Assad venceu! O Ocidente talvez não acredite, mas parece que a guerra na Síria está acabando

Por: Robert Fisk
Fonte: The Independent
Tradução: Oriente Mídia

Com todos aguardando que Trump inicie a Guerra Mundial n. 3, nem percebemos que o mapa do Oriente Médio substancialmente, sangrentamente, já está mudado. Passarão anos, antes que Síria e Iraque (e Iêmen) se reconstruam – e os israelenses talvez precisem pedir a Putin que limpe a sujeira em que Israel está metida.

Recebi uma mensagem vinda da Síria, semana passada, no meu celular: “O general Khadour cumpriu o que prometeu”. Entendi perfeitamente.

Há cinco anos, encontrei Mohamed Khadour, que comandava uns poucos soldados sírios num pequeno subúrbio de Aleppo, sob fogo de combatentes islamistas no leste da cidade. Naquela ocasião, mostrou-me seu mapa. Recapturaria aquelas ruas em 11 dias, disse-me ele.

Depois, em julho desse ano, novamente encontrei Khadour, no fundo do leste do deserto da Síria. Estava, disse-me ele, pronto para entrar na cidade sitiada de Deir ez-Zor antes do fim de agosto. Lembrei-o, rematada crueldade, de que na última vez em que ele me dissera que recapturaria parte de Aleppo em 11 dias, o exército sírio precisou de mais de quatro anos! Isso foi antes, disse-me ele. Naquele tempo, o exército ainda não sabia combater em guerra de guerrilha. O exército era treinado para retomar Golan e defender Damasco. Hoje, é diferente. Já aprenderam.

Realmente aprenderam. Em pleno deserto, Khadour disse que bombardearia a cidade de Sukhna – a maior parte do bombardeio ficaria por conta dos russos –, e suas tropas sírias romperiam o cerco por ali até Deir ez-Zor, que estava cercada pelo ISIS já há três anos, com 80 mil civis e 10.000 soldados sitiados. Khadour disse que estaria em Deir ez-Zor mais ou menos dia 23 de agosto. Acertou quase exatamente. E agora avança rumo ao que resta da cidade de Deir ez-Zor e dali rumo à fronteira sírio-iraquiana.

Assim sendo – depois de completada a captura da cidade, e quando Khadour estiver na fronteira, e agora que Aleppo está totalmente em mãos do governo sírio, e só a província Idlib ainda resta como lata de lixo do que resta sobretudo de rebeldes islamistas (incluindo a al-Qaeda), muitos dos quais foram autorizados a viajar em troca de se renderem e entregarem quarteirões e bairros de cidades sírias –, o que sempre foi impensável no ocidente já está afinal acontecendo: os soldados de Bashar al-Assad, ao que tudo indica, venceram a guerra.

E não é só “ao que tudo indica”. Hassan “Tiger” Saleh, oficial estrela do exército sírio – condecorado duas vezes pelo ministro de Defesa da Rússia – abriu caminho até o prédio da 137ª brigada do Exército da Síria em Deir ez-Zor e libertou os soldados que lá estavam, enquanto Khadour, seu oficial comandante (os dois são amigos pessoais) está a caminho de libertar a base aérea na cidade.

Quantos recordam o dia em que os norte-americanos bombardearam soldados sírios próximos daquela base aérea e mataram mais de 60 soldados, permitindo assim que o ISIS avançasse para o resto da cidade? Os sírios jamais acreditaram no que os norte-americanos disseram, que o ataque resultara de “um erro”. Até que os russos ‘informaram’ à força aérea dos EUA que estavam bombardeando forças sírias.

Os britânicos parecem ter entendido a mensagem. Discretamente retiraram semana passada seus instrutores militares – os homens cuja tarefa seria preparar os místicos “70 mil rebeldes” de David Cameron, que supostamente logo derrubariam o governo de Assad. Até o relatório da ONU segundo o qual o regime teria assassinado 80 civis num ataque com gás, no verão, passou quase sem referência entre políticos europeus tão habituados a aumentar os crimes de guerra na Síria e a apoiar o estúpido ataque com míssil cruzador ordenado por Trump contra uma base aérea síria.

E que tal Israel? Aí está uma nação que realmente tinha certeza do fim de Assad, a tal ponto que bombardeou soldados sírios, além de bombardear o Hezbollah e o Irã, aliados da Síria, e dar atendimento médico a terroristas islamistas que fugiam da Síria para cidades israelenses. Não surpreende que Benjamin Netanyahu estivesse tão “agitado” e “emocional” – palavras dos russos – quando Vladimir Putin o recebeu em Sochi. O Irã é “aliado estratégico” da Rússia na região, disse Putin. Israel é “parceiro importante” da Rússia. Duas coisas completamente diferentes, e absolutamente nada do que Netanyahu desejava ouvir.

As repetidas vitórias dos sírios significam que o Exército Árabe Sírio é hoje um dos mais “enrijecidos no calor dos combates” de toda a região; formado de soldados habituados a defender a própria vida, e hoje treinados em coordenação de tropas e de inteligência, a partir de um só centro de comando. Como disse a ex-professora de St Antony’s College Sharmine Narwani essa semana, essa aliança conta hoje com a cobertura política de dois membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, Rússia e China.

Assim sendo, o que fará Israel? Netanyahu viveu sempre tão obcecado com o programa nuclear iraniano que visivelmente jamais imaginou – e nem ele, nem Obama, Hillary Clinton, Trump, Cameron, May, Hollande e outros luminares das elites políticas ocidentais – que Assad pudesse vencer, e que, das ruínas de Mosul poderia nascer um exército iraquiano muito mais poderoso.

Netanyahu ainda apoia os curdos, mas nem Síria nem Turquia nem Irã, nem Iraque têm qualquer interesse em apoiar aspirações nacionalistas dos curdos – apesar de os EUA usarem milícias curdas nas chamadas Forças Sírias Democráticas (muito mais curdas que “sírias” e “democráticas” e sequer algum tipo de “força”, se não contarem com cobertura da Força Aérea dos EUA).

Elementos da direita política israelense que diziam que Assad seria perigo muito maior que o ISIS talvez sejam obrigados a reconsiderar – no mínimo, porque Assad provavelmente será o homem com quem Israel terá de conversar, se quiser manter segura a sua fronteira norte

Síria: as próximas horas podem ser cruciais

Por: César A. Ferreira

Com o avanço das forças curdas, após a tomada da base aérea de Menagh, em direção à Az’az, o desespero abateu-se sobre as lideranças turcas: sem cerimônia alguma fizeram fogo de bateria contra as posições curdas e do Exército Árabe da Síria, que respondeu fazendo fogo de contra-bateria.  As ações curdas, após a conquista da Base Aérea de Menagh foram rápidas, dado que de imediato assaltaram Kafr Khashir e dirigem-se, agora, para Kafr Kalbeen, enquanto que ao norte de Az’az, assaltaram Qastal Jindu com o eixo em direção à Salameh. Caso haja inflexão dos eixos de progressão haverá um cerco a cidade fronteiriça de Az’az, importante entroncamento das vias de comunicação entre a Turquia e a Síria, portanto, importante base logística das espoliadas forças do Exército Livre Sírio e da Frente Nusra. A queda de Az’az significaria a eliminação virtual destes dois grupos insurgentes na frente de Aleppo, restando para combater apenas o EI, o qual, diga-se de passagem, foi obrigado a abandonar a Central Termoelétrica de Aleppo Oriental frente ao avanço da Força Tigre, tropa de elite do EAS.

Não deixa de ser sintomático, que hospitais tenham sido atacados, com a culpa, era de se esperar, sendo debitada aos russos. Não fosse o fato de que o pequeno grupamento aéreo da Rússia não ter seu histórico ataques contra a infraestrutura civil da Síria, com a exceção notável dos campos de exploração de petróleo em mãos do EI, poder-se-ia acreditar, no entanto, em meio ao visível estado de aflição histriônica demonstrada pela Turquia, bem como pela associada Arábia Saudita, com a eminente derrota dos grupos jihadistas ao norte de Aleppo, isto aliado ao anunciado aporte de bombardeiros da Força Aérea do Reino em Incirlik, faz com que este escriba tome para si a suspeição, forte, de que a responsabilidade dos ataques aos hospitais deveram recair com maior propriedade sobre as asas da Força Aérea da Turquia, ou dos aliados próximos, USAF e KSAF (Força Aérea do Reino da Arábia Saudita – ing); ademais, é bom lembrar, que a cidade de Aleppo, e adjacências, tivera a sua infraestrutura atacada anteriormente pela coalizão ocidental, caso da estação de captação e tratamento de água, cuja destruição obrigou os moradores a buscarem o recurso diretamente no Eufrates, com o risco de contraírem o bacilo da Cólera, caso venham a ingerir sem dar-se à fervura das águas retiradas do rio.

A exasperação turca dá-se por conta da concretização da agenda curda, pois o avanço curdo possui a intenção explícita de viabilizar um corredor territorial entre Kobane e Sarrin, ou seja, do oeste ao leste. Ainda que o nascimento de um estado curdo na região não faça parte dos planos de Assad para a Síria, dado que este nasceria à custa do Estado Sírio, prevê-se a concessão de uma autonomia ampla, algo que por certo se dará. Isto é entendido por Ancara como um embrião de um processo inexorável, que nas mentes turcas resultará na criação do Curdistão como estado nacional, que levará todo o leste da Turquia. Convenhamos, quando líderes nacionais deixam-se levar em suas mentes por fantasias tenebrosas, em meio ao desabar do seu castelo de cartas na forma das suas ambições territoriais, boas coisas, com certeza, não podem sair. Compreende-se, pois, o aviso emitido hoje, 16 de fevereiro de 2016, de que nas próximas 24 horas a Turquia realizará a invasão territorial da Síria. Basta esperar para ver se não se trata de um blefe.

Blefe, ou não, tomam os russos as suas medidas. Tendo constatado que quase todo o 2º Exército Turco se encontra estacionado junto à fronteira, formando não menos que 18.000 homens, valor de uma Divisão, como tropas operacionais, isto é, sem contar com o efetivo de apoio logístico, apontado para o eixo de Az’az, realizaram os eslavos uma verdadeira ponte aérea através da rota do Mar Cáspio, onde dois dos imensos cargueiros AN-124 foram avistados, descarregando material bélico na Base Aérea de Hmeimeem. Outro meio cuja presença não pode deixar de ser notado é composto pela aeronave SIGINT Tu-214R. Este avião para coleta de dados eletrônicos, de comunicações e de emissões, reflete que o comando russo espera uma mudança brusca do patamar do confronto havido na Síria, de um conflito contra forças insurgentes, portanto irregulares, contra uma força treinada e dependente de coordenação centralizada, portanto, emissora de sinais, comandos, caso de uma força regular, em suma de um Exército Nacional. A aeronave, de maneira elucidativa, não só seguiu a rota do Mar Cáspio, como fez também um desvio, sobrevoando boa parte do território iraquiano, afastando-se ao máximo da fronteira turca, adotando desta forma uma rota previdente contra a possibilidade de uma emboscada área por parte da THK (Força Aérea da Turquia – tur). Ademais, os porta-vozes das forças armadas sírias deixaram bem claro que, caso haja penetração na fronteira, darão combate às forças turcas as quais irão considerar, com razão, como forças invasoras. Vê-se claramente que as próximas horas serão decisivas para o desenrolar do drama de Aleppo. Para os expectadores resta aguardar.

Avanços sírios impõem aos turcos opções desesperadas

Por: César A. Ferreira

O desenrolar das ações do Exército Árabe da Síria ao norte do país, com vigorosa assistência do grupo aéreo russo, retira, uma a uma as opções turcas no tocante à guerra por procuração que move na Síria, com os seu agentes turcomanos e coligados da al-Qaeda, leia-se al-Nusra, Exército Livre Sírio e Estado Islâmico. A queda das cidades de Nublo e Zahran, trazem grandes consequências para as forças insurgentes, afora o contexto simbólico desta vitória, posto que eram cidades perdidas há mais de três anos. As forças insurgentes, mais uma vez, sofreram revezes de monta, onde fez-se decisiva a presença dos ataques aéreos demandados pelo agrupamento russo e pela Força Aérea Árabe da Síria.

Estas cidades, agora firmemente em mãos governamentais, vedam mais um corredor para abastecimento logístico para Aleppo, onde a cada dia que passa se enfraquecem as posições insurgentes frente àquelas do governo reconhecido da Síria. O foco, agora, dá-se no entorno de Azaz, justamente por ser um entroncamento importante para o abastecimento de Aleppo. Comboios turcos são sistematicamente bombardeados nas estradas próximas e caso haja a queda da localidade, restará apenas os corredores de Reyhanli e Idlib. É desnecessário dizer que quanto menores forem as rotas logísticas, mais fácil será a tarefa do poder aéreo russo na região, que é a de estrangular o esforço logístico dos grupos insurgentes na fronteira norte da Síria.

A Turquia vê com o avanço das forças do Exército Árabe da Síria, e dos grupamentos curdos do YPG/YPJ, junto aos entroncamentos viários da fronteira sírio-turca como o golpe mortal na sua propalada “zona de segurança para refugiados”. Além do mais, vê-se obrigada a assistir que contendores com os quais jogava, caso dos EUA e da Rússia, venham agora a abastecer os combatentes curdos, nas franjas fronteiriças, sem que tenha voz ativa contra tal movimento.

No tocante aos EUA, estes cumprem com o seu plano, não divulgado, mas à vista de todos, de fragmentar a Síria, onde um estado curdo teria o seu lugar natural, enquanto os russos passaram a apoiar um aliado interessado em dar combate aos insurgentes que lhe são hostis, cuja sobreposição de interesses ganhou um impulso grande, quando da atitude turca de abater o bombardeiro Su-24M2. Grandes consequências de um gesto impensado, visto que desde tal abate não houve outra coisa que não fosse o acelerar do avanço governamental. O fato de armar, largamente, os combatentes do YPG/YPJ, vir a constituir na concretude de um estado nacional curdo, parece ser nos cálculos russos e sírios como algo aceitável, em vista do combate mortal com os insurgentes, onde a necessidade extrema de infantes torna-se imperiosa.

Para a Turquia, pouco resta…

Dado que agora, existe uma bateria do Sistema S-400, na base aérea de Hmeymim , além de dois elementos de caças Su-35S, equipados com mísseis R-73E, R-27ET, além do novíssimo RVV-SD, restam aos turcos a atitude do confronto aberto com a invasão do território sírio, posto que a guerra por procuração entra em colapso, bem como a sonhada “no fly zone”, algo que de concreto pode-se dizer que existe, mas com as cores russas…

O desespero turco acentua-se, justamente, com a corrida das forças curdas para o oeste. Caso haja o sucesso do YPG/YPJ em liberar Marea, restará à Turquia a ligação logística através de Bab al-Hawa e de Idlib, mas estas, como dito antes, submetidas à interdição aérea russa.  Que não haja enganos, o discurso está pronto: salvar a minoria étnica turca, os “turcomanos” da Síria, contra o “massacre” perpetrado pelos curdos, “facínoras”, coadjuvados pelos odientos russos. Compra quem quiser.

O cenário está montado, portanto, para um confronto de forças convencionais. Entende-se, pois, a retórica saudita, de “estarem prontos” para participar de uma eventual invasão terrestre da Síria, quando se encontram atolados no Iêmen, para dar cabo do “Estado islâmico”. Ora, ora, existem tolos tão tontos assim? A invasão, sabem até os mais parvos, servirá para pavimentar a fragmentação da Síria e garantir, dentre os novos estados a nascer desta quebra, os chamados “Sunistões”, a existência. A questão é: a Síria vale à pena? Vale a ponto de levar o mundo a assistir a um confronto direto entre a OTAN e a Rússia, o que equivale dizer a um confronto nuclear? As respostas estão com o tempo… Um professor rigoroso.

Genebra: o estágio farsesco da guerra Síria

Por: Pepe Escobar, RT (29/01/2016).
Fonte em português: Oriente Mídia

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

O chamado processo de paz sírio entra agora no estágio de farsa em Genebra. Pode durar meses; preparem-se para doses abundantes de arrogância e vociferação capazes de fazer corar um Donald Trump. A noção de que Genebra possa fazer o papel de Damasco, naquela pantomima de terno e gravata, é, para começar, cômica. Até o enviado da ONU, o soberbamente snob-engomado Staffan de Mistura, admite que a missão à frente é de Sísifo – e assim continuaria, ainda que todos os atores relevantes estivessem à mesa.Depois, temos uma “figura da oposição” síria, George Sabra, a anunciar que nenhuma delegação de Riad, do Alto Comitê de Negociações, estará à mesa de negociações em Genebra. Como se os sírios carecessem de “oposição” instrumentalizada pela Arábia Saudita.Assim sendo, para lhes oferecer algum contexto, eis uma rápida recapitulação dos eventos recentes, cruciais, em solo sírio, que Genebra, autodeclarada “a nova capital”, talvez ignore e para prejuízo dela mesma.

Comecemos pelo verão passado, quando o comandante superstar general Qasem Soleimani das Forças Al-Quds do Irã falou em pessoa, em Moscou, para deixar absolutamente claro, sem dúvida possível, que a situação no teatro de guerra sírio era muitíssimo grave.

Na essência, Soleimani disse ao Kremlin e à inteligência russa que Aleppo podia estar prestes a cair; que Jabhat al-Nusra estava às portas de Damasco, no sul; que Idlib havia caído; e Latakia – onde está localizada a base naval russa em Tartus – estava prestes a cair.

Pode-se imaginar o efeito desse jato de realpolitik sobre a mente do presidente Putin. E ele acabou de decidir que, sim, a Rússia impediria que a Síria caísse e impediria que se tornasse uma Líbia remix.

A campanha da Força Aérea Russa marcou a mais completa virada naquela situação. Está ainda trabalhando no processo de cobrir e dar segurança a toda a rede Damasco-Homs-Latakia-Hama-Aleppo – o oeste urbano e desenvolvido da Síria, onde vive 70% da população do país. ISIS/ISIL/Daech e/ou Jabhat al-Nusra, também conhecida como Al-Qaeda na Síria, tem zero chances de tomar esse território. E o restante da Síria é quase totalmente o deserto.

Jaysh al-Islam – grupo terrorista armado pela Arábia Saudita – ainda defende algumas poucas posições no norte de Damasco. É controlável. Os “caipiras”, na província de Daraa, sul de Damasco só conseguiriam tentar algum assalto à capital num contexto, ali impossível, de Tempestade no Deserto à 1991.

“Rebeldes moderados” – essa invenção pervertida do Departamento de Estado dos EUA – bem que tentaram tomar Homs e Al-Qusayr, cortando a linha de ressuprimento de Damasco. Foram repelidos. Quanto à malta de “rebeldes moderados” que tomaram toda a província de Idlib, estão sendo bombardeados sem dó há quatro meses pela Força Aérea Russa. E o front sul de Aleppo também está sendo coberto e protegido.

Stahhan de Mistura
Mediador das Nações Unidas para a Síria, Staffan de Mistura. Imagem: Denis Balibouse/Reuters.

Não bombardeiem “nossos” rebeldes

Fácil logo ver quem está lívido ante a ação dos russos: Arábia Saudita, Turquia e – por último, mas não menos importante – o “Império do Caos”, todos esses sentados à mesa em Genebra.

Jabhat al-Nusra – comandado por controle remoto por Ayman al-Zawahiri – é grupo intimamente conectado à gangue dos jihadistas salafistas no “Exército da Conquista” patrocinado pelos sauditas, além de taticamente aliado a miríades de grupelhos nominalmente reunidos no já quase extinto “Exército Sírio Livre” (ESL) [orig. Free Syrian Army (FSA)].

CIA, usando os sauditas como anteparo para garantir a ela negabilidade plausível – armou até os dentes vários pseudoaliados do ESL – cuidadosamente “selecionados” –, aos quais a CIA enviou, dentre outras armas, mísseis TOW antitanques. Adivinhem quem “interceptou” praticamente todas as armas: Jabhat al-Nusra.

Dali em diante o desdobramento foi, para dizer o mínimo, hilário: Washington, Ancara e Riad puseram ensandecidamente a denunciar Moscou, que estaria bombardeando “rebeldes moderados” delas, não o ISIS/ISIL/Daesh.

Lentamente, mas sem retrocessos, o Exército Árabe Sírio (EAS) [orig. Syrian Arab Army (SAA)], operando conectado à ofensiva russa, retomou a iniciativa.

O grupo “4+1″ – Rússia, Síria, Irã (Forças Especiais, muitas das quais do Afeganistão) mais o Hezbollah – passaram a coordenar esforços. A província de Latakia – que abriga não só a base naval de Tartus, mas também a base aérea russa Khmeimim – está agora sob completo controle pelo governo de Damasco.

O que nos leva aos pesadelos de Ancara. A Força Aérea Russa esmagou todos os turcomenos aliados de Ancara – e pesadamente infiltrados por fascistas turcos – no noroeste da Síria. Essa foi a razão chave que levou o sultão Erdogan ao movimento desesperado de derrubar o Su-24 russo.

Já é claro hoje que os vencedores em campo, no pé em que estão as coisas, são os “4+1″, e que Arábia Saudita e Turquia perderam a guerra. Assim sendo, não é surpresa que os sauditas desejem contar com alguns dos próprios asseclas na mesa de negociações em Genebra; e que a Turquia tente mudar de assunto impedindo que curdos sírios participem: Ancara pinta os curdos sírios como terroristas muito mais ameaçadores que oISIS/ISIL/Daech.

Sai Genebra, entra Jarabulus

Como se já não houvesse confusão suficiente, a “Think-tank-elândia” dos EUA está agora espalhando que haveria um “entendimento” entre Washington e Ankara quanto ao que seria, para todos os propósitos práticos, uma invasão turca ao norte da Síria, sob o pretexto de que Ancara lá estaria para ‘esmagar’ o ISIS/ISIL/Daech no norte de Aleppo.

Absoluto nonsense. O jogo de Ancara tem três braços: reforçar os seus muito enfraquecidos asseclas turcomenos; manter o mais vivo possível o corredor até Aleppo – corredor que inclui a Rodovia Jihadista entre Turquia e Síria; e, principalmente, impedir, por todos os meios necessários, que os curdos do YPG façam a ponte de Afrin até Kobani e unam os três cantões de curdos sírios próximos da fronteira turca.

Nada disso tem qualquer coisa a ver com combater ISIS/ISIL/Daech. E a parte mais ensandecida é que Washington está, realmente, garantindo apoio aéreo de ajuda aos curdos sírios. Ou o Pentágono apoia os curdos sírios, ou apoia Erdogan na invasão do norte da Síria: aqui não cabem esquizofrenias.

Erdogan cego de desespero pode enlouquecer o bastante para confrontar a Força Aérea Russa, numa anunciada “invasão” turca. Putin já disse publicamente que resposta a qualquer provocação será imediata e letal. E, sobretudo, russos e norte-americanos estão realmente coordenando ações no espaço aéreo no norte da Síria.

Essa é a cena realmente importante e o próximo “evento” relevante, que eclipsará completamente a pantomima de Genebra. O YPG curdo e aliados estão planejando grande ofensiva para assumir o controle sobre a faixa de 100 km da fronteira sírio-turca que ainda está sob controle do ISIS/ISIL/Daech –, reunificando assim os seus três cantões.

Erdogan não mediu palavras: se o YPG avançar a oeste do Eufrates, é guerra. Ora. Então parece guerra, mesmo. O YPG apronta-se para atacar as cidades cruciais de Jarabulus e Manbij. Com certeza quase absoluta, a Rússia auxiliará o YPG a reconquistar Jarabulus. E assim, mais uma vez, a Turquia ter-se-á posto cara a cara, em solo, com a Rússia.

Genebra? Ali é coisa para turistas; a capital do horror agora é Jarabulus.

Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como:  Sputinik, Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today e Al-Jazeera.

As valentes mulheres combatentes curdas

Por: César A. Ferreira

Dá-se que não havia muito que fazer. A situação do pequeno grupo de combate, composto apenas por mulheres era desesperadora, desprovidas de água, ou qualquer espécie de víveres, pouquíssimas granadas, sem RPG algum que fosse, munição no fim, quase esgotada, isoladas e sem esperança de fogo de cobertura. A posição tornara-se insustentável, como bem sabia a comandante daquele desgraçado grupo feminino, a experiência de combate que já era muita para um corpo tão jovem assim lhe dizia. A regra da guerra manda que em tal situação a rendição se imponha, todavia, o inimigo do outro lado da colina era bem conhecido, e o destino que as aguardava, bem sabiam as valentes guerreiras, seria pior do que a morte.

O grupo de combate havia lutado bem, segurado um ponto importante por dias. A comandante, bela mulher e mãe de dois filhos, Deilar Kanj Khamis, conhecida pela alcunha de Arin Mirkan, por conhecer bem a psicologia do inimigo, concebeu um plano cujo resultado não poderia prever, mas que por certo permitiria uma pequena chance para as suas comandadas debandarem-se em fuga na direção das linhas curdas. O plano era simples: solicitar uma trégua para negociar a rendição das suas comandadas, mas, portando discretamente explosivos em seu corpo, para então detoná-los quando estivesse cercada de combatentes inimigos. A ideia era que a sua imolação viesse a permitir a fuga das demais combatentes curdas devido a distração proporcionada.E assim se deu, Arin MIrkan anunciou a intenção de ser render, caminhou até as linhas próximas dos militantes que as assediavam e quando viu-se cercada por mais de duas dezenas de curiosíssimos militantes da jihad, explodiu-se! Na época apontaram 10 islamitas mortos, mas hoje se sabe que a contagem é de 23… As suas comandadas empreenderam fuga, cuja sorte foi diversa, algumas sobrevivendo para combater outro dia, outras, vitimadas pelas balas inimigas.

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Arin Mikan, heroína curda que realizou auto – sacrifício em benefício das suas comandadas. Foto: internet.

O interessante da história de Arin MIrkan não é apenas o seu heroísmo, ou o fato de ser uma combatente do sexo feminino, algo aliás muito comum entre os curdos da Síria, mas o fato da habilidade de combate desta joven não ser algo incomum. Elas (as jovens combatentes) impressionaram os observadores norte-americanos destacados para realizarem reconhecimento e inteligência no terreno em favor da campanha da USAF contra o Estado Islâmico em Kobane.  Mostram-se rápidas, coordenadas, precisas e muito decididas, verdadeiras especialistas no combate urbano. Conhecem a fraqueza psicológica do inimigo, que teme ser morto por uma mulher, pois assim não terá a recompensa no paraíso (72 duas virgens e um palácio). Dado que a cidade, Kobane, tornou-se, com razão, em  uma analogia viva de Stalingrado, salta os olhos a comparação com a cidade símbolo da Grande Guerra Patriótica, onde mulheres combateram, como aliás o fizeram por todo o conflito. Em suma, as mulheres soviéticas combateram bem na década de 40 do século passado e as mulheres curdas fazem o mesmo, agora, neste início de século XXI.

Rehana
A mítica guerreira “Rehana” na Kobane libertada e em 22 de agosto de 2014, junto ao seu grupo de combate. Foto: internet.

Outra heroína, que inadvertidamente acabou em uma história controversa atende pela alcunha de guerra de Rehana, a esta mulher, que detém o comando de um pelotão, lhe é imputada a cifra aproximada de 100 jihadistas mortos. O Estado Islâmico, que possui um grande senso midiático, lançou na mídia imagens de uma combatente curda morta em combate com semelhança física àquela da heroína Rehana. Isto seguido da imagem da combatente decapitada, como é o costume bárbaro destes insurgentes. Os curdos, todavia, mostraram após o fim dos combates em Kobane, com a cidade pacificada após a expulsão dos extremistas, a dita combatente viva, em trajes civis, comprovando assim a sua sobrevivência e desmascarando a farsa midiática do Estado Islâmico. Não é uma novidade, diga-se, pois o Estado Islâmico lança mão de forma recorrente destas manipulações para destruir a moral inimiga via propaganda. Recentemente, por exemplo, lançaram a imagem de um combatente iraquiano morto, como sendo Abu Azrael, conhecido pela alcunha de “Rambo Iraquiano”, ou “Anjo da Morte”, ao qual se atribui a eliminação de 1.500 extremistas, no entanto, ele apresentou-se, vivo, para a TV iraquiana. Estas manipulações propagandísticas, entretanto, voltam-se contra o Estado Islâmico, pois acabam por marcar seus combatentes também como troféus, alvos procurados. É o caso do combatente do Estado Islâmico que apareceu nas imagens que correram o mundo segurando a cabeça decepada de uma jovem combatente curda pelas tranças, seu nome Abu Ansari Uveys, ou Abu Uveys Ansari, que seria cidadão do reino da Arábia Saudita. Foi morto dias após a realização das fotos que teriam se dado no dia 5 de outubro de 2014, pois as ações que culminaram em sua morte deram-se no dia 08 de outubro de 2014, três dias após.

Abu Marian
Abu Ansari Uveys, ou Abu Uveys Ansari, terrorista do EI afamado pela imagem da jovem curda decapitada, que o EI afirmou ser a mítica “Rehana”. A alegação do EI era falsa. Abu foi morto poucos dias depois por um ataque aéreo da coalizão ocidental. Foto: internet.

Como exemplo de guerreira curda emblemática envolvida em Fog Of War, temos a bela jovem Ceylan Özalp, 19 anos de idade e comandante de um grupo de combate feminino (YPJ). Tida como vítima de um suicídio por ver-se cercada por elementos do EI, foi posteriormente relatada como viva, sobrevivente, e ainda no comando do seu grupo de combate. A autora do relato que desmentiu a versão da autoimolação da jovem foi Ayla Akat Ata, advogada do PKK, partido dos trabalhadores do Curdistão (Turquia), que informou o jornalista de origem curda Müjgan Halis sobre a falsidade da história que envolvia a jovem combatente, que apesar de inspiradora, uma jovem guerreira que se mata para não ser seviciada, barbarizada, degolada e mutilada pelos selvagens extremistas do EI, não era um fato verídico, ademais, mais vale uma guerreira viva do que uma heroína morta. A história, por certo apareceu devido a uma entrevista cedida por Ceylan Özalp ao correspondente britânico da BBC, na qual dizia que não cairia viva em poder do EI, pois tinha sempre reservada uma ultima bala para si.

Ceylan
A bela Ceylan Özalp, cujo falso suicídio correu o mundo. A jovem combatente, até esta data, 21.12.2015, está viva e alistada ao YPJ. Foto: Internet. 

A qualidade destas mulheres, como guerreiras, é constantemente observada, e aquelas que demonstram capacidade de comando são rapidamente alçadas. Respeitadas, combatem junto com os homens, lideradas, ou liderando-os.  Estes por sua vez aceitam sem restrições as ordens de uma comandante, visto que dela emana, antes de tudo, experiência e capacidade de combate comprovada em ações reais. Este é o caso de Narin Afrin, codinome guerreiro de Mayssa Abdo. Comandante de frações do YPJ, a esta mulher, tida como culta e inteligente, agregou-se a qualidade de ser extremamente serena quando submetida a grande pressão, bem como de tomar, sempre, decisões lúcidas e acertadas nestas situações extremas. Todavia, apesar de não haver restrições às formações mistas, o que se vê, em geral, são mulheres combatendo juntas. Isto, por ironia constitui em uma força a mais para os curdos, dado a supertição dos terroristas islâmicos, de que lhes será vedado o paraíso com 72 virgens e um palácio caso sejam mortos por mulheres. Ao se verem defronte a pelotões femininos, não raro, paralisam-se e passam a combater com cuidado extremado, entretanto, quando em superioridade inconteste, agem com extrema brutalidade, como a descontar a ofensa de serem enfrentados por infantes do sexo feminino.

As mulheres compõem a denominada YPJ, sigla para Yekineyên Parastina J, em português, Força de Autodefesa Feminina, agregada a Força de Autodefesa do Povo, YPG. Antes compostas em uma Brigada, somam agora os valores de uma Divisão, com cerca de 10.000 combatentes alistadas, o que equivale a algo próximo da metade do efetivo curdo na Síria. As suas lideranças, via – de – regra, são femininas, muitas delas jovens, com a experiência de combate a listar àquelas com vocação de comando. Não é raro ver meninas com 19 anos comandando grupos de combate de mulheres, todavia, a maioria das comandantes possui uma idade maior. Menores de 18 anos não são aceitas nas fileiras combatentes, mas podem ser treinadas para assumirem o posto quando atingirem a idade mínima. A idade limite para admissão é de 40 anos, mas pode ser relativizado caso a candidata demonstre real capacidade física para o trato militar. Longos percursos de marcha são comuns, e elas o fazem deslocando-se com o equipamento, sem suporte motorizado, ou animal. São hábeis para montar pontos fortes e emboscadas, como todos os combatentes da região exibem uma predileção por armas automáticas, em especial para com as velhas PKM (metralhadoras de origem russa para apoio de fogo). Em Kobane as combatentes curdas foram relatadas como compondo entre 1/3 e ½ do total do efetivo curdo empregado na defesa da cidade. Em geral apresentam-se com fardamentos verdes, ou camuflados de verde, vestes negras não são incomuns e portam o indefectível AK-47. Além dos carregadores, ou seja, da munição, pouco mais que um cantil é visto. A prioridade, portanto, é de se manter leve, para movimentar-se com rapidez e destreza, pois a lentidão pode ser a sentença de morte de um infante no combate urbano. Não foram vistos equipamentos de proteção como capacetes, ou coletes balísticos. Concorre para tanto, as exigências do teatro de guerra, quente, árido, ou semi-árido, pedregoso e por vezes arenoso.

Curdas com metralhadora
Mulheres combatentes do YPG municiam uma arma automática. Foto: internet.

A presença feminina entre as forças curdas da Síria, de maneira tão constante e presente, acabou por ressaltar nos EUA uma discussão sobre a presença da mulher em unidades combatentes. Presente há muito em forças auxiliares, logísticas, as mulheres nas armas americanas, por força da pressão social, acabaram por assumir posições em unidades de infantaria nas frentes de batalha.  Não tardaram aparecer reclamações quanto a queda de qualidade das formações de infantaria, dado a constatação da maior ocorrência de lesões entre as mulheres, bem como menor status físico geral (força, explosão, resistência). Algo que foi replicado com imagens de soldadas com extremo preparo físico, algo próximo ao fisiculturismo e com o discurso igualitário pautado em exemplos. Entretanto, um escândalo recente em que um comandante, General Miller, Forte Benning, de acordo com a jornalista Susan Keating, do veículo The People, 25.09.2015, em vista de um concurso para tropa de elite do USARMY (Rangers), realizou um programa de treinamento físico específico para candidatos do gênero feminino, algo negado aos soldados homens, fez reavivar a discussão no tocante a presença da mulher na infantaria em missões de choque. Isto, devido ao fato de que com todo  o preparo específico ficou a selecionada na rabeira do grupo. Outro registro que suscitou comentários sobre o valor da mulher combatente deu-se em função de um vídeo veiculado no Youtube, onde uma oficial, Capitã Sarah Cudd, finaliza um exercício de marcha de 12 milhas, no limite de tempo de três horas (2hs e 46min) em pleno estado de esgotamento físico. No vídeo outros soldados emitem vozes de estímulo, dado que não poderiam ajudá-la fisicamente, pois isto a desclassificaria.

Sarah Cudd
A Capitã Sarah Cudd sofre para terminar a sua prova de marcha de 12 milhas. Foto: internet.

Esta discussão para os EUA faz todo o sentido, visto que as armas nacionais dos EUA estão geralmente em combate fora das suas fronteiras, como forças invasoras. Sabe-se que o invasor precisa sentir-se confortável para empreender o combate em solo inimigo. Este conforto advém da superioridade tecnológica por ele sentida, no espírito de corpo coeso, na sensação de que suas formações são invencíveis. A presença da mulher, aqui, se encaixa como uma incógnita. Se o infante perceber que o desempenho dela é inferior ao esperado de um infante masculino, sentir-se-á inseguro, ou pior, tentado a protegê-la a todo custo, comprometendo o trabalho do grupo de combate como equipe. Estes fantasmas somem quando se vê o pressuposto soviético, ou curdo: as mulheres defendem os seus lares contra um agressor brutal e insano. Antes eram os nazistas e fascistas ucranianos que matavam e estupravam, agora são os islamitas fanáticos, que degolam, seviciam, escravizam e estupram suas vítimas. As mulheres curdas, tal como as suas antecessoras soviéticas lutam pelas suas vidas, mas principalmente pelas dos seus filhos. Conhecem o destino reservado aos seus, caso haja uma vitória do medievalismo wahabbita. Não é uma questão de escolha, mas de sobrevivência. E nós sabemos, muito bem, que quando o destino da prole está em jogo as mulheres superam todas as barreiras havidas… Tornam-se leoas!