Inteligência russa caça chechenos no exterior

Federação Russa é a suspeita de efetuar assassinatos flagrantes no exterior, principalmente na Turquia.

Por: César A. Ferreira

Não importa o que digam sobre as ações de inteligência nestes tempos modernos, tal como as afirmações de que são as análises de interceptações eletrônicas a prioridade, ou a razão de existir das agências atualmente, o fato é que como antes, da antiguidade aos nossos dias, a inteligência efetuada por operadores é, e sempre será fundamental.

A antiga KGB, como se sabe, era mestra em trabalhar com o elemento humano. Ao que parece tal habilidade não foi esquecida pelas suas agências sucessoras, herdeiras do serviço de inteligência, a FSB (Serviço Federal de Segurança) e a SVR (Serviço de Inteligência no Exterior), além da igualmente eficiente e aparentemente eterna GRU (Inteligência Militar).  Dentre as atribuições da inteligência, aparte a óbvia coleta de informações, está a eliminação de personagens chave, cujo desaparecimento se faz necessário para o bem do Estado.  Os serviços de inteligência eslavos sempre foram reputados neste pormenor, não que fossem os ocidentais ineptos, ou desatenciosos no tocante à eliminação de indesejáveis, mas, fora o trabalho efetuado pelos serviços soviéticos aqueles que receberam a atenção da história, sendo o exemplo maior o assassinato de Trotsky por Ramón Mercader.

Os serviços atuais, FSB/SVR mostram-se muito atuantes nesta modalidade, como visto no caso Alexander Litvinenko (Alexander Valterovich Litvinenko), ex-coronel da FSB que havia desertado para o “Ocidente”. Foi alcançado pelo longo braço dos seus ex-colegas no Reino Unido ao tomar um simples chá verde… Batizado com Polônio! A morte de Litvinenko, foi um recado, pois o Polônio é um elemento radioativo mortal quando em contato com tecido vivo, visto que basta uma micrograma para matar uma pessoa com oitenta quilos de peso, emissor de partículas alpha, pode por isso ser transportado com facilidade, visto que as partículas alpha são facilmente contidas, um frasco simples já é suficiente… No caso de Litvinenko a morte lhe foi servida na forma de um adoçante… Dado o fato que o Polônio 210 possui uma vida de apenas 138 dias, e que a sua obtenção, em função da sua raríssima ocorrência na natureza deriva do intenso fluxo de neutros sobre o Bismuto (Bi-209), percebe-se que a intenção era dar um recado: que o Reino Unido era incapaz de proteger quem quer que fosse.

Não é um assombro, portanto, que haja operações para eliminação de inimigos declarados da Federação Russa, e que muitas destas ações venham a ocorrer em solo turco. Serviços de informações, como se sabe, acabam por ter maior afinidade em suas ações de uma maneira mais efetiva em algumas nações do que em outras. Os motivos são vários, desde uma identidade cultural próxima, proximidade, ou compartilhamento de fronteiras até a conivência entre governos. É fato, todavia, que os russos sentem-se bem nas operações centradas na Anatólia, e isso desde a Guerra-Fria, quando a unidade política atendia pelo nome de União Soviética e o braço de segurança pelo nome de KGB…  Istambul, como se sabe, é uma capital cosmopolita, com grande fluxo de pessoas/turistas e isto por certo facilita qualquer operação. Portanto, os casos de emboscadas mortais, como a que vitimou Abdulvakhid Edelgireyev, devem ser encaradas, sempre, como de reais possibilidades de ocorrer, independente do tempo, evento, ou mesmo do local.

O assassinato de Abdulvakhid Edelgireyev, diga-se, foi cinematográfico. Em visita a cidade para fazer compras com sua sobrinha, logo após ter adentrado ao carro e acomodado a criança de três anos de idade no assento do passageiro, sofreu uma colisão intencional em seu carro. De imediato abaixou a sobrinha no assento, empurrando-lhe a cabeça entre as pernas, para então empreender fuga e desabrida correria. Todavia, balas são mais rápidas… Crivado, ensanguentou no chão até a chegada dos paramédicos, que só fizeram atestar a sua morte. Cinco perfurações foram contabilizadas.

Abdulvakhid Edelgireyev não era um terrorista qualquer, por anos percorreu as montanhas da Chechênia e do Daguestão, promovendo surtidas rápidas eivadas de sangue. Planejamentos de ataques suicidas em Moscou e no Aeroporto Domodedovo lhe são atribuídos, além disso soma-se a sua participação no conflito sírio, em associação à Frente Al-Nusra. Portanto, percebe-se que Abdulvakhid Edelgireyev não era um alvo qualquer, mas sim de grande valor, o que explica a emboscada, elaborada com a monitoração dos seus movimentos em Istambul, notadamente do seu apartamento em Kayasehir. A escolha do momento para ação é notável: o passeio com a sobrinha de três anos de idade, um momento de estrema vulnerabilidade do alvo, dado a ligação emocional deste para com a criança; algo que comprovou-se no evento. Notável profissionalismo da equipe operativa, não só pela escolha do momento de vulnerabilidade da vítima, mas pela execução rápida e consequente evasão, que se deu em rota pré-planejada, dado a proximidade de uma delegacia de polícia do local escolhido para a emboscada.

Outros alvos foram eliminados em Istambul, o que não surpreende, visto que a cidade tornou-se base para refugiados chechenos, e dentre estes muitos líderes insurgentes. É notória a chacina da casa de chá, 2011, quando três chechenos foram mortos a tiros de calibre não usual, 9 x 39mm, disparados de um fuzil bullpup Groza, arma e munição que não são encontrados com facilidade para serem comercializados nas sombras dos mercados negros. Investigações efetuadas pelas autoridades turcas apontaram a participação de nove pessoas, todas elas ingressas na Turquia com passaportes falsos. Estes, deixados para trás em fuga.

Não só de ações violentas são os alvos vitimados, ações mais sutis são empreendidas para eliminá-los. Dado que existe uma comunidade chechena na cidade, Istambul, uma capital populosa com ares cosmopolitas, a possibilidade de infiltração existe e é aproveitada. O envenenamento de alimentos tem se mostrado como uma modalidade apreciada pelos agentes operativos, tanto, que está foi a forma adotada para eliminar o “emir” Umarov, líder religioso responsável pela conversão de inúmeros jovens chechenos à insurgência armada. Esta, dentre outras ações, acabou por alarmar a comunidade chechena em Istambul, forçando-os a adotar hábitos de discrição e proteção, tal como andar em grupos, abastecer o carro em um postos de combustíveis determinados, em estreita vigilância, restrição de deslocamento pela cidade de membros proeminentes, ou de insurgência ativa na comunidade, restrição esta que se estende aos familiares. Medidas compreensíveis, diga-se, mas pouco efetivas contra os métodos das agências de inteligência, seja de onde for.

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