindo o importante vila de al-Rayhaniyyah, ao sul de Rabi’ah. Em 23 de janeiro, as defesas insurgentes desabaram completamente. As forças do governo também ganharam o controle sobre novas áreas e aldeias, tais como al-Malik, Tanahiyah e Al Huwlah.

Até agora, a insurreição foi incapaz de contrariar os recentes sucessos do governo de forma adequada. Ao que parece, eles contavam com a resistência de pontos fortes próximos das áreas da linha de frente, quando da ofensiva em larga escala lançadas pelas forças pró-governo em outubro passado. Tão logo houve a queda destes pontos fortes, como Salma, não detiveram possibilidades outras, para deter os avanços das forças legalistas.

Um fato óbvio é que eles, os insurgentes, não aplicaram a estratégia de defesa em profundidade (defesa compartimentada, elástica), o que provou ser fatal. Esta situação, provavelmente, deverá levar a uma diminuição acelerada dos recursos dos militantes e de mão de obra. Se Rabi’ah cai, ele provavelmente dar-se-á uma retirada em grande escala no sentido de Jisrt al Shughour. Os insurgentes provavelmente tentarão realizar uma resistência  final no ponto mais estreito, entre a área de Ayn al Hawr e a fronteira turca. Caso esta tentativa venha a falhar, o corredor para Jisr al Shughour estará aberto para as forças do governo. O posicionamento estratégico das formações insurgentes provavelmente será agravada ainda mais, devido ao fato de que o EAS liberou recentemente milhares de efetivos, ao ter encurtando a linha de frente na província de Latakia. Em outubro, a linha de frente exibia um comprimento total de aproximadamente 35 milhas. Até o momento, enquanto se aguarda começar o impulso em direção a Jisr al Shughour, o EAS terá de cobrir cerca de 10 milhas (no caso de a EAS manter as suas posições atuais em al Ghab). Embora o exército provavelmente  retire uma pequena parte de sua força ofensiva, para um posicionamento defensivo junto a  fronteira turca, deverá manter uma reserva suficientemente forte, com poder necessário para realizar uma ofensiva com intuito de capturar Jisr al Shughour e até mesmo Idlib.

Exército Árabe da Síria demonstra novas habilidades

Por: César A. Ferreira

É sabido que um exército que se mantém muito tempo em paz tende a enrijecer-se, devido não só ao apego das formas conhecidas de combater, como ao desprezo,  discreto,  mas sentido, por tudo que seja inovador, ou diferente. Um exemplo clássico é a Armée de Terre, que partiu para lutar a Segunda Grande Guerra como se esta fosse a repetição do Front Ocidental da Primeira Grande Guerra. O resultado é bem conhecido por todos.

Não poderia ser diferente com o Exército Árabe da Síria, que neste confronto com foras irregulares, mas extensas, além de muito bem armadas no padrão OTAN, com aquilo que há de melhor no arsenal ocidental, tal como os ATGW TOW, foi obrigado por estes mesmos motivos a rever de maneira ampla os seus conceitos, formas de combater e dogmas, antes arraigados, para fazer valer a sua vontade no campo de batalha. Não que seja uma novidade para os sírios. Em 1982 a infantaria síria concebeu grupos de infantaria, armados com RPG-7, com o intuito de caçar blindados israelenses no Vale do Bekaa. Estes grupos “matadores” causaram baixas desproporcionais na força blindada israelense, dado que eram grupos pequenos, que se aproveitavam das reentrâncias do terreno e do ambiente urbano. Para as Forças de Defesa de Israel o drama iria se repetir, desta vez na forma de pesadelo em 1986, tendo como inimigo o Hezzbolah. Mas, esta é outra história…

Não é novidade que este conflito, na Síria, tenha um forte componente urbano, portanto de uma guerra de atrito, mas se enganam aqueles que pensam em formações pesadas, ataques maciços, com uso de extenso de Carros de Combate como aríetes modernos. Isto só os exporia às armas anti-carro. Na verdade dá-se uma procura grande pela mobilidade e poder de fogo. Não por outro motivo, vê-se de forma onipresentes os canhões de tiro rápido de 23mm montados nas caçambas de “Pick Ups”… O Exército Árabe da Síria adotou esta forma de combater, e possui a sua frota de canhões de tiro rápido de deslocamento imediato.

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Elemento de ligação e exploração do exército sírio percorre de motocicleta a cidade disputada de Salma. Foto: Youssef Karwashan/AFP

A arma secreta, no entanto, é outra… A motocicleta! Isto mesmo, uma simples moto é a grande estrela da vitória do Exército Árabe da Síria na retomada de Salma. É verdade que a ala aérea russa se fez presente, e que a barragem de artilharia foi intensa e muito bem coordenada, mas no campo da infantaria, foram as motocicletas aquelas que permitiram os avanços rápidos dos infantes, evadindo-se dos snipers, que não tinha tempo de mirar e disparar em alvos tão fugidios. Em declaração para a Agência AFP, um jovem combatente, identificado como Hany, afirmou: ”A forma como combatemos tem  mudado desde o princípio da guerra, e temos desenvolvido os nossos próprios métodos ofensivos”, em seguida completou, “Hoje, nós utilizamos as motos pela sua velocidade e mobilidade”.

O motivo deste apreço, além da velocidade, que serve como um subterfúgio contra os franco-atiradores, deve-se ao fato delas superarem obstáculos com facilidade, além de serem os veículos ideais para transitar nas ruelas estreitas dos bairros típicos de muitas cidades sírias. As ruas estreitas, tal como aquelas que existem em Salma, dificultam, isto quando não inviabilizam por completo a progressão dos blindados e dos Carros de Combate. Para as motos, isto não é um problema, daí o uso de cerca de 80 motocicletas na batalha pela cidade de Salma.

Não foi uma inspiração celestial, tampouco de algum iluminado oficial, ou praça. Foi, isto sim, a observação objetiva e sem menosprezo da forma como o inimigo combatia. O uso de motos foi copiado, sem cerimônia ou vergonha, como demonstra o nosso informante: “Não nos negamos a dizer que aprendemos a tática de utilizar motos com os rebeldes. Temos desenvolvidos novos métodos no combate urbano e contra a guerra de guerrilha, e a luta em motocicletas pode chegar a ser uma tática em que os exércitos regulares podem vir a se basear”.

Para os sírios a moto significa a sobrevivência, pois pode transladar feridos, levar munições para grupos semi-cercados, recompletar pelotões e grupos de combate, bem como serem equipadas com metralhadoras, RPG-7, ou superior, onde até mesmo o uso de Nightvison Goggles, se faz presente.

Quem diria que a guerra está aos poucos se parecendo com a sua representação hollywoodiana…

É assim.