Soleimani ferido! (Não confirmado)

Por: César A. Ferreira

Notícias ainda não confirmadas, advindas de membros de organizações e ativistas de mídia afeitos às forças de  oposição ao regime da República Árabe da Síria, relatam que o eminente Major General do Corpo da Guardas Revolucionária Islâmica (Irã), Qasem Soleimani, comandante em campo da Força Quds, teria sido ferido na proximidade da fronteira síria-jordaniana. Assim reporta o site South Front.

O evento que teria implicado em ferimentos na pessoa de Soleimani aponta a localidade de Daraa, e consistia em uma ação repressiva contra a entidade Hayat Tahrir al-Sham, que vem a ser o batismo atual da conhecidíssima Jabhat al-Nusra (mudam de nome repetidamente para serem considerados como “rebeldes moderados” como se esta ficção enganasse alguém fora do Departamento de Estado). A al-Nusra, como se sabe, é a entidade afiliada à Al-Qaeda na Síria.

A Força Quds, unidade especial do IRGC1, desdobrou-se para Daraa, juntamente com elementos das forças armadas sírias com o intuito de estabilizar a região daquela capital provincial.

A notícia, que carece de confirmação, assume importância devido ao carisma e capacidade de liderança de Soleimani, cuja perda seria um golpe difícil de ser absorvido com facilidade.

[1]: ingles –   Islamic Revolutionary Guard Corps.

 

 

O Iêmen e o “Game Of Thrones” da Arábia

Fonte: Katehon – 23.08.2016 –  Arábia Saudita

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

A Arábia Saudita sofre, no momento,  uma derrota esmagadora no Iêmen. O conflito parece ser apenas pouco promissor para eles. Os Houthis e as tropas leais ao ex-presidente Saleh seguram firmemente o Iêmen do Norte e estão a conduzir operações militares na província de Najran em pleno território saudita. O Iêmen do Sul está ocupado e controlado por um entrelaçar de tropas da coligação Arábia Saudita/EAU, Península Árabe al-Qaeda, ISIS, e separatistas do sul do Iêmen. Recentemente, representantes do movimento Houthi anunciaram a criação de um governo que irá incluir membros do seu próprio partido “Ansar Allah”, o partido “Congresso Geral do Povo” do ex-presidente Ali Abdullah Saleh, bem como membros de outros partidos e organizações. Ao mesmo tempo, tentativas similares por parte dos sauditas para criar algum tipo de governo interino em Aden foram completamente fracassadas. O presidente Hadi, apoiado pelos sauditas e seus aliados, e seu governo são baseadas em Riyadh (Riad). Em Najran, na região de fronteira com o Iêmen, tribos locais árabes lançaram uma rebelião contra as autoridades oficiais da Arábia Saudita.

Recordemos que 2015 foi marcado pela invasão em larga escala da coalizão Árabe liderada pelo sauditas no Iêmen. Além dos sauditas, os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Egito, Marrocos, Jordânia, Kuwait e Paquistão têm participado nesta guerra contra o Iêmen. Este último se juntou apenas formalmente a coalizão, mas não tem envolvimento real no conflito. O principal impacto da guerra é suportado pela Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrein.

Ao mesmo tempo, a Arábia Saudita também foi derrotada na Síria. Ela não conseguiu derrubar Bashar Al – Assad e desde a reorientação da Turquia em relação à Rússia e o Irã, a posição da Arábia Saudita tornou-se mais precária. O chamado grupo de oposição sírio em Riyadh foi em grande parte controlado pelos turcos. A alavancagem dos sauditas sobre o processo da Síria em Riyadh está ficando menor. A realização de duas campanhas militares de uma só vez – a guerra aberta no Iêmen e a guerra por procuração na Síria –  está cada vez mais difícil. Este é o entendimento por aliados próximos dos sauditas, caso dos Estados Unidos. Assim, os EUA reconhecem a futilidade da campanha militar no Iêmen, como foi noticiado que os Estados Unidos devem retirar o seu grupo de planejamento do país que forneceu a  inteligência necessária para os sauditas. O grupo agora tem sido baseado no Bahrein.

A intervenção no Iêmen e a guerra na Síria são largamente projetos de uma disputa (pelo menos algumas fontes estão tentando apresentá-las desta forma). Deve ser entendido que a Arábia Unido enfrenta agora uma luta feroz entre suas elites. O rei reinante Salman está gravemente doente. Após a sua morte, deverá ser passado o poder para os membros da segunda geração da dinastia saudita. É mais provável que o príncipe Mohammed ibn Salman (Ministro da Defesa) e príncipe Mohammed Ibn Nayef Al Saud deverão confrontar-se em uma luta pelo poder no futuro próximo.

Mohammed Ibn Nayef é conhecido como sendo aquele mais influente dentre os membros mais intimamente ligados aos EUA na elite saudita. A aventura síria é considerada um projeto pelo seu grupo que coordena estreitamente as suas atividades com os Estados Unidos. Em sua juventude, Ibn Naif estudou nos EUA e até mesmo treinos em cursos especiais da FBR.. De acordo com as memórias de ex-funcionários da CIA, o príncipe sempre foi leal para com  os EUA e ativamente cooperou com as agências de inteligência dos EUA . Os EUA percebem-no como o candidato mais desejável para o trono saudita, embora estejam preocupados com a sua saúde.

Por sua vez, Mohammed ibn Salman, que tem apenas 31 anos de idade, é bastante ambicioso e procura a todo o custo a assumir o trono de seu pai. Alguns analistas ainda preveem um golpe suave após a morte do rei Salman dado que o seu filho é o segundo na linha de sucessão ao trono após seu tio Muhammad ibn Naif. Para os EUA, ele é um jogador muito novo. A guerra no Iêmen foi uma iniciativa deste Salman. Com a ajuda de uma guerra vitoriosa, ele procura aumentar seu próprio prestígio e status, mas calculou mal.

Assim, existem dois grupos opostos na Arábia Saudita: uma é completamente pró-americana; o outro é bastante agressivo e expansionista, mas sem apoio suficiente por parte dos Estados Unidos, cujo projeto e iniciativa política externa deverá falhar primeiramente na determinada vontade quem ganhar este presente árabe “Game of Thrones”.

Mohammed ibn Salman visitou periodicamente Rússia, aparentemente em busca de apoio do lado russo. Recentemente, o representante especial do presidente russo para o Oriente Médio e África, o  Vice – Ministro russo das Relações Exteriores Mikhail Bogdanov, reuniu-se com ele. Estes contatos acabam por explicar a crescente importância da Rússia no Oriente Médio tendo como pano de fundo a operação bem sucedida e consistente na Síria. A Rússia também é aguardada no Iêmen. O ex-presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh afirmou ontem que a Rússia está pronta para guarnecer portos e bases oferecidos para o estacionamento de soldados russos. Controlar o Iêmen significa ter controle sobre a mais importante artéria de transporte: o caminho do Oceano Índico e do Golfo Pérsico para o Mar Vermelho e Mediterrâneo.

A Rússia não está, naturalmente, interessada em uma vitória da Arábia Saudita no Iêmen. E isso é impossível. No entanto, existe a possibilidade de que a Rússia venha a poder ajudar a coalizão  da Arábia Saudita a alcançar uma “derrota honrosa”, iniciar o processo de paz, e, assim, permitir que Muhammad ibn Salman venha a sair da sua aventura no Iêmen com uma perda mínima de face (prestígio pessoal). Por outro lado, as ações da Rússia na Síria podem minar a posição daqueles que se opõem a ele. Enquanto isso, o Iêmen ver-se-á livre da influência e da ocupação das forças sauditas.

 

O conflito sírio segue em sua brutalidade sem fim

Por: César A. Ferreira

O conflito sírio segue sem perspectiva alguma de chegar ao seu final, em que pese as retomadas de territórios por parte das armas nacionais sírias, que advém, porém, sempre ao custo de perdas, algo sensível em um conflito onde a infantaria é a força primordial, a qual, diga-se, não consegue se recompletar no nível adequado à saúde das formações. Um problema antigo e que apenas faz valer ainda mais a coragem dos contingentes sírios, costumeiramente postos à prova.

É inegável o fato, por muitos já observado, de que a insurgência motivadora do conflito é uma obra de interesses escusos de grandes potências, ocidentais por óbvio, sendo as forças jihadistas apenas os combatentes por procuração. O pudor, no entanto, perdeu-se a muito, tanto que o próprio Wall Street Journal informou a presença ao norte do território sírio de 250 soldados do US ARMY, declaradamente com a função de operacionalizar uma zona de segurança: (…) “will oversee the implementation of a safe-zone in the northern countryside”, em português, implementar uma zona de segurança em uma zona rural ao norte. Resta saber, apenas, que zona de segurança é essa, para quê, ou para quem, em vista do conflito que rasga a Síria… Não seria melhor apoiar o governo laico da Síria, em vista de ser o governo constituído aquele que realmente combate e obtém vitórias contra os jihadistas do Estado Islâmico? A resposta é óbvia e não precisa ser dita, afinal o mundo girou e a Frente Nusra, braço armado da Al-Qaeda no levante, é reconhecida por ser municiada e equipada pela CIA, bem como pela Casa de Saud; o mundo dá voltas, mas nada muda.

A guerra prossegue, todavia. Duas divisões do Exército Árabe da Síria, a 11ª e a 18ª, pressionam os jihadistas no eixo de Al-Bardeh, travando combates iniciados sábado último em Al-Qaryatayn. Outras formações sírias avançam no intuito de capturar as elevações de Baridah, proteção necessária para o avanço em direção aos campos de gás de Arak, bem como a estação de bombeio de gás T3.  Na madrugada do dia 24, na cidade de Aleppo, mais precisamente na parte sul da cidade, no bairro suburbano de Al-Assad, verificou-se provindo das edificações do distrito de Al-Rashiddeen o maior ataque direto já visto em meses, isto se deu exatamente às 03:00. O vigoroso ataque foi repelido com violentas baixas. As formações dos atacantes respondiam pelas bandeiras dos grupos extremistas Frente Al-Nusra, Jaish Al-Mujahideen, Ahrar Al-Sham, ELS-Exército Livre Sírio (ing. Free Syrian Army-FSA), Jabhat Al-Shamiya, e Nouriddeen Al-Zinki. Os extremistas foram “convidados” para uma emboscada ao atacar uma posição aparentemente débil do Exército Árabe da Síria. O ardil foi completado por uma chuva de morteiros na linha de avanço rebelde, que resultou em mais de 100 casualidades. A maioria dos mortos pertenciam ao grupo Nouriddeen Al-Zinki (cerca de 25). Todos estes grupos, segundo a CIA, são formados por muçulmanos honrados, merecedores das melhores armas que o mundo ocidental puder conceber…

Enquanto isso, segue o apoio russo ao governo sírio. A cidade antiga de Palmyra foi declarada livre de minas explosivas, totalmente desminada pelos sapadores russos. É preciso lembrar que a ofensiva em direção à cidade histórica foi efetuada com suporte dos helicópteros de ataque russos, com todos os modelos presentes realizando missões (Mi-24P, Mi-35M, Mi-28N e Ka-52). Não se pode deixar de notar o contraste imenso entre as intervenções norte-americanas e russas. Enquanto os primeiros se contorcem para justificar o apoio dado a extremistas, explicitado no ridículo rótulo de “rebelde moderado”, como se fosse possível a rebeldia compor-se de moderação, os segundos simplesmente apoiam um governo constituído, reconhecido diplomaticamente. E lá estão a convite.

Notícias da guerra síria

Por: César A. Ferreira

De acordo com o divulgado por vários correspondentes que se dedicam à cobrir a guerra síria, podemos nesta data, 15.03.2016, traçar o seguinte panorama:

Contra ataque da Jabah al-Nusra contido em Hama.

O Exército Árabe da Síria conquistou uma vitória retumbante ao deter em campo um ataque do grupo filiado a Al-Qaeda, Jabah Al-Nusra, que tinha como eixo de progressão as aldeias libertadas de Al – Rumliyah e Al – Madajin. O grupo extremista realizou várias ondas de ataque, que foram detidas a toda volta. As forças responsáveis por mais este revés imposto aos extremistas foram a 47º Brigada Mecanizada, parte da 11ª Divisão Blindada (Carros de Combate), do Exército Árabe da Síria, em conjunto com elementos da Força de Defesa Nacional. Informações provindas do setor de comunicação das Forças Armadas Sírias não informam com precisão a contagem de corpos, mas se sabe que os números de extremistas mortos sobem às dezenas. O apoio aéreo fornecido, que foi vital para vitória, esteve a cargo da Força Aérea Árabe da Síria.

Combates intensos no caminho para Palmyra.

As forças governamentais sírias avançam céleres em direção à Palmyra, cidade de inegável importância estratégica nesta guerra. O avanço configura-se como uma pinça, com dois braços, estando o braço norte sob-responsabilidade da 67ª Brigada Mecanizada, componente da 18ª Divisão blindada do Exército Árabe da Síria. Esta força avança em direção da 550ª Brigada de infantaria, enfrentando diuturnamente encarniçados combates contra os extremistas do Estado Islâmico, o que impôs diversas baixas entre o pessoal combatente.

Na vertente sudoeste, a afamada Força Tigre, coadjuvada por elementos da Força de Defesa Nacional, unidade Falcões do Deserto e pela unidade para-militar iraquiana Brigada Iman Al-Ali, irrompem em direção à cidade em combates contínuos contra as forças do Estado Islãmico, impondo a estes a necessidade de retroagirem. Os elementos combativos do EI recuaram em direção à localidade de Al-Dawah, todavia, neste vilarejo os extremistas lograram obter uma posição defensiva com grande sucesso, frustrando os ataques das forças sírias combinadas. Todavia este insucesso não foi suficiente para abater as forças atacantes, que assumiram a colina 853, na área de Jabal Hayyal, cujo controle se encontra quase todo em poder das forças governamentais, estas, por sinal, aproximam-se da Villa Real, onde se encontra um amplo campo de treinamento do EI, distando desta localidade, no momento, três quilômetros.

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General Sírio MajorIssam Zahreddine, herói da resistência em Deir Ez Zoir. Imagem: internet.

Avanço no eixo Deir Ezzor

O front de Deir Ezzor exibiu movimentações intensas, confrontos continuados e selvagens. As forças sírias que combatem neste front são: 104ª Brigada Aerotransportada, 137ª Brigada de Infantaria, parte integrante da 17ª Divisão de Reserva da Força de Defesa Nacional, além de combatentes da tribo Shaytat (confissão sunita).

Violentos combates resultaram na captura das elevações de Thardeh, que se situa a meio caminho entre a localidade de Mayadin e Deir Ezzor, ademais, a elevação domina o trajeto logístico em direção à Deir Ezzor, via arterial necessária ao Estado Islâmico para o abastecimento de munição, armas e víveres. O eixo de ataque das forças sírias, agora, visa o campo petrolífero de Thayyem, cuja perda imporá uma queda drástica de receita ao EI.

Os avanços relatados, principalmente a captura das elevações de Thardeh, cuja posição inviabiliza o corredor logístico do Estado Islâmico, deverão reduzir a pressão sobre os resistentes na Base Aérea de Deir Ezzor, onde forças sírias cercadas na referida base aérea e bairros adjacentes da cidade, resistem a anos ao assédio do Estado Islâmico. A base é essencial, visto que por ela chegam víveres e munições lançados de paraquedas. Esta resistência, heroica, diga-se, em muito se deve a liderança do General Sírio MajorIssam Zahreddine, que manteve o moral de civis e combatentes em um padrão absurdamente elevado nestes longo tempo de cerco (dois anos).

Morto o Ministro da Guerra do Estado Islâmico

Por: César A. Ferreira

O grupo insurgente Estado Islâmico sofreu nesta última terça – feira, dia 05, um golpe devastador no seu comando, resultado de um ataque aéreo da Força Aérea Iraquiana, que resultou na morte daquele que responde pelo posto equivalente ao de Ministro da Guerra dentro do grupo terrorista, Samer Mohammad Matloub Hussein al Mahlawi. O êxito se deu quando da realização de um raide aéreo contra uma base militar do EI identificada na cidade de Barwanah, ou Bervanah, localizada a 200 km ao noroeste de Bagda,  na província de Anbar, Iraque.  Al-Mahlawi foi membro da Al-Qaeda antes de aderir ao EI, sendo um dos lugares-tenente do falecido Abu Musab al Zarqawi.

Neste ataque, assessores próximos também foram mortos, três deles.  Este ataque de sucesso não é o primeiro das armas iraquianas contra o comando do EI. Antes, em 26 de dezembro último (2015), as forças iraquianas relataram a morte do chefe de treinamento militar de Ramadi e Fahllujah, Sa’ad al-Abidi, apelidado de  Sa’ad al Khaleda. Este membro sênior do EI foi alcançado e morto na localidade de Al-Khaledyia, 23 Km ao norte de Ramadi. Além disto, as forças iraquianas, na forma do recomposto Exército Nacional do Iraque, forças tribais recrutadas ad-hoc (forças de mobilização popular), realizaram uma ofensiva em dois eixos, uma com o objetivo a Barwanah e a segunda tendo Hadithah como alvo. Até o presente momento a contagem de corpos aponta 205 terroristas do Estado Islâmicos mortos.

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Soldados iraquianos comemoram vitória sobre o EI. Foto: internet.

Outras perdas do Estado Islâmico também foram relatadas, tal como a morte do especialista em explosivos Habibullah Afghani, quando preparava com 19 ajudantes a colocação de bombas dissimuladas em carros. A emboscada se deu na cidade ocupada de Mosul, mais precisamente em Badush, distrito leste da cidade. Todos foram mortos.  Outra dezena de terroristas foram mortos, quando da tomada surpresa do principal hospital da cidade de Ramadi (110 km ao oeste de Bagdá).

Até o presente momento não foi relatado qual o vetor aéreo utilizado para a realização destes ataques. Sabe-se que a Força Aérea Iraquiana faz uso extenso dos helicópteros de ataque Mi-28N, Mi-35M e, Su-25. A FAIr encomendou e recebeu, com longo atraso, vetores F-16C, todavia, não se tem dado publicidade das operações efetuadas com tais vetores.

Executar Al-Nimir foi um movimento esperto dos Sauditas

Autor: Moon Of Alabama.  Tradutor não especificado.

Fonte: Oriente Mídia. 03.01.2016.

O governo saudita executou 47 prisioneiros de muito tempo, condenados à morte por prática de ações terroristas e insurgência. Do ponto de vista dos sauditas, foi movimento político esperto. Os sauditas enfrentam dificuldades na guerra que movem contra o Iêmen. Depois de nove meses de bombardeio infernal, não se vê nem sinal de qualquer ‘vitória’ saudita possível, nem de que, tão cedo, consigam reinstalar em Sanaa o governo cliente dos sauditas que lá havia, e já não há. Enquanto isso, as forças do Iêmen atacam (vídeo) sem parar, uma cidade saudita depois da outra. O projeto dos sauditas de fazer “mudança de regime” com participação de jihadistas salafistas no Iraque e na Síria, também vai de mal a pior. Os baixos preços do petróleo já obrigaram o governo saudita a impor impostos à população. Impostos e mais impostos nunca geraram popularidade para governo algum. Para distrair a atenção dos cidadãos, os sauditas decidiram livrar-se de um grupo de prisioneiros e usar as execuções como meio para recuperar alguma “legitimidade”. Muitos dos 47 executados eram realmente tipos associados à al-Qaeda, que há dez anos mataram e explodiram prédios na Arábia Saudita e muito fizeram tentando derrubar o governo saudita. Com as recentes manifestações anti-sauditas feitas pelo Estado Islâmico e al-Qaeda, cresceu o risco real de levantes na prisões, ou de que alguma ação com reféns venha a exigir a libertação de prisioneiros.

Só quatro dos executados eram xiitas. Um desses era o conhecido pregador e agitador xiita Nimr Baqr al-Nimr, da maioria xiita da província oriental de Qatif, na Arábia Saudita.

Al-Nimr havia convocado a juventude na Arábia Saudita e no Bahrain a levantar-se contra o governo. Pregou a derrubada não apenas dos governos tiranos de Arábia Saudita e Bahrain, mas também, do governo do presidente Assad na Síria. Não era submisso ao Irã, mas defendia a modalidade iraniana de governo. Al-Nimr se dizia contra a violência, mas várias das manifestações convocadas por ele terminaram com manifestantes e policiais mortos. Quase inacreditável que os sauditas o tivessem deixado livre para pregar por tanto tempo. Qualquer clérigo sunita na Arábia Saudita teria sido preso e morto por conversa muito menos revolucionária que a dele.

Alguns idiotas, como Keneth Roth do “Observatório de Direitos Humanos”, disse que al-Nimr desejava um estado democrático:

Kenneth Roth @KenRoth:

O crime de Sheikh Nimr: liderar protestos pacíficos a favor da democracia saudita, igualdade para os xiitas”.

Perfeita imbecilidade. Em 2008, um diplomata dos EUA falou com al-Nimr. Telegrama que se pode ler no site Wikileaks e que resume aquela conversa:

Al-Nimr descreve sua atitude e de al-Mudarrasi em relação à governança islamista como algo entre “wilayet al-faqih,” quando um país é liderado por um único líder religioso, e “shura al-fuqaha,” quando um conselho de líderes religiosos deve guiar o Estado. Al-Nimr, que dirigiu estudos religiosos por aproximadamente dez anos em Teerã, e por “uns poucos anos” na Síria, disse que toda e qualquer governança deve ser conduzida mediante consultas, mas a quantidade de poder oficial a ser entregue a uma determinada autoridade governante deve ser determinada a partir da qualidade relativa dos líderes religiosos e da situação política no momento.

Sistema liderado exclusivamente por clérigos ou líderes religiosos não é democracia. Dessa entrevista se pode extrair também que al-Nimr não tinha, na verdade, ideia clara sobre o que realmente queria. O que parecia estar resolvido é que queria “estar sempre com o povo, nunca com o governo”, independente de quem governasse ou do que estivesse certo ou errado.

A paciência dos sauditas esgotou-se quando, em junho de 2012, al-Nimr desrespeitou a morte do ex-ministro do Interior e príncipe coroado Nayef bin Abdul-Aziz Al Saud:

Disse que “o povo deve regozijar-se com a morte [de Nayef]” e que “será comido por vermes e sofrerá no túmulo os tormentos do Inferno”.

Foi demais. Al-Nimr foi preso e condenado à morte.

Houve preocupação em torno da possibilidade de a execução de al-Nimr aumentar as tensões entre sunitas e xiitas. Vários governos e a ONU alertaram que a execução faria aumentar as disputas sectárias.

Pois, então? Aí é que está!

A legitimidade do governo saudita depende de abundância de dinheiro e de aparecer como wabbabita sectário “guardião da fé”. Elevar a barra da guerra sectária, provocando reação violenta dos sauditas, só ajuda o governo dos sauditaa a mobilizar em favor deles até mesmo os clérigos e a população sunita wahhabita. A execução de um xiita conhecido também serviu para encobrir a execução dos militantes da al-Qaeda, que também contam com muitos simpatizantes na Arábia Saudita; matá-los sem matar al-Nimr teria levado a protestos, ou coisa pior, dos sunitas radicais. Mesmo com a “cobertura” da execução de al-Nimr, entidades tipo al-Qaeda fora da Arábia Saudita já juraram vingança.

O governo iraniano e organizações xiitas no Iraque caíram rapidamente na armadilha e protestaram contra a execução de al-Nimr. Os iranianos permitiram que gangues organizadas atacassem a embaixada saudita em Teerã, que foi incendiada. Na província leste da Arábia Saudita, manifestantes xiitas atacaram violentamente forças policiais.

Exata e precisamente o que os governantes sauditas queriam e tudo de que mais precisavam. Também pode ter sido o que alguns círculos conservadores iranianos esperavam ansiosamente.