Um Dia de Cão em Caracas

Por: César Antônio Ferreira

Não vamos nos enganar, a Venezuela sofreu neste dia 30 de abril de 2019 um dica de cão, típico das guerras híbridas, das quais são vítimas todas as sociedades donas de subsolo rico em hidrocarbonetos, ou que sejam uma passagem estratégica para o trânsito dos mesmos, que sofrem dolorosamente apenas por exibir politicas afirmativas da sua soberania por ventura dissonantes dos interesses dos EUA e dos seus associados da OTAN.

O roteiro é bem conhecido: aproveitando-se do fato de que nenhuma sociedade é monolítica, fomenta-se através das redes sociais uma oposição cujas bandeiras reivindicativas são induzidas a partir de pesquisas analíticas do conteúdo circulante no ambiente cibernético da nação alvo. Esta é a primeira parte e a de maior novidade. Na medida em que as lideranças vão se enfraquecendo no campo político, a engrenagem põe-se a rodar… Manifestações com tópicos de abrangência universal, como o “combate à corrupção”, um mal sempre associado as autoridades de plantão, e a “falta de liberdade”, pouco importando se suposta, ou verdadeira.

Caso a unidade política da nação alvo mantenha-se de pé, parte-se para a fase dois: a criação de situações capazes de criar comoção, tanto no âmbito interno, como externo, com intuito de se capitalizar os sentimentos difusos e canalizá-los em prol das emoções básicas como a equidade e o desejo de vingança, além da apropriação do discurso narrativo da “promoção da justiça”. Neste momento a liderança opositora, a partir da atenção midiática que lhe é dedicada encarnará a “sobriedade do justo”, enquanto a liderança nacional será demonizada, apontada como a responsável direta pelos trágicos eventos, estrategicamente registrados pela mídia, em suma, o líder nacional será para todos os efeitos um…  “Demônio encarnado que ataca o próprio povo”.

Este roteiro já foi visto várias vezes, tanto que podemos elencar as nações que foram vítimas: Líbia, Síria, Iraque, Ucrânia, dentre as operações de sucesso, Rússia e Turquia, entre as fracassadas (não chegaram a Fase 2), além do Brasil, exemplo mais bem sucedido, visto que houve a cooptação direta da classe média, tornando desnecessária as ações de desestabilização.  Todavia, este não é o caso da Venezuela: o país está mergulhado em uma crise econômica sem precedentes, mas, apesar da depressão econômica reinante ser, como se percebe, um fator de divisão social, a população começa a perceber que algo mais está em jogo do que a mudança pura e simples do mandatário. Tanto é assim que a quartelada promovida neste 30 de abril último resultou em um sonoro fracasso.

Há de se perguntar o motivo do fracasso do golpe promovido pelo senhor Guaidó, e uma das respostas é a previsibilidade dos atos. De fato, a Venezuela foi um protótipo de guerra híbrida no distante ano de 2002, quando uma outra quartelada, então  efetivada pelo o que havia de mais antigo e retrógrado no espectro político venezuelano,  depôs Hugo Chávez, apenas para ver o cerco popular do Palácio Miraflores e o retorno triunfal de Chávez… Neste golpe fracassado houve um detalhe importante: um atentado de falsa bandeira, feito pelos golpistas, que consistia em disparos contra manifestantes contrários ao presidente Hugo Chávez…

O uso de franco-atiradores para ataques de falsa bandeira é um modo operativo recorrente nas realizações de “mudança de regime” mundo afora. Tal como testado na Venezuela foi aplicado na Síria, Iraque, Líbia e Ucrânia. É desnecessário dizer que as mortes são atribuídas aos “agentes do governo”, incendiando com emoções extremas os nacionais, que se identificam com as vítimas e com isto colocando qualquer um que não professe as mesmas convicções como inimigo desprovido de humanidade e de identidade. Neste dia 30, para desespero de Guaidó, os atiradores foram neutralizados pelas forças de seguranças venezuelanas. Um roteiro conhecido pode ser antecipado.

Entretanto, se os snipers não funcionaram à contento, ao menos houve para os golpistas a imagem de manifestantes atropelados por blindados. Uma cena lamentável neste enredo, pois era evidente uma reação de força por parte dos militares que protegiam os acessos da base aérea Generalíssimo Francisco de Miranda, localizada no centro de Caracas [1]. Dá-se que era evidente que se pretendia fazer-se na referida base um ato político afirmativo, bastante simbólico, uma espécie de tomada da Bastilha caribenha, mas… Redundou em fracasso. O número de manifestantes parecia significativo quando a câmera estava fechada, mas quando aberta em grande angular percebia-se que os manifestantes presentes não encheriam o Engenhão [2], tal como se vê quando o Botafogo [3] está em má fase.

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Arma apreendida ppelas forças de segurança que se destinava para ataques de falsa bandeira. Foto: Topete GLZ. Internet.

Com manifestantes atropelados, ou não, Maduro sai fortalecido, mais uma vez. Pois a quartelada do dia 30 de abril se soma a fracassada entrega forçada de “ajuda humanitária” [4} cujo objetivo era justamente a de provocar um incidente, um cadáver para ser lamentado, o que não se deu. Estes fracassos reiterados acabam por expor Guaidó como líder sem carisma pessoal, farsesco, e artificial, que acabou por apostar alto demais. Aposta leviana, visto que agora os seus atos não se escusam atrás de uma “ajuda humanitária”, ou “oposição democrática”, mas consistem de um levante declarado contra o governo venezuelano, um crime objetivo, portanto.

Algo mais

Cabe perguntar: por que Guaidó se arriscou hoje? Simples, porque contava ele com algo mais… Cadáveres que lhe dessem a justificativa para uma intervenção armada dos EUA. Ora, pois, não seria uma especulação descabida? Nem tanto, se considerarmos que o Sr. Jair Messias Bolsonaro, Presidente da República Federativa do Brasil, comunicou que decidiria exclusivamente com o Conselho de Segurança Nacional sobre a Venezuela [5]. Isto foi dito, acredite, ainda que se saiba ser uma responsabilidade do Congresso Nacional as declarações de hostilidades abertas para com outras nações. (art. 137º)[6]. Ora, ora, ganha um doce quem não previu que tais eventos foram discutidos no encontro havido entre os presidentes Trump e Bolsonaro,

Não deu certo a jogada, haverá outra, e outras…

Notas:

[1] Base Aérea icônica, conhecida por “La Carlota” área de 105 hectares, abriga o Comando Geral de Aviação. O Palácio Miraflores situa-se a alguns quilômetros. Ver em Jornal GGN: Gilberto Maringoni_ Ação irresponsável evidencia isolamento de Guiadó.

[2] Estádio Nilton Santos, Rio de Janeiro, Brasil. Capacidade para 40 mil torcedores.

[3] Botafogo de Futebol e Regatas, tradicional grande clube do futebol brasileiro, sediado na cidade do Rio de Janeiro.

[4] 23 de fevereiro de 2019.

[5] “A situação da Venezuela preocupa a todos. Qualquer hipótese será decidida EXCLUSIVAMENTE pelo Presidente da República, ouvindo o Conselho de Defesa Nacional. O Governo segue unido, juntamente com outras nações, na busca da melhor solução que restabeleça a democracia naquele país”. (Brasil 247 – Conforme publicado no Twitter).

[6] “Em relação ao tuíte do presidente Jair Bolsonaro sobre a situação da Venezuela, é importante lembrar que os artigos. 49, II c/c art. 84, XIX; c/c art. 137, II da Constituição Federal precisam ser respeitados”, (Brasil 247 – Deputado Federal Rodrigo Maia – DEM /RJ).

 

Por que a Boeing precisou muito da Embraer?

Fonte: Jornal GGN

Por: Sérgio da Motta e Albuquerque

Ao contrário do que pensam muitos, foram as dificuldades da Boeing e as pressões da competição que a impulsionaram na direção da compra da brasileira Embraer, e não o contrário. Quem acredita na artimanha da “joint-venture” anunciada na imprensa, onde a Embraer só controla 20% da nova empresa, é um ingênuo. Ou alguém que não vem acompanhando o desenvolvimento e a concorrência na aviação comercial regional das aeronaves de médio porte. O mercado onde atuava a “velha Embraer” – a ‘velha’, poderosa e confiável Embraer, nosso único orgulho e glória no mundo industrial de alto valor agregado.

A Embraer era uma empresa “enxuta”, bem administrada e inovadora. A primeira a organizar suas linhas de montagem seguindo o modelo da indústria automobilista. Obra de excelência da engenharia nacional, ela criou seu próprio modo de produção de aeronaves, ao compatibilizar tecnologias avançadas de origem internacional em seus produtos como nenhuma outra neste ramo. Colecionava uma sucessão de grandes vendas, quando foi entregue por 4,2 bilhões de dólares aos ianques da Boeing. O lobby americano é muito forte neste país, especialmente neste momento, de alinhamento incondicional aos ianques. E a nossa imprensa é subserviente a qualquer tipo de poder econômico. Mentiu o tempo todo à população brasileira, e conseguiu convencer muita gente que a Embraer estaria em “graves problemas”, diante do acirramento da competição internacional no mundo da aviação comercial regional.

É certo que a corporação brasileira precisava de parecerias. E poderia enfrentar problemas no futuro sem um bom e poderoso aliado. O problema é que a Embraer tinha poder de mercado para fechar um acordo muito mais favorável com qualquer gigante da aviação mundial. Mas não uma proposta oportunista de um colosso que e engoliria e a expulsaria do mercado de aeronaves de passageiros de porte médio. Foi isso o que aconteceu. A tal “joint-venture” nunca passou de um estratagema para tomar o controle da Embraer em um momento de fragilidade política e econômica do Brasil. Porque a competição começou a dar prejuízo à gigante da aviação americana. Leiam o que vem a seguir e entenderão as dificuldades da corporação ianque.

A Boeing teve problemas quando a Bombardier, depois de uma série de tropeços e avanços por mais de uma década, finalmente lançou sua nova aeronave a “C-Series” em 2016. As dificuldades agravaram-se em 2017, informou o Financial Times (14/1). A Boeing apelou ao Departamento de Comércio ianque. Exigiu medidas protecionistas de até 300% do valor da operação, em 2017, sobre a venda de 75 aviões da Série C da Bombardier para a Delta Airline, a maior vendedora de passagens aéreas do mundo. A Airbus, controladora da Série C , começava a vender os aviões da Bombardier, sob o nome “A-220” em 2018. A Delta foi ameaçada a pagar a multa gigantesca. Até aquele momento, a Boeing não tinha presença no mercado da aviação regional em aviões de porte médio e corredor único – os “narrowbodies”, como são conhecidos no mundo da aviação. E começava a perder terreno para a concorrente. Dentro do seu próprio país.

A Bombardier, por sua vez, teve dificuldade para desenvolver e entregar sua Série C, a famosa “C-Series”. A série inicial já estava em estudos desde 2004 e envolvia dois aviões, o C110, e o C130 – este último projetado para ser uma aeronave maior. Seu principal objetivo era ocupar o espaço dos velhos jatos 737 da Boeing e outros concorrentes similares de maior peso e tamanho. Depois de uma interrupção de quatro anos, o projeto da nova família de aeronaves foi retomado em 2008. Os aviões foram rebatizados: o menor, o C110, passou a chamar-se CS100. O maior, CS300. O resultado foi o esperado: a fabricante canadense tentou enfrentar as gigantes Airbus e Boeing com o CS300 e quase faliu. Em 2015 o governo canadense salvou o projeto “C-Series”. A empresa parecia ter chegado ao fim, quando o governo canadense investiu U$ 2,2 bilhões de dólares (americanos), na recuperação do projeto, depois desta tentar e fracassar quebrar o duopólio Boeing-Airbus em jatos médios. A injeção estatal de dinheiro salvou a Bombardier e a recolocou em condições de competir no mercado mundial, com as primeiras entregas da aeronave sendo realizadas sem problemas, mas ainda com muitas dúvidas sobre os lucros que poderia gerar a possibilidade da nova união das duas gigantes:

“É certo temer a nova combinação (Airbus-Bombardier). Apesar de a Airbus ter perdido terreno nos aviões “jumbo” de corredores duplos, enquanto atualiza seu alcance, a gigante europeia já agarrou metade do mercado para aviões regionais de porte médio, como a “C-Series”. Analistas pensam que a união aprofundará o controle da Airbus. A Boeing agora terá que gastar dezenas de bilhões de dólares para lançar um novo jato regional para competir, muito antes do panejado” (Grifo do Autor).

A Boeing estava em problemas, graças à aliança Airbus-Bombardier. Ela não tinha um produto para competir no mercado, neste setor. Desembolsar “várias dezenas de bilhões de dólares” não era uma boa opção. A corporação ianque foi astuta e não precisou gastar tanto dinheiro para abalar a concorrência da Airbus dentro dos Estados Unidos. Nem comprar apenas uma aeronave para concorrer com o A-220 – o produto da Bombardier. Por uma quantia modesta, a Boeing comprou todo o setor de aviação comercial e de serviços da Embraer. E ainda adquiriu 49% de participação no cargueiro militar KC-390, o maior avião já projetado e construído no Brasil. Tudo isso por apenas 4,2 bilhões de dólares. A compra veio em boa hora. Para a Boeing, não para o Brasil ou para a Embraer. Foi um presente para Trump, e seu projeto de “fazer a América grande novamente”.

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O KC-390 em sua apresentação. O acordo com a Boeing resultou na entrega de 49% das realizações do projeto do cargueiro militar, sem que a gigante norte-americana tenha aportado um dólar sequer no mesmo. Foto: internet.

Em 14 de janeiro de 2019, o Financial Times informou que o governo americano negou o pedido da Boeing de taxar em 300% a Airbus e sua linha de montagem atual do A-220, o antigo “C-Series”, ainda situada fora dos Estados Unidos. Mas a gigante norte-americana agora estava preparada para a competição. Com toda a bem-sucedida linha comercial da Embraer sob seu controle, ela poderia respirar aliviada. Sem nenhum avião na para competir com o A-220 da Airbus em 2018, a Boeing agora em 2019 é dona de uma das maiores e bem-sucedidas fabricantes de aviões regionais de maior porte do mundo.

A agência de avaliação de risco Fitch (15/1) imediatamente rebaixou a nota da empresa brasileira depois da “joint-venture”. O que restou da Embraer, o setor de aviação executiva e a aviação militar, não bastam para o prosseguimento das operações de uma grande empresa de aviação. O jornal “Valor econômico” publicou (15/1):

“Segundo a Fitch, o perfil de negócios da joint-venture que será formada entre Embraer e Boeing será mais fraco, refletindo a concentração das operações nos segmentos de aviões de defesa e executivo, a forte concentração de clientes e o desafio em aumentar a lucratividade e o fluxo de caixa operacional”.

Os lucros na aviação executiva são pulverizados por uma grande quantidade de fabricantes. E o setor militar dependia da aviação comercial da Embraer, agora vendido aos norte-americanos. Nossas forças armadas e suas encomendas não bastam para a sobrevivência da Embraer Defesa.

A Bombardier fez, talvez, seu melhor negócio em sua história. Vendeu apenas uma família de aviões, e permaneceu na competição do mercado de aviação regional. A Embraer, não. Perdeu seu filão mais lucrativo, em pleno apogeu de vendas da empresa. Apenas ela, entre as quatro grandes na produção de aviões comerciais, a nossa ex-Embraer, sobrevive sem ajuda do governo brasileiro. A Boeing, a Airbus e a Bombardier são corporações pesadamente financiadas pelo Estado. Fizemos a lição de casa, privatizamos a Embraer, e a tornamos independente e dominante no mercado em poucos anos. Apenas para entregá-la quase de graça aos americanos. Porque ela “precisa da ajuda do Estado”, e o nosso governo não pode mais alavancar empresas deste porte, dizem as vozes do neoliberalismo. Mesmo quando sua propriedade total representa interesse estratégico fundamental para o desenvolvimento deste país.

O Brasil e a Embraer saíram perdedores, nesta etapa da competição mundial no setor da aviação regional comercial para até 130 passageiros. Airbus e Boeing são as grandes favorecidas. O acordo Boeing-Embraer foi péssimo para o Brasil e para a Embraer. E a Bombardier ainda tem muito a provar aos especialistas em aviação. Nada garante sua participação no longo prazo, na aviação regional. A tendência da Airbus é ampliar o seu controle sobre o setor de aviação comercial da Bombardier.

Quanto ao impacto no Brasil, perderemos receitas de exportações industriais de alto valor agregado e na arrecadação de impostos. Todo o embrião do complexo industrial-militar construído a partir do ITA em São José dos Campos corre o risco de desaparecer. Hoje, os ianques prometem deixar a produção das aeronaves no Brasil. Mas a partir de 2020, quando a Airbus em Mobile, Alabama, começar a fabricar e vender o A-220 (o “C-Series” da Bombardier), dentro dos Estados Unidos, como produto norte-americano, vai ser muito difícil enfrentar a concorrência pesada da Airbus com um produto fabricado fora dos Estados Unidos.

A tendência de médio, longo prazo, é a transferência de toda a linha de montagem da aviação comercial para os Estados Unidos. As consequências serão devastadoras. A Embraer não existe só, no espaço vazio. Ela traz consigo toda uma cadeia produtiva de pequenas e médias empresas que orbitam em torno dela. A transferência da linha comercia da Embraer para os Estados Unidos completará a total desindustrialização do Brasil.

As “causas universais” contra o Estado Nacional

Por: André Araújo
Fonte: Jornal GGN

Foram os EUA que, ao fim da Primeira Guerra Mundial, inauguraram a Era das causas universais, contra a soberania dos Estados Nacionais, poupando desse combate seu próprio Estado.

Em artigo especifico sobre esse tema tratei do papel do Presidente Woodrow Wilson na propagação desse principio de “causas” contra “Estados”. Wilson foi o primeiro Presidente “politicamente correto” dos Estados Unidos e seu ativismo missionário foi um desastre completo de politica externa, podendo-se dizer que ele foi um dos que plantaram as sementes da Segunda Guerra através de seu idealismo tosco e tolo, sua visão fantasiosa da Historia e seu iluminismo mal colocado e mal aplicado. Wilson foi o grande maestro do Tratado de Versalhes, o pior acordo diplomático da História contemporânea, tão ruim que sequer o Congresso do seu próprio País o ratificou. Compare-se o Tratado de Versalhes de 1919, que durou formalmente 20 anos, mas efetivamente deixou de ser aplicado após 1933, portanto sua vigência real foi de 12 anos, após 1933 sua validade foi enfrentada pelo nazismo, com outro grande acordo histórico, a Paz de Viena de 1815, que durou 99 anos, obra de magistrais realistas da verdadeira politica, o Príncipe de Metternich e o Principe de Talleyrand, estadistas de berço e escol que sabiam operar a História e não viviam de ilusões moralistas.

As Causas e os Estados Nacionais

Uma “causa” moral é fundamentada na ética e seus ativistas a consideram acima da politica.

Para eles a causa tem um valor superior à noção de Estado e assim deve ser entendida e aplicada. Wilson, por exemplo, entendia que os “protocolos secretos” nos tratados diplomáticos não deveriam existir e que todos os artigos e disposições de um tratado deveriam ser revelados aos cidadãos. É uma grande estupidez, há inúmeros temas em negociações diplomáticas que devem permanecer secretos para sua própria eficácia.

Wilson abraçava a “causa da transparência”, uma virtude sempre benéfica para ele.

Wilson criou imensos problemas nas suas desastrosas intervenções na Conferência de Versalhes e a conta dessa fantasia explodiu em Setembro de 1939. A marca de ação de Wilson foi a prevalência das “causas” sobre o realismo politico, que Wilson considerava corrupto e imoral, ele achava que os europeus praticavam uma politica de safadezas e engodos resultante da decadência moral que vinha de longe enquanto que ele, Woodrow Wilson, representava a pureza dos peregrinos que formaram os Estados Unidos.

Por isso pode-se considerar Woodrow Wilson o pai da doutrina politica das causas universais que tem um valor superior às soberanias que, segundo Wilson, são a fonte do mal que levou à Grande Guerra de 1914. Conquanto a Doutrina Wilson possa ser considerada altruísta em termos filosóficos, ela sempre foi desligada da realidade geopolítica, e a tentativa de introdução de modelos não realistas produz resultados muito piores do que os pecados que visa extirpar, a luta pela causa produz mais males do que o mal primitivo.

O Estado Nacional e as suas Razões Não Morais

Desde a criação dos Estados Nacionais entre 1460 e 1610, esses entes aéticos usam de todos os instrumentos de poder à sua disposição, como usavam os nobres e senhores feudais antecessores dos Estados em suas intermináveis lutas por territórios e riquezas. Um Estado não sobrevive a partir de purezas e bondades neutras, contra o que há a razão de Estado.

Os Estados grandes usam a espionagem como instrumento de poder e essa ação na sua origem e pratica envolve largamente a corrupção pelo Estado, os espiões são subornados em beneficio de um Estado que geralmente não é o seu. Os Impérios foram formados em grande medida por compras de lealdades nos territórios a conquistar, assim a Inglaterra conquistou a India, o “Raj”, aliciando os marajás e rajás, foi mínima a ação militar no subcontinente, valia a adesão comprada e assim foi até a Independência em 1947, na China a influencia britânica no período entre a Guerra dos Boers e a fundação da Republica em 1911 foi financiada com venda de opio aos “warlords”, territórios e concessões eram compradas, como Hong Kong, como negocio, a área de soberania extra territorial de Shangai era a própria confissão da compra.

Em tempos modernos como encarar a soltura do maior chefe mafioso dos EUA, Lucky Luciano,(Salvatore Lucania) muito mais importante que Al Capone, cumprindo pena de 50 anos na penitenciaria de Sing Sing, a pedido da Inteligência Naval americana, para que o mafioso fosse um “batedor” na invasão da Sicília, pelas suas rede de ligações na sua terra natal. Como guia, Luciano pouparia vidas de soldados ao aliciar colaboradores por trás das linhas alemãs, servindo como “abre alas” das tropas do General Patton. Soltar Luciano era absolutamente imoral, mas RAZÕES DE ESTADO prevaleceram sobre a logica do sistema judiciário, um interesse maior de Estado se sobrepunha. Luciano prestou os serviços para os quais foi contratado pela Marinha e foi pago com a comutação da pena em 1948, assinada pelo Governador Dewey, de Nova York, com a condição de não mais voltar aos EUA. Luciano livre depois da Guerra teve ainda grande atividade criminosa como chefe de uma das cinco famílias e teve tempo para montar a grande rede de casinos em Cuba que controlou até a Revolução Castrista, morrendo de morte natural em Nápoles em 1962. O arranjo do Estado americano com Luciano foi absolutamente imoral e aético, mas prevaleceram as razões de Estado.

A Campanha Anti-Corrupção na América Latina

Um caso clássico do confronto entre “causas” e razões de Estado. Instala-se uma Associação Ibero Americana de Ministérios Públicos, declarando ser a união de 21 MPs de países do Continente e abre campanha internacional anti-corrupção, com aceitação de denuncias e troca de informações entre Ministérios Públicos. É um confronto absoluto entre “causas” e razões de Estado. Vamos ao exemplo da “reapolitik”. O Governo Brasileiro tem em um país vizinho um Chefe de Estado alinhado com os interesses do Estado Brasileiro. Esse Presidente dá preferencia a empreiteiras brasileiras para seu grande programa de obras publicas. O Estado brasileiro tem todo o interesse na permanência desse Presidente porque ele atende aos interesses do Brasil. Mas sai do Ministério Publico brasileiro documentação colaborativa que pode criar condições para um impeachment desse Presidente de pais vizinho por ter recebido doação de campanha de empreiteira brasileira. Para o Governo brasileiro a queda de um Presidente aliado vai contra os interesses do Estado brasileiro, essa “colaboração” do MP brasileiro com seus colegas do País vizinho vai contra as razões de Estado do Brasil, não pode acontecer porque o Brasil NADA GANHA com a queda desse Presidente, só perde e muito.

Essa seria uma situação de “realpolitik”, mas não está sendo operada pelo Brasil como Estado.

O MP brasileiro colaborou para derrubada ou desgate de Presidentes e políticos de países vizinhos e da África alinhados com os interesses do Estado brasileiro, grave erro de geopolítica.

O que o Brasil GANHOU em colaborar para a derrubada de políticos amigos? Absolutamente nada. Então porque fez? Porque o Estado brasileiro perdeu completamente o controle de sua projeção de poder geopolítico, permitindo o desgaste e, portanto, o enorme prejuízo de desmonte de posições politicas e econômicas em grande numero de países, conquistadas por suas empreiteiras e marqueteiros políticos operando em aliança para apoiar eleição de presidentes alinhados ao Brasil, um modelo engenhoso que foi implodido em nome da “causa’ universal anti-corrupção mas com enorme perda para os interesses estratégicos do Brasil.

Um Estado patrocina interesse nacional e não causas universais, que JAMAIS SÃO NEUTRAS, as causas servem como arma politica a todo tempo, não importa a intenção inicial de seus patrocinadores, causas podem atingir alvos imprevistos pelas suas boas intenções iniciais.

As causas “anti-corrupção” são as menos neutras entre todas porque seus efeitos POLITICOS são imediatos e concretos, mudam as peças do jogo do poder e com isso mudam o resultado da disputa politica no mundo real, o manejo dessa causa gera imenso poder politico, a causa nunca é neutra mesmo que essa seja a intenção de seus patrocinadores.

No Brasil os beneficiários dessa causa foram em larga medida os Estados Unidos e seu arco de interesses geopolíticos, financeiros e corporativos, o enfraquecimento da PETROBRAS se deu por causa da escandalização dos desvios e não por causa da corrupção, essa sempre existiu na Petrobras como em quase todas as estatais petrolíferas do mundo, mas essa falha moral já estava precificada pelos mercados. A super escandalização provocou ações de acionistas minoritários nos EUA e uma serie de multas e indenizações ainda não terminadas, esses processos custarão muito mais que as propinas, incluindo a colocação de monitores americanos do Departamento de Justiça dentro da Petrobras, a perda de independência da empresa é absoluta, para todos os efeitos práticos a Petrobras é governada de fora.

O pior resultado da campanha de “causas morais” foi a preparação de condições para duas grandes operações de desmonte do Estado e do sistema econômico brasileiro: a “privatização branca” da Petrobras pela venda de ativos sem licitação e contra a logica estratégica, provocando a DESINTEGRAÇÃO da petroleira, sendo a integração o padrão da concorrência e em segundo lugar venda de grandes blocos do PRE-SAL perdendo o Brasil a garantia de auto suficiência em petróleo, uma vez o petróleo extraído dos blocos vendidos pertencem a seus novos donos e poderá ser comercializado no mercado internacional, perdendo o Brasil sua garantia de abastecimento QUE ERA A RAZÃO DO PROJETO PRE SAL, desenvolvido desde o inicio pela técnica e esforço de pesquisa da Petrobras para suprir o Brasil de petróleo.

Ao lado desses prejuízos notórios há muitos outros. A quebra ou inviabilização de grandes construtoras e estaleiros, a transferência para o exterior de todas as encomendas de equipamento da Petrobras, na linha “preferencia pelo estrangeiro” em qualquer compra de qualquer natureza, toda uma visão esquizofrênica anti-brasileira e pro-estrangeiro DERIVADA DA IDEIA ANTI-CORRUPÇÃO cuja resultante foi a colocação de um notório privatista na sua presidência, como resposta à campanha de estigmatização da empresa.

Os Estados na lavagem de dinheiro

Grandes estados com interesse geopolítico global operam fundos encobertos para pagar operações especiais. A celebre operação IRÃ-CONTRAS no segundo Governo Reagan foi um complicado negocio envolvendo venda de armas ao Irã, que estava sob embargo resultante da invasão da Embaixada americana e o produto da venda destinado aos “contras”, milicianos que lutavam contra o domínio sandinista na Nicarágua, operação organizada pelo NSC, o Conselho Nacional de Segurança da Casa Branca, toda a operação clandestina do começo ao fim, sem passar pelo orçamento dos EUA, mas sob controle da Casa Branca.

A invasão da Baia dos Porcos em 1961 em Cuba, foi financiada com dinheiro de origem mafiosa numa operação organizada pela CIA, invasão que fracassou. Os mafiosos americanos controlavam o jogo e a prostituição em Cuba e se aliaram a CIA para uma tentativa de retomada de Cuba, o Estado americano aliado a grupos criminosos como na Sicília em 1943.

Mas a maior operação de lavagem de dinheiro praticada pelo Governo americano foi o financiamento do Vaticano no final da Segunda Guerra e nas três décadas seguintes.

Com o conflito na Itália entre 1943 e 1945, no quadro maior da Segunda Guerra, o Estado do Vaticano perdeu sua renda imobiliária que mantinha sua estrutura, no final da guerra em maio de 1945 a Itália, especialmente no Norte, viu um grande crescimento do Partido Comunista Italiano, o maior do Ocidente. Os Estados Unidos se preocupavam com a hipótese da Itália cair sob domínio comunista e somente o prestigio da Igreja poderia enfrentar essa ameaça. Allen Dulles, então chefe do OSS, escritório antecessor da CIA, arquitetou com o Vaticano a criação do Partido Democrata Cristão, que se tornaria o maior da Itália e a barreira contra o crescimento do PCI. Para financiar esse projeto, a CIA montou um esquema de financiamento do Vaticano e deste para o Partido Democrata Cristão que começava na Arquidiocese de Chicago destinando doações para o Vaticano, os recursos na realidade vinham de fundos da CIA. Para operar o sistema foi criado o IOR-Instituto de Obras Religiosas, conhecido como o “Banco do Vaticano”, sob a direção do Arcebispo Marcinkus, da Arquidiocese de Chicago e foi esse o canal financeiro que construiu o partido que governou a Itália por boa parte da segunda metade do Século XX.

Outra operação com dinheiro de origem não oficial organizada pela CIA foi o financiamento da Organização Gehlen, um vasta rede de espionagem dentro da antiga URSS herdada do serviço de inteligência do Exercito alemão e chefiada pelo general do Terceiro Reich Reinhard Gehlen, com mais de 1.000 agentes operando na União Soviética. O financiamento vinha de fundos secretos da CIA, sem registro e durou por boa parte do período da Guerra Fria.

Operações com dinheiro encoberto foram usadas em larga escala na invasão e ocupação do Iraque pelos serviços de inteligência americanos, conforme já relatei aqui em artigos específicos quando foram usados intensamente bancos de Beiruth e tradings polonesas como dutos de recursos para pagamentos dentro do Iraque.

O desastre brasileiro no acordo de cooperação judiciária com os EUA

Um dos atos governamentais mais desastrosos da Historia brasileira foi a assinatura pelo governo FHC de um “acordo” judiciário com os EUA, em 2001. Pode-se dizer sem chance de erro que esse acordo é o ninho da cruzada moralista e por tabela a semente da liquidação da PETROBRAS e da alienação do pre-sal. O enfraquecimento da PETROBRAS, submetida a extorsões sob pretextos de prejuízo a acionistas americanos, infringência a leis americanas anti-corrupção e outras sangrias sem fim já na casa dos bilhões de dólares, mais a colocação de “monitores” americanos, indicados pelo Departamento de Justiça em Washington, DENTRO da Petrobras para controlar suas operações, tudo isso ocorreu com base nesse fatídico Acordo de 2001, guarda chuva da cruzada moralista anti-corrupção, na realidade uma operação de grande porte disfarçada de “causa” para submeter o Estado brasileiro sob o manto do moralismo aplicado à politica, um instrumento tóxico pelos danos que causa à força do Estado.

Ao levar documentos e provas contra a PETROBRAS ao Departamento de Justiça para que este processasse a PETROBRAS, ao permitir que promotores americanos viessem ao Brasil interrogar delatores brasileiros, INOMINAVEIS AGRESSÕES foram cometidas contra o Estado brasileiro, seus interesses estratégicos, seu patrimônio e seu projeto geopolítico natural.

O Brasil e sua população pagam hoje com desemprego e pagarão no futuro com imensa perda de riquezas e patrimônio nacional, a leviandade com que o Poder Executivo e o Congresso brasileiro sem qualquer escrutínio de interesse nacional aprovaram esse absurdo “Acordo” sem nenhuma logica em torno algum objetivo estratégico para o Estado brasileiro, Acordo onde só o Brasil gera benefícios aos EUA e de lá não vem beneficio algum ao Brasil, servindo de cobertura para intromissão de Washington em assuntos brasileiros sem que reciprocamente o Brasil possa fazer o mesmo, como se viu no caso dos pilotos do Legacy, onde o tal Acordo não serviu para nada porque ele não atua onde há interesse dos EUA.

O Acordo de 2001, assinado por Fernando Henrique Cardoso e Celso Lafer é na realidade uma operação de projeção de poder dos EUA, como foi a operação de salvamento financeiro do Vaticano ou o conjunto de operações que levaram à invasão do Iraque em 2003.

Seus frutos finais atingem a PETROBRAS e o pre-sal, entre muitos outros resultados.

A presença geopolítica do Brasil na África

De todos os grandes países com potencial de ação internacional, o Brasil é o mais natural parceiro da África, pela sua diversidade cultural, étnica, religiosa, pela facilidade de convívio de seu povo com outras culturas, o Brasil é especialmente bem recebido nos países africanos, o que de forma alguma acontece com nossos concorrentes na área, os chineses, indianos, malaios, povos étnicos, com culturas fechadas, que não convivem bem com outras culturas e povos, não estão acostumados como os brasileiros à mescla de civilizações e hábitos.

Os chineses são recebidos hoje na África por falta de opção, mas o Brasil tem vantagens únicas para atuar no campo de obras publicas e grandes projetos no continente africano.

Enquanto no canteiro de obras de empreiteiras brasileiras há jogos de futebol com os locais, todos participam e se confraternizam, nos canteiros chineses, turcos, indianos isso é praticamente impossível, não se misturam, tem hábitos e costumes fechados, não mudam, são guetos implantados, a comida tem que ser importada, não há LIGA com a população local.

Pela mesma razão forças armadas brasileiras são as preferida para as missões de paz da ONU, sãos as mais bem recebidas em qualquer lugar e por sua vez se sentem bem em todo lugar.

As Empresas “Braço Longo”

Os grandes países usam empresas como braços de projeção de poder, o mundo se acostumou a ver a Standard Oil, a Texaco, o City Bank, a Pan American, a IBM e a ITT como braços do governo dos EUA, funcionavam não só como empresas comerciais, mas tinham também papel diplomático, de espionagem, de penetração estratégica, a Inglaterra tinha essa relação com a Shell e a Unilever, a Alemanha com a Siemens, a França com a Schneider, a Rhodia e a Cegelec, a empresa estratégica do Brasil seria a Odebrecht, liquidada pela cruzada moralista, empresa que chegou a ter 10% do PIB de Angola e operações em 30 países, em alguns, como no Peru, era a maior construtora, o mesmo no Equador, Republica Dominicana, etc.

Na Segunda Guerra foi a hoje extinta Pan American Airways quem construiu os aeroportos que seriam as bases aéreas para a invasão da África do Norte pelo Exercito americano, atuando como braço longo do Governo dos EUA no Brasil.

Os grandes países expansionistas USAM essas empresas “LONG ARM”, braço longo do Estado, para pagar espiões, operações especiais, proteger aliados dentro dos países, financiar campanhas, providencia empregos e exílios, TODOS os grandes países operaram suas relações internacionais usando empresas “braços longos” como INSTRUMENTOS de sua politica externa para tarefas onde o próprio Estado não deve aparecer. A Texaco foi fundamental para a vitória de Franco na Guerra Civil Espanhola, fornecendo petróleo a credito ao Exercito nacionalista como braço longo do Departamento de Estado, a ITT foi fundamental na derrubada de Allende no Chile em 1973, a IBM ficou na Alemanha nazista até dezembro de 1941 como olhos do Departamento de Estado mesmo após dois anos de guerra na Europa.

O que fez o Brasil? Liquidou com suas empresas “ponta de lança” em nome da moral, pelo caminho liquidando os políticos que ajudaram as empresas e o Brasil em projetos brasileiros em seus países, que abriram as portas ao Brasil e seus negócios e interesses. Nenhum País faz isso, perseguir suas próprias empresas no exterior, são armas nossas, todos vestem a mesma camisa, se alguém quiser investiga-las que sejam os países prejudicados e não o pais sede da empresa, é algo tão absolutamente obvio que custa a crer tenha ocorrido com o Brasil,, onde empresas brasileiras são DENUNCIADAS por procuradores brasileiros aos seus colegas do pais anfitrião, mas com que interesse do Brasil? Não é possível descobrir. Não consta que o governo do EUA faça o mesmo com suas multinacionais no Brasil, ele as protege em qualquer circunstancia, aliás e uma das principais funções da diplomacia americana em todo o mundo.

Será historicamente incalculável o prejuízo do Brasil ao cortar a ação de suas empresas de engenharia no exterior em nome do moralismo, assim como foi uma tragédia para a diplomacia brasileira a queda de um Presidente do Peru, pais vizinho, estratégico e importantíssimo para o Brasil, por denuncias vindas do Brasil. O que ganhou o Brasil com a queda de Pedro Pablo Kuczinsky? Nada, mas perdeu projeção de poder no Peu pelos próximos 30 anos. Como é possível o Estado brasileiro ter permitido isso? Não há resposta.

As “Causas” como Armas da Política 

As causas morais de todos os tipos, humanitárias, ecológicas, anti-corrupção, de direitos humanos, religiosas, servem como ARMA POLITICA sob a capa da virtude.

Uma histórica grande “causa” usada como arma politica foi a das CRUZADAS, verdadeiras operações de saque e tomada de território sob a capa de “reconquista dos lugares santos”.

A partir da Era dos Descobrimentos e depois na Era das Colonizações a pregação religiosa foi usada largamente como aríete de conquista de terras e riquezas. A bandeira era a “conversão dos infiéis”, o alvo real era a pura e simples busca do ouro em todas suas formas.

Parece incrível que ainda hoje não se entenda o uso claro e a luz do dia de “causas” como peças do jogo politico e não da propagação da virtude e da pureza moral.

Através dos tempos, o resultado final das lutas por ‘CAUSAS”, tem tido um saldo desastroso.

O rescaldo dos destroços deixados por essas lutas custa muito caro na Historia. A LEI SECA Americana, assinada pelo Presidente Woodrow Wilson em 1919, o primeiro Presidente “politicamente correto” dos EUA, não reduziu o alcoolismo e ao criar o espaço para o contrabando de bebidas fez a fortuna e o poder da MAFIA no País, o saldo da CAUSA moral foi o pior possível, como costuma acontecer por toda Historia.

“Causas morais” não podem reger a politica de um grande Estado, é a lição da Historia.

Ao se intrometerem na POLITICA, causam imensos estragos, outra lição da Historia.

O ambiente da politica nacional e internacional NÃO é puro e nunca foi por toda a História conhecida, ao tentar purifica-lo matam-se os germes ruins e os bons juntos, no ambiente asséptico nasce um germe novo muito mais agressivo, a terceira lição da Historia.

A Petrobrás não é padaria

Por: Ricardo Maranhão

Fonte: AEPT – Associação de Engenheiros da Petrobrás.

Procurando justificar a política de preços para os derivados de petróleo, adotada por sua administração, que implica na paridade com preços internacionais, o atual presidente da Petrobrás, fez, tempos atrás, comparação esdrúxula do petróleo com o trigo. Deu explicação simplória, reducionista: quando os preços do trigo sobem no exterior, é necessário reajustar o valor do pão.

A afirmação pode convencer incautos, cidadãos desavisados, consumidores desinformados.

Na realidade esta política de preços, de orientação entreguista, está prejudicando não apenas a revenda constituída por milhares de empresários brasileiros, segmento fundamental de nossa economia, mas, também, milhões de consumidores. A Petrobrás e a economia do país, também são sacrificadas.

Os preços elevados desgastam a imagem da Petrobrás. A quase totalidade da população não sabe que a Companhia recebe menos de 25% do valor pago pelo consumidor, que inclui mais de 50% de tributos. Ocorrem, em todo o país, justos protestos contra esta política, com bloqueios nas estradas, greves de caminhoneiros, cercos às bases de distribuição da Petrobrás. 

Aponto alguns aspectos negativos desta política, que somente favorece as grandes distribuidoras privadas, importadores de derivados e fornecedores estrangeiros, notadamente os norte-americanos. Cerca de 82% das importações brasileiras de diesel são provenientes dos Estados Unidos. Por isto o Corpo Técnico da Petrobrás classifica esta política como “America First”.

Em 2017 foram nada menos de 127 alterações nos preços nas refinarias, desorganizando o mercado, confundindo revendedores e consumidores. As distribuidoras se aproveitam das freqüentes mudanças de preços para aumentar seus lucros, com prejuízos para a revenda.

Esta política, todos sabem, é uma velha aspiração das companhias multinacionais, que desejam globalizar os preços do petróleo, derivados e gás natural, desconsiderando as peculiaridades de cada país; Será razoável submeter os consumidores e a economia brasileira aos preços internacionais, sabidamente voláteis, sensíveis a fatores múltiplos sobre os quais não temos qualquer controle?

Por que preços internacionais, se não temos salários, renda per capita, IDH nivelados aos dos países ricos? O que tem o consumidor brasileiro a ver com as tensões no Oriente Médio, os furacões no Caribe e nos USA, as disputas internas na Arábia Saudita, as bravatas e escaramuças do presidente Trump com o líder norte coreano? Temos, no Brasil, invernos severos, nevascas, temperaturas de até 50 graus negativos? Devemos punir os consumidores brasileiros pelas elevações de preços decorrentes de crescimentos sazonais da demanda?

O Brasil é um grande produtor de petróleo, a custos inferiores aos vigentes no mercado internacional e pode se aproveitar deste fato, dando competitividade à sua economia, beneficiando os consumidores e remunerando, adequadamente, a Petrobrás e demais agentes da cadeia; Preços muito elevados da energia – e o petróleo é a maior fonte de energia primária no Brasil – tiram a competitividade da economia brasileira, já tão sacrificada, por juros extorsivos, pesada carga tributária, graves deficiências de logística dentre outros inconvenientes. Ademais, reduzem a demanda, já impactada negativamente por forte recessão.

Decorrido pouco mais de um ano desta política, insensata e impatriótica, o que vemos é a maciça importação de diesel e gasolina, combinada com o absurdo, ainda maior, de uma ociosidade de mais de 25% no parque de refino nacional; Além disso as exportações de óleo cru dispararam, deixando o país de se beneficiar com o valor agregado proporcionado pelo refino.

No período de janeiro a novembro de 2017, as importações de gasolina e as de diesel explodiram, chegando ao absurdo de mais de 200 milhões de barris, nível jamais alcançado, nem mesmo quando nossa economia apresentava bom desempenho. Esta brincadeira de mau gosto custou ao país, nos últimos doze meses pelo menos uns US$ 8,00 bilhões em importações.  Sendo o revendedor o último elo de uma cadeia que inclui, também, importadores, refinadores, formuladores, transportadores e distribuidoras, ele é, ainda, acusado de ser o vilão desta política, ditada pelos que hoje comandam a Petrobrás. Os dados da ANP mostram que os preços da gasolina aumentaram 9,40% em 2017, quatro vezes mais do que a inflação (2,07% pelo INPC). No GLP, produto de amplo consumo pela população mais pobre, o sacrifício é ainda maior, traduzido em uma majoração superior a 16,30%, já descontada a inflação. A maior majoração dos últimos 15 anos.

É hora de rever esta insensata política, sem prejudicar a Petrobrás – e isto é possível – em benefício de nossa economia.

Autor: Ricardo Maranhão, Engenheiro e Conselheiro da Associação dos Engenheiros da Petrobrás e do Clube de Engenharia.

Nota do editor do blog Debate Geopolítico: pode parecer estranho para alguns que um espaço dedicado aos assuntos provindos do exterior venha a tratar de uma crise interna, mas políticas externas não independem do quadro político interno de uma nação, na verdade se entrelaçam e interdependem. O quadro atual de colapso de abastecimento devido a paralisação advinda dos transportadores rodoviários, fruto de uma greve de caminhoneiros autônomos com locaute dos empresários do ramo de logística rodoviária, provém em última instância da política posta em prática por Michel Temer assim que assenhorou-se no poder, que é a de alinhamento automático com os interesses financeiros de Wall Street e com os desígnios de Washington. É neste contexto que se insere uma política atrelada a flutuação do preço internacional de derivados, que resultou no aumento de 56% no espaço de 12 meses para o óleo diesel, cuja produção interna, já deficitária quando plena, registrou neste mesmo período de tempo ociosidade de 25%, enquanto a importação oriunda dos EUA ganhou 82% do mercado nacional. Ou seja, não refinamos o que podemos em moeda nacional,para importar dos EUA aquilo que consumimos em moeda de referência, jogando os custos da flutuação desta nos ombros do consumidor brasileiro. Este desatino, devo lembrar, iniciou-se com o atual mandatário, que foi alçado ao governo sem apoio popular, do qual, diga-se, muito carece.

Brasil exportará urânio enriquecido para a Argentina

Fonte:Jornal GGN

Pela primeira vez país firma acordo de exportação do material produzido pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB).

O Brasil exportará urânio enriquecido para a Argentina alimentar um reator nuclear na cidade de Lima. O acordo firmado prevê a venda inicial de quatro toneladas de pó de dióxido de urânio produzida pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB) num contrato de US$ 4,5 milhões.

Será a primeira vez que, oficialmente, o Brasil exportará urânio enriquecido. Apesar do acordo ter sido assinado em junho a entrega começará a ser feita apenas no final deste ano, pois o produto precisará passar pela autorização da Coordenação-Geral de Bens Sensíveis do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, do qual a INB está vinculada, e também da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen).

O Brasil é um dos poucos países no mundo que tem tecnologia para o enriquecimento de urânio, ao todo são 12 nações no mundo inteiro, incluindo França, Irã e Estados Unidos. A tecnologia utilizada pela usina da INB, localizada em Resende (RJ) é totalmente nacional, desenvolvida pelo Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo em parceria com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nuclear do Cnen. O contrato com a Argentina não envolve a concessão da tecnologia brasileira, mas há um outro acordo envolvendo os dois países no desenvolvimento do Reator Multipropósito Brasileiro. Brasil e Argentina possuem acordos na área nuclear desde a década de 1960.

Agência Brasil

Brasil exportará urânio enriquecido pela primeira vez 

A empresa brasileira Indústrias Nucleares do Brasil (INB) exportará urânio enriquecido pela primeira vez. A empresa, vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, firmou acordo com a empresa estatal argentina Combustibles Nucleares Argentinos (Conuar), que prevê o envio de quatro toneladas de pó de dióxido de urânio para a carga inicial de abastecimento de um reator nuclear localizado na cidade de Lima, ao norte de Buenos Aires. O contrato, no valor de US$ 4,5 milhões, foi assinado em junho.

Enriquecido na fábrica da INB em Resende (RJ), o produto ainda precisa de autorização da Coordenação-Geral de Bens Sensíveis do ministério e da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) para completar o processo de exportação, o que deve ocorrer até o fim deste ano. As 4 toneladas serão divididas em três lotes, com teores de enriquecimento de 1,9%, 2,6% e 3,1%.

Além do Brasil, o urânio é enriquecido por outros 11 países. A tecnologia usada na unidade da INB em Resende é a de ultracentrifugação para enriquecimento isotópico, desenvolvida pelo Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo em parceria com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, autarquia gerida administrativa e tecnicamente pela Cnen.

Segundo o ministério, a exportação não afeta o abastecimento de combustível das centrais nucleares de Angra dos Reis (RJ). Atualmente, a Usina de Enriquecimento tem seis cascatas de ultracentrífugas em operação e atende a cerca de 40% das necessidades de Angra 1.

O acordo com a Argentina não envolve intercâmbio de conhecimento, uma vez que prevê a entrega de um produto pronto, mas abre essa perspectiva. A empresa estatal argentina Invap participa do desenvolvimento do Reator Multipropósito Brasileiro, e os programas nucleares dos dois países são contemporâneos, iniciados na década de 1960.

Criada em 1988, a INB atua na cadeia produtiva do urânio, da mineração à fabricação do combustível que gera energia elétrica nas usinas nucleares. A empresa pública tem sede no Rio de Janeiro e também está presente nos estados da Bahia, Ceará, Minas Gerais e São Paulo.

O urânio é um mineral com propriedades físicas de emitir partículas radioativas, a radioatividade. Sua principal aplicação comercial é na geração de energia elétrica, como combustível para os reatores nucleares de potência.

Segundo a INB, o Brasil tem a sétima maior reserva geológica de urânio do mundo, o que permite o suprimento das necessidades domésticas no longo prazo e uma possível disponibilização do excedente para exportação. As reservas estão concentradas nos estados da Bahia, do Ceará, Paraná e de Minas Gerais, com cerca de 309 mil toneladas de concentrado de urânio.

A única mina de urânio em operação no Brasil está em Caetité (BA) e tem capacidade de produzir 400 toneladas de concentrado de urânio por ano. Em 2013, a produção mundial de urânio concentrado foi 70.330 toneladas.

 

Radar de Vigilância BRADAR SABER M60

Esta matéria foi redigida originalmente para o site Portal Defesa e publicada na data de 08.09.2014.

Por: César Antônio Ferreira

A Embraer Defesa & Segurança, por meio da sua subsidiária, BRADAR, demonstrou na última mostra BID BRASIL o seu carro – chefe: o radar de vigilância de campo contra incursões de baixa altura BRADAR M60. O radar em questão é desmontável, capaz de ser transportado por veículos off-road leves, caso do Agrale Marruá AM-21 (3/4 ton), pois o peso total do conjunto é pouco maior do que 364 kg, ocupando 15 minutos de trabalho de uma equipe de três especialistas para ser montado. O radar é capaz de ser montado em qualquer tipo de terreno e opera sobre severas condições climáticas, exibindo flexibilidade e robustez.

A importância de dotar o Exército Brasileiro de um radar de vigilância e varredura de alvos aéreos, notadamente incursores de baixa altura, está refletida na recente cadeia de eventos do leste ucraniano, onde a Força Aérea da Ucrânia sofreu baixas exorbitantes entre as suas aeronaves de ataque disponíveis em rampa, devido a insistência em ataques à baixa altura, contra uma força dotada de um respeitável estoque de MANPADS e de canhões de tiro rápido. O radar de vigilância avisa aos artilheiros a direção da ameaça, preparando-os para o combate. Esta é a função do radar SABER M60.

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Antena rotativa do Radar Saber M60, desdobrada no Campo. Foto: internet.

O SABER M60 é um radar 3D, ou seja, é tridimensional, de estado sólido, modular e Pulso Doppler, possui a capacidade de rastreio de até 40 alvos, simultâneos, que por ventura estejam dentro do seu alcance de detecção. O cilindro que representa o seu alcance de detecção compreende um raio de 60 km de distância, com altura de até 5 km. Opera na Banda L (Frequência de 950 MHz a 1450 MHz, com Comprimento de Onda de 23 cm), sendo capaz de distinguir se a ameaça é um vetor de asas fixas (caça – bombardeiro), ou rotativas (helicóptero).

O processamento dos sinais é digital, e a interface do sistema é amigável, baseada que é em arquitetura aberta (Linux), portanto, adaptável às necessidades e requerimentos dos clientes, passível de ser instalado em computadores portáteis, exibindo a notável robustez do software. A transmissão se dá por cabo, ou conexão segura de rádio. Estes dados são enviados, recebidos e trabalhados por um COAAe – Centro de Operações de Artilharia Antiaérea, que é um módulo transportável, equipado com equipamentos de radiocomunicação, comando e controle, interceptação e monitoramento, que permite ao operador uma centralização de dados em vista de facilitar a consciência operacional. O COAAe dispõe de facilidades como telas de LCD, computadores, roteadores e ar-condicionado, entre outros.

Especificações Técnicas

Características físicas

Peso Total: 364,25 kg.

Comprimento Total em Operação: 3,20 m.

Largura Total em Operação: 3,20 m.

Altura Total em Operação: 2,85 m.

Alimentação do Sistema

Bateria: 28V, CC.

Comercial: 90-230V, CA, 50-60 Hz.

Gerador: Customizado (orgânico).

Radar

Alcance: 60 km.

Teto Máximo Aproximado: 5000 m.

Rotação da Antena: 7,5 ou 15 RPM.

Transmissor

Tipo: Estado Sólido; Pulso Doppler.

Frequência:Banda L.

Potência Média: 50 W.

Potência de Pico: 500 W.

Processamento de Sinais

MTI: Digital.

O desenho do apocalipse

Este artigo foi redigido por mim especialmente para o site Plano Brasil, no ano de 2013. É interessante compará-lo com o artigo recente do Dr. Paul Craig Roberts, que trata do mesmo assunto e com perspectiva equivalente.

O desenho do apocalipse

Por César A. Ferreira

Uma boa parte dos cidadãos norte-americanos acredita no apocalipse, assim creem, piamente, pois está escrito na bíblia cristã, e como sabemos, para estes os dinossauros andaram sobre a terra… Ao lado dos Neandertais. Uns poucos, no entanto, acreditam no fim da humanidade, na forma que conhecemos pelo menos, devido ao colapso do petróleo, que levaria ao caos uma sociedade edificada em torno desse recurso mineral. Acontece, que antes do fim do ciclo do petróleo, devido a forma da nossa arquitetura financeira, haveria, segundo a crença de poucos cidadãos norte-americanos, forçosamente um conflito global, visto que a sinergia petróleo-dólar seria abalada, muito antes.

Para entender o motivo deste temor é preciso recuar no tempo, no caso para 1944, quando ao final da Segunda Grande Guerra, os EUA, única potência intocada pela destruição, promove do alto da sua superioridade econômica e industrial, sem par na história humana, aquilo que seria o primeiro acordo negociado da humanidade, mas que de regra não deixava de ser uma imposição ditada pelos fatos, de que seria a moeda nacional dos EUA o meio corrente para transações internacionais, sendo a garantia do valor o lastro em ouro mantido pelos EUA. A relação seria de 35 dólares por onça, sendo tácita a percepção de que os EUA deveriam se abster de uma farra financeira.

Pois o que não deveria foi justamente o que se deu. A guerra do Vietnam exigiu empenhos de tal monta, que ficou óbvio até ao mais parvo dos seres, que os americanos haviam girado a máquina de impressão sem cerimônia alguma. Ao solicitar o repatrio das suas reservas em ouro, mantidas em solo dos EUA, receberam as nações que assim o fizeram um sonoro não. E como todo bom escroque, Richard Nixon anuncia que os EUA desvinculavam a sua moeda do padrão-ouro. Ou seja, da noite para o dia, uma banana para o mundo e um calote geral… No entanto, não ficou só nisso… Os norte-americanos convenceram aos príncipes sauditas a investirem em papéis do tesouro norte-americano. Com isso nasceu a veiculação do papel nacional norte-americano com o óleo de consumo geral da humanidade.

Os EUA obtiveram, assim, uma genial engenharia financeira. Poderiam os americanos colocar para rodar a máquina como quisessem, nunca faltaria recurso, posto que o petróleo, ainda que finito, é vastíssimo. O único perigo para a arquitetura seria o abandono do dólar como moeda de transações correntes, mas, quem o faria? Afinal, os EUA eram o paraíso na terra, Yeap!

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Teste nuclear Licorne. Esta imagem corre o mundo incorretamente como sendo da Tzar Bomb, Imagem: internet.

O mundo rodava e tudo parecia caminhar como um sonho para os norte-americanos, o fim da URSS parecia confirmar o autodesígnio da alma yankee, de que são eles o povo escolhido, os eleitos da nova era, os excepcionais, a perfeição da história e o fim da mesma… Contudo a história, sempre ela, costuma ser cruel para quem se deixa iludir e vaticinar de que ela tenha mesmo um fim. Na medida em que a sociedade americana se enriquecia com sua máquina mágica, a impressora offset, o interesse produtivo parecia ser atrativo, apenas, fora das suas fronteiras e os asiáticos, primeiro os japoneses, depois os sinos, demonstraram que haviam feito a leitura correta daquilo que o mundo sussurrava. Com a abertura de novos polos produtivos, a demanda por commodities aumenta o que acaba por dar alento para as economias dependentes, envoltas por razões estruturais em crises cíclicas, e os reflexos dessa demanda acabam por beneficiar nações de grandes extensões territoriais, que além de detentoras de recursos naturais, possuíam em adjunto, estruturas industriais.

Desenhava-se desta maneira a ressurreição da Rússia, herdeira da URSS, bem como a ascensão da Índia, e do novo status econômico de relativa estabilidade do Brasil. A estratégia chinesa de ser o polo produtivo do consumo norte-americano, como dreno constante de moeda nacional americana para suas fronteiras, por extensão, acabou por beneficiar as demais nações produtoras de matérias primas, que passam a acumular reservas quanto antes às perdiam, em profusão. Consequentemente, algumas delas, como já dito, por possuírem base industrial e de pesquisa, carrearam as suas reservas acumuladas para o desenvolvimento de tecnologia e inovação.

O crescimento de nações em termos de riqueza, por conseguinte, em poder, acaba por refletir na mente norte-americana como um desafio proposto, e neste contexto, é a Rússia o exemplo que não foge às retinas. Detentora de uma base científica de grande valor, ao ressurgir das cinzas ao qual Yeltsin e os saqueadores haviam-na submetido, justamente através de uma ferramenta constitucional que permitia ao chefe do executivo um poder inaudito, como se um Tzar fosse (obra do “democrático” Yeltsin), papel este exercido por Putin, a Rússia ergue-se após a desilusão com o ocidente não de costas para este, e sim de frente. Detentora dos recursos energéticos para manter viva uma esbanjadora Europa Unida, a Rússia de maneira silenciosa, porem determinada, colhe os recursos e moderniza-se, passo a passo, sem ter sobre os ombros o peso de estar presente de forma desafiadora por todo o globo. Não precisa, ela corresponde por quase sexta parte das terras continentais, da Europa à Ásia, portanto, no que tange à corrida de recursos, esta não lhe diz respeito… A postura altiva, no entanto, enfurece a alma yakee, pois não corresponde aquela que se espera de um derrotado, mas sim, de um vencedor.

Por outro lado, a China, criatura que desenvolveu uma notória simbiose econômica com os EUA, não possui assegurada o petróleo que necessita. Não tem os xeiques do petróleo na mão, tampouco a moeda nacional que segue como padrão para transações correntes, ainda que acumule aos montes, a mesma. Por isso perseguem os sinos, de todas as maneiras, assegurar-se da continuidade do fornecimento de óleo, a ponto de oferecer as nações embargadas todos os subterfúgios possíveis, incluindo créditos em sua moeda nacional, e desta maneira agem de forma consciente por enfraquecer o âmago do sistema de manutenção do poder americano: a veiculação petróleo-dólar.

O Iraque havia feito isto antes. Saddam Hussein instituiu que aceitaria apenas a moeda europeia, o Euro, como moeda para saldo de transações. Péssima ideia, pelo menos para quem não tinha sequer Sarin em seus estoques, quanto mais uma arma termonuclear. A China, por sua vez não padece deste mal, pois detém um arsenal nuclear, e mais importante, uma relação sinérgica com a economia dos EUA, da qual se configura como a maior detentora de títulos do tesouro… Os chineses, sempre que encontram uma nação que possa prescindir do dólar propõem que se saldem as trocas comerciais por compensações entre os respectivos bancos centrais, sem o envolvimento de uma moeda de referência, ou com o uso de moeda chinesa, o Renminbi. Por óbvio que os EUA não aceitam essas movimentações como algo inócuo, por ser de fato um ataque celerado ao âmago do seu poder, bem mais perigoso do que os naufrágios de porta-aviões, típicos dos romances de Tom Clancy, poderiam representar. É por isto que vemos, todos os dias, as pressões sobre o Irã. O Irã é pressionado e sofre embargos não por executar um projeto soberano de domínio pleno do ciclo produtivo da energia nuclear, mas por ser um fornecedor independente de petróleo, que aceita transações em uma cesta de moedas, dentre as quais, os reais brasileiros.

Percebe-se, portanto, como se forma o apocalipse. Pode uma nação acostumada ao bem estar de imprimir os seus desejos, e materializá-los apenas em armas, pois não sabe mais fazer outra coisa, deixar o poder mundial escorrer por entre os dedos? Ficará inerte? A lógica avisa que não e o passo natural, dado a conveniência do sistema petróleo-dólar, será o de aumentar a pressão e cortar de vez, eliminar por assim dizer, os fornecedores independentes de petróleo no mundo. É óbvio que a China, caso isso venha se concretizar, terá que se mover… Ainda que se diga, que o Irã não é o único fornecedor independente de petróleo, de que a Venezuela possui reservas ainda não exploradas no Orenoco (petróleo extra-pesado) que superam aquelas dos sauditas, por mais que se tente banhar-se no bom senso, fato é que não se pode contar com a razão quando a loucura, a alucinação, brada na mente de uns poucos que não enxergam outra coisa que o próprio poder, como se ele por si fosse tudo, e a soma de todos os valores; acontece que estes senhores são apenas 1% da população norte-americana, mas, são os alienados e os donos da chave do manicômio. Não há saída…

Ou ela existe, e não a vemos… Profecias, ao contrário da crença popular não precisam se materializar, podem não se cumprir…  Nostradamus, que o diga.

Pantsyr S-1 para o Brasil

Esta matéria foi redigida originalmente para o site Portal Defesa, publicada como destaque em 14/07/2014. De lá para cá tivemos o adiamento da aquisição deste sistema para o ano de 2016, bem como nota do Ministério da Defesa afirmando a manutenção do interesse na aquisição deste meio. A matéria do Portal Defesa permanece no ar e conta com maiores ilustrações, o link é o que segue: Portal Defesa – Pantsyr S1 para o Brasil.

 

Por: César A. Ferreira

O Embaixador da República Federativa do Brasil junto à Federação Russa, Antônio José Valim Guerreiro, anunciou (09/07/2014) que o Brasil irá adquirir o sistema de defesa antiaérea de origem russa Pantsyr S-1. A declaração do referido embaixador, deu-se quando instado pela agência “Interfax” sobre a visita do dignitário da Federação Russa, Vladmir Putin ao Brasil, que deverá ocorrer em breve em função do encontro dos BRICS; encontro este a ser realizado em Fortaleza no dia 14 próximo. Textualmente seguem as declarações do Embaixador Antônio José Valim Guerreiro à Agência Interfax: “A decisão sobre a compra desses sistemas antiaéreos da Rússia já foi tomada (…) o contrato de provisão dessas armas poderia ser assinado já este ano (…) e é provável que o mesmo saia antes de outubro ou novembro”.

 

O Brasil iniciou as negociações em vista da aquisição de baterias russas, notadamente do sistema Pantsyr S-1, em 2012. Para tanto houve o envio de comissões para observar in loco o desempenho deste sistema, contando inclusive com disparo reais, onde se apurou o acerto em todos os ensaios (acertos da ordem de 100%). Devem ser adquiridas três baterias, na forma de 13 veículos lançadores, 6 veículos de apoio, 3 veículos de manutenção, 3 veículos de manutenção eletrônica, 3 veículos de manutenção mecânica, 3 veículos transportadores de peças, 3 unidades de ajuste, um conjunto para equipamentos de teste e um simulador outdoor. Soma-se a aquisição de 288 unidades de mísseis 57E6-E e 37.000 cartuchos de calibre 30mm (30 x 165mm).

Os veículos serão distribuídos entre as três forças singulares: Exército Brasileiro, Força Aérea Brasileira e Marinha do Brasil. Com capacidade de atingir alvos até 22 km de distância e 15 km de altura, este sistema deverá compor o Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro (COMDABRA).

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Pantsyr S1, entregue ao Exército Nacional do Iraque. Foto: internet.

O que é o Sistema Pantsyr S-1?

O sistema de defesa aérea Pantsyr S-1 é um esforço da Federação Russa para prover a defesa crítica, ou aproximada, à suas instalações de importância tática e/ou estratégica, bem como à proteção de baterias de defesa antiaérea/antimíssil de longo alcance S-300, S-400 e futuramente o S-500. A sua capacidade para disparo em movimento também o qualifica para proteção de colunas blindadas em marcha. Devido a sua função de última barreira, possui uma capacidade inequívoca de pronto emprego, caracterizada na utilização do binômio míssil ágil e canhão de alta cadência. Possui 12 mísseis 57E6-E contidos em contêineres cilíndricos em posição para pronto disparo e dois canhões de 30mm. Os mísseis podem ser disparados com intervalos de 4 segundos entre si, sendo efetivos contra alvos da ordem de 1000 m/s (Mach 3, ou mais especificamente, cerca de 3.600 km/h ou 1 km por segundo), já os canhões de 30mm são efetivos contra alvos aéreos e terrestres (dupla função). O sistema é conteirado, ou seja, os contêineres com os mísseis, e os canhões, são apontados para a direção de onde provém a ameaça.

Como sistema o Pantsyr S-1 é autônomo, funcionando como se fosse uma bateria independente por veículo, incorporando neste a capacidade de varredura e detecção primária, detecção secundária, acompanhamento e/ou modo optrônico, seleção de fogo e iluminação de alvos, gerador próprio, estação de comando/comunicação/controle e plataforma de deslocamento. Com tudo isto em um só veículo, não é de se espantar que o tamanho seja grande – enorme melhor dizendo, exigindo uma plataforma 8×8 e apresentando um peso quando pronto para combate da ordem de 34 toneladas. Em contrapartida tem-se a facilidade e rapidez de deslocamento, algo visto como essencial na atual doutrina russa, onde posição fixa, ou a demora em levantar a bateria para rebocá-la de sua posição, é vista pelos doutrinadores como uma sentença de morte para a unidade de defesa antiaérea. Além disto, dado o fato de que a unidade pode receber e transmitir através de enlace de dados, ela pode atuar, dentre outras maneiras, em “silêncio eletrônico”, ou seja, sem emissão de ondas no espectro eletromagnético. Assim, se por acaso a unidade em questão for anulada, ou seja, suprimida pela ação do inimigo, as demais continuam ativas em sua rede de defesa, pois o conceito prevê a maior independência possível de cada viatura de lançamento dentro da disposição em camadas da rede defensiva dos sistemas antiaéreos.

Um breve comentário sobre a disposição “camadas” de um sistema defensivo antiaéreo

Disposição em camadas é um conceito russo para organizar a forma de combater das divisões de defesa antiaéreas das suas forças. Consiste em dispor de maneira concêntrica os sistemas defensivos, com o sistema de longo alcance no centro, protegido pelo de médio e curto alcance, sendo todos eles autopropulsados para rápida mobilidade. As baterias são posicionadas em campo na forma de rede, sem observar simetria, sendo a vigilância exercida por radares de campo, muitos deles operando na faixa VHS do espectro para detecção de alvos stealth, com o intuito de evitar que as baterias facilitem, com as suas emissões, a detecção, rastreamento e ataque, por parte do inimigo, das suas posições. Dessa maneira, o sistema defensivo acaba por aparentar uma disposição que lembra as camadas de uma cebola, onde a camada externa se refere ao alcance máximo dos sistemas de defesa de longo alcance, a seguinte dos de médio e a terceira os sistemas de curto alcance, caso o atacante consiga chegar até o alvo.

 A disposição, todavia, não necessita ser simétrica, podendo ser espalhada pelo campo de acordo com o entendimento do comando, de tal maneira que um atacante pode vir a enfrentar sistemas táticos de alcances médios e/ou de curto alcance e grande agilidade, enquanto esperava estar no limite do sistema de defesa antiaéreo estratégico (de longo alcance). A constante mudança de sítios, mobilidade e assimetria da disposição em campo evita dar ao inimigo a facilidade e o conforto de um modo estereotipado de agir, pois consideram os pensadores russos que uma defesa antiaérea que se torne previsível, sem disciplina de emprego, acaba por se tornar uma presa da força aérea atacante, já que esta tem a grande vantagem de escolher os termos do combate, ou seja, de como e onde combater. O conceito que sustenta a “disposição em camadas”, portanto, é o de apoio mútuo entre os sistemas antiaéreos que o compõem.

No tocante ao sistema Pantsyr S-1, este é considerado um sistema de defesa crítico, devido a sua rapidez de resposta e ao manobrável e ágil míssil 57E6-E. Seria, portanto, um sistema de defesa aproximado dentro do conceito russo de defesa em camadas. No contexto brasileiro será um sistema de defesa de alcance médio, isto devido ao seu alcance-limite, que é da ordem de 22 km.

Nascimento

É quase um lugar comum que o Pantsyr S-1 seja considerado como sucessor do 2K22 Tunguska, impressão que se reforça devido ao emprego conjunto mísseis/canhões. De fato o Pantsyr nasceu da necessidade observada pelos artilheiros soviéticos, de que seria desejável um alcance maior, tanto de detecção como do limite da arma principal do sistema, ou seja, o míssil. Isto é devido à avaliação de que os sistemas críticos deveriam enfrentar ameaças mais intensas, com maior saturação, tornando necessário maior desempenho em todos os quadrantes. Desta maneira, tem-se a arma principal, o míssil 57E6, com o dobro do alcance efetivo do antecessor, o míssil 9M311, bem como de uma altitude efetiva também maior. O tempo de resposta no Pantsyr caiu sensivelmente, sendo da ordem de 4 segundos. O míssil 57E6, por isto, se apresenta como ideal para interceptar e destruir mísseis de cruzeiro, bombas guiadas e até mesmo mísseis anti-radiação, como o ALARM, MAR-1 e o HARM (AGM-88), superando por larga margem os seus antecessores.

Plataformas

Os chassis homologados para uso como plataforma do sistema são de cinco. Destes, quatro sobre rodas e um propulsionado sobre lagartas. Os veículos sobre rodas homologados, são: KAMAZ 6560 (8 x 8), MZKT-7930, BAZ-6909 e MAN-SX/45. No tocante à venda para o Brasil, até o presente momento não há nada além de especulações sobre a plataforma a ser escolhida. O chassi SX-45 (MAN) acaba por despontar como se fosse uma “escolha natural”, devido à presença no Brasil da MAN Latin America (produção local de partes e componentes). O chassi sobre lagartas homologado é o GM-352M1E e porta apenas 8 mísseis, ao contrário dos sistemas montados nos caminhões que conduzem 12 mísseis de pronto emprego.

Dado o fato de que não há uma escolha concreta da plataforma até o presente momento, e que o fabricante do sistema exige homologação da plataforma, o que inclui testes extensos com intuito de verificar a estabilidade do chassi, durante a realização de disparos estáticos e em movimento, as especulações de uso de chassis vários, tais como IVECO e/ou Tatra, para servirem como plataforma dos veículos lançadores, devem ser entendidas antes como manifestações de um desejo expresso por parte de quem realiza a especulação do que uma realidade concreta. Espera-se que, ao anunciar oficialmente a escolha deste sistema, o Ministério da Defesa também anuncie a plataforma escolhida, que pode ser uma das aventadas pela mídia, especializada ou comum.

As armas do sistema

O Pantsyr S-1 combina o uso de mísseis de ação rápida com canhões de alta cadência de tiro. O míssil é o 57E6-E, arma de concepção revolucionária, dado o fato de que dos seus dois únicos estágios apenas o primeiro, o booster, conta com propelente, sendo que a parte seguinte vai em direção ao alvo apenas com o impulso do primeiro estágio, ou seja, prossegue com energia cinética, apenas. A parte que conta com a cabeça de guerra, desprovida de propelente, pode por isso ter um diâmetro diminuto, o que lhe dá a aparência de um dardo e, pelo fato de ser uma arma com alcance curto para os padrões russos, a desaceleração observada é mínima. De uma impulsão até aos 1.300 m/s (4.680 km/h) aos 2.4 segundos de voo, o estágio seguinte do míssil 57E6 desacelera para 900 m/s (3.240 Km/h) ao percorrer 12 km, próximo do limite de alcance da arma – até 18 km em condições ideais – a desaceleração será da ordem de 700 m/s (2.520 km/h), ou seja, conserva energia cinética bastante para próximo do limite de alcance (18km) ser uma arma manobrável e letal. O alcance máximo verificado é de 22km, já com manobrabilidade apenas residual.

O míssil 57E6-E apresenta probabilidade de acerto do alvo entre 70% e 95%, que cresce para 99% quando dois mísseis são lançados. Estas taxas de acerto se mantêm efetivas até o limite de altitude da arma, que é de 15 km. Sob o comando da estação de controle, situado no veículo lançador, o oficial artilheiro pode comandar a autodestruição do míssil, ou desativar a espoleta de fragmentação por proximidade, recurso este utilizado quando o míssil 57E6-E é dirigido contra um alvo terrestre e realizado com o intuito de aumentar os danos possíveis ao alvo por impacto. Ademais, é preciso lembrar que estocado em seus contêineres cilíndricos selados os mísseis 57E6-E exibem validade de 5 anos e quando estocados em depósitos climatizados exibem uma validade de 15 anos.

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Missil 57E6 e o canhão 2A38M. Foto: internet.

A outra arma que compõe o sistema Pantsyr S-1 são os canhões 2A38M. Montados com boa separação entre si, estes canhões de 30 mm, empregando cartuchos de 30 x 165mm traçantes, incendiários e/ou explosivos, capaz de atingir a elevadíssima cadência de 2.500 disparos por minuto cada peça, num total de 5.000 se empregadas ambas ao mesmo tempo. Os tubos são arrefecidos por líquido e a cinta de alimentação comporta até 700 cartuchos por arma. Esta possui dupla função, podendo ser dirigida contra alvos aéreos e terrestres. O alcance dos canhões para alvos aéreos é de 3.000~3.500 metros, e para alvos terrestres cerca de 4.000 metros ou mais. Os canhões oferecem à equipagem da bateria certa possibilidade de autodefesa, se por acaso esta for surpreendida por equipes de combate terrestres inimigas. O peso médio da arma é de cerca de 195 kg, sendo o do cartucho completo de 842 gramas e, do projétil, 389 gramas (HE-I ou High Explosive – Incendiary / Alto Explosivo – Incendiário), com velocidade de boca de aproximadamente 960 m/s.

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Os dois radares do sistema de detecção do Pantsyr: em primeiro plano o radar 1RS2-E, em forma de tambor, atrás o radar 2RL80E, com antena rotativa. Foto: internet.

Sistemas de varredura, acompanhamento, iluminação e sensores passivos

O sistema Pantsyr S-1 conta com radares e uma estação optrônica como suíte de detecção. Os radares do veículo lançador são dois, sendo que um realiza as funções de varredura/vigilância e outro é para acompanhamento/direção de tiro. Existem, hoje, duas opções para o cliente equipar o veículo lançador com o radar de busca e detecção: o modelo 2RL80E e o modelo RLM S0C. Para a função de acompanhamento e de diretor de tiro, o modelo 1RS2-E é o adotado. Além destes sensores eletromagnéticos, o veículo lançador possui uma estação optrônica (ótico-eletrônica), dotada de sensores termais, que permitem a operação de forma independente dos sensores eletromagnéticos, impondo como penalidade, apenas, o controle de um míssil por vez contra um alvo selecionado.

A varredura de campo, entretanto, não é realizada pelos radares embarcados no veículo lançador, apesar disto ser plenamente possível, mas por um radar de vigilância, cuja função é a de vigiar o campo de batalha enquanto as baterias, isto é, os veículos lançadores mantêm a disciplina de “silêncio eletromagnético” (não efetuam emissões eletromagnéticas). Dotado de um alcance maior, os radares de campo oferecem, portanto, o aviso antecipado. Os russos oferecem para exportação o radar de varredura de campo Kasta 2E1/2E2, com alcance de 150 km, capacidade de detecção e acompanhamento simultâneo de até 50 alvos, com 360º de cobertura em qualquer tempo. Este radar foi exportado para a Argélia, dentre outros clientes; todavia, no caso brasileiro, especula-se que para a função de vigilância/varredura de campo seria adotado o radar produzido pela BRADAR – Embraer Defesa e Segurança/Orbisat – SABER M-200, que se encontra neste momento em desenvolvimento e cujo alcance esperado é da ordem de 200 km.

 O radar VNIIRT 2RL80E: radar com grande resistência a CME (contramedidas eletrônicas), PESA – Passive Electronically Scanned Array, ou radar de varredura eletrônica, que possui sua configuração em tela plana, rotativa (360° – 15, ou 30 rpm – rotações por minuto), 3D (tridimensional: azimute, alcance e altura), opera na banda S de forma primária com a possibilidade de escolha de outras frequências (20 – aleatórias). Permite o acompanhamento de 20 alvos, a cobertura de elevações entre 0° e 60°, alcance até 50 km, com os seguintes valores de alcance para Seção Reta Radar (RCS): 2m² (aviões/caças) – 36 km; 1,3m² (helicópteros/helicópteros de ataque) – 32 km; 0,1m² (mísseis de cruzeiro, antirradiação e bombas guiadas) – 16 km (os valores decaem em 10% quando o veículo está em movimento). A flexibilidade reflete-se na possibilidade do oficial artilheiro poder selecionar as escalas, sendo estas de 0°~60° (alcance: 1-30 km); 0°~30° (alcance: 1-50km); 40°~80° (alcance: 1-25km) e 0°~25° (3-80km).

RLM S0C – PESA – “Janus Faced” : radar de varredura eletrônica que apresenta uma disposição frente/costa, para uma cobertura de 360º simultânea (montagem em “Janus”, ou “Jano”. Feito em semelhança ao deus romano de dupla face). Este radar possui em relação ao 2RL80E maior desempenho, e facilita rastreio de mísseis rápidos e com baixa assinatura. Operando em banda S, apresenta a capacidade de detecção de alvos com RCS (Seção Reta Radar) de 2m² a distância de 40 km, monitoração simultânea de 40 alvos, altitude de rastreio de 20 km, velocidade radial da ordem de 30~1200 m/s, azimute de 0°-360°, elevação de 0-60° e varredura de 90° (eletrônica). Possui um carga para a estrutura de 950kg.

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RLM S0C – PESA – “Janus Faced”. Foto: internet.

 O radar diretor de tiro/acompanhamento VNIIRT 1RS2-E: radar PESA (Passive Electronically Scanned Array), Pulse Doppler, responsável por selecionar dentre aquelas detectadas pelo radar de varredura as ameaças de maior poder ofensivo. A capacidade de acompanhamento é de oito alvos e estes são classificados em função do risco, sendo os três mais perigosos à posição defensiva são priorizados para combate (ordem de disparo equivalente ao grau de ameaça). É capaz de dar combate a até quatro bombas guiadas por vez, permitindo disparos contra o mesmo alvo com intervalos de 2 até 4 segundos. Concebido para operar nas bandas X e Ku, o radar iluminador 1RS2-E vetora o míssil 57E6-E por guiagem CLOS – Command to Line of Sight, ou Comando por linha De Visada -, emitindo sinais codificados de maneira contínua até a eliminação da ameaça, sendo 4 o número máximo de mísseis capazes de ser guiados por vez. Os valores de detecção de Seção Reta Radar (RCS) do radar 1RS2-E, de alvos com velocidade até 1.000 m/s, são os que seguem: 2m² (caças/veículos) – 28~24km; 0,1m² (mísseis antirradiação e/ou cruzeiro) – 13~11 km; 0,03m² (bombas guiadas) – 10~7km. O radar 1RS2-E permanece cativo, ou seja, fixo à torre com os mísseis e canhões, sendo apontado com estes para a direção da ameaça. Possui campo operativo de -5° a + 82°.

 Visor termal MATIS LR: para realizar detecção e operação passiva, independente do uso de emissões eletromagnéticas, o Pantsyr S-1 conta com o uso de um sistema eletro-óptico, cujo visor termal é de origem francesa, MATIS-LR, que exibe azimute de +90° e -90°, capacidade de acompanhamento de aeronaves entre 17~30km, mísseis de cruzeiro entre 12~15km e mísseis antirradiação a partir de 12km. Estabilizado e integrado ao radar 1RS2-E, acompanha o alvo de forma independente, ou a partir dos dados fornecidos pelo radar. Em tela de comando fornece imagens de vídeo com a contínua posição do vetor de interceptação (míssil 57E6), por isso necessita estar com perfeito alinhamento no tocante ao eixo ótico/iluminação eletromagnética e isto, portanto, acaba por exigir uma necessidade primária de atenção das equipes de manutenção.

Evolução

O sistema Pantsyr S-1 é plenamente operacional junto às forças armadas russas, entretanto, imbuído no programa de desenvolvimento contínuo dos sistemas de defesa antiaérea da Federação Russa, a empresa KBP Tula efetua o programa de evolução do sistema Pantsyr, denominado como Pantsyr SM. Este sistema agregará uma nova viatura plataforma, calcada na viatura blindada KAMAZ Typhoon, um veículo lançador com a mesma disposição atual do Pantsyr, com radar de varredura, e um segundo veículo lançador, este desprovido do detector de busca e dos canhões de alta cadência, mas tendo o acréscimo de mísseis para pronto uso, totalizando 24 contêineres cilíndricos, sendo 12 de cada lado da torre.

O míssil sofrerá uma adaptação muito simples, dado que será o mesmo 57E6-E em sua essência, todavia dotado de um novo booster, que lhe dará maior aceleração para permitir a interceptação de alvos que exibam velocidades da ordem de 1.800 m/s (6.480 km/h). Hoje, vale lembrar, o míssil 57E6-E está limitado a alvos que apresentem velocidades da ordem de 1.000 m/s (3.600 km/h). O detector principal da bateria deverá ser o RLM S0C – PESA – “Janus Faced”.

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Pantsyr S1 configurado em uma plataforma móvel, homologada, MAN, SX-45. Imagem: KBP Tula.

Pantsyr S-1 para o Brasil

O Pantsyr S-1 não foi, até a presente data, utilizado em situação de combate. O abate de uma aeronave RF-4E Phantom da Força Aérea da Turquia, supostamente ocorrido no litoral sírio, foi de responsabilidade de uma bateria equipada com mísseis Pechora 2M (alcance de 35km, altitude de 18.000 m), segundo as fontes militares sírias. Entretanto, o Pantsyr S-1 foi submetido a testes severos, que atestam com segurança a capacidade combativa deste sistema. Dentre estes testes se destacam dois, feitos na presença de uma delegação militar brasileira, efetuados ambos com sucesso, com a ocorrência da destruição dos alvos, sendo um deles abatido no limiar do alcance do sistema. Os testes em questão foram realizados a pedido do Ministério da Defesa do Brasil, e o foi por uma unidade operativa das forças armadas russas e não por uma equipe do fabricante e, atendendo a um pedido brasileiro, formulado pelo General de Brigada Márcio Roland Heise, os disparos foram realizados dentro do alcance visual. O primeiro deu-se contra um drone, propulsionado por turborreator, que realizava manobras evasivas, em seguida contra um alvo esguio e rápido. O drone foi abatido na distância de 15 km (6.000 metros de altitude). O segundo teste foi ainda mais exigente, pois contra a unidade de tiro de teste foi lançado de outra bateria um míssil, arma de pequeno tamanho, esguia, pequena, com mínima assinatura. A ameaça foi neutralizada na distância de 8,5 km (100 metros de altitude) por um míssil 57E6-E.

 Por ser modular, o Pantsyr S-1 pode proteger instalações físicas de modo fixo, sem sua plataforma móvel, apesar de ser uma forma pouco inteligente em caso de um conflito. Aliás, no tocante a plataforma, o fato de haver a presença no Brasil de uma unidade produtiva de um dos fornecedores com chassi homologado pelo fabricante, KBP Tula, no caso a MAN Latin América, favorece a escolha do chassi SX-45; todavia, caso a escolha recaia sobre exemplares russos, como o BAZ 6909, ou KAMAZ 6860, não seria propriamente uma surpresa dado a qualidade destes veículos.

Outra especulação existente na proposta para o Brasil, está relacionada a escolha do radar de varredura do veículo lançador, e da escolha do radar de vigilância de campo. Quanto ao segundo, a escolha do radar BRADAR SABER M200 é tida como uma aposta segura, por ser um equipamento produzido por uma empresa brasileira e que atende aos requisitos exigidos. Para equipar a viatura de lançamento, a escolha deverá recair entre o 2RL80E e o RLM S0C. Escolhido o radar, deverá ser incorporado um sistema nacional de IFF – Identification Friend Or Foe (Identificação – Amigo ou Inimigo).

 O conceito russo que engloba o Pantsyr S-1 é o SHORAD – Short Range Air Defense, ou defesa de curto alcance e baixa altitude, ou seja, uma defesa crítica, de último recurso. A escolha russa, portanto, passou pela decisão de criar um produto específico para uma ameaça específica, ao contrário do que se vê em algums opções no ocidente, que é a simples adaptação de mísseis concebidos para a arena ar-ar, seja arena BVR (beyond-visual-range, ou além do alcance visual), ou WVR (Within Visual Range, ou dentro alcance visual), para a proteção de unidades terrestres das ameaças aéreas. A princípio parece lógico, pois dá-se em função do aproveitamento de armas existentes, entretanto, os mísseis ar-ar são armas caras, complexas, de manejo difícil e exigente. A solução russa, por outro lado, acaba por impor uma bateria sofisticada, grande e pesada, dado o fato de que ela busca autonomia de geração de energia, mobilidade e detecção, além de uma quantidade de mísseis de pronto uso (12), que possam dar combate contra um ataque de saturação. O vetor, ou seja, o míssil, passa a ser de extrema simplicidade na sua concepção, o que por sua vez se reflete no seu custo de produção, afinal, pouco vai além de propelente, cabeça de guerra e antena receptora para os comandos. Em uma defesa aproximada é recomendável manter o foco no alvo e o número de disparos, via de regra, é elevado, o que impõe a necessidade de um estoque vasto, ou de produzir em larga escala o vetor (míssil). Naturalmente há opções ocidentais mais parecidas com o sistema exposto, como o Crotale francês ou o BAMSE sueco.

 No contexto brasileiro, devido às faixas de classificações adotadas, o Pantsyr S-1 será considerado como uma bateria voltada para proteção de média altura, visto que o alcance limite da arma principal, o míssil 57E6-E, é da ordem de 22 km. Caberá ao sistema a proteção de instalações vitais e de colunas blindadas em progressão, devido à capacidade deste sistema de disparo em marcha. Todavia, como visto antes, o Pantsyr S-1 não é um sistema voltado à média altura, sendo a sua capacidade para cumprir esta missão, marginal. Para cumprir com perfeição a missão de defesa de média altura, é necessária a adoção de um sistema voltado para dar combate contra ameaças situadas nas faixas de 35~45km de alcance e 18.000~25.000m de altitude. Para tanto, será imperativo o desenvolvimento, ou a aquisição de um projeto/produto que atenda a estas faixas de ameaças. Talvez seja esta a principal missão deste sistema no Brasil: abrir as portas para o entendimento, visando o desenvolvimento nacional de sistemas antiaéreos de médio alcance.