O “Quarto Poder” e o controle da opinião pública (1° Parte)

Desde que pensadores como John Locke apontaram para a importância dos jornais na educação da população, muitos intelectuais e cientistas se dedicaram à compreensão do funcionamento da mídia de massa para estabelecer técnicas precisas de controle por meio de uma elite. O “Quarto Poder” é uma expressão utilizada com conotação positiva de que a Mídia (meios de comunicação de massa) exerce tanto poder e influência em relação à sociedade quanto os Três Poderes nomeados em nosso Estado Democrático (Legislativo, Executivo e Judiciário).

Por: Cristian Derosa

A palavra propaganda, na sociologia e na política, nos remete às técnicas empregadas por Joseph Goebbels a serviço de Hitler, cujos crimes normalmente nos trazem à memória o que acreditamos ser o pior e mais devastador genocídio que já houve. Ocorre, porém, que nem Goebbels é idealizador da propaganda nazista e nem o nazismo seria merecedor do status de maior causa de mortes na história humana. Mas por que então palavras como esta e tantas outras nos remetem a ideias sobre as quais manifestamos opiniões de apoio ou repulsa quase que imediatamente?

O uso que Goebbels fez das técnicas de propaganda foi somente uma articulação possível dentre as diversas possibilidades desenvolvidas, na verdade, por Edward Bernays, o pai da profissão de relações públicas e uma das maiores mentes da propaganda no século XX. A inovação trazida por ele foi justamente a associação de palavras e ideias a determinadas emoções, tornando possível o controle dos sentimentos do público e, com isso, de suas ações.

Ao longo do século passado, essas técnicas foram usadas para suscitar repulsa a determinadas ideias, paixões por outras, desejos e até dependências psicológicas a conceitos ou produtos comerciais de clientes específicos. Puderam transferir a culpa de crimes a inocentes mediante exposições na mídia, assim como transformar heróis em bandidos e vice-versa.

Bernays pode ser considerado o idealizador de grande parte da cultura de massa do século passado, do consumismo e da cultura sentimental que vemos hoje. Foi inspirador de Goebbels e deu à propaganda o nome mais genérico e menos agressivo de relações públicas. Com técnicas ligadas à psicanálise, ele empreendeu uma das maiores e mais decisivas mudanças na mente do cidadão comum ao transferir o interesse do consumo da necessidade prática ao desejo simbólico.

Junto aos trabalhos de outros pesquisadores de comunicação social anteriores e posteriores, as técnicas de Bernays foram utilizadas amplamente por institutos de pesquisa social e empresas interessadas em controlar a opinião pública. Este interesse foi crescendo a partir do que era visto como uma necessidade desde o século anterior: a do controle social por meio de uma elite esclarecida. Vejamos como essa necessidade veio a se formar para compreendermos então o papel de Bernays e dos resultados perceptíveis à nossa volta.

O primeiro mito a se desfazer é o de que ideias de controle social são oriundas de mentalidades ligadas a regimes totalitários. Estes regimes só aperfeiçoaram e deram caráter mais técnico a uma necessidade dos próprios regimes democráticos de caráter liberal. A prova disso é que essas ideias surgem da mente de liberais interessados no progresso das ideias e das liberdades. Em muitos aspectos, ideias totalitárias são decorrentes de uma hipertrofia de ideias profundamente democráticas. Afinal, a democracia para funcionar deve contar com o consentimento total. Isso não quer dizer que a democracia seja o problema, mas pode significar que a sua defesa meramente ideológica ou instrumental tem grandes chances de se transfigurar em uma campanha fascista. E gênios ideólogos souberam utilizar muito bem este potencial.

Desde que pensadores como John Locke apontaram para a importância dos jornais na educação da população, muitos intelectuais e cientistas se dedicaram à compreensão do funcionamento da mídia de massa para estabelecer técnicas precisas de controle por meio de uma elite. A própria ideia de democracia liberal exige um tipo de legitimação que vai além da mera defesa teórica de seus pressupostos, mas passa pela necessidade de se gerar um consentimento público ou o que Karl Mannheim chamaria de “democracia militante”. A existência de propostas de caráter controlador e totalitário, portanto, se deve ao tipo de intelectualidade que acabou ocupando lugar de destaque neste processo. A passagem da ideia de controle indireto da opinião pública para um processo de controle estatal da mídia propriamente, está diretamente ligado à ascensão de um tipo de elite, a socialista fabiana, que se origina das classes pequeno-burguesas historicamente carentes de atenção estatal.

A proeminência das classes intelectuais na opinião pública, a partir do processo de crescimento da circulação de jornais políticos desde o século XVIII, culminou, no final do século XIX, com o florescimento das ideologias massivas, herdeiras e saudosas dos “avanços” da Revolução Francesa. O puritanismo da classe burguesa (influenciado pelo protestantismo), aliado às crenças no poder redentor das revoluções populares, trouxe a idealização de um tipo de proletariado defensor de seus direitos e participativo nas lutas políticas. Esta expectativa, porém, existente só na mente dessa pequena burguesia, não se efetivou na prática, pois o povo proletário do final do século XIX não se interessava por política nem por revoluções, já que as próprias condições de trabalho não pioravam como tentara demonstrar Marx. Isso trouxe certa desilusão no poder popular transformador, por parte dos intelectuais. Marx foi um dos responsáveis pela confusão entre o proletariado e a pequena burguesia insatisfeita ao usar dados do proletariado inglês e cruzá-los com as suas supostas consequências, às revoluções de 1848. Ocorre que estas revoluções foram levantes provocados pela pequena burguesia alfabetizada e insatisfeita, não por operários.

O resultado deste processo psicológico, muito bem descrito por Emmanuel Todd em seu livro “O louco e o proletário – filosofia psiquiátrica da história” (1951), foi o estabelecimento de um poder paralelo dos herdeiros dessa recalcada burguesia intelectual, cuja expressão mais clara está na atual elite globalista que já no início do século XX estava no comando da intelectualidade mundial.

O início do século XX, portanto, foi marcado por pesquisas de opinião pública de caráter normativo, a chamada escola funcionalista, que tinha como principal objetivo o conhecimento de técnicas para a manutenção da ordem pública, objetivo de uma classe científica de escola positivista. Os institutos de pesquisa social, como Rockefeller e Tavistock, inspirados na antiga confraria de pesquisadores de Wellington House, dedicaram-se ao estudo do processo cognitivo e os seus resultados práticos para a política.

Mais tarde, porém, percebeu-se que as agendas políticas deviam ser trabalhadas no campo cultural, o que trouxe maior margem de ação a estes pesquisadores. Hoje, nomes como Edward Bernays, Kurt Lewin, Walter Lippmann, entre outros, são referências em matéria de opinião pública e psicologia das massas, apesar de seus estudos serem vistos como meras investigações sem funções práticas. Lippmann, em seu livro “Opinião Pública” (1922), revolucionou os estudos de mídia ao relacionar as decisões dos cidadãos às imagens do mundo em suas mentes, cuja construção caberia a uma elite de esclarecidos que tivessem o controle dos meios de comunicação. Suas conclusões foram derivadas das descobertas de Ivan Pavlov sobre o condicionamento cognitivo das ações e dos comportamentos dos animais aplicados ao homem. Assim, Lippmann salienta a importância dos diversos mecanismos de censura como condição para a construção social, e sua função de barreira necessária entre o público e os eventos para a construção dos pseudo-ambientes.

Lippman – importante fonte de estudos em comunicação hoje – argumentava que a democracia representativa não poderia funcionar sem uma “organização especializada e independente que torne os fatos invisíveis inteligíveis àqueles que tomam as decisões”. Ele concluia o primeiro capítulo dizendo: “Minha conclusão é que, para serem adequadas, as opiniões públicas precisam ser organizadas para a imprensa e não pela imprensa”.

Estando o público distanciado dos eventos reais por meio de barreiras naturais ou artificiais, este terá, portanto, como única imagem destes fatos o que é passado por meio da mídia, das notícias diárias. “O único sentimento que alguém pode ter acerca de um evento que ele não vivenciou é o sentimento provocado por sua imagem mental daquele evento”, diz Lippmann. Entre os seres humanos e o ambiente real, há a presença marcante dos pseudo-ambientes dos quais o comportamento é uma resposta. Este comportamento-resposta, porém, se é uma ação, não opera evidentemente no mundo dos pseudo-ambientes onde foi estimulado, mas no ambiente real onde de fato as ações acontecem.

Em termos práticos, isso quer dizer que, de posse do controle das notícias, pode-se determinar em grande parte as respostas dos cidadãos, por meio da geração destes pseudo-ambientes. Para determinar ações ou sentimentos específicos nos indivíduos, portanto, basta ater-se à forma como é construída a imagem do objeto e torná-lo socialmente válido. Ou seja, se as ações fossem respostas à realidade, seria muito difícil determinar ações, pois é impossível mudar os fatos dos quais as ações são a resposta. Esta é como se vê uma explicação lógica da mentira sistematizada.

Lippman foi membro da Sociedade Fabiana na juventude até se desiludir com o socialismo por não concordar com a ideia da luta de classes, embora aceitasse a sua existência na realidade. A imagem mental da ideia de luta de classes fomentaria o caos e a desordem, coisa tida como inevitável para os socialistas. Ele queria que a sociedade fosse controlada para a democracia e a ordem e via no marxismo ortodoxo um entrave à paz, apesar de concordar com a doutrina marxista quanto à economia. Não é a toa que Lippmann é um dos honoráveis fundadores do Council of Foreign Relations (CFR), em 1919, uma das mais atuantes entidades de influência da opinião pública no mundo. Com o CFR, o sonho de Lippmann e de muitos intelectuais fabianos estava mais perto de ser realizado.

— Cristian Derosa é jornalista.

*Continuação do artigo – O “Quarto Poder” e o controle da opinião pública (2° Parte) – com o subtítulo:Engenharia do consentimento.

*Titulo original deste artigo: Edward Bernays e o controle da opinião pública – Publicado em Midia Sem Mascara.

 

Capturado, combatente do Estado Islâmico revela os laços dos terroristas com a Turquia.

A matéria que segue, concisa, mas reveladora, traz a entrevista com um combatente do EI mantido como cativo pelas forças curdas, YPG.  Cidadão turco recrutado pelo EI ele cedeu ao Sputnik News Turquia uma entrevista elucidativa, posto que confirma aquilo que já se sabe sobre o EI. A matéria não é assinada.

Capturado, combatente do Estado Islâmico revela os laços dos terroristas com a Turquia.

Matéria: corpo editorial do Sputnik News/Turquia

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

Mahmut Ghazi Tatar, membro combatente capturado da organização terrorista Daesh, Estado Islâmico, cedeu declarações ao Sputnik Turquia, revelando detalhes sobre como é estar nas fileiras do Daesh, Estado Islâmico,  e dos da Turquia com o grupo terrorista.

Correspondente Sputnik Türkiye conseguiu gravar uma entrevista com um dos membro da Daesh (Estado Islâmico) que foi capturado por tropas curdas na Síria. O depoente é  Mahmut Ghazi Tatar, de 24 anos de idade, que se juntou Daesh da cidade turca de Adıyaman.

Mahmut Ghazi juntou Daesh depois de ter sido influenciado por um amigo seu que havia se juntado ao grupo. Ele, junto com outros 27 turcos, foi auxiliado no processo de travessia da fronteira síria, onde se juntou às fileiras dos militantes.

“Depois de atravessar fronteira fomos transferidos para um campo de treinamento a uns 5 km da fronteira. Recebemos treinamento militar e frequentamos aulas de religião. Antes do início do treinamento, a cada um de nós foi perguntado se aceitaríamos ser mártires. Eu recusei. Esta pergunta é feita de todos os novos recrutas. Aqueles que concordam, no prazo de 6 meses recebem formação religiosa especial. Desde que eu recusei, minha educação e treinamento durou 70 dias. Aprendemos pelos livros turcos. Durante o treinamento, algumas pessoas da Turquia vieram até nós para verificar-nos. Eles não tinham barbas, não eram membros da Daesh (Estado Islâmico) “, Mahmut Tatar, em entrevista para o Sputnik Turkiye.

Depois de receber a sua formação militar/religiosa, os 27 turcos membros do EI foram enviados para a cidade de Tel Abaid, onde passaram a viver em casas, tendo a formação continuada. Seus nomes foram mantidos em segredo e não lhes fora permitido entrar em contato com as suas famílias, por um período mínimo de seis meses.

Falando sobre como ele foi aprisionado por soldados curdos, Ghazi disse que, ao receber o aviso da presença de soldados curdos por parte de outros membros Daesh/EI, ele como 12 outros membros do grupo, empreenderam fuga de Tal Abaid. Estavam escondidos em uma vila próxima. Mas na manhã seguinte, quando Ghazi tentou fazer uma corrida, foi surpreendido e rendido.

“Os curdos tratam bem os prisioneiros, oferecem água, alimentação e cigarros. Aqui sou mantido, nesta sala, juntamente com várias outras pessoas. Eu não achava que eles me tratariam tão bem, tinha medo de tortura. Pensei que seria morto, mas descobri que as tropas curdas não matam os seus cativos. Ouvi dizer que os membros do Daesh/EI ao serem capturados por curdos são mortos de imediato, ou são mantidos vivos, para que façam  trocas de prisioneiros com os curdos”.

Falando sobre o que ele ouviu de seu comandante, o membro capturado revelou que durante sua permanência no campo de treinamento, em Maio de 2015, um dos comandantes do Daesh/Ei, Abu Talha, disse-lhes que o grupo vende petróleo para a Turquia. De acordo com Abu Talha, o dinheiro que foi levantado a partir da venda do petróleo no mercado Turco ajudou o Daesh/EI a resolver todas as suas dificuldades financeiras.

“Comboios petroleiros são enviados todos os dias para a Turquia com petróleo bruto, óleo combustível e gasolina. A principal fonte de renda para Daesh/EI é o comércio de petróleo e os estoques de petróleo vai durar-lhes um longo tempo “.

Abu Talha disse-lhe, também, que “o grupo ganha rios de dinheiro ao travar comércio com a Turquia”. Ele também disse que o óleo é vendido por meio de mediação, que faz uso de grande número de empresários e comerciantes, mas não deu nomes. Daesh/EI recebe “muitos produtos provenientes da Turquia e de outros países árabes “, Mahmut Ghazi revelado.

Ele mencionou que seus comandantes não atribuiu particular importância aos bombardeios norte-americanos. Eles acreditavam que ele foi feito como um pretexto. Um dos militantes perguntou por que o comandante Daesh/EI não estava lutando contra Israel. Abu Talha disse: “Primeiro temos de quebrar um pequeno muro e, em seguida, destruir o grande”.

De acordo com o membro capturado, novos recrutas se juntaram ao grupo, provindos da Arábia Saudita, Tunísia, Iêmen, Qatar, Líbano e Egito. Cruzaram a fronteira com a Turquia, algo que é muito simples de fazer. Os militantes provindos da Europa e América seguem a mesma rota.

“Os comandantes disseram-nos que eles estavam indo para cometer um ato terrorista que irá exceder em escala aquele dos ataques do 11 de setembro contra os EUA”, Mahmut Ghazi concluiu.

 

AH-2 Sabre: o trovão alado

 

Uma nota necessária:

A matéria que segue foi redigida por mim para o Portal Defesa e versa sobre o helicóptero de ataque Mi-35M, versão última do destacado Mi-24, cujas ações recentes nos céus sírios, capturado em imagens feitas muitas vezes pelos próprios insurgentes que por eles são castigados, demonstram mais uma vez o imenso valor de combate deste vetor. Apesar de ser uma máquina de guerra de inegáveis qualidades, e que recebeu em solo brasileiro críticas várias pelo simples fato de ser proveniente de um fornecedor não usual das armas brasileiras: a Rússia. Tais preconceitos, entretanto, foram dirimidos com a operação do mesmo pela FAB, dado que é o vetor que apresenta um dos maiores, se não a maior disponibilidade de rampa, além de ser o único que efetuou um disparo de arma anti-carro guiada com alcance superior a 3,5 km. Devo dizer, também, que os pilotos do esquadrão POTI são unânimes quanto as qualidades guerreiras da máquina. A aquisição do Mi-35 pelo Brasil foi um acerto, disto, creio, não existem mais dúvidas.
O link para a matéria presente no Portal Defesa é o que segue:Portal Defesa – AH-2 Sabre: o trovão alado..

AH-2 Sabre: o trovão alado

Por: César A. Ferreira

O Mi-35M, denominado como AH-2 pela FAB – Força Aérea Brasileira – é uma aeronave ímpar no inventário desta força, constituindo o único vetor de asas rotativas dedicado ao ataque presente nas Armas nacionais. Derivado do Mi-24, sendo deste a última atualização, exibe uma folha de combate extensa ao redor do mundo, e um grande número de operadores. De sucesso inegável, dotado de robustez legendária, tornou-se um verdadeiro sinônimo de helicóptero de ataque pelo mundo todo.

O contrato para aquisição dos helicópteros foi firmado em 2008 e as aeronaves começaram a chegar ao Brasil a partir de abril de 2010, precisamente no dia 17, em lotes de três aeronaves, sendo entregues nove delas até o presente momento, sendo aguardada para breve a entrega do último lote. Os helicópteros foram entregues em voos diretos através da companhia cargueira Volga-Dnepr em aeronaves AN-124, que vem a ser o maior avião cargueiro em operação no mundo, na Base Aérea de Porto Velho, lar do 2º Esquadrão do 8º Grupo de aviação (2º/8º), Esquadrão Poti.

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Mi-35M/AH-2 Sabre com todos os seus acessórios presentes: supressor IR, mísseis 9M120 e Foguetes. Foto: internet.

O Esquadrão Poti conta com 29 pilotos habilitados, hoje. Os primeiros pilotos aptos a operar o AH-2 Sabre finalizaram o curso em solo brasileiro nas novas aeronaves do Esquadrão assim que estas chegaram. A partir disso, passaram a lapidar todo o envelope operacional do vetor a ponto de se ter feito lançamentos de armas anti-carro guiadas, uso de FLIR e NVG, em campanhas de tiro realizadas em Cachimbo, bem como na Restinga de Marambaia. Nestes exercícios foi possível notar a precisão dos sistemas de armas da aeronave, responsáveis pela pontaria excepcional do vetor, eficiente em 100% dos lançamentos com mísseis, foguetes e acertos com os disparos efetuados pelos canhões geminados. No exercício Zarabatana IV o Mi-35M exibiu 100% de acertos! O seu último exercício envolveu o uso de NVG (Zarabatana V). Um detalhe curioso observado é o costume por parte dos membros do Esquadrão Poti de utilizar o compartimento de assalto como um espaço para transporte de carga ligeira nos deslocamentos do Esquadrão.

O Mi-35M, em que pese o seu alto grau de acertos devido ao computador balístico, exige da sua tripulação uma pilotagem cuidadosa. Não é algo surpreendente, pois é um helicóptero grande, com enorme reserva de potência (algo que agrada em demasia aos pilotos) e dotado de um cubo de rotor semi-rígido, o que impõe uma dinâmica de voo diferente daquela experimentada nos Esquilos, para citar um exemplo. Tripulado por dois especialistas, piloto (1P, Primeiro Piloto) e POSA (Piloto Operador do Sistemas de Armas), dispostos em tandem em cabines separadas em degrau, com cockpits em formato de bolha, sendo a posição frontal reservada ao POSA, exige o Mi-35M extrema coordenação entre estes, dado o fato de que é o Primeiro Piloto aquele que sinaliza as condições ótimas da aeronave para os disparos ao POSA, que adquire os alvos, os enquadra e efetua os disparos. A pilotagem é possível de ser feita da posição do operador de sistemas de armas, todavia de maneira muito desconfortável devido aos comandos para disparo dos canhões. O ambiente dos pilotos é tomado por uma variedade de botões e disjuntores, além de mostradores digitais, distribuídos por painéis frontais e laterais. Os assentos são ajustáveis e para surpresa de muitos o uso de paraquedas é previsto para os tripulantes.

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O cockpit do piloto(Foto 1 e 3) contém 2 MFD, o operador do canhão(Foto 2) possui um MFD acima do controle do canhão: Foto: Rostvertol/MIL.

Para os pilotos do Esquadrão Poti a aeronave representa um salto gigantesco, por óbvio. Antes equipado com helicópteros leves Esquilo, equipados quando muito para reconhecimento armado, agora voam em um poderoso gigante de 12 toneladas (10 toneladas de diferença), com rotor de cabeça semi-rígida. Um dado interessante é que helicópteros com cubos semi-rígidos são tidos como menos manobráveis e de fato é uma tática clássica o uso de “Hinds” em duplas, justamente para compensar a menor agilidade do vetor. Todavia, o antecessor do Mi-35M, o Mi-24, exibe vitórias contra outros helicópteros em combates pelo mundo, notadamente o AH-1J“Sea Cobra” da IRIAF, com dez vitórias alegadas contra seis do vetor fabricado nos EUA. Nesta guerra, o Mi-24 tem ainda um abate alegado contra um caça supersônico, que seria um F-4 Phantom II…

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AH-2 Sabre taxiando. Foto: Agência Força Aérea – Sargento Rezende.

O AH-2 tem se destacado pela operacionalidade e flexibilidade dentro da FAB. Participou do esquema de segurança da Conferência Rio + 20, da Copa das Confederações, da Operação Ágata 7 (guarda de fronteira) e está elencado para atuar durante a Copa do Mundo Fifa. Os pilotos não escondem o entusiasmo com a máquina, todavia, apesar de tanto sucesso surgiram alguns mitos sobre a atuação dos helicópteros russos no Brasil e o serviço de pós venda; não se sabe o motivo do aparecimento dessas lendas, todavia, fazemos bem discuti-las…

Mitos sobre o AH-2 da FAB:

1) Mito: pilotos e mecânicos não conheciam as aeronaves, não sabiam voá-las e/ou mantê-las e por isso elas ficaram inoperantes por muito tempo.

Fato: boato nascido de uma nota jocosa publicada pelo jornalista Claudio Humberto. Pilotos e mecânicos iniciaram as suas instruções ainda em solo russo, seis meses antes da entrega do primeiro lote, enfrentando temperaturas de até 30° Celsius negativos (-30°).

2) Mito: as aeronaves ficaram inoperantes por falta de APU, pois a alimentação das aeronaves se dá em um padrão diferente do adotado pela FAB, equivalente ao da OTAN.

Fato: a aeronave conta com APU orgânico, e todas elas giraram motores assim que foram aprontadas pelos mecânicos e especialistas de suporte da fábrica.

3) Mito: parafusos e porcas são no padrão métrico, que difere das medidas das ferramentas da FAB que são no padrão imperial. Os russos não mandaram ferramentas.

Fato: o padrão métrico é utilizado pela indústria automotiva no Brasil, e o que não falta são ferramentas com ambas as medidas em qualquer loja de autos. As ferramentas foram adquiridas.

4) Mito: a pós-venda não é adequada, a operacionalidade é baixa e o custo de hora de voo é alto.

Fato: o custo de hora de voo está dentro dos parâmetros esperados para uma aeronave da categoria do AH-2 Sabre (Mi-35M) e todos os requerimentos de peças e/ou componentes foram atendidos pelo fabricante. Jamais houve falta de peças, ou de suprimento de qualquer ordem. A operacionalidade do esquadrão é de 6 aeronaves em rampa para três em reserva (0,67%), sendo possível aumentar a disponibilidade para sete aeronave em qualquer situação (0,77%). No caso de uma emergência não seria impossível o apronto das nove aeronaves, ou seja, de se ter todas elas disponíveis (100%).

5) Mito: os mecânicos russos vivem de bebedeira pelas ruas de Porto Velho, não existem tradutores, a comunicação é por mímica e os manuais são em inglês, ou em espanhol.

Fato: não existe reportagem, ou menção alguma de desordens feitas pelos técnicos russos, no trabalho, ou em folga. O comportamento dos especialistas da fábrica não possui reparo algum a ser feito. Tradutores acompanham estes técnicos e manuais em inglês nunca foram um problema para a FAB, que convive com os mesmos desde a sua infância.

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Tradutora acompanha os trabalhos do Esquadrão Poti. Foto: internet.

6) Mito: o serviço de pós-venda entregou mísseis ultrapassados e não os mísseis ATAKA, previstos no contrato.

Fato: as armas entregues foram o 9M120 ATAKA (6 km de alcance), conforme especificado no contrato.

7) Mito: a aeronave é de difícil manutenção. É odiada pelos mecânicos e pilotos.

Fato: a aeronave e adorada pelos pilotos, devido a sua capacidade e robustez, e os mecânicos se assombram com a praticidade e a simplicidade de algumas soluções de engenharia. Por exemplo: para a retirada de um motor, basta pouco mais do que uma chave e uma grua. O serviço é feito em 30 minutos, ou menos. Além do mais, as asas de suporte para armamentos permite trabalho acima das mesmas, ou seja, não existem avisos de “No Step”, por não serem necessários.

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Militares trabalham na limpeza de um AH-2 Sabre (Mi-35M). Notar a presença de um deles sobre uma das asas – não há aviso de “No Step”. Foto: Sargento Prado. DETCEA – CG.

8) Mito: a aeronave foi entregue sem os supressores de calor.

Fato: os supressores foram entregues, conforme previsto em contrato, e só não são vistos com frequência por não ser necessário o seu uso com constância em tempos de paz.

 Mitos e fatos advêm de dados coletados pelo autor a partir de fontes especializadas.

Motores

A aeronave é motorizada por duas turbinas Klimov VK-2500, quem vem a ser a versão aperfeiçoada da afamada RV-3117VMA-SB3. Exibindo a conhecida robustez desta família de motores, a série VK-2500 equipa também os helicópteros de ataque Mi-28 e Ka-50/52. A VK-2500 apresenta uma vida útil da ordem de 6.000 horas e as suas inspeções se dão no intervalo de 50, 100, 200, 1000 e 2000 horas. As inspeções até 200 horas deverão ser feitas no Brasil, e aquelas de 1000 horas ou mais dar-se-ão junto ao fabricante.

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Instalação dos motores na célula. Notar a disposição lado a lado no alto, típica dos projetos dos anos 60/70. O acesso aos motores é fácil. Foto: Portal Defesa/ Gérson Victorio.

O vetor exibe uma considerável independência das equipes de solo. Homologado para operações entre temperaturas de +60º e -60º Celsius, conta com uma APU – Auxiliary Power Unity – modelo AI-9V. A APU fornece energia para que os compressores dêem a partida nos motores, além de alimentar os sistemas da aeronave. As baterias do helicóptero são capazes de iniciar a APU, desta maneira o Mi-35 reduz a necessidade de apoio de solo e facilita a dispersão e o deslocamento em regime de combate.

 Sensores e navegação

O Sistema de Armas do Mi-35 consiste da suíte OPS-24, esta formada pelo módulo de sensores GOES-342, como do sistema de navegação digital KNEI-24.

Torreta GOES-342 – Possui designador laser (telêmetro laser com precisão de 5 metros), FLIR (Forward Looking Infra-Red) que opera nas bandas de 8 µm a 12 µm, TV de baixa luminosidade, designador e orientador infravermelho; a torre giratória apresenta uma mobilidade de +/- 230 graus em azimute e -115° e + 25° em elevação.

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Detalhe frontal do AH-2/Mi-35M. A torreta GOES – 342 está em destaque. Foto: Portal Defesa/Gérson Victorio.

Os demais sistemas agregados ao Mi-35 incluem: mostradores multifunção (4), HUD, IFF, radar altímetro e rádio-goniômetro. Além disso, os painéis são compatíveis com o uso de NVG (Night Vision Goggles) ANVIS-9 (M949), Geofizika ONV-1.

Complementa os sistemas de armas do Mi-35 a antena do sistema de orientação via rádio, para os mísseis Shturm/ATAKA. Por sua vez, no tocante a navegação, o Mi-35 apresenta o computador dedicado Baruch KNEI-24, que opera com sistemas de posicionamento global por satélite GLONASS e GPS, em paralelo com outros meios como INS, em especial o radar Doppler DISS-15D, rádio-altímetro RV-5, rádio-goniômetro de busca e salvamento SAR, RDF (Radio direction finder) ARK-U2, sistema ADF (Automatic Direction Finder), além dos sistemas de transponder IFF (Identification Friend or Foe) e transponder comum.

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Imagem comparativa do 9M120 ATAKA com o antecessor 9M114 Shturm. Imagem: internet.

Armamento

No tocante às armas, o vetor russo conta como arma primária o canhão geminado Gryazev Shipunov Gsh-23L, arma potente e precisa que exibe uma cadência de tiro de 3.400 disparos por minuto (ambos os tubos juntos), cuja velocidade do projétil é de 715m/s. O cofre de munição da referida arma compreende 470 cartuchos e estes podem ser dotados de projéteis de alto explosivo/fragmentação, anti-blindagem, incendiário/anti-blindagem, etc…

Exibindo uma capacidade relativamente pouco comum nos helicópteros de ataque, o Mi-35 possui meios de combate contra aeronaves muito ampliados pelo uso de mísseis ar-ar, que podem ser tanto o míssil leve 9K38 – Igla V (5,2 km de alcance) quanto o míssil dedicado R-73E (código OTAN AA-11 “Archer”), havendo ainda a opção pelo R-60M (AA-8 “Aphid”) estes últimos fabricados pela Vympel.

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Opções de armamentos: 9K38 Igla-V, R-60M Molniya e bombas de queda livre. Imagens: internet.

Outra capacidade pouco vista em helicópteros de ataque é o uso de bombas de queda livre, forma de uso vista em ação no conflito civil sírio. Para esta modalidade de emprego, o bombardeio, o Mi-35 conta com as seguintes armas homologadas: até 8 bombas de queda livre OFAB 50UD de 50 kg (110 lb), 8 OFAB 100 de 100 kg (220 lb), 4 FAB-250M-46 de 250 kg (550 lb) ou duas FAB-500M-46 de 500 kg (1100 lb), 2 bombas incendiarias “Napalm” ZB-500 ou 4 “Napalm” ZB-250 e um dispensador de submunições KMGU-2.

O Mi-35 também pode ser armado com foguetes não guiados de alto poder destrutivo, S-13, S-24B e S-8. A FAB equipou os seus AH-2 com pods de foguetes não guiados de 80mm B-8V-20A, foguetes estes que se revelaram precisos e com cabeça de guerra de extrema eficiência. As ogivas dos foguetes não guiados S-8 são: BM (penetração de concreto), T (alto-explosivo/fragmentação), DF (alto explosivo), OM (iluminação), PM (Chaff – autodefesa), TsM (designação de alvos). Cada pod comporta 20 foguetes e o Mi-35 opera com o máximo de 60 foguetes.

Para a missão de ataque às colunas blindadas inimigas os AH-2 Sabre (Mi-35) da Força Aérea Brasileira são equipados com os mísseis anticarro 9M120 ATAKA, que exibem 6 km de alcance, 42,5 kg de peso, velocidade de 400 m/s, além da capacidade de penetração de 800 mm de blindagem composta, mesmo que esta esteja protegida por ERA (Explosive Reactive Armour). São levados por aeronave até oito mísseis.

Comunicações

A suíte de comunicações do Mi-35 é simples e composta por um Transceiver VHF Bendix-King KTR-908, um rádio de comunicações com saltos de frequência Röhde & Shwarz MR6000R e um HF Bendix-King KHF-1050.

Blindagem e Proteção

Como uma herança do IL-2 Shturmovik, o Mi-35 possui uma banheira blindada para proteção dos tripulantes; essa proteção, inclusive, se estende para os motores, caixa de transmissão principal e intermediária, sendo homologada contra impactos de munições até 20mm. Os pilotos contam com a blindagem transparente (canopy blindado) dotada de proteção contra projéteis de calibre 0.50 (12,7mm); como proteção ativa o vetor conta com uma suíte de contramedidas eletrônicas composta por um sistema RWR (RadarWarning Receiver) L-006LM, sistema de jammer IR L166V1AE e dispensadores de chaff/flare ASO-2V, este último com capacidade para 192 cartuchos. O compartimento de carga não possui blindagem e o helicóptero conta com a possibilidade de instalação de dois supressores de calor, que adicionam ar frio e direcionam os gases, agora misturados, para o alto, de modo a serem dispersados pelas pás do rotor principal.

Rotor e pás

O rotor principal apresenta mudanças em relação àqueles observados nas versões anteriores do Mi-24. Possui suas pás compostas por uma estrutura em forma de favos de mel, preenchidas por 17 bolsas de ar, que permitem à aeronave manter-se no ar com até três avarias numa mesma pá; estas, por sua vez, possuem suas lâminas compostas por aço e apoiadas em tubos de titânio, revestidas por fibra de vidro e com uma proteção no bordo de ataque de uma tala de titânio que conta com proteção contra formação de gelo.

O rotor de cauda difere daqueles vistos nas versões anteriores do Mi-24, pois na versão Mi-35M adotou-se a mesma disposição havida no Mi-28N Night Hunter. Ou seja, substituiu-se o antigo rotor tripá de cauda, com lâminas separadas em 120°, pela configuração quadripá, disposta em “X”, com defasagem de 36°. Tal alteração aumentou a vida útil da célula e resultou em uma menor emissão de ruído. De fato, o Mi-35 é uma aeronave silenciosa para o seu porte.

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Detalhe das pás e do rotor de cauda. Notar na pá a luva de titânio do bordo de ataque, bem como o rotor de cauda disposto em “X”. Imagens: Portal Defesa/Gérson Victorio.

Operadores

O Mi-35M é operado no momento pelo Brasil, Venezuela, Rússia e Iraque. Já os operadores das versões anteriores, Mi-24, somam mais de 30 países.

Características

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