Entre um tapa e o Cunha

Por: Guilherme Silva

Fim de mais um dia de ralação e ele foi cumprir o ritual diário de percorrer a estrada próxima de sua casa e liberar os neurônios, com um fumo adquirido, é claro, de forma criminosa. Fazia isso todos os dias, tomando sempre a direção oposta à do rush, para passar despercebido. Acendia o beck, ligava o rádio e deixava as músicas e as notícias da rádio Câmara arrancarem, aqui e ali, o dia. Percorria cerca de uns 12 quilômetros, entre ida e volta.

Entre uma tragada e outra, canta a música tocada no momento, ou comenta notícias de realidade fantástica, ou saídas do século 16. A dita Casa do Povo é presidida por um deputado acusado de ser o proprietário da bagatela de R$ 9 milhões depositados na Suíça e não declarados ao Governo. Pior, mentiu em depoimento na CPI da Petrobras, pois negou ser o dono da fortuna. A postura do deputado Eduardo Cunha compromete todo o Congresso Nacional, pois ele e todos os que o apoiam dizem que a falta de decoro parlamentar compensa.

Em uma Câmara dos Deputados minimamente séria, ele já estaria preso e processado. Apoiado pelas bancadas fundamentalistas rural, religiosa e a da bala, seu caráter cínico, perverso e cretino, coisa de que se orgulha, está expresso em leis que punem agentes públicos que ajudem a uma mulher exercer o livre, terrível e doloroso direito de abortar.

Em caso de estupro, agentes de saúde podem ser presos, processados e exonerados, caso realizem o ato sem antes a mulher passar pelo calvário da ocorrência policial e exame de corpo de delito. A palavra da mulher, da cidadã, não basta. Não é confiável.

Mais uma tragada e o pensamento lamenta pelos dias sombrios pelos quais o País passa. A Câmara dos Deputados é o mais fiel reflexo do quanto a sociedade brasileira está doente ou falta amadurecer para ser, de fato, minimamente civilizada. Basta um superficial retrospecto de 2015 para enxergar a Câmara mais medieval, oligárquica e tirana da história da República.

A PEC 215 e a lei do armamento são dois exemplos de legislação do inferno. Por falta de uma reforma agrária e devido à nossa oligarquia brejeira e truculenta e as exigências do mercado de commodities, reduz-se terras indígenas e, ainda, nos mesmos moldes do século 16. Mas, desta vez, sem espadas, apenas com pólvora.

PPKGeorge Frey-Bloomberg
Pistola automática no momento do disparo. Foto: George Frey/Bloomberg.

Graças ao projeto de lei 3722/2012, todo cidadão de bem, a partir dos 21 anos, poderá adquirir até nove armas para utilizar as cinquenta munições a que tem direito de comprar por mês. Vasculhou, em vão, a memória em busca de algum amigo, conhecido ou parente de bem que tenha o hábito de dar 50 tiros em 30 dias.

Mas lembrou dos 22 deputados da bancada da bala, dos quais 11 financiados pela indústria bélica e de segurança, que derrubaram o Estatuto do Desarmamento. Segundo pesquisas do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ, desde que foi instituído, em 2003, ele evitou a perda de mais de 120 mil vidas.

A proposta de redução da maioridade penal, capitaneada pelas bancadas da bala e religiosa, mas apoiada pelas rural e industrial, é coisa de gente cruel. Os ditos deputados não ignoram as condições do sistema carcerário brasileiro. Sabem quem serão os mais de 40 mil jovens deste País a serem jogados anualmente nesse calabouço desumano, cujo índice de reincidência é de 75%. Os sobreviventes terão carteira assinada no crime, cada vez mais organizado, e currículo com todo tipo de especialização criminosa.

Esses projetos em nada têm a ver com a simpatia, a cordialidade, a alegria e mais algum sentimento mítico sobre a dita brasilidade, elucubrou. Em bairros onde os bens materiais encontram-se em franca vantagem de acesso, dentro de uma sociedade na qual se é o que se tem de material, todos concordam com a redução da maioridade. É o ódio da Casa Grande pela Senzala.

Trafegava na pista da esquerda para acessar o retorno que o poria na estrada de volta para casa. Notou aproximação acelerada de um carro grande. Ele estava devagar, não queria aumentar a velocidade e, por isso, passou para a pista da direita. Apoiou a mão esquerda na perna e assim aguardaria até o carro passar.

Quando os veículos foram emparelhados, a velocidade do da esquerda diminuiu abruptamente e assim se manteve por alguns metros, atiçando sua curiosidade. Não resistiu e, com o canto do olho e um leve girar de pescoço identificou, aterrorizado, o sinistro carro do BOPE, com quatro ou cinco agentes.

Gelou da cabeça aos pés, mas manteve um olhar tranquilo e fixo no carro da frente, enquanto o coração era contido pelos dentes. Nunca aquele retorno foi tão longe. Uma pesquisa Datafolha, deste ano, revelou que mais de 60% dos brasileiros têm medo da Polícia Militar. Pensou na sua condição social. Não é rico, mas também não é pobre. E é branco. Caso fosse flagrado, não passaria de uma reprimenda e multa.

Depois pensou na condição dos jovens pretos e pobres deste País que morrem sob o manto legitimador de um dispositivo legal chamado auto de resistência seguido de morte. De acordo com a ONG Human Rights, os números de mortes nessas condições, entre 2013 e 2014, nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, saltaram de 369 para 728 e de 416 para 585, respectivamente. Dessas mortes, 77% são de jovens pretos e pobres, entre 15 e 29 anos. E a Câmara, o nosso reflexo, apoia tudo isso.

Guilherme Silva é jornalista e professor.

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