Semana 15 da intervenção russa na Síria: Quando nenhuma notícia é boa notícia

Data de publicação: 17/1/2015.

Autor: The Saker

Fonte original:  Vineyard of the Saker

Fonte em Português: Oriente Mìdia

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu.

Pode-se dizer que a intervenção russa na Síria entrou numa espécie de rotina: os russos bombardeiam, muito, e os sírios avançam em quase todos os fronts, mas lentamente. Por mais que os que esperavam colapso rápido do Daesh seguido de várias grandes vitórias do estado sírio estejam talvez desapontados, pessoalmente estou ainda mais encorajado por esses eventos. Explico por quê:

Se os sírios não venceram em alguma rápida Blitzkrieg [guerra-relâmpago], é porque, em primeiro lugar e sobretudo, nenhuma Blitzkrieg jamais foi possibilidade real. Os sírios nunca tiveram números que lhes permitisse concentrar forças suficientes num eixo de ataque e, subsequentemente, explorar alguma abertura. Os sírios tampouco têm o poder de fogo necessário para preparar as defesas do Daesh antes de tentar ofensiva daquele tipo.

De fato, um papel secundário das Forças Aeroespaciais Russas foi prover, do ar, o poder de fogo que os sírios não tinham nas próprias forças terrestres. Mas, por mais que uma Blitzkrieg seja muito impressionante, embora arriscada, há outro tipo de guerra também já testada no tempo, a guerra de atrito [ing. attrition warfare], que também gera resultados. Não estou falando de um tipo de guerra de atrito da 1ª Guerra Mundial, é claro, mas de um tipo específico do conflito sírio.

Os russos não param de degradar o Daesh em vários níveis: atingem postos de comando, depósitos de munição, rotas logísticas e de suprimento, bases de treinamento, etc. Dado que vários desses alvos já estão destruídos, os russos também estão provendo mais e mais apoio aéreo direto próximo, quer dizer, agora estão voando missões em apoio direto às operações do exército sírio. Há também cada vez mais evidências de que há oficiais russos trabalhando bem próximos das unidades sírias de linha de frente. Essa cooperação próxima e a coordenação fina entre russos e sírios já gerou várias pequenas vitórias e pelo menos uma grande vitória: a cidade estratégica de Salma, na província de Latakia no nordeste do país, está agora completamente libertada.

– Assistam a esse vídeo (em russo, com legendas em inglês, mas o idioma nem é necessário), da libertação da cidade.

– Para acompanhar progressos recentes, há esse relatório do Quartel-general Russo (legendas em inglês).

Do lado negativo, sírios e russos ainda não encontraram meio para negar ao Daesh sua maior vantagem: a capacidade para arrastar mais e mais combatentes para dentro da Síria, pela Turquia e outros países.

Nesse momento ainda não se vê com clareza quem está levando vantagem nessa competição: se os sírios matam takfiris mais depressa do que o Daesh os importa, ou não. Seja como for, o que é certo é que os sírios estão avançando, o que me diz que, por mais que o influxo de novos combatentes com certeza seja problema para os sírios, não é fator que tenha tornado possível, para o Daesh, impedir os sírios de avançarem.

Já mencionei no passado que os russos estão fornecendo aos sírios sistemas avançados de artilharia que, gradualmente, restaurarão, para os sírios, a capacidade de poder de fogo nas unidades de solo do exército.

Outro item interessante do noticiário recém surgido: há relatos de que a Rússia, agora,está fornecendo armamento diretamente ao Hezbollah.

Se aquelas notícias se confirmarem (mais ou menos; ninguém jamais reconhecerá oficialmente, claro), teremos aí resposta muito elegante às bombas de Israel contra depósitos de armamento do Hezbollah.

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Soldados do Exército Árabe da Síria exultantes por libertarem um bairro dos terroristas. Foto: Portal R7.

Quanto ao Irã, podemos ter certeza de que podem obter no mercado russo, em todos os casos, quase qualquer coisa de que venham a precisar. Em outras palavras, Rússia estará lentamente, mas consistentemente, reconstruindo as capacidades sírias.

Mesmo com tudo isso, o grande evento das duas últimas semanas é, na realidade, um não evento. É o fato de que a “coalizão alternativa” liderada pelos EUA está conseguindo precisamente nada. Não apenas a grande conferência na Arábia Saudita foi fracasso totaldepois que o grupo Ahrar al-Sham deixou a reunião, mas, além disso, a recente tentativa dos sauditas para criar uma crise com o Irã também deu em nada, acabou sem qualquer resultado tangível.

O mesmo vale para a intervenção francesa em resposta aos massacres em Paris: o [porta-aviões] Charles de Gaulle navegou para a Síria e daí… nada! Literalmente nada, coisa nenhuma, aconteceu. Quando ao Hegemon Mundial, parece que Tio Sam simplesmente não sabe o que fazer: todos vimos uma série de declarações insípidas e depois delas, nada. Os turcos, por sua vez, enfrentam agora situação interna que só piora dia após dia e também já parecem não saber o que fazer quanto à Síria.

Por tudo isso é que entendo que “nenhuma notícia é boa notícia”: porque nenhuma notícia significa que a Rússia é o único jogo na cidade: seja qual for o passo do avanço russo-sírio contra o Daech, são os únicos que estão realmente fazendo acontecer alguma coisa, enquanto todos os demais atores estão em total desarranjo e confusão.

Por algum tempo o Pentágono fez circular a ideia de uma ofensiva curda apoiada pelos EUA contra a cidade de  apresentada como “capital do Daesh“, e algumas forças especiais dos EUA foram mandadas para ajudar os curdos, mas rapidamente se viu que os turcos opunham-se firmemente àquela ação. Pior ainda, os curdos recusaram-se a servir como bucha de canhão para operação comandada dos EUA contra o Daech. E foi-se pelo ralo o grande plano.

Em outras palavras, e nesse ponto do tempo, parece é que EUA, OTAN, UE, turcos, sauditas etc. estão absolutamente sem plano viável e sem ação. Os únicos atores que não só têm plano, mas também estão agora trabalhando a favor de seu objetivo de longo prazo são Rússia e Irã. Vale a pena também observar que o plano russo-iraniano inclui flexibilidade prevista na estrutura: sendo possível, russos e iranianos querem alcançar a melhor situação em campo, antes de iniciar quaisquer negociações sobre o futuro da Síria. Se não for possível e se o Império insistir e mudar as regras do jogo e aumentar a aposta, nesse caso o plano de volta ao pé de apoio é simples: derrotar militarmente o Daech.

A melhor prova de que o lado russo está disposto a sustentar campanha longa é o recente acordo SOFA (ing. status of forces agreement) assinado entre Russos e Síria e que, basicamente, regula a presença russa na Síria e que foi assinado sem limite de tempo. De fato, qualquer dos lados que queira retirar-se do acordo comprometeu-se a dar um ‘aviso prévio’ com um ano de antecedência. É possível que iranianos e sírios também tenham acordo similar, mas não foi divulgado.

Há muita especulação sobre uma possível operação russa de solo, na Síria. É ideia que absolutamente não me convence. Não apenas funcionários e especialistas militares russos descartaram essa possiblidade, mas, simplesmente, os militares russos não estão configurados para esse tipo de projeção de poder de longo alcance. Sim, a Rússia pode, em teoria, mandar forças aeroembarcadas para lá e depois apoiá-las com uma força-tarefa naval, mas seria ação contrária à doutrina militar russa e gera riscos potenciais muito sérios. Exceto se ocorrer algo de realmente extraordinário, não vejo o Kremlin entrando nesse tipo de gambito extremamente perigoso.

Por tudo isso, o plano parece ser o seguinte:

  1. Estabilizar o governo sírio [feito]
  2. Guerra de atrito contra o Daesh (em andamento)
  3. Reconstruir as forças armadas sírias (em andamento)
  4. Estabelecer uma presença militar russa permanente [feito]
  5. Impedir que EUA-OTAN imponham uma zona aérea de exclusão [feito]
  6. Forçar o Império a negociar com Assad (em andamento)
  7. Bloquear o apoio que turcos, sauditas e qataris dão aoDaech (em andamento)
  8. Cooptar a maior parte possível da oposição armada contra Assad para uma frente unida anti-Daech(em andamento)
  9. Prover ajuda militar ao Irã e ao Hezbollah (em andamento)
  10. Manter combatentes do Daesh longe da Rússia e dos aliados da Rússia no Cáucaso e na Ásia Central (em andamento)
  11. Tentar convencer os europeus de que a posição deles no Oriente Médio (e em e nos demais pontos) é de autoderrota, e que devem trabalhar com a Rússia para restaurar a estabilidade (sem resultados até agora)
  12. Tentar meter uma cunha entre EUA e Europa (sem resultados até agora).

Acho que esse plano combina com sucesso objetivos de curto e de longo prazo, e tem boa chance de ser bem-sucedido em, pelo menos, os 10 primeiros objetivos. Infelizmente, não vejo sinal algum de que o tacão dos EUA sobre a Europa (aplicado mediante as elites europeias comprador que estão no poder) esteja perdendo força. Se por mais não for, o fracasso que foi a viagem de Hollande a Washington já provou que também à França já não resta qualquer soberania real.

 

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