Considerações sobre a execução de Ruqia Hassan

Por: César A. Ferreira

Um dos problemas da juventude é a falta de sabedoria. O jovem, por força da natureza acredita ser capaz de tudo fazer, e quando instruído, embebe-se da soberba, da arrogância do absoluto saber, como se incapaz de cometer um erro fosse. Entender-se a si, ao demais e ao mundo a partir de uma observação simples da realidade parece ser algo impossível, vale antes a interpretação modelada pelas crenças próprias. Estes são, entre outros, os pecados da juventude.

Não é de assustar perceber que a maioria esmagadora dos insurgentes islamitas que afligem a Síria e o Oriente Médio, sejam em imensa maioria, jovens. O islã na vertente sunita wahabitta tornou-se a ideologia da contestação deste século XXI, por mais anacrônico que possa parecer. O que assusta, diga-se, é a ingenuidade daqueles que possuem a formação necessária para entender a si, aos outros e ao mundo, ter idade suficiente para aprender com sua vivência, e ainda sim, de maneira típica das pessoas advindas das classes desapegadas ao labor, revoltar-se contra quem lhe permite viver… Este é o caso da bela Ruqia Hassan, assassinada por membros do Estado Islâmico na cidade de Raqqa.

Ruqia Hassan, 30 anos de idade, formada em Filosofia na cidade de Aleppo, dedicava-se a escrever sobre o cotidiano da cidade de Raqqa, submetida pelas hostes do Estado Islâmico. Costumava postar mensagem curtas no Twitter, com o pseudônimo de Nisan Ibrahim, algumas delas com senso de humor fino, quase britânico. Uma delas, por exemplo, dizia: “As pessoas no mercado esbarram umas nas outras… não porque sejam muitas… mas porque têm os olhos colados ao céu(.)” (em virtude dos ataques aéreos). Sua oposição ao Estado Islâmico era declarada, se não explicitamente, ao menos de forma objetiva, tal como na declaração: “Está começando outro ataque aéreo, que Deus proteja os civis e leve os restantes”. Dado a importância que o Estado Islâmico dá aos meios de comunicação e a propaganda, não surpreende que tivessem Ruqia como alvo. Ruqia foi detida e executada sob a acusação de ser uma espiã do Exército Livre Sírio.

De fato, a ilustrada Ruqia Hassan havia aderido ao Exército Livre Sírio, ou seja, ela havia se tornado um membro da oposição em armas à República Árabe da Síria, avessa ao líder Bachar Al-Assad, a quem chamava de ditador… A mesma república, cujo regime permitiu que se educasse e tivesse a liberdade de ir e vir, contrair matrimônio e divorciar-se, adquirir bens, enfim… De viver. Ruqia, apesar de ter estudado filosofia, pouco uso fez do conhecimento adquirido, pois, com a mentalidade pseudo-cosmopolita engrossou a oposição à Assad, na sigla do ELS, cuja função ninguém sabe ao certo, pois diz combater ao Estado Islâmico e ao regime republicano, o que leva a pergunta: combate pelo quê?

Por favor, não me venham com os chavões de sempre, como Democracia, Estado Democrático de Direito e coisas do tipo. No atual estado de coisas da Síria isto é uma piada, e de muito mal gosto. Em termos práticos o Exército Livre da Síria não conseguiu outra coisa do que viabilizar a guerra santa promovida pelos extremistas wahabittas na Síria. Seus guerreiros mudam de lado como quem muda de camisa, e as armas e suprimentos que lhes são entregues pela OTAN, acabam alegremente nas mãos do Estado Islâmico. Não existe meio termo possível, o conceito de “Rebelde Moderado” é um absurdo que só pode ser levado adiante por quem é hipócrita, ou idiota. Neste conflito só existe duas opções: apoio a República Árabe da Síria, e ao seu regime, o que significa uma estrutura estatal e de responsabilidade, ou apoio aos grupos insurgentes, cujo significado é dar suporte ao medievalismo escravagista, perdido no tempo, e expandido via proselitismo do terror.

Ruquia ao aderir ao ESL fez a sua escolha, da qual, talvez, estivesse dolorosamente consciente, ao retratar com viés resignado, ligeiramente pessimista, o cotidiano de Raqqa. Ela que por lá ficou, quando da queda da cidade em mãos dos extremistas do Estado Islâmico, talvez alimentasse no íntimo um sentimento de frustração e amargor, a consciência do erro cometido… Não teve como escolher, preferiu, então, morrer. Sabia do seu erro, que fora de não entender o seu mundo. Por isso retratava o cotidiano de Raqqa, e manteve sua atitude frente às ameaças de morte… Até que ela se consumou.

Não vamos apontar, dizer, afirmar, que foi um ato de coragem. Antes, de resignação. Coragem tem o batalhão feminino do Exército Árabe Sírio, que em armas combatem os extremistas insurgentes, estas sim, independente da formação, do grau de instrução, entendem o seu país, os seus semelhantes e o que se passa no mundo, escolheram, portanto, defender a nação e os cidadãos, mesmo tendo a ciência do destino terrível que lhes aguarda caso sejam cercadas e capturadas. Às combatentes dedico o termo coragem. Merecem.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s