Wheels and deals: fermenta a guerra na Casa de Saud

Por: Pepe Escobar (4.10.2017)

Fonte primária: Asia Times – Counterpunch; fonte em português: Blog do Alok.

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu.

De repente, a matriz ideológica de todas as variantes de jihadismo salafista passa a ser elogiada no Ocidente como modelo de progresso – porque mulheres sauditas afinal receberam permissão para dirigir carros. Mas só ano que vem. Mas só algumas mulheres. Mas só com muitas restrições.

O que é certo é que o momento para anunciar a novidade – que vem depois de anos de pressão de liberais norte-americanos – foi calculado com precisão, e aconteceu apenas poucos dias antes que o capo da Casa de Saud rei Salman apareceu para dois dedos de prosa na Casa Branca de Trump. O movimento de soft power foi coordenado pelo príncipe coroado, 32 anos, Muhammad bin Salman, codinome MBS, o Destróier do Iêmen; o rei só fez assinar.

A tática diversionista mascara graves problemas na corte. Uma fonte especialista em negócios do Golfo, com conhecimento íntimo da Casa de Saud e encontros pessoais frequentes com eles, disse a Asia Times que “as famílias Fahd, Nayef e Abdullah, descendentes do Rei Abdulaziz al Saud e sua esposa Hassa bin Ahmed al-Sudairi, estão formando uma aliança contra a ascensão ao trono do príncipe coroado.”

Não chega a surpreender, se se sabe que o deposto príncipe coroado Mohammed bin Nayef – muito considerado no Departamento de Estado dos EUA, especialmente em Langley [cidade onde está o quartel-general da CIA] – está em prisão domiciliar. Sua massiva rede de agentes no Ministério do Interior foi quase toda “dispensada de qualquer autoridade”. O novo ministro do Interior é Abdulaziz bin Saud bin Nayef, 34, filho mais velho do governador da Província Oriental marcadamente xiita, onde está todo o petróleo do reino. Curiosamente, o pai agora é subordinado do filho. MBS está cercado de príncipes sem qualquer experiência, todos com cerca de 30 anos, e afastando de si praticamente todos os demais.

O ex-rei Abdulaziz definiu a própria sucessão baseado na idade dos filhos; em teoria, se todos chegarem à mesma idade todos terão algum tempo de reinado, o que evitaria o banho de sangue historicamente habitual nos clãs árabes, em disputas pela sucessão.

Agora, diz a fonte, “já todos preveem que um banho de sangue é iminente”. Especialmente porque “a CIA está indignada por o compromisso negociado em abril de 2014 estar sendo descumprido, como se vê no fato de o maior fator antiterrorismo no Oriente Médio, Mohammed bin Nayef, estar preso.” Tudo isso pode levar a “ação vigorosa contra MBS, possivelmente no início de outubro.” E pode até coincidir com o encontro Salman-Trump.

O ISIS joga pelo livro (saudita)

A fonte de Asia Times especialista em negócios no Golfo destaca que “a economia saudita está sob estresse extremo, por efeito de sua guerra pelo preço do petróleo contra a Rússia, e estão tendo muita dificuldade para pagar os fornecedores. Essa situação pode levar à falência algumas das maiores empresas na Arábia Saudita. A Arábia Saudita de MBS vê o iate de US$600 milhões comprado pelo príncipe coroado, e o pai dele gastando US$100 milhões nas férias de verão, sempre nas primeiras páginas do New York Times, enquanto o reino sufoca sob aquela liderança.”

O projeto que é a menina-dos-olhos de MBS, o super propagandeado Vision 2030, visa, em teoria, a diversificar e afastar o reino da dependência dos lucros do petróleo e dos EUA, na direção de uma economia mais moderna (e política externa mais independente).

Na avaliação da mesma fonte, é tudo completamente sem sentido, porque “o problema na Arábia Saudita é que suas empresas não conseguem funcionar com a mão de obra local e dependem de expatriados, que constituem 70% ou mais dos empregados. A gigante do petróleo Aramco simplesmente não opera sem expatriados. Daí que vender 5% da Aramco para diversificar não resolve o problema. Se ele quer sociedade mais produtiva e menos empregos no próprio governo onde só se copia, terá primeiro de treinar e garantir emprego ao próprio povo.”

A também elogiadíssima venda pública de parte da Aramco, apresentada como a maior venda de ações de toda a história, originalmente agendada para o próximo ano, foi mais uma vez adiada – “possivelmente” para o segundo semestre de 2019, segundo funcionários em Riad. E ainda ninguém sabe onde serão vendidas as ações; a Bolsa de Nova York está longe de ser assunto decidido.

Paralelamente, a guerra de MBS contra o Iêmen e o ímpeto saudita a favor de mudança de regime na Síria e de reformatar o Oriente Médio Expandido, revelaram-se desastres espetaculares. Egito e Paquistão recusaram-se a enviar tropas ao Iêmen, onde o pervertido infindável bombardeio aéreo pelos sauditas – com armas dos EUA e Grã-Bretanha – acelerou a desnutrição, a fome e o cólera e configurou crise humanitária massiva.

O projeto do Estado Islâmico foi concebido como ferramenta ideal para levar o Iraque a implodir. Hoje já é de domínio público que o dinheiro para organizar a coisa partiu quase todo da Arábia Saudita. Até o ex-Imã de Meca admitiu publicamente que a liderança do ISIS “extraiu suas ideias do que está escrito em nossos livros, nossos próprios princípios.”

O que nos leva a maior e mais profunda contradição saudita. O jihadismo salafista está mais que vivo dentro do Reino, por mais que MBS tente fazer-se passar por líder liberal (fake) da linha “gatinha, deixo você dirigir o meu carro”. O problema é que Riad nunca, em tempo algum, cumprirá qualquer promessa que se aproxime de liberalização: a única legitimidade da Casa de Saud depende daqueles “livros” e “princípios” religiosos.

Na Síria, além da evidência de que a maioria absoluta da população do país não quer viver num Takfiristão, a Arábia Saudita apoiou o ISIS enquanto o Qatar apoiava al-Qaeda (Jabhat al-Nusra). E isso acabou num banho de sangue de fogo cruzado, com todos aqueles tais inexistentes “rebeldes moderados” apoiados pelos EUA reduzidos pilotos de carros antiquados.

E há também o bloqueio econômico contra o Qatar – mais um brilhante enredo cerebrado por MBS. Só serviu para melhorar as relações de Doha com ambos, Ankara e Teerã. O emir do Qatar Tamim bin Hamad Al Thani não foi derrubado, tenha Trump realmente persuadido Riad e Abu Dhabi a evitar qualquer “ação militar”, ou não. Nada de estrangulamento econômico: a Total francesa, por exemplo, está às vésperas de investir US$2 bilhões para expandir a produção de gás natural no Qatar. E o Qatar, via seu fundo soberano, contragolpeou com o mais espetaculoso dos movimentos de soft power – comprou a marca e craque de futebol Neymar, para o PSG, e o “bloqueio” soçobrou sem deixar traço.

“Roubam até a roupa do corpo do próprio povo”

Em In Enemy of the State, o mais recente thriller de Mitch Rapp escrito por Kyle Mills, o presidente Alexander, sentado na Casa Branca, esbraveja que “o Oriente Médio está implodindo porque aqueles filhos da puta sauditas só fazem inflar o fundamentalismo religioso, para encobrir o fato de que roubam até a roupa do corpo do próprio povo.” É uma avaliação equilibrada.

Não se admite absolutamente nenhuma discordância na Arábia Saudita. Até o analista econômico Isam Az-Zamil, muito próximo do poder, foi preso durante a atual campanha de repressão. A oposição a MBS portanto não vem só da família real ou de alguns clérigos – embora digam os boatos que só quem apoie o “terrorismo” da Fraternidade Muçulmana, da Turquia, do Irã e do Qatar estaria sendo perseguido e atacado.

Em termos de o que Washington deseja, a CIA não aprecia MBS, para dizer o mínimo. Querem o homem “deles”, Nayef, de volta ao poder. Quanto ao governo Trump, o que se ouve é que está “desesperado em busca de dinheiro saudita, especialmente para investimentos em infraestrutura no Cinturão da Ferrugem”.

Será muitíssimo iluminador comparar o que Trump obtém de Salman e o que Putin obtém do mesmo Salman: o rei doente visitará Moscou no final de outubro. Rosneft está interessada em comprar ações da Aramco quando afinal acontecer a venda pública. Riad e Moscou estão considerando uma extensão de negócios da OPEP, bem como uma plataforma de cooperação OPEP-não-OPEP que incorpore o Fórum de Países Exportadores de Gás [ing. Gas Exporting Countries Forum, GECF].

Riad leu as palavras escritas no novo muro: o capital político e estratégico de Moscou não para de crescer por todos os lados, de Irã Síria e Qatar até Turquia e Iêmen. Não é coisa que se dê bem com o estado profundo dos EUA. Mesmo se Trump conseguir alguns negócios para o Cinturão da Ferrugem, a questão candente é se CIA & Amigos conseguem viver com MBS no trono da Casa de Saud.

Nota dos tradutores: Orig. Wheels and Deals. É uma rede de venda de carros usados, que tem lojas em várias cidades por todo o país. A ironia parece ter a ver com a licença para mulheres dirigirem na Arábia Saudita. Não conseguirmos traduzir.

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Por que eventos recentes na Síria mostram que o governo Obama está em confusa agonia terminal

Autor: Saker.

Fonte: The Vineyard Of The Saker

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu. – Fonte em português: Blog do Alok

Os mais recentes desenvolvimentos na Síria não são, creio eu, resultado de algum plano deliberado pelos EUA para ajudar seus “terroristas moderados” aliados em campo, mas sintoma de algo talvez pior: os EUA parecem ter perdido completamente o controle sobre a situação na Síria e, possivelmente, também em outros pontos. Permitam recapitular o que acaba de acontecer:

Primeiro, depois de dias e dias de intensas negociações, o secretário Kerry dos EUA e o ministro Lavrov de Relações Exteriores da Rússia finalmente chegaram a um acordo sobre um cessar-fogo na Síria que teria potencial para pelo menos “congelar” a situação em campo, até as eleições presidenciais nos EUA e a troca de governo (esse é agora o evento mais importante no futuro próximo; assim sendo, nenhum plano de nenhum tipo estende-se além daquela data.

Foi quando a Força Aérea dos EUA, com mais alguns ‘parceiros’, bombardeou uma unidade do Exército Árabe Sírio, que não estava nem em movimento nem engajada em operações intensas, que simplesmente cobria um setor chave do front. O ataque norte-americano foi seguido por ofensiva massiva dos “terroristas moderados” que acabou por ser contida, com dificuldade, por militares sírios e as Forças Aeroespaciais Russas. Desnecessário dizer que, depois de tal provocação, o cessar-fogo morreu.

Os russos manifestaram total desagrado e indignação contra o ataque e começaram a dizer abertamente que os norte-americanos são “недоговороспособны“. A palavra significa literalmente “[gente, pessoa] incapaz para acordos” ou sem as competências mínimas para firmar um acordo e, na sequência, honrar o que assinou. É expressão polida, mas mesmo assim extremamente forte, porque implica, mais do que fingimento deliberado, a ausência da capacidade, dos meios morais necessários para respeitar a própria assinatura. Por exemplo, os russos têm dito com frequência que o governo de Kiev é “incapaz para acordos”, o que faz sentido, considerando-se que a Ucrânia ocupada pelos nazistas é, na essência, estado fracassado.

Mas dizer que uma superpotência nuclear mundial é “incapaz para acordos” é diagnóstico extremo e terrível. Significa basicamente que os norte-americanos enlouqueceram e perderam os meios morais mínimos necessários para firmar acordos, qualquer tipo de acordo. Afinal, governo que descumpra o que prometa ou tente burlar, mas o qual, pelo menos em teoria, conserve a capacidade para respeitar a própria assinatura em acordos não seria descrito como “incapaz para acordos”. É expressão que só é usada para descrever entidade que sequer tem condições mínimas indispensáveis para merecer a confiança necessária para que alguém possa iniciar negociações, porque não cumprirá o que for acordado. É diagnóstico absolutamente devastador.

Na sequência, vem a cena antiprofissional, patética, da embaixadora Samantha Powers embaixadora dos EUA na ONU que simplesmente levantou-se e saiu de uma reunião do Conselho de Segurança da ONU quando o representante russo estava falando. Mais uma vez, os russos enfureceram-se, não pela tentativa infantiloide de ofender, mas pela absoluta falta de profissionalismo que Powers manifestou, como diplomata. Do ponto de vista dos russos, se uma superpotência levanta-se e sai da sala quando outra superpotência está falando sobre assunto crucialmente importante é, para começar, atitude irresponsável; mais uma vez, sinal de falta das competências mínimas indispensáveis para ser parte de qualquer negociação ou acordo.

Por fim, a coroação: o ataque ao comboio de ajuda humanitária na Síria, que os EUA, claro, atribuíram à Rússia. Mais uma vez, os russos mal acreditaram nos próprios olhos. Primeiro, porque foi flagrante (e sinceramente, de nível de jardim de infância) tentativa para ‘mostrar’ que “os russos também erram” e que “os russos mataram o cessar-fogo”. Segundo, apareceu aquela declaração cômica, dos norte-americanos, de que só duas forças aéreas poderiam ser autoras do ataque – ou os russos ou os sírios (como os norte-americanos supuseram que enganariam alguém, naquele espaço aéreo super controlado pelos radares russos, é questão que ultrapassa a minha capacidade de análise!). Sabe-se lá como, os norte-americanos “esqueceram” de mencionar a que força aérea dos EUA também está ativa na região, além de forças aéreas de vários aliados dos EUA. Mais importante: esqueceram de mencionar que, naquela noite, drones Predator norte-americanos armados voavam diretamente sobre aquele comboio.

O que aconteceu na Síria é dolorosamente óbvio: o Pentágono sabotou o acordo firmado entre Kerry e Lavrov; e quando o Pentágono foi acusado de ser responsável pelo ataque, rapidamente montaram (mal montado) um ataque sob falsa bandeira, e tentaram culpar os russos.

Tudo isso mostra que o governo Obama está em estado terminal de confusa agonia. A Casa Branca aparentemente está em tal estado de pânico ante a provável vitória de Trump em novembro, que perdeu, basicamente, o controle de toda sua política exterior em geral, e especialmente, na Síria. Os russos estão literalmente cobertos de razão: o governo Obama é realmente “incapaz para acordos”.

Claro: o fato de os norte-americanos estarem agindo como crianças malcriadas frustradas não implica que a Rússia tenha de se rebaixar. Já vimos Lavrov voltar sempre e sempre tentar negociar com Kerry. Não porque os russos sejam ingênuos, mas precisamente porque, diferente dos colegas norte-americanos, os diplomatas russos são profissionais que sabem que negociação e linhas de comunicação mantidas abertas sempre são, e por definição, preferíveis a dar as costas e sair da sala, sobretudo quando se negociar com uma superpotência. Os observadores que criticam a Rússia por ser “fraca” ou “ingênua” só fazem projetar sobre a Rússia o seu próprio modo de ser e agir, quase todo modelado pelos norte-americanos. E nem percebem que russos não são norte-americanos: pensam de modo diferente e agem de modo diferente.

Para começar, os russos não se incomodam com ser vistos como “fracos” ou “ingênuos”. De fato, preferem ser vistos desse modo, se essa percepção faz avançar seus objetivos e confundem o oponente sobre suas reais intenções e capacidades. Os russos sabem que não construíram o maior país do planeta por serem “fracos” ou “ingênuos” e não têm interesse em ‘lições’ que lhe venham de países mais jovens que muitos dos prédios russos.

O paradigma ocidental quase sempre é o seguinte: crise sempre leva a rompimento de negociações; em seguida vem o conflito. O paradigma russo é completamente diferente: crise leva a mais negociações que são mantidas até o último segundo, tentando impedir que irrompa o conflito.

Há duas razões para isso: primeiro, insistir em negociar até o último segundo possibilita procurar o mais possível por uma via pela qual sair do confronto; e, segundo, negociações nas quais se insista até o último momento possibilitam que o negociador aproxime-se o mais possível de pôr a seu favor a surpresa estratégica, no caso de ter de atacar. Assim, exatamente, a Rússia agiu na Crimeia e na Síria – sem absolutamente nenhum sinal ou, ainda menos, sem exibições propagandeadas de poder como meio para intimidar alguém (intimidação também é estratégia política ocidental, que os russos nunca usam).

Assim sendo, Lavrov continuará a negociar, não importa o quão ridículas ou inúteis pareçam essas negociações. O próprio Lavrov provavelmente jamais pronunciará publicamente a palavra “недоговороспособны”, mas a mensagem ao povo russo e aos aliados sírios, iranianos e chineses da Rússia sempre será clara: os russos, hoje, já perderam qualquer esperança de obter negociações proveitosas ou confiáveis com o atual governo dos EUA.

Obama & Co. estão assoberbados de trabalho, tentando esconder as reais condições de saúde e os problemas de caráter de Hillary e, no momento, provavelmente só conseguem pensar numa coisa: como sobreviver ao debate Hillary-Trump [2ª-feira, 26/9, na Hofstra University em Hempstead, N.Y.]. O Pentágono e o Departamento de Estado estão ocupados, sobretudo, em combater um contra o outro por causa da Síria, Turquia, curdos e Rússia. A CIA parece estar em guerra contra ela mesma, mas não se pode afirmar com certeza.

O mais provável é que algum tipo de acordo continuará a ser anunciado, por Kerry e Lavrov, se não hoje, então amanhã ou depois. Mas, francamente, concordo integralmente com os russos: norte-americanos são realmente “incapazes para acordos”, e nesse momento, os dois conflitos, na Síria e o da Ucrânia, estão congelados. Não digo “congelados”, isso sim, no sentido de “situação em que não há grandes desdobramentos possíveis”. Ainda haverá combates, especialmente agora que os aliados wahhabistas e nazistas dos EUA sentem que o chefe não está muito atento no comando, ocupado com eleições e conflagração racial quase generalizada nos EUA, mas dado que não há solução militar possível para nenhuma dessas guerras, os confrontos e ofensivas táticos não levarão a resultado estratégico.

Com exceção de algum ataque sob falsa bandeira dentro dos EUA, como o assassinato ou de Hillary ou de Trump por um “pistoleiro solitário”, as guerras na Ucrânia e Síria prosseguirão sem possibilidade de qualquer tipo de negociação significativa. E com Trump ou Hillary na Casa Branca, um grande “reset” acontecerá no início de 2017.  Trump provavelmente quererá encontrar Putin para uma grande sessão de negociações que envolva todos os temas chaves entre EUA e Rússia. Se Hillary e seus neoconservadores chegarem à Casa Branca, nesse caso será quase impossível impedir algum tipo de guerra entre Rússia e EUA.

[assina] The Saker.

PS: Alguns especialistas militares russos estão dizendo que o tipo de dano que se vê nas fotos e vídeos do ataque ao comboio humanitário não é consistente com ataque aéreo, sequer com ataque por artilharia; o que se vê parece ser resultado da explosão de vários IEDs [Dispositivos Explosivos Improvisados]. Se isso se confirmar, também não implica a Rússia, mas aponta para forças de “terroristas moderados” que controlam aquela locação. Ainda assim poderia ser ataque sob falsa bandeira ordenado pelos EUA ou, se não for isso, será prova de que os EUA perderam o controle sobre seus aliados wahhabitas em campo.*****

Estado Islâmico ameaçado: tropas governamentais se acercam de Palmyra

Por: Renato Velez

Fonte: Al Masdar News

Adaptação: César A. Ferreira

Há pouco o Exército Árabe da Síria (EAS) capturou três pontos chaves, a colina 800, a colina al – Amdan e a colina al – Thar na antiga pedreira , periferia ocidental de Palmira. Desde a semana passada, as tropas do governo moveram-se centenas de metros por dia para a antiga cidade de Palmyra, que está ainda sob a ocupação do Estado Islâmico. Agora, menos de uma milha separa os soldados sírios dos primeiros blocos de edifícios dos distritos a oeste da cidade. No entanto, o Estado Islâmico está disposto a tudo, menos a ceder Palmyra, uma vez que a cidade está situada no coração da Síria. Enquanto alguns consideram que a cidade de Palmira, como um simples troféu, você pode dizer que representa a ligação mais importante entre ricos poços de petróleo do leste e a densamente povoada Costa oeste da Síria.

É por isso que continua a ser vital para o Estado Islâmico manter o controle desta cidade. Em caso de perda, poderia causar um efeito dominó e a eventual derrota do califado em si. Todavia, o governo sírio está mais determinado do que nunca para capturar Palmyra. Como resultado, Damasco mobilizou as Forças Tigre, a 18ª Divisão Blindada, a Brigada “Falcões do Deserto”, juntamente com a milícia iraquiano EDI Imam Al – Ali. Por outro lado, combatentes do Hezzbollah estão em processo de implantação em toda a área adjacente a Palmyra, enquanto a Força Aérea da Rússia realiza dezenas de ataques aéreos contra a cidade todos os dias. Hoje, as forças do governo também capturaram vários pontos estratégicos ao redor da cidade, aproximando-se da área arqueológica ao oeste de Palmyra.

Neste momento, uma grande batalha acontece no “Castelo de Palmyra”, que está localizado sobre a montanha de Jabal Qassoun que domina a cidade do oeste. A histórica cidade de Palmyra, que foi capturada pelo EI em maio de 2015, durante uma ofensiva relâmpago, tem testemunhado a 4000 anos de civilização e sobreviveu a inúmeras batalhas ao longo dos séculos. Mas, infelizmente, o Estado Islâmico demoliu vários dos importantes sítios do Patrimônio Mundial da UNESCO dentro da cidade.

Ao longo prazo, captura de Palmira permitirá o empurrão do Exército Árabe da Síria para Deir Ezzor e romper o cerco imposto pelo Estado Islâmico nos distritos restantes detidos pelo governo dentro da cidade. No entanto, há muitos quilômetros do território ainda por ser arrebatando aos  combatentes do EI para que se possa atingir este objetivo.

Panorama do conflito sírio: 29.02.2016

Fonte: Al Masdar

Autor: Leith Fadel

Adaptação: César A. Ferreira

Corpo de importante comandante do Hezzbollah é recuperado

Durante a semana passada começaram a correr os rumores que se estenderam por todo o Líbano, de que um dos principais comandantes de campo do Hezzbollah havia sido morto durante a batalha por Khanasser, sudeste de Aleppo. Estes rumores foram de confirmado”a “se confirmar” em questão de horas, já que o destino de Ali Fayyadh, também conhecido como Alaa Al-Bosnia, foi debatido por partidários e oponentes.

Entre os rumores que se havia no Líbano e na Síria, estava a suposta captura de Ali Fayyadh pelo Estado Islâmico; estes rumores foram de prontos negados pelos jornalistas favoráveis ao Hezzbollah, mas que foram pelos equivalentes oponentes veiculados à exaustão.

 Pela manhã, elementos da “Força Tigre”, junto com combatentes do Hezzbollah, colocaram a termo estes rumores, quando recuperaram o corpo do comandante Ali Fayyadh, bem como os corpos de outros combatentes sírios, mortos durante a batalha de Al-Hammam, ao sul de Khanasser.

Os jornalistas ligados ao Hezzbollah confirmaram que o corpo do comandante Ali Fayyadh já se encontrava em sua posse (Hezzbollah), e que o mesmo retornava para a sua cidade natal para um enterro apropriado.

Província de Idlib

Comandos sírios aproximam-se da cidade estratégica de Idlib, dela distam 15 km.

Em maio passado (2015), a 87ª Brigada, pertencente à 11ª Divisão Blindada, evadiu-se vergonhosamente da cidade de Jisr Al-Shughour, citando em sua defesa a falta de cobertura aérea como razão principal da sua retirada prematura das cercanias da povoação de Ghaniyah. A realidade era o fato de as Forças Armadas da Síria não estarem preparadas para a ofensiva em grande escala lançada pela Jaysh-al-Fateh (Exército da Conquista) durante a primavera passada; isto foi evidente em sua retirada massiva da província de Idlib após um mês e meio de luta, somente.

Um avanço rápido cinco meses mais tarde: a Força Aeroespacial Russa começou a sua campanha aérea em todo o país para ajudar as Forças Armadas da Síria a recuperar a iniciativa (ofensiva). Sem saber naquele momento, estes ataques seriam mais tardes exitosos, tornando-se o elemento vital do qual necessitava as forças governamentais para retomarem as grandes porções de territórios das províncias de Aleppo e Latakia. Agora, as Forças Armadas da Síria recuperaram quase toda a totalidade das referidas províncias, incluindo vários vilarejos que eram, então, quase intocáveis antes da ofensiva em grande escala. A 103ª Brigada da Guarda Republicana e seus aliados impõem um controle total sobre o vilarejo de Ayn Al-Bayda, que dista uns 15 km do sudoeste de Jisr Al-Shughour.

À medida que derrete a neve no campo, ao noroeste da província de Latakia, Jabal Al-Akrad, montanhas curdas, vê se inundada com soldados do Exército Árabe da Síria. Estes soldados se preparam para aquilo que pode se converter no retorno épico do EAS a Jisr-Al-Shughourt, depois da perda desta cidade a apenas nove meses.

 Província de Aleppo

As forças governamentais reforçam a rota para Aleppo depois da retirada do Estado Islâmico.

Nas últimas 24 horas, a Força Tigre do Exército Árabe da Síria, em estreita coordenação com o Hezzbollah, Liwa Al-Quds (Brigada Jerusalém), Forças de Defesa Nacional (FDN) e a Guarda Republicana, avançaram em silêncio pela estrada Aleppo-Hama, em busca da captura de várias colinas e outros pontos fortes do Estado Islâmico na proximidade do vilarejo de Al-Hammam. No sábado, o EI tentou capturar o vilarejo de Al-Hammam, na forma de um contra-ataque, contra as Forças Armadas da Síria e aliados; todavia, este assalto, intenso, foi repelido após várias horas de enfrentamentos que culminaram em número alto de mortos de ambos os lados (dentre os mortos estava o comandante de campo do Hezzbollah, Ali Fayyadh).

 No dia seguinte (domingo), a Força Tigre e seus aliados aproveitaram a oportunidade para levar a cabo sua própria ofensiva no campo de Al-Hammam; esta contra ofensiva cobriu-se de êxito, pois as forças do governo foram capazes de assegurar Al-Hammam, bem como de aumentar a zona de proteção ao redor da autoestrada Ithriyah-Khanasser. Segundo uma fonte militar da Força Tigre, as Forças Armadas da Síria capturaram as montanhas que delimitam a localidade de Al-Hammam no seu flanco noroeste.

Com estas elevações capturadas, as Forças Armadas da Síria e os seus aliados obtiveram um alívio ao longo da estrada Ithriyah-Khanasser após o perigo de tela cortada e bloqueada, mais uma vez pelo Estado Islâmico. Ao norte de Al-Hammam, ativistas de mídias sociais da “oposição síria” informavam que o Estado Islâmico havia capturado a estratégica localidade de Khanasser. Hoje, entretanto, um correspondente local, em pleno campo de batalha refutou tais afirmações, que se constituíam de pura invencionice.

Exército Árabe Síro abre oficialmente a rota de abastecimento de Aleppo

Apenas 24 horas após declarar que a rota estratégica de abastecimento de Aleppo estava sob o se controle, o Exército Árabe da Síria (EAS), havia aberto tanto a rodovia Ithriyah-Khanasser, como logo após a estrada Sheikh Hilal-Ithriyah, assim que foram retiradas as minas (IED) plantadas pelo Estado Islâmico nas citadas rodovias. Com uma só rota até a província de Aleppo, o governo sírio necessitava reabrir esta estrada devido ao apoio logístico necessário para o Exército Árabe da Síria e permitir a continuação do comércio interior, o comércio civil.

O Estado Islâmico abandonou os arredores de Al-Safira, antes de ser cercado, isto permitiu ao grupo terrorista transferir 800 dos seus combatentes desta zona para fora da planície de Khanesser, donde poderiam lançar uma contra ofensiva contra tropas governamentais na semana passada.

A ofensiva surpresa resultou em algo exitoso para o Estado Islâmico (apesar de efêmero), dado que foram capazes de cortar e bloquear a única rota de abastecimento do governo sírio para Aleppo e província em dois pontos diferentes. Tanto que obrigou o Exército Árabe da Síria a deter o seu avanço a leste e oeste de Aleppo e de Al-Raqqa. Por desgraça as forças governamentais não podem descuidar-se desta área, bloqueada pelo Estado Islâmico mais de uma ocasião, e que fora cortada, oficialmente por duas vezes nestes últimos cinco meses. A Força Tigre e os seus aliados, por agora, se desdobram para ampliar a faixa de proteção ao redor da rodovia, para eliminar a ameaça do Estado Islâmico na região.

Província de Homs

Oito vilarejos foram libertados pelas forças governamentais das mãos do Estado Islâmico.

Na manhã de segunda-feira, no campo oriental da província de Homs, o 18º Batalhão de Carros Blindados, da 67ª Brigada Mecanizada, respaldado por infantes das Forças de Defesa Nacional (FDN) e Kataebat Al-Baas (Batalhões Al-Baas), impôs um controle total sobre mais de oito elevações dos montes Jazal, após violentos combates contra o Estado Islâmico. Segundo um correspondente presente no campo de batalha, nas cercanias das montanhas Al-Shaar, as Forças Armadas da Síria lançaram um assalto inesperado surpreendendo os militantes do EI, que se encontravam nos topos das colinas orientais das montanhas Jazal; este ataque obteve êxito extraordinário em vista que estas oito elevações se encontravam abaixo do tacão do grupo terrorista havia 13 meses.

As montanhas Jazal estão situadas estrategicamente próximas da fronteira entre as províncias de Homs com a de Hama. Sua proximidade com a desértica cidade imperial de Palmira (Tadmur), faz que se torne um objetivo importante para estar sobre controle das Forças Armadas da Síria. Além da libertação destes oito cumes em Jabal Jazal, as Forças Armadas da Síria voltaram a adentrar o pequeno vilarejo de Al-Dawa, nas cercanias de Palmira, após outra intensa batalha com o Estado Islâmico.  Recentemente esta frente desértica e o campo oriental da província de Homs vêm se tornando cenário frequente de enfrentamentos encarniçados entre o EI e as forças governamentais. Isto, após a primeira marcha de assalto ao oeste de Raqqa, três semanas atrás.

00-Ghouta Oriental
Área urbana flagrada durante bombardeio. Imagem: internet,

Província de Damasco

Exército Árabe Sírio captura Al-Fadiyaya, arredores da grande Damasco.

Nesta segunda-feira, na região oriental de Ghouta, Grande Damasco, o 416º Regimento da Guarda Republicana, respaldado por elementos da Força de Defesa Nacional (FDN) e do Exército de Libertação da Palestina (ELP), acabaram por impor o controle total sobre o vilarejo de Al-Fadiyaya, nas proximidades da Base Aérea de Marj al Sultan, após violentos combates com membros da Jaysh al-Islam (Exército do Islã) e Jabhat al-Nusra (Al-Qaeda na Síria). A povoação de Al-Fadiyaya situa-se ao norte da referida base militar e a sua captura acaba por preservar a segurança do flanco norte desta base aérea e do campo de pouso para helicópteros, daquilo que havia se tornado uma fonte de projéteis, disparos de morteiros e de foguetes inimigos.

Como parte deste avanço feito de surpresa, as Forças Armadas da Síria lançaram uma ofensiva de grande escala na região sul do Ghouta Oriental, justamente a área em que há a maior concentração de combatentes da Jabaht al-Nusra, fora de Hajar a-Aswad e das montanhas Qalamoun, na Grande Damasco.

Nota do Editor: Leith Fadel é um correspondente do Al-Masdar News e tem suas reportagens repercutidas como fonte de informação credível do conflito sírio. Nem sempre o faz no formato de matéria jornalística, por comunicar eventos em tempo real no Twiter. O Al Masdar fornece três opções de linguagem para o leitor, inglês, espanhol e russo.

 

Turquia força violação do cessar fogo na Síria

Por: César A. Ferreira

A Turquia, movido pelo desespero frente ao desabar dos seus interesses em território sírio, perdeu todo o pudor possível passou a apoiar, de modo franco, a invasão da Síria a partir do seu território por extremistas da international jihad filiados ao Estado Islâmico. A ação se deu na data de 28 de fevereiro ultimo. Aproximadamente 100 dos combatentes do terror invadiram o território  fronteiriço curdo, especificamente a cidade de Kobane, palco de intensos combates entre 2014/2015, formando uma pinça que visava a cidade pelo norte e sul, com apoio de fogo de artilharia de campanha (155 mm) provindo da Turquia, fornecido, por óbvio, pelo exército turco.

O referido ataque foi sustado pelos defensores, resultando em aproximadamente 70 extremistas mortos, segundo informantes curdos. Apesar de a incursão ter sido dominada, ela ganha importância por ser um ataque de militantes do EI efetuado com explícito apoio turco contra um bastião do YPG/YPJ, grupo armado curdo que conta com apoio dos EUA. A artilharia turca faz com constância fogo contra localidades fronteiriças sírias, caso de Kobane, Tel Abyad e proximidades de Az’ az, portanto, percebe-se, que para ser alvejada uma determinada localidade, o critério único adotado pelos turcos é estar esta mesma localidade em mãos dos combatentes curdos. Todos os demais fatores são secundários.

O apoio da artilharia de campanha turca foi denunciado pelo Chefe do Centro Russo Para Reconciliação de Beligerantes, Tenente-General Sergei Kuralenko, segundo este oficial, a informação do apoio de fogo da artilharia turca os insurgentes provindos da Turquia foi verificada e confirmada através de vários canais, inclusive por “representantes das forças democráticas da Síria”. Segundo outro informante, Redura Khelil, representante curdo para contatos com a imprensa, os defensores curdos “foram capazes de repelir o ataque, sendo os agressores cercados e destruídos”. Não houve citação alguma sobre baixas curdas.

Campo de batalha na Síria, relatório, 26.02.2016

Fonte: Warfiles

Adaptação: César A. Ferreira

 O cessar-fogo na Síria está para começar nesta meia-noite.  A força aérea síria está distribuindo panfletos sobre áreas ocupadas pelo inimigo, onde consta instruções especiais para os comandantes rebeldes sobre aquilo que devem preencher, para então se transferirem ao centro de cessar-fogo de Hmeimim.

Moscou anunciou que os ataques aéreos contra as posições rebeldes continuará até às 10 horas do horário moscovita, o que corresponde à meia-noite, no tempo de Damasco. Eastern Guta, Homs norte, e Aleppo ocidental experimentaram os mais pesados ​​ataques aéreos do dia.

Província de Aleppo

O EAS – Exército Árabe Sírio, liberou totalmente a localidade de Hanasser. Antes da libertação, as forças sírias destruíram um grupo de rebeldes na aldeia de Rasm an-Nafal.

O EI – Estado Islâmico não dormiu muito na noite passada, uma vez que foi continuamente bombardeado por aviões russos que voaram em mais de 30 missões no apoio às tropas sírias.

Após libertar Hanasser, as Forças Tigre,  uma força de comandos, começou a libertar outras cidades ao longo da vitalmente  e importante rota de abastecimento para Aleppo. A brigada de elite apoiada por equipas das Forças Gueopardo 03 e 06, bem como as unidades da Guarda Republicana, do Hezbollah, e das Forças de Defesa Nacional, conseguiram libertar cinco aldeias ao longo destes dois últimos dias.

Nesta manhã, tropas sírias de operações especiais expulsaram o inimigo das aldeias Shilallah al-Saghira, Minaya e Jokhah em operações (de ataque) relâmpago. O eixo de progressão partiu de aldeias recentemente libertadas.

Em seguida, as unidades de elite lançaram um ataque contra Hawaz cuja captura levará à ocupação das elevações existentes no entorno de Raheep. O contra-ataque rebelde contra El-Hammam falhou. Também foi relatado que os últimos vilarejos ao longo da rota Hanasser-Aleppo foram libertados, abrindo assim a estrada que permite o fluxo de abastecimento para Aleppo. O inimigo foi forçado a recuar a partir de Raheeb, Rawahayb, Rasm al-Tineh e Muntar. As formações sírias começaram a varredura para limpar a estrada secundária Sheiha Hilal-Ithriyah, até então bloqueada pelos militantes.

Dá-se que as forças dp EI remanescentes na área poderiam vir a cair em uma armadilha. Eles possuem apenas uma única rota de fuga,  estreita, que os leva para Raqqa, via esta que pode ser cortada a qualquer momento. Se eles estão propensos a sobreviver, terão de recuar, caso contrário, serão mortos pela combinação das armas: de unidades de elite sírias e aeronaves de ataque russas.

A troca de tiros é contínua na própria cidade de Aleppo. Os confrontos mais graves ocorreram nos distritos de Beni-Zeid e Han al-Asal.

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Carro de Combate T-72, do EAS, promove apoio à infantaria. Fonte: Warfiles.

Província de Hama

Não foram realizadas grandes operações terrestres. Aeronaves de ataque sírias lançaram ataques contra a Al-Qaeda (Jabhat al-Nusra) concentrações de militantes perto de Wadi al-Azib, destruindo uma série de posições fortificadas e peças várias de equipamento.

Província de Deir ez-Zor

Os terroristas continuam a sondar as defesas da base aérea. Houve confrontos perto da aldeia de Beit-Dhem e o posto de controle ao sul.

Houve confrontos breves na capital provincial perto de al-Afri e ad-Jbeil. Os terroristas sofreram perdas graves após uma coluna de abastecimento ter sido emboscado.

Província de Homs

Os ataques aéreos sírios atingiram três sedes de militantes, destruindo um número considerável de veículos em Palmira. Jaysh al-Fath (entidade terrorista) foi bombardeada perto de Telbis onde vieram a perder um posto de comando.

Na capital da província ocorreram  escaramuças breves, registradas nos distritos de Al- Arfi e Hell Jbeil . Aqui, os terroristas sofreram perdas severas, especialmente quando foi feito fogo sobre os comboios de abastecimento, então emboscados.

Províncias de Latakia e Idlib

A 103ª Brigada da Guarda Republicana do Exército Árabe Sírio, calaram as últimas resistências nas áreas da fronteira com a província de Idlib. Ain al-Baida, localizada nas montanhas curdas foi libertada na parte da manhã. Os Comandos, desta maneira, acabaram por penetrar no território da província de Idlib, com isto,  as forças sírias avançaram 3 km em direção à fronteira com a Turquia. Os islamitas estão controlando apenas uma pequena área, uma franja de poucos quilômetros quadrados próximo a Kobane e al-Sirmaniyah.

As aeronave da Força Aérea da Síria bombardearam várias bases da Jabhat al-Nusra, destruindo muito da infra-estrutura dos terroristas, além de vários equipamentos (material rodante).

 

 

Avanços sírios impõem aos turcos opções desesperadas

Por: César A. Ferreira

O desenrolar das ações do Exército Árabe da Síria ao norte do país, com vigorosa assistência do grupo aéreo russo, retira, uma a uma as opções turcas no tocante à guerra por procuração que move na Síria, com os seu agentes turcomanos e coligados da al-Qaeda, leia-se al-Nusra, Exército Livre Sírio e Estado Islâmico. A queda das cidades de Nublo e Zahran, trazem grandes consequências para as forças insurgentes, afora o contexto simbólico desta vitória, posto que eram cidades perdidas há mais de três anos. As forças insurgentes, mais uma vez, sofreram revezes de monta, onde fez-se decisiva a presença dos ataques aéreos demandados pelo agrupamento russo e pela Força Aérea Árabe da Síria.

Estas cidades, agora firmemente em mãos governamentais, vedam mais um corredor para abastecimento logístico para Aleppo, onde a cada dia que passa se enfraquecem as posições insurgentes frente àquelas do governo reconhecido da Síria. O foco, agora, dá-se no entorno de Azaz, justamente por ser um entroncamento importante para o abastecimento de Aleppo. Comboios turcos são sistematicamente bombardeados nas estradas próximas e caso haja a queda da localidade, restará apenas os corredores de Reyhanli e Idlib. É desnecessário dizer que quanto menores forem as rotas logísticas, mais fácil será a tarefa do poder aéreo russo na região, que é a de estrangular o esforço logístico dos grupos insurgentes na fronteira norte da Síria.

A Turquia vê com o avanço das forças do Exército Árabe da Síria, e dos grupamentos curdos do YPG/YPJ, junto aos entroncamentos viários da fronteira sírio-turca como o golpe mortal na sua propalada “zona de segurança para refugiados”. Além do mais, vê-se obrigada a assistir que contendores com os quais jogava, caso dos EUA e da Rússia, venham agora a abastecer os combatentes curdos, nas franjas fronteiriças, sem que tenha voz ativa contra tal movimento.

No tocante aos EUA, estes cumprem com o seu plano, não divulgado, mas à vista de todos, de fragmentar a Síria, onde um estado curdo teria o seu lugar natural, enquanto os russos passaram a apoiar um aliado interessado em dar combate aos insurgentes que lhe são hostis, cuja sobreposição de interesses ganhou um impulso grande, quando da atitude turca de abater o bombardeiro Su-24M2. Grandes consequências de um gesto impensado, visto que desde tal abate não houve outra coisa que não fosse o acelerar do avanço governamental. O fato de armar, largamente, os combatentes do YPG/YPJ, vir a constituir na concretude de um estado nacional curdo, parece ser nos cálculos russos e sírios como algo aceitável, em vista do combate mortal com os insurgentes, onde a necessidade extrema de infantes torna-se imperiosa.

Para a Turquia, pouco resta…

Dado que agora, existe uma bateria do Sistema S-400, na base aérea de Hmeymim , além de dois elementos de caças Su-35S, equipados com mísseis R-73E, R-27ET, além do novíssimo RVV-SD, restam aos turcos a atitude do confronto aberto com a invasão do território sírio, posto que a guerra por procuração entra em colapso, bem como a sonhada “no fly zone”, algo que de concreto pode-se dizer que existe, mas com as cores russas…

O desespero turco acentua-se, justamente, com a corrida das forças curdas para o oeste. Caso haja o sucesso do YPG/YPJ em liberar Marea, restará à Turquia a ligação logística através de Bab al-Hawa e de Idlib, mas estas, como dito antes, submetidas à interdição aérea russa.  Que não haja enganos, o discurso está pronto: salvar a minoria étnica turca, os “turcomanos” da Síria, contra o “massacre” perpetrado pelos curdos, “facínoras”, coadjuvados pelos odientos russos. Compra quem quiser.

O cenário está montado, portanto, para um confronto de forças convencionais. Entende-se, pois, a retórica saudita, de “estarem prontos” para participar de uma eventual invasão terrestre da Síria, quando se encontram atolados no Iêmen, para dar cabo do “Estado islâmico”. Ora, ora, existem tolos tão tontos assim? A invasão, sabem até os mais parvos, servirá para pavimentar a fragmentação da Síria e garantir, dentre os novos estados a nascer desta quebra, os chamados “Sunistões”, a existência. A questão é: a Síria vale à pena? Vale a ponto de levar o mundo a assistir a um confronto direto entre a OTAN e a Rússia, o que equivale dizer a um confronto nuclear? As respostas estão com o tempo… Um professor rigoroso.

Genebra: o estágio farsesco da guerra Síria

Por: Pepe Escobar, RT (29/01/2016).
Fonte em português: Oriente Mídia

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

O chamado processo de paz sírio entra agora no estágio de farsa em Genebra. Pode durar meses; preparem-se para doses abundantes de arrogância e vociferação capazes de fazer corar um Donald Trump. A noção de que Genebra possa fazer o papel de Damasco, naquela pantomima de terno e gravata, é, para começar, cômica. Até o enviado da ONU, o soberbamente snob-engomado Staffan de Mistura, admite que a missão à frente é de Sísifo – e assim continuaria, ainda que todos os atores relevantes estivessem à mesa.Depois, temos uma “figura da oposição” síria, George Sabra, a anunciar que nenhuma delegação de Riad, do Alto Comitê de Negociações, estará à mesa de negociações em Genebra. Como se os sírios carecessem de “oposição” instrumentalizada pela Arábia Saudita.Assim sendo, para lhes oferecer algum contexto, eis uma rápida recapitulação dos eventos recentes, cruciais, em solo sírio, que Genebra, autodeclarada “a nova capital”, talvez ignore e para prejuízo dela mesma.

Comecemos pelo verão passado, quando o comandante superstar general Qasem Soleimani das Forças Al-Quds do Irã falou em pessoa, em Moscou, para deixar absolutamente claro, sem dúvida possível, que a situação no teatro de guerra sírio era muitíssimo grave.

Na essência, Soleimani disse ao Kremlin e à inteligência russa que Aleppo podia estar prestes a cair; que Jabhat al-Nusra estava às portas de Damasco, no sul; que Idlib havia caído; e Latakia – onde está localizada a base naval russa em Tartus – estava prestes a cair.

Pode-se imaginar o efeito desse jato de realpolitik sobre a mente do presidente Putin. E ele acabou de decidir que, sim, a Rússia impediria que a Síria caísse e impediria que se tornasse uma Líbia remix.

A campanha da Força Aérea Russa marcou a mais completa virada naquela situação. Está ainda trabalhando no processo de cobrir e dar segurança a toda a rede Damasco-Homs-Latakia-Hama-Aleppo – o oeste urbano e desenvolvido da Síria, onde vive 70% da população do país. ISIS/ISIL/Daech e/ou Jabhat al-Nusra, também conhecida como Al-Qaeda na Síria, tem zero chances de tomar esse território. E o restante da Síria é quase totalmente o deserto.

Jaysh al-Islam – grupo terrorista armado pela Arábia Saudita – ainda defende algumas poucas posições no norte de Damasco. É controlável. Os “caipiras”, na província de Daraa, sul de Damasco só conseguiriam tentar algum assalto à capital num contexto, ali impossível, de Tempestade no Deserto à 1991.

“Rebeldes moderados” – essa invenção pervertida do Departamento de Estado dos EUA – bem que tentaram tomar Homs e Al-Qusayr, cortando a linha de ressuprimento de Damasco. Foram repelidos. Quanto à malta de “rebeldes moderados” que tomaram toda a província de Idlib, estão sendo bombardeados sem dó há quatro meses pela Força Aérea Russa. E o front sul de Aleppo também está sendo coberto e protegido.

Stahhan de Mistura
Mediador das Nações Unidas para a Síria, Staffan de Mistura. Imagem: Denis Balibouse/Reuters.

Não bombardeiem “nossos” rebeldes

Fácil logo ver quem está lívido ante a ação dos russos: Arábia Saudita, Turquia e – por último, mas não menos importante – o “Império do Caos”, todos esses sentados à mesa em Genebra.

Jabhat al-Nusra – comandado por controle remoto por Ayman al-Zawahiri – é grupo intimamente conectado à gangue dos jihadistas salafistas no “Exército da Conquista” patrocinado pelos sauditas, além de taticamente aliado a miríades de grupelhos nominalmente reunidos no já quase extinto “Exército Sírio Livre” (ESL) [orig. Free Syrian Army (FSA)].

CIA, usando os sauditas como anteparo para garantir a ela negabilidade plausível – armou até os dentes vários pseudoaliados do ESL – cuidadosamente “selecionados” –, aos quais a CIA enviou, dentre outras armas, mísseis TOW antitanques. Adivinhem quem “interceptou” praticamente todas as armas: Jabhat al-Nusra.

Dali em diante o desdobramento foi, para dizer o mínimo, hilário: Washington, Ancara e Riad puseram ensandecidamente a denunciar Moscou, que estaria bombardeando “rebeldes moderados” delas, não o ISIS/ISIL/Daesh.

Lentamente, mas sem retrocessos, o Exército Árabe Sírio (EAS) [orig. Syrian Arab Army (SAA)], operando conectado à ofensiva russa, retomou a iniciativa.

O grupo “4+1″ – Rússia, Síria, Irã (Forças Especiais, muitas das quais do Afeganistão) mais o Hezbollah – passaram a coordenar esforços. A província de Latakia – que abriga não só a base naval de Tartus, mas também a base aérea russa Khmeimim – está agora sob completo controle pelo governo de Damasco.

O que nos leva aos pesadelos de Ancara. A Força Aérea Russa esmagou todos os turcomenos aliados de Ancara – e pesadamente infiltrados por fascistas turcos – no noroeste da Síria. Essa foi a razão chave que levou o sultão Erdogan ao movimento desesperado de derrubar o Su-24 russo.

Já é claro hoje que os vencedores em campo, no pé em que estão as coisas, são os “4+1″, e que Arábia Saudita e Turquia perderam a guerra. Assim sendo, não é surpresa que os sauditas desejem contar com alguns dos próprios asseclas na mesa de negociações em Genebra; e que a Turquia tente mudar de assunto impedindo que curdos sírios participem: Ancara pinta os curdos sírios como terroristas muito mais ameaçadores que oISIS/ISIL/Daech.

Sai Genebra, entra Jarabulus

Como se já não houvesse confusão suficiente, a “Think-tank-elândia” dos EUA está agora espalhando que haveria um “entendimento” entre Washington e Ankara quanto ao que seria, para todos os propósitos práticos, uma invasão turca ao norte da Síria, sob o pretexto de que Ancara lá estaria para ‘esmagar’ o ISIS/ISIL/Daech no norte de Aleppo.

Absoluto nonsense. O jogo de Ancara tem três braços: reforçar os seus muito enfraquecidos asseclas turcomenos; manter o mais vivo possível o corredor até Aleppo – corredor que inclui a Rodovia Jihadista entre Turquia e Síria; e, principalmente, impedir, por todos os meios necessários, que os curdos do YPG façam a ponte de Afrin até Kobani e unam os três cantões de curdos sírios próximos da fronteira turca.

Nada disso tem qualquer coisa a ver com combater ISIS/ISIL/Daech. E a parte mais ensandecida é que Washington está, realmente, garantindo apoio aéreo de ajuda aos curdos sírios. Ou o Pentágono apoia os curdos sírios, ou apoia Erdogan na invasão do norte da Síria: aqui não cabem esquizofrenias.

Erdogan cego de desespero pode enlouquecer o bastante para confrontar a Força Aérea Russa, numa anunciada “invasão” turca. Putin já disse publicamente que resposta a qualquer provocação será imediata e letal. E, sobretudo, russos e norte-americanos estão realmente coordenando ações no espaço aéreo no norte da Síria.

Essa é a cena realmente importante e o próximo “evento” relevante, que eclipsará completamente a pantomima de Genebra. O YPG curdo e aliados estão planejando grande ofensiva para assumir o controle sobre a faixa de 100 km da fronteira sírio-turca que ainda está sob controle do ISIS/ISIL/Daech –, reunificando assim os seus três cantões.

Erdogan não mediu palavras: se o YPG avançar a oeste do Eufrates, é guerra. Ora. Então parece guerra, mesmo. O YPG apronta-se para atacar as cidades cruciais de Jarabulus e Manbij. Com certeza quase absoluta, a Rússia auxiliará o YPG a reconquistar Jarabulus. E assim, mais uma vez, a Turquia ter-se-á posto cara a cara, em solo, com a Rússia.

Genebra? Ali é coisa para turistas; a capital do horror agora é Jarabulus.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

Exército Árabe da Síria demonstra novas habilidades

Por: César A. Ferreira

É sabido que um exército que se mantém muito tempo em paz tende a enrijecer-se, devido não só ao apego das formas conhecidas de combater, como ao desprezo,  discreto,  mas sentido, por tudo que seja inovador, ou diferente. Um exemplo clássico é a Armée de Terre, que partiu para lutar a Segunda Grande Guerra como se esta fosse a repetição do Front Ocidental da Primeira Grande Guerra. O resultado é bem conhecido por todos.

Não poderia ser diferente com o Exército Árabe da Síria, que neste confronto com foras irregulares, mas extensas, além de muito bem armadas no padrão OTAN, com aquilo que há de melhor no arsenal ocidental, tal como os ATGW TOW, foi obrigado por estes mesmos motivos a rever de maneira ampla os seus conceitos, formas de combater e dogmas, antes arraigados, para fazer valer a sua vontade no campo de batalha. Não que seja uma novidade para os sírios. Em 1982 a infantaria síria concebeu grupos de infantaria, armados com RPG-7, com o intuito de caçar blindados israelenses no Vale do Bekaa. Estes grupos “matadores” causaram baixas desproporcionais na força blindada israelense, dado que eram grupos pequenos, que se aproveitavam das reentrâncias do terreno e do ambiente urbano. Para as Forças de Defesa de Israel o drama iria se repetir, desta vez na forma de pesadelo em 1986, tendo como inimigo o Hezzbolah. Mas, esta é outra história…

Não é novidade que este conflito, na Síria, tenha um forte componente urbano, portanto de uma guerra de atrito, mas se enganam aqueles que pensam em formações pesadas, ataques maciços, com uso de extenso de Carros de Combate como aríetes modernos. Isto só os exporia às armas anti-carro. Na verdade dá-se uma procura grande pela mobilidade e poder de fogo. Não por outro motivo, vê-se de forma onipresentes os canhões de tiro rápido de 23mm montados nas caçambas de “Pick Ups”… O Exército Árabe da Síria adotou esta forma de combater, e possui a sua frota de canhões de tiro rápido de deslocamento imediato.

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Elemento de ligação e exploração do exército sírio percorre de motocicleta a cidade disputada de Salma. Foto: Youssef Karwashan/AFP

A arma secreta, no entanto, é outra… A motocicleta! Isto mesmo, uma simples moto é a grande estrela da vitória do Exército Árabe da Síria na retomada de Salma. É verdade que a ala aérea russa se fez presente, e que a barragem de artilharia foi intensa e muito bem coordenada, mas no campo da infantaria, foram as motocicletas aquelas que permitiram os avanços rápidos dos infantes, evadindo-se dos snipers, que não tinha tempo de mirar e disparar em alvos tão fugidios. Em declaração para a Agência AFP, um jovem combatente, identificado como Hany, afirmou: ”A forma como combatemos tem  mudado desde o princípio da guerra, e temos desenvolvido os nossos próprios métodos ofensivos”, em seguida completou, “Hoje, nós utilizamos as motos pela sua velocidade e mobilidade”.

O motivo deste apreço, além da velocidade, que serve como um subterfúgio contra os franco-atiradores, deve-se ao fato delas superarem obstáculos com facilidade, além de serem os veículos ideais para transitar nas ruelas estreitas dos bairros típicos de muitas cidades sírias. As ruas estreitas, tal como aquelas que existem em Salma, dificultam, isto quando não inviabilizam por completo a progressão dos blindados e dos Carros de Combate. Para as motos, isto não é um problema, daí o uso de cerca de 80 motocicletas na batalha pela cidade de Salma.

Não foi uma inspiração celestial, tampouco de algum iluminado oficial, ou praça. Foi, isto sim, a observação objetiva e sem menosprezo da forma como o inimigo combatia. O uso de motos foi copiado, sem cerimônia ou vergonha, como demonstra o nosso informante: “Não nos negamos a dizer que aprendemos a tática de utilizar motos com os rebeldes. Temos desenvolvidos novos métodos no combate urbano e contra a guerra de guerrilha, e a luta em motocicletas pode chegar a ser uma tática em que os exércitos regulares podem vir a se basear”.

Para os sírios a moto significa a sobrevivência, pois pode transladar feridos, levar munições para grupos semi-cercados, recompletar pelotões e grupos de combate, bem como serem equipadas com metralhadoras, RPG-7, ou superior, onde até mesmo o uso de Nightvison Goggles, se faz presente.

Quem diria que a guerra está aos poucos se parecendo com a sua representação hollywoodiana…

É assim.

Semana 15 da intervenção russa na Síria: Quando nenhuma notícia é boa notícia

Data de publicação: 17/1/2015.

Autor: The Saker

Fonte original:  Vineyard of the Saker

Fonte em Português: Oriente Mìdia

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu.

Pode-se dizer que a intervenção russa na Síria entrou numa espécie de rotina: os russos bombardeiam, muito, e os sírios avançam em quase todos os fronts, mas lentamente. Por mais que os que esperavam colapso rápido do Daesh seguido de várias grandes vitórias do estado sírio estejam talvez desapontados, pessoalmente estou ainda mais encorajado por esses eventos. Explico por quê:

Se os sírios não venceram em alguma rápida Blitzkrieg [guerra-relâmpago], é porque, em primeiro lugar e sobretudo, nenhuma Blitzkrieg jamais foi possibilidade real. Os sírios nunca tiveram números que lhes permitisse concentrar forças suficientes num eixo de ataque e, subsequentemente, explorar alguma abertura. Os sírios tampouco têm o poder de fogo necessário para preparar as defesas do Daesh antes de tentar ofensiva daquele tipo.

De fato, um papel secundário das Forças Aeroespaciais Russas foi prover, do ar, o poder de fogo que os sírios não tinham nas próprias forças terrestres. Mas, por mais que uma Blitzkrieg seja muito impressionante, embora arriscada, há outro tipo de guerra também já testada no tempo, a guerra de atrito [ing. attrition warfare], que também gera resultados. Não estou falando de um tipo de guerra de atrito da 1ª Guerra Mundial, é claro, mas de um tipo específico do conflito sírio.

Os russos não param de degradar o Daesh em vários níveis: atingem postos de comando, depósitos de munição, rotas logísticas e de suprimento, bases de treinamento, etc. Dado que vários desses alvos já estão destruídos, os russos também estão provendo mais e mais apoio aéreo direto próximo, quer dizer, agora estão voando missões em apoio direto às operações do exército sírio. Há também cada vez mais evidências de que há oficiais russos trabalhando bem próximos das unidades sírias de linha de frente. Essa cooperação próxima e a coordenação fina entre russos e sírios já gerou várias pequenas vitórias e pelo menos uma grande vitória: a cidade estratégica de Salma, na província de Latakia no nordeste do país, está agora completamente libertada.

– Assistam a esse vídeo (em russo, com legendas em inglês, mas o idioma nem é necessário), da libertação da cidade.

– Para acompanhar progressos recentes, há esse relatório do Quartel-general Russo (legendas em inglês).

Do lado negativo, sírios e russos ainda não encontraram meio para negar ao Daesh sua maior vantagem: a capacidade para arrastar mais e mais combatentes para dentro da Síria, pela Turquia e outros países.

Nesse momento ainda não se vê com clareza quem está levando vantagem nessa competição: se os sírios matam takfiris mais depressa do que o Daesh os importa, ou não. Seja como for, o que é certo é que os sírios estão avançando, o que me diz que, por mais que o influxo de novos combatentes com certeza seja problema para os sírios, não é fator que tenha tornado possível, para o Daesh, impedir os sírios de avançarem.

Já mencionei no passado que os russos estão fornecendo aos sírios sistemas avançados de artilharia que, gradualmente, restaurarão, para os sírios, a capacidade de poder de fogo nas unidades de solo do exército.

Outro item interessante do noticiário recém surgido: há relatos de que a Rússia, agora,está fornecendo armamento diretamente ao Hezbollah.

Se aquelas notícias se confirmarem (mais ou menos; ninguém jamais reconhecerá oficialmente, claro), teremos aí resposta muito elegante às bombas de Israel contra depósitos de armamento do Hezbollah.

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Soldados do Exército Árabe da Síria exultantes por libertarem um bairro dos terroristas. Foto: Portal R7.

Quanto ao Irã, podemos ter certeza de que podem obter no mercado russo, em todos os casos, quase qualquer coisa de que venham a precisar. Em outras palavras, Rússia estará lentamente, mas consistentemente, reconstruindo as capacidades sírias.

Mesmo com tudo isso, o grande evento das duas últimas semanas é, na realidade, um não evento. É o fato de que a “coalizão alternativa” liderada pelos EUA está conseguindo precisamente nada. Não apenas a grande conferência na Arábia Saudita foi fracasso totaldepois que o grupo Ahrar al-Sham deixou a reunião, mas, além disso, a recente tentativa dos sauditas para criar uma crise com o Irã também deu em nada, acabou sem qualquer resultado tangível.

O mesmo vale para a intervenção francesa em resposta aos massacres em Paris: o [porta-aviões] Charles de Gaulle navegou para a Síria e daí… nada! Literalmente nada, coisa nenhuma, aconteceu. Quando ao Hegemon Mundial, parece que Tio Sam simplesmente não sabe o que fazer: todos vimos uma série de declarações insípidas e depois delas, nada. Os turcos, por sua vez, enfrentam agora situação interna que só piora dia após dia e também já parecem não saber o que fazer quanto à Síria.

Por tudo isso é que entendo que “nenhuma notícia é boa notícia”: porque nenhuma notícia significa que a Rússia é o único jogo na cidade: seja qual for o passo do avanço russo-sírio contra o Daech, são os únicos que estão realmente fazendo acontecer alguma coisa, enquanto todos os demais atores estão em total desarranjo e confusão.

Por algum tempo o Pentágono fez circular a ideia de uma ofensiva curda apoiada pelos EUA contra a cidade de  apresentada como “capital do Daesh“, e algumas forças especiais dos EUA foram mandadas para ajudar os curdos, mas rapidamente se viu que os turcos opunham-se firmemente àquela ação. Pior ainda, os curdos recusaram-se a servir como bucha de canhão para operação comandada dos EUA contra o Daech. E foi-se pelo ralo o grande plano.

Em outras palavras, e nesse ponto do tempo, parece é que EUA, OTAN, UE, turcos, sauditas etc. estão absolutamente sem plano viável e sem ação. Os únicos atores que não só têm plano, mas também estão agora trabalhando a favor de seu objetivo de longo prazo são Rússia e Irã. Vale a pena também observar que o plano russo-iraniano inclui flexibilidade prevista na estrutura: sendo possível, russos e iranianos querem alcançar a melhor situação em campo, antes de iniciar quaisquer negociações sobre o futuro da Síria. Se não for possível e se o Império insistir e mudar as regras do jogo e aumentar a aposta, nesse caso o plano de volta ao pé de apoio é simples: derrotar militarmente o Daech.

A melhor prova de que o lado russo está disposto a sustentar campanha longa é o recente acordo SOFA (ing. status of forces agreement) assinado entre Russos e Síria e que, basicamente, regula a presença russa na Síria e que foi assinado sem limite de tempo. De fato, qualquer dos lados que queira retirar-se do acordo comprometeu-se a dar um ‘aviso prévio’ com um ano de antecedência. É possível que iranianos e sírios também tenham acordo similar, mas não foi divulgado.

Há muita especulação sobre uma possível operação russa de solo, na Síria. É ideia que absolutamente não me convence. Não apenas funcionários e especialistas militares russos descartaram essa possiblidade, mas, simplesmente, os militares russos não estão configurados para esse tipo de projeção de poder de longo alcance. Sim, a Rússia pode, em teoria, mandar forças aeroembarcadas para lá e depois apoiá-las com uma força-tarefa naval, mas seria ação contrária à doutrina militar russa e gera riscos potenciais muito sérios. Exceto se ocorrer algo de realmente extraordinário, não vejo o Kremlin entrando nesse tipo de gambito extremamente perigoso.

Por tudo isso, o plano parece ser o seguinte:

  1. Estabilizar o governo sírio [feito]
  2. Guerra de atrito contra o Daesh (em andamento)
  3. Reconstruir as forças armadas sírias (em andamento)
  4. Estabelecer uma presença militar russa permanente [feito]
  5. Impedir que EUA-OTAN imponham uma zona aérea de exclusão [feito]
  6. Forçar o Império a negociar com Assad (em andamento)
  7. Bloquear o apoio que turcos, sauditas e qataris dão aoDaech (em andamento)
  8. Cooptar a maior parte possível da oposição armada contra Assad para uma frente unida anti-Daech(em andamento)
  9. Prover ajuda militar ao Irã e ao Hezbollah (em andamento)
  10. Manter combatentes do Daesh longe da Rússia e dos aliados da Rússia no Cáucaso e na Ásia Central (em andamento)
  11. Tentar convencer os europeus de que a posição deles no Oriente Médio (e em e nos demais pontos) é de autoderrota, e que devem trabalhar com a Rússia para restaurar a estabilidade (sem resultados até agora)
  12. Tentar meter uma cunha entre EUA e Europa (sem resultados até agora).

Acho que esse plano combina com sucesso objetivos de curto e de longo prazo, e tem boa chance de ser bem-sucedido em, pelo menos, os 10 primeiros objetivos. Infelizmente, não vejo sinal algum de que o tacão dos EUA sobre a Europa (aplicado mediante as elites europeias comprador que estão no poder) esteja perdendo força. Se por mais não for, o fracasso que foi a viagem de Hollande a Washington já provou que também à França já não resta qualquer soberania real.

 

E se a China tiver a chave do quebra-cabeça afegão?

Por: Pepe Escobar

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Fonte original: RT

Fonte em Português: Oriente Mídia

Como Lázaro, há razões para crer que o processo de paz afegão pode ter tido uma chance de ressuscitar na 2ª-feira passada em Islamabad, quando quatro grandes players – Afeganistão, Paquistão, EUA e China – sentaram-se ao mesmo tempo à mesma mesa.Mas o comunicado final ficou longe de ser retumbante: “Os participantes enfatizaram a necessidade imediata de conversações diretas entre representantes do governo do Afeganistão e representantes de grupos Talibã num processo de paz que visa a preservar a unidade, a soberania e a integridade territorial do Afeganistão.”Uma semana antes da reunião em Islamabad, ainda no Golfo Persa, tive conversa extremamente esclarecedora com um grupo de pashtuns afegãos. Depois de quebrado o gelo, quando todos se convenceram de que não sou algum tipo de agente à moda Sean Penn, com agenda oculta, meus interlocutores pashtuns entregaram o que tinham de melhor. Senti-me de volta a Peshawar em 2001, uns poucos dias antes do 11 de setembro.A primeira grande novidade foi que dois oficiais Talibã baseados no Qatar, estão próximos de reunir-se cara a cara com altos enviados chineses e paquistaneses, sem interferência dos EUA. Encaixa-se perfeitamente na estratégia demarcada pela Organização de Cooperação de Xangai (OCX), liderada por China e Rússia, segundo a qual o enigma afegão tem de ser resolvido como assunto asiático. E Pequim com certeza quer solução, e rápida; pensem no capítulo afegão das Novas Rotas da Seda.

A Guerra Afegã pós 11/9 arrasta-se por intermináveis 14 anos; adotando o jargão pentagonês, pode-se pensar em Liberdade Duradoura para sempre. Ninguém está vencendo – e os Talibã estão mais divididos que nunca, depois que processo de paz passado colapsou quando os Talibã anunciaram que Mullah Omar morrera dois anos antes.

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Guerreiro Taliban e o seu RPG-7. Foto: Foto: internet.

Aquela boa velha “profundidade estratégica”

Mesmo assim, tudo depende do complexo jogo entre Cabul  e Islamabad.

Considere os movimentos de vai-e-vem do Chefe Executivo Organizacional (CEO, é o título dele) afegão, Dr. Abdullah Abdullah. Vive entre Teerã – onde enfatiza que o terrorismo é ameaça contra ambos, Irã e Afeganistão – e Islamabad, onde discute os arcanos do processo de paz com oficiais paquistaneses.

O primeiro-ministro paquistanês Nawaz Sharif, por sua vez, não perde uma chance de renovar seu compromisso com a paz e o desenvolvimento econômico no Afeganistão.

Quando uma tentativa de processo de paz realmente começou – informalmente – em Doha, em 2012, incluindo oito funcionários Talibã, os Talibã ficaram furiosos por Cabul  ter realmente privilegiado as conversações com Islamabad. A posição oficial dos Talibã é que são politicamente – e militarmente – independentes de Islamabad.

Como meus interlocutores pashtuns destacaram, muita gente no Afeganistão não sabe o que fazer de toda aquela conversa Cabul -Islamabad, incluindo o que consideram concessões perigosas, como enviar jovens soldados afegãos para receberem treinamento no Paquistão.

Islamabad joga jogo muito alavancado. O grupo Haqqani – que Washington rotula de terroristas – encontra base segura dentro das áreas tribais do Paquistão. Pois o Talibã está sentado à mesa de negociações de qualquer processo de paz a ser negociado pelo Paquistão – que ainda conta com muita alavancagem sobre aqueles Talibã posicionados à volta do novo líder, Mullah Akhtar Mansoor.

Meus interlocutores pashtuns não têm dúvida alguma: os Talibã e os serviços secretos do Paquistão, ISI (Inter-Services Intelligence), são uma e a mesma coisa, como sempre foram. A aliança estratégica que sempre os uniu continua ativa. Todos os Talibã em Doha são monitorados pelo ISI.

Por outro lado, parece haver mudança sutil envolvendo militares paquistaneses e o ISI(que sabe tudo o que haja para saber, e é cúmplice de muito do que acontece concernente aos Talibã). Mês passado, o comandante do exército do Paquistão general Raheel Sharif foi sozinho ao Afeganistão; pode significar que os militares privilegiarão uma paz real em campo, em vez de manipular o Afeganistão como alguma “profundidade estratégica” do peão paquistanês.

Atenção: tubulação à frente

Assim sendo, em princípio, prosseguirá a conversa afegã. O grupo Hezb-i-Islami Afghanistan (HIA), liderado por Gulbuddin Hekmatyar – outro ator chave na Lista dos Terroristas Top Ten de Washington – está também interessado no processo de paz. Mas oHIA diz que tem de processo que pertença aos afegãos, liderado pelos afegãos – o que significa: sem interferência do Paquistão. Hekmatyar está claramente se posicionando para futuro papel de protagonista.

O enredo engrossa se se passa, dos Talibã para os avanços de ISIS/ISIL/Daesh no Afeganistão. Para círculos próximos do ex-presidente Hamid Karzai, codinome “ex-prefeito de Cabul” (porque só controlava a cidade, nada mais), Daesh é invenção da política externa de Islamabad, para garantir ao Paquistão acesso total à Ásia Central, à China e à Rússia ricas em energia.

Parece um pouco forçado, se se compara ao que realmente se passa hoje no Oleogasodutostão.

Cabul entregou a uma força de segurança gigante, de 7 mil membros, a tarefa de proteger o gasoduto de $10 bi, 1.800 km de comprimento Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia (TAPI), dentro do Afeganistão, assumindo que estará realmente construído até dezembro de 2018. Com otimismo, o trabalho de abrir caminho para o TAPI – o que inclui retirada de minas – começará em abril.

O presidente do Turcomenistão Gurbanguly Berdymukhamedov já ordenou que empresas estatais, a Turkmengaz e a Turkmengazneftstroi, comecem a construir a parte turcomena, de 214 km, do gasoduto TAPI. O gasoduto também atravessará 773 km pelo Afeganistão e 827 km pelo Paquistão, antes de chegar à Índia. Se esse frenesi todo realmente se materializará até 2018 é tema para infindáveis discussões.

E onde está minha heroína?

Enquanto tudo isso acontece, o que anda fazendo a CIA?

O ex-diretor interino da CIA Michael Morell está espalhando “a reemergência do Afeganistão como questão”, de modo que “a discussão de quantos soldados nós [os EUA] mantemos no Afeganistão vai ser reaberta”.

O Pentágono por sua vez anda espalhando que seriam necessários 10 mil coturnos em solo. O comandante da OTAN no Afeganistão, general John Campbell, fala de 10 mil, para acabar com a conversa: “Meu objetivo seria manter o maior número possível de soldados, pelo tempo mais longo possível”. Liberdade Duradoura para sempre, sem dúvida –, agora que o Pentágono foi forçado a admitir, on the record, que as forças de segurança afegãs são incapazes de “operar integralmente por conta própria”, apesar do investimento monstro que Washington fez, de mais de $60 bilhões desde 2002, até agora.

O mais recente relatório do Pentágono fala da segurança no Afeganistão cada vez maisdown, down, down. O que nos leva até Helmand.

Apenas poucos dias antes da reunião de Islamabad, forças especiais dos EUA encobertas por soldados afegãos enfrentaram em tremenda troca de tiros com o Talibã em Helmand. O secretário de imprensa do Pentágono Peter Cook, naquele duplifalar que é sua marca registrada, não falou de “combate” – falou de missão para “treinamento, aconselhamento e assistência”.

O Talibã controla mais território no Afeganistão – nada menos de quatro distritos em Helmand –, mais do que jamais antes, desde 2001. Civis são colhidos no fogo cruzado. E forças especiais e ataques aéreos por forças especiais do Pentágono em Helmand são descritos como ‘supervisão’.

No final, tudo volta sempre a Helmand. Por que Helmand? Meus interlocutores pashtuns relaxam e dizem, de boca cheia: sempre tem a ver com o envolvimento da CIA no tráfico de heroína no Afeganistão: “os norte-americanos simplesmente não podem perder aquilo tudo”.

Assim sendo, parece que estamos entrando num novo capítulo do épico ‘gás e papoulas’ no coração da Eurásia. Os Talibã, divididos ou não, já impuseram a linha vermelha deles: nada de conversas com Cabul, antes de terem conversa direta com Washington. Do ponto de vista Talibã, faz perfeito sentido. Oleogasodutostão? OK, mas queremos nossa fatia (é outra vez a mesma história, desde o primeiro governo Clinton). A CIA não abre mão da heroína? OK, levem quanto quiserem, mas queremos nossa parte.

Meus interlocutores pashtuns, que tem de tomar um avião para Peshawar, abrem um mapa do caminho. Os Talibã querem que o escritório deles no Qatar – palácio realmente muito bonito – seja oficialmente reconhecido como representação do Emirado Islâmico do Afeganistão (nome oficial do país de 1996 a 2001). Querem que a ONU – para nem falar dos EUA! – retirem os Talibã da lista de “mais procurados”. Querem que todos os Talibã sejam libertados das prisões afegãs.

Acontecerá? Claro que não. Significa que chegou a hora de Pequim entrar na conversa com um daqueles cenários de ganha-ganha.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

A libertação de Salma é a derrota de Erdogan na Síria

Fonte: Al-Manar

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

A vitória do IV Corpo do Exército Árabe da Síria ema Salma é a vitória mais importante da aliança russo-síria, bem como do envolvimento russo na guerra. Ela é um triunfo contra grupos terroristas, mas acima de tudo é uma vitória contra a Turquia, que havia apoiado esses grupos em sua ofensiva no ano passado, tanto em Latakia, quanto em Idlib.

Após a vitória em Salma, a pretensão turca de impor uma zona tampão se esvaiu.  Os aliados de Erdogan, tal como a Frente al-Nusra, terroristas chechenos e os uigures do “Partido Islâmico do Turquestão” sofreram uma pesada derrota, o mesmo com os Turkmen (turcomanos), grupos armados sírios de origem turca, que tem sido agentes de apoio para Ancara nesta área.

Auxílio turco não poderia acontecer desta vez por causa da barragem da aviação da Rússia, que fez mais de 200 ataques aéreos em dois dias consecutivos contra rotas de abastecimento, o que impediu os terroristas presentes em Salma não só de se mover, mas também de obter reforços. A Tomada de Salma findou uma campanha de três meses que levou à conquista de todas as colinas e platôs da região.

Irritação do governo Erdogan à ofensiva síria e russa em Latakia foi o que levou a Turquia a abater o avião russo Su-24M2 sobre o espaço aéreo sírio em 23 de Novembro. Este foi sem dúvida um importante indicador da importância que a província síria tinha para os turcos. Isso, no entanto, longe de dissuadir os russos, encorajou estes últimos e os sírios a prosseguirem em sua ofensiva, de maneira ainda mais rápida, o que levou à liberação de Salma. Esta parece ter sido, em última análise, a resposta escolhida por Moscou para a derrubada do seu dispositivo (bombardeiro Su-24M2).

A organização terrorista chechena, Ansar al Sham, apoiado pela Turquia, foi praticamente eliminada e a sua liderança afirmou que os militantes estão agora sem armas, ou dinheiro. Este colapso dos militantes augura um avanço rápido para os postos de fronteira entre a província de Latakia e a Turquia. O único reduto dos terroristas mantido em Latakia é a cidade de Rabia, que se espera, venha a cair nas mãos do Exército Árabe da Síria em breve, o que irá fechar a fronteira turca, totalmente, naquilo que é relativo à província.

Na província de Aleppo está a ser dada uma situação semelhante e o exército sírio e os seus aliados estão progredindo em direção à fronteira turca por vários eixos. O Exército Árabe Sírio assumiu recentemente a cidade de Ain Beida, situada 7-8 kms da linha de fronteira, quase que de maneira sincronizada com a ofensiva das forças militares sírias em Latakia.

A implantação do sistema antiaéreo S-400 em Latakia tem impedido as aeronaves turcas de adentrarem livremente no espaço aéreo da Síria, tal como reconhecido recentemente pelo primeiro-ministro, Ahmet Davutoglu. A Turquia suspendeu o voo das suas aeronaves, quando a Rússia introduziu o sistema acima descrito na Síria em 26 de novembro (2015).

Tudo isto evidencia a fraqueza da Turquia contra a presença russa. Ankara hesita em enviar tropas e agentes de inteligência à Síria por medo de serem capturados, ou mortos por lá. A este respeito, as advertências da Rússia para com o status da Síria têm se mostrado eficazes e a derrota dos grupos armados no norte de Latakia e Aleppo revelou a sua dependência destes com a Turquia, para dar continuidade à luta.

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Federação Russa, Maria Zajarova, acusou, por sua vez, a Turquia de “manter uma guerra oculta na região e trabalhar em prol dos seus próprios interesses na Síria, apoiando grupos terroristas e extremistas” e de violação da “Resolução do Conselho de Segurança da ONU (sobre o financiamento do terrorismo) por (permitir) transportar o tráfego de petróleo da Síria em seu território, especificamente o petróleo roubado pelo EI”.

Continua Zajarova: “Nós não vamos fechar os olhos às demonstrações contínuas por sênior responsável sênior turco, destinadas a desacreditar a Rússia aos olhos da comunidade internacional, tal como as acusações contra a força aérea russa de matar civis na Síria. O que é surpreendente é o fato do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Turquia degenerar-se ao ponto de usar métodos sujos,  como acusar sem provas o nosso país de assassinato em massa de civis”.

Os curdos renegados do Estado Islâmico

Por: César A. Ferreira

Toda história tem dois lados, duas vertentes, narrativas contraditórias, dispersas, poucas vezes convergentes, mas que na maior parte das vezes espelham-se, ou se sobrepõem. O conflito sírio, complexo, não linear, nos brinda com acontecimentos e eventos acima de qualquer concepção ficcional, e como tal, tem-se o caso anacrônico dos membros curdos da jihad.

Os curdos, povo de origem centro-asiática, caucasianos, que lutam por séculos em prol de uma pátria, do solo que lhes permitam serem reconhecidos como Estado-Nação, pelos demais estados do globo. Altivos e ferozes como guerreiros, laicos, ou bem perto disso, igualitários a ponto de terem mulheres em suas fileiras combatentes em pé de igualdade com os homens, possuem também eles, elementos dissidentes, que neste caso, especificamente, significa a adesão aos grupos extremistas islâmicos de orientação wahabbita. Portanto, são curdos que combatem curdos, dado a situação da região.

Agregam-se, principalmente ao Estado Islâmico, outros poucos, a Al-Nusra. São acompanhados de perto pelos líderes curdos, que se informam da forma que podem sobre estes terroristas convertidos. O Governo Regional do Curdistão (KRG) esforça-se para rastrear um número restante de 70 terroristas,  oriundos da adesão anterior de aproximadamente 500 combatentes ao Estado Islâmico, sendo que deste número, cerca de 270 foram mortos em combate contra as forças Peshmerga e combatentes do YPG/YPJ, bem como outros 150, que se renderam aos seus compatriotas. A rendição, neste caso é bastante interessante, dado que se rendem aos seus antigos compatriotas, sendo que o inverso, caso viesse acontecer, não se daria com a detenção, mas com a execução..

Em entrevista cedida ao órgão informativo “Bas News”, o Chefe de Mídia e Comunicação do Ministério de Assuntos Religiosos, Marivan Naqshbandi, afirmou a ocorrência de uma execução de combatentes da jihad, cerca de 31 terroristas agregados ao Estado Islâmico, pelas forças de segurança deste mesmo califado, sob a alegação de serem “espiões” que estariam a colaborar com as forças de seguranças curdas, bem como com forças estrangeiras (iraquianos, sírios, russos e americanos). Um destino assaz irônico, diga-se, para quem traiu o seu povo.

Como informado, restam cerca de 70 a 80 combatentes curdos nas fileiras do Estado Islâmico, a maior parte já veterana de combates, posto que o período de grande adesão de curdos ao EI deu-se em 2014. Ainda assim não se distinguiram em combates, a ponto de gerar algum herói midiático, ou de angariarem respeito por ações extraordinárias em combate. Ao que parece, os curdos valentes se encontram do outro lado da cerca, onde não existem 72 virgens à espera.

Considerações sobre a execução de Ruqia Hassan

Por: César A. Ferreira

Um dos problemas da juventude é a falta de sabedoria. O jovem, por força da natureza acredita ser capaz de tudo fazer, e quando instruído, embebe-se da soberba, da arrogância do absoluto saber, como se incapaz de cometer um erro fosse. Entender-se a si, ao demais e ao mundo a partir de uma observação simples da realidade parece ser algo impossível, vale antes a interpretação modelada pelas crenças próprias. Estes são, entre outros, os pecados da juventude.

Não é de assustar perceber que a maioria esmagadora dos insurgentes islamitas que afligem a Síria e o Oriente Médio, sejam em imensa maioria, jovens. O islã na vertente sunita wahabitta tornou-se a ideologia da contestação deste século XXI, por mais anacrônico que possa parecer. O que assusta, diga-se, é a ingenuidade daqueles que possuem a formação necessária para entender a si, aos outros e ao mundo, ter idade suficiente para aprender com sua vivência, e ainda sim, de maneira típica das pessoas advindas das classes desapegadas ao labor, revoltar-se contra quem lhe permite viver… Este é o caso da bela Ruqia Hassan, assassinada por membros do Estado Islâmico na cidade de Raqqa.

Ruqia Hassan, 30 anos de idade, formada em Filosofia na cidade de Aleppo, dedicava-se a escrever sobre o cotidiano da cidade de Raqqa, submetida pelas hostes do Estado Islâmico. Costumava postar mensagem curtas no Twitter, com o pseudônimo de Nisan Ibrahim, algumas delas com senso de humor fino, quase britânico. Uma delas, por exemplo, dizia: “As pessoas no mercado esbarram umas nas outras… não porque sejam muitas… mas porque têm os olhos colados ao céu(.)” (em virtude dos ataques aéreos). Sua oposição ao Estado Islâmico era declarada, se não explicitamente, ao menos de forma objetiva, tal como na declaração: “Está começando outro ataque aéreo, que Deus proteja os civis e leve os restantes”. Dado a importância que o Estado Islâmico dá aos meios de comunicação e a propaganda, não surpreende que tivessem Ruqia como alvo. Ruqia foi detida e executada sob a acusação de ser uma espiã do Exército Livre Sírio.

De fato, a ilustrada Ruqia Hassan havia aderido ao Exército Livre Sírio, ou seja, ela havia se tornado um membro da oposição em armas à República Árabe da Síria, avessa ao líder Bachar Al-Assad, a quem chamava de ditador… A mesma república, cujo regime permitiu que se educasse e tivesse a liberdade de ir e vir, contrair matrimônio e divorciar-se, adquirir bens, enfim… De viver. Ruqia, apesar de ter estudado filosofia, pouco uso fez do conhecimento adquirido, pois, com a mentalidade pseudo-cosmopolita engrossou a oposição à Assad, na sigla do ELS, cuja função ninguém sabe ao certo, pois diz combater ao Estado Islâmico e ao regime republicano, o que leva a pergunta: combate pelo quê?

Por favor, não me venham com os chavões de sempre, como Democracia, Estado Democrático de Direito e coisas do tipo. No atual estado de coisas da Síria isto é uma piada, e de muito mal gosto. Em termos práticos o Exército Livre da Síria não conseguiu outra coisa do que viabilizar a guerra santa promovida pelos extremistas wahabittas na Síria. Seus guerreiros mudam de lado como quem muda de camisa, e as armas e suprimentos que lhes são entregues pela OTAN, acabam alegremente nas mãos do Estado Islâmico. Não existe meio termo possível, o conceito de “Rebelde Moderado” é um absurdo que só pode ser levado adiante por quem é hipócrita, ou idiota. Neste conflito só existe duas opções: apoio a República Árabe da Síria, e ao seu regime, o que significa uma estrutura estatal e de responsabilidade, ou apoio aos grupos insurgentes, cujo significado é dar suporte ao medievalismo escravagista, perdido no tempo, e expandido via proselitismo do terror.

Ruquia ao aderir ao ESL fez a sua escolha, da qual, talvez, estivesse dolorosamente consciente, ao retratar com viés resignado, ligeiramente pessimista, o cotidiano de Raqqa. Ela que por lá ficou, quando da queda da cidade em mãos dos extremistas do Estado Islâmico, talvez alimentasse no íntimo um sentimento de frustração e amargor, a consciência do erro cometido… Não teve como escolher, preferiu, então, morrer. Sabia do seu erro, que fora de não entender o seu mundo. Por isso retratava o cotidiano de Raqqa, e manteve sua atitude frente às ameaças de morte… Até que ela se consumou.

Não vamos apontar, dizer, afirmar, que foi um ato de coragem. Antes, de resignação. Coragem tem o batalhão feminino do Exército Árabe Sírio, que em armas combatem os extremistas insurgentes, estas sim, independente da formação, do grau de instrução, entendem o seu país, os seus semelhantes e o que se passa no mundo, escolheram, portanto, defender a nação e os cidadãos, mesmo tendo a ciência do destino terrível que lhes aguarda caso sejam cercadas e capturadas. Às combatentes dedico o termo coragem. Merecem.

Morto o Ministro da Guerra do Estado Islâmico

Por: César A. Ferreira

O grupo insurgente Estado Islâmico sofreu nesta última terça – feira, dia 05, um golpe devastador no seu comando, resultado de um ataque aéreo da Força Aérea Iraquiana, que resultou na morte daquele que responde pelo posto equivalente ao de Ministro da Guerra dentro do grupo terrorista, Samer Mohammad Matloub Hussein al Mahlawi. O êxito se deu quando da realização de um raide aéreo contra uma base militar do EI identificada na cidade de Barwanah, ou Bervanah, localizada a 200 km ao noroeste de Bagda,  na província de Anbar, Iraque.  Al-Mahlawi foi membro da Al-Qaeda antes de aderir ao EI, sendo um dos lugares-tenente do falecido Abu Musab al Zarqawi.

Neste ataque, assessores próximos também foram mortos, três deles.  Este ataque de sucesso não é o primeiro das armas iraquianas contra o comando do EI. Antes, em 26 de dezembro último (2015), as forças iraquianas relataram a morte do chefe de treinamento militar de Ramadi e Fahllujah, Sa’ad al-Abidi, apelidado de  Sa’ad al Khaleda. Este membro sênior do EI foi alcançado e morto na localidade de Al-Khaledyia, 23 Km ao norte de Ramadi. Além disto, as forças iraquianas, na forma do recomposto Exército Nacional do Iraque, forças tribais recrutadas ad-hoc (forças de mobilização popular), realizaram uma ofensiva em dois eixos, uma com o objetivo a Barwanah e a segunda tendo Hadithah como alvo. Até o presente momento a contagem de corpos aponta 205 terroristas do Estado Islâmicos mortos.

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Soldados iraquianos comemoram vitória sobre o EI. Foto: internet.

Outras perdas do Estado Islâmico também foram relatadas, tal como a morte do especialista em explosivos Habibullah Afghani, quando preparava com 19 ajudantes a colocação de bombas dissimuladas em carros. A emboscada se deu na cidade ocupada de Mosul, mais precisamente em Badush, distrito leste da cidade. Todos foram mortos.  Outra dezena de terroristas foram mortos, quando da tomada surpresa do principal hospital da cidade de Ramadi (110 km ao oeste de Bagdá).

Até o presente momento não foi relatado qual o vetor aéreo utilizado para a realização destes ataques. Sabe-se que a Força Aérea Iraquiana faz uso extenso dos helicópteros de ataque Mi-28N, Mi-35M e, Su-25. A FAIr encomendou e recebeu, com longo atraso, vetores F-16C, todavia, não se tem dado publicidade das operações efetuadas com tais vetores.