Executar Al-Nimir foi um movimento esperto dos Sauditas

Autor: Moon Of Alabama.  Tradutor não especificado.

Fonte: Oriente Mídia. 03.01.2016.

O governo saudita executou 47 prisioneiros de muito tempo, condenados à morte por prática de ações terroristas e insurgência. Do ponto de vista dos sauditas, foi movimento político esperto. Os sauditas enfrentam dificuldades na guerra que movem contra o Iêmen. Depois de nove meses de bombardeio infernal, não se vê nem sinal de qualquer ‘vitória’ saudita possível, nem de que, tão cedo, consigam reinstalar em Sanaa o governo cliente dos sauditas que lá havia, e já não há. Enquanto isso, as forças do Iêmen atacam (vídeo) sem parar, uma cidade saudita depois da outra. O projeto dos sauditas de fazer “mudança de regime” com participação de jihadistas salafistas no Iraque e na Síria, também vai de mal a pior. Os baixos preços do petróleo já obrigaram o governo saudita a impor impostos à população. Impostos e mais impostos nunca geraram popularidade para governo algum. Para distrair a atenção dos cidadãos, os sauditas decidiram livrar-se de um grupo de prisioneiros e usar as execuções como meio para recuperar alguma “legitimidade”. Muitos dos 47 executados eram realmente tipos associados à al-Qaeda, que há dez anos mataram e explodiram prédios na Arábia Saudita e muito fizeram tentando derrubar o governo saudita. Com as recentes manifestações anti-sauditas feitas pelo Estado Islâmico e al-Qaeda, cresceu o risco real de levantes na prisões, ou de que alguma ação com reféns venha a exigir a libertação de prisioneiros.

Só quatro dos executados eram xiitas. Um desses era o conhecido pregador e agitador xiita Nimr Baqr al-Nimr, da maioria xiita da província oriental de Qatif, na Arábia Saudita.

Al-Nimr havia convocado a juventude na Arábia Saudita e no Bahrain a levantar-se contra o governo. Pregou a derrubada não apenas dos governos tiranos de Arábia Saudita e Bahrain, mas também, do governo do presidente Assad na Síria. Não era submisso ao Irã, mas defendia a modalidade iraniana de governo. Al-Nimr se dizia contra a violência, mas várias das manifestações convocadas por ele terminaram com manifestantes e policiais mortos. Quase inacreditável que os sauditas o tivessem deixado livre para pregar por tanto tempo. Qualquer clérigo sunita na Arábia Saudita teria sido preso e morto por conversa muito menos revolucionária que a dele.

Alguns idiotas, como Keneth Roth do “Observatório de Direitos Humanos”, disse que al-Nimr desejava um estado democrático:

Kenneth Roth @KenRoth:

O crime de Sheikh Nimr: liderar protestos pacíficos a favor da democracia saudita, igualdade para os xiitas”.

Perfeita imbecilidade. Em 2008, um diplomata dos EUA falou com al-Nimr. Telegrama que se pode ler no site Wikileaks e que resume aquela conversa:

Al-Nimr descreve sua atitude e de al-Mudarrasi em relação à governança islamista como algo entre “wilayet al-faqih,” quando um país é liderado por um único líder religioso, e “shura al-fuqaha,” quando um conselho de líderes religiosos deve guiar o Estado. Al-Nimr, que dirigiu estudos religiosos por aproximadamente dez anos em Teerã, e por “uns poucos anos” na Síria, disse que toda e qualquer governança deve ser conduzida mediante consultas, mas a quantidade de poder oficial a ser entregue a uma determinada autoridade governante deve ser determinada a partir da qualidade relativa dos líderes religiosos e da situação política no momento.

Sistema liderado exclusivamente por clérigos ou líderes religiosos não é democracia. Dessa entrevista se pode extrair também que al-Nimr não tinha, na verdade, ideia clara sobre o que realmente queria. O que parecia estar resolvido é que queria “estar sempre com o povo, nunca com o governo”, independente de quem governasse ou do que estivesse certo ou errado.

A paciência dos sauditas esgotou-se quando, em junho de 2012, al-Nimr desrespeitou a morte do ex-ministro do Interior e príncipe coroado Nayef bin Abdul-Aziz Al Saud:

Disse que “o povo deve regozijar-se com a morte [de Nayef]” e que “será comido por vermes e sofrerá no túmulo os tormentos do Inferno”.

Foi demais. Al-Nimr foi preso e condenado à morte.

Houve preocupação em torno da possibilidade de a execução de al-Nimr aumentar as tensões entre sunitas e xiitas. Vários governos e a ONU alertaram que a execução faria aumentar as disputas sectárias.

Pois, então? Aí é que está!

A legitimidade do governo saudita depende de abundância de dinheiro e de aparecer como wabbabita sectário “guardião da fé”. Elevar a barra da guerra sectária, provocando reação violenta dos sauditas, só ajuda o governo dos sauditaa a mobilizar em favor deles até mesmo os clérigos e a população sunita wahhabita. A execução de um xiita conhecido também serviu para encobrir a execução dos militantes da al-Qaeda, que também contam com muitos simpatizantes na Arábia Saudita; matá-los sem matar al-Nimr teria levado a protestos, ou coisa pior, dos sunitas radicais. Mesmo com a “cobertura” da execução de al-Nimr, entidades tipo al-Qaeda fora da Arábia Saudita já juraram vingança.

O governo iraniano e organizações xiitas no Iraque caíram rapidamente na armadilha e protestaram contra a execução de al-Nimr. Os iranianos permitiram que gangues organizadas atacassem a embaixada saudita em Teerã, que foi incendiada. Na província leste da Arábia Saudita, manifestantes xiitas atacaram violentamente forças policiais.

Exata e precisamente o que os governantes sauditas queriam e tudo de que mais precisavam. Também pode ter sido o que alguns círculos conservadores iranianos esperavam ansiosamente.

O Império do Caos prepara mais incêndios em 2016

O texto que segue é de autoria do respeitado colunista brasileiro Pepe Escobar, redigido em inglês na data de 24 de dezembro último (2015) para o prestigiado site RT – Russian Today. Pepe Escobar é ignorado pela mídia brasileira, todavia, os seus textos são reproduzidos pelo mundo afora, em inglês…

O Império do Caos prepara mais incêndios em 2016

Por: Pepe Escobar

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

Em seu seminal “A Queda de Roma: E o fim da civilização”, Bryan Ward-Perkins escreve, “(…) romanos antes da queda estavam tão certos quanto estamos hoje que o seu mundo iria continuar para sempre…  Eles estavam errados. Ser-nos-iam  sábios em não repetirmos a sua complacência”.

O Império do Caos, hoje, não versa sobre a complacência. Trata-se de arrogância – e medo. Desde o início da Guerra Fria, a questão crucial foi quem controlaria as grandes redes de comércio da Eurásia – ou “o coração”, de acordo com Sir Halford John Mackinder (1861-1947), o pai da geopolítica.

Poderíamos dizer que, para o Empire of Chaos, o jogo realmente começou com o golpe apoiado pela CIA no Irã, em 1953, quando os EUA finalmente encontraram, face a face, a famosa Eurásia, atravessada durante séculos pelas estradas da seda, e partiu para conquistar todos elas.

Apenas seis décadas após, é claro que não haverá uma Silk Road americana no século 21, mas sim, tal como o seu antiga antecessora, chinesa. A pressão de Pequim para o que foi batizado de “One Belt, One Road”, embute-se no conflito do século 21, entre o império em declínio e a integração Eurasiana. Subtramas chaves incluem a expansão da OTAN, obsessão perene do império na criação de uma zona de guerra fora do Mar do Sul da China.

Rota da seda
Trem inaugurando nova linha férrea na China. Foto: internet.

Com a análise da formada parceria estratégica Pequim-Moscou, as elites oligárquicas que realmente executam o Império do Caos estão debruçadas sobre o cerco da Eurásia – por considerar  que elas podem ser amplamente excluídas do processo de integração baseado em comércio, comércio e links avançados de comunicações.

Pequim e Moscou identificaram claramente provocação após provocação, juntamente com a demonização implacável. Mas, não ficarão retidos, pois ambos estão a jogar uma partida muito longa.

O presidente russo, Vladimir Putin insiste em tratar diplomaticamente com os líderes do Ocidente, tratando-os como “parceiros”. Mas ele sabe, e aqueles que os conhecem na China também sabem, que não são realmente “parceiros”. Não depois do bombardeio de 78 dias da OTAN em Belgrado, no ano de 1999. Não após o bombardeio intencional da Embaixada da China. Não depois do expansionismo non-stop da OTAN. Não após um segundo Kosovo sob a forma de um golpe ilegal em Kiev. Não depois da queda do preço do petróleo pelas monarquias clientes do Golfo, dos petrodólares americanos. Não depois da engenharia da queda do rublo por Wall Street. Não depois das sanções dos Estados Unidos da UE. Não após o esmagamento do mercado de ações na China por operadores em Wall Street. Não depois de non-stop sabre rattling no Mar do Sul da China. Não após a derrubada do Su-24.

É apenas um fio de distância

Um retorno rápido para os momentos que antecederam a preparação para o abate do Su-24 é esclarecedora. Obama reuniu-se Putin. Imediatamente a seguir Putin se reuniu com Khamenei. Sultan Erdogan teve uma síncope; uma aliança russo-iraniana formal foi publicamente anunciada em Teerã. Isso se deu no dia imediatamente anterior ao da derrubada do Su-24.

Hollande, na França, encontrou-se com Obama. Mas, em seguida, Hollande entrevistou-se com Putin. Erdogan estava sob a ilusão de que fabricara o pretexto perfeito para uma guerra da OTAN, a qual seria lançada em observância ao artigo 5º da Carta da OTAN. Não por acaso o estado fracassado da Ucrânia foi o único país a aprovar – com pressa – o abate do Su-24. No entanto, a própria OTAN recuou – um pouco de horror; o império não estava pronto para a guerra nuclear.

Pelo menos ainda não. Napoleão sabia que a história gira em torno de um fio delgado. Tanto quanto Guerra Fria 2.0 permanece em vigor estávamos, e continuará a ser, apenas um fio para longe da guerra nuclear.

Aconteça o que acontecer no chamado processo de paz sírio a guerra por procuração entre Washington e Moscou continuará. A orgulhosa US think-tank land não podem vê-la de outra maneira.

Para os neocons excepcionalistas e neoliberalcons, igualmente, o único fim de jogo digerível é uma partição da Síria. O sistema Erdogan iria devorar a parte de acima, ao norte. Israel ficaria com a parte restante e rica em petróleo do Golan Heights. E os proxies da Casa de Saud iriam devorar o deserto oriental.

Extremistas
Extremistas islâmicos em passeata de ódio. Foto: internet.

Rússia literalmente bombardeou todos estes elaborados planos jogando-os às cinzas, pois o passo seguinte após a partição seria característico.  Ancara, Riad – e o “líder de bastidor” Washington – empurrando uma estrada Jihad  por todo o caminho rumo ao norte do Cáucaso, assim como a Ásia Central adentro e Xinjiang (já há ao menos 300 uigures que lutam pelo EI/ ISIS/ISIL/Daesh.) Quando tudo mais falhar, nada como uma rodovia jihadista mergulhando como um punhal no corpo da integração Eurasiana.

No front chinês, quaisquer que sejam as “criativas” provocações do Império do Caos  e até onde possam ir, não irão obstruir os objetivos de Pequim no Mar do Sul da China – que é uma grande bacia abarrotada de petróleo inexplorado e rica em gás, além de ser uma importante rota naval para a China . Beijing, inevitavelmente, configurar-se-á em 2020 como um haiyang qiangguo um formidável poder naval.

Washington pode fornecer US$ 250 milhões em “ajuda” militar ao Vietnã, Filipinas, Indonésia e Malásia para os próximos dois anos, mas isso é em grande parte irrelevante. Quaisquer que sejam as ideias imperiais “criativas”, estas teriam que ter em conta, por exemplo, o DF-21D, míssil balístico “assassino de porta – aviões”, com um alcance de 2.500 km e capaz de transportar uma ogiva nuclear.

Na frente econômica, Washington-Pequim permanecerá como território privilegiado da guerra por procuração. Washington empurra o TPP – ou OTAN em giro comercial por toda a Ásia? Ainda é um trabalho de Sísifo, porque os 12 países membros precisam ratificá-lo, pelo menos não os EUA, com um Congresso extremamente hostil.

Contra este americana pônei de um truque, Xi Jinping, por sua vez, está implantando uma  complexa estratégia em três frentes; contra-ataque da China ao TPP, a Área de Livre Comércio da Ásia-Pacífico (FTAAP); o imensamente ambicioso “Um Cinturão, Uma Estrada” e os meios para financiar um tsunami de projetos, através do Banco Asiático de infraestrutura e Investimento (AIIB) – aríete chinês contra o Banco Mundial e o Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB), este controlado por Japão e EUA.

Para o Sudeste da Ásia, por exemplo, os números contam a história. No ano passado, a China foi o principal parceiro da ASEAN, da ordem de US$ 367.000.000.000. Isso irá crescer exponencialmente com uma correia, One Road – que irá absorver $ 200 bilhões em investimento chinês até 2018.

Heart of Darkness – revisitado

As perspectivas para a Europa são nada mais que sombrias. O pesquisador franco-iraniano Farhad Khosrokhavar tem sido um dos poucos a ser capaz de identificar o ponto crucial do problema. Um exército de reserva jihad em toda a Europa continuará a se alimentar de batalhões de jovens excluídos, nas pobres cidades do interior. Não há nenhuma evidência que os neoliberalcons da UE realizarão políticas socioeconômicas de com intuito de extrair essas massas alienadas dos guetos, empregando novas formas de socialização.

Assim, a rota de fuga vai continuar a ser uma versão semelhante ao vírus do Salafi-jihadismo, vendido por aproveitadores “PR-savvy” astutos como um símbolo de resistência; a única contra-ideologia disponível no mercado. Khosrokhavar definiu-a como o neo-umma – uma “comunidade efervescente que nunca existiu historicamente”, mas que agora está a convidar abertamente qualquer jovem europeu, muçulmano ou não, afligido por uma crise de identidade.

Em paralelo, neste nosso caminho de 15 anos completos de uma guerra neocom, sem fim, contra os Estados Independentes do Oriente Médio, o Pentágono sofrerá uma expansão turbo-charging, ilimitada, de algumas das suas bases existentes – a partir de Djibouti, no Corno de África até Erbil, no Curdistão iraquiano – em “hubs”.

Da África sub-saariana para o sudoeste da Ásia, espera-se um hub boom, todos eles alegremente hospedando as Forças Especiais; a operação foi descrita no Pentágono pelo supremo Ash “Império da lamentação” Carter como “essencial”; “Por nós não podermos prever o futuro, tais linfonodos regionais – a partir de Moron, Espanha, para Jalalabad, Afeganistão – irão fornecer a presença logística à vante, capazes de responderem a uma série de crises, de terror e de outros tipos. Permitirão resposta unilateral às crises, operações de contra-terrorismo, ou intervenções em alvos de alto valor”.

Está tudo aqui: o Excepcionalismo unilateral em ação, contra quem se atrever a desafiar os ditames imperiais.

Da Ucrânia à Síria, e em toda a MENA (Médio Oriente e Norte da África), a guerra por procuração entre Washington e Moscou, com apostas cada vez mais altas, não cessará. O desespero imperial sobre a irreversível ascensão chinesa também não diminuirá. Com o Novo Grande Jogo a ganhar velocidade, a Rússia fornece poderes aos eurasianos:  Irã, China e Índia, com sistemas de defesa de mísseis além de tudo que o Ocidente imagina, até se acostumar com a nova normalidade: Guerra Fria 2.0 entre Washington e Pequim/Moscou.

Deixo-vos com Joseph Conrad, escrevendo em Coração das Trevas: “Há uma marca da morte, um gosto ou mortalidade nas mentiras… Era seu desejo rasgar o tesouro para fora das entranhas da terra, sem nenhum propósito de elevado moral nas suas costas quanto há em assaltantes quebrando um cofre… Não poderíamos compreender, pois estávamos longe demais e não se conseguia, porque estávamos viajando na noite das primeiras eras, daquelas eras que já se foram, dificilmente deixando algum sinal – e sem lembranças … “(.)

Os ganhos da guerra: traficantes búlgaros inflamam os conflitos do Oriente Médio

Mariya Petkova é um jornalista búlgara cuja cobertura abrange as área da Europa de Leste, nos Bálcãs e do Médio Oriente. Este artigo foi produzido como parte do Fellowship Balkan para excelência jornalística, apoiada pela Fundação ERSTE e Open Society Foundations, em cooperação com a Rede Reportagem Investigativa Balkan – BIRN.

O texto a seguir, apesar de longo, se faz necessário por ser elucidativo sobre o tráfico de armas efetuados por nações que apoiam o bainho de sangue na terra síria. Trata-se de uma reportagem feita pela jornalista Mariya Petkova, que percorreu cidades como Sofia, Anevo, Istambul, Gaziantep e Antióquia. 

Os ganhos da guerra: traficantes búlgaros inflamam os conflitos do Oriente Médio

Por: Mariya Petkova

Tradução: J. Junker

Adaptação: C. A. Ferreira

Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e os EUA compram milhões de dólares em armamentos búlgaros, com a Guerra Civil Síria como destina provável, revela uma investigação BIRN.

Em outubro do ano passado, spotters de aeronaves notaram,  com alguma emoção, que aviões Boeing 747  jumbo com as marcas da Saudi Arabian Cargo tinham taxiado junto ao gate de carga e descarga do aeroporto da capital búlgara, Sofia.

“Um avião de carga Saudita nunca tinha vindo aqui… Nos últimos 20 anos!”, explicou Stephan Gagov, um veterano spotter de aeronaves búlgaro. Os vôos tornaram-se tão frequentes que Gagov começou uma discussão em um Fórum on-line de spotters de aeronaves sobre elas, usando a frase “a rota regular” no título. Spotters relataram terem  visto aviões aterrarem duas vezes no final de outubro, uma vez em novembro, quatro vezes em dezembro e uma vez cada, em março e maio deste ano.

A aeronave gigante chegou do aeroporto de Jidá, embarcou a sua carga e em seguida voou para a cidade saudita de Tabuk, cerca de 100 km da fronteira com Jordânia, relatou os observadores, que utilizam ferramentas voo com acompanhamento online. Gagov estimou que a carga embarcada nas aeronaves corresponda a cerca de 60 a 80 toneladas por vez, na forma de caixas. Ele não podia ver o que estava dentro das grades, mas pode estimar o quanto estavam pesados.

Após os voos da Saudi Arabian Cargo terem parado, os aviões de carga de Abu Dhabi começaram a chegar. Airbus A330F e Boeing 777F com as cores da Etihad Cargo chegaram em Sofia cinco vezes entre o final de Junho e meados de agosto deste ano. Recentemente, em 19 de Outubro, uma aeronave de carga Airbus 330F da Etihad voou de Abu Dhabi para a cidade búlgara de Burgas e, em seguida, a Al Dhafra Air Base, uma instalação militar ao sul da capital dos Emirados.

A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e as autoridades búlgaras não revelaram  o conteúdo dessas remessas. Mas, a reportagem Investigativa da Rede Balkan, BIRN, pode revelar que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos têm comprado grandes quantidades de armas e munições a partir de Bulgária nos últimos dois anos, certamente para utilização pelas forças locais que apoiam na Guerra Civil Síria, e possivelmente para o conflito no Iêmen.

O relatório anual da Bulgária sobre as suas exportações, provenientes da sua base industrial de defesa, foi publicado em agosto deste ano, não recebeu, todavia, nenhuma cobertura da mídia. Afirma  o documento que o governo aprovou o valor superior a cifra de € 85.000.000, em munições e equipamentos militares para a Arábia Saudita no amo de 2014, com negócios no valor de quase 29.000.000 € concluída até o final deste ano (2015). O governo búlgaro também confirmou à BIRN, que emitira guias de exportação para a venda de armas, em favor dos Emirados Árabes Unidos.

Bulgária produz e estoca, principalmente, armas de design soviético. Analistas afirmam que é altamente improvável que tanto a Arábia Saudita, ou os Emirados Árabes Unidos venham a comprar estes meios para as suas próprias forças, que usam armas ocidentais padrão OTAN, e por isso é muito mais plausível que eles comprem a munição para as facções locais, deles aliados, envolvidas em conflitos na Síria e no Iêmen, onde armas de desenho soviético são preferidas e amplamente utilizadas.

Photo-2
Legenda: Aeronave de carga Boeing 777F, com as cores da Etihad, descola do aeroporto de Sófia, em 30 de junho de 2015. Foto: Stephan Gagov.

Um ex-oficial búlgaro, com acesso aos bastidores governamentais,  relatou à  BIRN que as compras sauditas foram transportadas nas aeronave visto pelos spotters de aviões e destinados aos combatentes da oposição síria, com os embarques posteriores, possivelmente, destinados a serem utilizados no Iêmen. No ano passado, os Estados Unidos também teriam comprado armas da Bulgária como parte de um programa de US $ 500 milhões para treinar e equipar as forças de oposição sírias, programa este que por agora foi abandonado.

Combatentes da oposição e analistas independentes também têm dito à  BIRN que as armas búlgaras estão a ser utilizadas na Síria, onde mais de 250.000 pessoas foram mortas e mais de 11 milhões forçadas a deixar suas casas desde que a guerra eclodiu em 2011. Fato é que sob o domínio do regime comunista a Bulgária, país de apenas sete milhões, construiu uma gigantesca indústria de armas, empregando 110.000 pessoas e capaz de captar até US $ 1,5 bilhão (€ 1.300.000.000) em divisas por ano. O regime, então solidário ao esforço soviético, adquiriu deste a tecnologia para fabricar armas de fogo e munição. Acumulou vastos estoques para apoiar o seu contingente militar de 1000.000 homens em armas, bem como a possibilidade de uma mobilização geral. Durante a regra dos 45 anos  do partido comunista da Bulgária no poder, deu-se o desenvolvimento de  fortes laços comerciais com o Oriente Médio e a África, laços estes que foram mantidos por muitos comerciantes, incluindo aqueles do inefável negócio de armas.

Um negócio rentável

Ao perscrutar através de seus grandes óculos, Nikolay Nikolov, acaba de forma casual a mencionar que se sentou na mesma mesa de Carlos, o Chacal, o militante marxista notório,  que era ativo no Oriente Médio e na Europa nas décadas de 70 e 80 do século passado. Nikolov, um pseudônimo para proteger sua identidade, esteve presente e atuante no comércio de armas por mais de 25 anos. “Todo mundo fica com uma parte”, disse ele, incluindo funcionários do governo e corretores. “As comissões são valiosas e correspondem por vezes ao valor do negócio das armas. Se algo custa 10 milhões, o preço final será de 35 milhões”.

Ao sentar-se em um pequeno café no centro de Sofia, onde ele gosta de conhecer e fazer negócios, Nikolov enrola cigarros de fumos artesanais e relembra histórias. Questionado sobre a venda de armas para o Oriente Médio, conta uma história sobre ter arrastando malas cheias de dinheiro no meio de um escaldante deserto árabe por volta do meio dia…

Após o colapso do comunismo em 1989, a produção de armas na Bulgária caiu substancialmente. O valor oficial das exportações de defesa caiu para € 111 milhões em 2006. Mas, em seguida, as vendas começaram a pegar e até 2014 tinham atingido € 403.000.000, segundo dados do governo.

andrew maryia 1200-Photo-3
Legenda: exportações da indústria de defesa búlgara de 2006-2014, em milhões de euros. Fonte: Ministério da Economia da Bulgária, Relatórios.

Nikolov afirma que a Bulgária está a vender uma grande quantidade de armas, mas dos estoques antigos. “O pico das nossas exportações de armas foi durante as guerras na Iugoslávia. Um monte de armas foi exportado para a Sérvia e para a Albânia”, diz ele. “Naquela época, tínhamos estoques no valor de bilhões, agora temos apenas algumas centenas de milhões”. Apesar de a produção e as vendas serem apenas uma fração dos níveis pré-1989, o comércio de armas na Bulgária continua a ser um negócio altamente lucrativo. “Ainda é mais rentável do que o tráfico de drogas”, disse Nikolov.

O interesse do Golfo

A Arábia Saudita, até então, não tinha se tornado um cliente importante para as empresas de armas búlgaras nestes anos recentes. Mas isso mudou em 2014. O relatório do governo búlgaro diz que foram emitidas licenças para venda de munições e equipamentos militares no valor de 85.500.000 € para a Arábia Saudita no ano passado. Munições no valor de  € 65.400.000, armas de grande calibre com valor da ordem de € 12.500.000 e armas de pequeno calibre no valor de € 5 milhões. Até o final de 2014, as empresas búlgaras do setor tinham concluído ofertas de exportação para as Monarquias do Golfo com valores da ordem de € 28.900.000. O Ministério da Economia Da Bulgária, que supervisiona o comércio de armas, informou à BIRN em um comunicado, que as ofertas incluíam armas de uso pessoal, bem como armamento leve e pesado.

Um relatório da ONU listadas 827 metralhadoras leves e 120 SPG-9, armas anti-carro, sem recuo,  como parte das exportações de armas da Bulgária para a Arábia Saudita em 2014. Ben Moores, analista sênior da consultoria IHS Janes defesa, afirmou que provavelmente tais armas eram remessas para a Síria, ou o Iêmen. O militar saudita estará armado com metralhadoras leves belgas e não faria uso de um SPG-9, afirmou. “É muito improvável que este tipo de arma venha a ser usada pelos militares da Arábia Saudita, mas é muito popular e utilizada no Iêmen, Iraque e Síria”, relatou.

De acordo com o ex-oficial búlgaro, em condição de anonimato, os voos entre Sófia e a Arábia Saudita se deram com o intuito de transportar armas búlgaras para os grupos da oposição síria. Depois que os aviões aterrissaram em Tabuk, a carga foi embarcada em caminhões e transportada para um centro de distribuição na Jordânia,  para as forças militantes de extremistas sírios, afirmou.

A Arábia Saudita é um dos maiores financiadores de combatentes contrários ao presidente sírio, Bashar al-Assad. Riyad financiou uma compra fenomenal de armas de infantaria da Croácia para as forças da oposição síria, compra esta informada pelo The New York Times, em 2013, então citando funcionários americanos e ocidentais “familiarizados com as compras”. Em uma entrevista à BBC no fim de outubro de 2015, o ministro do Exterior saudita Adel al-Jubeir reconheceu abertamente que Riyad forneceu armas aos combatentes da oposição extremista síria. “Nós temos que contribuir para mudar o equilíbrio do poder no terreno”, disse ele. O informante, ex-oficial militar búlgaro, também  disse que algumas das armas enviados para a Arábia Saudita “podem ​​também têm sido utilizadas contra o Iêmen, pois os vôos posteriores coincidiram com o início da operação da Arábia por lá”. Arábia Saudita começou a ação militar no Iêmen no final de março, em apoio das forças leais ao presidente exilado Abd-Rabbu Mansour Hadi.

Ao contrário da Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos já tinham uma história recente de compra das armas búlgaras. O  telegrama diplomático  a partir da embaixada dos EUA em Sofia, publicado pelo site WikiLeaks, informou que os Emirados Árabes Unidos financiou um acordo de 2010 para compra de dezenas de milhares de fuzis de assalto rifles, 100.000 cargas de alto explosivo, granadas lançadas por foguete e munições para o então governo do Iêmen. O cabograma também relatava que a Bulgária realiza consultas  junto à embaixada dos EUA, no tocante aos negócios de armas potencialmente controversos. Contatados pela BIRN, a embaixada se recusou a dizer se ele estavam cientes de outros países a compra de armas búlgaras para uso na Síria.

andrew maryia II 1200-Photo-4
Legenda: exportações da indústria de defesa búlgara para os Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, em milhões de euros. Fonte: Ministério da Economia da Bulgária, relatórios.

Este ano, o governo búlgaro emitiu licenças para a exportação de munições, armas de fogo e equipamentos de defesa para os Emirados Árabes Unidos, o Ministério da Economia, todavia, recusou-se a demonstrar os valores envolvidos nestes negócios.  Pieter Wezeman, pesquisador do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo, disse que “não faz sentido algum”  os Emirados Árabes Unidos vir a comprar armas e munições da Bulgária para as suas próprias forças. Ele disse suspeitar que estas munições seriam desviadas para a Síria, ou o Iêmen. Moores expressou uma conclusão similar.”É muito mais provável o que [as armas] os Emirados Árabes Unidos compraram seja reencaminhado para um terceiro”, pautou.

Tanto a Arábia Saudita, quanto os Emirados Árabes Unidos são parte de uma coalizão contra o Iêmen, que tem realizado ataques aéreos, imposto forças terrestres desdobradas e fornecido armas para extremistas locais, com o objetivo de combater as forças xiitas, conhecidos como houthis. Riad também foi envolvido no fornecimento de armas ao Iêmen antes de suas próprias forças intervissem por lá, disse Wezeman.

As embaixadas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, responsáveis ​​pelos respectivos negócios armamentistas realizados na Bulgária não responderam às perguntas da BIRN. Da parte búlgara, o Ministério da Economia disse que não iria emitir licenças para negócios de armas quando forem levantadas preocupações sobre o possível desvio ou re-exportação de armas.

Acidente americano

Em 06 de junho deste ano (2015), uma explosão fatal ocorrida em um campo de testes de armas da Bulgária, forçou os Estados Unidos a admitir que o evento  tinham sido proveniente de armas de compradas na Bulgária, como parte de um esforço para apoiar combatentes da oposição extremista síria. Um empreiteiro norte-americano, veterano de 41 anos de idade, veterano da USNAVY, Francis Norwillo, morreu quando uma granada-foguete explodiu, enquanto estava sendo carregada em um lançador RPG-7. Outras quatro pessoas,  dois cidadãos norte-americanos e dois búlgaros, também foram feridos. Os americanos estavam trabalhando para uma empresa dos EUA nomeada Purple Shovel, contratado pelos militares dos EUA para ajudar a treinar e equipar combatentes da oposição extremista síria. A embaixada dos EUA disse em uma declaração concisa:

“Os três empreiteiros estavam conduzindo formação de familiarização para outros funcionários da empresa no momento do incidente”, disse a embaixada, recusando-se a fazer qualquer comentário adicional.

O banco de dados de compras governamentais dos EUA demonstra que Comando de Operações Especiais (SOCOM), que está no comando do esforço militar dos EUA para ajudar os extremistas sírios, concedeu a Purple Shovel, um contrato no valor superior a US$ 26,700,000 (24.600.000 €) em dezembro de 2014, para o fornecimento de armas estrangeiras e munição. O país de origem está listado como Bulgária. O contrato foi alterado duas vezes para chegar ao valor total de US$ 28,300,000, de acordo com o banco de dados.

Questionado sobre o negócio, porta-voz SOCOM Kenneth McGraw disse via e-mail:

“As armas que foram compradas com este contrato incluíram o AT-5 Anti-Tank Missile Launcher, SPG-9 Anti-Tank Recoilless Gun e RPG-7 Rocket Grenade Launcher”. Informou, no entanto, que a arma envolvida na explosão em Anevo não fazia parte do contrato. Apesar do incidente fatal, McGraw relatou que o contrato não tinha sido cancelado.

A granada foi fabricada em 1984, de acordo com autoridades búlgaras que estão investigando o incidente. Um relatório Buzzfeed News citou um especialista em armas não identificado afirmando que a granada passara toda a sua existência e esgotado sua validade em “uma prateleira”.  Mas, dois ex-oficiais militares búlgaros explicaram à BIRN, que a munição tem uma vida útil de décadas se armazenado adequadamente e uma granada feita em 1984 não seria velha demais para ser usada com segurança.

Alexander Dimitrov, o proprietário do Alguns, uma empresa privada que tinha contratado o campo de testes no dia da explosão, se recusou a comentar. A Purple Shovel,, empresa sediada em Sterling, Virginia, também se recusou a comentar o incidente, ou o contrato com SOCOM. O banco de dados de aquisição dos EUA mostra o SOCOM também premiado com um contrato no valor de mais de $ 32.000 (€ 28.200), para outra empresa norte-americana, UDC EUA, para fornecer munição a partir da Bulgária. O contrato foi assinado na mesma data que o negócio Purple Shovel, e exibe o mesmo “ID solicitação”, o código usado em uma chamada virtual, registrar os lances necessários para o cumprimento do contrato. Contatado ao telefone, perguntou-se sobre o contrato, se o mesmo era para a força-tarefa do USARMY armar extremistas sírios,  o presidente da empresa, Matthew Herring, disse à BIRN: “Não, não, nós não somos parte disso e certamente não temos a liberdade para falar sobre isso”.

O esforço militar dos EUA para treinar e equipar forças para lutar contra o grupo militante ISIS (Estado Islâmico) na Síria foi fortemente criticado por membros do Congresso dos Estados Unidos, por ser ineficaz. Em 09 de outubro deste ano (2015), a administração Obama anunciou que estava abandonando o programa. Mas, as atividades da Agência Central de Inteligência, CIA, de  secretamente armar os sírios que combatem as forças de Assad, continua em vigor.

Conexão Turca

Em uma manhã quente no final de julho, uma dúzia de comandantes da oposição extremista síria conversou no café de um hotel boutique perto da Praça Taksim, no centro de Istambul depois de participar de reuniões de coordenação. Eles estavam se preparando para ir para o sul da Turquia e, em seguida, de volta para a linha de frente no norte da Síria.

Três homens, comandantes de unidades em Idlib e Aleppo, concordaram em falar com a BIRN. Um deles explicou que a logística é fornecida para as forças de oposição através de dois corredores de operações militares –  uma na Turquia e outro na Jordânia. Todos os três disseram que receberam armas do corredor de suprimentos/logística turco – incluindo fuzis AK-47, RPG-7 foguetes lançadores de granadas e armas anti-tanque SPG-9.

Perguntado se eles receberam as armas búlgaras, um deles disse: “Todas as armas na Síria são modelos russos Tanto o regime e a revolução [oposição] fazem uso.  Eles podem ser provenientes de países como Bulgária, Ucrânia, República Checa, mas nós não… Não sabemos exatamente onde eles são produzidos”.

Relatou que as armas búlgaras, por vezes, apresentam o número 10 dentro de dois círculos. Um dos comandantes enviou uma mensagem WhatsApp do seu telefone celular para um combatente em sua unidade na Síria, que retornou com três fotos de armas. Dois deles tinha o símbolo de identificação descrito.

Arms-1-and-2-Photo-5
Legenda: a imagem da esquerda pertence a uma metralhadora búlgara da família PK (PKM), a outra imagem é de um lançador (RPG-7) fabricado na Bulgária. Armas utilizadas no oeste da província de Aleppo. Imagens: extremistas sírios via WhatsApp/BIRN.

Um especialista em munições, que não quis se identificar, apontou serem as duas armas como sendo um lançador de granadas-foguete e uma metralhadora PK. O comandante disse que eles foram usados ​​no Aleppo campo ocidental. A BIRN não pode verificar onde as fotos foram registradas, mas NR Jenzen-Jones, diretor da consultoria britânica de Armamento Research Services, afirmou que havia “quantidades substanciais de armas e munições produzidos na Bulgária que foram documentadas na Síria”. A maioria das armas é datada dentro do período compreendido entre 1970 e 1980 e incluiu armas pequenas, leves, bem como armas anti-tanque, munições e engenhos tais como projéteis para armas sem recuo e projéteis de morteiro, disse ele via e-mail.

A Bulgária foi fornecedora dos exércitos nacionais do Iraque e da Síria ao longo de muitos anos, Permitindo, então, a possibilidade de algumas dessas armas terem vindo de estoques existentes dentro destes países. Mas, Jenzen-Jones afirmou que a sua organização havia recebido “inúmeras alegações de que o material excedente búlgaro foi cedido as facções rebeldes sírias”.

“Nós não temos sido capazes de verificar de forma independente essas alegações”, acrescentou.

Como a Arábia Saudita e os Estados Unidos, a Turquia tem sido fortemente envolvida na prestação de apoio aos grupos de oposição armada na Síria. Nihat Ozcan, oficial militar aposentado e analista da Fundação de Pesquisa de Política Econômica Turca, disse que as nações que apoiam a oposição síria também usam a Turquia como um ponto de trânsito para obter armas para a Síria. “Eles recolhem todo o  tipo de armas antigas e equipamentos soviéticos de [ex-bloco do Leste] países como Bulgária e Romênia, ou mesmo da Ásia Central. Eles os trazem para a Turquia e, em seguida, passam-nos à Síria, sob o controle da aliança Estados Unidos, Turquia. “, disse Ozcan.

Um trabalhador humanitário sírio, com ligações pessoais com membros de grupos extremistas anti-Assad “moderados” nas províncias de Idlib e Aleppo, relatou que as armas compradas por nações estrangeiras foram transferidas para as forças de oposição através do corredor logístico de suprimentos militares. As armas foram entregues através da fronteira turco-síria, onde os extremistas sírios as pegaram, informou em uma entrevista concedida na cidade turca de Gaziantep, perto da fronteira.

As operações militares nas bordas fronteiriças da Turquia e Jordânia são apoiadas por um grupo seleto de países ocidentais e árabes, incluindo os Estados Unidos, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, bem como as nações anfitriãs, de acordo com várias fontes da oposição síria.  Para além destas transferências de armas sancionadas pelos governos nacionais, há alguma evidência, de que as munições também estão sendo contrabandeadas para a Síria em negócios privados. Outro homem com o grupo no hotel de Istambul, que se identificou como membro de um conselho militar da oposição extremista  na província de Homs, disse à BIRN, que ele viu um carregamento de armas búlgaras chegar de caminhão em Homs em agosto de 2012. O homem, que pediu para ser identificado apenas como Abu Fatima, disse que um empresário sírio supostamente pagou US$ 1,600,000 (€ 1,4 milhão) por armas, que incluíam fuzis AK-47, lançadores de granadas e munições. Ele disse que o acordo foi organizado por traficantes de armas búlgaros e sírios.

Em uma entrevista separada, um ex – combatente da oposição extremista síria, disse estar  envolvido em nada menos que 12 transferências de armas búlgaras no início de 2013, a maior das quais era de US $ 7 milhões (€ 6.400.000). O ex – terrorista, que pediu para não ser identificado, afirmou que os embarques se deram na fronteira turco-síria, em dois caminhões e foram organizadas por cidadãos sírios e turcos que possuem conexões com traficantes de armas búlgaras.

Enquadramento jurídico

Não há proibição da ONU de fornecer armas para a Síria e a maioria dos elementos de embargo da União Europeia foram levantados em 2013. Na guerra do Iêmen, a ONU impôs uma proibição apenas no fornecimento de armas para as forças Houthis. No entanto, como signatária do Tratado de Comércio Global de Armas (ATT), que entrou em vigor em dezembro de 2014, a Bulgária tem a responsabilidade de impedir que armas sejam desviadas para outras nações, ou grupos, que difiram dos destinatários especificados. A legalidade de todos os negócios que levaram a armas búlgaras até a Síria, pode depender dos termos precisos de tais acordos.

Em negócios de armas, o Estado importador tem de fornecer um Certificado de Usuário Final, que pode incluir uma cláusula especificando que as armas não serão transferidas a terceiros. Mas mesmo que tal cláusula exista, um estado de importador pode enfrentar pouca, ou nenhuma punição por ter ignorado tal clausula. “Se uma exportação é autorizada, e ocorre um desvio, as ações passíveis de serem efetuadas por parte do Estado exportador são limitadas (além de não exportar armas para esse país / entidade novamente),” Sarah Parker, pesquisadora sênior do Small Arms Survey, centro de pesquisas baseado em Genebra, Suíça, através de E-mail.

“Ela [a nação exportadora] tem uma obrigação decorrente do ATT para enfrentar e prevenir o desvio. Então, se ela vê um destinatário como um risco de desvio, deve também compartilhar essas informações com outros exportadores”, acrescentou.

 

 

Capturado, combatente do Estado Islâmico revela os laços dos terroristas com a Turquia.

A matéria que segue, concisa, mas reveladora, traz a entrevista com um combatente do EI mantido como cativo pelas forças curdas, YPG.  Cidadão turco recrutado pelo EI ele cedeu ao Sputnik News Turquia uma entrevista elucidativa, posto que confirma aquilo que já se sabe sobre o EI. A matéria não é assinada.

Capturado, combatente do Estado Islâmico revela os laços dos terroristas com a Turquia.

Matéria: corpo editorial do Sputnik News/Turquia

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

Mahmut Ghazi Tatar, membro combatente capturado da organização terrorista Daesh, Estado Islâmico, cedeu declarações ao Sputnik Turquia, revelando detalhes sobre como é estar nas fileiras do Daesh, Estado Islâmico,  e dos da Turquia com o grupo terrorista.

Correspondente Sputnik Türkiye conseguiu gravar uma entrevista com um dos membro da Daesh (Estado Islâmico) que foi capturado por tropas curdas na Síria. O depoente é  Mahmut Ghazi Tatar, de 24 anos de idade, que se juntou Daesh da cidade turca de Adıyaman.

Mahmut Ghazi juntou Daesh depois de ter sido influenciado por um amigo seu que havia se juntado ao grupo. Ele, junto com outros 27 turcos, foi auxiliado no processo de travessia da fronteira síria, onde se juntou às fileiras dos militantes.

“Depois de atravessar fronteira fomos transferidos para um campo de treinamento a uns 5 km da fronteira. Recebemos treinamento militar e frequentamos aulas de religião. Antes do início do treinamento, a cada um de nós foi perguntado se aceitaríamos ser mártires. Eu recusei. Esta pergunta é feita de todos os novos recrutas. Aqueles que concordam, no prazo de 6 meses recebem formação religiosa especial. Desde que eu recusei, minha educação e treinamento durou 70 dias. Aprendemos pelos livros turcos. Durante o treinamento, algumas pessoas da Turquia vieram até nós para verificar-nos. Eles não tinham barbas, não eram membros da Daesh (Estado Islâmico) “, Mahmut Tatar, em entrevista para o Sputnik Turkiye.

Depois de receber a sua formação militar/religiosa, os 27 turcos membros do EI foram enviados para a cidade de Tel Abaid, onde passaram a viver em casas, tendo a formação continuada. Seus nomes foram mantidos em segredo e não lhes fora permitido entrar em contato com as suas famílias, por um período mínimo de seis meses.

Falando sobre como ele foi aprisionado por soldados curdos, Ghazi disse que, ao receber o aviso da presença de soldados curdos por parte de outros membros Daesh/EI, ele como 12 outros membros do grupo, empreenderam fuga de Tal Abaid. Estavam escondidos em uma vila próxima. Mas na manhã seguinte, quando Ghazi tentou fazer uma corrida, foi surpreendido e rendido.

“Os curdos tratam bem os prisioneiros, oferecem água, alimentação e cigarros. Aqui sou mantido, nesta sala, juntamente com várias outras pessoas. Eu não achava que eles me tratariam tão bem, tinha medo de tortura. Pensei que seria morto, mas descobri que as tropas curdas não matam os seus cativos. Ouvi dizer que os membros do Daesh/EI ao serem capturados por curdos são mortos de imediato, ou são mantidos vivos, para que façam  trocas de prisioneiros com os curdos”.

Falando sobre o que ele ouviu de seu comandante, o membro capturado revelou que durante sua permanência no campo de treinamento, em Maio de 2015, um dos comandantes do Daesh/Ei, Abu Talha, disse-lhes que o grupo vende petróleo para a Turquia. De acordo com Abu Talha, o dinheiro que foi levantado a partir da venda do petróleo no mercado Turco ajudou o Daesh/EI a resolver todas as suas dificuldades financeiras.

“Comboios petroleiros são enviados todos os dias para a Turquia com petróleo bruto, óleo combustível e gasolina. A principal fonte de renda para Daesh/EI é o comércio de petróleo e os estoques de petróleo vai durar-lhes um longo tempo “.

Abu Talha disse-lhe, também, que “o grupo ganha rios de dinheiro ao travar comércio com a Turquia”. Ele também disse que o óleo é vendido por meio de mediação, que faz uso de grande número de empresários e comerciantes, mas não deu nomes. Daesh/EI recebe “muitos produtos provenientes da Turquia e de outros países árabes “, Mahmut Ghazi revelado.

Ele mencionou que seus comandantes não atribuiu particular importância aos bombardeios norte-americanos. Eles acreditavam que ele foi feito como um pretexto. Um dos militantes perguntou por que o comandante Daesh/EI não estava lutando contra Israel. Abu Talha disse: “Primeiro temos de quebrar um pequeno muro e, em seguida, destruir o grande”.

De acordo com o membro capturado, novos recrutas se juntaram ao grupo, provindos da Arábia Saudita, Tunísia, Iêmen, Qatar, Líbano e Egito. Cruzaram a fronteira com a Turquia, algo que é muito simples de fazer. Os militantes provindos da Europa e América seguem a mesma rota.

“Os comandantes disseram-nos que eles estavam indo para cometer um ato terrorista que irá exceder em escala aquele dos ataques do 11 de setembro contra os EUA”, Mahmut Ghazi concluiu.

 

McCaim na terra dos sonhos

 

 

Por: César A. Ferreira

O mundo gira e a indignação seletiva, ao que parece, não é uma instituição unicamente brasileira. Em uma semana, onde um casal imbuído da doutrina extrema do proselitismo wahhab abre fogo em um centro comunitário californiano, junto com as vozes indignadas dos cidadãos norte-americanos não se vê nada, opinião que seja, contra o Senador e Presidente da Comissão Militar do Senado dos EUA, John McCaim, de equipar os rebeldes “moderados” da Síria com meios anti-aéreos. Como se sabe, McCaim os conhece, pessoalmente, conforme admitiu, aliás. Admissão esta, convenhamos, forçada pela divulgação das imagens do encontro tido por ele no norte da Síria, onde sua presença sorridente ao lado de chefes notórios do Estado Islâmico, caso de Muahmmad Noor e Abu Bakr Al-Baghdadi, mostra-se reveladora das intenções deste senhor, que é um importante representante dos interesses de grandes corporações, no tocante ao Oriente Médio.  Para McCaim, quanto mais o mundo queimar, melhor.

Dá-se que um Senador dos EUA não é, não pode ser, como interlocutor considerado “qualquer um”, jamais será “Zé Ninguém”, ou coisa que o valha. Apesar de ser republicano e o governo dos EUA democrata, ainda assim é e será um representante oficial dos EUA, dado que é um Senador legitimamente eleito, de posse plena das suas prerrogativas legislativas. Portanto, não se pode ter da visita de McCaim uma leitura inconsequente, ingênua, como se fosse um lunático da política norte americana, pois ele não é. McCaim prega a tempos que se deve armar com o que há de melhor no arsenal dos EUA os “combatentes moderados”, todavia, sempre foi independente disto, um propugnador do confronto direto com a Rússia, Seja no Oriente Médio, seja na Ucrânia.

McCaim-e-amigos-2
McCaim em reunião com líderes terroristas no norte da Síria. Em destaque: Abu Bakr Al-Baghdadi, líder do Estado Islâmico. O assunto tratado era venda de armas e munições. Imagem: internet.

Portanto, percebe-se, devido às ações de McCaim, como é cristalina a posição dos Estados Unidos da América, que de fato protege o Estado Islâmico, algo muito mais amplo do que a “exploração das consequências das suas ações”, como tentam justificar alguns. Não bastasse a ineficácia da campanha de bombardeio ao Estado Islâmico, por parte da chamada “Coalizão Ocidental”, que em 14 meses sequer arranhou a capacidade do EI em fazer a guerra, agora lança a Turquia como elemento posicional no jogo expresso de poder naquela região do mundo. A Turquia assume ao invadir com forças terrestres tanto o território da Síria, como do Iraque, a posição análoga a do peão no tabuleiro de xadrez, que é a de ocupar o espaço para evitar a movimentação livre das peças do oponente. O interessante, entretanto, é o fato de que desta maneira a Turquia realça a cupidez e a hipócrita forma como o “Ocidente” encara o drama da Guerra Civil da Síria, pouco lhe importando o custo em vidas humanas, ou da destruição da infraestrutura necessária para as mais básicas necessidades diárias. Isto não importa, nunca importará.

O que importa, isto sim, é a manipulação das paixões religiosas em prol dos interesses geopolíticos, confessos e inconfessos na região, detentora das mais extensas reservas de petróleo do globo, óleo de ótima qualidade, pois leve ou extremamente leve, e de reservas de gás extensas, muitas delas recém descobertas. O domínio da região se torna mandatária na mente dos senhores do mundo, casta da qual McCaim acredita fazer parte, não só pelos estoques energéticos como pela característica da região, dado que o escoamento destes recursos passam, necessariamente, por estreitos e golfos, todos eles fáceis de serem obstruídos por entidades políticas opositoras, ou reativas. Por isso a sofreguidão com que as ditas “nações centrais” buscam conter, derrubar ou minar aqueles regimes políticos nos quais a manipulação por estas não possa ser total, satisfatória. Esta é a missão da vida de John McCaim, ser um porta – voz, inadvertidamente cômico, dos interesses inconfessáveis dos EUA, interesses estes registrados de forma clássica nas imagens sorridentes de McCaim com os líderes islâmicos da Jihad sanguinária no norte da Síria em maio de 2013, onde negociava a entrega de armas.  Por isso faz-se necessária a pergunta clássica: você acredita, realmente, no interesse dos EUA, bem como dos seus sócios da OTAN, em combater o Estado Islâmico? Se acreditar nisso, com toda força do seu espírito, então, seja bem vindo ao incrível mundo dos sonhos… De John McCaim.