O Império do Caos prepara mais incêndios em 2016

O texto que segue é de autoria do respeitado colunista brasileiro Pepe Escobar, redigido em inglês na data de 24 de dezembro último (2015) para o prestigiado site RT – Russian Today. Pepe Escobar é ignorado pela mídia brasileira, todavia, os seus textos são reproduzidos pelo mundo afora, em inglês…

O Império do Caos prepara mais incêndios em 2016

Por: Pepe Escobar

Tradução e adaptação: César A. Ferreira

Em seu seminal “A Queda de Roma: E o fim da civilização”, Bryan Ward-Perkins escreve, “(…) romanos antes da queda estavam tão certos quanto estamos hoje que o seu mundo iria continuar para sempre…  Eles estavam errados. Ser-nos-iam  sábios em não repetirmos a sua complacência”.

O Império do Caos, hoje, não versa sobre a complacência. Trata-se de arrogância – e medo. Desde o início da Guerra Fria, a questão crucial foi quem controlaria as grandes redes de comércio da Eurásia – ou “o coração”, de acordo com Sir Halford John Mackinder (1861-1947), o pai da geopolítica.

Poderíamos dizer que, para o Empire of Chaos, o jogo realmente começou com o golpe apoiado pela CIA no Irã, em 1953, quando os EUA finalmente encontraram, face a face, a famosa Eurásia, atravessada durante séculos pelas estradas da seda, e partiu para conquistar todos elas.

Apenas seis décadas após, é claro que não haverá uma Silk Road americana no século 21, mas sim, tal como o seu antiga antecessora, chinesa. A pressão de Pequim para o que foi batizado de “One Belt, One Road”, embute-se no conflito do século 21, entre o império em declínio e a integração Eurasiana. Subtramas chaves incluem a expansão da OTAN, obsessão perene do império na criação de uma zona de guerra fora do Mar do Sul da China.

Rota da seda
Trem inaugurando nova linha férrea na China. Foto: internet.

Com a análise da formada parceria estratégica Pequim-Moscou, as elites oligárquicas que realmente executam o Império do Caos estão debruçadas sobre o cerco da Eurásia – por considerar  que elas podem ser amplamente excluídas do processo de integração baseado em comércio, comércio e links avançados de comunicações.

Pequim e Moscou identificaram claramente provocação após provocação, juntamente com a demonização implacável. Mas, não ficarão retidos, pois ambos estão a jogar uma partida muito longa.

O presidente russo, Vladimir Putin insiste em tratar diplomaticamente com os líderes do Ocidente, tratando-os como “parceiros”. Mas ele sabe, e aqueles que os conhecem na China também sabem, que não são realmente “parceiros”. Não depois do bombardeio de 78 dias da OTAN em Belgrado, no ano de 1999. Não após o bombardeio intencional da Embaixada da China. Não depois do expansionismo non-stop da OTAN. Não após um segundo Kosovo sob a forma de um golpe ilegal em Kiev. Não depois da queda do preço do petróleo pelas monarquias clientes do Golfo, dos petrodólares americanos. Não depois da engenharia da queda do rublo por Wall Street. Não depois das sanções dos Estados Unidos da UE. Não após o esmagamento do mercado de ações na China por operadores em Wall Street. Não depois de non-stop sabre rattling no Mar do Sul da China. Não após a derrubada do Su-24.

É apenas um fio de distância

Um retorno rápido para os momentos que antecederam a preparação para o abate do Su-24 é esclarecedora. Obama reuniu-se Putin. Imediatamente a seguir Putin se reuniu com Khamenei. Sultan Erdogan teve uma síncope; uma aliança russo-iraniana formal foi publicamente anunciada em Teerã. Isso se deu no dia imediatamente anterior ao da derrubada do Su-24.

Hollande, na França, encontrou-se com Obama. Mas, em seguida, Hollande entrevistou-se com Putin. Erdogan estava sob a ilusão de que fabricara o pretexto perfeito para uma guerra da OTAN, a qual seria lançada em observância ao artigo 5º da Carta da OTAN. Não por acaso o estado fracassado da Ucrânia foi o único país a aprovar – com pressa – o abate do Su-24. No entanto, a própria OTAN recuou – um pouco de horror; o império não estava pronto para a guerra nuclear.

Pelo menos ainda não. Napoleão sabia que a história gira em torno de um fio delgado. Tanto quanto Guerra Fria 2.0 permanece em vigor estávamos, e continuará a ser, apenas um fio para longe da guerra nuclear.

Aconteça o que acontecer no chamado processo de paz sírio a guerra por procuração entre Washington e Moscou continuará. A orgulhosa US think-tank land não podem vê-la de outra maneira.

Para os neocons excepcionalistas e neoliberalcons, igualmente, o único fim de jogo digerível é uma partição da Síria. O sistema Erdogan iria devorar a parte de acima, ao norte. Israel ficaria com a parte restante e rica em petróleo do Golan Heights. E os proxies da Casa de Saud iriam devorar o deserto oriental.

Extremistas
Extremistas islâmicos em passeata de ódio. Foto: internet.

Rússia literalmente bombardeou todos estes elaborados planos jogando-os às cinzas, pois o passo seguinte após a partição seria característico.  Ancara, Riad – e o “líder de bastidor” Washington – empurrando uma estrada Jihad  por todo o caminho rumo ao norte do Cáucaso, assim como a Ásia Central adentro e Xinjiang (já há ao menos 300 uigures que lutam pelo EI/ ISIS/ISIL/Daesh.) Quando tudo mais falhar, nada como uma rodovia jihadista mergulhando como um punhal no corpo da integração Eurasiana.

No front chinês, quaisquer que sejam as “criativas” provocações do Império do Caos  e até onde possam ir, não irão obstruir os objetivos de Pequim no Mar do Sul da China – que é uma grande bacia abarrotada de petróleo inexplorado e rica em gás, além de ser uma importante rota naval para a China . Beijing, inevitavelmente, configurar-se-á em 2020 como um haiyang qiangguo um formidável poder naval.

Washington pode fornecer US$ 250 milhões em “ajuda” militar ao Vietnã, Filipinas, Indonésia e Malásia para os próximos dois anos, mas isso é em grande parte irrelevante. Quaisquer que sejam as ideias imperiais “criativas”, estas teriam que ter em conta, por exemplo, o DF-21D, míssil balístico “assassino de porta – aviões”, com um alcance de 2.500 km e capaz de transportar uma ogiva nuclear.

Na frente econômica, Washington-Pequim permanecerá como território privilegiado da guerra por procuração. Washington empurra o TPP – ou OTAN em giro comercial por toda a Ásia? Ainda é um trabalho de Sísifo, porque os 12 países membros precisam ratificá-lo, pelo menos não os EUA, com um Congresso extremamente hostil.

Contra este americana pônei de um truque, Xi Jinping, por sua vez, está implantando uma  complexa estratégia em três frentes; contra-ataque da China ao TPP, a Área de Livre Comércio da Ásia-Pacífico (FTAAP); o imensamente ambicioso “Um Cinturão, Uma Estrada” e os meios para financiar um tsunami de projetos, através do Banco Asiático de infraestrutura e Investimento (AIIB) – aríete chinês contra o Banco Mundial e o Banco Asiático de Desenvolvimento (ADB), este controlado por Japão e EUA.

Para o Sudeste da Ásia, por exemplo, os números contam a história. No ano passado, a China foi o principal parceiro da ASEAN, da ordem de US$ 367.000.000.000. Isso irá crescer exponencialmente com uma correia, One Road – que irá absorver $ 200 bilhões em investimento chinês até 2018.

Heart of Darkness – revisitado

As perspectivas para a Europa são nada mais que sombrias. O pesquisador franco-iraniano Farhad Khosrokhavar tem sido um dos poucos a ser capaz de identificar o ponto crucial do problema. Um exército de reserva jihad em toda a Europa continuará a se alimentar de batalhões de jovens excluídos, nas pobres cidades do interior. Não há nenhuma evidência que os neoliberalcons da UE realizarão políticas socioeconômicas de com intuito de extrair essas massas alienadas dos guetos, empregando novas formas de socialização.

Assim, a rota de fuga vai continuar a ser uma versão semelhante ao vírus do Salafi-jihadismo, vendido por aproveitadores “PR-savvy” astutos como um símbolo de resistência; a única contra-ideologia disponível no mercado. Khosrokhavar definiu-a como o neo-umma – uma “comunidade efervescente que nunca existiu historicamente”, mas que agora está a convidar abertamente qualquer jovem europeu, muçulmano ou não, afligido por uma crise de identidade.

Em paralelo, neste nosso caminho de 15 anos completos de uma guerra neocom, sem fim, contra os Estados Independentes do Oriente Médio, o Pentágono sofrerá uma expansão turbo-charging, ilimitada, de algumas das suas bases existentes – a partir de Djibouti, no Corno de África até Erbil, no Curdistão iraquiano – em “hubs”.

Da África sub-saariana para o sudoeste da Ásia, espera-se um hub boom, todos eles alegremente hospedando as Forças Especiais; a operação foi descrita no Pentágono pelo supremo Ash “Império da lamentação” Carter como “essencial”; “Por nós não podermos prever o futuro, tais linfonodos regionais – a partir de Moron, Espanha, para Jalalabad, Afeganistão – irão fornecer a presença logística à vante, capazes de responderem a uma série de crises, de terror e de outros tipos. Permitirão resposta unilateral às crises, operações de contra-terrorismo, ou intervenções em alvos de alto valor”.

Está tudo aqui: o Excepcionalismo unilateral em ação, contra quem se atrever a desafiar os ditames imperiais.

Da Ucrânia à Síria, e em toda a MENA (Médio Oriente e Norte da África), a guerra por procuração entre Washington e Moscou, com apostas cada vez mais altas, não cessará. O desespero imperial sobre a irreversível ascensão chinesa também não diminuirá. Com o Novo Grande Jogo a ganhar velocidade, a Rússia fornece poderes aos eurasianos:  Irã, China e Índia, com sistemas de defesa de mísseis além de tudo que o Ocidente imagina, até se acostumar com a nova normalidade: Guerra Fria 2.0 entre Washington e Pequim/Moscou.

Deixo-vos com Joseph Conrad, escrevendo em Coração das Trevas: “Há uma marca da morte, um gosto ou mortalidade nas mentiras… Era seu desejo rasgar o tesouro para fora das entranhas da terra, sem nenhum propósito de elevado moral nas suas costas quanto há em assaltantes quebrando um cofre… Não poderíamos compreender, pois estávamos longe demais e não se conseguia, porque estávamos viajando na noite das primeiras eras, daquelas eras que já se foram, dificilmente deixando algum sinal – e sem lembranças … “(.)

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6 comentários sobre “O Império do Caos prepara mais incêndios em 2016

  1. Meu Deus. Quanta sandice dessa gente canalha e que exercita a ideologia do fracasso. Essa gente distorce a história em benefício próprio. Gostaria de ver essa canalha escrevendo sobre Holodomor, Katyn, fome na Ucrânia 1931 – 1932 e muitos outros temas históricos onde essa corja leva na costa milhões de mortos por política de estado mesmo!

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  2. Caro Campos Junior,
    Não existe no presente texto do colunista Pepe Escobar exercício algum de verve ideológica. Pepe Escobar é respeitado, tanto, que é um convidado constante em debates na CNN, e mesmo para a Fox News, esta última, como se sabe, uma rede com nítida cor ideológica (apreço declarado pelo Partido Republicano-EUA, e propostas Neoconservadoras).

    Ideologias do fracasso são muitas, uma delas é o Neoliberalismo. Ademais, canalhice, por certo, parte de quem faz da mentira um altar para desinformados. É o que acontece na Ucrânia, por exemplo, onde assassinos genocidas como Stepan Bandera são reabilitados, como “heróis”.

    É preciso ter rigor, rigor acadêmico para fazer acusações sobre a história. O massacre de Katyn foi uma obra da NKVD, pois era o desejo de Stalin de formar um exército polonês no futuro próximo, desprovido de líderes independentes e nacionalistas. É um fato histórico reconhecido. Todavia, o denominado “Holodomor”, ou seja, a fome generalizada na Ucrânia na década de 30, não possui respaldo acadêmico algum. Houve, nesta época, a retirada forçada de populações inteiras, caso dos Tártaros, Cossacos e Germanos do Volga, com a compreensível tragédia que acompanha tais remoções, mas fome generalizada não houve. Fome, houve, grassou, no período da Guerra Civil Russa, 1917/1921. Este período de fome é bem conhecido e se deu durante a deterioração do tecido social advindo da guerra civil, que repercutiu fortemente na produção campesina. Esta fome foi registrada pelo explorador norueguês Fridtjof Wedel-Jarlsberg Nansen, em fotografias que ganharam o mundo na época.

    Pois bem, falaste de canalhas… Pois canalhas são os oligarcas que tomaram o poder na Ucrânia e inventam a mentira do “Holodomor” como mito nacional de fundação. São tão primários, entretanto, que para suprir a falta de registros da fome generalizada na Ucrânia, que teria se dado na década de 30, lançam mão das fotografias da Coleção Nansen, como se o mundo não as conhecessem.
    Isto é ser canalha, Sr, Campos Júnior.

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    1. Já assistiu ao documentário feito no Brasil chamado MADE IN UCRÂNIA? Assista então pois são PESSOAS falando a respeito do que aconteceu. O fato é que falo sim de canalhas que mentem descaradamente a respeito de história como a nossa presidente que diz que lutou pela democracia. Quer um exemplo de quem eu respeito e diz a verdade? Vou postar aqui para você.

      FERNANDO GABEIRA ( que agora é acusado de playboy, vendido e tudo o mais pela esquerda) https://www.youtube.com/watch?v=cP5PGY08vbs

      VERA GUIMARÃES https://www.youtube.com/watch?v=311w66Zpyuw

      EDUARDO JORGE https://www.youtube.com/watch?v=H5h4xW558hk

      TRAILER MADE IN UCRÂNIA (procure o documentário e veja, se tiver coragem).

      O fato é que chamo de canalhas aqueles que distorcem a história e a esquerda é pródiga em fazer isso. Os 3 que citei acima, todo o meu respeito e admiração. Mas a grande maioria não passa mesmo é de canalhas.

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      1. Essa fome de 31-32, se existiu, foi um crime perpetrado por Stalin. O povo russo não tem nada a ver com isso, duvido que os russos comuns fossem a favor de genocídio. Se quer falar de crimes, porque não fala do extermínio dos povos indígenas que viviam nos Estados Unidos?

        A escravidão dos negros no Brasil também foi um crime terrível; mas eu como brasileiro, não compactuo com isso.

        Quer dizer que esses crimes, cometidos por Stalin a quase cem anos atrás, justificam o imperialismo e os crimes atuais, cometidos pelos Estados Unidos?

        Os responsáveis pela fome de 31-32 estão todos mortos e devem responder pelos seus crimes a Deus; já os crimes que os Estados Unidos cometem são bem atuais, e esses sim, podemos e devemos fazer alguma coisa.

        Não tente semear o ódio entre ucranianos e russos, vc não vai conseguir!

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  3. Texto extremamente rico em detalhes, deixando transparente os acontecimentos, estratégias, mas principalmente as intenções sempre maquiavélicas do Império, para manter o poder e a dominação. Obrigado, César, por colocar esse texto aqui à nossa disposição. Faça sempre isso, os textos do Pepe Escobar são excelentes.

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  4. Chalmers Johnson – As aflições do império

    JOHNSON, Chalmers. As aflições do império. Rio de Janeiro: Record, 2007.

    O número de publicações e estudos acadêmicos nas mais diversas áreas das ciências humanas concernentes ao imperialismo e o militarismo estadunidense cresceu tremendamente após os atentados ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, e ainda mais após a declaração de guerra ao Iraque, dando seguimento, de certa maneira, à Guerra do Golfo, travada cerca de dez anos antes. Não é a toa que a Guerra do Iraque é chamada por muitos de “Segunda Guerra do Golfo”. A obra aqui avaliada é uma destas.

    Autor de outras obras de ataque ao imperialismo estadunidense através do globo, Chalmers Johnson dedica em seu As aflições do império: militarismo, operações secretas e o fim da república um grande espaço de modo a dissertar sobre, entre outras coisas, a criação de uma “Nova Roma” por parte dos Estados Unidos e a ampliação da área de atuação de suas bases militares através do globo. Johnson defende que os EUA criaram um império de bases, e que a manutenção desse império, longe de existir apenas por influência política, ideológica e econômica, é tocada através do poderio militar.

    Johnson apoia seus argumentos em uma série de dados, como o número de cerca de meio milhão de soldados, técnicos, espiões, construtores civis espalhados pelas bases no exterior, entre outros. Impondo suas zonas de influência na base da força, os gastos militares do governo estadunidense ultrapassam a soma dos gastos de outros países militarmente poderosos juntos. Como compreender, então, o aval de, possivelmente, a maior parte da população do país durante o conflito quanto aos gastos em questão?

    Johnson, assim como Noam Chomsky, Douglas Kellner, Carol Brightman e tantos outros, compreende que esse aval têm a necessidade de estar respaldado por uma propaganda massiva, objetivando criar medo e insegurança na população, de modo a aceitar passivamente gastos exorbitantes e agressões violentas à soberania de outros países em troca de uma suposta segurança, que a cada dia se mostra tênue. A suposta guerra contra o terrorismo não impediu que, no passar dos anos, outros atentados ocorressem.

    Johnson dedica os primeiros capítulos a articular as relações entre a propaganda e o imperialismo estadunidense, buscando respaldo histórico ao citar a intervenção em Cuba, a guerra contra a Espanha após o afundamento do Maine e a paranoia incentivada pela imprensa quanto a este fato, entre outras questões, além de citar o óbvio exemplo da Guerra Fria, responsável pelo crescente militarismo nos EUA, ao contrário da desejada desmobilização do exército após a Segunda Guerra Mundial. Desnecessário dizer, o acompanhamento das questões acerca da propaganda segue até meados de 2003 e adiante, demonstrando como se dá o aliciamento de jovens, exemplificando slogans sedutores e as promessas carreiristas que um exército de voluntários com tanta demanda necessita para não apenas sobreviver, mas se expandir.

    O terror doméstico da propaganda durante a administração Bush, acerca das supostas armas de destruição em massa iraquianas dava combustível à paranoia belicista. No início da ofensiva ao Afeganistão, praticamente todas as informações disponíveis ao público ou ao congresso tinham origem no Pentágono, resultado da supressão de informações desfavoráveis ao governo.

    O autor não deixa de estudar as questões econômicas envolvidas com o conflito. Não falo apenas a respeito de gastos excessivos e licitações cuja transparência é questionável, mas aos interesses particulares de diversos nomes do staff da administração do governo de George W. Bush. A ligação de alguns deles com a Chevron, Halliburton e outras companhias petrolíferas é um interessante indicativo de motivos escusos na empreitada militar ao Iraque, segunda maior fonte de petróleo acessível e barato do mundo.

    Johnson também dedica espaço para dissertar como o próprio imperialismo estadunidense com o passar do tempo foi responsável por problemas futuros. A exemplo, citemos o apoio de cerca de dois bilhões de dólares aos mujahideen no Afeganistão, os quais tomaram conta informalmente do país após a derrota da União Soviética. Voltando-se contra os EUA, alguns dos seus integrantes foram responsáveis pelo atentado ao World Trade Center.

    Cito, abaixo, um trecho na íntegra do livro, presente na página 215 da edição brasileira, que explicita melhor a posição do autor do que qualquer avaliação de minha parte:

    Guerras e imperialismo são irmãos siameses unidos pelos quadris. Cada um se alimenta do outro. Não podem ser separados. O imperialismo é a maior causa da guerra e guerra é a parteira de novas aquisições imperialistas. As guerras são feitas porque os líderes políticos convencem o povo que o uso da força armada é necessário para defender o país ou alcançar algum objetivo abstrato – a independência de Cuba da Espanha, prevenir uma vitória comunista na guerra civil coreana, manter as repúblicas das bananas da América Central no “mundo livre” ou mesmo levar a democracia ao Iraque. Para uma grande potência, travar uma guerra que não seja para defender a pátria requer geralmente bases militares no exterior por motivos estratégicos. Depois que a guerra termina, é forte a tentação de o vitorioso reter tais bases, e é muito fácil encontrar justificativas para isso.

    Obras como As aflições do império são especialmente úteis, tanto para residentes nos EUA quanto para estrangeiros, para a compreensão de como as guerras imperialistas incentivadas ou iniciadas pelo governo estadunidense ocorrem. Ainda que muitos acusem livros como este de dar voz a supostas teorias de conspiração, generalizar eventos (como os estupros e violência dos militares estadunidenses residentes nas bases estrangeiras contra a população dos arredores), entre outras coisas, é indispensável estar ciente dos perigos da propaganda alinhada a interesses particulares e a ideologias de caráter expansionista. Estar preparado para avaliar criticamente tais eventos e questionar toda informação recebida deve ser privilégio não apenas de acadêmicos ou estudiosos das ciências humanas, mas de todos. E esta leitura muito contribui para o desenvolvimento de tal postura. Altamente recomendado.

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