Os ganhos da guerra: traficantes búlgaros inflamam os conflitos do Oriente Médio

Mariya Petkova é um jornalista búlgara cuja cobertura abrange as área da Europa de Leste, nos Bálcãs e do Médio Oriente. Este artigo foi produzido como parte do Fellowship Balkan para excelência jornalística, apoiada pela Fundação ERSTE e Open Society Foundations, em cooperação com a Rede Reportagem Investigativa Balkan – BIRN.

O texto a seguir, apesar de longo, se faz necessário por ser elucidativo sobre o tráfico de armas efetuados por nações que apoiam o bainho de sangue na terra síria. Trata-se de uma reportagem feita pela jornalista Mariya Petkova, que percorreu cidades como Sofia, Anevo, Istambul, Gaziantep e Antióquia. 

Os ganhos da guerra: traficantes búlgaros inflamam os conflitos do Oriente Médio

Por: Mariya Petkova

Tradução: J. Junker

Adaptação: C. A. Ferreira

Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e os EUA compram milhões de dólares em armamentos búlgaros, com a Guerra Civil Síria como destina provável, revela uma investigação BIRN.

Em outubro do ano passado, spotters de aeronaves notaram,  com alguma emoção, que aviões Boeing 747  jumbo com as marcas da Saudi Arabian Cargo tinham taxiado junto ao gate de carga e descarga do aeroporto da capital búlgara, Sofia.

“Um avião de carga Saudita nunca tinha vindo aqui… Nos últimos 20 anos!”, explicou Stephan Gagov, um veterano spotter de aeronaves búlgaro. Os vôos tornaram-se tão frequentes que Gagov começou uma discussão em um Fórum on-line de spotters de aeronaves sobre elas, usando a frase “a rota regular” no título. Spotters relataram terem  visto aviões aterrarem duas vezes no final de outubro, uma vez em novembro, quatro vezes em dezembro e uma vez cada, em março e maio deste ano.

A aeronave gigante chegou do aeroporto de Jidá, embarcou a sua carga e em seguida voou para a cidade saudita de Tabuk, cerca de 100 km da fronteira com Jordânia, relatou os observadores, que utilizam ferramentas voo com acompanhamento online. Gagov estimou que a carga embarcada nas aeronaves corresponda a cerca de 60 a 80 toneladas por vez, na forma de caixas. Ele não podia ver o que estava dentro das grades, mas pode estimar o quanto estavam pesados.

Após os voos da Saudi Arabian Cargo terem parado, os aviões de carga de Abu Dhabi começaram a chegar. Airbus A330F e Boeing 777F com as cores da Etihad Cargo chegaram em Sofia cinco vezes entre o final de Junho e meados de agosto deste ano. Recentemente, em 19 de Outubro, uma aeronave de carga Airbus 330F da Etihad voou de Abu Dhabi para a cidade búlgara de Burgas e, em seguida, a Al Dhafra Air Base, uma instalação militar ao sul da capital dos Emirados.

A Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e as autoridades búlgaras não revelaram  o conteúdo dessas remessas. Mas, a reportagem Investigativa da Rede Balkan, BIRN, pode revelar que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos têm comprado grandes quantidades de armas e munições a partir de Bulgária nos últimos dois anos, certamente para utilização pelas forças locais que apoiam na Guerra Civil Síria, e possivelmente para o conflito no Iêmen.

O relatório anual da Bulgária sobre as suas exportações, provenientes da sua base industrial de defesa, foi publicado em agosto deste ano, não recebeu, todavia, nenhuma cobertura da mídia. Afirma  o documento que o governo aprovou o valor superior a cifra de € 85.000.000, em munições e equipamentos militares para a Arábia Saudita no amo de 2014, com negócios no valor de quase 29.000.000 € concluída até o final deste ano (2015). O governo búlgaro também confirmou à BIRN, que emitira guias de exportação para a venda de armas, em favor dos Emirados Árabes Unidos.

Bulgária produz e estoca, principalmente, armas de design soviético. Analistas afirmam que é altamente improvável que tanto a Arábia Saudita, ou os Emirados Árabes Unidos venham a comprar estes meios para as suas próprias forças, que usam armas ocidentais padrão OTAN, e por isso é muito mais plausível que eles comprem a munição para as facções locais, deles aliados, envolvidas em conflitos na Síria e no Iêmen, onde armas de desenho soviético são preferidas e amplamente utilizadas.

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Legenda: Aeronave de carga Boeing 777F, com as cores da Etihad, descola do aeroporto de Sófia, em 30 de junho de 2015. Foto: Stephan Gagov.

Um ex-oficial búlgaro, com acesso aos bastidores governamentais,  relatou à  BIRN que as compras sauditas foram transportadas nas aeronave visto pelos spotters de aviões e destinados aos combatentes da oposição síria, com os embarques posteriores, possivelmente, destinados a serem utilizados no Iêmen. No ano passado, os Estados Unidos também teriam comprado armas da Bulgária como parte de um programa de US $ 500 milhões para treinar e equipar as forças de oposição sírias, programa este que por agora foi abandonado.

Combatentes da oposição e analistas independentes também têm dito à  BIRN que as armas búlgaras estão a ser utilizadas na Síria, onde mais de 250.000 pessoas foram mortas e mais de 11 milhões forçadas a deixar suas casas desde que a guerra eclodiu em 2011. Fato é que sob o domínio do regime comunista a Bulgária, país de apenas sete milhões, construiu uma gigantesca indústria de armas, empregando 110.000 pessoas e capaz de captar até US $ 1,5 bilhão (€ 1.300.000.000) em divisas por ano. O regime, então solidário ao esforço soviético, adquiriu deste a tecnologia para fabricar armas de fogo e munição. Acumulou vastos estoques para apoiar o seu contingente militar de 1000.000 homens em armas, bem como a possibilidade de uma mobilização geral. Durante a regra dos 45 anos  do partido comunista da Bulgária no poder, deu-se o desenvolvimento de  fortes laços comerciais com o Oriente Médio e a África, laços estes que foram mantidos por muitos comerciantes, incluindo aqueles do inefável negócio de armas.

Um negócio rentável

Ao perscrutar através de seus grandes óculos, Nikolay Nikolov, acaba de forma casual a mencionar que se sentou na mesma mesa de Carlos, o Chacal, o militante marxista notório,  que era ativo no Oriente Médio e na Europa nas décadas de 70 e 80 do século passado. Nikolov, um pseudônimo para proteger sua identidade, esteve presente e atuante no comércio de armas por mais de 25 anos. “Todo mundo fica com uma parte”, disse ele, incluindo funcionários do governo e corretores. “As comissões são valiosas e correspondem por vezes ao valor do negócio das armas. Se algo custa 10 milhões, o preço final será de 35 milhões”.

Ao sentar-se em um pequeno café no centro de Sofia, onde ele gosta de conhecer e fazer negócios, Nikolov enrola cigarros de fumos artesanais e relembra histórias. Questionado sobre a venda de armas para o Oriente Médio, conta uma história sobre ter arrastando malas cheias de dinheiro no meio de um escaldante deserto árabe por volta do meio dia…

Após o colapso do comunismo em 1989, a produção de armas na Bulgária caiu substancialmente. O valor oficial das exportações de defesa caiu para € 111 milhões em 2006. Mas, em seguida, as vendas começaram a pegar e até 2014 tinham atingido € 403.000.000, segundo dados do governo.

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Legenda: exportações da indústria de defesa búlgara de 2006-2014, em milhões de euros. Fonte: Ministério da Economia da Bulgária, Relatórios.

Nikolov afirma que a Bulgária está a vender uma grande quantidade de armas, mas dos estoques antigos. “O pico das nossas exportações de armas foi durante as guerras na Iugoslávia. Um monte de armas foi exportado para a Sérvia e para a Albânia”, diz ele. “Naquela época, tínhamos estoques no valor de bilhões, agora temos apenas algumas centenas de milhões”. Apesar de a produção e as vendas serem apenas uma fração dos níveis pré-1989, o comércio de armas na Bulgária continua a ser um negócio altamente lucrativo. “Ainda é mais rentável do que o tráfico de drogas”, disse Nikolov.

O interesse do Golfo

A Arábia Saudita, até então, não tinha se tornado um cliente importante para as empresas de armas búlgaras nestes anos recentes. Mas isso mudou em 2014. O relatório do governo búlgaro diz que foram emitidas licenças para venda de munições e equipamentos militares no valor de 85.500.000 € para a Arábia Saudita no ano passado. Munições no valor de  € 65.400.000, armas de grande calibre com valor da ordem de € 12.500.000 e armas de pequeno calibre no valor de € 5 milhões. Até o final de 2014, as empresas búlgaras do setor tinham concluído ofertas de exportação para as Monarquias do Golfo com valores da ordem de € 28.900.000. O Ministério da Economia Da Bulgária, que supervisiona o comércio de armas, informou à BIRN em um comunicado, que as ofertas incluíam armas de uso pessoal, bem como armamento leve e pesado.

Um relatório da ONU listadas 827 metralhadoras leves e 120 SPG-9, armas anti-carro, sem recuo,  como parte das exportações de armas da Bulgária para a Arábia Saudita em 2014. Ben Moores, analista sênior da consultoria IHS Janes defesa, afirmou que provavelmente tais armas eram remessas para a Síria, ou o Iêmen. O militar saudita estará armado com metralhadoras leves belgas e não faria uso de um SPG-9, afirmou. “É muito improvável que este tipo de arma venha a ser usada pelos militares da Arábia Saudita, mas é muito popular e utilizada no Iêmen, Iraque e Síria”, relatou.

De acordo com o ex-oficial búlgaro, em condição de anonimato, os voos entre Sófia e a Arábia Saudita se deram com o intuito de transportar armas búlgaras para os grupos da oposição síria. Depois que os aviões aterrissaram em Tabuk, a carga foi embarcada em caminhões e transportada para um centro de distribuição na Jordânia,  para as forças militantes de extremistas sírios, afirmou.

A Arábia Saudita é um dos maiores financiadores de combatentes contrários ao presidente sírio, Bashar al-Assad. Riyad financiou uma compra fenomenal de armas de infantaria da Croácia para as forças da oposição síria, compra esta informada pelo The New York Times, em 2013, então citando funcionários americanos e ocidentais “familiarizados com as compras”. Em uma entrevista à BBC no fim de outubro de 2015, o ministro do Exterior saudita Adel al-Jubeir reconheceu abertamente que Riyad forneceu armas aos combatentes da oposição extremista síria. “Nós temos que contribuir para mudar o equilíbrio do poder no terreno”, disse ele. O informante, ex-oficial militar búlgaro, também  disse que algumas das armas enviados para a Arábia Saudita “podem ​​também têm sido utilizadas contra o Iêmen, pois os vôos posteriores coincidiram com o início da operação da Arábia por lá”. Arábia Saudita começou a ação militar no Iêmen no final de março, em apoio das forças leais ao presidente exilado Abd-Rabbu Mansour Hadi.

Ao contrário da Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos já tinham uma história recente de compra das armas búlgaras. O  telegrama diplomático  a partir da embaixada dos EUA em Sofia, publicado pelo site WikiLeaks, informou que os Emirados Árabes Unidos financiou um acordo de 2010 para compra de dezenas de milhares de fuzis de assalto rifles, 100.000 cargas de alto explosivo, granadas lançadas por foguete e munições para o então governo do Iêmen. O cabograma também relatava que a Bulgária realiza consultas  junto à embaixada dos EUA, no tocante aos negócios de armas potencialmente controversos. Contatados pela BIRN, a embaixada se recusou a dizer se ele estavam cientes de outros países a compra de armas búlgaras para uso na Síria.

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Legenda: exportações da indústria de defesa búlgara para os Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, em milhões de euros. Fonte: Ministério da Economia da Bulgária, relatórios.

Este ano, o governo búlgaro emitiu licenças para a exportação de munições, armas de fogo e equipamentos de defesa para os Emirados Árabes Unidos, o Ministério da Economia, todavia, recusou-se a demonstrar os valores envolvidos nestes negócios.  Pieter Wezeman, pesquisador do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo, disse que “não faz sentido algum”  os Emirados Árabes Unidos vir a comprar armas e munições da Bulgária para as suas próprias forças. Ele disse suspeitar que estas munições seriam desviadas para a Síria, ou o Iêmen. Moores expressou uma conclusão similar.”É muito mais provável o que [as armas] os Emirados Árabes Unidos compraram seja reencaminhado para um terceiro”, pautou.

Tanto a Arábia Saudita, quanto os Emirados Árabes Unidos são parte de uma coalizão contra o Iêmen, que tem realizado ataques aéreos, imposto forças terrestres desdobradas e fornecido armas para extremistas locais, com o objetivo de combater as forças xiitas, conhecidos como houthis. Riad também foi envolvido no fornecimento de armas ao Iêmen antes de suas próprias forças intervissem por lá, disse Wezeman.

As embaixadas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, responsáveis ​​pelos respectivos negócios armamentistas realizados na Bulgária não responderam às perguntas da BIRN. Da parte búlgara, o Ministério da Economia disse que não iria emitir licenças para negócios de armas quando forem levantadas preocupações sobre o possível desvio ou re-exportação de armas.

Acidente americano

Em 06 de junho deste ano (2015), uma explosão fatal ocorrida em um campo de testes de armas da Bulgária, forçou os Estados Unidos a admitir que o evento  tinham sido proveniente de armas de compradas na Bulgária, como parte de um esforço para apoiar combatentes da oposição extremista síria. Um empreiteiro norte-americano, veterano de 41 anos de idade, veterano da USNAVY, Francis Norwillo, morreu quando uma granada-foguete explodiu, enquanto estava sendo carregada em um lançador RPG-7. Outras quatro pessoas,  dois cidadãos norte-americanos e dois búlgaros, também foram feridos. Os americanos estavam trabalhando para uma empresa dos EUA nomeada Purple Shovel, contratado pelos militares dos EUA para ajudar a treinar e equipar combatentes da oposição extremista síria. A embaixada dos EUA disse em uma declaração concisa:

“Os três empreiteiros estavam conduzindo formação de familiarização para outros funcionários da empresa no momento do incidente”, disse a embaixada, recusando-se a fazer qualquer comentário adicional.

O banco de dados de compras governamentais dos EUA demonstra que Comando de Operações Especiais (SOCOM), que está no comando do esforço militar dos EUA para ajudar os extremistas sírios, concedeu a Purple Shovel, um contrato no valor superior a US$ 26,700,000 (24.600.000 €) em dezembro de 2014, para o fornecimento de armas estrangeiras e munição. O país de origem está listado como Bulgária. O contrato foi alterado duas vezes para chegar ao valor total de US$ 28,300,000, de acordo com o banco de dados.

Questionado sobre o negócio, porta-voz SOCOM Kenneth McGraw disse via e-mail:

“As armas que foram compradas com este contrato incluíram o AT-5 Anti-Tank Missile Launcher, SPG-9 Anti-Tank Recoilless Gun e RPG-7 Rocket Grenade Launcher”. Informou, no entanto, que a arma envolvida na explosão em Anevo não fazia parte do contrato. Apesar do incidente fatal, McGraw relatou que o contrato não tinha sido cancelado.

A granada foi fabricada em 1984, de acordo com autoridades búlgaras que estão investigando o incidente. Um relatório Buzzfeed News citou um especialista em armas não identificado afirmando que a granada passara toda a sua existência e esgotado sua validade em “uma prateleira”.  Mas, dois ex-oficiais militares búlgaros explicaram à BIRN, que a munição tem uma vida útil de décadas se armazenado adequadamente e uma granada feita em 1984 não seria velha demais para ser usada com segurança.

Alexander Dimitrov, o proprietário do Alguns, uma empresa privada que tinha contratado o campo de testes no dia da explosão, se recusou a comentar. A Purple Shovel,, empresa sediada em Sterling, Virginia, também se recusou a comentar o incidente, ou o contrato com SOCOM. O banco de dados de aquisição dos EUA mostra o SOCOM também premiado com um contrato no valor de mais de $ 32.000 (€ 28.200), para outra empresa norte-americana, UDC EUA, para fornecer munição a partir da Bulgária. O contrato foi assinado na mesma data que o negócio Purple Shovel, e exibe o mesmo “ID solicitação”, o código usado em uma chamada virtual, registrar os lances necessários para o cumprimento do contrato. Contatado ao telefone, perguntou-se sobre o contrato, se o mesmo era para a força-tarefa do USARMY armar extremistas sírios,  o presidente da empresa, Matthew Herring, disse à BIRN: “Não, não, nós não somos parte disso e certamente não temos a liberdade para falar sobre isso”.

O esforço militar dos EUA para treinar e equipar forças para lutar contra o grupo militante ISIS (Estado Islâmico) na Síria foi fortemente criticado por membros do Congresso dos Estados Unidos, por ser ineficaz. Em 09 de outubro deste ano (2015), a administração Obama anunciou que estava abandonando o programa. Mas, as atividades da Agência Central de Inteligência, CIA, de  secretamente armar os sírios que combatem as forças de Assad, continua em vigor.

Conexão Turca

Em uma manhã quente no final de julho, uma dúzia de comandantes da oposição extremista síria conversou no café de um hotel boutique perto da Praça Taksim, no centro de Istambul depois de participar de reuniões de coordenação. Eles estavam se preparando para ir para o sul da Turquia e, em seguida, de volta para a linha de frente no norte da Síria.

Três homens, comandantes de unidades em Idlib e Aleppo, concordaram em falar com a BIRN. Um deles explicou que a logística é fornecida para as forças de oposição através de dois corredores de operações militares –  uma na Turquia e outro na Jordânia. Todos os três disseram que receberam armas do corredor de suprimentos/logística turco – incluindo fuzis AK-47, RPG-7 foguetes lançadores de granadas e armas anti-tanque SPG-9.

Perguntado se eles receberam as armas búlgaras, um deles disse: “Todas as armas na Síria são modelos russos Tanto o regime e a revolução [oposição] fazem uso.  Eles podem ser provenientes de países como Bulgária, Ucrânia, República Checa, mas nós não… Não sabemos exatamente onde eles são produzidos”.

Relatou que as armas búlgaras, por vezes, apresentam o número 10 dentro de dois círculos. Um dos comandantes enviou uma mensagem WhatsApp do seu telefone celular para um combatente em sua unidade na Síria, que retornou com três fotos de armas. Dois deles tinha o símbolo de identificação descrito.

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Legenda: a imagem da esquerda pertence a uma metralhadora búlgara da família PK (PKM), a outra imagem é de um lançador (RPG-7) fabricado na Bulgária. Armas utilizadas no oeste da província de Aleppo. Imagens: extremistas sírios via WhatsApp/BIRN.

Um especialista em munições, que não quis se identificar, apontou serem as duas armas como sendo um lançador de granadas-foguete e uma metralhadora PK. O comandante disse que eles foram usados ​​no Aleppo campo ocidental. A BIRN não pode verificar onde as fotos foram registradas, mas NR Jenzen-Jones, diretor da consultoria britânica de Armamento Research Services, afirmou que havia “quantidades substanciais de armas e munições produzidos na Bulgária que foram documentadas na Síria”. A maioria das armas é datada dentro do período compreendido entre 1970 e 1980 e incluiu armas pequenas, leves, bem como armas anti-tanque, munições e engenhos tais como projéteis para armas sem recuo e projéteis de morteiro, disse ele via e-mail.

A Bulgária foi fornecedora dos exércitos nacionais do Iraque e da Síria ao longo de muitos anos, Permitindo, então, a possibilidade de algumas dessas armas terem vindo de estoques existentes dentro destes países. Mas, Jenzen-Jones afirmou que a sua organização havia recebido “inúmeras alegações de que o material excedente búlgaro foi cedido as facções rebeldes sírias”.

“Nós não temos sido capazes de verificar de forma independente essas alegações”, acrescentou.

Como a Arábia Saudita e os Estados Unidos, a Turquia tem sido fortemente envolvida na prestação de apoio aos grupos de oposição armada na Síria. Nihat Ozcan, oficial militar aposentado e analista da Fundação de Pesquisa de Política Econômica Turca, disse que as nações que apoiam a oposição síria também usam a Turquia como um ponto de trânsito para obter armas para a Síria. “Eles recolhem todo o  tipo de armas antigas e equipamentos soviéticos de [ex-bloco do Leste] países como Bulgária e Romênia, ou mesmo da Ásia Central. Eles os trazem para a Turquia e, em seguida, passam-nos à Síria, sob o controle da aliança Estados Unidos, Turquia. “, disse Ozcan.

Um trabalhador humanitário sírio, com ligações pessoais com membros de grupos extremistas anti-Assad “moderados” nas províncias de Idlib e Aleppo, relatou que as armas compradas por nações estrangeiras foram transferidas para as forças de oposição através do corredor logístico de suprimentos militares. As armas foram entregues através da fronteira turco-síria, onde os extremistas sírios as pegaram, informou em uma entrevista concedida na cidade turca de Gaziantep, perto da fronteira.

As operações militares nas bordas fronteiriças da Turquia e Jordânia são apoiadas por um grupo seleto de países ocidentais e árabes, incluindo os Estados Unidos, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, bem como as nações anfitriãs, de acordo com várias fontes da oposição síria.  Para além destas transferências de armas sancionadas pelos governos nacionais, há alguma evidência, de que as munições também estão sendo contrabandeadas para a Síria em negócios privados. Outro homem com o grupo no hotel de Istambul, que se identificou como membro de um conselho militar da oposição extremista  na província de Homs, disse à BIRN, que ele viu um carregamento de armas búlgaras chegar de caminhão em Homs em agosto de 2012. O homem, que pediu para ser identificado apenas como Abu Fatima, disse que um empresário sírio supostamente pagou US$ 1,600,000 (€ 1,4 milhão) por armas, que incluíam fuzis AK-47, lançadores de granadas e munições. Ele disse que o acordo foi organizado por traficantes de armas búlgaros e sírios.

Em uma entrevista separada, um ex – combatente da oposição extremista síria, disse estar  envolvido em nada menos que 12 transferências de armas búlgaras no início de 2013, a maior das quais era de US $ 7 milhões (€ 6.400.000). O ex – terrorista, que pediu para não ser identificado, afirmou que os embarques se deram na fronteira turco-síria, em dois caminhões e foram organizadas por cidadãos sírios e turcos que possuem conexões com traficantes de armas búlgaras.

Enquadramento jurídico

Não há proibição da ONU de fornecer armas para a Síria e a maioria dos elementos de embargo da União Europeia foram levantados em 2013. Na guerra do Iêmen, a ONU impôs uma proibição apenas no fornecimento de armas para as forças Houthis. No entanto, como signatária do Tratado de Comércio Global de Armas (ATT), que entrou em vigor em dezembro de 2014, a Bulgária tem a responsabilidade de impedir que armas sejam desviadas para outras nações, ou grupos, que difiram dos destinatários especificados. A legalidade de todos os negócios que levaram a armas búlgaras até a Síria, pode depender dos termos precisos de tais acordos.

Em negócios de armas, o Estado importador tem de fornecer um Certificado de Usuário Final, que pode incluir uma cláusula especificando que as armas não serão transferidas a terceiros. Mas mesmo que tal cláusula exista, um estado de importador pode enfrentar pouca, ou nenhuma punição por ter ignorado tal clausula. “Se uma exportação é autorizada, e ocorre um desvio, as ações passíveis de serem efetuadas por parte do Estado exportador são limitadas (além de não exportar armas para esse país / entidade novamente),” Sarah Parker, pesquisadora sênior do Small Arms Survey, centro de pesquisas baseado em Genebra, Suíça, através de E-mail.

“Ela [a nação exportadora] tem uma obrigação decorrente do ATT para enfrentar e prevenir o desvio. Então, se ela vê um destinatário como um risco de desvio, deve também compartilhar essas informações com outros exportadores”, acrescentou.

 

 

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