Ninguém quer fazer parte do “establishment” norte-americano

O maior dos argumentos usados nas primárias dos EUA é o ataque a uma coligação de poderosos da qual ninguém sente dela fazer parte.

Por: Marc Bassets
Fonte: El Pais

Todos atacam o establishment dos Estados Unidos na campanha para as eleições de novembro nos EUA. Poucos sabem exatamente o que ele é e quais são os seus membros.

O pré-candidato republicano Ted Cruz fala do cartel de Washington, uma espécie de organização quase criminosa que se dedica a tornar a vida dos cidadãos impossível e acabar com as suas liberdades. Outros, como o postulante democrata Bernie Sanders, apontam Wall Street, o conglomerado financeiro que, com sua influência ilimitada na política e na economia, coloca em risco a coesão social. O maior detrator do establishment é o favorito do Partido Republicano, o magnata do setor imobiliário Donald Trump, filho de um milionário, nova-iorquino, membro ilustre da elite da Costa Leste dos Estados Unidos que, historicamente, sempre esteve associado ao establishment.

Desde que o termo se popularizou, nos anos sessenta, o establishment (literalmente, o estabelecimento), é sempre o outro. “Uma característica da maioria dos pensadores e escritores que estudaram esse tema é que eles o definem de uma forma que os deixa de fora dele e inclusive os faz vítimas dele”, escreveu o jornalista Richard Rovere em The American Establishment, um ensaio publicado em 1961. Rovere tripudiava sobre as teorias da conspiração segundo as quais uma elite constituída por financistas, empresários, políticos e professores do Leste dos EUA manipulava à sombra os fios do poder. Ele o comparava com a hierarquia soviética. O The New York Times era o seu principal veículo de comunicação e a revista Foreign Affairs “desfrutava, no seu setor, da mesma autoridade que o Pravda ou o Izvestia”. 

 A invenção do termo é atribuída a outro jornalista, Henry Fairlie, que o utilizou pela primeira vez em 1955, referindo-se à política britânica. “Ao falar em establishment, não me refiro apenas aos centros do poder oficial — embora estes, sem dúvida, façam parte dele —, mas a todos o emaranhado de relações oficiais e sociais em que este poder é exercido”. Dez anos depois, Fairlie admitiu que, devido à sua “imprecisão e caráter disforme”, a palavra pode ser usada “em quase todos os países e ser aplicada a quase todas as coisas”. Outros preferem usar o termo “casta”.

Dias atrás, quando lhe perguntamos, em Washington, o que é o establishment, um veterano da Casa Branca da época de George W. Bush disse: “As pessoas usam esse termo, mas ele não significa nada. Dizem que são os lobistas, mas eles não têm poder, são empregados. Mais atrapalham do que ajudam”.

O repúdio ao establishment está inscrito no DNA dos EUA, um país surgido de uma revolução contra o establishment por excelência da época: a monarquia britânica. Hoje, ele poderia ser K Street, a rua dos lobbies de Washington. Ou do Congresso. Mas também da Casa Branca e dos aparelhos dos partidos republicano e democrata. A lista é longa: Wall Street; as universidades da Ivy League, a fechadíssima liga da hera; os governadores dos 50 estados; os meios de comunicação liberais (progressistas, nos EUA), como dizem os conservadores referindo-se aos jornais e às redes de TV generalistas; dinastias como os Bush ou os Clinton.

A derrota de Jeb Bush, filho e irmão de ex-presidentes, e a ascensão de Trump na corrida pela indicação republicana constituem uma derrota do establishment republicano: se alguém manipula os fios, está manipulando mal. Mas, de acordo com essa teoria, o establishment não está morto: a favorita no campo dos democratas é Hillary Clinton, membro inconteste do clube.O problema é que se trata de um clube “impreciso e disforme”, para citar Fairlie. Quem até ontem era antiestablishment hoje o representa (os próprios Pais da Pátria, que se rebelaram contra a monarquia britânica, eram o establishment local).

Em 1993, o Times de Londres escrevia que “o establishment está assustado com a demonstração aberta de poder político” da então primeira-dama, Hillary Clinton. O senador Marco Rubio, postulante à indicação republicana, foi eleito em 2010 como candidato de oposição ao establishment, e, agora, é a última esperança do establishment para conter Trump. E Trump, que provem do establishment nova-iorquino e é hoje o terror do establishment, acabará por se tornar o seu líder máximo se ganhar a eleição presidencial em novembro. Nenhum candidato quer ser o representante do establishment, mas todos eles estão destinados a liderá-lo caso alcancem o seu objetivo: a presidência.

 

Hillary Assobrada pela Líbia

Por: Eric Margolis 

Fonte: Eric Margolis.com

Adaptação: César A. Ferreira

No corrente ano de 1987 desloquei-me até a Líbia para entrevistar seu homem-forte, Muammar Khadaffi. Vivenciamos um entardecer conversando na sua colorida tenda beduína ao lado dos Quartéis Bab al-Azizya em Trípoli que haviam sido bombardeados um ano antes pelos EUA em uma tentativa de matar o altivo líder líbio.

Khadaffi preveniu-me que caso fosse derrubado, a Líbia dividir-se-ia em três partes, tornando-se novamente presa do domínio ocidental. Seus esforços para tirar o mundo árabe e a África Ocidental da subserviência e do atraso findar-se-iam, anteviu.

Correto estava o líder líbio. Hoje, após sua morte, a Líbia se fragmenta em regiões hostis. Os EUA, França e Egito expandem sua influência pela Líbia, por último tendo-se  juntado a Itália, governante colonial da Líbia no passado. Instalaram o conjunto habitual de serviçais para cumprir suas ordens. Velhos hábitos são difíceis de morrer.

Vamos ouvir muito sobre a Líbia após as  vitórias grandiosas de Hillary Clinton e Donald Trump nas primárias da última Super Terça.

A ex-secretária de estado Hillary Clinton logo enfrentará o retorno de uma grande ameaça que a persegue desde 2012 – o ataque de extremistas da jihad contra o consulado americano em Trípoli, Líbia e a subsequente chacina a do embaixador americano Christopher Stevens e seus seguranças.

Os republicanos vêm tentando jogar a culpa por Benghazi sobre Clinton. Até agora não tem sido bem-sucedidos. Mas o boca de trapo Donald Trump com certeza hostilizará Hillary por Benghazi, seu registro como Secretária de Estado que nada fez e os problemas legais advindos. E mais, a autêntica história da falsa “libertação” da Líbia pode finalmente vir à tona.

Nem os democratas, ou republicanos até agora ousaram revelar o que realmente se deu em Benghazi. A chamada “revolução popular” de 2011 na Líbia foi um elaborado complô da França, Grã-Bretanha e EUA, ajudados pelos Emirados do Golfo e Egito, para derrubar Khadaffi, homem-forte da Líbia por quatro décadas, e assim assumir o controle de seu petróleo de alta-qualidade.

A inteligência ocidental e ONGs semi-governamentais utilizaram as mesmas táticas de subversão na Líbia que haviam empregado nas bem-sucedidas “revoluções coloridas” na Geórgia, Ucrânia e Síria, porém fracassadas no Irã e na Rússia.

Os franceses desejavam derrubar Khadaffi, pois ele afirmava ter ajudado a financiar a eleição do ex-presidente Nicholas Sarkozy. Este negou a acusação. Os árabes do Golfo queriam Khadaffi morto porque ele continuava acusando-lhes de roubar a riqueza árabe e serem fantoches das potências ocidentais. Elementos operativos da inteligência francesa tentaram assassinar Khadaffi nos anos 80. O MI6 da Grã-Bretanha procurou matar o líder líbio com uma massiva explosão de um carro-bomba em Benghazi.

A operação de mudança de regime pelos EUA, França e Grã-Bretanha começou em 2011 com os protestos populares engendrados em Benghazi. Logo foram seguidos por uma operação militar clandestina liderada por forças especiais ocidentais contra o esfarrapado exército de Khadaffi, seguido por pesados ataques aéreos. A mídia ocidental amestrada, de boa vontade fechou os olhos a esta intervenção militar ocidental, saudando-a  de “revolução popular” na Líbia.

Após Khadaffi ter sido derrubado e assassinados (reportadamente por agentes da inteligência francesa), enormes estoques de armas tornaram-se disponíveis. A secretária de estado Clinton, que patrocinara a derrubada de Khadaffi, decidiu armar a mais nova “revolução colorida” do Ocidente, os rebeldes anti-Assad da Síria.

A maioria das armas líbias estava estocada em Benghazi, foram transportadas via aérea para o Líbano, ou Jordânia, então sendo contrabandeadas para os rebeldes na Síria. O embaixador americano Stevens estava supervisionando as transferências de armas do consulado em Benghazi. Ele foi morto por jihadistas anti-americanos combatendo a ocupação da Líbia e não por “terroristas”.

Hillary Clinton, financiada por neocons importantes, arca com a responsabilidade principal por duas calamidades: a deposição de Khadaffi e a terrível guerra civil da Síria. Khadaffi estava contendo numerosos grupos jihadistas norte-africanos. Depois de sua derrocada, eles despejaram-se para o sul, no Sahel e regiões subsaarianas, ameaçando os governos dominados pelo Ocidente.

Também descobrimos que o Departamento de Estado de Clinton deu luz verde para mais de US$ 150 bilhões em vendas de armas para dezesseis nações repressivas que doaram grandes somas para a Fundação Clinton – uma espécie de governo no exílio para o Clinton Clan.

Todos os negócios sórdidos. Não é de se admirar que tantos americanos exibam fúria para com a sua classe política. Um bocado de munição para Donald Trump.