Exército Árabe da Síria demonstra novas habilidades

Por: César A. Ferreira

É sabido que um exército que se mantém muito tempo em paz tende a enrijecer-se, devido não só ao apego das formas conhecidas de combater, como ao desprezo,  discreto,  mas sentido, por tudo que seja inovador, ou diferente. Um exemplo clássico é a Armée de Terre, que partiu para lutar a Segunda Grande Guerra como se esta fosse a repetição do Front Ocidental da Primeira Grande Guerra. O resultado é bem conhecido por todos.

Não poderia ser diferente com o Exército Árabe da Síria, que neste confronto com foras irregulares, mas extensas, além de muito bem armadas no padrão OTAN, com aquilo que há de melhor no arsenal ocidental, tal como os ATGW TOW, foi obrigado por estes mesmos motivos a rever de maneira ampla os seus conceitos, formas de combater e dogmas, antes arraigados, para fazer valer a sua vontade no campo de batalha. Não que seja uma novidade para os sírios. Em 1982 a infantaria síria concebeu grupos de infantaria, armados com RPG-7, com o intuito de caçar blindados israelenses no Vale do Bekaa. Estes grupos “matadores” causaram baixas desproporcionais na força blindada israelense, dado que eram grupos pequenos, que se aproveitavam das reentrâncias do terreno e do ambiente urbano. Para as Forças de Defesa de Israel o drama iria se repetir, desta vez na forma de pesadelo em 1986, tendo como inimigo o Hezzbolah. Mas, esta é outra história…

Não é novidade que este conflito, na Síria, tenha um forte componente urbano, portanto de uma guerra de atrito, mas se enganam aqueles que pensam em formações pesadas, ataques maciços, com uso de extenso de Carros de Combate como aríetes modernos. Isto só os exporia às armas anti-carro. Na verdade dá-se uma procura grande pela mobilidade e poder de fogo. Não por outro motivo, vê-se de forma onipresentes os canhões de tiro rápido de 23mm montados nas caçambas de “Pick Ups”… O Exército Árabe da Síria adotou esta forma de combater, e possui a sua frota de canhões de tiro rápido de deslocamento imediato.

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Elemento de ligação e exploração do exército sírio percorre de motocicleta a cidade disputada de Salma. Foto: Youssef Karwashan/AFP

A arma secreta, no entanto, é outra… A motocicleta! Isto mesmo, uma simples moto é a grande estrela da vitória do Exército Árabe da Síria na retomada de Salma. É verdade que a ala aérea russa se fez presente, e que a barragem de artilharia foi intensa e muito bem coordenada, mas no campo da infantaria, foram as motocicletas aquelas que permitiram os avanços rápidos dos infantes, evadindo-se dos snipers, que não tinha tempo de mirar e disparar em alvos tão fugidios. Em declaração para a Agência AFP, um jovem combatente, identificado como Hany, afirmou: ”A forma como combatemos tem  mudado desde o princípio da guerra, e temos desenvolvido os nossos próprios métodos ofensivos”, em seguida completou, “Hoje, nós utilizamos as motos pela sua velocidade e mobilidade”.

O motivo deste apreço, além da velocidade, que serve como um subterfúgio contra os franco-atiradores, deve-se ao fato delas superarem obstáculos com facilidade, além de serem os veículos ideais para transitar nas ruelas estreitas dos bairros típicos de muitas cidades sírias. As ruas estreitas, tal como aquelas que existem em Salma, dificultam, isto quando não inviabilizam por completo a progressão dos blindados e dos Carros de Combate. Para as motos, isto não é um problema, daí o uso de cerca de 80 motocicletas na batalha pela cidade de Salma.

Não foi uma inspiração celestial, tampouco de algum iluminado oficial, ou praça. Foi, isto sim, a observação objetiva e sem menosprezo da forma como o inimigo combatia. O uso de motos foi copiado, sem cerimônia ou vergonha, como demonstra o nosso informante: “Não nos negamos a dizer que aprendemos a tática de utilizar motos com os rebeldes. Temos desenvolvidos novos métodos no combate urbano e contra a guerra de guerrilha, e a luta em motocicletas pode chegar a ser uma tática em que os exércitos regulares podem vir a se basear”.

Para os sírios a moto significa a sobrevivência, pois pode transladar feridos, levar munições para grupos semi-cercados, recompletar pelotões e grupos de combate, bem como serem equipadas com metralhadoras, RPG-7, ou superior, onde até mesmo o uso de Nightvison Goggles, se faz presente.

Quem diria que a guerra está aos poucos se parecendo com a sua representação hollywoodiana…

É assim.

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