Considerações sobre a execução de Ruqia Hassan

Por: César A. Ferreira

Um dos problemas da juventude é a falta de sabedoria. O jovem, por força da natureza acredita ser capaz de tudo fazer, e quando instruído, embebe-se da soberba, da arrogância do absoluto saber, como se incapaz de cometer um erro fosse. Entender-se a si, ao demais e ao mundo a partir de uma observação simples da realidade parece ser algo impossível, vale antes a interpretação modelada pelas crenças próprias. Estes são, entre outros, os pecados da juventude.

Não é de assustar perceber que a maioria esmagadora dos insurgentes islamitas que afligem a Síria e o Oriente Médio, sejam em imensa maioria, jovens. O islã na vertente sunita wahabitta tornou-se a ideologia da contestação deste século XXI, por mais anacrônico que possa parecer. O que assusta, diga-se, é a ingenuidade daqueles que possuem a formação necessária para entender a si, aos outros e ao mundo, ter idade suficiente para aprender com sua vivência, e ainda sim, de maneira típica das pessoas advindas das classes desapegadas ao labor, revoltar-se contra quem lhe permite viver… Este é o caso da bela Ruqia Hassan, assassinada por membros do Estado Islâmico na cidade de Raqqa.

Ruqia Hassan, 30 anos de idade, formada em Filosofia na cidade de Aleppo, dedicava-se a escrever sobre o cotidiano da cidade de Raqqa, submetida pelas hostes do Estado Islâmico. Costumava postar mensagem curtas no Twitter, com o pseudônimo de Nisan Ibrahim, algumas delas com senso de humor fino, quase britânico. Uma delas, por exemplo, dizia: “As pessoas no mercado esbarram umas nas outras… não porque sejam muitas… mas porque têm os olhos colados ao céu(.)” (em virtude dos ataques aéreos). Sua oposição ao Estado Islâmico era declarada, se não explicitamente, ao menos de forma objetiva, tal como na declaração: “Está começando outro ataque aéreo, que Deus proteja os civis e leve os restantes”. Dado a importância que o Estado Islâmico dá aos meios de comunicação e a propaganda, não surpreende que tivessem Ruqia como alvo. Ruqia foi detida e executada sob a acusação de ser uma espiã do Exército Livre Sírio.

De fato, a ilustrada Ruqia Hassan havia aderido ao Exército Livre Sírio, ou seja, ela havia se tornado um membro da oposição em armas à República Árabe da Síria, avessa ao líder Bachar Al-Assad, a quem chamava de ditador… A mesma república, cujo regime permitiu que se educasse e tivesse a liberdade de ir e vir, contrair matrimônio e divorciar-se, adquirir bens, enfim… De viver. Ruqia, apesar de ter estudado filosofia, pouco uso fez do conhecimento adquirido, pois, com a mentalidade pseudo-cosmopolita engrossou a oposição à Assad, na sigla do ELS, cuja função ninguém sabe ao certo, pois diz combater ao Estado Islâmico e ao regime republicano, o que leva a pergunta: combate pelo quê?

Por favor, não me venham com os chavões de sempre, como Democracia, Estado Democrático de Direito e coisas do tipo. No atual estado de coisas da Síria isto é uma piada, e de muito mal gosto. Em termos práticos o Exército Livre da Síria não conseguiu outra coisa do que viabilizar a guerra santa promovida pelos extremistas wahabittas na Síria. Seus guerreiros mudam de lado como quem muda de camisa, e as armas e suprimentos que lhes são entregues pela OTAN, acabam alegremente nas mãos do Estado Islâmico. Não existe meio termo possível, o conceito de “Rebelde Moderado” é um absurdo que só pode ser levado adiante por quem é hipócrita, ou idiota. Neste conflito só existe duas opções: apoio a República Árabe da Síria, e ao seu regime, o que significa uma estrutura estatal e de responsabilidade, ou apoio aos grupos insurgentes, cujo significado é dar suporte ao medievalismo escravagista, perdido no tempo, e expandido via proselitismo do terror.

Ruquia ao aderir ao ESL fez a sua escolha, da qual, talvez, estivesse dolorosamente consciente, ao retratar com viés resignado, ligeiramente pessimista, o cotidiano de Raqqa. Ela que por lá ficou, quando da queda da cidade em mãos dos extremistas do Estado Islâmico, talvez alimentasse no íntimo um sentimento de frustração e amargor, a consciência do erro cometido… Não teve como escolher, preferiu, então, morrer. Sabia do seu erro, que fora de não entender o seu mundo. Por isso retratava o cotidiano de Raqqa, e manteve sua atitude frente às ameaças de morte… Até que ela se consumou.

Não vamos apontar, dizer, afirmar, que foi um ato de coragem. Antes, de resignação. Coragem tem o batalhão feminino do Exército Árabe Sírio, que em armas combatem os extremistas insurgentes, estas sim, independente da formação, do grau de instrução, entendem o seu país, os seus semelhantes e o que se passa no mundo, escolheram, portanto, defender a nação e os cidadãos, mesmo tendo a ciência do destino terrível que lhes aguarda caso sejam cercadas e capturadas. Às combatentes dedico o termo coragem. Merecem.

Morto o Ministro da Guerra do Estado Islâmico

Por: César A. Ferreira

O grupo insurgente Estado Islâmico sofreu nesta última terça – feira, dia 05, um golpe devastador no seu comando, resultado de um ataque aéreo da Força Aérea Iraquiana, que resultou na morte daquele que responde pelo posto equivalente ao de Ministro da Guerra dentro do grupo terrorista, Samer Mohammad Matloub Hussein al Mahlawi. O êxito se deu quando da realização de um raide aéreo contra uma base militar do EI identificada na cidade de Barwanah, ou Bervanah, localizada a 200 km ao noroeste de Bagda,  na província de Anbar, Iraque.  Al-Mahlawi foi membro da Al-Qaeda antes de aderir ao EI, sendo um dos lugares-tenente do falecido Abu Musab al Zarqawi.

Neste ataque, assessores próximos também foram mortos, três deles.  Este ataque de sucesso não é o primeiro das armas iraquianas contra o comando do EI. Antes, em 26 de dezembro último (2015), as forças iraquianas relataram a morte do chefe de treinamento militar de Ramadi e Fahllujah, Sa’ad al-Abidi, apelidado de  Sa’ad al Khaleda. Este membro sênior do EI foi alcançado e morto na localidade de Al-Khaledyia, 23 Km ao norte de Ramadi. Além disto, as forças iraquianas, na forma do recomposto Exército Nacional do Iraque, forças tribais recrutadas ad-hoc (forças de mobilização popular), realizaram uma ofensiva em dois eixos, uma com o objetivo a Barwanah e a segunda tendo Hadithah como alvo. Até o presente momento a contagem de corpos aponta 205 terroristas do Estado Islâmicos mortos.

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Soldados iraquianos comemoram vitória sobre o EI. Foto: internet.

Outras perdas do Estado Islâmico também foram relatadas, tal como a morte do especialista em explosivos Habibullah Afghani, quando preparava com 19 ajudantes a colocação de bombas dissimuladas em carros. A emboscada se deu na cidade ocupada de Mosul, mais precisamente em Badush, distrito leste da cidade. Todos foram mortos.  Outra dezena de terroristas foram mortos, quando da tomada surpresa do principal hospital da cidade de Ramadi (110 km ao oeste de Bagdá).

Até o presente momento não foi relatado qual o vetor aéreo utilizado para a realização destes ataques. Sabe-se que a Força Aérea Iraquiana faz uso extenso dos helicópteros de ataque Mi-28N, Mi-35M e, Su-25. A FAIr encomendou e recebeu, com longo atraso, vetores F-16C, todavia, não se tem dado publicidade das operações efetuadas com tais vetores.

Executar Al-Nimir foi um movimento esperto dos Sauditas

Autor: Moon Of Alabama.  Tradutor não especificado.

Fonte: Oriente Mídia. 03.01.2016.

O governo saudita executou 47 prisioneiros de muito tempo, condenados à morte por prática de ações terroristas e insurgência. Do ponto de vista dos sauditas, foi movimento político esperto. Os sauditas enfrentam dificuldades na guerra que movem contra o Iêmen. Depois de nove meses de bombardeio infernal, não se vê nem sinal de qualquer ‘vitória’ saudita possível, nem de que, tão cedo, consigam reinstalar em Sanaa o governo cliente dos sauditas que lá havia, e já não há. Enquanto isso, as forças do Iêmen atacam (vídeo) sem parar, uma cidade saudita depois da outra. O projeto dos sauditas de fazer “mudança de regime” com participação de jihadistas salafistas no Iraque e na Síria, também vai de mal a pior. Os baixos preços do petróleo já obrigaram o governo saudita a impor impostos à população. Impostos e mais impostos nunca geraram popularidade para governo algum. Para distrair a atenção dos cidadãos, os sauditas decidiram livrar-se de um grupo de prisioneiros e usar as execuções como meio para recuperar alguma “legitimidade”. Muitos dos 47 executados eram realmente tipos associados à al-Qaeda, que há dez anos mataram e explodiram prédios na Arábia Saudita e muito fizeram tentando derrubar o governo saudita. Com as recentes manifestações anti-sauditas feitas pelo Estado Islâmico e al-Qaeda, cresceu o risco real de levantes na prisões, ou de que alguma ação com reféns venha a exigir a libertação de prisioneiros.

Só quatro dos executados eram xiitas. Um desses era o conhecido pregador e agitador xiita Nimr Baqr al-Nimr, da maioria xiita da província oriental de Qatif, na Arábia Saudita.

Al-Nimr havia convocado a juventude na Arábia Saudita e no Bahrain a levantar-se contra o governo. Pregou a derrubada não apenas dos governos tiranos de Arábia Saudita e Bahrain, mas também, do governo do presidente Assad na Síria. Não era submisso ao Irã, mas defendia a modalidade iraniana de governo. Al-Nimr se dizia contra a violência, mas várias das manifestações convocadas por ele terminaram com manifestantes e policiais mortos. Quase inacreditável que os sauditas o tivessem deixado livre para pregar por tanto tempo. Qualquer clérigo sunita na Arábia Saudita teria sido preso e morto por conversa muito menos revolucionária que a dele.

Alguns idiotas, como Keneth Roth do “Observatório de Direitos Humanos”, disse que al-Nimr desejava um estado democrático:

Kenneth Roth @KenRoth:

O crime de Sheikh Nimr: liderar protestos pacíficos a favor da democracia saudita, igualdade para os xiitas”.

Perfeita imbecilidade. Em 2008, um diplomata dos EUA falou com al-Nimr. Telegrama que se pode ler no site Wikileaks e que resume aquela conversa:

Al-Nimr descreve sua atitude e de al-Mudarrasi em relação à governança islamista como algo entre “wilayet al-faqih,” quando um país é liderado por um único líder religioso, e “shura al-fuqaha,” quando um conselho de líderes religiosos deve guiar o Estado. Al-Nimr, que dirigiu estudos religiosos por aproximadamente dez anos em Teerã, e por “uns poucos anos” na Síria, disse que toda e qualquer governança deve ser conduzida mediante consultas, mas a quantidade de poder oficial a ser entregue a uma determinada autoridade governante deve ser determinada a partir da qualidade relativa dos líderes religiosos e da situação política no momento.

Sistema liderado exclusivamente por clérigos ou líderes religiosos não é democracia. Dessa entrevista se pode extrair também que al-Nimr não tinha, na verdade, ideia clara sobre o que realmente queria. O que parecia estar resolvido é que queria “estar sempre com o povo, nunca com o governo”, independente de quem governasse ou do que estivesse certo ou errado.

A paciência dos sauditas esgotou-se quando, em junho de 2012, al-Nimr desrespeitou a morte do ex-ministro do Interior e príncipe coroado Nayef bin Abdul-Aziz Al Saud:

Disse que “o povo deve regozijar-se com a morte [de Nayef]” e que “será comido por vermes e sofrerá no túmulo os tormentos do Inferno”.

Foi demais. Al-Nimr foi preso e condenado à morte.

Houve preocupação em torno da possibilidade de a execução de al-Nimr aumentar as tensões entre sunitas e xiitas. Vários governos e a ONU alertaram que a execução faria aumentar as disputas sectárias.

Pois, então? Aí é que está!

A legitimidade do governo saudita depende de abundância de dinheiro e de aparecer como wabbabita sectário “guardião da fé”. Elevar a barra da guerra sectária, provocando reação violenta dos sauditas, só ajuda o governo dos sauditaa a mobilizar em favor deles até mesmo os clérigos e a população sunita wahhabita. A execução de um xiita conhecido também serviu para encobrir a execução dos militantes da al-Qaeda, que também contam com muitos simpatizantes na Arábia Saudita; matá-los sem matar al-Nimr teria levado a protestos, ou coisa pior, dos sunitas radicais. Mesmo com a “cobertura” da execução de al-Nimr, entidades tipo al-Qaeda fora da Arábia Saudita já juraram vingança.

O governo iraniano e organizações xiitas no Iraque caíram rapidamente na armadilha e protestaram contra a execução de al-Nimr. Os iranianos permitiram que gangues organizadas atacassem a embaixada saudita em Teerã, que foi incendiada. Na província leste da Arábia Saudita, manifestantes xiitas atacaram violentamente forças policiais.

Exata e precisamente o que os governantes sauditas queriam e tudo de que mais precisavam. Também pode ter sido o que alguns círculos conservadores iranianos esperavam ansiosamente.

YaK-130: o LIFT do século XXI

Esta matéria sobre o jato de treinamento e ataque YaK-130 foi por mim concebida, especialmente,  para o site Portal Defesa. Publicada no dia 02.06.2014, trouxe para os leitores um panorama amplo deste projeto, extremamente dinâmico e moderno, que acabou por ser tornar o ícone atual das aeronaves LIFT.

YaK-130: o LIFT do século XXI

Por: César Antônio Ferreira

Gênese

A antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas tinha em mãos no final dos anos oitenta um problema de monta, caças avançados (MiG-29 e SU-27) com capacidade de manobra em ângulos elevados entravam em linha de voo em grande quantidade, todavia, os jatos de treinamento disponíveis não correspondiam em desempenho, e a frota destes em serviço começava descortinar o fim do tempo útil em serviço. Em função desta necessidade a então Aviação Militar Frontal Soviética acabou por lançar em janeiro de 1991, os requerimentos para a substituição dos treinadores tcheco-eslovacos então em uso: Aero Vodochody L-29 Delfin e L-39 Albatroz. Dava-se início para a gênese do Yak-130.

Em resposta ao requerimento quatro propostas foram apresentadas: Sukhoy – SU – 54, Myasishchev M-200, Mikoyan – Gurevich 821 e Yakovlev UTS. Os projetos apresentados eram bem diversos entre si. As propostas da MiG e do redivivo OKB Myasishchev possuíam um aspecto mais convencional, algo surpreendente em se tratando do OKB Myasishchev, enquanto as propostas da Yakovlev e Sukhoy se mostravam ousadas, em especial a proposta da Sukhoy, que empregava pequenos canards, derivas duplas inclinadas e um só motor, Lyulka série Al-31, sem pós combustão. Em sequência, em julho de 1992, os modelos MiG – 821, agora denominado MiG-AT e Yalovlev UTS, foram declarados como selecionados para ensaios. Antes dos respectivos primeiros voos dos protótipos, o projeto da Yakovlev foi declarado como mais promissor.

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Concepção do Yak-UTS. Notar as entradas de ar, circulares e a frente das asas, então dotadas de winglets. Imagem: Yakovlev Design Bereau.

 Ambas as aeronaves realizaram as suas primeiras decolagens em 1996. O MiG-AT realizou o seu primeiro voo em março de 1996, e o Yak-130 em abril do mesmo ano. Os ensaios subsequentes mostraram que o YaK-130 confirmava a impressão que o seu desenho passara, de que era um projeto bem concebido e com um envelope de voo extremamente elástico. Com asas enflechadas, LERX –Loading-Edge Root Extensions, motores eslovacos DV-2S, deriva única alta e afilada, sobressaía-se sobre o seu oponente, que apresentava asas com bordo de ataque reto, deriva convencional e motores franceses Larzac.

Desenvolvimento e a associação entre o Bureau Yakovlev e a Aermacchi.

A URSS findou-se em 1991 e o período que se seguiu foi negro para a grande herdeira, a jovem Federação Russa, como para as demais repúblicas, tanto é assim que a década seguinte à dissolução da URSS é conhecida como Catastroika. Neste contexto, a empresa Aermacchi visava o desenvolvimento de um novo treinador a jato, que pudesse rivalizar com o conceito MAKO, que fora encampado pela gigante EADS. Sendo o projeto Yakovlev promissor, e melhor, em vistas de terminar o seu desenvolvimento, que de fato deu-se em setembro de 1993, a Aermacchi procurou formar uma joint venture com a Yakovlev.

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YaK-130 nos seus primeiros anos. Notar a logo da Aermacchi na deriva do aparelho, que ainda contava com winglets. Imagem: Portal Defesa.

  Firmada a associação, partiu-se para a revisão do projeto, que mudou em pouca coisa visto que a configuração básica do projeto foi mantida, alterando-se o comprimento ao ser encurtado em 41 cm e com a diminuição da envergadura em 94 cm. A aeronave passou a ser conhecida como YaK/AEM-130, com motores ocidentais sendo previstos para equipar a célula. Além disso, os controles, que eram analógicos, bem como os instrumentos, passaram a ser digitais, na forma de mostradores de telas de cristal líquido, multifuncionais. Durante o período vigente da associação, dezembro de 1998, em solo italiano e sob comando de Andrey Sinitsyn, o YaK-130 atingiu pela primeira vez um ângulo de ataque de 41°.

Entretanto, o governo russo exigia, com o intuito de adotá-lo em seus esquadrões, a adoção de motores e instrumentos nacionais, bem como a previsão para uso da aeronave como atacante leve, isto enquanto a Aermacchi pensava no mesmo como um treinador puro. As divergências levaram ao rompimento e o Bureau Yakovlev recebeu como compensação a quantia de US$ 77 milhões, pagos em razão de a Aermacchi permanecer em posse da documentação técnica do projeto. Desta maneira a empresa italiana pôde lançar no mercado a sua versão do avião, batizado como M-346, finalizado com aviônicos ocidentais e motores Honeywell (ITEC F124-GA-200). Uma pechincha, pois os italianos não precisaram passar pela fase dura de concepção e desenvolvimento do projeto, dele participando apenas do refinamento. O divórcio deu-se no mês de dezembro de 1999.

Descrição e características da aeronave YaK-130

O Yakovlev-130 é um aeroplano de asa média com enflechamento de 31° no bordo de ataque, e bordo de fuga, reto. A asa possui recursos para sustentação na forma de slats e flaps Fowler e conta ainda com um extenso LERX que se adianta à frente, junto àsnaceles dos pilotos. A entrada de ar de forma quadrangular com bordas suaves, arredondada na parte inferior, é inclinada e conta com uma vedação de proteção contra a ingestão de objetos estranhos (FOD). Os estabilizadores são integrais, e possuem um dente destacado no seu bordo de ataque, que visa aumentar a corda. A deriva é proporcionalmente alta e enflechada, o que resulta em um perfil característico, próprio da aeronave. O nariz da aeronave, que era achatado nas primeiras versões, acabou por ser afilado, e os assentos são posicionados de forma inclinada, em tandem, e contam com a visibilidade de -16° para a posição dianteira e de 6° para a posição traseira.

 A estrutura é composta por ligas metálicas leves e materiais compostos, estando as ligas metálicas leves compondo a fuselagem, enquanto os materiais compostos, no caso fibra de carbono, se encontram presentes nas superfícies móveis. As superfícies móveis são comandadas por controles digitais assistidos por computador KSU – 130, com redundância quádrupla, ou seja, o YaK-130 é mais uma aeronave a fazer parte do rol FBW (Fly – By –Wire, ou seja, Voo Por Fios, que em linhas gerais significa que os comandos de voo são determinados por impulsos elétricos).

A capacidade militar da aeronave é evidenciada pelos assentos ejetáveis Zveda K-36L-3.5Ya, que são notórios pela qualidade, bem como pelos pontos duros, três pilones por asa, em um total de seis, além dois trilhos para mísseis, um em cada ponta de asa. Somando-se ao ponto central, temos um total de nove pontos para armas e tanques, sendo que o ponto central e os cabides internos de cada asa configuram-se como pontos molhados, ou seja, capazes de receberem tanques externos com combustível.

A aeronave dispõe de uma capacidade interna de combustível de 1.700 kg (3.700 lb). Tanques externos podem ser utilizados nos cabides internos da asa, ou no ponto central. Para os cabides externos a capacidade especificada dos tanques é de até 450 kg (590 litros), por unidade. Com o combustível interno e dois tanques externos a configuração alcança o valor de 2.600 kg (5.700 lb). Existe a previsão para adoção de sonda removível para reabastecimento em voo, com padrão MIL-A-87166, com preparação para operações noturnas.

 No tocante ao desempenho, a velocidade máxima da aeronave é de 1.060 km/h e o teto de serviço é de 12.500 m. O ângulo máximo de ataque é regulado para 35°, entretanto, o YaK-130 já realizou voos com ângulos de 42° em situação controlada. O limite para vento cruzado é de 56 km/h (30 kn).

 A vida útil da célula é prevista para 30 anos, 10.000 horas de voo ou 20.000 ciclos. Conta o Yak-130 com APU modelo TA-14-130 e sistema gerador de oxigênio embarcado (OBOGS – On Board Oxygen Generating System).

Radar

As aeronaves em operação pela VVS não possuem radar, todavia, o fabricante oferece como opção o radar Phazontron NIIR Kopyo-50. Este radar possui como característica a busca e detecção de superficial e encoberta de objetos, mesmo pequenos, como barcos e carros, no seu modo de operação ar-superfície; no modo ar-ar oferece detecção e acompanhamento de até 2 alvos simultâneos, com alcance superior a 50 km, mesmo quando travado contra um alvo sob cobertura do retorno de emissões advindo do solo (retorno de fundo). Interface com miras montadas em capacetes e com mísseis RVV-AE (R-77), R-73E e R-27; no modo de funcionamento ar-superfície, oferece mapeamento de baixa resolução (feixe real), média resolução (feixe Doppler) e de alta resolução (abertura sintética). Além disso, o míssil antinavio Kh-31A também exibe integração com o radar Phazontron NIIR Kopyo-50.

Outra opção que foi citada em publicações especializadas, notadamente aquelas em língua portuguesa, é a utilização do radar Mectron Scipio-01. Este radar interessa ao fabricante por combinar várias características, tais como o pequeno tamanho e os modos variados com que trabalha, como de busca, rastreamento, mapeamento, telemetria, capacidade de rastrear e acompanhar 4 alvos por simultaneamente, detectando alvos aéreos de 5m² em uma distância de 32 km e terrestres com 100m² até 80 km de distância.

 Assentos ejetáveis

Os assentos Zveda da série K-36L-3.5Ya possuem como característica a ejeção segura na faixa de velocidade entre 0 e 1.050 km/h e em altitude de até 13.000 m. Os assentos desta classe preveem ejeção em altitude e velocidade nulas, ou seja 0-0 (V=0/H=0) e rompimento da cobertura transparente plexyglass. O peso do assento é da ordem de 87 kg, incluídos o dossel de seda (paraquedas), sistema de oxigênio de emergência e kit de sobrevivência. A altura do assento compreende a faixa de 681 – 880 mm.

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Zveda K-36L-3.5Ya. Imagem: Portal Defesa.

 Instrumentos

O posto de pilotagem do YaK-130 é moderno, conta com três grande mostradores multifuncionais em telas de cristal líquido, HUD –Head Up Display, e previsão para adoção de miras montadas no capacete System Helmet Mounted, caso seja o desejo do cliente. A aeronave é dotada de receptores para sinais NAVSTAR (GPS) e GLONASS, além de um sistema de referência inercial para navegação precisa. A arquitetura dos aviônicos é aberta (1553 Databus), oferecendo a necessária flexibilidade operacional, reproduzindo desta forma as características existentes nos caças de quarta geração, russos e ocidentais.

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Cockpit do Yak-130. Notar os grandes mostradores digitais. Imagem: Portal Defesa.

O YaK – 130 possui a capacidade de simular o envelope de voo de aeronaves de quarta geração, devido ao seu desempenho e aos softwares que fazem parte do seu sistema de controle de voo. Dotado de um sistema FBW quádruplo, e relação satisfatória empuxo/peso, a aeronave simula as atitudes em módulos de ataque, manobras de dogfight e interceptação, tornando-a singular como aeronave de treinamento.

 Armas

Devido à opção por uma arquitetura aberta e ao uso do barramento 1553, a integração de armamentos ocidentais se vê facilitada. Por isto uma ampla gama de armas podem ser integradas ao YaK-130, tal como os mísseis WVR AIM-9L; Magic 2, Phyton III, IV e V, ou armas ar-superfície como AGM-65 Maverick. Mísseis russos naturalmente fazem parte do arsenal disponível, e entre eles se encontram o Vympel R-73E (designação OTAN AA-11 Archer), e a arma ar-superfície Kh-25 ML (designação OTAN AS-10 Karen), que vem a ser uma arma guiada a laser, para tanto, conta o YaK-130 com um pod Platan ,designador eletro-optico, instalado sob a fuselagem, justamente para permitir o uso de armas guiadas, como a bomba KAB-500 KR, entre as citadas.

As opções para canhões são o pod UPK-23-250 (GSh-23: 23mm) subalar; NSPU-130 (GSh-23: 23mm) sob a fuselagem (ponto central). Ambas as opções comportam 110 cartuchos.

Entre as armas não guiadas o Yak-130 conta com foguetes não guiados B-8M e B-18, bombas de queda livre de 500 kg, 250 kg e 50 kg. Para defesa contra armas de orientação IR (infra-vermelha), o YaK-130 pode ser equipado com pods defensivos UV-23M (26 mm), que são lançadores de chaff/flare.

Motores

O YaK-130 é oferecido hoje ao mercado com duas opções de motorização: Digital Engine Control Progress/Zaporozhye AI-222-25 eDigital Engine Control Progress/Zaporozhye AI-222-28. Ambos os motores dotados de controle computadorizado (FADEC). Sendo o YaK-130 um bi-motor, exibe quando equipado com dois motores AI-222-25 49 kN, ou 11.000 lbf de força, valores estes aumentados caso a aeronave esteja equipada com a versão AI-222-28, quando a oferta de potência dos dois motores combinados é da ordem de 53 kN, ou 12.000 lbf. A relação empuxo peso obtida com a motorização “-25” é de 0,70, que se eleva para 0,77 quando equipado com a combinação de motores “-28”. Para se ter uma ideia da importância desses valores, pode-se compará-los com os valores equivalentes de dois outros treinadores de sucesso: 0,65 para o BAE Hawk 128 e 0,49 para o Aero Vodochody L-159B.

 Os motores são fabricados em plantas ucranianas e russas, sendo responsáveis as empresas Motor Sich (Ucrânia) e Salyut (Rússia)

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Digital Engine Control Progress/Zaporozhye AI-222-25. Imagem: Portal Defesa.

 Proposta ao Brasil e a América Latina

A Rússia ofereceu ao Brasil e aos demais países da América Latina o treinador YaK-130. No caso brasileiro, caso a proposta prospere, a possibilidade da escolha do radar Scipio-01 se faz presente com força, dado ser este radar produzido por uma empresa brasileira, Mectron. Ventila-se a possível opção pela aquisição de 18 aeronaves, que seriam destinados provavelmente ao 2°/5° GAv, Segundo Esquadrão do Quinto Grupo de Aviação, Esquadrão “Joker”. Outras nações da América Latina que procuram aeronaves com desempenho elevado, mas com baixo custo de operação, visto que a realidade orçamentária no continente assim impõe, podem vir a escolher o aparelho, dentre estas o Uruguai, Paraguai e Venezuela são constantemente alvos de notas nas publicações especializadas.

Fabricação

O Yak-130 realizou o seu voo inaugural com o registro RA-431130 em 25 de abril 1996, na base aérea de Zhukovsky. A planta responsável pela produção era a fábrica Sokol, localizada em Nizhny Novgorod. As primeira unidades encomendadas e entregues à VVS (12), foram construídas por esta planta. Em 2004 o Bereau Yakovlev foi adquirido pela Irkut Corporation e esta, em sequência, decidiu a transferência para a linha de produção em Irkutsk. As instalações, modernas, podem fabricar até trinta unidades por ano.

As aeronaves destinadas à exportação terão os instrumentos calibrados em unidades imperiais, ao invés de métricas e textos em inglês. O IFF (Identification Friend or Foe) difere daquele usado pela VVS.

Acidentes e incidentes

O primeiro acidente deu-se com o protótipo Nº 03 em 26 de julho de 2006, quando em voo de teste dos parâmetros de voo. Outro exemplar foi encomendado, ganhando designativo de protótipo Nº 04 e realizou o seu voo em julho de 2008.

O segundo acidente envolveu um exemplar do YaK-130 da VVS com numeração “93” em 29 de maio de 2010. O acidente foi motivado por uma falha operacional não detectada: o técnico de suporte “zerou” os parâmetros existentes no software relativo as atitudes de voo, quando estes valores não eram neutros. Quando da decolagem os sistemas interpretaram as atitudes de voo como excessivas em relação ao permitido e realizou uma correção automática, disto ocasionando o acidente. Como resultado, foram concebidas alterações no software para evitar bugs (problemas) advindos do espaço existente entre a poltrona e o teclado.

 Outro acontecimento não foi um acidente, mais um incidente, hoje folclórico, deu-se na amostra aeronáutica de Farnborough, em 2012, quando os responsáveis pelo tráfego aéreo impediram a decolagem do modelo da Yakovlev, pelo fato deste estar com as entradas de admissão de ar principais fechadas, algo que acontece com normalidade, visto que existem aberturas acima do LERX para alimentar o motor e protegê-lo da ingestão de objetos contaminantes da pista. Algo, que é bom que se diga não é uma novidade, visto que o MiG-29 utiliza o mesmo recurso há mais de três décadas.

Operadores

VVS (Rússia): encomenda de 55 aeronaves; Argélia, 16; Síria 36; Bangladesh, 24. A Rússia anunciou a intenção de ampliar a sua dotação de 55 para 72 unidades.

 

Yak-130. Ficha técnica

Dimensões

Envergadura: 9, 84 m.

Comprimento: 11,49 m.

Altura: 4,76 m.

Área alar: 23,52 m².

Especificações técnicas

Velocidade máxima: 1.060 km/h.

Velocidade de cruzeiro: 887 km/h.

Velocidade de estol: 165 km/h.

Ascensão: 50 m/s.

Relação empuxo/peso (-25)/(-28): 0,70/0,77.

Carga alar:271 kg/m².

Limite de carga G: (-)3 / (+)8.

Limite de Mach:0,91.

Ângulo de ataque máximo:35°.

Teto operacional: 12.500 m.

Raio operacional: 12.600 m.

Alcance de translado: 2.300 km.

Autonomia máxima – com dois tanques externos: 3 horas.

Decolagem (distância): 400 m.

Pouso (distância): 650 m.

Carga bélica (máxima): 3.000 kg.

Peso máximo – decolagem: 7.230 kg.

Conheça o SABER M200

O presente texto foi por mim redigido originalmente para o site Portal Defesa, e publicado na data de 07.09.2014. Em virtude da notícia alvissareira de que o A Diretoria do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou aporte financeiro em favor do Exército Brasileiro para investimento na última final do desenvolvimento do radar multimissão SABER M200 (US$ 14,2 milhões), resolvi publicar novamente a matéria no Blog DG, visto ser ela bastante informativa no que toca as qualidades do sensor nacional.  Tendo recebido recursos da ordem de 67 milhões de reais desde 2008 (FINEP), o projeto SABER M200 deverá receber aporte de 17 milhões, oriundos da Pasta do Ministério da Defesa. Capaz de realizar missões no espaço reportado de 200 km de alcance por 20 km de altitude, nas funções de varredura primária, secundária, aquisição e iluminação de alvos, o radar SABER M200 configura-se como um dos projetos de maior refinamento tecnológico em desenvolvimento no campo militar. A matéria em questão abordava um outro cronograma, todavia, resolvi manter sem correção para que possa no futuro servir como uma referência sobre as dilatações de prazos havidas no programa.

Conheça o SABER M200

Por: César A. Ferreira

A empresa BRADAR, componente da Embraer Defesa & Segurança, anunciou durante a 3ª Mostra BID Brasil, realizada nas datas de 2 a 6 de setembro corrente, o seu radar de Abertura Sintética de arquitetura modular SABER M-200, como um produto disponível no próximo ano, 2015.

O radar SABER M200 é fruto do esforço da empresa BRADAR, antiga Orbisat, com intuito de oferecer as armas nacionais um instrumento superlativo em termos de detecção de ameaças aéreas, realizado com tecnologia e mão de obra nacional, impondo uma independência de fato a uma área sensível no ambiente militar. Para tanto, observou-se em sua concepção a modularidade e a compatibilidade de transporte com os meios aéreos já existentes na Força Aérea Brasileira, em dimensões e peso, ou seja, com a cabine de carga da aeronave Lockheed C-130H, o que vale dizer que o radar SABER M200 também o será com o seu substituto, Embraer KC-390, bem como com os meios de transporte terrestre, sendo facilmente portável em uma carreta porta – contêiner, visto que o sistema se encerra, totalmente, em um container padrão de 20 pés.

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Disponibilidade para aerotransporte. Imagem: Portal Defesa.

Com essa característica, o SABER M200 pode ser transportado por qualquer veículo que leve containers, e até mesmo ser camuflado como um container comum.

A modularidade não se reflete como vantajosa apenas no que concerne ao transporte, mas também na manutenção e manejo do radar, ou seja, em sua operação, proporcionando ganhos de economia dos recursos empregados em logística, já que módulos defeituosos podem ser trocados em poucos minutos, facilitando as equipes operativas no que tange ao emprego do radar em situações de emergência, em locais distantes da cadeia logística.

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Modularidade do Radar SABER M200, aqui representada em sua plataforma de transporte. Imagem: Portal Defesa.

Desenvolvido de maneira integral com tecnologia de estado sólido, o SABER M200 foi concebido com o objetivo de vigilância, varredura e orientação para sistemas antiaéreos, e possui a interessante característica de ser facilmente reconfigurado, isto a partir de uma rápida alteração dos parâmetros existentes em seu arquivo de configuração pelo simples fato de ser um radar definido por software. Além disso, o radar se comporta como uma unidade de processamento de considerável desempenho, por deter a capacidade de processamento de mais de 30T flops. Possui em uma só estrutura as funções de radar primário e radar secundário SAR que gera imagens 3D com até 1 metro de resolução.

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Disposição interna dos sistemas. Imagem: Portal Defesa.

O chamado Radar Primário possui como antenas painéis com faces retangulares dispostos em 360ª, e operam na Banda – S, ou seja, na Frequência de 2 a 4 GHz, com Comprimento de Onda de 7.5 a 1.5 cm. já o Radar Secundário situa-se no topo do conjunto e funciona da maneira clássica, sendo recolhido quando em transporte, e estendido quando em operação.

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Componentes do radar primário e secundário. Imagem: Portal Defesa.

 Especificações Técnicas

Radar Primário

Característica física: 4 painéis fixos com feixe eletrônico.

Frequência: Banda – S. (2 ~ 4 GHz).

Altitude/altura: 0 ~ 15 km.

Alcance (seção reta – radar de 2m2 )

Modo Vigilância: 170 km.

Modo Busca: 130 km.

Resolução em alcance: 75 m.

Precisão angular em azimute e elevação: 0,08°.

Ângulo de iluminação em elevação: 60°.

Potência máxima de pico: 83 kW por painel.

Contramedidas eletrônicas: agilidade em frequência e escuta.

Polarização: Circular.

Tempo de varredura:

Modo de Vigilância: 9 s.

Modo Busca: 1 s.

Radar Secundário

Modos: 1, 2, 3A e 4.

Alcance: 200 km.

Tecnologia InSAR

Imagem:  3D.

Resolução:  1 m.

Exército Árabe Sírio avança no Sul

Por: César A. Ferreira

Com as atenções voltadas para o norte da Síria, por onde se dá o tráfego do contrabando de petróleo que sustenta a insurgência do Estado Islâmico, artéria vital que faz com que este grupo, como outros, como Al-Nusra e ESL se esfalfem para manter as comunicações e abastecimento com a fronteira turca, pouca atenção se dá aos combates efetuados no sul, quando muito são noticias, apenas, pela estranhíssima atitude de Israel em assistir combatentes extremistas do Estado Islâmico em termos médicos, inclusive com resgate e remoção dos feridos para atendimento traumatológico especializado junto ao conceituado Ziv Medical Center.

O Exército Árabe da Síria realizou um movimento amplo na província de Dar, ocupando várias localidades no seu avanço que possui como objetivo a capital provincial, neste presente momento, as forças governamentais já travam combates nos subúrbios do norte da capital. Neste processo, o Exército Árabe da Síria, objetivando a manutenção do fluxo logístico e proteção dos acessos, concentrou-se primeiramente em conquistar e manter a estrada Damasco-Dar, e em sequência capturar a base militar localizada junto à cidade de Sheikh al-Max, 90 quilômetros ao sul de Damasco, cujo controle havia sido perdido em janeiro último (2015). Se for considerada a proximidade com a fronteira jordaniana, que é extrema, tornar-se-á fácil perceber o quão importante é esta base, visto que o controle da fronteira sul é tão vital quanto aquele que se almeja na fronteira norte, pois a Jordânia, ao sul, tal como a Turquia, ao norte, permite o transito de extremistas e de suprimentos para os mesmos.

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Exército Árabe da Síria comemora vitória ao sul de Damasco. Imagem: Internet.

O relato contrário, da parte extremista, através da voz de Ahmad al Masalmeh, ativista adepto da oposição armada ao regime sírio, informou que o Exército Árabe Sírio havia tomado apenas uma porção da referida base, portanto, que a mantinham em suas mãos oferecendo combate aos soldados regulares sírios. Todavia, em vista do apoio exercido pela Rússia nesta ofensiva, coadjuvada pela FARAS – Força Aérea da República Árabe da Síria, na forma de mais de 80 ataques aéreos efetuados, além do apoio de infantes do Hezzbolah, altamente motivados e com grande experiência em combate, torna-se difícil manter a versão extremista como digna de crédito, ademais, quando o próprio relata que o Exército Árabe da Síria fez uso intenso de barragem de foguetes, artilharia de tubo e morteiros. Há, no entanto, uma convergência de relatos, ambos os lados apontam combates nas cercanias de Sheikh al-Max.

A principal força contra qual se bate o Exército Árabe da Síria na região é a Frente Al-Nusra, esta, por sua vez, alicerçada por uma miríade de pequenos grupos extremistas.  Contra esta nuvem de combatentes insurgentes, fazem frente soldados regulares do Exército Árabe da Síria, combatentes operativos do Hezzbolah e voluntários iranianos. As forças na região travam uma batalha de nítido valor tático e estratégico, mas também simbólico, pois foi em Dar, que se iniciaram os protestos que desaguariam na revolta armada contra o Presidente Bachar Al Assad.

Beringov Proliv, vaso quebra – gelo da classe MPSV 06

Por: César A. Ferreira

Em um momento de tensões, onde a Europa acompanha a sanha de Washington em hostilizar a Rússia, deu-se, para o espanto de alguns e riso sardônicos de outros, o hastear do pavilhão eslavo no Quebra – Gelos Beringov Proliv, navio da classe MPSV06, construído na Alemanha pelo Nordic Yards Wismar GmbH (Estaleiro Nordic).  Estes quebra –  gelos fazem parte de um programa extenso da federação russa em equipar-se com uma frota renovada deste tipo de vaso, em vista das obrigações russas no tocante ao Ártico, que não são poucas.

O navio quebra-gelos Beringov Proliv (Estreito de Bering) é o segundo da classe MPSV06, e foi encomendado a um estaleiro estrangeiro, Estaleiro Nordic, no caso sediado na Alemanha, Wismar, algo que em virtude do estado de tensão política entre os membros da Europa Unida e a Rússia possui um significado tremendo. Talvez por isso, quando do hasteamento do pavilhão nacional (18.12.2015), contou-se com comitiva governamental de peso, esta composta pelo  Vice-Presidente do Governo da Federação da Rússia, Arkadiy Dvorkovich, do Governador das Ilhas Sakhalinas, Oleg Kozhemuako, do Ministro dos Transportes da Federação Russa, Maksim Sokolov, e do Deputado Victor Olersky. Nesta cerimônia houve a leitura de um cabograma do Presidente Wladimir Putin, onde este enfatizou que a construção, em tempo record desta unidade, em conjunto com uma terceira, Murman, representa um exemplo notável de cooperação entre fornecedores russos dos equipamentos elétricos, de resgate e navegação, com os estaleiros germânicos, contribuindo desta maneira para o reforço mútuo das relações entre empresas de ambos os países. e

A entrega oficial da embarcação ao cliente, Federação Russa, deu-se diretamente ao Ministério dos Transportes da Federação Russa, e não ao Ministério da Defesa, por ser tratar de um navio multipropósito, com função primária de salvamento/resgate. O primeiro navio da série, Spasatel Petr Gruzinski (Guarda Marinha Pedro Gruzinski),  foi construído na planta de estaleiros Amur, em Komsomolsk-on-Amur, Rússia; a terceira e a quarta embarcação desta classe ficaram a cargo Nordic Yards.

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Quebra-gelo com funções de salvamento e resgate, esta é a característica dos vasos da classe MPSV 06, da qual faz parte o Beringov Proliv. Observar os guindastes e o formato da popa. Foto: internet.

Dentre as características de classe está o nível de rompimento de gelo (classe 6), banquisas de até 1,5 metros, a disponibilidade de grandes guindastes, uma plataforma para helicópteros à vante do passadiço e uma câmara de descompressão para mergulhadores (mergulhos profundos, 300 metros). O navio dispõe, igualmente, da capacidade de operar sobmarinos remotos. Manobrável, conta com sistema bow thruster (duas hélices na proa) e eixos de propulsão azimutal. A embarcação é preparada para dar combate à incêndios, assistência médica (instalações hospitalares capazes de realizar cirurgias de emergência e reanimação), identificação e retirada de camada superficial de óleo no mar, busca e salvamento, além do reboque de embarcações, mesmo em condições adversas de mar. As atribuições destas embarcações estão listadas da seguinte maneira:

Operações de busca e salvamento; Apoio técnico em região de navegação perigosa (aúxílio à navegação em áreas de gelo); Auxílio às atividades marinhas de extração de Petróleo e Gás; Prestação de socorro médico em áreas sinistradas; Evacuação de áreas de risco (ilhas e embarcações abandonas e à deriva) e abrigo de náufragos resgatados; Reboque de embarcações, salvamento de náufragos, seres e objetos, no mar e/ou em banquisas de gelo; Salvamento de embarcações independente das condições de mar; Abertura de canais trafegáveis em portos congelados, quando das banquisas com espessuras de até 1,5 metros; Assistência em operações de mergulho, 60, 120 e 300 metros (dependendo dos equipamentos embarcados a bordo); Serviços técnicos subaquáticos; Limpeza de cascos; Levantamento de sub-solo marinho, observação direta e resgate de equipamentos até à profundidade de 3.000 metros; Combate ao fogo em embarcações e ao óleo em combustão na superfície.

Ao custo de 75.000.000 €, por unidade, os vasos de resgate da classe MPSV 06 deverão compor uma parte importante do dispositivo de segurança à navegação da Rota Norte. Esta rota, que encurta consideravelmente o tempo de transporte de cargas marítimas de centros exportadores asiáticos, China, Japão e Coréia do Sul, em direção aos mercados europeus, ganha ano, após ano, maior frequência de embarcações e como consequência óbvia um trafego marítimo mais intenso; como exemplo da importância desta denominada Rota Norte, temos a distância havida entre o porto russo de Murmansk, do seu equivalente japonês em Yokohama, através do Canal de Suez: 12.000 milhas náuticas, ou pouco mais de 22 mil quilômetros, aproximadamente. Este mesmo percurso, junto à Rota Norte resulta em 5.700 milhas náuticas, ou cerca de 10,5 mil quilômetros. O Beringov Proliv deverá ser designado para guarnecer o tráfego naval das Ilhas Sakhalinas e do extremo oriente.

Características gerais da classe MPSV 06:

Deslocamento: 5.217 tons.

Comprimento: 86 metros.

Boca: 19,1 metros.

Calado: 8,5 metros.

Espessura máxima de banquisas de gelo: 1,5 metros.

Propulsão: Diesel elétrica, acionada por dois eixos azimutais (2×3.500 kW).

Propusão auxiliar: Bow thruster (2x 1.4 MW).

Velocidade máxima: 15 nós.

Velocidade de cruzeiro: 11 nós.

Capacidade volumétrica de carga: 800 metros cúbicos.

Tripulação: 26 oficiais e marinheiros.

Técnicos e especialistas: 12.

Médicos: 2.

Sinistrados: 95 (náufragos, sobreviventes).

O Império do Caos prepara mais incêndios em 2016

O texto que segue é de autoria do respeitado colunista brasileiro Pepe Escobar, redigido em inglês na data de 24 de dezembro último (2015) para o prestigiado site RT – Russian Today. Pepe Escobar é ignorado pela mídia brasileira, todavia, os seus textos são reproduzidos pelo mundo afora, em inglês…

O Império do Caos prepara mais incêndios em 2016

Por: Pepe Escobar

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

Em seu seminal “A Queda de Roma: E o fim da civilização”, Bryan Ward-Perkins escreve, “(…) romanos antes da queda estavam tão certos quanto estamos hoje que o seu mundo iria continuar para sempre…  Eles estavam errados. Ser-nos-iam  sábios em não repetirmos a sua complacência”.

O Império do Caos, hoje, não versa sobre a complacência. Trata-se de arrogância – e medo. Desde o início da Guerra Fria, a questão crucial foi quem controlaria as grandes redes de comércio da Eurásia – ou “o coração”, de acordo com Sir Halford John Mackinder (1861-1947), o pai da geopolítica.

Poderíamos dizer que, para o Empire of Chaos, o jogo realmente começou com o golpe apoiado pela CIA no Irã, em 1953, quando os EUA finalmente encontraram, face a face, a famosa Eurásia, atravessada durante séculos pelas estradas da seda, e partiu para conquistar todos elas.

Apenas seis décadas após, é claro que não haverá uma Silk Road americana no século 21, mas sim, tal como o seu antiga antecessora, chinesa. A pressão de Pequim para o que foi batizado de “One Belt, One Road”, embute-se no conflito do século 21, entre o império em declínio e a integração Eurasiana. Subtramas chaves incluem a expansão da OTAN, obsessão perene do império na criação de uma zona de guerra fora do Mar do Sul da China.

Rota da seda
Trem inaugurando nova linha férrea na China. Foto: internet.

Com a análise da formada parceria estratégica Pequim-Moscou, as elites oligárquicas que realmente executam o Império do Caos estão debruçadas sobre o cerco da Eurásia – por considerar  que elas podem ser amplamente excluídas do processo de integração baseado em comércio, comércio e links avançados de comunicações.

Pequim e Moscou identificaram claramente provocação após provocação, juntamente com a demonização implacável. Mas, não ficarão retidos, pois ambos estão a jogar uma partida muito longa.

O presidente russo, Vladimir Putin insiste em tratar diplomaticamente com os líderes do Ocidente, tratando-os como “parceiros”. Mas ele sabe, e aqueles que os conhecem na China também sabem, que não são realmente “parceiros”. Não depois do bombardeio de 78 dias da OTAN em Belgrado, no ano de 1999. Não após o bombardeio intencional da Embaixada da China. Não depois do expansionismo non-stop da OTAN. Não após um segundo Kosovo sob a forma de um golpe ilegal em Kiev. Não depois da queda do preço do petróleo pelas monarquias clientes do Golfo, dos petrodólares americanos. Não depois da engenharia da queda do rublo por Wall Street. Não depois das sanções dos Estados Unidos da UE. Não após o esmagamento do mercado de ações na China por operadores em Wall Street. Não depois de non-stop sabre rattling no Mar do Sul da China. Não após a derrubada do Su-24.

É apenas um fio de distância

Um retorno rápido para os momentos que antecederam a preparação para o abate do Su-24 é esclarecedora. Obama reuniu-se Putin. Imediatamente a seguir Putin se reuniu com Khamenei. Sultan Erdogan teve uma síncope; uma aliança russo-iraniana formal foi publicamente anunciada em Teerã. Isso se deu no dia imediatamente anterior ao da derrubada do Su-24.

Hollande, na França, encontrou-se com Obama. Mas, em seguida, Hollande entrevistou-se com Putin. Erdogan estava sob a ilusão de que fabricara o pretexto perfeito para uma guerra da OTAN, a qual seria lançada em observância ao artigo 5º da Carta da OTAN. Não por acaso o estado fracassado da Ucrânia foi o único país a aprovar – com pressa – o abate do Su-24. No entanto, a própria OTAN recuou – um pouco de horror; o império não estava pronto para a guerra nuclear.

Pelo menos ainda não. Napoleão sabia que a história gira em torno de um fio delgado. Tanto quanto Guerra Fria 2.0 permanece em vigor estávamos, e continuará a ser, apenas um fio para longe da guerra nuclear.

Aconteça o que acontecer no chamado processo de paz sírio a guerra por procuração entre Washington e Moscou continuará. A orgulhosa US think-tank land não podem vê-la de outra maneira.

Para os neocons excepcionalistas e neoliberalcons, igualmente, o único fim de jogo digerível é uma partição da Síria. O sistema Erdogan iria devorar a parte de acima, ao norte. Israel ficaria com a parte restante e rica em petróleo do Golan Heights. E os proxies da Casa de Saud iriam devorar o deserto oriental.

Extremistas
Extremistas islâmicos em passeata de ódio. Foto: internet.

Rússia literalmente bombardeou todos estes elaborados planos jogando-os às cinzas, pois o passo seguinte após a partição seria característico.  Ancara, Riad – e o “líder de bastidor” Washington – empurrando uma estrada Jihad  por todo o caminho rumo ao norte do Cáucaso, assim como a Ásia Central adentro e Xinjiang (já há ao menos 300 uigures que lutam pelo EI/ ISIS/ISIL/Daesh.) Quando tudo mais falhar, nada como uma rodovia jihadista mergulhando como um punhal no corpo da integração Eurasiana.

No front chinês, quaisquer que sejam as “criativas” provocações do Império do Caos  e até onde possam ir, não irão obstruir os objetivos de Pequim no Mar do Sul da China – que é uma grande bacia abarrotada de petróleo inexplorado e rica em gás, além de ser uma importante rota naval para a China . Beijing, inevitavelmente, configurar-se-á em 2020 como um haiyang qiangguo um formidável poder naval.

Washington pode fornecer US$ 250 milhões em “ajuda” militar ao Vietnã, Filipinas, Indonésia e Malásia para os próximos dois anos, mas isso é em grande parte irrelevante. Quaisquer que sejam as ideias imperiais “criativas”, estas teriam que ter em conta, por exemplo, o DF-21D, míssil balístico “assassino de porta – aviões”, com um alcance de 2.500 km e capaz de transportar uma ogiva nuclear.

Na frente econômica, Washington-Pequim permanecerá como território privilegiado da guerra por procuração. Washington empurra o TPP – ou OTAN em giro comercial por toda a Ásia? Ainda é um trabalho de Sísifo, porque os 12 países membros precisam ratificá-lo, pelo menos não os EUA, com um Congresso extremamente hostil.

Contra este americana pônei de um truque, Xi Jinping, por sua vez, está implantando uma  complexa estratégia em três frentes; contra-ataque da China ao TPP, a Área de Livre Comércio da Ásia-Pacífico (FTAAP); o imensamente ambicioso “Um Cinturão, Uma Estrada” e os meios para financiar um tsunami de projetos, através do Banco Asiático de infraestrutura e Investimento (AIIB) – aríete chinês contra o Banco Mundial e o Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB), este controlado por Japão e EUA.

Para o Sudeste da Ásia, por exemplo, os números contam a história. No ano passado, a China foi o principal parceiro da ASEAN, da ordem de US$ 367.000.000.000. Isso irá crescer exponencialmente com uma correia, One Road – que irá absorver $ 200 bilhões em investimento chinês até 2018.

Heart of Darkness – revisitado

As perspectivas para a Europa são nada mais que sombrias. O pesquisador franco-iraniano Farhad Khosrokhavar tem sido um dos poucos a ser capaz de identificar o ponto crucial do problema. Um exército de reserva jihad em toda a Europa continuará a se alimentar de batalhões de jovens excluídos, nas pobres cidades do interior. Não há nenhuma evidência que os neoliberalcons da UE realizarão políticas socioeconômicas de com intuito de extrair essas massas alienadas dos guetos, empregando novas formas de socialização.

Assim, a rota de fuga vai continuar a ser uma versão semelhante ao vírus do Salafi-jihadismo, vendido por aproveitadores “PR-savvy” astutos como um símbolo de resistência; a única contra-ideologia disponível no mercado. Khosrokhavar definiu-a como o neo-umma – uma “comunidade efervescente que nunca existiu historicamente”, mas que agora está a convidar abertamente qualquer jovem europeu, muçulmano ou não, afligido por uma crise de identidade.

Em paralelo, neste nosso caminho de 15 anos completos de uma guerra neocom, sem fim, contra os Estados Independentes do Oriente Médio, o Pentágono sofrerá uma expansão turbo-charging, ilimitada, de algumas das suas bases existentes – a partir de Djibouti, no Corno de África até Erbil, no Curdistão iraquiano – em “hubs”.

Da África sub-saariana para o sudoeste da Ásia, espera-se um hub boom, todos eles alegremente hospedando as Forças Especiais; a operação foi descrita no Pentágono pelo supremo Ash “Império da lamentação” Carter como “essencial”; “Por nós não podermos prever o futuro, tais linfonodos regionais – a partir de Moron, Espanha, para Jalalabad, Afeganistão – irão fornecer a presença logística à vante, capazes de responderem a uma série de crises, de terror e de outros tipos. Permitirão resposta unilateral às crises, operações de contra-terrorismo, ou intervenções em alvos de alto valor”.

Está tudo aqui: o Excepcionalismo unilateral em ação, contra quem se atrever a desafiar os ditames imperiais.

Da Ucrânia à Síria, e em toda a MENA (Médio Oriente e Norte da África), a guerra por procuração entre Washington e Moscou, com apostas cada vez mais altas, não cessará. O desespero imperial sobre a irreversível ascensão chinesa também não diminuirá. Com o Novo Grande Jogo a ganhar velocidade, a Rússia fornece poderes aos eurasianos:  Irã, China e Índia, com sistemas de defesa de mísseis além de tudo que o Ocidente imagina, até se acostumar com a nova normalidade: Guerra Fria 2.0 entre Washington e Pequim/Moscou.

Deixo-vos com Joseph Conrad, escrevendo em Coração das Trevas: “Há uma marca da morte, um gosto ou mortalidade nas mentiras… Era seu desejo rasgar o tesouro para fora das entranhas da terra, sem nenhum propósito de elevado moral nas suas costas quanto há em assaltantes quebrando um cofre… Não poderíamos compreender, pois estávamos longe demais e não se conseguia, porque estávamos viajando na noite das primeiras eras, daquelas eras que já se foram, dificilmente deixando algum sinal – e sem lembranças … “(.)