A prática geopolítica brasileira no após golpe

Por: César A. Ferreira

Agora que o pedido de impeachment está entregue e deverá tramitar no Senado Federal, casa onde o governo de Dilma Vana Rousseff não possui os votos necessários, dado que hoje, com segurança, não exibe o governo mais do que 20 votos, fica a pergunta que interessa a uma página que discute geopolítica: como será a política externa vindoura? Para que lado penderá Temer?

Para se poder entender a visão de mundo que deverá assumir, basta perceber o rol especulativo sobre os titulares da área econômica. O nome mais citado é o de Armínio Fraga, isto sugere uma opção por colaboração estreita com o mercado de capitais. Portanto, por extensão, maior influência dos EUA, que nunca foi pouca, diga-se. Se levarmos em consideração a presença brasileira no bloco BRICS, que já frutificou iniciativas importantes como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura, em inglês – Asian Infrastructure Investiment Bank, AIIB; do qual o Brasil se configura como sócio fundador, teremos uma interessante mudança de orientação externa, visto que apesar de jamais comentado, sabe-se, que os EUA consideram como maior ameaça ao seu status quo a proeminência financeira da China, que não esconde a sua intenção de fazer do Yuan (Renmibi) uma moeda de referência. Os norte-americanos tomam as iniciativas chinesas como um desafio ao dólar, o que de fato é. Para se ter uma ideia da tensão havida basta lembrar que o pivô desencadeante da invasão ao Iraque não foi outra coisa do que a decisão de Saddam Hussein de aceitar euros e ouro, além do dólar, como pagamento pelas cotas permitidas pela ONU para exportação de petróleo.

O alinhamento com Wall Street poderá resultar em mudanças substanciais, tal como a revisão do regime de extração das reservas petrolíferas do Pré-Sal, que podem mudar do regime de partilha para o de concessão de área, afrouxamento das leis de proteção do trabalho e de telecomunicações. O protagonismo do BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social deverá minguar, principalmente os financiamentos para projetos fora das fronteiras brasileiras, o que deverá afetar diretamente a influência do Brasil perante aos seus vizinhos, sul-americanos e da América Central, alvos prioritários na projeção das empresas brasileiras exportadoras de serviços de engenharia. A operação judicial-midiática Lava-Jato, apesar de não poder ser apontada diretamente como responsável é de fato o evento determinante para o recuo que já se observa, visto que atinge diretamente o polo econômico a ser beneficiado pela expansão: as grandes construtoras brasileiras. Por isto, não será surpresa alguma que os nichos de mercados sejam ocupados por chineses, na África; norte-americanos e canadenses na América Latina.

Por fim, no campo militar, um maior alinhamento com os EUA e demais nações da OTAN é mais do que esperado, mesmo porque este alinhamento sempre perdurou. Poucas foram as iniciativas em busca de fornecedores extra-OTAN, que podem ser contadas nos dedos: helicópteros de ataque Mi-35M, misseis MANPAD 9K38 Igla, além de material bélico sueco, que para todos os efeitos não configura um fornecedor “politicamente hostil” aos EUA. Acredita-se, portanto, que se o governo Dilma Rousseff por algum motivo não assinar o contrato para a aquisição das anunciadas três baterias dos sistema anti-aéreo Pantsyr S-1, nos dias próximos, este jamais será assinado. É uma especulação, sem dúvida alguma, mas como tudo que se observa nestes dias é o que pode ser feito na falta de algo melhor do que uma bola de cristal.

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4 comentários sobre “A prática geopolítica brasileira no após golpe

  1. Sempre acompanho seus textos e seus comentários, mas discordo quando você diz “golpe” dos 11 juízes do STF, 8 foram indicados pelo PT (Lula e Dilma). Também o TSF faz parte do golpe? Com 8/11 dos juízes indicados pelo PT?
    Falar que foi um golpe é uma retórica.
    Durante todo esse governo a maior parte de sua prática foi passar mais tempo promovendo a dependência do que encorajando a autossuficiência.
    Por isso e por outros motivos não concordo com essa retórica de golpe alardeado pelo PT e os movimentos sociais.

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    1. Richard,
      Saudações.

      O processo de Impeachment se baseia em uma ficção jurídica, visto que os atrasos verificados no pagamento dos empréstimos do Governo Federal aos Bancos Públicos, em si, não se configuram como crimes de responsabilidade. O que se tem, portanto, é um golpe político.

      Quanto ao STF é preciso dizer que é verdade o fato de haver na sua composição uma maioria de membros indicados pelo PT, todavia, não se observa nestes integrantes sentimento algum de gratidão, ou devoção, por terem sido indicados. A prova maior é Dias Toffoli, que sistematicamente prejudica o Governo Federal e o Partido dos Trabalhadores, do qual já foi advogado. O faz por rancor pessoal à Dilma Rousseff, e para mostrar-se independente em relação ao PT. No STF o que impera é a vaidade, mais do que qualquer outra coisa.

      É um golpe político, facilitado pela conjuntura e principalmente por termos uma República Presidencialista, com uma Constituição Parlamentarista. O veto de um Presidente da República, hoje, pode ser derrubado por maioria simples o que é um absurdo. Em um regime presidencialista os vetos presidenciais precisam de quorum qualificado para serem suprimidos. Assim deve ser para evitar que o Presidente da República necessite formar uma maioria expressiva a todo custo. Em um regime parlamentarista, quando o Gabinete perde a confiança forma-se outro, e se isto não for possível, convocam-se novas eleições.

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    2. Salve…,
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      Acredito na tese do “golpe”.
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      O debate ao redor da ofensiva contra Dilma, é se assistimos a uma tentativa de “golpe” de Estado da direita, ou se são os pecados da líder, que justificam o “procedimento legal” para removê-la.
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      Ela, Dilma, é acusada de “crimes de responsabilidade”, que consiste em ter maquiado as contas para absorver o déficit e se apresentar para a reeleição com melhores perspectivas.
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      — A legislação brasileira é suficientemente sutil para fazer com que muitas coisas sejam legais, e que isso seja “crime de responsabilidade” é apenas uma — questão de interesse –, assim como a contabilidade “criativa” está longe de ser incomum, mesmo no Primeiro Mundo.
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      A posição do grande empresariado brasileiro é que a presidenta “é uma ameaça ao crescimento”.
      .
      Os patrões da FIESP (Federação das Indústrias de São Paulo), líder da hostilidade contra Rousseff –, pagou no final de Março uma forte campanha publicitária na imprensa paulista, cujo leit motiv era que o impeachment da presidente, que hoje parece certo, é imprescindível para evitar “a destruição do país”.
      .
      Contudo, a polêmica “golpe sim, golpe não” — é basicamente estéril.
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      O que existe é um sistema político altamente disfuncional encarnado em um Congresso de 513 deputados e 25 partidos, onde nenhum nem remotamente se aproxima da maioria, e a formação de um governo deixa pequenininho os trabalhos de Sísifo e sua proverbial pedra.
      .
      Nessa confusão política, o ex-presidente Lula, junto com uma política que favoreceu as classes mais modestas, inseriu uma pretensão de grande potência que parece definir, hoje, um caso clássico:
      — O Antigo Regime e a Revolução (Tocqueville), no qual as expectativas severamente frustradas pela crise econômica deixaram metade do país desesperada e colocou em pé de guerra a outra metade.
      .
      O Brasil caminha hoje para o desfecho de uma novela tropical no divã de um analista.
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      Saudações,
      .
      konner

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      1. Caro Konner & Cesar

        Respeito e entendo seus comentários, mas como dito, o problema está no sistema politico e como se elegem os mesmos aqui no Brasil. De 513 deputados, somente 37 se elegeram com votos próprios os demais vieram no quociente eleitoral dos partidos.
        A premissa de golpe ou não, como já dito, é estéril, em partes sim, mas o governo que premia a dependência e não encoraja a autossuficiência, pode sim ser questionado, indagado e responsabilizado por suas atitudes.
        O crime de responsabilidade baseado nas ditas “pedaladas fiscais” é raso, mas foi o estopim necessário para todos acordarem e ver que o rumo de um governo sem rumo que está arruinando todas as poucas conquistas que este mesmo fez ao longo de 13 anos.
        Mas cabe ressaltar que, este governo, está tentando a todo custo, fazer novas eleições, com a Presidenta renunciando ao cargo.
        Analisando friamente, isso também pode ser considerado golpe, porém a muitos acham que rasgar a constituição não é golpe.

        Saudações

        Richard

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