Síria destroça o sonho do Pentágono

O texto que segue é de autoria de Pepe Escobar, colunista brasileiro especialista em Oriente Médio e Ásia Central, que regularmente escreve em inglês para vários veículos, entre eles o Asia Times On-Line. Este texto, traduzido pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu foi em português publicado no site Txacala, a publicação original, em inglês, proveio do site Strategic Culture, com a data de 16.12.2015.

Síria destroça o sonho do Pentágono

Por: Pepe Escobar

Tradução: Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Não é de estranhar que os praticantes da Dominação de Pleno Espectro no governo dos EUA em Washington e noutras paragens estejam afogados em surto da mais obcecada negação.

Põem os olhos do tabuleiro sírio e, no que se relacione com projeção de poder, veem a Rússia instalando-se confortavelmente, com base a ser levada a sério em terra e ar, para conduzir em futuro próximo todos os tipos de operação em toda a região OMNA (Oriente Médio-Norte da África, ing. MENA, Middle East-Northern Africa). O Pentágono, obviamente, foi apanhado com as calças na mão.

E é só o começo. Adiante, nessa mesma trilha aumentará a interação militar entre Rússia, China e Irã, por todo o Sudoeste da Ásia. O Pentágono classifica Rússia, China e Irã – os nodos chaves da integração da Eurásia – como ameaças.

Rússia avança cada vez mais profundamente na Síria – e, no longo prazo, na área OMNA – avanços para os quais Moscou insiste em tratar com membros sortidos da OTAN como “parceiros” na guerra contra ISIS/ISIL/Daesh1 (EI – Estado Islâmico). Alguns apunhalam Moscou pelas costas, como a Turquia. Outros podem partilhar inteligência militar sensível, como a França. Alguns até manifestam desejo de colaborar, como a Grã-Bretanha. E alguns são como gêiseres de ambiguidade, como os EUA.

Nessa bruma de tantas ambiguidades, “parceiros” não poderiam ser o meio mais deliciosamente diplomático para mascarar o fato mais surpreendente que se vê nos céus: com sua atual sofisticada mistura de defesas terra-ar, mar-ar e ar-ar, de mísseis cruzadores lançados de submarinos aos S-400s, quem agora já se resolveu quanto a uma zona aérea de fato de exclusão sobre a Síria foi Moscou – não Washington e muito menos Ancara.

Escolha sua coalizão

Aqueles S-400s, por falar deles, logo serão movidos para o norte, dispostos em torno do terrivelmente complexo teatro de Aleppo, ao ritmo em que o Exército Árabe Sírio vai progressivamente ganhando terreno.

Na Primeira metade de 2016 devemos já estar contemplando uma situação na qual os S-400s estarão cobrindo e poderão tomar por alvo toda a fronteira sírio-turca. Será o momento quanto o presidente Recep Tayyip Erdogan terá ficado completamente sem bolinhas de gude para continuar no jogo. A cobertura que a Rússia dá aos avanços do Exército Árabe Sírio – e em breve também aos avanços das Unidades de Proteção Popular Curdas dos sírios curdos (YPG) – vai metodicamente preparando o terreno para o fim de todos os elaborados planos de Ancara para uma zona aérea de exclusão disfarçada de “zona segura”, comprada e paga pelos três bilhões de euros que a União Europeia pagou à Turquia para dar jeito na crise dos refugiados sírios.

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Combatente curdo – sírio do YPG. Foto: internet.

Assim sendo a lógica doravante, no campo de batalha é clara: os turcomenos – 5ª Coluna de Ancara, pesadamente infiltrada por islamo-fascistas turcos – estão sendo empurrados de volta para o território turco, em todo o espectro. E as YPG logo terá a chance de unir os três cantões de curdos sírios através da fronteira.

Quando acontecer, será, pode-se dizer, em resumo – a vitória de uma coalizão – a coalizão “4+1” (Rússia, Síria, Irã, Iraque plus Hezbollah) – sobre a outra (o combo CCGOTAN – Conselho de Cooperação do Golfo – plus OTAN, muito podada) nessa guerra surrealista de duas diferentes coalizões contra ISIS/ISIL/Daesh.

Qualquer praticante da Dominação de Pleno Espectro não cegado pela ideologia verá claramente que a “4+1” está vencendo. É caso exemplar de força aérea pequena, mas altamente motivada e comandada com perfeição, e posicionada no local certo, com a arma certa e alimentada por inteligência de boa qualidade em solo. A coalizão puxada pelos EUA, que tenho chamado de Coalizão dos Oportunistas Finórios (COF) não tem nenhum dos itens acima listados.

Equipe “Mediocridade” em ação

Washington está atolada num lodaçal que ela mesma produziu. E virtualmente tudo ali tem a ver com aquela turma espantosamente medíocre que constitui a equipe dita “sênior” de política exterior do governo Obama.

A equipe Obama sempre descuidou do caso de amor entre Erdogan e a Frente Al-Nusra, também chamada Al-Qaeda na Síria, com Ancara liberando total o seu Expresso Jihad, de lá para cá, pela fronteira sírio-turca. E a equipe Obama fez como se não soubesse do Expresso Petróleo Roubado da Síria, do ISIS/ISIL/Daesh, fluindo por uma frota gigante, facilmente detectável por satélite, de caminhões-tanques.

A equipe Obama deixou passar sem nada decodificar da frágil, escorregadia agenda da Turquia, aliada na OTAN; nisso, deixaram-se prender como reféns da Dominação de Pleno Espectro, porque para o Pentágono, Ancara é a proverbial “âncora de estabilidade” e peão chave da Dominação de Pleno Espectro na região.

Daí, pois, a incompetência/incapacidade da equipe de Obama, que não conseguiu detonar os comboios de caminhões-tanques: não fosse Ancara ofender-se e arrepiar as penas…

A equipe Obama sempre negligenciou o modo como Riad e Doha, diretamente, e depois mediante “doadores privados” – coordenados pelo notório Bandar Bush2 em pessoa – sempre financiaram ambos, a Frente Al-Nusra e o Daesh.

Em lugar de cuidar daquilo, a equipe Obama avançou festivamente na brincadeira de dar armas e mais armas para Al-Nusra e Ahrar ash-Sham, via os fornecedores da CIA que forneciam armas para o Exército Sírio Livre. Todas essas armas sempre acabaram capturadas pela Frente Al-Nusra e Ahrar ash-Sham.

A equipe Obama, sem jamais nem dar-se conta, muito menos tentar conter a própria miopia, providenciou para que Al-Nusra & Co., ficassem conhecidos como “rebeldes moderados”.

A equipe Obama sempre desqualificou o Irã, tratado como nação “hostil”, como “ameaça” aos vassalos do CCG3 e a Israel. Assim sendo, quem fosse aliado de Teerã ou apoiado por Teerã seria também ou “hostil” ou “ameaça”: o governo em Damasco, o Hezbollah, milícias xiitas treinadas pelos xiitas iraquianos, e até os Houthis no Iêmen.

E por cima de tudo isso, ainda veio a “agressão russa”, manifestada na Ucrânia; e, depois, com Moscou “interferindo” na Síria, mediante o que a Equipe Obama interpretou como jogo de poder nu e cru no Mediterrâneo Oriental.

Com toda a atual luta de sombras, o verdadeiro teste das intenções do governo Obama é se a coalizão dos EUA realmente dará combate real, sem reservas, a Daesh, Al-Nusra e Ahrar ash-Sham (que acolhe legiões de jihadistas da Chechênia, Daguestão e Uzbequistão).

Implica que a Equipe Obama terá de dizer a ambas, Ancara e Riad, em termos bem claros, que caiam fora. Nada mais de Expresso Jihad. Nada mais de armas para terroristas. Sem essas linhas vermelhas, o “processo de paz” para a Síria, que vive de malabarismos entre Viena e New York, não serve nem como piada.

Que ninguém espere demais. Porque ninguém em sã consciência pode esperar que a equipe inacreditavelmente medíocre de Obama pato-manco terá colhões para enfrentar o wahhabismo como a verdadeira matriz ideológica de todas as correntes do jihadismo salafista, “rebeldes moderados” incluídos.

O que nos leva de volta à terrível angústia que faz estremecer toda a Avenida Beltway em Washington. Com ou sem equipe Obama, permanece o único fato que nada e ninguém consegue alterar: sem conquistar – ou, pelo menos balcanizar – a Síria… Não há Dominação de Pleno Espectro.

Notas

1) ISIS/ISIL/Daesh: siglas em inglês para o Estado Islâmico – EI.

2) Bandar Bush: Bandar Bin Sultan – Principe Saudita reponsável pelo serviço de inteligência do reino.

3) CCG: Conselho de Cooperação do Golfo. Conselho que envolve as monarquias do Golfo Pérsico, produtoras de petróleo. A saber: Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Bahrein, Omã, Qatar e Kuwait.

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