Turquia força violação do cessar fogo na Síria

Por: César A. Ferreira

A Turquia, movido pelo desespero frente ao desabar dos seus interesses em território sírio, perdeu todo o pudor possível passou a apoiar, de modo franco, a invasão da Síria a partir do seu território por extremistas da international jihad filiados ao Estado Islâmico. A ação se deu na data de 28 de fevereiro ultimo. Aproximadamente 100 dos combatentes do terror invadiram o território  fronteiriço curdo, especificamente a cidade de Kobane, palco de intensos combates entre 2014/2015, formando uma pinça que visava a cidade pelo norte e sul, com apoio de fogo de artilharia de campanha (155 mm) provindo da Turquia, fornecido, por óbvio, pelo exército turco.

O referido ataque foi sustado pelos defensores, resultando em aproximadamente 70 extremistas mortos, segundo informantes curdos. Apesar de a incursão ter sido dominada, ela ganha importância por ser um ataque de militantes do EI efetuado com explícito apoio turco contra um bastião do YPG/YPJ, grupo armado curdo que conta com apoio dos EUA. A artilharia turca faz com constância fogo contra localidades fronteiriças sírias, caso de Kobane, Tel Abyad e proximidades de Az’ az, portanto, percebe-se, que para ser alvejada uma determinada localidade, o critério único adotado pelos turcos é estar esta mesma localidade em mãos dos combatentes curdos. Todos os demais fatores são secundários.

O apoio da artilharia de campanha turca foi denunciado pelo Chefe do Centro Russo Para Reconciliação de Beligerantes, Tenente-General Sergei Kuralenko, segundo este oficial, a informação do apoio de fogo da artilharia turca os insurgentes provindos da Turquia foi verificada e confirmada através de vários canais, inclusive por “representantes das forças democráticas da Síria”. Segundo outro informante, Redura Khelil, representante curdo para contatos com a imprensa, os defensores curdos “foram capazes de repelir o ataque, sendo os agressores cercados e destruídos”. Não houve citação alguma sobre baixas curdas.

Síria: as próximas horas podem ser cruciais

Por: César A. Ferreira

Com o avanço das forças curdas, após a tomada da base aérea de Menagh, em direção à Az’az, o desespero abateu-se sobre as lideranças turcas: sem cerimônia alguma fizeram fogo de bateria contra as posições curdas e do Exército Árabe da Síria, que respondeu fazendo fogo de contra-bateria.  As ações curdas, após a conquista da Base Aérea de Menagh foram rápidas, dado que de imediato assaltaram Kafr Khashir e dirigem-se, agora, para Kafr Kalbeen, enquanto que ao norte de Az’az, assaltaram Qastal Jindu com o eixo em direção à Salameh. Caso haja inflexão dos eixos de progressão haverá um cerco a cidade fronteiriça de Az’az, importante entroncamento das vias de comunicação entre a Turquia e a Síria, portanto, importante base logística das espoliadas forças do Exército Livre Sírio e da Frente Nusra. A queda de Az’az significaria a eliminação virtual destes dois grupos insurgentes na frente de Aleppo, restando para combater apenas o EI, o qual, diga-se de passagem, foi obrigado a abandonar a Central Termoelétrica de Aleppo Oriental frente ao avanço da Força Tigre, tropa de elite do EAS.

Não deixa de ser sintomático, que hospitais tenham sido atacados, com a culpa, era de se esperar, sendo debitada aos russos. Não fosse o fato de que o pequeno grupamento aéreo da Rússia não ter seu histórico ataques contra a infraestrutura civil da Síria, com a exceção notável dos campos de exploração de petróleo em mãos do EI, poder-se-ia acreditar, no entanto, em meio ao visível estado de aflição histriônica demonstrada pela Turquia, bem como pela associada Arábia Saudita, com a eminente derrota dos grupos jihadistas ao norte de Aleppo, isto aliado ao anunciado aporte de bombardeiros da Força Aérea do Reino em Incirlik, faz com que este escriba tome para si a suspeição, forte, de que a responsabilidade dos ataques aos hospitais deveram recair com maior propriedade sobre as asas da Força Aérea da Turquia, ou dos aliados próximos, USAF e KSAF (Força Aérea do Reino da Arábia Saudita – ing); ademais, é bom lembrar, que a cidade de Aleppo, e adjacências, tivera a sua infraestrutura atacada anteriormente pela coalizão ocidental, caso da estação de captação e tratamento de água, cuja destruição obrigou os moradores a buscarem o recurso diretamente no Eufrates, com o risco de contraírem o bacilo da Cólera, caso venham a ingerir sem dar-se à fervura das águas retiradas do rio.

A exasperação turca dá-se por conta da concretização da agenda curda, pois o avanço curdo possui a intenção explícita de viabilizar um corredor territorial entre Kobane e Sarrin, ou seja, do oeste ao leste. Ainda que o nascimento de um estado curdo na região não faça parte dos planos de Assad para a Síria, dado que este nasceria à custa do Estado Sírio, prevê-se a concessão de uma autonomia ampla, algo que por certo se dará. Isto é entendido por Ancara como um embrião de um processo inexorável, que nas mentes turcas resultará na criação do Curdistão como estado nacional, que levará todo o leste da Turquia. Convenhamos, quando líderes nacionais deixam-se levar em suas mentes por fantasias tenebrosas, em meio ao desabar do seu castelo de cartas na forma das suas ambições territoriais, boas coisas, com certeza, não podem sair. Compreende-se, pois, o aviso emitido hoje, 16 de fevereiro de 2016, de que nas próximas 24 horas a Turquia realizará a invasão territorial da Síria. Basta esperar para ver se não se trata de um blefe.

Blefe, ou não, tomam os russos as suas medidas. Tendo constatado que quase todo o 2º Exército Turco se encontra estacionado junto à fronteira, formando não menos que 18.000 homens, valor de uma Divisão, como tropas operacionais, isto é, sem contar com o efetivo de apoio logístico, apontado para o eixo de Az’az, realizaram os eslavos uma verdadeira ponte aérea através da rota do Mar Cáspio, onde dois dos imensos cargueiros AN-124 foram avistados, descarregando material bélico na Base Aérea de Hmeimeem. Outro meio cuja presença não pode deixar de ser notado é composto pela aeronave SIGINT Tu-214R. Este avião para coleta de dados eletrônicos, de comunicações e de emissões, reflete que o comando russo espera uma mudança brusca do patamar do confronto havido na Síria, de um conflito contra forças insurgentes, portanto irregulares, contra uma força treinada e dependente de coordenação centralizada, portanto, emissora de sinais, comandos, caso de uma força regular, em suma de um Exército Nacional. A aeronave, de maneira elucidativa, não só seguiu a rota do Mar Cáspio, como fez também um desvio, sobrevoando boa parte do território iraquiano, afastando-se ao máximo da fronteira turca, adotando desta forma uma rota previdente contra a possibilidade de uma emboscada área por parte da THK (Força Aérea da Turquia – tur). Ademais, os porta-vozes das forças armadas sírias deixaram bem claro que, caso haja penetração na fronteira, darão combate às forças turcas as quais irão considerar, com razão, como forças invasoras. Vê-se claramente que as próximas horas serão decisivas para o desenrolar do drama de Aleppo. Para os expectadores resta aguardar.

Avanços sírios impõem aos turcos opções desesperadas

Por: César A. Ferreira

O desenrolar das ações do Exército Árabe da Síria ao norte do país, com vigorosa assistência do grupo aéreo russo, retira, uma a uma as opções turcas no tocante à guerra por procuração que move na Síria, com os seu agentes turcomanos e coligados da al-Qaeda, leia-se al-Nusra, Exército Livre Sírio e Estado Islâmico. A queda das cidades de Nublo e Zahran, trazem grandes consequências para as forças insurgentes, afora o contexto simbólico desta vitória, posto que eram cidades perdidas há mais de três anos. As forças insurgentes, mais uma vez, sofreram revezes de monta, onde fez-se decisiva a presença dos ataques aéreos demandados pelo agrupamento russo e pela Força Aérea Árabe da Síria.

Estas cidades, agora firmemente em mãos governamentais, vedam mais um corredor para abastecimento logístico para Aleppo, onde a cada dia que passa se enfraquecem as posições insurgentes frente àquelas do governo reconhecido da Síria. O foco, agora, dá-se no entorno de Azaz, justamente por ser um entroncamento importante para o abastecimento de Aleppo. Comboios turcos são sistematicamente bombardeados nas estradas próximas e caso haja a queda da localidade, restará apenas os corredores de Reyhanli e Idlib. É desnecessário dizer que quanto menores forem as rotas logísticas, mais fácil será a tarefa do poder aéreo russo na região, que é a de estrangular o esforço logístico dos grupos insurgentes na fronteira norte da Síria.

A Turquia vê com o avanço das forças do Exército Árabe da Síria, e dos grupamentos curdos do YPG/YPJ, junto aos entroncamentos viários da fronteira sírio-turca como o golpe mortal na sua propalada “zona de segurança para refugiados”. Além do mais, vê-se obrigada a assistir que contendores com os quais jogava, caso dos EUA e da Rússia, venham agora a abastecer os combatentes curdos, nas franjas fronteiriças, sem que tenha voz ativa contra tal movimento.

No tocante aos EUA, estes cumprem com o seu plano, não divulgado, mas à vista de todos, de fragmentar a Síria, onde um estado curdo teria o seu lugar natural, enquanto os russos passaram a apoiar um aliado interessado em dar combate aos insurgentes que lhe são hostis, cuja sobreposição de interesses ganhou um impulso grande, quando da atitude turca de abater o bombardeiro Su-24M2. Grandes consequências de um gesto impensado, visto que desde tal abate não houve outra coisa que não fosse o acelerar do avanço governamental. O fato de armar, largamente, os combatentes do YPG/YPJ, vir a constituir na concretude de um estado nacional curdo, parece ser nos cálculos russos e sírios como algo aceitável, em vista do combate mortal com os insurgentes, onde a necessidade extrema de infantes torna-se imperiosa.

Para a Turquia, pouco resta…

Dado que agora, existe uma bateria do Sistema S-400, na base aérea de Hmeymim , além de dois elementos de caças Su-35S, equipados com mísseis R-73E, R-27ET, além do novíssimo RVV-SD, restam aos turcos a atitude do confronto aberto com a invasão do território sírio, posto que a guerra por procuração entra em colapso, bem como a sonhada “no fly zone”, algo que de concreto pode-se dizer que existe, mas com as cores russas…

O desespero turco acentua-se, justamente, com a corrida das forças curdas para o oeste. Caso haja o sucesso do YPG/YPJ em liberar Marea, restará à Turquia a ligação logística através de Bab al-Hawa e de Idlib, mas estas, como dito antes, submetidas à interdição aérea russa.  Que não haja enganos, o discurso está pronto: salvar a minoria étnica turca, os “turcomanos” da Síria, contra o “massacre” perpetrado pelos curdos, “facínoras”, coadjuvados pelos odientos russos. Compra quem quiser.

O cenário está montado, portanto, para um confronto de forças convencionais. Entende-se, pois, a retórica saudita, de “estarem prontos” para participar de uma eventual invasão terrestre da Síria, quando se encontram atolados no Iêmen, para dar cabo do “Estado islâmico”. Ora, ora, existem tolos tão tontos assim? A invasão, sabem até os mais parvos, servirá para pavimentar a fragmentação da Síria e garantir, dentre os novos estados a nascer desta quebra, os chamados “Sunistões”, a existência. A questão é: a Síria vale à pena? Vale a ponto de levar o mundo a assistir a um confronto direto entre a OTAN e a Rússia, o que equivale dizer a um confronto nuclear? As respostas estão com o tempo… Um professor rigoroso.

Washington está em pânico por Putin estar a interromper as rotas de suprimento do EI

Este artigo foi publicado originalmente em alemão no site NEO Press. O autor desta matéria é Von Michael Lehner. O texto foi publicado em inglês no site Russia Insider de onde se obteve a tradução para o português, realizada por H. P. Patriota e publicado no grupo “Rússia e Seus Interesses no Contexto Mundial”.

Washington está em pânico por Putin estar a interromper as rotas de suprimento do EI

Durante anos, a aliança OTAN dirigida pelos EUA tem a certeza que os comboios cheios de comida, armas e outros bens, pertencentes aos grupos terroristas EI e Al-Qaeda trafegam através da fronteira sírio-turca.Pois, os ataques aéreos russos maciçamente impedem este serviço, quando não os levou a um impasse.

Quando os taques aéreos russos atingiram a um desses comboios na cidade síria de Azaz, ao noroeste da fronteira sírio – turca, o jornal diário turco Sabah informou da seguinte maneira:

“Pelo menos sete pessoas morreram, 10 ficaram feridas após um aparente ataque aéreo, supostamente realizados por jatos russos, foi alvejado um comboio de ajuda no noroeste da cidade síria de Azaz perto de uma passagem de fronteira com a Turquia na quarta-feira”.

Estranhamente, este incidente não foi destacado pela imprensa ocidental de alta circulação (mídia-empresa). Isto é bastante atípico, considerando que ambos os lados estão atualmente envolvidos em uma guerra de propaganda. Quase parece que os EUA/OTAN (a), não quer chamar a atenção para a localização desta linha de abastecimento restante, ou não (b) é um comboio de ajuda, mas sim uma rota de abastecimento para o EI.

O relato do diário Sabah continua:

“Em declarações ao diário Sabah, Serkan Nergis do Humanitarian Relief Foundation (IHH) disse que a área alvo está localizado a cerca de 5 quilômetros a sudoeste da Öncüpınar Border Crossing. Nergis disse que IHH tem uma unidade de defesa civil em Azaz e ajudaram os moradores para extinguir as chamas dos caminhões. Caminhões provavelmente estavam transportando suprimentos de ajuda, ou materiais comerciais, Nergis acrescentou”.

Independentemente do tipo de mercadorias que foram transportadas, isto confirma que os terroristas na área perto do Oncupinar Border Crossing estão no comando. Este é o lugar onde a linha de abastecimento da Turquia para EI pode ser encontrada. Já em novembro de 2014, a Oncupinar Border Crossing foi mencionada em um artigo publicado pelo Deutsche Welle (DW), que descreveu uma cena com centenas de caminhões à espera na fronteira para entrar em território sírio. Provavelmente com a aprovação de Ancara. O artigo DW a partir de 2014 tem a seguinte redação:

“Todos os dias, caminhões carregados com alimentos, roupas e outros suprimentos atravessam a fronteira da Turquia para a Síria. Não está claro quem está pegando as mercadorias. Os caminhoneiros acreditam que a maior parte da carga vai para a milícia ‘Estado islâmico’. Petróleo, armas e soldados também estão sendo contrabandeados através da fronteira, e os voluntários curdos estão patrulhando a área, em uma tentativa de conter os suprimentos”.

Já no ano passado uma pergunta legítima teria que ser feita: se o plano era destruir, por que os EUA não simplesmente bombardearam a rota, uma vez que são operações que levam abastecimento para dentro da Síria? (porque de fato, nunca foi o plano destruir EI). Especialmente se esses ataques eram considerados menos perigosos e (b), a logística para os atentados foram à direita na área (base aérea turca).

Fazer as perguntas mais óbvias seria suficiente para colocar uma coroa sobre a política de mentiras do Ocidente:

Porque estes comboios não foram parados enquanto eles ainda estavam em território turco?
Por que os condutores não foram detidos e presos na Turquia, e “as fontes para os suprimentos” rastreadas até as suas origens?

Porque eles simplesmente  assim não o queriam?

Ao responder a essas perguntas, ela tem que ser óbvia para todos – mesmo para aqueles que não dão muita atenção – que há de real intenção por trás disso, e que EUA / OTAN propositadamente forneciam suprimentos periodicamente.

É aqui onde a Rússia entra. Todo país que quer lutar ISIS irá fazê-lo atuando contra as  linhas de abastecimento. Esta tem sido uma estratégia militar empregada por séculos. Os bombardeios da Rússia dos caminhões de abastecimento, perto da fronteira (de modo que o menor número de produtos possíveis possam ser descarregados e redistribuídos por outros meios) são lógicos, pois,  caso os suprimentos forem barrados em postos de fronteira controlados, irão acabar todos nas mãos dos terroristas.

Este desenvolvimento não agrada nenhum pouco aos estrategistas de Washington e é provavelmente a razão para a derrubada do caça russo. Enquanto as forças sírias e curdas controlarem a fronteira leste do Eufrates, o corredor Afrin-Jarabulus é o último caminho restante para o abastecimento do EI. O exército sírio também iniciou uma campanha (a partir de Aleppo) e avançou para o leste. Eventualmente eles vão começar a balançar em direção à fronteira sírio-turca no Jarabulus. Mais ou menos ao mesmo tempo, o exército sírio começou sua campanha, a Rússia começou a bombardear na área ao redor Afrin, promontório de Dana, e Azaz, para cortar a rota de abastecimento.

As interações dos ataques aéreos russos, junto a ofensiva do exército sírio no terreno têm o potencial para se livrar do EI. Este é um pesadelo sem paralelo para os planejadores em Washington. Ao Fechar este corredor de oferta, dar-se-ia a completa derrota dos terroristas do EI, Al -Nusra & companhia, por significar a restauração da soberania síria e das estruturas governamentais nesta área. Isto poderia explicar a “atividade” súbita do Ocidente em enviar forças especiais para a Síria, como já mencionado, a razão para a filmagem da derrubada do avião de combate.

Em resumo, torna-se evidente que a “guerra civil” síria nunca foi na realidade uma delas. Ao invés disso, os terroristas foram apoiados pelo Ocidente, desde o início, com o objetivo claro de derrubar o governo de Assad (como eu escrevi em artigos anteriores). Quando confrontados com uma derrota do terrorismo, os patrocinadores deverão jogar todo o seu peso político por trás dos terroristas, não importa o que venha a custar.

Em última análise, esta é a prova de que as ambições hegemônicas dos EUA/Ocidente nesta região foram à razão básica por trás da criação do EI. Nunca houve uma luta contra EI. Era antes o alvo (objetivo), de planejamento, da criação intencional do extremismo islâmico, sob a forma daquilo que agora chamamos de “O Estado Islâmico”.

A escalada continua

Por: César A. Ferreira

Por vezes uma simples declaração pode significar muito, depende, antes, de que a proferiu e de quando o fez. Nesta semana, Jamal Khashoggi afirmou sem meias palavras: “(…) o incidente com o avião russo será repetido, estamos quase em guerra com os russos, apesar de ambas as visitas, reuniões e sorrisos”. Acontece que Jamal Khashoggi não é qualquer um, e simplesmente o chefe da editoria do Al Arab News Channel, uma espécie de “porta – voz informal” da Casa de Saud.  Os delírios de grandeza da Casa de Saud são bem conhecidos, e o objetivo perseguido de tentar fazer a Arábia Saudita ser reconhecida como “potência regional” é facilmente perceptível, por quem estiver disposto para tanto. Todavia, uma sinergia, entre o sultanato acalentado pela vaidade Edogan e sonhos diletos dos sauditas pode se tornar em um catalisador para uma grande confrontação no Oriente Médio, algo impensável até então, quer pelas ações empreendidas, como pelos interesses das potências, que não abraçam um conflito direto.

Neste contexto, a alocação de mais de 1.000 veículos blindados, entre canhões autopropulsados, veículos blindados para transporte de infantes e carros de combate M-60, por parte do governo turco, é algo para se pensar. Afinal, tal concentração de blindados, bem como do necessário contingente de infantaria que os acompanha, remete a uma possibilidade de rompimento ao norte de Latakia, onde as forças governamentais sírias estão em progressão, e mesmo quanto ao posto do contingente militar russo disposto na Síria, localizados a meros 48 km da fronteira, no antigo Aeroporto Internacional Bassel Al-Assad, sede dos destacamentos aéreos russos e onde se encontra a bateria AAA do sistema S-400 “Triumph”. Um contato direto, um ataque com tamanha profundidade e com um choque entre tropas governamentais equivaleria a uma declaração de guerra; guerra que se daria entre estados nacionais, entre eles um estado nacional nuclearizado e outro associado ao Tratado do Atlântico Norte. Além disso, talvez como resposta a ação russa de protelar as vistorias em caminhões provenientes da Turquia em suas fronteiras, a Turquia passou a bloquear a passagens dos navios russos nos estreitos, alegando motivos de toda ordem, de vistorias fitossanitárias às necessidades de tráfego prioritário de embarcações militares turcas. Desnecessário dizer que tais “problemas” não afetam embarcações de outras bandeiras. Além disto, tem-se o anúncio feito por Ancara de que os seus submarinos (IKL-209 Class) estariam a acossar o Cruzador Lança-Mísseis “Moskva” (enviados o “Dolunay”, IKL 209-1200 e o “Burakreys” IKL-209-1400). Não é preciso ter uma mente paranoica para entender que qualquer incidente com este vaso, capitaneia da Frota do Mar Negro, seria tomado como um ato de hostilidade declarada, guerra.

Moscou, por sua vez, também elabora ações que deixam Ancara com nervos à “flor da pele”. Apesar de ter sido anunciado como um gesto advindo do incidente com o SU-24M, a aproximação mais séria entre os curdos sírios com o governo russo é algo que vem sendo ensaiado desde outubro deste corrente ano.  Ancara teme, com razão, o aumento de patamar dos combatentes curdos com envio de armas da Rússia e os eventos recentes, com certeza, alarmam os turcos. Basta ver a declaração recente do porta-voz da presidência da Federação Russa, Dmitry Peskov, na qual afirma que a combatividade das milícias curdas era em muito superior àquelas do “Exército Livre Sírio”, no tocante ao combate ao Estado Islâmico. Disse Peskov: “(…) a milícia curda, na verdade, é muito mais eficaz em termos de combate no norte do Iraque. São bem mais eficazes na luta contra o EI. Muito mais fortes e realistas na luta contra o EI do que o efêmero Exército Livre Sírio”. Pouco importa para os dignitários sírios que as declarações posteriores de Peskov advogassem a favor da integridade territorial de todas as nações da região, pois sabem mais do que ninguém que os curdos, minoria importante da população turca (25 ~ 35%, aproximadamente), alimentam um desejo confesso de se abrigarem em um Estado Nacional. Temem os turcos, que os russos comecem a fornecer em profusão os combatentes curdos, armas portáteis sofisticadas, tais como MANPADS 9K38 (Igla), ou 9K338 (Igla-S), bem como de  mísseis anti-carro 9M133 Kornet-E.

De fato a coordenação entre o YPG, comitê das Unidades de Proteção Popular Curda, e os destacamentos russos na Síria vão de “vento em popa”. Após a ofensiva aérea russa contra pontos fortes islamitas em Deir Jamal, os milicianos curdos lançaram uma ofensiva maciça contra os “moderados” pró-turcos do Exército Livre Sírio nos assentamentos de Maryamayn, Maliki e Zivara, todas as localidades situadas ao norte da cidade de Aleppo. Não existe dúvida na coordenação entre os elementos combativos curdos e as forças russas, dado que estas apoiaram as primeiras com helicópteros de ataque Mi-24P, o que exige um grau de coordenação afinado. Esta ação foi decisiva para a tomada de Tel Abyad, cidade habitada por turcomanos leais à Ancara, e o alvo da ofensiva do YPG é a localidade de Azaz, importante ponto da fronteira, por onde os comboios de abastecimento de armas trafegam entre a Turquia e a Síria ocupada, bem como o retorno dos caminhões cisternas, estes com petróleo contrabandeado pelo Estado Islâmico.

Shaairat
Base aérea de Shaairat, ou Shayrat. Foto: internet.

Aliado aos desenvolvimentos discutidos está a movimentação russa para ampliar a sua presença em solo sírio, visando ocupar a vasta base aérea de Shaairat, ou Shayrat como é mais conhecida, localizada a 25 km do sudoeste da cidade de Homs. A base aérea é ampla, possui abrigos de concreto reforçado para aeronaves (45), pistas com mais de 3 km de extensão  e dista pouco das linhas do Estado Islâmico, favorecendo em especial as surtidas para a região de Palmyra (principalmente para os helicópteros). Sabe-se que a Rússia reforma a pista auxiliar e especula-se que a dotação do efetivo aéreo russo na Síria vá subir para algo entre 100 e 150 aeronaves. Foi acusada a presença, desde o último dia 6,  das baterias do 5º grupo de artilharia do 120ª Brigada de Artilharia de Campo do Exército da Federação Russa. É certo que devido a localização da base, que um efetivo de proteção reforçado deverá ser formado para prover a segurança da base, caso venha a abrigar um destacamento de tamanha importância, como o que se projeta. Acredita, que algo entre 1.500 e 7.000 militares sejam alocados nesta base, isto, sem incluir os efetivos sírios.

Por fim, há de se destacar as imagens divulgadas dos bombardeiros russos SU-34, armados de mísseis ar-ar, no caso um par de mísseis IR, R-73-E, e de outro par de Mísseis R-27, com cabeça eletromagnética (guiamento semi-ativo). Antes, dado o congestionamento havido sobre o espaço aéreo sírio, os russos com o fito de não mostrarem-se hostis, abriram mão de armas de autodefesa dado que o Estado Islâmico e demais grupos não possuíam elementos aéreos. Observa-se a mudança como mais um sinal do escalar do conflito civil sírio devido ao seu potencial de causar incidentes.