A Turquia como peão

Por: César A. Ferreira

Como qualquer jogador de xadrez bem sabe os peões possuem uma finalidade básica, ocupar o espaço e a partir da posição, dificultar, obstruir, enfim, obstacularizar o livre movimento de peças do oponente. O peão não é a mais nobre das peças, mas é a mais numerosa e normalmente é a escolha natural para abertura de uma partida. Ora, ora, as recentes movimentações da Turquia a coloca como um peão, movimentado por Washington, para criar dificuldades em campo contra Damasco e Moscou.

Digo que Ancara está sendo uma peça no jogo, pelo fato de que as ações turcas se encaixarem perfeitamente naquela que é sabidamente a estratégia maior dos EUA; hostilizar a Rússia. Desta maneira, as recentes invasões do território sírio e iraquiano, a primeira nos arredores do povoado de Tal Zyab, e a segunda mais profunda, na cidade de Mosul, revelam que sequer espaço para alcunhar as relações da Turquia, como por extensão da chamada “Coalizão Ocidental”, ou seja, a OTAN, como hipócritas já não é mais possível, dado que os atos da Turquia visam proteger os acessos ao tráfego de armas e petróleo (Tal Zyab, Síria), bem como a produção do mesmo (Mosul, Iraque) por parte do Estado Islâmico, tornaram-se absurdamente claros, cristalinos. A Turquia e por assim dizer, a OTAN, são aliados do Estado Islâmico. Nem mais, nem menos.

Putin é um jogador frio e fez na Síria uma jogada ousada. Os efetivos russos na Síria são pequenos, limitados. Assim se constituíram por saberem os russos que um efetivo amplo alocado no território sírio poderia de imediato a provocar hostilidades ainda maiores do que as que agora observamos. Desta maneira, conseguiu costurar um pequeno consenso, um acordo de cavalheiros, com os demais ocupantes do espaço aéreo sírio, notadamente Israel e os EUA. O incidente que envolveu o abate da aeronave de ataque Su-24M (indicativo 83), desencadeou o processo de desgaste da posição russa por parte dos EUA e da OTAN, forçando aos russos um necessário aumento dos efetivos, ampliação das suas ações, com os custos concernentes, visando acelerar o processo, dado a posição exposta dos seus efetivos, cercados de pretensos inimigos por todos os lados (Turquia e Israel). Ademais, a manutenção dos efetivos eslavos na Síria possui o fantasma logístico dos estreitos (Dardanelos, Bósforo), em posse dos turcos, um gargalo geopolítico difícil de engolir, para os russos, há séculos.

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Carros de Combate do exército turco (M-60 A3) em posição para avanço sobre território sírio. Foto: internet.

Percebe-se que o brilhantismo dos movimentos de Putin, tal como o timming para a intervenção, bem como pela campanha de lançamento de mísseis de cruzeiro e de bombardeio contra o EI em conjuntos com a Armée De L’air – AdlA, acabou por sofrer uma reação discreta, mas vigorosa de Washington, tanto, que o Porta Aviões francês, Charles de Gaulle, deverá mudar a sua área de atuação, saindo da costa síria, ou seja do Mediterrâneo, para o Golfo Pérsico. Convenhamos, esperar dos franceses uma posição independente é muito, pois com Hollande como dignitário a França abandonou completamente as antigas aspirações globais, bem como o decantado orgulho gaulês.

Todavia, como um jogador de peças pretas, Putin reage aos acontecimentos com movimentos comedidos, muito calculados. Se por um lado criou obstáculos a entrada de produtos turcos no mercado russo, e recomenda aos seus cidadãos que evitem viagens à Turquia, afetando o turismo, não suspende o envio de gás e o contrato da Rosaton para a construção da primeira central nuclear turca sequer é citado. Ao mesmo tempo, envia 5 toneladas de armas para os curdos filiados ao YPG. Pode não parecer muito, mas é apenas a primeira entrega, ademais, para uma força irregular de infantaria, 5 toneladas em armas e munições faz uma grande diferença. O lado turco protestou como era esperado, pois YPG é a sigla que no mudar de fronteira ganha a alcunha de PKK. Como último movimento,  como um ás guardado na manga, Putin mantém a possibilidade de uma extensa participação iraniana no conflito. Até o momento o engajamento persa foi seletivo, com o envio de efetivos selecionados da Força Quds, da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, nominalmente presentes como instrutores. Tal presença pode aumentar em breve com efetivos aéreos da IRIAF a serem alocados na base aérea de Shaairat. Caso isso se concretize será certamente um grande lance.

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Combatentes curdas do YPG/PKK. Foto: internet.

A presença e o peso do Irã nos leva a outro jogador, Israel. Ao contrário da imagem geral Israel não é um expectador passivo da guerra civil síria, pelo contrário, elementos da Hel HaAvir (força aérea israelita) atacam com regularidade as tropas governamentais em proteção as unidades da Al-Nusra na franja da fronteira do Golan. Com constância realiza incursões aéreas na estrada que liga Damasco ao sul do Líbano, área de influência do Hezzbolah, e não contente, oferece atendimento médico/hospitalar aos membros combatentes do Estado Islâmico e da Al-Nusra. Isto, diga-se, foi flagrado pela jornalista do veículo News Corp., Sharri Markson, sendo a unidade hospitalar onde os jihadistas são tratados nada mais que o conceituadíssimo Ziv Medical Center, localizado em Zefat, norte de Israel, especializado em traumatologia de guerra.  A jornalista entrevistou vários destes pacientes, os quais ela contabiliza como 500 presentes no hospital, onde pôde constatar que eram provenientes da guerra civil síria. Pode parecer estranho para alguns, mas é fato largamente aceito que Israel tornou-se um aliado da Casa de Saud, o que explica a retórica intensa e belicosa contra os persas. Desta forma, configura-se uma linha de reação entre a Casa de Saud e das monarquias do golfo, aliadas de Israel e da Turquia, contra o eixo xiita, Irã, Iraque e Síria.

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Ziv Medical Center (Centro Médico Ziv). Hospital especializado em traumatologia de guerra. Foto: internet.

Para contrabalançar, ou melhor, ganhar tempo para impor uma situação favorável ao regime de Assad, Putin utiliza-se da mídia, dado o fato de que a cada momento que se passa, as relações entre o ocidente e as forças insurgentes serem expostas à luz, como uma relação de colaboração e convergência de interesses. Com isto, aposta o líder russo, não sem razão, que a sua posição é inatacável, bastando para tanto não ceder às tentações e provocações que lhe são impostas pela OTAN. Os curdos, cuja combatividade impressiona os eslavos, é a nova aposta no solo por parte do Kremlin. Uma aposta que por se mostrar efetiva, obrigou o movimento turco em Tal Zyab e Mosul.

O grande problema para Putin, todavia, é o desespero da Turquia. Os turcos alimentam ambições gigantescas, de influir não só no mundo árabe, como na Ásia Central. Uma jogada alta demais, pois para tanto deverá forçosamente enfrentar a Rússia, potência nuclear, com interesses específicos nesta mesma área, Ásia Central, e dotada de uma economia um tanto maior. Isto, fácil de perceber, é um movimento impossível para um peão, talvez o fosse para outra peça, mas, ao contrário de Israel que por vezes se move com ousadia, como se fosse um cavalo, ou mesmo dos sauditas que manipulam a religiosidade ao financiar jihad pelo mundo através do proselitismo wahabita, como se fossem um bispo, a Turquia optou pelo jogo mesquinho de obstruir grandes jogadores, ou seja, por ser um peão. Os peões, como sabemos, causam grandes dores de cabeça, podem até serem decisivos, mas via de regra acabam removidos do tabuleiro.

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