Washington, Bagdá, em diferentes páginas na luta contra o Estado Islâmico

A matéria que segue assinada por Slobodan Lekic, é de uma importância impar, não só pelo conteúdo revelador do texto, mas pelo fato de ter sido publicada na revista Stars & Stripes, conhecido órgão informativo militar dos EUA. Portanto, ter uma matéria que elenca entre aspas o conceito de rebelde “moderado”, como neste texto publicado na Star & Stripes, é perceber que a retórica do Departamento de Estado não está sendo considerada como séria, nem mesmo dentro das fronteiras dos EUA. A matéria foi publicada originalmente na Stars & Stripes no dia 13 de dezembro de 2015.

Washington, Bagdá, em diferentes páginas na luta contra o Estado Islâmico

Por: Slobodan Lekic

Deu-se durante a semana passada uma longa série de desavenças políticas em Bagdá, em torno da presença de forças estrangeiras em solo iraquiano, o que acabou por ter exposto a progressiva fraqueza do primeiro – ministro do Iraque, bem como a uma desconexão entre Washington e Bagdá, no tocante à luta empreendida contra o grupo Estado Islâmico.

Disse John Kerry: “(…) com a transição da Síria, as forças terrestres, Estado Islâmico, pode vir a ser derrotado em questão de meses”.

O Estado Islâmico pode ser derrotado em “meses”, caso haja um cessar –fogo entre o governo e os rebeldes “moderados” da Síria, afirmou o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, nesta quinta-feira, exortando o mundo a se unir em torno de uma estratégia de paz, lançada recentemente pelos Estados Unidos, Rússia e outras nações.

Irbid, Jordânia: o principal grupo rebelde árabe apoiado pelo Ocidente na Síria parece à beira do colapso, por causa da moral baixo, advindo das deserções, desconfiança de seus líderes pelo despreparo e confisco de soldos, ameaçando os esforços dos EUA para montar uma força terrestre que seja capaz de derrotar o Estado Islâmico e com isto negociar um fim à guerra civil síria.

“Depois de cinco anos desta guerra as pessoas estão apenas cansadas…  Por isso são nossos combatentes”, disse Jaseen Salabeh, um voluntário no Exército Sírio Livre, que foi formado em setembro de 2011 por desertores do exército do presidente sírio, Bashar Al Assad.

O Exército Sírio Livre, ESL em português, ou FSA, em inglês, que possui dentre aas suas fileiras membros treinados pela Agência Central de Inteligência, CIA, é o maior e o mais secular dos grupos rebeldes que combatem o governo Assad. Apesar de o foco de atenção do Ocidente ser a derrota do Estado Islâmico, acreditam os EUA não poder haver uma paz duradoura na Síria, e a não eliminação do Estado Islâmico, enquanto Assad continuar no poder.

A fim de lidar tanto com o Estado Islâmico, quanto com o futuro de Assad, o Secretário de Estado, John Kerry, e o Ministro do Exterior da Federação Russa, Sergey Lavrov,   buscam intermediar um plano para trazer o governo sírio, que a Rússia apoia, e todos os grupos rebeldes “moderados”, para uma mesa de negociação,  em Viena, Áustria,  no próximo mês. O objetivo é construir uma coalizão para empreender uma campanha  de contra-terrorismo tendo como alvo os militantes Estado islâmico e se preparar para eleições democráticas nos próximos 18 meses.

Com uma estimativa de efetivos da ordem de 35.000 combatentes, a ESL continua a ser o maior grupo rebelde e é um elemento-chave na estratégia norte-americana. Aos combatentes do Estado islâmico são creditados o número de  30.000 homens em armas, mas espalhados por uma ampla área da Síria e do Iraque. Caso o ESL não possa ser invocado como um parceiro forte, de confiança, os EUA e seus parceiros ocidentais ver-se-iam obrigados a recorrer a uma imensa gama de milícias islâmicas radicais, com efetivos menores – apoiadas pela Arábia Saudita e pelo Qatar –  algo que o Ocidente teme, por serem demasiadamente militantes para conciliar com um o governo secular. Rebeldes curdos, conhecidos como o YPG, têm lutado muito bem em áreas curdas, mas tais forças não são consideradas como uma opção válida para as partes árabes do país.

Ao contrário do Estado Islâmico e outros grupos mais extremistas mais, o ESL não conseguiu atingir obter vitórias significativas,  ou criar uma zona “libertada” a partir do seu próprio esforço. Em muitas ocasiões, dizem os seus ex-combatentes, as unidades ESL têm cooperado estreitamente com a Frente Al-Nusra, filiada a Al-Qaeda, que é forte ao norte e que compartilha o mesmo campo de batalha como o ESL no sul da Síria.

“A falta de sucessos nos campos de batalha os enfraqueceram”, Ed. Blanche, um membro baseado em Beirute do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres, e especialista em guerras do Oriente Médio. Disse sobre o ESL: “Eles não estão recebendo apoio significativo (externo), por não terem mostrado resultados”. Dentre outros problemas, Salabeh e outros informam, está o fato de estarem os combatentes do ESL a perder a fé em sues próprios líderes. “Eles roubam regularmente nossos soldos”, disse Salabeh, que veio a esta cidade no norte da Jordânia depois de ser ferido em batalha e agora pretende ficar aqui. “Nós deveríamos receber US$ 400 por mês, mas realmente recebemos só US$ 100”. Queixou-se também da falta de apoio para aqueles mortos, ou feridos em batalha. Combatentes  que perderam as pernas em combate foram reduzidos à mendicância dentro dos enormes campos de refugiados no norte da Jordânia. “Se alguém está ferido, eles simplesmente jogam-no na Jordânia e o abandonam”, disse ele. “As viúvas de combatentes, mártires, também nada recebem após as suas mortes”.

Como resultado desta situação, muitos dos homens do ESL no sul da Síria estão abandonando o grupo, geralmente desertando e se dirigindo para a Jordânia, ou se reunindo ao estimado corpo de 15.000 combatentes da Frente Al-Nusra, de acordo com Saleh e outros sírios entrevistados no norte da Jordânia. Por outro lado, a Frente Al-Nusra alegadamente paga aos seus insurgentes US$ 1.000 por mês e cuida dos seus membros feridos, lhes pagando as contas médicas e fornecendo-lhes pensões, estas destinadas para as famílias daqueles que pereceram em combate.

A situação tornou-se tão ruim, disse Salabeh, que alguns combatentes do ESL questionam-se, perguntando qual a razão para continuar o conflito.  Relatou  que um número crescente acredita, convictamente,  que chegou o momento para um cessar-fogo, mesmo que isso signifique cooperar com o regime de Assad.

“Afinal de contas, Bashar não é tão ruim assim”, disse Salabeh.

Karim Jamal Sobeihi, um refugiado do sul da Síria e que se descreve como simpatizante  ESL, disse que o principal problema da oposição foi o fato de que vários grupos deviam sua lealdade à governos estrangeiros,  fornecedores de dinheiro, portanto, os rebeldes não podem concordar com posições unificadas. Isto incluiu o ESL, que se consiste de muitas facções diferentes, afirmou. Isso fez com que os radicais – com sua ideologia islamita e raia independente – mais atraentes para aqueles dispostos a lutar contra o regime, finalizou. “Existe desunião total. A Síria tornou-se um campo de batalha para a América, Rússia, Turquia, Arábia Saudita e outros países. Terroristas de todos os tipos “, exclamou Sobeihi.

Analistas na Jordânia e no Líbano, lugares que abrigam um grande número de refugiados sírios, culparam o ESL, por permitir que a revolução que eclodiu no início de 2011, tenha sido tomada por grupos jihadistas radicais. Hisham Jaber, analista geral e militar libanês aposentado, afirmou que o foco internacional na luta contra o Estado islâmico, invés de derrubar Assad,  indica que o Ocidente e os  seus aliados árabes reconhecem que Assad não pode ser derrubado militarmente, especialmente após a intervenção russa em nome do presidente sírio  Isto, por sua vez, desmoraliza as tropas do ESL, relatou Jaber ao Stars & Stripes durante uma entrevista em Beirute. Ele disse unidades dp ESL, tanto no norte, como no sul, estavam a cooperar de forma estreita com a Frente Al-Nusra, muito melhor organizada e dotada de financiamento mais robusto, independentemente das suas conexões com a Al-Qaeda. “Em contraste, a Frente Al-Nusra ganha os corações e as mentes das pessoas, posicionando-se como moderados, isto, apesar de suas ligações com a Al-Qaeda”, disse Elias Hanna, um ex-professor libanês geral e de geopolítica da Universidade Americana de Beirute.

 

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Um comentário sobre “Washington, Bagdá, em diferentes páginas na luta contra o Estado Islâmico

  1. Quando o mais organizado paga melhor e cuida melhor, atrai muito mais e tende a nivelar-se superiormente, atingindo também melhores níveis de inteligência e negociações. Os aspectos positivos corroboram entre si.

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