As palavras de um líder

Por: Ho Chi Minh
Fonte: Esquerda Tradicionalista

Nota de introdução: o pensamento de um líder nacional, na forma de relato, é precioso documento histórico. Através dele é possível entendermos o desenvolvimento do entendimento de mundo deste líder, como personagem dinâmico, bem como da maneira deste interagir com o contexto que o rodeava. Desta forma, o depoimento abaixo do líder revolucionário Ho Chi Minh se reveste de importância fulcral, dado que Ho Chi Minh foi dentre os líderes das revoluções anticoloniais do século passado aquele cujas ações desembocaram na vitória de maior repercussão, a mais simbólica, algo que, aliás, não viu concretizar totalmente em vida. Ho Chi Minh foi um líder que sempre cultivou uma independência própria no campo ideológico, nunca se curvando a pressões e por isto um contumaz causador de “dores de cabeças” em lideranças revolucionárias chinesas. Entretanto, sempre manteve um perfil discreto e prático, quase pragmático, algo convencional em comunistas, diga-se. Era fã declarado de Lênin, como o eram quase todas as lideranças revolucionárias anticolonialistas do século XX.  Nascido como Nguyen Singh Cung, em 19 de maio de 1890, adotou Ho Chi Minh para nomear o seu alter ego revolucionário. Faleceu em 2 de setembro de 1969.

Disse Ho Chi Minh:

“Após a Primeira Guerra Mundial, eu levava minha vida em Paris, ora como retocador de fotografias, ora como pintor de ‘antiguidades chinesas’ (feitas na França). Também distribuía panfletos denunciando os crimes cometidos pelos colonizadores franceses no Vietnã.

Naquele tempo, eu apoiava a Revolução de Outubro apenas por intuição, não tendo em mente ainda toda sua importância histórica. Eu amava e admirava Lênin porque ele era um grande patriota que libertara seus compatriotas; até então, eu não havia lido nenhum de seus livros.

A razão para eu ter me unido ao Partido Socialista Francês foi porque essas ‘damas e cavalheiros’ – como eu chamava meus camaradas na época – demonstraram sua simpatia por mim, pela luta dos povos oprimidos. Mas eu não entendia o que era um partido, um sindicato, nem mesmo socialismo ou comunismo.

Discussões acaloradas aconteciam nos comitês do Partido Socialista sobre a dúvida de se deveríamos continuar na Segunda Internacional, se deveria ser fundada uma Segunda Internacional e Meia ou se o Partido deveria se juntar à Terceira Internacional de Lênin. Eu comparecia aos encontros com frequência, duas ou três vezes por semana, e ouvia atentamente a discussão. No início, eu não conseguia entender o assunto por completo. Por que os debates eram tão acalorados? Seja com a Segunda, a Segunda e Meia ou a Terceira Internacional, a revolução poderia ser alcançada. Qual o objetivo de discutir sobre isso? E a Primeira Internacional, o que aconteceu com ela?

O que eu mais queria saber – e o que justamente não era debatido nos encontros – era: qual Internacional está do lado dos povos das colônias?

Eu levantei essa dúvida – a mais importante em minha opinião – no encontro. Alguns camaradas responderam: é a Terceira Internacional, não a Segunda. E um camarada me deu para ler a “Tese sobre as questões nacionais e coloniais” de Lênin, publicadas pela L’Humanité.

Havia termos políticos difíceis de entender nessa tese. Mas por meio do esforço de lê-la e relê-la pude finalmente apreender a maior parte deles. Que emoção, entusiasmo, esclarecimento e confiança essa obra provocou em mim! Eu me regozijava em lágrimas. Embora estivesse sentado sozinho em meu quarto, eu gritei fortemente, como se me dirigisse a grandes multidões: ‘Caros mártires compatriotas! É disso que precisamos, este é o caminho para nossa libertação’!

A partir dali, tive plena confiança em Lênin e na Terceira Internacional.

Formalmente, durante os encontros no comitê do Partido, eu apenas escutava a discussão; tinha uma crença vaga de que tudo era lógico, e não conseguia diferenciar quem estava certo de quem estava errado. Mas a partir daquele momento, passei a me envolver nos debates e a discutir com fervor. Ainda que me faltassem palavras em francês para expressar todas as minhas ideias, eu rebatia energicamente os ataques feitos a Lênin e a Terceira Internacional. Meu único argumento era: “Se vocês não condenam o colonialismo, se vocês não estão alinhados com a população das colônias, que tipo de revolução vocês estão buscando”?

Eu não apenas participava dos encontros do meu comitê do Partido, mas também ia às reuniões dos outros comitês para reafirmar ‘minha posição’. Devo dizer que mais uma vez meus camaradas Marcel Cachin, Vaillant-Couturier, Monmousseau e muitos outros me ajudaram a expandir meu conhecimento. Por fim, no Congresso de Tours, eu votei junto com eles por nossa adesão a Terceira Internacional.

Em primeiro lugar, foi o patriotismo, e não o comunismo, que me levaram a acreditar em Lênin e na Terceira Internacional. Aos poucos, durante a luta e enquanto estudava o marxismo-leninismo paralelamente às minhas participações nas atividades práticas, eu me dei conta de forma gradativa de que somente o socialismo e o comunismo poderiam libertar as nações oprimidas e o povo trabalhador ao redor do mundo da escravidão.

Existe uma lenda, tanto em nosso país como na China, sobre o milagroso ‘Livro da sabedoria’. Ao se deparar com grandes dificuldades, pode-se abrir o livro e encontrar a solução. O leninismo não é apenas um milagroso ‘livro da sabedoria’, um compasso para nós revolucionários e cidadãos vietnamitas: é também o fulgurante sol iluminando nosso caminho para a vitória final, ao socialismo e ao comunismo”.

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